sexta-feira, março 15, 2013

O legado negativo


Adelson Elias Vasconcellos

O Estádio Itaquerão, e não é de hoje, está ameaçado de ter suas obras interrompidas em razão de que os recursos do BNDES ainda não foram liberados.  Sempre eu alguma coisa começa mal, não termina bem. É o caso. Houve enorme movimento por trás dos panos para que o estádio do Morumbi fosse descartado para sediar a abertura da Copa do mundo em 2014. O que apareceu de exigências de última hora foi impressionante.  Tanto se fez que o Corinthians acabou beneficiado por receber um estádio novo, o que aliás, na época já se denunciava que este será o desfecho final da novela.

Agora, vejam a foto abaixo.



A primeira foto. mostra o Maracanã inundado após as chuvas torrenciais no Rio semana passada. Ganhou apelido até: piscinão do Maracanã. Na segunda, temos o estádio seco e com grama. A questão nem foi tanto a inundação, e sim o aspecto  geral de uma obra que, juram, deverá ser entregue em 27 de abril, ou seja, daqui pouco mais de um mês e meio.  Reparem: a cobertura sequer atingiu um estágio de 50%. As cadeiras não foram colocadas. A visão geral de toda a obra não garante que o prazo de entrega será cumprido. E se for, será apenas um arremedo, com muita coisa ainda por ser concluída.

Em Cuiabá, uma das 3 maravilhas a se consagrarem como  elefantes-brancos, pela segunda vez, uma das construtoras participantes do consórcio de construção do novo estádio, acaba de se retirar. Muito embora sua conclusão esteja prevista para o final deste ano, o atraso que já era imenso, tende agora a se agravar ainda mais.

Manaus e Natal também correm contra o calendário. E, em todos os estádios, um dos problemas que será comum a todos: as obras de entorno dos estádios estão ficando em segundo plano. Sem falar nas questões mal resolvidas de aeroportos e obras de mobilidade urbana. A questão hoteleira, já se sabe, será insuficiente e os preços elevadíssimos. 

Também a rede 4-G, conforme já informamos aqui, além de não estar totalmente implementada, não terá tempo suficiente para ser testada e corrigida eventuais falhas que possa apresentar. 

Mas há outra dor de cabeça que, somente de dois meses para cá, começou a entrar na agenda de problemas a serem atacados: a instabilidade do setor elétrico. Reportagem do jornal O Globo desta segunda feira, informa que são mais de 2 mil falhas anuais, o que demonstra que o setor não é a belezura toda cantada em prosa e verso pela dona Dilma.

Lá atrás, logo após o anúncio, em um dos muitos comentários que apresentamos,  centramos nossas críticas em vários aspectos que sediar uma Copa do Mundo poderiam representar para o Brasil. Mas ressalvávamos que os estádios estariam prontos em tempo hábil. E, há menos de 3 meses para a Copa das Confederações, até o histórico Maracanã corre o risco de ser entregue incompleto, o que, convenhamos, seria vergonhoso. 

Algum tempo depois, passada a euforia do anúncio, o que se viu foi um nada vezes nada. Não havia movimento algum com o objetivo de capacitar o país, ou pelo menos as cidades que sediariam os jogos da Copa. Uma das principais iniciativas, os marcos regulatórios para rodovias, ferrovias, portos e aeroportos somente foram apresentados em 2012, e até agora todos dependem ou de revisões/adaptações ou mesmo de aprovação para efetivamente se tornar atraentes ao capital privado. Como já se concluiu que muitas obras que sequer saíram do papel não ficariam prontas até as Copas,  muitas foram retiradas do projeto original apresentado ao comitê da FIFA. Outras, serão concluídas durante a Copa e algumas após o encerramento da partida final. 

Ora, então fica a pergunta: se era para fazer este papelão, desmoralizar o Brasil junto à comunidade internacional, apresentar remendos e puxadinhos num projeto que, no papel era monumental, e  que na prática, porém, é escandalosamente mala resolvido,  a troco do que o país foi jogado nesta aventura estúpida?  Apenas para o leitor ter um ideia, há estádios que levarão maias de 20 anos para suas dívidas com a construção serem pagas, se é que algum isto de fato acontecerá!!!

O TCU está cheio de relatórios apontando irregularidades e superfaturamento em praticamente tudo o que está erguido. E nem vamos aqui entrar no mérito de desperdício que este, então, é monumental. Isto, num país em que metade de sua população sequer pode contar com um sistema de saneamento básico elementar!!!

A cada que passa, mais visível fica o momento inapropriado que o Brasil escolheu para bancar o anfitrião de eventos desta magnitude. Voltamos aqui a lembrar das inúmeras que sugerimos que o melhor seria, já que a escolha estava feita, reduzir o número de sedes para dar melhor administração de recursos e reduzir o número de obras necessárias e, por consequência, diminuir custos e impactos.

Semana passada, mostramos o quão doloroso, e pouco comentado, impacto social que as inúmeras desapropriações vêm causando a milhares de famílias. Assim, juntando tudo,  fica claro que o Brasil tentou mostrar ao mundo, um país que ainda não somos,  uma capacidade que ainda não temos e uma seriedade e responsabilidade como país desenvolvido que ainda estamos muito distantes de alcançar. 

Deseja-se, apenas, que tenhamos aprendido a lição: a natureza não dá saltos. Nada acontece de repente, e um país desenvolvido não se constrói apenas com discursos, frases de efeito e espirituosas. É preciso trabalho, muito trabalho sério e honesto, seguindo a ordem natural de tudo. Ninguém atinge o topo da escada saltando de trampolim, mas subindo degrau por degrau. 

E o que é pior: sediaremos um Mundial sem que tenhamos uma seleção suficientemente preparada para vencê-la, a menos que uma verdadeira  conjugação de fatores estelares conspirem a nosso favor.  Está na hora de nos preocuparmos com o legado negativo – e ele é imenso - que a Copa nos deixará. Mas, principalmente, o quanto precisamos avançar em conquistas e realizações para nos exibirmos com competência perante o mundo.