Celso Ming, Estadão.com
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, teve o mérito de mudar a percepção do mercado global quando, em setembro, qualificou a atual fase da crise como “guerra cambial” travada entre Estados Unidos e China.
Trata-se do processo por meio do qual os maiores países do mundo se põem a desvalorizar obsessivamente suas moedas (o dólar e o yuan) ou, no caso da China, a intervir nos mercados para dificultar o afluxo de capitais. Isto é, tentam compensar com moeda nacional barata a perda de competitividade dos seus setores produtivos. Mas, aparentemente, Mantega segue não tendo toda a visão do conjunto.
O Brasil não está sendo vítima de uma guerra cambial bilateral, como quinta-feira Mantega avisou. O processo é unilateral. São os Estados Unidos que estão manobrando para empurrar para o resto do mundo a maior parte da conta da crise. A China só está se defendendo melhor do que as outras economias porque tem uma poupança de 52% do PIB e continua em condições de comprar, sem inflacionar a economia, toda moeda estrangeira excedente que chega aos seus bancos. É claro, se a China tem barragens melhores, boa parte da inundação de dólares acaba vazando para outras casas.
Mantega avisa, ainda, que a roupa suja será lavada na reunião de cúpula de chefes de Estado do G-20, a ser realizada nos dias 11 e 12, em Seul. Se a expectativa do ministro é a de que lá será encontrada a solução, a probabilidade de frustração é enorme.
Em Seul, os maiorais dos Estados Unidos ouvirão as reclamações da vizinhança, tentarão repassar ao governo chinês a culpa pela falta de qualidade do ajuste e voltarão para casa sem mudar sua disposição de descarregar mais US$ 600 bilhões nos mercados. Afora isso, não descartarão o projeto de redobrar a dose se a medida que acaba de ser aviada não for suficiente para reativar a caldeira da locomotiva.
O Banco Central do Brasil prossegue nas suas operações de compra de moeda estrangeira. As reservas externas, compostas de ativos em dólares que se desvalorizam todos os dias, se avizinham dos US$ 300 bilhões. Se tudo continuar como está, irão rapidamente a meio trilhão e aumentarão a sangria do País com um custo anual extra que já vai para US$ 30 bilhões.
Afora isso, o Ministério da Fazenda segue nas suas manobras de esperneio, com aumento do pedágio (IOF) na entrada de capitais e aviso de que vem mais. Embora não se saiba o que estaria acontecendo se essas providências não tivessem sido tomadas, o resultado prático desse tipo de operação tapa-sol-com-peneira é desprezível. Em outubro, quando já se completara a megacapitalização da Petrobrás e estando em plena vigência a cobrança de IOF, a entrada líquida de moeda estrangeira saltou para quase US$ 7 bilhões.
Há quem defenda o aumento do IOF também sobre a entrada de recursos destinados ao mercado de ações. Seria uma providência que exportaria para a Bolsa de Nova York uma boa fatia dos negócios realizados em São Paulo, com a agravante de que prejudicaria as empresas que não negociam ações no exterior.
O governo pode esgotar seu arsenal de recursos contra a entrada de dólares, mas permanecerá quase na estaca zero se não agir na direção certa. E as únicas coisas a fazer são: derrubar o custo Brasil, que tira competitividade das empresa; e reforçar as finanças públicas para afundar os juros, desestimulando assim a entrada de capitais que vêm para cá para tirar proveito dos juros superatraentes.