sexta-feira, março 15, 2013

O diabo já subiu no palanque


Adelson Elias Vasconcellos

Talvez um dos grandes defeitos da presidente e, de resto, da imensa maioria dos políticos brasileiros, é achar que no Brasil somos todos desmemoriados. Aquilo que hoje é escândalo, daqui seis meses ninguém mais fala nada, e o tema cai no vazio do esquecimento. Contudo, nem todos tem memória curta e, tampouco,  podem ser taxados de idiotas. 

Tal consideração vem a propósito do anúncio feito pela soberana da desoneração dos impostos federais incidentes sobre os produtos da cesta básica. Anunciado em cadeia nacional, a “bondade” veio embutida no discurso comemorativo ao Dia Internacional da Mulher.  Dada a sua importância na sociedade brasileira, creio que as mulheres mereciam um pouco  mais de respeito e de honestidade por parte de dona Dilma
.
Sabem  por quê? Leiam o trecho abaixo: 

“...A justificativa apresentada por Oliveira para o veto, na realidade, é apenas fumaça para encobrir o real motivo. Ocorre que a proposta tinha origem na oposição, e poderia por ela ser usada em campanha. Pegaria mal na propaganda oficial mentirosa se gabar com projeto alheio, não é mesmo, soberana imperial? O País que se dane, o importante é agir de forma eleitoreira, SEM-PRE!!!

Assim, partindo a “ideia” como agora se falsifica, em ser ou parecer ser projeto do governo da soberana, Dilma capitalizará, se a proposta acabar aprovada, como “projeto do governo”, quando na verdade se trata apenas do modo petista de chupar projeto alheio e vender na praça como sendo seu. 

 Aliás, a tal comissão inventada por Dilma é apenas uma perfumaria para este este fato. Bastaria convocar alguém de seu ministério e pedir-lhe copia da cesta básica do DIEESE, ou até solicitar ao IBGE. Mas, como sempre, é preciso dourar a pílula do ”me engana que eu gosto”!!!!...”

O comentário acima foi feito no dia 21 de setembro de 2012, a partir do anúncio, naquela data,  feito pela presidente,  de que se  preparava um estudo para desonerar a cesta básica. E aí o truque: três dias antes deste anúncio fabuloso, a presidente vetara  parte da MP 563, do Plano Brasil Maior, cujo texto final aprovado pelo Congresso e convertido na Lei 12.715, desoneraria do pagamento de Programa de Integração Social (PIS), Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI), os alimentos que compõem a cesta básica, entre diversos outros produtos.

Se o leitor desejar conhecer os antecedentes da cretinice que agora sobe o palanque, pode clicar aqui para acessar o texto postado sobre o tema, com o título “Dilma vai desonerar cesta básica. É mesmo, e por que não fez quando teve chance?”.

Bem, a gente conhece bem as “razões” que fizeram Dilma num dia vetar a desoneração, para três dias depois, anunciar com a maior cara de pau (para não se dizer coisa pior e talvez até mais apropriada), que o governo estava “estudando” a mesma desoneração que ela vetara. Ocorre que a pirataria no texto da MP foi feita pela oposição. Não, a oposição não fez estardalhaço disto, quis apenas tornar o Programa Brasil Maior um pouco melhor, desonerando artigos de primeira necessidade em favor dos mais pobres, diante da inflação alta que se sentia então. Só não contava com o caráter mesquinho e menor do espírito “público” de uma presidente petista que, a exemplo dos 10 anos no poder, continuou sua velha estratégia de chupa cabras, com direito a pose para as fotos e as manchetes entre sorrisos para galera.  

Fica fácil para esta gente depois afirmar, de forma inescrupulosa, que não receberam nenhuma herança bendita, que toda a construção da nossa estabilidade econômica e social foi construída pela dupla Lula/Dilma.

Como já se disse, caráter todos tem, apenas que uns são bons, e outros são péssimos. Assim, seis meses antes do discurso feito hoje, em homenagem às mulheres, projetamos aqui que a canalhice subiria no palanque. Em matéria de cretinice explícita, sempre podemos apostar que o PT há de se superar. Neste campo imoral, eles são mesmos muito previsíveis e imbatíveis.

Interessante notar o silêncio cúmplice agora do senhor Paulo Skaff, presidente da Fiesp. Em 18 de setembro passado, quando foram anunciados os vetos, ele criticou a decisão. Pouco tempo depois, repentinamente, o senhor Skaff se alinhou com o governo em defesa do pacote elétrico que, se acertava na redução da tarifa elétrica, errava, e feio, pelo caminho escolhido,  reduzindo substancialmente a rentabilidade das empresas do setor, ao invés de desonerar as mesmas tarifas, sobre as quais incidiam quase 50% de impostos e encargos. Tanto é assim que agora o mesmo governo glutão anuncia socorro do Tesouro para cobrir as perdas das empresas. 

Porém, o senhor Skaff pagou campanha publicitária apoiando o pacote e esquecendo que está à frente de uma entidade representativa dos empresários privados e não dos interesses eleitoreiros da governante. E poderia agora, até por coerência, criticar a postura  pouco recomendável do governo Dilma em anunciar como seu um benefício que ela própria vetou seis meses atrás, apenas por ser de iniciativa de parlamentares da oposição. Vale, ainda,  lembrar ao senhor Paulo Skaff,  o que na época ele mesmo afirmou: “O governo deixa de dar o exemplo aos estados, ao não desonerar os tributos que dependem exclusivamente do ato do Executivo Federal”. Sobre a crítica do Skaff, o leitor poderá recordar a matéria da Exame.com clicando aqui.

Na escola de pessoas sérias e honestas, esta ação de Dilma tem nome, e o mais suave deles é vigarice.