Gaudêncio Torquato, Estadão
O Brasil eleitoral tem um encontro amanhã com as urnas, portando um título já um tanto desgastado pelo tempo, a mostrar que os 130 milhões de eleitores, se não carregam o ímpeto e o entusiasmo de climas passados, expressam maior convicção na escolha de seus candidatos. Eis o grande avanço da sociedade. O voto sobe à cabeça, na percepção geral de que o País não pode mais se dar ao luxo de abrigar experimentalismos arriscados, ao escolher oportunistas e aventureiros para comandarem a base do edifício político, que é o município. Se o continuísmo se espraia sob o solavanco do rolo compressor das máquinas municipais, sairá mais barato para o País continuar com a maior parte dos 3 mil prefeitos que se candidatam à reeleição do que arcar com a conta a fundo perdido dos novos mandatários, propensos a apagar feitos dos antecessores na ânsia de reinventar a roda. É possível que mais de 70% dos atuais prefeitos sejam reconduzidos. O custo Brasil da descontinuidade continua a ser uma das calamidades nacionais.
É preciso convir que o continuísmo, desta vez, conta com a aprovação das gestões e o controle mais atento do eleitorado. A análise da situação dos candidatos nas principais cidades do País, ao apontar preferência para os atuais administradores, como ocorre em 20 das 26 capitais, mostra um eleitor que começou a decidir mais cedo, fato atribuído à comparação de perfis e propostas. O pleito deste ano destacou a agenda de ações para os principais problemas das cidades. Basta ver o caso de São Paulo, a maior metrópole do País. O eleitor de todas as camadas chega às urnas conseguindo distinguir as principais propostas dos candidatos, a partir das áreas da saúde e educação. Conteúdos foram exaustivamente abordados em programas partidários e anúncios, ganhando acirramento em debates e permitindo aos observadores clareza na leitura do ideário dos contendores. A cena eleitoral ganhou traços mais adequados e racionais pela intervenção positiva do Tribunal Superior Eleitoral, que, ao impor a limpeza das cidades com a proibição de afixação de materiais publicitários em espaços e monumentos públicos, carreou maior atenção para a programação midiática. Desenvolveu-se uma campanha asséptica, menos confusa e mais centrada no discurso.
A racionalidade também se fez notar na tutela dos padrinhos. O eleitorado não embarcou na onda de patronos e estes não conseguiram fazer milagres com as bênçãos derramadas sobre seus apadrinhados. O espaço municipal exige um discurso local, o feijão-com-arroz da micropolítica. O presidente Luiz Inácio, do alto dos 80% de aprovação popular, tão festejado no Nordeste quanto o "padim" Ciço, fez enorme esforço para alavancar candidaturas de correligionários. Sua presença não desidratou adversários, pelo menos com a intensidade desejada, a partir de São Paulo, onde Marta Suplicy recuou do patamar de 40% das intenções de voto que detinha no início da campanha. A corroborar a percepção mais aguda que rege o processo decisório, o eleitor impregnou-se de convicções, como a de não votar de jeito nenhum no perfil que rejeita. A taxa de rejeição, irremovível em alguns casos, será o beijo da morte no segundo turno. Em campanhas passadas, rejeição alta flutuava para baixo na onda de maior visibilidade dos candidatos.
Sob o aspecto doutrinário, a campanha não trouxe contribuição. Nivelou ainda mais as siglas, com realce para os perfis individuais. Vejam-se os contrários PT e DEM. Sua dobradinha aumentou 41,9% em relação à eleição passada. Em 2004 noivaram em 674 cidades e agora, em 957. Com os tucanos, outra frente oposicionista federal, os petistas estabeleceram alianças em 1.095 municípios, 20,9% mais que na campanha passada. No interior dos grandes partidos, as divisões se multiplicam sob o empuxo de caciques regionais que, no vazio de lideranças nacionais, arremetem forças para fazer prevalecer suas posições. O PSDB transformou-se em confraria, repartindo-se em confederação de interesses regionais, passando a se parecer cada vez mais com o PMDB, de cuja costela saiu.
O clima geral - favorecido por elementos como estabilidade econômica, distributivismo de bolsas, facilidade de crédito (que começa a minguar), migração de 15 milhões da classe D para a classe C, maior acesso aos serviços básicos - impulsiona o governismo e a reeleição de prefeitos. Essa formidável estrutura, nas 20 capitais com candidaturas situacionistas, somará cerca de 25 milhões de votos contra uns 5 milhões que ficarão com as oposições. Somando-se a avalanche de votos da situação em cerca de 4 mil municípios, do total de 5.564, o governismo sob a pilotagem de Luiz Inácio decolará com o avião cheio de gasolina para aterrissar no Planalto de 2010. É evidente que a geléia partidária, nas névoas do amanhã, continuará a ser tão difusa (e confusa) quanto hoje, o que dá certa tranqüilidade às oposições. Ademais, se José Serra e Aécio Neves forem bem-sucedidos em São Paulo e Belo Horizonte, com seus candidatos Gilberto Kassab e Márcio Lacerda, poderão desfraldar a bandeira de vitória nas capitais dos dois Estados que lideram os votos do País. Seria um dique contra um futuro tsunami situacionista.A leitura não se esgota. Viu-se, ainda, o País atraído pelo ímã do Poder Executivo, com as campanhas de prefeito dando o tom eleitoral. Já a disputa para as Câmaras Municipais continuou a ser um desfile capenga de nomes, números e poses. Veja-se até onde chegou o disparate. Em Alto Paraná, um candidato a vereador, Daniel Bernardo dos Santos, apresenta-se como Stive Onde. E para completar a campanha debochada, eis a manchete final: o prefeito de Maceió, o forrozeiro Cícero Almeida (PP), candidato à reeleição, poderá ter porcentualmente a maior votação: mais de 80% da preferência do eleitorado. Conhecido pela música, Locadora de Mulher, o prefeito promete no estoque de seu estabelecimento "mulher do jeito que você quiser".