Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa
Na visita do presidente Geisel ao Japão, a primeira grande solenidade seria a recepção oficial do imperador Hiroito no Palácio Akasaca, onde os dois se encontrariam (o imperador não vai ao aeroporto).
O lugar de cada convidado estava liturgicamente marcado pelo cerimonial de mil anos. Os quatro ministros brasileiros (Reis Veloso, Severo Gomes, Azeredo da Silveira e Shigeaki Ueki) ficariam imediatamente atrás do presidente Geisel. O imperador Hiroito ia chegar às 9 horas em ponto. Às 8,55, o ministro Scarabotolo, chefe do Cerimonial do Itamaraty, entrou em pânico. Shigeaki Ueki não aparecia e a cadeira dele, na delegação brasileira, estava lá, reservada, vazia como um terreno baldio.
Ueki
O ministro Scarabotolo ia de um lado para o outro, procurava, Ueki não chegava. E o imperador Hiroito já apontando na entrada do palácio. O jornalista Adirson de Barros, brilhante como sempre, sentiu o drama do cerimonialista brasileiro, chamou-o e sugeriu: - Ministro, tenho uma solução. Pegue um japonês desses mais de 200 da segurança que estão rondando por aqui, peça para ele sentar-se no lugar reservado para o Ueki, que ninguem vai sentir a falta dele. O senhor já viu conhecer japonês pela cara?
O Ueki não apareceu, a cadeira dele foi ocupada e Hiroito chegou.
Kassab
O drama do ex-governador Alckmin em São Paulo não é mais nem a certeza, que já vem manifestando aos amigos nos últimos dias, de que não chegará mesmo ao segundo turno para disputar com a Marta Suplicy.
Desespera-o confirmar que, como ao ministro Shigeaki Ueki no Japão, os tucanos, nacionais, estaduais e municipais, Fernando Henrique, José Serra e da Câmara de Vereadores, o substituíram pelo prefeito Kassab. E pior: ninguém percebeu.
Serra
Véspera de eleição, nada mais há o que fazer. É esperar a voz do povo. Mas os apressados, afobados, ou simplesmente perdigueiros do futuro, já começam a tirar conclusões das urnas nem sequer ainda abertas.
Na "Folha", o Kennedy Alencar, dos mais atilados repórteres políticos da nova geração, já salta de 2008 para 2010:
"A reeleição de Kassab seria prova da regra de que governos bem avaliados tendem a continuar no poder ou a eleger sucessores. Aí começa a complicar para Serra. Por que Lula não poderia realizar com Dilma o que Serra está prestes a fazer com Kassab? Para Lula, o verdadeiro terceiro mandato seria a eleição da ministra da Casa Civil. A campanha estaria pronta. Feliz com Lula? Vote em Dilma".
Lula
Acontece que há uma diferença fundamental: Serra está chegando, Lula saindo. Se Lula não fosse sair em 2010 e Serra fosse apenas apoiar alguém em 2010, não dava nem para especular: o candidato de Lula era imbatível. Mas o eleitor quer saber do futuro. Serra, candidato em 2010, pesará mais para ele do que Lula, saindo em 2010, pesará para outro.
O governo e o PT fazem um carnaval fora de hora, uma micareta, sobre a força de Lula para transferir votos para os candidatos do PT nesta eleição e sobretudo em 2010. Veremos. Está perto a abertura das urnas.
Até agora, apesar das viagens e comícios insistentes de Lula, pelo País inteiro, levando apoio aos candidatos do PT, o desempenho do partido não tem respondido à presença do presidente, muitas vezes irregular, ilegal, levando dinheiro, inaugurando obras ou em órgãos do governo federal.
10 capitais
Vamos analisar os candidatos petistas das 10 principais capitais:
1 - São Paulo: Marta balança.
2 - Rio: Molon vai ter votos de candidato a vereador.
3 - Belo Horizonte: nem candidato o PT tem. Segura o andor do candidato tucano de Aécio, Marcio Lacerda.
4 - Salvador: o petista Walter Pinheiro, o melhor candidato, ainda está embolado com ACM Neto, neto de Antonio Carlos Magalhães, e o prefeito João Henrique, do PMDB, do ministro Gedel Vieira Lima e da generosa transposição das águas do rio São Francisco.
5 - Recife: vitória segura do candidato João Costa, do PT, apoiado pelo prefeito e pelo governador. Lula foi lá e a posição do PT não mudou nada. Caiu até.
6 - Fortaleza: a bela reeleição da prefeita Lousianne não dependeu do apoio de Lula, que nem a apoiou na primeira vitória, em 2004.
Duas do PT
7 - Porto Alegre: o velho latifúndio eleitoral do PT está tão desmatado e devastado, que o partido está ameaçado de nem chegar ao segundo turno. E se chegar é derrota certa, porque a cidade se cansou deles.
8 - Curitiba: o prefeito Beto Richa, do PSDB, vai reeleger-se no primeiro turno, derrotando a candidata do PT.
9 - Natal: a petista Fátima Bezerra está sendo derrotada junto com o PMDB dos Alves, apesar dos caminhões de verbas públicas.
10 - São Luís: também o PT sem candidato.
Assim, das dez maiores capitais, em duas o PT nem candidato tem; em uma o candidato tem voto de vereador; em duas a derrota já é certa; em duas caminha para uma derrota anunciada; em uma tem chance, mas com dificuldade. Vitória certa só em duas, graças aos prefeitos e governadores.
Onde Lula elege poste? Em lugar nenhum. Só ganha onde já ia ganhar.