O Brasil não é uma ilha imune à epidemia mundial de aversão ao risco. A crise atinge a todos. Os que se prepararam mais sofrem menos
A FICHA CAIU
O presidente Lula, da tranqüilidade ao superlativo: "Uma das maiores crises que o mundo já viu"
Com a aprovação do pacote de ajuda, Tio Sam salvou o mundo do colapso e será possível, primeiro, medir o tamanho do estrago e, em seguida, empreender a caminhada de volta na reconstrução dos mecanismos americanos e globais de produção de riqueza. Isso vai depender primordialmente de ter sido mantido mais ou menos intacto o ímpeto de crescimento da economia chinesa e dos demais países emergentes – o que vai garantir preços compensadores para as matérias-primas básicas, as commodities, que ainda são o sangue e a carne das economia do Hemisfério Sul. Vai depender também da coragem do consumidor americano de voltar às compras nas lojas e nas bolsas de valores. Acessoriamente, será preciso que os mercados financeiros e a economia real da Europa recuperem pelo menos parte de seu vigor pré-crise.
AÇÃO PREVENTIVA 1
Henrique Meirelles, presidente do BC: injeção de recursos e venda de dólares para compensar a seca do crédito externo
Nesse processo, alguns países sofrerão mais. Outros menos. Mas nenhum escapará ileso aos efeitos desse cataclismo. Com sua intuição descomunal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva percebeu que é preciso reconhecer que a nave verde-amarela vai pelo menos balançar com as ondas de choque da tormenta externa. "A crise é muito séria e tão profunda que não sabemos o seu tamanho. Talvez seja uma das maiores crises que o mundo já viu", afirmou o presidente na terça-feira passada, com um semblante mais circunspecto e grave do que o habitual, como a demonstrar que aquilo que acabara de dizer, e não o que vinha dizendo até então, era para ser ouvido com atenção. E prosseguiu: "A diferença é que, desta vez, os Estados Unidos estão na crise e nós estamos sólidos e precavidos. O Brasil fez as lições de casa e eles não fizeram". Tomara que o presidente esteja correto, e o país consiga atravessar com danos moderados o abalo nas finanças americanas, que já é considerado o mais profundo em oito décadas. A economia interna tem resistido, de fato, com robustez. Em grande parte devido aos escudos protetores que lhe permitem hoje navegar com mais segurança e capacidade em momentos de tormenta externa, como agora.
O problema é que o vírus das crises, assim como o da gripe, sofre mutações. E, embora o país tenha feito um esforço admirável para aprender com experiências traumáticas, é temerário imaginar que o conhecimento adquirido nas crises passadas será suficiente para curar o que Barry Eichengreen, professor de economia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, apelidou de "um novo bicho, a pior crise da era recente da securitização em massa". Os reflexos no Brasil já são sentidos. Primeiro, na queda acentuada do preço das ações e na alta do dólar, cuja cotação voltou a superar 2 reais pela primeira vez desde agosto de 2007. Mas uma nova onda de contágio – e mais perigosa, se agravada – é a contração drástica do crédito externo. A torneira fechada dos bancos americanos e europeus já reduziu a liquidez no sistema bancário do país. Os empréstimos para as empresas e para as pessoas já ficaram mais caros em relação ao começo do ano, e os prazos diminuíram. Há um ano, companhias brasileiras de médio porte conseguiam financiar-se pelo prazo de doze meses a taxas médias anuais de juros de 15%. Hoje, os prazos foram reduzidos para dois meses, e as taxas dobraram. Bancos também começam a apertar o crédito ao consumidor. Há um ano, o prazo médio para financiar um carro zero-quilômetro era de 84 meses. Hoje, são 72 meses e, se a crise não se dissipar logo, pode haver um novo aperto. As vendas de automóveis, que cresceram 30% em 2007, já dão sinais de desaquecimento para 2008. As estimativas variam de 10% a 20%. Também já perde força o apetite do investidor externo na Bovespa, um dos mais importantes combustíveis que ajudaram a acelerar o ritmo de crescimento do país nos últimos anos. No ano passado, 80% das ofertas públicas de ações (IPO, na sigla em inglês) foram absorvidas por estrangeiros. Neste ano, com a deterioração da crise e a redução de emissões de ações, esse patamar caiu para 50%.
AÇÃO PREVENTIVA 2
O ministro da Fazenda, Guido Mantega: aumento do financiamento público para a agricultura e as exportações
Até meados de setembro, o presidente Lula e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, compartilhavam da mesma opinião: a crise da economia americana era localizada, passageira e, no máximo, atingiria o mercado financeiro, punindo os especuladores. Na semana passada, com a crise já em estado de septicemia, o governo percebeu que a previsível contaminação em série cruzou rapidamente o hemisfério e mostrou que a propalada imunidade brasileira não era tão absoluta como se tentava fazer crer. A imensa popularidade do presidente Lula está indissociavelmente ligada ao sucesso da economia. Pesquisa do Ibope divulgada na semana passada mostrou que a avaliação positiva do governo atingiu seu maior índice desde 2003 (69% da população considera o governo bom ou ótimo). É a segunda maior marca na série histórica da pesquisa, iniciada em 1985. Só fica abaixo da do governo de José Sarney, que, em 1986, durante o Plano Cruzado, obteve 72% de aprovação. Nos dois casos, a chave do sucesso foi o otimismo da população com relação ao ambiente econômico, medido pelo bem-estar proporcionado pelo aumento do consumo. Paira sobre os petistas a sombra do naufrágio do Cruzado, que devorou em pouco tempo a imensa popularidade de Sarney.
O governo tem demonstrado estar de posse da informação e dos meios para arrefecer os efeitos mais desastrosos da crise. O mundo econômico e financeiro atual é de tal forma interconectado que seria insano imaginar que o Brasil pudesse ser uma ilha imune à epidemia mundial de aversão ao risco. Os países viáveis fazem parte da ordem capitalista mundial que produz prosperidade crescente para todos mas, de tempos em tempos, esvai-se em crises também globais. É tola utopia querer participar apenas da prosperidade. Mas é sinal de sabedoria se preparar para sofrer o menos possível com as inevitáveis e sazonais crises do sistema.