Adelson Elias Vasconcellos
O BC fez uma declaração hoje preocupante: a de que a Inflação é resistente, pode não ser temporária e exige cautela. Porém, a política de crédito do governo Dilma vai na contramão deste alerta.
Durante muitos anos, o PT foi refratário a ceder à iniciativa privada concessões no setor de infraestrutura. O quanto isto custo em prejuízos à atividade econômica, é algo imensurável. O governo petista pode dourar a pílula o quanto quiser, porém os pacotes de concessões lançados no governo Dilma foram por ele demonizados quando FHC tomou a mesma iniciativa, e se constituiu em poderoso de desqualificação ao PSDB durante as campanhas eleitorais vitoriosas tanto de Lula quanto da própria Dilma. Dá para medir que esta ideologia do atraso representou pelo menos 10 anos de atraso no nosso desenvolvimento.
Dilma, prometeu na campanha que a elegeu, baixar os juros. De fato, o ambiente para esta redução já era favorável ao tempo do segundo mandato de Lula. Porém, teve medo de fazê-lo assustado com a volta da inflação. Além disto, os ganhos dos banqueiros eram fabulosos e todos estavam delirando e aplaudindo aquele que um dia os jurou de morte.
Porém, conforme se disse aqui muitas vezes, a economia de um país, com os contrastes e diversidades brasileiras, não pode ser feito a toque de caixa. Se os devidos cuidados não foram tomados corre-se o risco de desarrumar todo o quadro econômico do país.
Faz tempo que o Brasil tem fechado com índices inflacionários fora do centro da meta fixada pelo Banco Central. Como os juros altos atraíram bilhões de dólares para o sistema financeiro, portanto, especulativo tão somente, durante anos o real sobrevalorizou-se demasiadamente. E isto fez um estrago tremendo a indústria nacional. Também neste aspecto, o governo petista demorou em acordar. E o que é pior: criou um ambiente de consumo acima da capacidade interna de oferta. O excesso de oferta acabou atendido por importados. Pouco a pouco, nossos saldos comerciais externos foram sendo reduzidos, com a industria brasileira cada vez perdendo peso no PIB. Não fossem as comodities agrícolas e minerais das quais temos excelência para exibir ao mundo, e nossas contas externas estariam em pior estado.
Hás algum tempo vem se recomendando cautela no incentivo ao consumo. E, justiça se faça, ministro da Fazenda ao tempo de Lula, chegou mesmo a recomendar que precisaríamos frear este excesso de demanda, sendo desmentido e desautorizado por Lula dias depois, que mandava consumir ao máximo. Para tanto, dado que a renda nacional ainda é baixa, ampliou-se a oferta de crédito ao máximo para se permitir que os brasileiros consumissem sem freios. Contudo, tanto o crédito ofertado quanto a renda capaz de atender esta oferta, tinham lá suas limitações, a tal ponto que se notou alguns freios de arrumação quando a inadimplência em 2012 atingiu níveis perigosos.
Ora, na raiz esta inflação esparramada pela economia, há três fatores que o governo Dilma faz questão de ao enxergar: excesso de oferta de crédito, excesso de consumo motivado por importados e desonerações, e excesso de gastos públicos que, aliás, cresce acima da inflação e até do PIB desde 2003. Se o governo insistir em se manter cego para estes três pontos, por mais desonerações que pratique, isto ao invés de conter a alta de preços, incentiva ainda mais o consumo que gera alta de preços. De outro lado, a equipe econômica não encontrou o caminho das pedras que é a alta fora do prumo dos serviços.
Se o governo elevar os juros, cortasse o excesso de seus próprios gastos e freasse um pouco a oferta de crédito, isto seria suficiente para frear os preços de bens e serviços.
Claro, o governo entende que, em tempos de PIB fraco, tais medidas conteriam o consumo mas freariam ainda mais o crescimento. Para um país com renda relativamente baixa, apostar todas as fichas apenas no consumo para impulsionar o crescimento da economia, é um erro elementar.
Daí que o pacote de infraestrutura além do atraso colossal com que se chega para a iniciativa privada, traz em seu bojo critérios e regras de duvidosa eficácia. E isto acontece pelo preconceito ainda presente no governo petista contra o capital privado.
Quando o governo anunciou o desconto na contas de energia – já nem entro nos critérios como o desconto foi proposto -, se de um lado, ele teve um peso imediato na inflação, isto porém favorece que haja maior consumo. Ao anunciar desoneração da cesta básica, também está favorecendo o consumo, além de que seja duvidosa que a desoneração vá regular os preços dos alimentos. Pela simples razão de que os preços são regulados pela lei de mercado: oferta e procura. Basta excesso de chuva ou estiagem, que provoquem perdas na produção de alimentos e a desoneração resultando em benefício zero.
Claro que Dilma está mirando sua própria reeleição em 2014. Porque se o objetivo fosse tomar iniciativas para corrigir as distorções de nossa economia, não titubearia em promover a aplicação daqueles três fatores que acima mencionamos.
Da mesma forma, não fosse tão cheia de preconceitos, e certamente, o tal Plano de Concessões apresentaria regras claras garantidoras de um excelente ambiente de negócios capazes de realmente atrair investimentos maciços numa área tão estratégia quanto imprescindível ao nosso desenvolvimento. Em consequência, estaria abrindo para pesados investimentos em tecnologia, inovação e aumento de produtividade na indústria, único caminho de elevar consideravelmente a renda, a oferta e a queda nos preços.
Vejam como tudo é entrelaçado, interdependente. Ações improvisadas e isoladas acabam se anulando e desarranjando ainda mais a economia do país. Como o governo petista antecipou em um ano e meio a campanha à sucessão presidencial, o que nos conduz é o espírito do diabo. Infelizmente, neste caso, é o interesse do país que fica em segundo plano.
É fácil constatar o quanto o governo está cego em relação ao problema da inflação foi o anúncio ela Caixa de ofertará em 2013, 130 bilhões em crédito para pessoas físicas. Com a indústria em baixa, a única forma de atender toda a demanda decorrente serão os importados. Para isso, precisará manipular o câmbio, e quem pagará o pato da farra serão as indústrias brasileiras, num primeiro momento, e depois os próprios consumidores com preços ainda mais elevados.
Decisão incoerente
Nesta semana, o governo federal comunicou que poderá rever as metas de conteúdo nacional impostas ao setor petrolífero. Como dissemos, parece que o governo Dilma caiu na real. Porém, surpreendentemente, horas depois, se anuncia que este mesmo governo pretende impor cota de trilho nacional para as concessões de novas ferrovias. Ora, se estava difícil encontrar interessados em aderir ao programa de concessões de ferrovias com o pacote editado pelo governo, imaginem agora com esta imposição. O que o governo precisa fazer, se realmente está interessado em tornar atrativas as indústrias de trilhos, é criar-lhes ambiente adequado e compatível com o que dispõe as empresas estrangeiras. E isto não se faz com créditos “especiais” e, sim, com redução de carga tributária, menor burocracia, melhor infraestrutura, maior segurança jurídica, etc., etc., etc..
A mesma constatação feita no setor petrolífero, continua a valor a valer para o setor ferroviário. Não impondo cotas que os investidores se sentirão atraídos em investir por aqui. Pelo contrário: o governo, com tal medida, está é espantando-os.
Ser contra a MP dos Portos é ser contra o Brasil
Tenho procurado manter-me à distância de comentários sobre a MP dos Portos por uma razão: seu texto final está em mesa de negociação. Na verdade, o texto original até que poderia ter avançado mais e ter acabado com o cartório imoral e primitivo que impera sobre os trabalhadores dos portos brasileiros. Pode-se afirmar, com toda a tranquilidade: apesar da escravidão já ter sido extinta, no caso dos estivadores, eles como se tornaram propriedades de uma verdadeira máfia – os sindicatos - que os controla com mão de ferro. Claro, que há partidecos políticos que alimenta esta escravidão canalha.
Porém, o próprio governo acena com algumas flexibilizações que podem tornar a MP dos Portos, cujo objetivo é a modernidade, dotando os portos brasileiros de uma eficiência que nunca tiveram, removendo este câncer que atrasa o país. Espero que o governo, neste caso, não desvirtue aquilo que concebeu. E que os trabalhadores sejam, efetivamente, livres.
É preciso entender uma coisa: se o porto é privado, por que raios o trabalho tem que ser imposto por sindicato das cavernas?
Que o país não jogue fora a oportunidade de avançar para o século 21. O tempo da escravidão e das trevas morreu no século 19, coisa que os escravocratas sindicais ainda não perceberam, sequer os partidecos de araque que os apoiam.
O empresário Jorge Gerdau, em entrevista à Folha, analisando o governo Dilma, afirmou categoricamente, que estamos no limite da burrice. Perdão, senhor Gerdau, mas neste ponto este governo já enfiou as quatro patas não só na burrice mas também na irresponsabilidade. No caso da MP dos Portos vamos ver o texto que sairá deste jogo de loucos. Mas tenho tudo para crer que, para ajoelhar-se aos sindicatos e partidos envoltos neste ranço, Dilma periga tornar o texto final num monstrengo inútil.