domingo, outubro 05, 2008

A cretinice a serviço da ignorância ou seria o contrário?

Adelson Elias Vasconcellos

A Revista VEJA, que chega às bancas neste final de semana, traz um quadro interessante chamado “O que a bolha ajudou a fazer e não vai murchar”. Nele, relaciona em diferentes países, dentre eles o Brasil, que foram enormemente beneficiados pela “bolha imobiliária” americana. Por aqui, destacam-se que as empresas nacionais captaram mais de 158 bilhões na BOVESPA e 20 milhões de pessoas emergiram da miséria (a expressão que a VEJA empregou foi “pobreza”. Prefiro “miséria" por entender que aspessoas sairam de um nada para um muito pouco. Porque não há manipulação estatística que me faça aceitar que uma pessoa que receba de três a cinco salários mínimos deixou de ser pobre e migrou para classe média. Isto só é aceitável num país que perdeu a consciência de si mesmo e a real noção de valor). E tamanho avanço de miseráveis para um degrau superior na escala econômico-social só foi possível graças ao progresso provocado, não apenas no Brasil, como de resto no mundo todo, cujo salto jamais se experimentou em tempo algum da humanidade justa pela torrente de capitais que circularam no planeta.

O quadro traz os benefícios havidos na China, por exemplo, onde mais de 400 milhões foram retiradas da pobreza, e foram construídos por todo o país mais de 30 mil quilômetros de ferrovias e outros 40 mil quilômetros de rodovias. Em Dubai foram investidos mais de 40 bilhões em projetos imobiliários. Em conseqüência dos investimentos na Índia, este país passou a deter mais de 65% do mercado mundial de tecnologia da informação e cerca de 46% no de Call Center. Imaginem quantos milhões de empregos foram gerados no mundo todo, o quanto de riqueza que foi produzida. A prosperidade trouxe enormes benefícios para o mundo todo, e muito dele o Brasil se beneficiou conforme já comentamos em inúmeros artigos.

Tão logo começou a crise, o senhor Luiz Inácio passou o tempo todo fazendo pouco dela, afirmando insistentemente que o Brasil estava blindado e que nenhum mal nos atingiria. Bravata pura e demagógica, porque seria impossível o Brasil ficar imune à uma recessão em escala mundial. Mas Lula, arrogante por natureza, só pensa em discursar de forma cretina, como é seu estilo, para tirar o melhor proveito político que puder, mesmo que jogue seu caráter e sua palavra na lama.

Nesta semana, em reunião do bando de cafajestes latinos, Chávez, Morales, Correa e o dito cujo, acabou mudando o discurso e reconhecendo a gravidade da crise. Claro isto foi em Manaus, portanto, longe de muitos palanques importantes nos quais Lula adora arrotar sua empáfia e, principalmente, má fé.

Também no início desta semana afirmou categórico e altaneiro que não editaria um pacote contra a crise (nós até comentamos isto aqui), porém no mesmo dia liberou parte dos compulsórios para aliviar o aperto monetário do sistema financeiro, liberou cinco bilhões para agricultura e estuda medidas para impactar exportadores. Anunciou ainda que o governo destinará 180 milhões, através da CONAB, para a aquisição de trigo, milho e sisal. Anunciou que o FGTS liberará para o BNDES cerca de 7 bilhões para continuidade dos investimentos privados, tendo em vista o arrocho no crédito. Claro que se trata de um pacote de medidas. Para fechar o embrulho, faltou apenas a fita para decoração, com o selinho de “Brasil: um país de tolos”.

Explicamos direitinho aqui neste espaço o quanto o Brasil foi diretamente beneficiado pela bolha imobiliária americana. E isto Lula, muito provavelmente, também sabe. Mas quem foi que disse que esta mente deformada aceita méritos que não sejam apenas os seus? Deitou e rolou sobre a crise americana, esquecendo-se que o “cassino” como ele gosta de acusar, jorrou bilhões e mais bilhões em títulos públicos que remuneram com os juros mais caros do mundo os investidores, fazendo com que a dívida interna saltasse de 600 bilhões em 2003, para 1,3 trilhões em agosto de 2008 (conforme o próprio Banco Central informou). Donde este ser pensante que nos desgoverna imagina tenha saído tamanho volume de dinheiro? E registre-se, ainda, que os jogadores de “cassinos” vão em busca de antros de jogatina que pagam os melhores prêmios. E, afinal de contas, o que tem sido a política econômica do senhor Luiz Inácio, insaciável na captação de mais e mais dinheiro dos jogadores, que entram à noite e vão embora raspando um pouco mais de nossas riquezas ? Justamente, um belo de um cassino, onde o proveito político fica com ele, e o lucro financeiro com os investidores estrangeiros, ou jogadores.

Assim, este senhor não tem moral para acusar quem quer que seja sobre “cassinos financeiros”.

Mas Lula não seria quem é se não se aproveitasse de um palanque eleitoreiro, sua tribuna preferida, para, fazendo carreata no ABC para empurrar a candidatura de Luiz Marinho (continua a usar a máquina pública para fins eleitoreiros, o que é ilegal), e soltar suas pérolas cretinas e mistificadoras. Dentre as sandices proferidas destaco duas que merecem ao menos o devido reparo por se tratar, de um lado, de uma mentira grosseira e, de outro, um total desrespeito aos empresários da SADIA e da ARACRUZ. Ao comentar sobre a crise, acusou estas empresas de que, as enormes perdas cambiais que tiveram nos últimos dias, foi em razão não da crise mas de que "...Elas vinham especulando contra a moeda brasileira. Vinham praticando, por ganância, uma especulação nada recomendável...".

A mentira se dá por que elas não especulavam “contra” o real, e sim acreditaram na valorização da nossa moeda. E como o próprio governo demorou a compreender que a crise também nos atingia, os empresários não esperavam que a crise provocassem uma desvalorização tão rápida de nossa moeda frente ao dólar. O homem não dizia que estávamos blindados? Então, é isso, aí, quem acreditou quebrou a cara.

Se no início da semana Lula mudara o discurso e admitia a gravidade da crise, hoje, no palanque, resolveu desdizer-se. Observem: “...lá, (nos Estados Unidos) ela é um tsunami; aqui, é uma marolinha. Não dará nem para esquiar.” Bem, primeiro acho que ele confundiu “esquiar” com “surfar”. Segundo, se aqui é “marolinha”, qual a razão das medidas que seu governo tomou nesta semana?

Mais: a chamada “economia real” já foi atingida pela crise. Dentre as principais moedas, o real é a que tem apresentado maior desvalorização ante o dólar. Em setembro, a moeda brasileira perdeu 22,88%. Enquanto isso, o euro teve baixa de 4,8%, e o iene avançou 2,12%. A falta de dinheiro para emprestar afeta a indústria, mas sobretudo o agronegócio. Tanto que, a exemplo do pacote para ajudar os bancos menores, o Banco Central já mexeu nas regras do compulsório para ajudar a agricultura. O mercado financeiro aqui dentro sabe bem que, pelo menos três financeiras brasileiras de médio porte, enfrentam problemas de liquidez. Foram forçadas a parar de emprestar dinheiro. Foram autorizadas pelo Banco Central, como medida de emergência, a se financiarem através da emissão de papéis baseados em empréstimos a receber – sobretudo no formato consignado, onde o risco de calote é quase zero.

E, demonstrando toda sua maldade, leviandade e ignorância, ainda acrescentou que, crises menos graves do que a atual, já prejudicaram o Brasil de maneira drástica. "A crise americana é maior do que a asiática, é maior do que a crise do México, que quebraram o Brasil. E ela ainda não chegou diretamente ao País", disse. "Nós vamos ensinar a esses países como a gente vê uma crise dessas. Vamos enfrentar essa crise trabalhando mais e investindo mais." Resta saber de onde ele pensa que sairá o dinheiro ! quantos as crises passadas, devemos ressaltar: primeiro, o país recém estava arrumando sua casa, razão porque se achava tão vulnerável. Segundo, o mundo vivia momentos de turbulência e baixos índices de crescimento. Terceiro, a crise de agora tem afetado muito mais os países europeus e os Estados Unidos, ou seja, os ricos, em razão da ação vigilante de seus bancos centrais. Reparem que, a rigor, nenhum país emergente tem sido afetado pela crise, portanto, esta aparente calmaria não é uma exclusividade brasileira.

E, por fim, porque a âncora que nos posiciona nesta situação confortável não foi construída no governo do senhor Lula, e sim no governo de FHC com o Plano Real e todas as medidas adotadas naquela época, e contra as quais sempre Lula e seu partido foram contrários e fizeram ferrenha oposição.

O que me causa espanto nisto tudo, não é o discurso cretino de Lula. Isto tem sido assim desde que ele surgiu no cenário político. Mas, sim, a agressividade para com as empresas SADIA e ARACRUZ acusando-as de “gananciosas”. Gananciosas em quê, se a tendência era de uma constante valorização do real como moeda? Que mal há em continuar apostando nesta tendência para tentar aumentar sua receita, já que o governo lhes toma, sem o menor esforço, grande parte de seu capital de giro e lucro para distribuir em mensalões, cartilhas fajutas, ostentação nababesca para uma coorte de palacianos canalhas, vagabundos, larápios e ordinários? Pelo menos, os empresários tentam ganhar dinheiro com trabalho, e trabalho honesto, produtivo, que produz renda, gera empregos e paga o fausto ordinário dos gigolôs da Nação!

Dirigir-se a eles da forma leviana e desrespeitosa como Lula o fez, é um bofetada na cara de quem acredita neste país, e nele investe para gerar progresso e melhoria na qualidade de vida de seu povo. E o senhor Lula, a não ser o mau uso do dinheiro que toma da Nação, o que de útil e construtivo fez desde 2003 a não ser nos encher de vergonha ? Portanto, fica a pergunta inicial em aberto: estamos diante da cretinice a serviço da ignorância ou será o contrário?

São Paulo vai ter um 2° turno que não precisava.

Adelson Elias Vasconcellos

Reparem nos números da pesquisa DATAFOLHA divulgada na noite deste sábado. Segundo o instituto, a petista Marta Suplicy, com 34% das intenções de voto, vai disputar a prefeitura com o democrata Gilberto Kassab, com 28% das preferências. Em relação à pesquisa anterior, Marta caiu um ponto e Kassab subiu um ponto. Brancos e nulos somaram 4% e indecisos, 2%.

Como a margem de erro do levantamento é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, o tucano Geraldo Alckmin, pelo resultado, está fora da disputa, com 19% das intenções de voto.

Paulo Maluf (PP) chega ao dia da eleição com 6% das preferências, Soninha (PPS) tem 5%, e Ivan Valente (PSOL) está com 1%. Os demais candidatos não alcançaram 1% dos votos.

O Datafolha fez a pesquisa sob encomenda da Folha de S. Paulo e TV Globo. O Instituto entrevistou 5.153 eleitores entre os dias 3 e 4 de outubro. A pesquisa foi registrada no TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral) de São Paulo sob o número 03500108-SPPE.
Segundo o Datafolha, Kassab, hoje, lidera o 2º turno, com 50% das intenções de voto, contra 41% de Marta Suplicy.

Instituto também fez simulação entre Alckmin e a petista. O tucano aparece com 50% e Marta com 42%.

Se as eleições do 2º turno fossem hoje, a petista perderia dos dois candidatos.
Reparem que o eleitorado de Kassab é praticamente o mesmo de Alckmin, conforme a pesquisa demonstra na avaliação sobre o segundo turno. Fica claro que, se Alckmin tivesse sossegado o facho, a soma de votas dele e Kassab, seriam suficientes para reeleger o candidato democrata já em primeiro turno, o que, aliás, seria um merecido castigo para a arrogância e prepotência de Marta Suplicy.

Resta saber o seguinte: Alckmin sempre afirmou que se fosse ele o escolhido para disputar o segundo turno com Marta, ele acreditava no apoio do atual prefeito Kassab. Muito bem, e se for Kassab quem venha disputar o segundo turno com a petista, qual dos candidatos Alckmin apoiará?

O inferno são os outros

Otavio Cabral e Cíntia Borsato, Revista VEJA

O Brasil não é uma ilha imune à epidemia mundial de aversão ao risco. A crise atinge a todos. Os que se prepararam mais sofrem menos

A FICHA CAIU
O presidente Lula, da tranqüilidade ao superlativo: "Uma das maiores crises que o mundo já viu"

Depois de um esforço inicial desastroso, os Estados Unidos começaram a consertar a engrenagem de crédito de sua economia e, em conseqüência, a da economia mundial. Na sexta-feira passada, a Câmara dos Deputados aprovou o pacote de 700 bilhões de dólares destinado, principalmente, a absorver, e depois revender no mercado, papéis podres que entopem os canais normais de empréstimos para empresas e consumidores. O plano inclui também uma série de incentivos fiscais no valor de 150 bilhões de dólares. Foi um grande salto para a Casa Branca, que, ao falhar na votação inicial, na segunda-feira, disseminou pânico, fez as bolsas desabar e colocou o país mais perto do precipício da recessão, mas apenas um pequeno passo para os mercados mundiais, cujos desafios estão longe de ser resolvidos somente com o desfecho do processo legislativo americano – as bolsas caíram mesmo com a aprovação do projeto pela Câmara e sua ratificação, horas depois, pelo presidente George W. Bush.

Com a aprovação do pacote de ajuda, Tio Sam salvou o mundo do colapso e será possível, primeiro, medir o tamanho do estrago e, em seguida, empreender a caminhada de volta na reconstrução dos mecanismos americanos e globais de produção de riqueza. Isso vai depender primordialmente de ter sido mantido mais ou menos intacto o ímpeto de crescimento da economia chinesa e dos demais países emergentes – o que vai garantir preços compensadores para as matérias-primas básicas, as commodities, que ainda são o sangue e a carne das economia do Hemisfério Sul. Vai depender também da coragem do consumidor americano de voltar às compras nas lojas e nas bolsas de valores. Acessoriamente, será preciso que os mercados financeiros e a economia real da Europa recuperem pelo menos parte de seu vigor pré-crise.

AÇÃO PREVENTIVA 1
Henrique Meirelles, presidente do BC: injeção de recursos e venda de dólares para compensar a seca do crédito externo

Nesse processo, alguns países sofrerão mais. Outros menos. Mas nenhum escapará ileso aos efeitos desse cataclismo. Com sua intuição descomunal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva percebeu que é preciso reconhecer que a nave verde-amarela vai pelo menos balançar com as ondas de choque da tormenta externa. "A crise é muito séria e tão profunda que não sabemos o seu tamanho. Talvez seja uma das maiores crises que o mundo já viu", afirmou o presidente na terça-feira passada, com um semblante mais circunspecto e grave do que o habitual, como a demonstrar que aquilo que acabara de dizer, e não o que vinha dizendo até então, era para ser ouvido com atenção. E prosseguiu: "A diferença é que, desta vez, os Estados Unidos estão na crise e nós estamos sólidos e precavidos. O Brasil fez as lições de casa e eles não fizeram". Tomara que o presidente esteja correto, e o país consiga atravessar com danos moderados o abalo nas finanças americanas, que já é considerado o mais profundo em oito décadas. A economia interna tem resistido, de fato, com robustez. Em grande parte devido aos escudos protetores que lhe permitem hoje navegar com mais segurança e capacidade em momentos de tormenta externa, como agora.

O problema é que o vírus das crises, assim como o da gripe, sofre mutações. E, embora o país tenha feito um esforço admirável para aprender com experiências traumáticas, é temerário imaginar que o conhecimento adquirido nas crises passadas será suficiente para curar o que Barry Eichengreen, professor de economia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, apelidou de "um novo bicho, a pior crise da era recente da securitização em massa". Os reflexos no Brasil já são sentidos. Primeiro, na queda acentuada do preço das ações e na alta do dólar, cuja cotação voltou a superar 2 reais pela primeira vez desde agosto de 2007. Mas uma nova onda de contágio – e mais perigosa, se agravada – é a contração drástica do crédito externo. A torneira fechada dos bancos americanos e europeus já reduziu a liquidez no sistema bancário do país. Os empréstimos para as empresas e para as pessoas já ficaram mais caros em relação ao começo do ano, e os prazos diminuíram. Há um ano, companhias brasileiras de médio porte conseguiam financiar-se pelo prazo de doze meses a taxas médias anuais de juros de 15%. Hoje, os prazos foram reduzidos para dois meses, e as taxas dobraram. Bancos também começam a apertar o crédito ao consumidor. Há um ano, o prazo médio para financiar um carro zero-quilômetro era de 84 meses. Hoje, são 72 meses e, se a crise não se dissipar logo, pode haver um novo aperto. As vendas de automóveis, que cresceram 30% em 2007, já dão sinais de desaquecimento para 2008. As estimativas variam de 10% a 20%. Também já perde força o apetite do investidor externo na Bovespa, um dos mais importantes combustíveis que ajudaram a acelerar o ritmo de crescimento do país nos últimos anos. No ano passado, 80% das ofertas públicas de ações (IPO, na sigla em inglês) foram absorvidas por estrangeiros. Neste ano, com a deterioração da crise e a redução de emissões de ações, esse patamar caiu para 50%.


AÇÃO PREVENTIVA 2
O ministro da Fazenda, Guido Mantega: aumento do financiamento público para a agricultura e as exportações

O governo, com certo atraso, deu-se conta do perigo apresentado pelos fatos acima. E já elaborou um contra-ataque – na verdade, uma versão local e diminuta da monumental ação conjunta dos bancos centrais mundiais para impedir o congelamento do crédito. Até aqui, a linha de frente da reação brasileira ficou a cargo do presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles. Nas duas últimas semanas, a autoridade monetária adotou uma série de medidas destinadas a aumentar a liquidez no sistema financeiro. Em linhas gerais, o BC reduziu os depósitos compulsórios que precisam ser recolhidos pelos bancos, elevando a oferta de crédito na economia. A maior preocupação envolve as instituições de pequeno porte. Com uma base menor de clientes, elas possuem fontes mais limitadas de captação de recursos. Até o ano passado, viviam da fartura do crédito externo barato. Agora, sentem de maneira mais aguda os efeitos da tormenta financeira. Outra ação do BC foi vender dólares no mercado futuro. Essa medida foi necessária porque o setor privado nacional ainda tem um débito externo líquido – ao contrário do governo, que eliminou a dívida externa e dispõe de reservas superiores a 200 bilhões de dólares. Isso significa que, em momentos de incerteza acentuada, como o atual, os bancos e empresas que dispõem de excesso de moeda estrangeira em caixa evitam vendê-la no mercado. Assim, faltam dólares para aqueles que têm de honrar seus compromissos comerciais, e o BC tem de oferecer os recursos. Não se trata de queimar reservas, como nas crises passadas. O Banco Central vende dólares com o compromisso de recomprá-los em trinta dias, com efeito nulo sobre as reservas. O governo também decidiu elevar as linhas de financiamento à exportação – modalidade conhecida como adiantamento de contrato de câmbio (ACC). Metade dos recursos destinados a essas linhas vinha de bancos estrangeiros, entre eles duas instituições que lutam para sobreviver – o americano Wachovia, comprado na semana passada pelo Wells Fargo, e o europeu Fortis. O crédito de origem exclusivamente doméstica não foi suficiente para substituí-lo.

Até meados de setembro, o presidente Lula e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, compartilhavam da mesma opinião: a crise da economia americana era localizada, passageira e, no máximo, atingiria o mercado financeiro, punindo os especuladores. Na semana passada, com a crise já em estado de septicemia, o governo percebeu que a previsível contaminação em série cruzou rapidamente o hemisfério e mostrou que a propalada imunidade brasileira não era tão absoluta como se tentava fazer crer. A imensa popularidade do presidente Lula está indissociavelmente ligada ao sucesso da economia. Pesquisa do Ibope divulgada na semana passada mostrou que a avaliação positiva do governo atingiu seu maior índice desde 2003 (69% da população considera o governo bom ou ótimo). É a segunda maior marca na série histórica da pesquisa, iniciada em 1985. Só fica abaixo da do governo de José Sarney, que, em 1986, durante o Plano Cruzado, obteve 72% de aprovação. Nos dois casos, a chave do sucesso foi o otimismo da população com relação ao ambiente econômico, medido pelo bem-estar proporcionado pelo aumento do consumo. Paira sobre os petistas a sombra do naufrágio do Cruzado, que devorou em pouco tempo a imensa popularidade de Sarney.

O governo tem demonstrado estar de posse da informação e dos meios para arrefecer os efeitos mais desastrosos da crise. O mundo econômico e financeiro atual é de tal forma interconectado que seria insano imaginar que o Brasil pudesse ser uma ilha imune à epidemia mundial de aversão ao risco. Os países viáveis fazem parte da ordem capitalista mundial que produz prosperidade crescente para todos mas, de tempos em tempos, esvai-se em crises também globais. É tola utopia querer participar apenas da prosperidade. Mas é sinal de sabedoria se preparar para sofrer o menos possível com as inevitáveis e sazonais crises do sistema.

A praga da igualdade

Guilherme Fiúza, Revista EPOCA

Está confirmado: se tudo der certo, se o controle ético da sociedade continuar nesse caminho, se a batalha contra a desigualdade seguir firme os atuais padrões, o Brasil se tornará em pouco tempo 100% medíocre e estúpido.

O cancelamento pela TV Globo do debate eleitoral em São Paulo, no Rio e em outras capitais é o sinal dos tempos. A lei obriga à participação de todos os candidatos. Inclusive o Zé das Couves.

Se o Zé das Couves não for convidado, o debate só acontece se ele autorizar. Em nome da democracia e da igualdade.

É claro que a emissora cancelou o programa. Ela não achou a sua audiência no lixo. Nem os olhos e ouvidos do espectador são penico. A plataforma do Zé das Couves interessa aos paladinos lunáticos da ética. Não às pessoas comuns.

Não tenham dúvidas: chegará o dia em que o “Jornal Nacional” terá que obedecer a uma cota de notícias sobre homossexuais. Pelo menos uma das chamadas de abertura terá que ser relacionada aos negros. E o noticiário político terá que ter o cantinho dos nanicos.

É comovente ver uma sociedade emburrecendo em nome da virtude.

Ferreira Gullar e o capitalismo

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa

Com o alto nível intelectual de sempre e o estilo primoroso de escrever com arte, traçando um paralelismo entre a realidade e a ficção, o poeta Ferreira Gullar publicou artigo na "Folha de S. Paulo" de 7/9, caderno Ilustrada, traduzindo o Brasil como o imaginário país de Bralândia, nação sobre a qual se lançam investidas sindicais, para ampliar de um para quatro dias de trabalho de todos por ano contribuição compulsória no sentido de multiplicar às alturas o Imposto Sindical.

O produto é distribuído aos órgãos de classe, sem fiscalização por parte do Tribunal de Contas, já que a CUT se mobilizou e o ministro Carlos Lupi convenceu o presidente da República a vetar o dispositivo aprovado pelo Congresso que previa tal controle. Isso tudo, como diz o papa do neoconcretismo, no reino da Bralândia, espécie de Oz como no filme da Metro que consagrou Judy Garland. Ferreira Gullar, na peça que produziu, percorre a história do sindicalismo de Bralândia, ressaltando suas divergências e convergências com o processo de industrialização.

Uma análise de fato primorosa, que vale a pena ler. As contradições, como tudo na vida, são inevitáveis. É natural, a história universal está repleta de exemplos. Mas há limites. Agora, em Bralândia, uma tentativa de rompê-los. Para pior. No Brasil, o sindicalismo foi fortalecido e usado por Vargas, que instituiu o Imposto Sindical. O sistema, que se mobilizou pela posse de João Goulart em 61, transformou-se em máquina partidária e acabou se constituindo no principal motivo que levou à derrubada do governo pelo poder militar.

O empresariado urbano e rural uniu-se ao golpe nos quartéis, temendo ser tragado por uma sublevação, formando uma aliança entre o capital e a força das armas. Passados quinze anos, estourou a primeira greve pós 64 no ABCD paulista e dele emergiu a liderança de Luís Inácio Lula da Silva. Lula, o metalúrgico, frisavam os jornais, repetindo o ritmo contido no título do filme em exibição, "Mimi, o metalúrgico", da diretora Lina Werthmuller. A expressão pegou e Lula decolou rumo ao futuro.

A ocupação da administração pública pelo poder militar era flagrante. Todos os ministérios e empresas estatais possuíam generais e coronéis no comando. Às vezes, majores. A administração pública só, não. O sistema empresarial privado, também. Lembro-me que Ronald Levinhson colocou o general Idálio Sardenberg na presidência da Delfim Caderneta de Poupança, responsável por colossal rombo no Sistema Financeiro de Habitação do BNH.

Gullar focaliza mais em Bralândia o confronto que começou a existir entre o empresariado e a noite dos generais, e que levou a livre iniciativa a compor com lideranças operárias. A presença militar era mais onerosa do que a sindical. Mas dei a este artigo o título "Ferreira Gullar e o capitalismo". Sei que Gullar sempre formou na esquerda. Mas não estou querendo, nem de leve, fazer qualquer restrição a ele.

É alguém honesto, sob todos os aspectos, inclusive intelectualmente. Estou, isso sim, aproveitando o tema para tentar uma colocação sobre a qual pensei livremente há poucos dias. Uma colocação de ordem geral. No mundo, na verdade, só existe o capitalismo. Seja ele privado ou estatal.

Ele, de tão forte, inexpugnável na essência dos fatos, encontra-se por igual em todas as nações, em todos os momentos. Inclusive agora me espanto porque, no auge da guerra fria, de 48 a 75, os Estados Unidos, do alto de seu imperialismo, de que são exemplos mais fortes as guerras da Coréia e do Vietnã, não apontaram contradição do imperialismo soviético que invadiu a Hungria em 56 e a antiga Tchecoslováquia em 68, para destroçar a tentativa de libertação de Moscou, que foi chamada de Primavera de Praga.

O capitalismo está presente em todos os instantes da existência humana, de um lado ou de outro. Veja-se agora o exemplo definitivo da China. Nem pode ser de nenhuma outra maneira, sobretudo sob o ângulo marxista de que capital é trabalho acumulado. Portanto, a capitalização é inseparável do processo de desenvolvimento. No plano do indivíduo, se as pessoas não são iguais, umas vão se capitalizar mais do que outras.

Os países, também. O capitalismo, desta forma, é algo inevitável na Terra. Pode ser que no Céu seja diferente. Na vida terrena não pode ser. O tema a que Ferreira Gullar recorreu no domingo, no seu espaço permanente na FSP, que acompanho sempre, implicitamente assinala a realidade a que me refiro. Mas vai além: mostra que as teses distributivas do passado transformam-se em concentradoras de renda, bastando para isso que os insatisfeitos passem para o lado do poder e alcancem a satisfação que, no fundo, sempre desejaram.

Este, inclusive, é o conflito maior entre o reformismo e o conservadorismo. O reformista de ontem é o conservador de amanhã. Assim, a conquista do poder na Bralândia gullariana significou a maior derrota do impulso de reforma. Existe a opressão, o opressor, o oprimido. Digo eu. Quase nunca o oprimido é contra a opressão. É, isso sim, contra o fato de não ser ele o opressor. Uma vez no poder, o fator ético se evapora. Só em Bralândia?

Não foi por falta de aviso: Correa ameaça nacionalizar campo da Petrobras

Associated Press

Presidente do Equador exige revisão do contrato e adota tom agressivo: 'não brinquem com fogo'

QUITO - O presidente do Equador, Rafael Correa, ameaçou neste sábado, 4, nacionalizar um campo da Petrobras se a empresa brasileira não acelerar a renegociação de seu contrato. "Cuidado! Se demorar demais, nacionalizo esse campo e eles (Petrobras) vão embora do país", pressionou Correa durante o seu programa no rádio. "Aqui, ou se cumprem as exigências do país ou se vão", avisou.

"Hoje, mais do que nunca temos a legitimidade democrática para exigir que essas empresas obedeçam às regras do país", disse. "Senhores das multinacionais petrolíferas, não brinquem com fogo, vocês sabem que eu não brinco", ressaltou.

O líder equatoriano já havia afirmado que se as conversas não avançassem, o campo passaria às mãos da estatal Petroequador. A licença de exploração do local foi concedida à Petrobras em 1995 e o campo encontra-se na região amazônica.

Desde o dia 23, as instalações da Odebrecht no Equador estão ocupadas pelo Exército e dois executivos brasileiros estão impedidos de sair do país. Na última sexta-feira, Correa manifestou o desejo de que a companhia brasileira Norberto Odebrecht "não regresse" ao país e reiterou que, por enquanto, as sanções contra a empresa estão mantidas. Na semana passada, a Odebrecht divulgou nota afirmando estar disposta a atendendo a todas as exigências de Correa.

O japonês Alckmin

Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa

Na visita do presidente Geisel ao Japão, a primeira grande solenidade seria a recepção oficial do imperador Hiroito no Palácio Akasaca, onde os dois se encontrariam (o imperador não vai ao aeroporto).

O lugar de cada convidado estava liturgicamente marcado pelo cerimonial de mil anos. Os quatro ministros brasileiros (Reis Veloso, Severo Gomes, Azeredo da Silveira e Shigeaki Ueki) ficariam imediatamente atrás do presidente Geisel. O imperador Hiroito ia chegar às 9 horas em ponto. Às 8,55, o ministro Scarabotolo, chefe do Cerimonial do Itamaraty, entrou em pânico. Shigeaki Ueki não aparecia e a cadeira dele, na delegação brasileira, estava lá, reservada, vazia como um terreno baldio.

Ueki
O ministro Scarabotolo ia de um lado para o outro, procurava, Ueki não chegava. E o imperador Hiroito já apontando na entrada do palácio. O jornalista Adirson de Barros, brilhante como sempre, sentiu o drama do cerimonialista brasileiro, chamou-o e sugeriu: - Ministro, tenho uma solução. Pegue um japonês desses mais de 200 da segurança que estão rondando por aqui, peça para ele sentar-se no lugar reservado para o Ueki, que ninguem vai sentir a falta dele. O senhor já viu conhecer japonês pela cara?

O Ueki não apareceu, a cadeira dele foi ocupada e Hiroito chegou.

Kassab
O drama do ex-governador Alckmin em São Paulo não é mais nem a certeza, que já vem manifestando aos amigos nos últimos dias, de que não chegará mesmo ao segundo turno para disputar com a Marta Suplicy.

Desespera-o confirmar que, como ao ministro Shigeaki Ueki no Japão, os tucanos, nacionais, estaduais e municipais, Fernando Henrique, José Serra e da Câmara de Vereadores, o substituíram pelo prefeito Kassab. E pior: ninguém percebeu.

Serra
Véspera de eleição, nada mais há o que fazer. É esperar a voz do povo. Mas os apressados, afobados, ou simplesmente perdigueiros do futuro, já começam a tirar conclusões das urnas nem sequer ainda abertas.

Na "Folha", o Kennedy Alencar, dos mais atilados repórteres políticos da nova geração, já salta de 2008 para 2010:

"A reeleição de Kassab seria prova da regra de que governos bem avaliados tendem a continuar no poder ou a eleger sucessores. Aí começa a complicar para Serra. Por que Lula não poderia realizar com Dilma o que Serra está prestes a fazer com Kassab? Para Lula, o verdadeiro terceiro mandato seria a eleição da ministra da Casa Civil. A campanha estaria pronta. Feliz com Lula? Vote em Dilma".

Lula
Acontece que há uma diferença fundamental: Serra está chegando, Lula saindo. Se Lula não fosse sair em 2010 e Serra fosse apenas apoiar alguém em 2010, não dava nem para especular: o candidato de Lula era imbatível. Mas o eleitor quer saber do futuro. Serra, candidato em 2010, pesará mais para ele do que Lula, saindo em 2010, pesará para outro.

O governo e o PT fazem um carnaval fora de hora, uma micareta, sobre a força de Lula para transferir votos para os candidatos do PT nesta eleição e sobretudo em 2010. Veremos. Está perto a abertura das urnas.

Até agora, apesar das viagens e comícios insistentes de Lula, pelo País inteiro, levando apoio aos candidatos do PT, o desempenho do partido não tem respondido à presença do presidente, muitas vezes irregular, ilegal, levando dinheiro, inaugurando obras ou em órgãos do governo federal.

10 capitais
Vamos analisar os candidatos petistas das 10 principais capitais:

1 - São Paulo: Marta balança.

2 - Rio: Molon vai ter votos de candidato a vereador.

3 - Belo Horizonte: nem candidato o PT tem. Segura o andor do candidato tucano de Aécio, Marcio Lacerda.

4 - Salvador: o petista Walter Pinheiro, o melhor candidato, ainda está embolado com ACM Neto, neto de Antonio Carlos Magalhães, e o prefeito João Henrique, do PMDB, do ministro Gedel Vieira Lima e da generosa transposição das águas do rio São Francisco.

5 - Recife: vitória segura do candidato João Costa, do PT, apoiado pelo prefeito e pelo governador. Lula foi lá e a posição do PT não mudou nada. Caiu até.

6 - Fortaleza: a bela reeleição da prefeita Lousianne não dependeu do apoio de Lula, que nem a apoiou na primeira vitória, em 2004.

Duas do PT
7 - Porto Alegre: o velho latifúndio eleitoral do PT está tão desmatado e devastado, que o partido está ameaçado de nem chegar ao segundo turno. E se chegar é derrota certa, porque a cidade se cansou deles.

8 - Curitiba: o prefeito Beto Richa, do PSDB, vai reeleger-se no primeiro turno, derrotando a candidata do PT.

9 - Natal: a petista Fátima Bezerra está sendo derrotada junto com o PMDB dos Alves, apesar dos caminhões de verbas públicas.

10 - São Luís: também o PT sem candidato.

Assim, das dez maiores capitais, em duas o PT nem candidato tem; em uma o candidato tem voto de vereador; em duas a derrota já é certa; em duas caminha para uma derrota anunciada; em uma tem chance, mas com dificuldade. Vitória certa só em duas, graças aos prefeitos e governadores.

Onde Lula elege poste? Em lugar nenhum. Só ganha onde já ia ganhar.

"A democracia virou um valor"

Diego Escosteguy, Revista VEJA



GUARDIÃO
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, diz que a Constituição de 1988 é responsável pelas duas décadas de normalidade institucional


Atual presidente do Supremo Tribunal Federal, cuja função precípua é interpretar as normas constitucionais, o ministro Gilmar Mendes é um inflexível defensor da Carta de 1988. "É ela que tem garantido a normalidade democrática", diz. Segundo Mendes, o recente acúmulo de julgamentos históricos no STF, como o que instituiu a fidelidade partidária ou o que resultou na liberação de pesquisas com células-tronco, demonstra a centralidade da Constituição na vida brasileira. Aos críticos do perfil ativista assumido pelo tribunal nos últimos anos, que o leva a decidir sobre questões ignoradas pelos outros poderes, o ministro responde: ao fazer isso, o Supremo apenas atende à missão e faz uso das prerrogativas que a Constituição lhe deu.

Qual o peso da Constituição na consolidação da democracia no país?
Ela é boa e, no essencial, funciona. Por causa dela, vivemos um período longo de normalidade institucional. Solavancos não faltaram. Tivemos confisco de poupança, crises inflacionárias, o impeachment do presidente Collor e numerosos casos de corrupção, como o do mensalão. Todos, contudo, foram resolvidos dentro dos padrões estabelecidos pela Carta. Um dos motivos da estabilidade é o grande equilíbrio de poderes proporcionado pela Constituição. O Judiciário ficou mais forte, criaram-se um Ministério Público independente, uma imprensa livre. Fomos além da tradicional divisão entre os três poderes. Com isso, não existem adversários da democracia. Todos os atores políticos comungam das regras do jogo democrático. A democracia virou um valor em si mesma.

As 62 emendas já recebidas pela Constituição não mostram que há falhas no texto original?
As emendas não deformaram significativamente a Constituição. A parte fundamental do texto, que tange aos direitos individuais, permanece a mesma. Houve mudanças na ordem econômica, principalmente nos monopólios, durante o governo Fernando Henrique, assim como no sistema previdenciário dos servidores públicos, que era insustentável. Essas emendas foram circunstanciais. É natural da democracia que o Congresso possa fazer essas mudanças, dentro do que está previsto na própria Constituição. A Carta deve se moldar às transformações exigidas pela sociedade. Trata-se de uma virtude, não de uma falha. O que se qualifica como detalhismo da Constituição é produto do sentimento da época, quando ainda vivíamos sob o trauma da ditadura e se acreditava que para assegurar um direito era preciso inscrevê-lo na Carta.

Qual a principal inovação da Constituição?
Temos um dos mais amplos catálogos de direitos fundamentais do mundo. Mas só os direitos fundamentais não resolvem. O que é importante são os mecanismos judiciais para garantir esses direitos – e eles também estão previstos na Constituição. Hoje, por exemplo, há ações na Justiça questionando o valor do salário mínimo, tendo em vista que a Constituição determina expressamente que ele deve garantir a subsistência digna de uma família. A Constituição traz esse tipo de desafio, especialmente ao Supremo: como interpretar o texto constitucional num caso como o do salário mínimo, que tem repercussões enormes? Não há soluções fáceis.

O Supremo demorou a entender o espírito da Constituição?
O Supremo é um órgão-chave na estabilidade institucional. É o órgão central, moderador desse processo e dos embates democráticos. O tribunal teve uma composição mista por muito tempo. Havia juízes que estavam na corte desde a ditadura e outros nomeados em seguida à promulgação da Carta. Isso permitiu uma transição suave na forma de interpretar o novo texto constitucional. Creio que essa transição esteja se concluindo. O tribunal tem experimentado novas formas de atuação e decisão, dentro da missão que lhe foi confiada. A timidez inicial foi compreensível, diante dos embates e perplexidades da época.

Uma reforma mais radical

Diogo Mainardi, Revista VEJA

"Abolir o trema ou o acento agudo de alguns ditongos deveria ser apenas o primeiro passo para abolir o resto do alfabeto"

Eu sou um ardoroso defensor da reforma ortográfica. A perspectiva de ser lido em Bafatá, no interior da Guiné-Bissau, da mesma maneira que sou lido em Carinhanha, no interior da Bahia, me enche de entusiasmo. Eu sempre soube que a maior barreira para o meu sucesso em Bafatá era o C mudo. Aguarde-me, Bafatá!

Nossa linguagem escrita está repleta de letras inúteis. A rigor, todas elas. Abolir o trema ou o acento agudo de alguns ditongos deveria ser apenas o primeiro passo para abolir o resto do alfabeto. Se os italianos decidissem abolir a linguagem escrita, perderiam Dante Alighieri. Se os brasileiros decidissem abolir a linguagem escrita, conseguiriam libertar-se de José Sarney.

José Sarney idealizou a reforma ortográfica em 1990. Ela foi escanteada por praticamente duas décadas, até a semana passada, quando Lula a sancionou. A posteridade se recordará da reforma ortográfica como a grande obra de José Sarney, ao lado da emenda parlamentar que permitiu ampliar o aeroporto internacional do Amapá para o atendimento de 700 000 passageiros.

Para os brasileiros, a reforma ortográfica tem um efeito nulo. Ninguém sabia escrever direito antes dela, ninguém saberá escrever direito depois. O caso dos portugueses é mais complicado. Eles concordaram em abrasileirar sua ortografia. Isso acarretou a necessidade de abdicar de um monte de consoantes duplas herdadas do latim. Alguém ainda se lembra de José de Anchieta? Quando ele desembarcou no Brasil, abdicou do latim e passou a rezar em tupi, para poder se comunicar com os canibais. Foi o que os portugueses, mais uma vez, concordaram em fazer agora: para poder se comunicar com os canibais – Quem? Eu? –, adotaram sua língua.

Eu entendo perfeitamente o empenho dos brasileiros em deslatinizar a língua escrita. De certo modo, o latim representa tudo o que rejeitamos: os valores morais, o rigor poético, o conhecimento científico, o respeito às leis, a simetria das formas, o pensamento filosófico, a harmonia com o passado, o estudo religioso. Ele encarna todos os conceitos da cultura ocidental que conseguimos abandonar. Eliminando o C e o P de certas palavras, Portugal poderá se desgrudar da Europa e ancorar na terra dos tupinambás.

Eu já enfrentei outra reforma ortográfica. Em 1971, durante a ditadura militar, Jarbas Passarinho, por decreto, cancelou uma série de acentos. Além do Brasil, só a China de Mao Tsé-tung pensou em fazer duas reformas ortográficas em menos de quarenta anos. Quando a reforma ortográfica de Jarbas Passarinho foi implementada, eu acabara de me alfabetizar. O resultado desse abuso foi despertar em mim uma salutar ojeriza pela escola. Nos anos seguintes, a única tarefa didática que desempenhei com interesse foi me lambuzar com cola Tenaz e, depois de seca, despelá-la aos pedacinhos. Meus amigos fizeram o mesmo. O analfabetismo causado pela reforma ortográfica de 1971 – e pela cola Tenaz – impediu que muitos de nós nos transformássemos em algo parecido com José Sarney. Espero que a reforma ortográfica de 2008 tenha um resultado semelhante. Em Carinhanha e em Bafatá.

Brasil mais racional nas urnas

Gaudêncio Torquato, Estadão

O Brasil eleitoral tem um encontro amanhã com as urnas, portando um título já um tanto desgastado pelo tempo, a mostrar que os 130 milhões de eleitores, se não carregam o ímpeto e o entusiasmo de climas passados, expressam maior convicção na escolha de seus candidatos. Eis o grande avanço da sociedade. O voto sobe à cabeça, na percepção geral de que o País não pode mais se dar ao luxo de abrigar experimentalismos arriscados, ao escolher oportunistas e aventureiros para comandarem a base do edifício político, que é o município. Se o continuísmo se espraia sob o solavanco do rolo compressor das máquinas municipais, sairá mais barato para o País continuar com a maior parte dos 3 mil prefeitos que se candidatam à reeleição do que arcar com a conta a fundo perdido dos novos mandatários, propensos a apagar feitos dos antecessores na ânsia de reinventar a roda. É possível que mais de 70% dos atuais prefeitos sejam reconduzidos. O custo Brasil da descontinuidade continua a ser uma das calamidades nacionais.

É preciso convir que o continuísmo, desta vez, conta com a aprovação das gestões e o controle mais atento do eleitorado. A análise da situação dos candidatos nas principais cidades do País, ao apontar preferência para os atuais administradores, como ocorre em 20 das 26 capitais, mostra um eleitor que começou a decidir mais cedo, fato atribuído à comparação de perfis e propostas. O pleito deste ano destacou a agenda de ações para os principais problemas das cidades. Basta ver o caso de São Paulo, a maior metrópole do País. O eleitor de todas as camadas chega às urnas conseguindo distinguir as principais propostas dos candidatos, a partir das áreas da saúde e educação. Conteúdos foram exaustivamente abordados em programas partidários e anúncios, ganhando acirramento em debates e permitindo aos observadores clareza na leitura do ideário dos contendores. A cena eleitoral ganhou traços mais adequados e racionais pela intervenção positiva do Tribunal Superior Eleitoral, que, ao impor a limpeza das cidades com a proibição de afixação de materiais publicitários em espaços e monumentos públicos, carreou maior atenção para a programação midiática. Desenvolveu-se uma campanha asséptica, menos confusa e mais centrada no discurso.

A racionalidade também se fez notar na tutela dos padrinhos. O eleitorado não embarcou na onda de patronos e estes não conseguiram fazer milagres com as bênçãos derramadas sobre seus apadrinhados. O espaço municipal exige um discurso local, o feijão-com-arroz da micropolítica. O presidente Luiz Inácio, do alto dos 80% de aprovação popular, tão festejado no Nordeste quanto o "padim" Ciço, fez enorme esforço para alavancar candidaturas de correligionários. Sua presença não desidratou adversários, pelo menos com a intensidade desejada, a partir de São Paulo, onde Marta Suplicy recuou do patamar de 40% das intenções de voto que detinha no início da campanha. A corroborar a percepção mais aguda que rege o processo decisório, o eleitor impregnou-se de convicções, como a de não votar de jeito nenhum no perfil que rejeita. A taxa de rejeição, irremovível em alguns casos, será o beijo da morte no segundo turno. Em campanhas passadas, rejeição alta flutuava para baixo na onda de maior visibilidade dos candidatos.

Sob o aspecto doutrinário, a campanha não trouxe contribuição. Nivelou ainda mais as siglas, com realce para os perfis individuais. Vejam-se os contrários PT e DEM. Sua dobradinha aumentou 41,9% em relação à eleição passada. Em 2004 noivaram em 674 cidades e agora, em 957. Com os tucanos, outra frente oposicionista federal, os petistas estabeleceram alianças em 1.095 municípios, 20,9% mais que na campanha passada. No interior dos grandes partidos, as divisões se multiplicam sob o empuxo de caciques regionais que, no vazio de lideranças nacionais, arremetem forças para fazer prevalecer suas posições. O PSDB transformou-se em confraria, repartindo-se em confederação de interesses regionais, passando a se parecer cada vez mais com o PMDB, de cuja costela saiu.

O clima geral - favorecido por elementos como estabilidade econômica, distributivismo de bolsas, facilidade de crédito (que começa a minguar), migração de 15 milhões da classe D para a classe C, maior acesso aos serviços básicos - impulsiona o governismo e a reeleição de prefeitos. Essa formidável estrutura, nas 20 capitais com candidaturas situacionistas, somará cerca de 25 milhões de votos contra uns 5 milhões que ficarão com as oposições. Somando-se a avalanche de votos da situação em cerca de 4 mil municípios, do total de 5.564, o governismo sob a pilotagem de Luiz Inácio decolará com o avião cheio de gasolina para aterrissar no Planalto de 2010. É evidente que a geléia partidária, nas névoas do amanhã, continuará a ser tão difusa (e confusa) quanto hoje, o que dá certa tranqüilidade às oposições. Ademais, se José Serra e Aécio Neves forem bem-sucedidos em São Paulo e Belo Horizonte, com seus candidatos Gilberto Kassab e Márcio Lacerda, poderão desfraldar a bandeira de vitória nas capitais dos dois Estados que lideram os votos do País. Seria um dique contra um futuro tsunami situacionista.A leitura não se esgota. Viu-se, ainda, o País atraído pelo ímã do Poder Executivo, com as campanhas de prefeito dando o tom eleitoral. Já a disputa para as Câmaras Municipais continuou a ser um desfile capenga de nomes, números e poses. Veja-se até onde chegou o disparate. Em Alto Paraná, um candidato a vereador, Daniel Bernardo dos Santos, apresenta-se como Stive Onde. E para completar a campanha debochada, eis a manchete final: o prefeito de Maceió, o forrozeiro Cícero Almeida (PP), candidato à reeleição, poderá ter porcentualmente a maior votação: mais de 80% da preferência do eleitorado. Conhecido pela música, Locadora de Mulher, o prefeito promete no estoque de seu estabelecimento "mulher do jeito que você quiser".