quinta-feira, maio 31, 2018

Aposta no caos

Editorial
O Estado de S.Paulo

O sucesso da greve dos caminhoneiros, que colocou o governo de joelhos, inspirou os oportunistas de sempre a tentar capitalizar e, quem sabe, ampliar a insatisfação popular. É o caso da Federação Única dos Petroleiros

O estrondoso sucesso da greve dos caminhoneiros – que viram atendidas todas as suas reivindicações e colocaram o governo de joelhos, arrancando urras de parte considerável da população – inspirou os oportunistas de sempre a tentar capitalizar e, quem sabe, ampliar a insatisfação popular. 

É o caso, por exemplo, da Federação Única dos Petroleiros (FUP), sindicato petista que decidiu deflagrar “a maior greve da história da Petrobrás” para protestar contra “os preços abusivos dos combustíveis” e “contra o desmonte da empresa que é estratégica para a nação” – razão pela qual exige a demissão do presidente da estatal, Pedro Parente.

Felizmente, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) declarou a greve ilegal, estipulando multa diária de R$ 500 mil em caso de descumprimento. Em sua decisão, a ministra do TST Maria de Assis Calsing disse que se trata, “a toda evidência, de greve de caráter político”. Com razão, a magistrada considerou que a pauta dos grevistas representa “forte ingerência no poder diretivo da Petrobrás” e também “em ações próprias de políticas públicas, que afetam todo o País e cuja solução não pode ser resolvida por pressão de uma categoria profissional”. Além disso, escreveu ela, uma greve de petroleiros neste momento provocaria enormes prejuízos à população, especialmente “por resultar na continuidade dos efeitos danosos causados com a paralisação dos caminhoneiros”. E Maria de Assis Calsing arrematou: “Beira o oportunismo a greve anunciada”.

Os oportunistas em questão, é claro, não se fizeram de rogados. “Consideramos inconstitucional (a decisão do TST). A Constituição nos garante decidir quais interesses devemos proteger com a greve”, disse um porta-voz da FUP. A pilantragem hermenêutica apenas confirma o caráter totalmente mendaz desse e de outros movimentos feitos exclusivamente para explorar o apoio popular obtido pela greve dos caminhoneiros.

Esses movimentos pretendem ampliar a já crescente hostilidade ao governo do presidente Michel Temer, transformado pelos jacobinos da luta anticorrupção e por aproveitadores em geral em símbolo de um país carcomido pela corrupção e pelos privilégios a minorias bem articuladas.

Ora, não é preciso morrer de amores por Temer para ver aí um evidente exagero, pois o presidente herdou um país esfrangalhado pela criminosa irresponsabilidade lulopetista e, em pouco tempo, restabeleceu um mínimo de racionalidade fiscal, disso resultando a queda da inflação e dos juros e a retomada do crescimento. No entanto, nada do que esse governo faz, mesmo seus acertos mais evidentes, parece digno de crédito, pois, conforme indicam as pesquisas e a julgar pelo apoio popular aos caminhoneiros, Temer passou a ser um exemplo de governo desastroso.

Esse discurso ressuscitou o que deveria estar morto, isto é, o embuste lulopetista, segundo o qual o País era uma maravilha nos tempos de Lula da Silva e Dilma Rousseff – inclusive com combustível barato, subsidiado. A nostalgia daqueles tempos “dourados” ignora, por exemplo, que a política de subsídios tende a concentrar renda nos grupos organizados da sociedade, restando à maioria desorganizada e pobre arcar com o custo.

Aliás, é preciso lembrar que a crise dos caminhoneiros tem sua origem não só na ilusão do diesel barato, mas também na farra petista do crédito farto, que estimulou muitos a comprar caminhões, inflando assim a oferta do serviço de transporte, o que baixou o preço do frete. Quando veio a crise, a demanda pelo serviço caiu, deixando muitos caminhoneiros endividados e sem trabalho. A racionalização do preço dos combustíveis, para sanear a Petrobrás destruída pelos petistas – os mesmos que ora organizam uma greve para “defender” a estatal –, completou o quadro.

A política de austeridade e as reformas de Temer nada têm a ver com essa crise. São, ao contrário, sua solução, nunca sua causa. Mas é mais fácil acreditar nas patranhas lulopetistas ou, pior, defender a volta dos militares ao poder, do que aceitar a dura realidade de que o Estado não é senão administrador de recursos escassos.

Equívocos, danos e uma boa proposta

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Dizer que subsídio não tem custo é abrir caminho para práticas que tiram do mais pobre para entregar a quem não precisa

O governador de São Paulo, Márcio França, candidato à reeleição, propôs o tabelamento do preço do diesel (reduzido) e dos fretes (aumentado). Os governos já tabelaram muita coisa no Brasil — e o resultado foi sempre o mesmo: mercado paralelo, escassez e preços em alta. No caso, além desse precedente, há o fator Petrobras: a empresa não seria obrigada a operar no vermelho?

O governador respondeu: “Não dá para uma empresa brasileira, que também pertence aos brasileiros, querer pensar em dólar”.

Parece fazer sentido, mas é um equívoco enorme. Não se trata de “querer pensar”. O fato é que a Petrobras compra em dólar, vende em dólar, toma empréstimo e recebe investimentos em dólar. Não porque queira. Mas porque não tem como fazer isso tudo apenas em reais.

Na verdade, o governador apenas seguiu ideias, quer dizer, a opinião rala de que políticas “justas” não têm custo. E, no entanto, é claro: se a estatal tem prejuízo vendendo para alguns brasileiros, a conta vai acabar no bolso de outros brasileiros.

Assim como ocorre com o esquema de preços do diesel, o esquema negociado. Serão reduzidos os impostos sobre o óleo diesel, e o governo federal vai subsidiar o combustível, ou seja, vai pagar parte do preço. Portanto, o governo, que está operando com déficit, vai arrecadar menos dinheiro e ter uma despesa a mais.

Vai daí que só tem duas possibilidades. Ou cobra impostos de outros setores ou gasta menos em obras e serviços que atendem outras pessoas.

Não pode aumentar impostos — reagem líderes políticos, assim respondendo a bronca de muita gente. O governo admite, e ministros garantem que não haverá aumento de impostos, mas redução de incentivos.

Incentivo, no caso, significa simplesmente o seguinte: o setor beneficiado paga menos imposto. Retirado ou reduzido o incentivo, o setor inevitavelmente vai pagar mais impostos — chamem isso como quiserem.

Por exemplo, o governo paga aos exportadores 2% do que vendem no exterior. Isso é justificado como o ressarcimento de impostos cobrados no processo de produção. Ok, digamos que é correto, que não se deve exportar impostos. Mas o caso permanece: se for retirado esse incentivo, o exportador vai pagar mais imposto para subsidiar o gasto do governo com o óleo diesel.

Em bom português: é retirar um subsídio para financiar outro subsidio. Ou, aumentar um imposto aqui para reduzir ali.

Exatamente como ocorre com a alegação de que haverá apenas “reoneração” da folha de pagamentos de vários setores industriais. Ora, reonerar com o quê? Com impostos que haviam sido eliminados.

Atenção, subsídios podem ser uma política social: tirar dinheiro de alguns, mais ricos, para financiar outros, mais pobres. Mas precisa ser uma política clara. Dizer que não tem custo é abrir caminho para práticas que tiram do mais pobre — aquele que paga os impostos de consumo e serviços — para entregar a quem não precisa ou que está no fim da fila.


BOA PROPOSTA

No meio de tantos equívocos, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) apresentou uma proposta muito boa para o comércio de combustível. São nove pontos, destacando-se:

permitir que produtores de álcool vendam diretamente aos postos;

permitir que distribuidoras e refinarias sejam proprietárias de postos;

fim da proibição de importação de combustível pelas distribuidoras;

reduzir ICMS, mudando o sistema de cobrança;

permitir os postos de autosserviço, como aqueles dos EUA, nos quais o próprio consumidor passa cartão e abastece.

Tudo para aumentar a competição e reduzir custos.

´NÃO FALTOU SÓ ESPINAFRE

A crise não trouxe apenas danos sociais e econômicos. Mostrou também danos morais.

Aconteceu num mercadinho de bairro em São Paulo. A dona, diligente, havia conseguido algumas verduras e avisou à clientela. Formaram-se uma pequena fila e uma grande discussão. Uma senhora havia arrematado todos os dez maços de espinafre. No caixa, outras freguesas perguntaram se ela tinha restaurante. Não tinha. Observaram que a verdura acabaria estragada. Ela explicou que ia cozinhar e congelar. Então, foram ao ponto: caramba, havia outras pessoas na fila, ela não poderia levar só o que consumiria de imediato?

“Não, estou pagando e cheguei primeiro”, foi a resposta.

Compras exageradas nos supermercados, estoques domésticos, filas nervosas nos postos de combustível — teve muito comportamento na base de cada um por si.

Cabem nessa categoria as greves e manifestações oportunistas. Governo fraco, cedendo, também vou buscar o meu — tal foi o comportamento de muita gente.


Carlos Alberto Sardenberg é jornalista


Flerte com o abismo

William Waack
 O Estado de S.Paulo

Enorme quantidade de pessoas não entende que dinheiro público é o dinheiro delas

Como assim as pessoas apoiam um movimento, o dos caminhoneiros, mesmo sabendo que sofrerão severos transtornos e prejuízos diretos na vida pessoal e financeira? Em outras palavras, agindo contra os próprios interesses – e sabendo disso.

Supõe-se que alguma coisa mais esteja em jogo, além da irracionalidade em decisões (no comportamento de consumidores, por exemplo) há tanto tempo detectada por teorias econômicas de comportamento. Como eventual contribuição a uma explicação, avanço aqui duas possibilidades inteiramente subjetivas e derivadas da minha biografia pessoal como repórter.

Será que as pessoas percebem seus “interesses objetivos e racionais” como analistas percebem ou acham que deveriam perceber? No caso brasileiro dos últimos dias, é patente que não. Em primeiro lugar, salta aos olhos que uma enorme quantidade de pessoas não entenda que dinheiro público é o dinheiro delas, recolhido por meio de impostos e contribuições. Para elas, portanto, se tem alguém gastando mais do que arrecada, esse alguém é “o governo”, essa distante e incompreensível entidade que manda nas nossas vidas sem que a gente entenda muito bem como.

Em segundo lugar, o governo é ocupado por “eles”, políticos e seus nomeados, uma espécie de casta. “Eles” são interessados apenas nos próprios negócios, na própria corrupção e, agora que “nossa” paciência se esgotou e nossa indignação explodiu, precisam ser varridos como lixo. É evidente que “nós” não nos sentimos representados por “eles” – e quando confrontada com o fato de que “eles” estão lá pois foram votados para estarem lá, imensa quantidade de pessoas não gosta do que enxerga no espelho.

Muita gente acha que a revolta que acompanhou as manifestações de caminhoneiros (acompanhadas, em alguns casos, de comportamento criminoso) é uma espécie de mal necessário para que dessa situação crítica renasça um novo País, não importam os danos imediatos causados à economia. É óbvio, na minha percepção, que essa conduta reflete muito mais uma imensa frustração do que um claro sentido de ação, mesmo os caminhoneiros tendo arrancado o que pretendiam (baixar os próprios custos, empurrando a conta para outros).

Não são poucos os que enxergaram, por outro lado, que atender às reivindicações dos caminhoneiros só seria possível tornando ainda mais complicada a solução para contas públicas quebradas. Mas – e aqui deveríamos escrever MAS, em maiúsculas –, foi irresistível para parcela expressiva da população a identificação proporcionada pelo símbolo do trabalhador sacrificado (o caminhoneiro) que levanta o dedo médio em riste contra “eles”, enquanto entrega a Deus o comando na boleia.

Acho perda de tempo decifrar neste momento qual o “recado” que essa revolta está transmitindo para a política – na verdade, a mensagem principal é o ódio e o desprezo em relação à própria política, entendida como um jogo sujo no qual só “eles” ganham, com seu sistema de benefícios próprios, desperdícios, corrupção e a inexplicável administração de preços que leva o combustível que “nós” produzimos a custar bem menos na Bolívia.

Temo ter de dizer que esse flerte com o abismo, registrado nos últimos dias, seja a expressão da desintegração (que não me parece meramente passageira) da capacidade do Estado de impor diretrizes e autoridade. Mas também desse nebuloso estado de espírito segundo o qual a fúria e a frustração que existem na população criam a necessidade de mudança por meio do fracasso social.

Crônica de uma crise anunciada

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

A crise causada no país pela paralisação dos caminhoneiros foi obra de três presidentes: Lula, Dilma e Temer. Começou em 2008: para dar um impulso à economia, e aproveitando que as fábricas de caminhões tinham capacidade ociosa, o Governo Lula ofereceu juros baixíssimos aos compradores. As fábricas venderam e a frota cresceu 40% de lá para cá. Mas a economia só subiu 11% (os dados são do professor Samuel Pessoa, do Insper). Há caminhões sobrando – o que derrubou o valor dos fretes.

O Governo Dilma, para mascarar a inflação, manteve artificialmente baixo o preço dos combustíveis. A Petrobras acumulou prejuízos, que lhe custam altos juros (e ainda houve o Petrolão, que ordenhou a empresa).

 O Governo Temer entregou a um executivo de primeira linha, Pedro Parente, a tarefa de recuperar a Petrobras, cobrindo os prejuízos passados e dando lucro. Parente cumpriu a tarefa: o diesel e a gasolina passaram a ter preços fixados dia a dia, com base na cotação do petróleo (em alta). O diesel aumentou de três em três dias, de 3 de julho de 2017 para cá. O preço subiu até 30%, contra inflação de uns 2%. Os transportadores foram sufocados: diesel mais caro, fretes mais baratos. O Governo não se preocupou com o problema: não houve qualquer movimento para permitir que o setor continuasse viável. Quebrados, os caminhoneiros venderam seus veículos para as grandes empresas - capazes de paralisar o país.

 De boas intenções...
 Todas as medidas, diga-se, foram tomadas com a melhor intenção. Dar um impulso à economia, segurar a inflação, recuperar a Petrobras. Só que o mundo é mais complexo do que imaginam os planejadores voluntaristas.

 ...há um lugar cheio
 O presidente da Petrobras, Pedro Parente, mostra o caminho que poderia ter sido seguido para que a recuperação da empresa fosse mais indolor: “Culpar a Petrobras pelos preços considerados altos nas bombas é ignorar a existência dos outros atores, responsáveis por dois terços do preço da gasolina e metade do preço do diesel”.

 Baixar impostos, só sob pressão.

 Alô, alô
 Talvez este colunista tenha se distraído e passado por cima da notícia. Mas não se lembra de ter lido a lista das reivindicações dos caminhoneiros. Nem de ter lido a nota oficial do Governo anunciando quais reivindicações foram atendidas. Como diria o gato de Alice no País das Maravilhas, se você não sabe aonde vai, não importa o caminho que vai tomar.

 As hordas
 Que não temos Governo, já sabíamos: um presidente assessorado por Moreira Franco, Eunício, pelo inacreditável Carlos Marun (até Geddel é melhor!) não pode saber o que fazer. O problema é que os caminhoneiros também não têm líderes: o grupo que negocia com o Governo concorda em suspender a paralisação, mas a paralisação continua. Situação complicada: se os dois lados não têm líderes, quem é que pode chegar a um acordo?

 O ânimo do presidente
 Josias de Souza (https://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/), repórter respeitado, diz que um auxiliar de Temer, em conversa telefônica com um congressista, disse na noite de segunda que o presidente tem dado sinais de desânimo. Acredita que o motivo é a paralisação dos caminhoneiros e seu efeito sobre o desempenho da economia neste ano. O principal troféu de Temer é a recuperação da economia. Já não era lá essas coisas, mas com os atuais problemas a previsão de crescimento deve ser revista para baixo.

 Temer tem outro problema sério: quando deixar a Presidência, estará sujeito aos juízes de primeira instância. E tem inquéritos a esperá-lo.

 Bolsonaro acordou
 Bolsonaro rejeita uma intervenção militar. Claro: se houver intervenção, o país será governado por um general, não por um capitão deputado.

 Capital: Jerusalém
 Pesquisa realizada pela Toluna, multinacional de pesquisas especializada em entender os desejos dos consumidores e as eventuais mudanças em suas expectativas, revela que a maioria simples da população brasileira acredita que Jerusalém deve ser a capital de Israel. No total da pesquisa, 27% dos entrevistados. E 7% acreditam que deva ser a capital de um Estado palestino.

Durante os últimos 50 anos, Jerusalém foi escolhida por Israel como sede do Governo, mas as embaixadas se fixaram na antiga capital, Tel Aviv. Em maio último, os Estados Unidos transferiram sua embaixada para Jerusalém como parte da comemoração dos 70 anos de independência de Israel. A embaixada brasileira continua em Tel Aviv.

 Jerusalém como capital de Israel é a posição favorita da população do Brasil; em segundo lugar, quase empatada, está Jerusalém como capital de Israel e da Palestina.

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Greve dos caminhoneiros deixará graves sequelas na inflação e no crescimento

Tribuna da Internet
Vicente Nunes, Correio Braziliense


Uma das consequências é a radicalização dos protestos

A fatura deixada pela greve dos caminhoneiros será enorme. Quem pensa que, quando houver o desbloqueio das estradas, a situação voltará rapidamente ao normal, deve se preparar para vários dias de restrições. A paralisação do transporte de cargas nos últimos cinco dias deixou sequelas pesadas. Uma delas, a alta de preços. A maioria dos empresários não voltará a praticar as tabelas vigentes antes da crise que resultou em desabastecimento. Muitos vão aproveitar o caos para garantir margens de lucro maiores.

A perspectiva é de que, em junho, a inflação seja, no mínimo, três vezes superior à média mensal observada em 2018. Isso significa uma taxa entre 0,7% e 0,8%. É possível que fique acima disso, dependendo da nova realidade de preços na economia a partir da normalização do abastecimento. Em junho de 2017, houve deflação de 0,23%. Isso quer dizer que, quando o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses for divulgado, a taxa acumulada, que está abaixo de 3%, o piso da meta, ficará mais próximo de 4%.


HAVERÁ TARIFAÇO – 

A tendência, acredita Carlos Thadeu Filho, economista sênior do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), é de que a inflação só volte a ficar em um patamar mais confortável depois de setembro. Ele ressalta que, além dos impactos da greve dos caminhoneiros nos preços dos alimentos, sobretudo nos das carnes, devido à paralisação dos frigoríficos, o próximo mês, especificamente, será marcado por um tarifaço. Combustíveis e energia elétrica ficarão mais caros. “Junho será bastante complicado para a inflação. Teremos três meses em um”, diz.

A situação só não ficará mais difícil porque os preços dos serviços, que são muito resistentes, estão em queda. Não bastasse a demanda reprimida, o mercado de trabalho está muito fraco, jogando os salários para baixo. Isso diminui o custo dos prestadores de serviços. É isso, no entender de Thadeu Filho, que vai segurar a inflação deste ano e de 2019. Nesse contexto, não haverá necessidade de o Banco Central elevar a taxa básica de juros (Selic). Um aperto monetário nos próximos meses enterraria qualquer possibilidade de retomada da economia.

QUEDA DO PIB –  

A alta da inflação já está no radar do governo. A equipe econômica, porém, não prevê um grande salto no IPCA. A perspectiva é de que, tão logo o abastecimento de postos e supermercados volte ao normal, os reajustes dos últimos dias sejam revertidos. O discurso é de que, em um ambiente de economia tão fragilizada, indústria e varejo não abusem dos consumidores sob pena de verem os estoques de mercadorias encalharem. “O que vimos nos últimos cinco dias foi um quadro atípico, de extremos. Corrigidos os abusos, a inflação voltará a ficar comportada”, diz um técnico.

Ele reconhece, porém, que o governo teve muita culpa para que o país mergulhasse no caos, com sérios prejuízos para a economia. O Palácio do Planalto subestimou o movimento dos caminhoneiros. E demorou para tomar medidas mais enérgicas. “Chegamos ao limite. É inaceitável que centenas de cidades fiquem sem combustíveis e que supermercados exibam prateleiras vazias. Essas imagens nos remetem aos momentos mais críticos do período de hiperinflação”, acrescenta.

GOVERNO FRACO – 

Foi preciso que se chegasse a esse ponto para que o presidente Michel Temer enfrentasse, com rigor, o bloqueio de estradas.

A equipe econômica está tentando mapear todas as perdas. Os mais pessimistas já falam em queda do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre do ano, o que será uma derrota para o discurso de Temer e de seu candidato à Presidência da República, o ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Os dois fazem questão de dizer que conseguiram tirar a economia da mais grave recessão da história, provocada por Dilma Rousseff.

Depois dos estragos feitos pela greve dos caminhoneiros, terão que explicar números cada vez mais ruins. O Brasil, sem dúvida, voltou a caminhar à beira do abismo.

Greve de caminhoneiros deixa rastro de prejuízos bilionários em todo o País

Cleide Silva
O Estado de S.Paulo

Com protestos no fim, crise de desabastecimento começa a ser revertida, mas efeitos na economia ainda vão perdurar por muito tempo; perdas com a greve superam R$ 75 bi

Apesar de alguns pontos de manifestação ainda espalhados pelo País, a paralisação dos caminhoneiros dá claros sinais de que chegou ao fim. Em todos os Estados, a vida começa a voltar ao ritmo normal. O quadro de desabastecimento inicia sua reversão: o combustível está chegando aos postos, os alimentos voltam aos supermercados. Os reflexos da crise provocada pelos protestos, porém, ainda devem perdurar por bastante tempo.

Foto: HELVIO ROMERO | ESTADAO CONTEUDO
Em vários pontos do País, militares tiveram de ser acionados para garantir 
que motoristas deixassem em segurança as áreas de concentração de manifestantes 

Nem todos os setores têm um levantamento das perdas. Quem já fez essas contas mostra que o prejuízo será contabilizado na casa dos bilhões. O número dos setores consultados pelo Estado já chega a pelo menos R$ 75 bilhões em perdas.

Mas o impacto na economia será bem maior. Economistas já levam em conta os efeitos da greve nas revisões, para baixo, que vêm fazendo para o desempenho do PIB. O número, que era próximo de 3% no início do ano, agora é de 2%. E há outros efeitos. O governo teme que a paralisação dos motoristas abra caminho para outras greves de forte impacto no País. Os petroleiros já seguiram esse caminho.

Perdas.

 As projeções preliminares de diversos segmentos da economia após dez dias de greve dos caminhoneiros apontam para perdas de mais de R$ 75 bilhões. Em alguns casos, os prejuízos ainda podem aumentar mesmo após o fim do movimento, pois, dependendo do tipo de atividade, a retomada poderá levar de uma semana a 20 dias.

Também há preocupação sobre como será a volta das atividades. “Não sabemos ainda, por exemplo, como será precificado o aumento do frete”, afirma José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic). “Dá arrepios só de pensar.”

O setor calcula que deixou de gerar, até agora, R$ 3,8 bilhões, e precisará de duas a três semanas para retomar totalmente as atividades.

A Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) estima que as áreas de comércio e serviços deixaram de faturar cerca de R$ 27 bilhões entre os dias 21 e 28.

“São nítidos os transtornos causados pelo desabastecimento generalizado, que pode provocar danos ainda maiores ao País, como aumento do desemprego, falta de gêneros alimentícios, estoques, baixo fluxo de vendas e prejuízo ao desenvolvimento econômico”, diz o presidente da Fecomércio de Minas Gerais, Lúcio Emílio de Faria Júnior.

Os supermercados contabilizam R$ 2,7 bilhões em prejuízos. Para os distribuidores de combustível, as perdas já atingem R$ 11,5 bilhões.

Volta lenta. 

Com menos bloqueios nas estradas e a volta, lentamente, do abastecimento de combustíveis, algumas empresas estão retomando operações.

Das 167 unidades produtoras de aves, ovos e suínos que estavam paradas em todo o País, 46 reiniciaram atividades nesta quarta-feira, informa a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). As empresas do setor acumulam prejuízos de R$ 3 bilhões e perderam 70 milhões de aves, mortas por falta de ração. Com parte do abastecimento retomado, a mortandade deve acabar.

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), a cadeia produtiva da pecuária de corte deixou de movimentar entre R$ 8 bilhões e R$ 10 bilhões.

Os produtores de leite perderam R$ 1 bilhão, parte disso com o descarte de mais de 300 milhões de litros de leite. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) calcula que produtores em geral devem levar de seis meses a um ano para se reestruturarem.

O setor têxtil estima perdas de R$ 1,8 bilhão e, até quarta-feira, ainda tinha cerca de 70% das empresas paradas ou prestes a parar. A previsão da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) é de que serão necessários pelo menos 20 dias para que a situação seja normalizada.
Carros. Na indústria automobilística quase todas as fábricas estão paradas desde sexta-feira. O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Antonio Megale, diz que “a maioria retomará a produção, de maneira gradual, a partir de segunda-feira”. As unidades da Fiat em Minas Gerais e da Jeep em Pernambuco voltam a operar nesta quinta-feira.

A Anfavea não divulgou prejuízos, mas, com base na produção média de veículos em abril, cerca de 51 mil veículos deixaram de ser fabricados. O resultado deste mês poderá interromper uma sequência de 18 meses de alta na comparação interanual.

Até terça-feira as vendas do setor tinham caído 11% em relação a abril (para 192,8 mil unidades), mas ainda devem superar o volume de maio de 2017, de 195,6 mil unidades.

A indústria química soma R$ 2,5 bilhões em perda de faturamento e calcula em dez dias o período para retomada de atividades.

Prejuízos em série

A paralisação dos caminhoneiros afetou diversos segmentos da economia, que projetam perdas bilionários




COLABORARAM MÁRCIA DE CHIARA E MÔNICA SCARAMUZZO



O Tesouro somos nós

Ascânio Seleme
O Globo

Foi Margaret Thatcher quem disse que não existe essa coisa chamada dinheiro público, o que existe é dinheiro arrecadado do bolso dos contribuintes

A Petrobras perdeu mais de uma centena de bilhões de reais em valor de mercado ao não negociar o preço do óleo diesel, ignorando inúmeros sinais de estresse financeiro de um dos seus melhores clientes, os caminhoneiros, responsáveis por 70% do consumo. Afinal, que importância têm os clientes se a empresa estava agindo de modo eficiente, exatamente como manda o mercado, protegendo os interesses de seus acionistas? Os mesmos que agora micam com a desvalorização espetacular de suas ações.

O principal acionista da Petrobras, o que mais perdeu dinheiro com a eficiente gestão na empresa, atende pelo nome de Brasil. Fomos nós, leitor, eu e você, que ficamos com o mico. Sairá de nossa poupança mais da metade deste rombo bilionário. Mas isso não incomoda todo mundo. Muita gente que entende de economia e mercado aplaude a Petrobras e diz que ela apenas cumpriu sua obrigação. Aumentar os combustíveis 229 vezes em dois anos foi razoável, dizem os especialistas.

É verdade que a gestão da empresa foi boa, que a tirou do buraco gigante aberto pela administração anterior. Difícil é explicar como a colocou de volta lá. Como a Petrobras não viu o colapso que se avizinhava? Não foi por falta de sinais. O colunista José Casado mostrou na sua coluna de terça passada que oito avisos foram dados por caminhoneiros e transportadoras ao governo desde outubro de 2014. Só não viu quem não quis. E a Petrobras, que é governo, ficou cega e surda diante da agonia de seus clientes.

Qualquer outra empresa negociaria o quanto fosse necessário para evitar perda desse tamanho. Os especialistas dizem que a Petrobras não percebera que a coisa ficaria tão feia. Pode ser, apesar dos avisos repetidos de que a situação era de desespero do outro lado do balcão, pode ser. Mas, mesmo não enxergando muito longe, era claro que acordos prévios evitariam que a situação de penúria dos clientes chegasse ao ponto de ebulição. Um acerto de preços era recomendável até mesmo como forma de manter os clientes vivos, e consumindo.

As perdas geradas pela imprevidência da Petrobras ainda estão sendo contabilizadas pelos demais setores da economia atingidos com a paralisação do país. Passa dos R$ 32 bilhões o volume de recursos que deixaram de circular nesses últimos dez dias. A arrecadação de impostos caiu R$ 5 bi no período. As atividades industriais foram reduzidas gradativamente e chegaram a 60% da sua capacidade. Embora o setor não tenha a soma feita, o prejuízo deve estar na casa da dezena de bilhões. A agricultura perdeu R$ 6,6 bilhões; o comércio, em cinco estados apenas, perdeu R$ 3,1 bi; o setor de serviços ainda apresentará a sua conta. O Brasil parou, e o prejuízo é astronômico.

E vem mais por aí. Como a Petrobras não negociou, não foi soltando a pressão da panela aos poucos; afinal, a empresa estava fazendo apenas o que manda o mercado, a explosão ocorreu, e o socorro agora vem na forma de subsídios. Os caminhoneiros ganharam tudo o que pediram, de uma vez só. A pergunta é quem arcará com o custo de mais de R$ 13 bilhões? Ora, a conta sairá do Tesouro Nacional, explicou o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia. E o que é o Tesouro, caro leitor? O Tesouro somos nós.

Foi Margaret Thatcher quem disse que não existe essa coisa chamada dinheiro público, o que existe é dinheiro arrecadado do bolso dos contribuintes. O Estado não tem nenhuma fonte de dinheiro, a não ser a dos cidadãos. O dinheiro que paga as contas do governo não é do Tesouro, é seu e é meu. Ele apenas é guardado pelo Tesouro para, teoricamente, ser aplicado na melhoria das condições de vida de todos os contribuintes. O dinheiro dos caminhoneiros sairá do Tesouro, nosso bolso, e será depois recomposto por mais impostos, nosso bolso de novo.

O governo, por sua vez, também esperou a explosão para agir. E pagou mais caro na redução de imposto sobre o diesel, na flexibilização do pedágio e com a criação de uma política de preços mínimos para fretes. Acuado, também não soube aplicar o rigor da lei e usar da força quando era flagrante a sua necessidade, como no momento em que a greve foi tomada por “infiltrados”. O ano está perdido, sucumbiu pela eficiente incompetência do governo federal e seu braço petrolífero. Os números do PIB do segundo semestre mostrarão o tamanho do buraco. Mas, tudo bem, temos o Tesouro para pagar a conta.


Ascânio Seleme é jornalista

Por bolsa caminhoneiro, governo corta orçamento de estatais e tira benefícios de exportadores


Luci Ribeiro, Adriana Fernandes e Fernando Nakagawa
O Estado de S.Paulo

Com sanção de reoneração, mais setores pagarão impostos; Ciência e Tecnologia e reforma agrária terão cortes

Foto: Alan Santos/PR
Lista de ações publicadas inclui a sanção da lei de reoneração da folha, 
três medidas provisórias, zera a Cide sobre o diesel e
 praticamente acaba a devolução do Reintegra 

O presidente Michel Temer sancionou na quarta-feira a lei que prevê a chamada reoneração de setores da economia, que deixarão de pagar imposto sobre o faturamento para contribuir sobre a folha de pagamento. Temer vetou o trecho que eliminava a cobrança do PIS/Cofins sobre o óleo diesel até o fim deste ano, o que já era esperado. No entanto, ele editou três medidas provisórias para garantir o acordo com os caminhoneiros, que paralisaram as atividades e provocaram uma crise de abastecimento no País. Como o Estadão/Broadcast antecipou, o bolsa caminhoneiro terá um custo de R$ 13,5 bilhões aos cofres públicos. 

Para garantir o acordo, o governo publicou três MPs, que na prática reduzem o preço do litro do diesel em R$ 0,46, sendo R$ 0,16 como consequência de redução de impostos que incidem sobre o óleo e R$ 0,30 pelo programa e subvenção ao combustível. Entre as medidas editadas por Temer está a que abre crédito extraordinário de R$ 9,58 bilhões para compensar a Petrobrás e garantir a redução de R$ 0,30 no preço do litro do diesel.

A lista de ações publicadas inclui a sanção da lei de reoneração da folha de pagamento de setores produtivos, três medidas provisórias, o decreto que zera a Cide sobre o diesel e um outro decreto que, praticamente, acaba a devolução do Reintegra a exportadores. Além disso, o governo também fez corte em diversas áreas, sendo as estatais, a reforma agrária e o Ministério de Ciência e Tecnologia os mais atingidos. 


Reoneração. 

O presidente vetou a permanência de alguns setores na política de desoneração da folha. Com isso, voltarão a ser reonerados segmentos econômicos como as empresas estratégicas de defesa, empresas de transporte aéreo de carga e de passageiros regular, empresas de serviços auxiliares ao transporte aéreo de carga e de passageiros regular, empresas de manutenção e reparação de aeronaves, empresas de manutenção e reparação de embarcações e as empresas do comércio varejista de calçados e artigos de viagem.

Nos dois casos, tanto da isenção de PIS-Cofins quanto da retirada da desoneração da folha de alguns setores, Temer alega que os dispositivos aumentariam a renúncia tributária, o que vai de encontro ao esforço fiscal do governo.

Medidas provisórias. 

Para garantir o desconto no preço do diesel e conseguir fazer a compensação fiscal da medida, o governo ainda editou três medidas provisórias. A primeira revoga incentivos referentes a PIS/Pasep e Cofins para nafta e outros produtos destinados a centrais petroquímicas. A segunda dispõe sobre a concessão de subvenção econômica à comercialização de óleo diesel. A terceira abre crédito extraordinário em favor dos ministérios de Minas e Energia e da Defesa no valor de R$ 9,580 bilhões. Desse total, R$ 9,5 bilhões são destinados à subvenção ao diesel de uso rodoviário e os R$ 8 milhões, para operações de garantia da lei e da ordem.


Cide. 

Outra promessa feita à categoria dos caminhoneiros, o decreto que zera a Cide sobre o diesel também foi publicado na edição extra do Diário Oficial. O governo havia dito que editaria a medida depois que o Congresso Nacional aprovasse a reoneração da folha.

Reintegra. 

Conforme o Estadão/Broadcast antecipou, o governo também colocou o Reintegra na conta para conseguir bancar os benefícios aos caminhoneiros. Um decreto de Temer reduziu de 2% para 0,1% o tamanho da devolução que será feita aos exportadores. Pelo programa, o governo devolve parte dos tributos pagos por exportadores de produtos industrializados para compensar a redução de tributos federais. O programa de incentivo fiscal aos exportadores tem R$ 3,6 bilhões previstos no Orçamento de 2018.

A possibilidade de revisão do programa ganhou força depois que o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, teve que descartar uma alta de impostos para compensar parte de R$ 4 bilhões que o governo vai perder com redução em R$ 0,16 da alíquota da Cide e do PIS/Cofins sobre o litro do diesel.


Cortes. 

A Medida Provisória 839 publicada em edição extraordinária do Diário Oficial da União nesta manhã detalha o corte de gastos feito pelo governo para tentar acomodar o gasto extra de R$ 9,58 bilhões para bancar o subsídio ao diesel. A MP prevê o crédito já anunciado de R$ 9,5 bilhões para a chamada "Bolsa Caminhoneiro" e também cria o crédito de R$ 80 milhões para as Operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). A MP traz detalhes dos cortes pulverizados em várias áreas do governo para compensar o gasto extra.

Entre os cortes, a reserva para capitalização de empresas estatais federais perdeu R$ 1,667 bilhão e a reserva de contingência da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional sofreu redução de R$ 979,297 milhões. Cortes também atingirão o Programa de Reforma Agrária, com R$ 30,779 milhões, e o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, com outros R$ 21,750 milhões.

A MP também cita que o Programa de Assistência Técnica e Extensão Rural Para Agricultura Familiar registrou corte de R$ 5,443 milhões, a Defesa Agropecuária registrou corte de R$ 2,996 milhões e a Pesquisa e Inovações para a Agropecuária, outros R$ 2,729 milhões. Na Presidência da República, o Programa de Gestão e Manutenção da Presidência sofreu redução de R$ 1,7 milhão no Orçamento e a as ações de comunicação e transmissão de atos e fatos do governo federal perderam R$ 774,988 mil.

Já as políticas de Igualdade e Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres perderam R$ 661,6 mil. 


MPF investiga grevistas por tentativa de ‘mudar regime’

Vinicius Sassine 
O Globo

Crimes da Lei de Segurança Nacional têm punição de até 15 anos de prisão

  NELSON ALMEIDA / Nelson Almeida/AFP
Segurança. Soldados atuam na liberação da Rodovia Régis Bittencourt, em SP 


BRASÍLIA - O Ministério Público Federal (MPF) instaurou procedimentos para investigar se empresários e outros agentes relacionados à greve dos caminhoneiros cometeram dois crimes previstos na Lei de Segurança Nacional: o de tentar mudar o regime político vigente e o Estado Democrático de Direito com emprego de violência e grave ameaça; e o de incitar a subversão da ordem política e a animosidade nas Forças Armadas. Esse tipo de crime pode ser punido com até 15 anos de prisão. Ao todo, o MPF investigará ao menos sete comportamentos distintos que podem configurar esse tipo de crime, envolvendo algumas das principais lideranças do movimento. A disposição de parte deles de estimular o pedido de intervenção militar no país contribuiu para a abertura da investigação.

A Câmara Criminal, que atua no âmbito da Procuradoria Geral da República (PGR), enviou especificamente às unidades do MPF em quatro estados — São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Goiás — a determinação para a abertura dos procedimentos, listando casos em que empresários e lideranças do movimento grevista insuflaram ideias como a de um golpe militar. São casos em que essas pessoas incentivaram grevistas a “colocarem fogo em caminhões”, defenderam a intervenção militar e colocaram empresas à disposição dos manifestantes, entre outras ações.

Entre as lideranças a serem investigadas está Wallace Landim, o “Chorão”, que diz representar motoristas autônomos do Centro-Oeste. Ele se destacou no movimento como autor de vídeos nas redes sociais que pregam a derrubada do governo do presidente Michel Temer, ao lado do advogado André Janones, também citado pelo MPF. O caso dos dois deve ser investigado pelo MPF em Goiás. Eles sustentam que o movimento é legítimo e negam pretensões eleitorais, apesar de serem filiados, respectivamente, ao Podemos-SP e ao PSC-MG.

O MPF de Santa Catarina investigará outro caso, envolvendo dois empresários. Um é suspeito de “apoiar os grevistas e autorizar que coloquem fogo nos caminhões das empresas se for preciso”, como consta da determinação para a abertura da investigação. O outro “autorizou o uso do estacionamento de uma das suas lojas como ponto de apoio”. Ele também escreveu mensagens em redes sociais defendendo intervenção militar.

A determinação encaminhada ao MPF do Rio Grande do Sul pede investigação sobre o apoio de uma rede de lojas a caminhoneiros grevistas. Em São Paulo, os alvos de apuração devem ser um sargento da reserva, descrito como “defensor contumaz da intervenção militar”, e um suplente de vereador à frente de uma empresa de transportes e de uma associação. Eles teriam patrocinado um bloqueio no acesso a uma distribuidora da Petrobras. No Espírito Santo, o MPF também solicitou que a Polícia Federal abra um inquérito relacionado à Lei de Segurança Nacional.

A determinação da Câmara Criminal é instaurar um procedimento chamado notícia de fato. É o início de uma apuração, que pode levar à abertura de um inquérito ou a um arquivamento, num prazo de 30 dias. Os despachos são assinados pela subprocuradora-geral da República Luiza Frischeisen, coordenadora da Câmara Criminal.

Além desses casos, a PF abriu 48 inquéritos para investigar os mais diversos crimes cometidos durante a greve, em 25 unidades da federação e no Distrito Federal — não há inquérito apenas no Amapá. O levantamento dos inquéritos, obtido pelo GLOBO, revela que Santa Catarina concentra o maior número de procedimentos: sete. Depois aparecem São Paulo, com seis inquéritos, Mato Grosso do Sul e Paraná, com cinco cada.

CÁRMEN DEFENDE DEMOCRACIA

Entre os outros casos em apuração no país há denúncias das mais diversas, de ameaças a motoristas à incitação à greve, passando pelas suspeitas de locaute — quando empresários aderem e incentivam uma greve de trabalhadores em busca dos próprios interesses. Há histórias simples, como a de um gerente de um posto de gasolina que deu comida a grevistas, em Goiás. Neste caso, a Justiça já negou pedido de busca e apreensão na casa do gerente e dos donos do posto, como queria a PF. No Rio Grande do Sul, está um dos casos mais avançados e documentados, inclusive com vídeo, de suposta prática de locaute.

Ontem, em Brasília, a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, afirmou, sem mencionar diretamente os pedidos de manifestantes por intervenção militar, que “a democracia não está em questão” e que não existe alternativa a ela no Brasil.

— Regimes sem direito são (parte do) passado de que não se pode esquecer, nem de que se queira lembrar — disse a ministra, na abertura da sessão da Corte. — A construção permanente do Brasil é nossa, e ela é permanente, democrática e comprometida com a ética. Não há escolha de caminho. A democracia é o único caminho legítimo. 

Colaboraram Carolina Brígido e André de Souza

Grupo de caminhoneiros no Porto de Santos não aceita fim da greve. Então, CADEIA NELES.

Veja online
Com informações  Estadão Conteúdo

Polícia Militar e tropas do Exército e da Marinha faziam a segurança do local na manhã desta quinta-feira

(Paulo Whitaker/Reuters)
Caminhoneiros bloqueiam estradas próximas ao Porto de Santos

Apesar do fim da paralisação em todo o estado de São Paulo, ainda havia caminhoneiros parados no Porto de Santos na manhã desta quinta-feira, 31. Eles resistiam a aceitar o fim da greve e deixar o local. Na noite de quarta-feira, 30, o governador Márcio França esteve no porto para negociar com os grevistas, mas eles não deixaram o local.

A Polícia Militar e tropas do Exército e da Marinha faziam, no início da manhã, a segurança do maior terminal portuário do país. A presença de militares foi reforçada com a chegada de veículos blindados. Não havia bloqueios e a PM tentava demover os caminhoneiros de permanecerem no local.

Os acessos ao porto foram liberados na noite de quarta-feira, 30 mas os caminhões com cargas ainda só entram acompanhados por escolta. As forças de segurança escoltam também os veículos que deixam o porto.

Prejuízos

Apesar de alguns pontos de manifestação ainda espalhados pelo país, a paralisação dos caminhoneiros dá claros sinais de que chegou ao fim. Em todos os Estados, a vida começa a voltar ao ritmo normal. O quadro de desabastecimento inicia sua reversão: o combustível está chegando aos postos e os alimentos voltam aos supermercados. Os reflexos da crise provocada pelos protestos, porém, ainda devem perdurar por bastante tempo.

Vivandeiras estão de volta

Merval Pereira
O Globo

As críticas dos petistas e aliados à utilização das Forças Armadas em situações como essa da greve dos caminhoneiros não valem seu valor de face. No episódio do impeachment da então presidente Dilma Roussef houve consultas informais ao Exército sobre a possibilidade de decretação do Estado de Emergência no país, reveladas pelo próprio Comandante do Exército, General Villas Boas.

Assim como naquela ocasião o Exército rejeitou a sugestão, que claramente visava impedir o impeachment através de uma intervenção militar capitaneada por uma presidente petista, hoje também o General Villas Boas foi curto e grosso ao comentar a possibilidade de uma intervenção militar no país, reivindicada por grupelhos da direita. Disse ele:(...) “existem “tresloucados” ou “malucos” civis que, vira e mexe, batem à sua porta (do Exército) cobrando intervenção no caos político. Eu respondo com o artigo 142 da Constituição. Está tudo ali. Ponto”.

O que está ali escrito é que as Forças Armadas são subordinadas ao presidente da República e “(...) destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.” Na visão de Villas Boas, o presidente Temer “talvez por ser professor de Direito Constitucional, demonstra um respeito às instituições de Estado que os governos anteriores não tinham. A ex-presidente Dilma, por exemplo, tinha apreço pelo trabalho das pessoas da instituição, mas é diferente”.

O General Sérgio Etchegoyen, do Gabinete de Segurança Institucional, disse em uma entrevista que “acha ótimo” ser perguntado sobre possibilidade de intervenção militar.  “(...) Meu farol está muito mais potente do que o retrovisor. (...) (este) é um assunto do século passado. Mas ainda existem algumas pessoas que acham que essa alternativa é possível. Precisamos saber o porquê, para sabermos onde erramos.”

O general Joaquim Silva e Luna, ministro da Defesa, admitiu que se incomoda com os apelos de parte dos caminhoneiros: “Porque podem dar a impressão de que as Forças Armadas estão por trás de uma insuflação, o que não é verdade. Além disso, intervenção militar é inconstitucional. O caminho do acesso ao poder é pelo voto. É o único caminho.”

 Na sua avaliação, “(...)as Forças Armadas estão vacinadas, não pretendem isso, não buscam isso e de maneira nenhuma trabalham para isso. Posso lhe garantir que os oficiais e generais da ativa afastam essa possibilidade, repudiam esse tipo de manifestação. É lógico que as Forças Armadas se sentem lisonjeadas pela credibilidade que essas faixas demonstram, mas têm plena consciência de que esse não é o caminho. O caminho são as eleições que vão acontecer”.

A ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, abriu a sessão de ontem citando o “grave momento” político e social pelo qual passa o país. Ressaltou que a democracia “é o único caminho legítimo” para buscar as soluções dos problemas. Poderia citar aqui vários outros depoimentos de militares e civis, em entrevistas ou discursos no plenário da Câmara e do Senado, de repúdio à minoria que clama por uma intervenção militar. A crise é séria, a ponto de questões como essa serem debatidas abertamente.

É a volta das "vivandeiras" de que falava o Marechal Castelo Branco antes de aceitar a prorrogação de seu mandato na ditadura militar de 64, referindo-se aos políticos que procuravam militares para incentivar uma intervenção. Os apelos vêm dos dois lados. À direita, os que querem de volta uma ditadura militar, na pressuposição de que os militares são a salvação nacional, o que já sabemos, e pelo visto eles também sabem, que não são. À esquerda, querem tumulto político, até mesmo com a intervenção militar, na crença nada ingênua de que uma crise política que levasse à renúncia de Temer poderia antecipar a eleição presidencial e, quebrada a institucionalidade, até mesmo a libertação de Lula para candidatar-se. Mas o fato de os militares responsáveis pela condução das Forças Armadas virem a público rejeitar esses assédios demonstra que, apesar da desmoralização dos políticos e do próprio governo do presidente Temer, prevalece a ideia de que mais democracia é a solução para as crises, e não menos.  

Peso da greve dos caminhoneiros é maior para mais pobres

Veja online
Com informações Estadão Conteúdo

Em apenas uma semana, o preço da cesta básica pesquisada pela Fundação Procon de São Paulo e pelo Dieese subiu 4,61%

(Thaís Augusto/VEJA.com)
O valor médio da cesta básica, que no dia 23 de maio era 652,18 reais, 
passou para 682,25 reais em 30 de maio. E os alimentos subiram mais 
do que o valor da cesta como um todo no período, 5,21% 

A diarista Conceição Maria Pereira da Silva, de 42 anos, teve uma semana tumultuada por conta da greve dos caminhoneiros, como a maioria dos brasileiros. De sua casa no Jardim Angela, zona sul da cidade, até a avenida Paulista, onde faz faxinas, normalmente gasta uma hora e meia. Tomando dois ônibus, levou duas horas nos últimos dias e chegou atrasada.

O filho de 4 anos não foi para creche porque a perua escolar não tinha combustível e o maior, de 15 anos, não teve aula porque a professora não foi. No supermercado, Conceição pagou mais caro por alguns produtos. Outros, ela deixou de comprar por causa do preço, como batata e repolho. “Eles seguraram os ônibus por falta de combustível e muita gente não conseguiu ir trabalhar. Eu consegui, mas cheguei atrasada”, diz.

A sua colega, Nazaré Barros de Souza, de 40 anos, casada, mãe de dois filhos adolescentes, faxineira e também moradora do Jardim Angela, na última semana andou meia hora a pé diariamente por falta de ônibus. Normalmente, ela pega três conduções para ir da sua casa até o bairro do Panambi, onde trabalha. Mas um dos ônibus deixou de circular.

No supermercado, Nazaré cortou a salada, por causa dos preços das hortaliças, e vai se virar com a carne que está no freezer. Por sorte, ela acabou de comprar o gás de cozinha. Pelo botijão, que está quase cheio, pagou R$ 65. “Essa greve foi ruim para todos, mas os menos favorecidos foram os que mais sofreram: não temos condições de comprar e guardar produtos.”

O que Conceição, que tem renda mensal de 1.500 reais, e Nazaré, que tira 2.700 reais com faxinas, viveram na prática nos últimos dias é observado pelos economistas. O impacto da greve dos caminhoneiros que provocou desabastecimento de produtos in natura e restrições na oferta de serviços públicos, como transporte, e afetou os preços deve penalizar mais a população de baixa renda.

André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), diz que o reflexo da greve na inflação, que pegou num primeiro momento os produtos in natura, prejudica principalmente as camadas de menor renda. “Os mais pobres consomem mais alimentos in natura”, observa. Ele, que é responsável pela índice de inflação da FGV das famílias com renda mensal de até 2,5 salários mínimos (2.385 reais), o IPC- C1, constatou altas diárias expressivas na última semana na batata (150%), tomate (40%) e cebola (35%), por exemplo, em São Paulo.

Em apenas uma semana, o preço da cesta básica pesquisada pela Fundação Procon de São Paulo e pelo Dieese, que engloba cerca de 30 itens de primeira necessidade, subiu 4,61%. O valor médio da cesta, que no dia 23 de maio era 652,18 reais, passou para 682,25 reais em 30 de maio. E os alimentos subiram mais do que o valor da cesta como um todo no período, 5,21%.

Braz ainda não concluiu a apuração do índice de inflação da baixa renda de maio, que será conhecido na semana que vem e certamente será influenciado pelo efeito da greve dos caminhoneiros. Em abril, o indicador tinha subido 0,31%.

Longo prazo

O economista do Ibre, pondera, no entanto, que o impacto da greve na inflação dos mais pobres, que ocorre hoje por causa dos produtos in natura, com peso maior no orçamento dessas famílias, deve ser contrabalançado a médio prazo. Ele explica que a redução nos preços do diesel, acordado entre governo e caminhoneiros, pode resultar em reajustes menores nas tarifas de ônibus nos próximos meses. Essa hipótese ganha força em anos eleitorais. E o transporte público tem grande participação no orçamento da baixa renda.

Efeito da paralisação na economia deve durar o ano todo

Veja online
Com informações Estadão Conteúdo

Para o segundo trimestre, o Santander ainda reviu sua projeção do PIB de 0,8% para 0,2%

(Mauro Pimentel/AFP) 
Segmento da economia que registrou o melhor desempenho no primeiro trimestre
deste ano, com alta de 1,4% na comparação com o último trimestre de 2017, 
a agropecuária sairá bastante abalada da greve dos últimos dias 

A greve dos caminhoneiros levou o Santander a cortar sua projeção de crescimento para o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano em 0,7 ponto porcentual. “Vínhamos com (uma previsão de alta de) 3,2% desde outubro. Já íamos revisar para algo mais perto de 2,5% por causa dos resultados do começo deste ano. Mas a decisão de 2% foi por conta da greve, considerando seus efeitos diretos e indiretos”, disse o economista do banco Rodolfo Margato.

Para o segundo trimestre, o Santander ainda reviu sua projeção do PIB de 0,8% para 0,2%. Segundo Margato, além da redução da produção nos setores que foram obrigados a parar por causa do protesto dos caminhoneiros, a confiança do consumidor e do investidor deverá recuar nos próximos meses, puxando a economia para baixo.

O economista Alberto Ramos, do Goldman Sachs, também destacou, em relatório, a queda da confiança do consumidor e dos empresários já em abril e revisou sua previsão para o PIB do ano de 2,3% para 2%.

A coordenadora do boletim de macroeconomia do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, Silvia Matos, projeta, com base em dados preliminares, um impacto da greve em cerca de 15 bilhões de reais no PIB deste ano. Segundo ela, isso significa um recuo de 0,2% na previsão de crescimento, resultando em um PIB de 1,9% em 2018.

O Itaú já vinha mais pessimista, com uma projeção de 2% no PIB, e ainda não incorporou os resultados das paralisações do transporte de cargas. “O impacto de curto prazo (que inclui apenas a interrupções nas cadeias de produção e suprimentos, e não considera os efeitos na confiança) não deve chegar a 0,4 ponto porcentual no resultado do segundo trimestre”, afirmou o economista do banco Artur Passos.

Líder

Segmento da economia que registrou o melhor desempenho no primeiro trimestre deste ano, com alta de 1,4% na comparação com o último trimestre de 2017, a agropecuária sairá bastante abalada da greve dos últimos dias, de acordo com Margato, do Santander.

“O agro deverá mostrar o pior resultado do segundo trimestre em termos de impacto. A produção se perdeu, os produtos não são estocáveis, como o das montadoras de carros.” Segundo ele, produções como a de suínos poderão levar até cinco meses para se recuperarem.

As projeções do Santander apontam ainda que a agropecuária deverá registrar uma queda de 9,3% no segundo trimestre na comparação com o mesmo período do ano passado. Nessa mesma base de comparação, o setor recuou 2,6% no primeiro trimestre deste ano.

Um PIB não tão magro como esperado

Celso Ming
O Estado de S.Paulo

Mas, com a engrenagem da economia emperrando e a crise promovida pela paralisação dos caminhoneiros, o que vem pela frente tira o fôlego

Apesar do agravamento do quadro geral, o desempenho da atividade econômica no primeiro trimestre até que não foi tão ruim.

Há duas semanas, o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), do Banco Central, apontava resultado de -0,13% comparado ao último trimestre de 2017. Mas o IBGE, o organismo encarregado das Contas Nacionais, contou outra história: avanço de 0,4% no mesmo período, com a vantagem dos cálculos serem feitos sobre base mais alta, porque foi revisto para mais forte o desempenho dos dois trimestres anteriores. Em vez de terem crescido 0,2% e 0,1%, respectivamente, o terceiro trimestre de 2017 avançou 0,3% e o quarto, 0,2%.

As boas surpresas na ótica do consumo foram o investimento (Formação Bruta de Capital Fixo), que se expandiu 0,6% no trimestre, pouco acima do previsto, e o Consumo das Famílias, com alta de 0,5%. No mais, a indústria continua capengando, com avanço de só 0,1%, e o setor de serviços teve desempenho decepcionante, também de apenas 0,1%.

Mas isso é passado. O pra frente, que mais importa e já vinha devagar, está agora contaminado pela crise de abastecimento que durou dez dias, mas cujas consequências ainda devem ser avaliadas.

O ano começou relativamente otimista, com projeções de crescimento do PIB de 3,0%. Agora, consultorias e analistas já começam a trabalhar com metade disso. E, como estão todos com o breque de mão puxado, sabe-se lá se as projeções já revisadas não voltarão a ser revistas, também para baixo.
A paralisação dos caminhoneiros mostrou que não apenas eles, mas boa parte da população enfrenta uma onda de desânimo. Talvez não seja capaz de avaliar adequadamente o que está acontecendo, mas sente que a esperança lhe é sonegada por tanta coisa: desemprego, mais impostos, alta de preços, corrupção, governo fraco... A essas frustrações ou a esse malaise, como dizem os franceses, devem ser somadas as incertezas do quadro eleitoral, que persistem a apenas quatro meses do primeiro turno.
Nem tudo caminha mediocremente. A inflação, por exemplo, uma das mais graves chagas da economia, segue abaixo dos 3% ao ano e há muitos anos não se viam juros tão baixos. O agronegócio continua dando show e foi o setor que mais cresceu no primeiro trimestre sobre o trimestre anterior (1,4%). O comércio exterior e as demais contas externas seguem apresentando excelente desempenho. Mas quando a dominância é de desalento, como agora, é mais difícil enxergar pontos positivos.

Esse é um estado de espírito que pode contribuir para piora adicional da atividade econômica. Quem perde a confiança parte para a retranca, adia compras e retém a circulação da renda. Quem sabe a Copa do Mundo possa mudar o astral...

No mais, é preciso conferir o que há de errado com o IBC-Br. Trata-se de um indicador construído para antecipar os resultados do PIB e, assim, para medir a pulsação da economia. Mas o descasamento com as contas do PIB mostra que esse medidor não é suficientemente confiável. Para passar mais segurança, pede boa revisão metodológica.

As crises que Pedro Parente já enfrentou – e o que ainda tem pela frente

 Karin Salomão
Exame.com

Conhecido por reestruturar empresas em crise, Pedro Parente enfrenta hoje pressões para sua demissão

 (Bruno Kelly/Reuters)
São Paulo – Há cerca de dois anos, Pedro Parente 
entrou na Petrobras para recuperar a companhia.

Então a petroleira mais endividada do mundo, a empresa ainda sofria com os escândalos de corrupção investigados pela Operação Lava Jato. Parente chegou na empresa com fama de gestor de crises e alimentou esperanças de que era o homem certo para salvar a companhia.

Foi essa mesma fama que o levou à presidência do conselho da BRF em abril deste ano, substituindo o empresário Abilio Diniz. O objetivo é que Parente ajude a pacificar as disputas entre os sócios da dona da Sadia e Perdigão e reerguer a companhia após o escândalo da Operação Carne Fraca, também da Polícia Federal.

Conhecido por reestruturar empresas e gerenciar cenários de crise, Parente já atuou na política e foi ministro três vezes no governo de Fernando Henrique Cardoso. Coordenou o comitê responsável por administrar a crise de energia elétrica e organizar as regras do racionamento de 2001 e, durante sua atuação como secretário executivo do Ministério da Fazenda, cuidou da renegociação das dívidas dos estados e acompanhou o programa de desestatização.

Quando deixou o governo, foi escolhido como vice-presidente executivo do grupo RBS e coordenou a reestruturação financeira da empresa de mídia. Também reestruturou os negócios da Bunge e elevou a cada ano os resultados principais de alimentos e agronegócios.

Atualmente, no entanto, Parente tem enfrentado diversas críticas a respeito da política de preços de combustíveis na Petrobras e ameaça de greve dos petroleiros. O empresário enfrenta pressão para a sua demissão da presidência da Petrobras, ainda que a estatal afirme que ele não tem intenção de deixar o posto.

Veja abaixo os principais desafios que o empresário enfrenta hoje.

BRF

Há pouco mais de um mês, Parente incluiu um novo cargo ao seu currículo: o de presidente do conselho de administração da BRF, dona da Sadia e Perdigão. A companhia vivia uma briga interna por poder entre Abilio Diniz, então presidente do conselho, Tarpon, gestora de investimento com 7% da empresa, e outros acionistas e conselheiros.

A concorrência com a JBS, dona da marca Seara, também está muito mais forte do que no passado. A BRF já teve 200.000 pontos de venda no país, mas hoje o número não passa de 190.000. Para piorar, a companhia ainda enfrenta os efeitos da Operação Carna Fraca sobre os negócios da BRF, pois há riscos de novas restrições de compras por parte de importadores internacionais. 

Parente tem em mãos uma missão conhecida, mas não menos difícil por isso. Seu desafio é fazer a empresa ganhar relevância internacional, fortalecer as marcas e incutir uma cultura única.

Petrobras

Quando chegou à Petrobras, há dois anos, a empresa enfrentava prejuízos em série, dívidas bilionárias, interferência governamental nos preços de combustíveis, queda nos preços internacionais de gasolina e possuía ativos não eficientes. A empresa ainda sofria uma crise de credibilidade por estar no centro da Operação Lava Jato, da Polícia Federal.

Seu primeiro desafio foi acelerar o plano de venda de 15,5 bilhões de dólares em ativos da Petrobras e reduzir seus custos. A empresa também voltou a analisar projetos com base em seu potencial de retorno. No período, a Petrobras triplicou seu valor de mercado e voltou a ser a maior companhia do país.

Outra medida no comando da petroleira foi o fim do controle do governo sobre os preços dos combustíveis. Quando Parente foi nomeado pelo presidente Michel Temer para o cargo na Petrobras em 2016, ele afirmou que deixaria o posto se o governo obrigasse a empresa a precificar combustível abaixo do preço de mercado. Antes, a estatal tinha de segurar preços, o que a fez perder cerca de 40 bilhões de dólares.

A companhia adotou uma nova política de preços em julho do ano passado. Desde então, os valores dos combustíveis nos postos mudam frequentemente, até de um dia para o outro, ajustados de acordo com variáveis como câmbio e preço internacional do barril de petróleo. A política, elogiada pelos investidores, estava indo bem, até o começo da semana passada.

Caminhoneiros

Em poucos dias, os caminhoneiros mergulharam o Brasil numa profunda crise de abastecimento. Em greve desde o dia 21 por conta dos altos preços do diesel, deixaram de fazer entregas de insumos, produtos e combustíveis e bloquearam certas estradas. O impacto foi alto, já que mais de 60% dos bens e 90% das pessoas viajam por rodovias, segundo a Confederação Nacional dos Transportes.

Voos foram cancelados em alguns aeroportos em meio à escassez de combustível, linhas de ônibus foram reduzidas e produtos desapareceram das prateleiras dos supermercados. Fábricas precisaram paralisar suas produções e milhões de pintinhos e porcos sofreram com a falta de ração.

Para a Petrobras, o que estava em jogo não era apenas o preço dos combustíveis, mas sim a sua política de precificação, elogiada por investidores e a promessa para reverter as perdas para a estatal.
Para firmar uma trégua com os caminhoneiros, a companhia afirmou que reduziria o preço do diesel em 10% por 15 dias. Além disso, o valor passará a ter ajustes mensais, e não mais diários como ditava antes a política da companhia.

O anúncio aumentou o receio dos investidores de que o governo voltaria a interferir na companhia e as ações caíram.

Já às 21h30 deste domingo, 27, o presidente Michel Temer fez novo pronunciamento no Palácio do Planalto anunciando novas medidas para tentar conter a paralisação dos caminhoneiros. Temer anunciou que o preço do diesel sofrerá uma redução de 46 centavos por litro pelos próximos 60 dias, no que chamou de “sacrifícios no orçamento” para solucionar o impasse sem comprometer a Petrobras.

A crise pode custar até 27 bilhões de reais aos cofres do governo.

Petroleiros

Ainda que o governo tenha chegado a um acordo com a Petrobras sobre o preço do diesel, nem todos os setores estão satisfeitos. A Federação Única dos Petroleiros (FUP) pede a redução dos preços de gás de cozinha e combustíveis e a saída de Pedro Parente da presidência da Petrobras.

Também reivindicam a retirada das tropas das Forças Armadas que, desde a última sexta, ocupam algumas refinarias da Petrobras  para liberar o transporte de combustíveis. Pedem, ainda a manutenção dos empregos, a retomada da produção das refinarias, o fim das importações de derivados de petróleo, não às privatizações e ao desmonte da estatal.

Por isso, a Federação decidiu entrar em greve a partir da meia-noite da próxima quarta-feira (30), que deve durar 72 horas.

Michel Temer teria apelado a Pedro Parente que negociasse com os petroleiros. Em um momento em que o país vive uma crise de abastecimento, a paralisação dos petroleiros poderia ter graves consequências. 

Com a pressão e os desafios enfrentados pelo empresário, ele poderá antecipar sua saída da estatal, de acordo com a Eurásia.

“A ida para o conselho da BRF já pode ser um sinal de que ele está preparando terreno para essa saída, e a inferência política na Petrobras aumenta a chance dele renunciar”, afirmou Silvio Cascione, analista da consultoria de risco Eurasia, em entrevista ao site EXAME.

Com sua saída, a estatal pode perder novamente a credibilidade que recuperou, às duras penas, durante a gestão de Parente.



Você sabe o que acontece com funcionários de empresas que fazem locaute?

Marcelo Mascaro Nascimento 
Exame.com

Locaute: termo ganhou destaque com a greve dos caminhoneiros. Confira quais as consequências para funcionários, segundo advogado Marcelo Mascaro

(Valter Campanato/Agência Brasil/Agência Brasil)
Caminhoneiros paralisam a BR-040 , em Valparaíso de GO 
durante manifestação contra o aumento de combustíveis. 

Greve é um ato coletivo de trabalhadores, que paralisam provisoriamente a prestação de seus serviços para obter melhores condições de trabalho. Trata-se de um direito de todo trabalhador, desde que respeitados os requisitos e procedimentos definidos em lei.

Ocorre que da mesma forma que, às vezes, os trabalhadores decidem paralisar suas atividades para reivindicar melhores condições, o empregador pode optar por cessar provisoriamente as atividades de sua empresa. Nesse caso, os funcionários não trabalham, mas também não recebem seus salários e, assim, o empregador se utiliza desse procedimento para conseguir impor aos trabalhadores certas condições, em princípio, rejeitadas por eles, ou simplesmente não atender suas reivindicações.

Esse comportamento das empresas é chamado de locaute e, ao contrário da greve, é proibido pela legislação nacional e na maioria dos países de regime democrático. A principal diferença entre a greve e o locaute é que a primeira é um movimento para defender interesses dos trabalhadores, enquanto o segundo pretende obter vantagens econômicas para a empresa.

No caso da recente greve dos caminhoneiros, parece que ainda não estão muito claras as circunstâncias pelas quais o movimento se iniciou. De qualquer forma, o locaute estará caracterizado se a paralisação tiver ocorrido em razão de uma imposição das empresas distribuidoras e não de forma espontânea pelos próprios trabalhadores.

Em outras palavras, há locaute se as empresas distribuidoras se recusaram a oferecer trabalho aos caminhoneiros caso eles não aderissem ao movimento. Por outro lado, se a paralisação se deu pela iniciativa dos trabalhadores com vistas a conquistarem melhores condições de trabalho, há greve legítima.

Dessa forma, por ser um ato ilegal praticado pelo empregador, o locaute não gera nenhuma penalidade ao trabalhador, mas somente à empresa. Além disso, caso os trabalhadores sejam empregados e não autônomos, uma vez que a paralisação das atividades ocorreu por vontade única do empregador, este pode ser condenado a pagar a seus funcionários o salário dos dias parados.

Marcelo Mascaro Nascimento, sócio do escritório Mascaro Nascimento Advocacia Trabalhista

PF deflagra operação no Rio Grande do Sul contra locaute na paralisação de caminhoneiros

Eduardo Bresciani 
O Globo

O administrador de uma empresa de transportes é alvo de mandado de prisão

  MOISES SILVA / O TEMPO 23-05-2018 / Agência O Globo
Greve dos caminhoneiros em Juatuba, Minas Gerais

BRASÍLIA A Polícia Federal deflagrou uma operação no Rio Grande do Sul para combater a prática de locaute na paralisação de caminhoneiros. O administrador de uma transportadora é alvo de mandado de prisão temporária em Xangrilá (RS). Há ainda mais três mandados de busca e apreensão. A Polícia Rodoviária Federal e a Brigada Militar dão apoio à Operação, chamada de Unlocked.

A PF apura a suspeita de prática de atentado contra a liberdade de trabalho (Art. 197, II do Código Penal) e associação criminosa (Art. 288 do Código Penal).

De acordo com a operação, a atuação de locaute aconteceu nas rodovias RS-122, RS-452 e BR-116, na região dos municípios de Bom Princípio, Feliz e Vila Cristina. Os investigadores identificaram que o administrador estaria ameaçando caminhoneiros para que não realizassem entregas e obrigassem motoristas a desembarcarem de caminhões e os abandonassem em postos de combustíveis da região.

O inquérito que levou à operação foi aberto nessa quarta-feira, dia 30. Ao todo, já são 54 investigações abertas em todo o país para apurar a prática. Esse, porém, é o primeiro caso de prisão e buscas decorrente das apurações. A Justiça Federal de Goiás já rejeitou pedidos de buscas feitos pela Polícia Federal.