sábado, junho 16, 2012

A correção de uma decisão equivocada


Adelson Elias Vasconcellos


No texto de Luciana Cobucci, Portal Terra, a seguir, tomamos conhecimento da medida adotada pelo ministro da Fazenda, pela qual o governo brasileiro resolveu retirar as medidas  que tentavam impedir a entrada de dólares no país, numa daquelas magias pelo ministro Mantega tentando impedir a excessiva valorização do real frente ao dólar. 

Vendo que as mesmas mais penalizavam o país e, ainda por cima dando-se conta de sua ineficácia quanto aos objetivos pretendidos, voltaram atrás. Bem, não foi por falta de aviso.

Ocorre que o governo petista, desde Lula, sempre apontou o ingresso volumoso de dólares no país, com todas as suas terríveis consequências olhando pelo lado bom da nossa economia. Assim, pretendiam impor à opinião pública de que, estando bem o país, ele se penalizava pelo excesso de virtudes. Com Dilma, o discurso abraçou o mesmo equívoco, apenas que com uma diferença: não seria o excesso de virtudes da economia responsável pela abundância de dólares, mas sim o tsunami monetário dos países em crise, como EUA e União Europeia.

Apesar do mercado e analistas econômicos apontarem outras causas, como os elevados juros internos praticados como sendo o grande vilão da história, parece que o governo pagou prá ver. E ligeirinho deu-se conta de seu erro de avaliação. Bastou que a taxa SELIC  chegasse ao nível atual, 8,5%, para que o governo brasileiro caísse, literalmente, na real. De repente, começou a ocorrer uma brutal saída de dólares, brasileiros reduziram suas compras no exterior e, apesar das mudanças provocadas no rendimento da caderneta poupança, esta passasse a receber volumes elevados de depósitos.

 Além disso, há um movimento de desespero no governo Dilma em razão do crescimento pífio do PIB, tanto em relação a 2011 quanto o do terceiro trimestre. E, infelizmente, o governo erra a mão e atribui o baixo crescimento a uma restrição de crédito no exterior que, no fundo, não existe. Existe, sim, para empresas em países com dificuldades, como Grécia, Itália, Espanha, Portugal. Não é o nosso caso. A dificuldade apontada pelo ministro se deve ao custo imposto pelo governo Dilma a tomada destes empréstimos lá fora, com a elevação do IOF. 

Portanto, corrigir o erro de avaliação seria salutar se ele se desse pelas razões corretas e a admissão de uma avaliação equivocada. E, como se depreende pelo texto do Portal Terra, o ministro insiste em ver a economia e o que nela ocorre por uma ótica distorcida e muito longe

 É bom lembrar que, antes, o governo já havia aliviado o garrote sobre os exportadores. Agora, corrige de vez a mancada. 

O grande problema do governo Dilma continua a ser, infelizmente, a de atribuir a problemas reais razões imaginárias. Quando isto ocorre, o risco de se tomar medidas equivocadas é enorme. Este é o caso do IOF sobre a entrada de dólares.  O governo precisava evitar ou restringir o ingresso via especulação financeira, e não continuar penalizando a produção e o trabalho.

Assim, deveria rever a estratégia que tem adotado – maléfica para todo o país – isto é, a de fugir estupidamente de se encaminhar as reformas estruturais que o país exige e precisa, único caminho para revigorar o crescimento brasileiro. Para azar de todos nós, parece que continuaremos a experimentar remédios destinados para tratamento de doenças que não temos, ou seja, o governo Dilma continuar a fugir da realidade. 

Segue o texto do Portal Terra.

******

Governo retira medidas contra ingresso de dólares no Brasil

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, justificou nesta quinta-feira a atitude do governo de reduzir o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para empréstimos feitos no exterior com prazo de pagamento entre três e cinco anos. Segundo Mantega, a medida é justificável já que com a piora da crise financeira internacional, ficou mais difícil conseguir crédito no exterior. Por isso o governo decidiu "facilitar" a tomada de empréstimos considerados de curto prazo.

"Antes da crise piorar, havia facilidade maior de tomar crédito de longo prazo. Agora, com as dificuldades internacionais, é difícil tomar crédito de longo prazo. A medida é eficaz . Estamos abrindo a possibilidade para que bancos e empresas brasileiras voltem a tomar crédito no exterior sem IOF. Isso reduz o custo do crédito e aumenta a oferta de crédito para o país. É o objetivo da medida que estamos tomando. O mercado não está fechado para os bancos e empresas brasileiras, que precisam rolar empréstimos antigos", disse Mantega.

Em março deste ano, quando foi tomada, a medida de aumentar o IOF para empréstimos de curto prazo (entre três e cinco anos) visava desestimular a tomada de recursos em bancos e empresas do exterior. Isso gerava excesso de dólares circulando no Brasil e prejudicando o câmbio, pois desvaloriza a moeda americana. Para Mantega, não há mais excesso de moeda estrangeira circulando no País.

"Algum tempo atrás tínhamos elevado essa taxação de 6% para tomada de empréstimos abaixo de cinco anos, num momento em que estava entrando muito recurso estrangeiro no País por intermédio desse recurso", afirmou. Com a retirada da medida, empréstimos com prazo de pagamento maior que três anos passam a ser isentos de IOF.

Ainda segundo o ministro, a medida não tem efeito cambial. "A única medida que estava em cogitação era essa e tem mais a ver mais com crédito do que com câmbio. Naquela ocasião foi tomada como medida prudencial para bancos e empresas, que estavam tomando excessivo crédito. Não são medidas permanentes, são medidas de regulação econômica", disse.

Mais uma ação contra os aposentados. Mas só os da iniciativa privada, tá?

Governo pede para STF barrar revisões do INSS até 97

Do "AGORA"

A AGU (Advocacia-Geral da União) pediu que o STF (Supremo Tribunal Federal) reconheça um recurso do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) para barrar a revisão dos benefícios concedidos antes de junho de 1997.

Na manifestação, o governo pede que o Supremo decida que o prazo de dez anos para pedir uma revisão também seja válido para benefícios concedidos até 1997.

A polêmica existe porque até 1997 não havia lei estabelecendo prazo. O STF ainda dará sua palavra final sobre o tema, em julgamento sem data marcada.

O INSS tenta, na Justiça, derrubar as ações de aposentados que tiveram seu benefício concedido até 1997, mas levaram mais de dez anos para pedir revisão.

Para o órgão, revisões não devem ser pedidas eternamente. Além disso, o INSS diz que, quem se aposentou até 1997, seria prejudicado, pois teriam direitos diferentes.

Atualmente, o entendimento mais comum na Justiça é que o prazo de dez anos para pedir uma revisão só vale para os benefícios previdenciários concedidos depois de junho de 1997. O mês marca a entrada em vigor da lei que definiu esse prazo.

Advogados argumentam que, mesmo para os benefícios concedidos após a lei, não deveria haver prazo para revisão, pois se trata de verba alimentícia, ou seja, fundamental à sobrevivência.

DIREITO
A segurada que briga na Justiça para conseguir uma revisão de benefício concedido antes de 1997 argumenta, por outro lado, que tem o direito adquirido de pedir a revisão a qualquer tempo, pois esse era o entendimento válido até junho de 1997.

Ela defendeu também que o direito de revisar sua aposentadoria não pode mudar por uma lei que passou a valer após a concessão do seu benefício.

Até março deste ano, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) vinha reafirmando esse mesmo entendimento, mas uma mudança na organização do tribunal mudou isso. Os processos previdenciários começaram a ser julgados por outros ministros, que têm decidido a favor do INSS/governo 

Mesmo que a decisão do STJ não seja definitiva sobre o assunto, os recursos do INSS em ações de revisão de benefícios concedidos antes de junho de 1997 ganharam força com o novo entendimento.**

****** COMENTANDO A NOTICIA:
Quando se pensa que o governo petista não vai mais aprontar coisa alguma contra os aposentados, eis mais uma tunga colossal. Ora, o que o governo faz e está fazendo fere qualquer princípio ético e legal. Não se pode retroagir os efeitos da lei. Simples assim. Até pode vencer a batalha jurídica na esfera do STF, afinal o STF tem sido tão bonzinho com os governos petistas, não é mesmo?

Mas se vencer, o STF dará uma demonstração de que, além de legislar por conta própria, também resolveu enviar para o lixo os princípios que regem a ordem legal do país.

E, quanto ao princípio ético, convenhamos, trata-se de uma baita traição contra os aposentados. Mas só contra os aposentados da iniciativa privada que, no governo petista, passaram a ser tratados como trabalhadores de quinta categoria. Pretender ferir princípios legais, apenas por puro capricho e para que sobre mais dinheiro com quem não merece, como os contratos com ong’s picaretas que corroem milhões em contratos frios, não merece consideração. 

Espero que as associações de aposentados de todo o país se levantem numa única voz para protestar contra este esbulho mau caráter.  

O jeitinho brasileiro


Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

A Europa pode buscar soluções em políticas da era FHC

Jeito sempre tem, inclusive para o Euro, a Espanha e mesmo para a Grécia. Querem uma prova? O Brasil. Isso mesmo, o governo FHC implementou várias políticas que hoje são sugeridas como solução na Europa. 

A negociação da dívida dos Estados brasileiros é um exemplo citado na imprensa internacional. Resumindo: os governos estaduais brasileiros estavam tão quebrados quanto a Grécia, Irlanda e Portugal. Emitiam seus próprios títulos de dívida (as carioquinhas, as paulistinhas) que o mercado só aceitava cobrando juros altíssimos. Assim, os governos ou se endividavam ainda mais, pelo efeito dos juros, ou empurravam seus títulos para os bancos estaduais (Banerj, Banespa etc). Resultado, quebraram os governos e os bancos. 

Solução: o governo federal "comprou" os títulos estaduais e refinanciou outras dívidas, pagando com títulos do Tesouro nacional, de credibilidade maior e, pois, juros menores. 

Como seria na Zona do Euro? A criação dos tais "eurobônus", ou títulos da dívida europeia, garantidos pela União Europeia e negociados no Banco Central Europeu. Assim, em vez de vender títulos gregos, espanhóis, italianos, etc., pagando taxas proibitivas, os respectivos governos seriam financiados com os papéis "federais", que, sendo da UE, teriam, no fundo, a garantia alemã. 

Mas a solução brasileira incluiu poderosas contrapartidas. Os governos estaduais, desde então, são obrigados a pagar uma prestação mensal a Brasília (se falharem, não recebem participação nos impostos federais), não podem mais emitir títulos, têm despesas limitadas e controladas e outros endividamentos são restritos a uma porcentagem das receitas. E o governo federal não pode mais financiar os Estados, tudo previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal. 

Por isso, a solução dos eurobônus ainda não foi aceita pela Alemanha. Angela Merckel exige, antes, regras parecidas à brasileira, que restrinjam a capacidade dos Estados na administração de suas contas e suas dívidas. Mais difícil lá, pois não são governos regionais e sim Estados nacionais que deveriam abrir mão de parte da soberania. É o que François Hollande não aceita, por exemplo. Ele quer bônus com a garantia europeia/alemã, mas sem as restrições de soberania fiscal. 

Não esquecer: outra parte importante da solução brasileira foi a intervenção, fechamento e/ou privatização dos bancos estaduais. Tem banco estatal na Europa que pode ser fechado. 

Mas a dificuldade maior está em bancos privados, atolados com créditos podres. 

Sem problemas: estudem o Proer brasileiro, do final dos anos 90, quando vários bancos locais quebraram com o fim da inflação. Ainda na semana passada, em editorial sobre a Espanha, a revista Economist sugeriu: o governo intervém nos bancos quebrados, separa os ativos podres, colocando-os no "banco ruim", que é simplesmente liquidado. O que sobra, se sobra, o banco bom, é vendido. Ora, foi exatamente o que se fez aqui com Nacional, o Bamerindus e o Econômico - para citar apenas os maiores. 

Calcula-se que o custo disso na Espanha chegue a 10% do Produto Interno Bruto (PIB). No Brasil, ficou mais barato. Na época, houve muita oposição, inclusive e especialmente do PT. Hoje, todos, inclusive Lula e Dilma são os primeiros a falar da solidez do sistema bancário brasileiro. 

Outro ponto importante: Banco do Brasil e Caixa estavam literalmente quebrados, por causa de empréstimos fartamente concedidos com critérios políticos e má administração. O governo federal colocou uns R$ 15 bilhões para reaprumar esses dois bancos e estabeleceu novas regras de gestão, mas propriamente "bancárias". 

Por isso, aliás, é preciso ficar de olho nessas manobras do governo Dilma para forçar os bancos a reduzirem juros e ampliarem o crédito. Existe, sim, o risco de que estejam abrindo novos buracos. 

Mas, voltando à Europa, o problema para um Proer deles está, de novo, na falta de uma verdadeira federação europeia, que submeta os Estados nacionais a uma disciplina comum. 

Ou seja, jeito sempre tem, mas nunca é fácil. Precisa combinar com muita gente, a começar pelos eleitores. No Brasil, FHC tinha um sólido mandato nacional para tocar essas e outras reformas. Na Zona do Euro, é obviamente mais difícil obter esse mandato. 

Os eleitores franceses, por exemplo, votaram contra a austeridade. Os irlandeses, a favor. Os gregos votam agora de novo. Os alemães, de seu lado, não manifestam entusiasmo pelos "eurobônus". Temem que os gastadores torrem ainda mais com a garantia alemã. 

A única coisa que ajuda, digamos assim, é a emergência, a situação de vai ou racha. E o que pode rachar é simplesmente a mais bela construção política e econômica do século passado. 

Não nos esqueçamos: a Europa unida gerou crescimento, ganho de renda elevado (especialmente para os que eram mais pobres, como Espanha, Portugal e Grécia) e regimes democráticos. Eles vão lutar para salvar isso. 

Só pode dar nisso aí


Percival Puggina

Retorno ao fato porque é de riqueza extraordinária. Quem assistiu “Diários de Motocicleta” há de lembrar da passagem de Che Guevara pelo leprosário de San Pablo, atendido por uma congregação de religiosas no meio da selva, às margens do Amazonas. E há de lembrar que para os sinistros efeitos do filme, Che é apresentado como um santo abrasado de amor aos enfermos, e as irmãs como um perverso corpo de autoridades locais. Pura mistificação!

Após duas semanas fazendo travessuras por ali enquanto superava uma crise de asma, Che bateu asas e foi fazer seu turismo revolucionário noutra freguesia. Quanto às irmãs, tão maltratadas pelo filme, continuaram, vida afora, enfiadas no mato, cuidando dos leprosos. Eis um bem torneado exemplo da diferença entre o verdadeiro amor ao próximo e a fantasia que empresta ao marxismo e ao comunismo o brilho vulgar das lantejoulas. Para o cineasta Walter Salles as religiosas eram megeras e Guevara um anjo de bondade.

Tem sido cada vez mais recorrente a publicação de artigos sobre Educação. Junto-me, então, a administradores, economistas, empresários, filósofos que enveredaram por essa pauta. Vou enfocá-la sob um aspecto que – não se surpreenda, leitor – tem muito a ver com o filme abordado acima. Aliás, são tão recorrentes as reflexões sobre o tema da Educação por profissionais das mais variadas especialidades que o fato já despertou reações adversas, contestando a concessão de espaço para quem não é do ramo. Os não educadores seriam meros palpiteiros. Mas convenhamos, é muito difícil ficar calado diante do que se vê.

Imagine um brasileiro que percorra do primeiro ao último degrau o sistema de ensino do país. Qual a corrente filosófica a que mais esteve submetido durante todo esse período, ainda que haja trocado de escola, de cidade e de Estado, em cada trecho do percurso escolar? Pois é. Marxismo. É análise marxista, crítica marxista, economia marxista, visão marxista da história, teologia da libertação, pedagogia do excluído e, como lastro para o materialismo histórico, camadas maciças de maledicência sobre o cristianismo.

Esse marxismo de polígrafo escolar tem a profundidade de um pires. Os que o lambem como tema de casa são incapazes de escrever uma lauda a respeito, mas saem do colégio prontinhos para ler a vida com os olhos que lhes deram. Assistem “Diários de Motocicleta” e concluem: no peito de Che batia um coração de mártir; já o coração daquelas beatas do leprosário não se abria nem com formão e martelo.

Só escapam dessa linha de montagem, que inclui a maioria dos estabelecimentos de ensino confessionais, os poucos estudantes que recebem em casa, ou de algum professor achado por pura sorte no meio do caminho, dose suficiente de antídoto para enfrentar o que lhes é ministrado ao longo dos cursos. Se mesmo nos bons educandários, deixa-se de lado a sã filosofia e se depreciam os grandes valores que inspiraram e inspiram a imensa maioria dos melhores vultos da humanidade, pergunto: como esperar das elites brasileiras que junto a esses estabelecimentos buscam formação, coisa melhor do que isso que vemos por aí?

Quando parece muito normal que o governo contrate um grupo para escrever o passado (Walter Salles faria excelente documentário sobre a comissão), a temática educacional há de ser, sim, motivo de grave preocupação para quem reflita sobre o futuro do país.

Quem vai desenterrar a verdade do presente?


Guilherme Fiúza
Revista Época

Dilma Rousseff chorou ao instalar a Comissão da Verdade. Entre os companheiros que se emocionaram com ela estava José Sarney, presidente do Senado. Citando Galileu Galilei, a presidente disse que “a verdade é filha do tempo, não da autoridade”. Sarney servia ao regime que Dilma quer investigar, mas isso não tem a menor importância. Ambos são sócios numa verdade que não é filha do tempo, nem da autoridade. A verdade de Dilma e Sarney é filha da mãe de todos os posseiros do Estado brasileiro.

É uma verdade tão generosa que pode admitir até censura. Não a dos anos de chumbo, que está fora de moda. Censura moderna, cirúrgica. A investigação da família Sarney por tráfico de influência vinha sendo exposta por “O Estado de S. Paulo”. Com apoio irrestrito de Lula e Dilma, Sarney ficou firme no cargo e seu filho conseguiu submeter o jornal à censura prévia, que já vai completar três anos. Em nome da verdade.

Galileu entendia dos astros, mas não sabia nada de fisiologismo. Se soubesse, descobriria que a verdade é uma ação entre amigos.

Amordaçar a imprensa foi uma forma eficiente de proteger a ditadura, especialmente quando ela torturava. Dilma Rousseff deve saber disso. Portanto, censura nunca mais – a não ser para defender alguém como Sarney, que como disse Lula, “não é uma pessoa qualquer”. E não é mesmo. Acima do José Ninguém que apoia o governo popular com sua crença, seu voto e outras miudezas, José Sarney é um companheiro diferenciado: põe seus lotes privados na máquina pública a serviço de Dilma, se ela mantiver o seu alvará de sucção. Uma troca verdadeira.

Uma amizade dessas vale gestos extremos. Segundo a ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira, a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, chamou-a ao Palácio do Planalto para lhe dar ordens. A Casa Civil não manda na Receita, mas Dilma mandou Lina resolver pendências fiscais da família Sarney. Solidariedade é isso (só quem lutou contra a tirania da ditadura sabe). Dilma não aceitou uma acareação com Lina. Uma virou presidente, a outra sumiu. Se a verdade fosse filha do tempo, a esta altura já estaria num orfanato.

A presidente que quer passar a ditadura a limpo de mãos dadas com Sarney poderia, talvez, pedir uma hora extra à Comissão da Verdade para dar uma olhada no caso Agaciel. O Brasil inteiro ouviu (já se esqueceu, mas ouviu) os telefonemas entre o então diretor e o presidente do Senado combinando nomeações secretas de parentes e amigos. Onde foi parar essa verdade? Ou ela é filha da autoridade e foi retocada, ou Sarney não tem condições morais de presidir o Senado – enquanto não for devidamente investigado. Mas esses detalhes não incomodam Dilma Rousseff em sua cruzada humanista. A presidente dos famintos nem se importa que a filha de Sarney compre 68 toneladas anuais de comida (só para ela e seu vice) à custa do contribuinte, como “Época” mostrou. A verdade varia conforme a fome do dono.

O Brasil precisa acertar contas com seu passado, buscando justiça para os desaparecidos. Mas engole junto a propaganda política dos aparecidos. Ao lado de Dilma, no altar do bem contra o mal, estão heróis como Fernando Pimentel, ex-guerrilheiro, atual ministro vegetativo do Desenvolvimento. A resistência aos militares forjou nele valores sólidos, como ser amigo da presidente e faturar alto com consultorias invisíveis. Somando-se o passado e o presente de Pimentel, a única verdade insofismável é que ele não perde o cargo de jeito nenhum – nem depois de voar de favor em avião de empresário. Rodoviária nunca mais.

A luta continua, como prova Ideli Salvatti, ex-militante de direitos humanos na ditadura. No Ministério da Pesca, ela operou o milagre da multiplicação das lanchas – cujo fabricante, por coincidência, bancou sua campanha eleitoral. Na posse, Ideli cantou Ivan Lins para celebrar o triunfo da esquerda: “No novo tempo, apesar dos perigos; da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta; pra sobreviver, pra sobreviver”. Ideli sobreviveu graças à Comissão de Ética da Presidência – devidamente enquadrada por Dilma após dinamitar o companheiro Lupi –, que arquivou o caso das lanchas.

Nada como desenterrar as verdades certas, e enterrar as erradas. Pra frente, Brasil.

O crime e a pena


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Vamos combinar uma coisa: este colunista não está, neste momento, escrevendo a favor ou contra o que quer que seja. Tenta apenas traduzir, da maneira mais precisa que lhe é possível, as penas a que está sujeita Elize Matsunaga, que matou e esquartejou o marido Marcos Matsunaga e ocultou o cadáver.

Em princípio, Elize responde por homicídio simples, sem agravantes, cometido sob violenta emoção. A pena varia entre cinco e dez anos. Pode sofrer alguma redução porque Elize confessou o crime e deu todas as informações pedidas.

Deve responder também por vilipêndio a cadáver (o esquartejamento), com pena entre 6 meses e dois anos; e por esconder o corpo, com pena entre seis meses e dois anos (pode haver variações, por diversos motivos, mas pequenas).

Imaginemos que lhe sejam aplicadas as penas máximas. Dá algo como 14 anos de prisão. Com bom comportamento, em dois anos e quatro meses (um sexto da pena) terá direito a regime semiaberto. E a liberdade condicional, cumpridos todos os requisitos da Lei de Execuções Penais, poderá vir com o cumprimento de um terço da pena - pouco mais de quatro anos. Cada progressão de pena exige um atestado de bom comportamento elaborado pela direção da prisão.

Esses prazos mudam, claro, se a Justiça considerar que há agravantes no crime (motivo fútil, por exemplo). Mas não é simples comprovar esses agravantes, como também não será fácil comprovar insultos ou agressões que tenham levado à violenta emoção. De acordo com a lei, quando há dúvida beneficia-se o réu.

Questão legal
A interpretação da lei é uma tarefa humana e está sempre sujeita a contestações. Mas não adianta ficar bravo com o juiz porque aplica a lei: essa é sua função. Se alguém discorda das normas, a solução é propor a mudança da lei. E, de qualquer maneira, essa mudança não terá qualquer influência em nenhum caso ocorrido sob a lei antiga, exceto se beneficiar o réu.

Brincando de Polícia
O Congresso tanto insistiu que voltou a brincar de polícia em nova CPMI. E daí? Daí, nada: Fernando Cavendish, o proprietário da empreiteira Delta e figura central da Turma do Guardanapo, aquela das grandes festas em Paris e Mônaco, nem foi convocado a depor; o governador goiano Marconi Perillo, chamado na CPMI para explicar a venda de uma casa, foi elogiado pelos amigos e criticado pelos inimigos. E só. 

O governador de Brasília, Agnelo Queiroz, virou moeda de troca: se os aliados de Lula conseguirem esmagar Perillo - a quem o ex-presidente tem profunda ojeriza - o PT, seu partido, pode permitir que ele seja amassado também. A CPMI está tão chocha que nem serviu para seu objetivo primordial: reduzir a repercussão do julgamento do Mensalão. 

A coisa ficou tão feita que a turma do Mensalão já está até botando a culpa na imprensa.

Márcio e Delúbio
O ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos (defende José Roberto Salgado, ex-diretor do Banco Rural) disse que é um defensor intransigente da liberdade de imprensa, mas que os meios de comunicação, quando erram e não dão razão a seus clientes, põem em risco a imparcialidade dos julgamentos. Delúbio Soares, que chegou a ser expulso do PT por suas atividades na época do Mensalão (recentemente foi readmitido no partido), acusou a imprensa de "já ter condenado" os réus. O ex-ministro José Dirceu exigiu um julgamento técnico, mas disse que o que há é "uma batalha política", e conclamou estudantes favoráveis ao Governo a se manifestar nas ruas em favor de sua absolvição.

O julgamento do Mensalão deve começar, segundo o Supremo Tribunal Federal, em 1º de agosto. Mas o relatório do ministro-revisor, Ricardo Lewandowski, não foi ainda entregue - e sem seu relatório o julgamento não pode começar. 

Cruzando os casos
O Mensalão é o motivo do rancor do ex-presidente Lula pelo governador goiano Marconi Perillo. Na época do Mensalão, Lula disse que tinha sido traído e que não sabia de nada (na época, sua versão era diferente da de hoje, quando sustenta que não houve Mensalão nenhum). E o tucano Perillo disse que havia comentado os fatos com Lula há muito tempo, antes que o assunto chegasse à imprensa e se transformasse num grande tema de batalha política. Lula ficou com tanta raiva de Perillo que, no final da semana passada, repeliu qualquer tentativa de acordo com ele: nada de pedir a seu pessoal para "pegar leve" em troca de tratamento igual para o petista Agnelo Queiroz, governador de Brasília. 

Se o preço para liquidar Perillo fosse aceitar a liquidação de Queiroz, Lula o pagaria.

A festa da mexerica
O dono de um tradicional restaurante numa rua nobre de São Paulo, a Cardoso de Almeida, resolveu fechar as portas numa das datas de maior movimento da casa: o Dia dos Namorados. Temia, conforme disse, ser vítima de um arrastão de bandidos, a última moda na cidade. Nos últimos dias, houve mais de dez arrastões em prédios, restaurantes e bares, muitos a minutos de distância de distritos policiais. Infelizmente, a Polícia não conseguiu atrapalhar os assaltos: chegou atrasada. 

Mas a Secretaria de Segurança informa que o combate ao crime vai bem. 

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

O naufrágio do etanol de cana é a maior vergonha do Brasil na Rio + 20, que começou nesta semana.


Ricardo Setti
Veja online

(Foto: Valter Campanato / ABr) 
A Rio+20 que acontece no Rio: 
bom momento para criar o movimento 
“Veta Gasolina, Presidente Dilma”? 

A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20 será realizada a partir de amanhã, dia 13, até o dia 22 de junho, no Rio de Janeiro. A Rio+20 é assim conhecida porque marca os vinte anos de realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92).

A propósito, publico artigo de Marcos Fava Neves, professor titular de planejamento e estratégia na Faculdade de Economia e Administração da USP (Campus Ribeirão Preto), consultor e autor de livros sobre a indústria sucro-alcooleira.

O NAUFRÁGIO DO ETANOL DE CANA É A MAIOR VERGONHA DO BRASIL NA RIO+20
Um dos nossos negócios mais promissores, o sucro-energético, vem naufragando nos últimos anos, numa tragédia amplamente anunciada, com visíveis prejuízos à sociedade brasileira. Aqui não trarei os números existentes para todas estas colocações, mas os fatos que levaram ao naufrágio.

A cana foi reconhecida por cientistas como uma das plantas mais aptas para transformar a energia do sol em energia renovável. De seu processamento gera-se o açúcar, o etanol, a eletricidade, o plástico, além de muitos outros produtos. Via engenharia genética de levedura, gera-se o diesel, o querosene e a gasolina, tudo renovável para a demandante sociedade mundial. Este setor energético traz poder e conforto ao Brasil, milhões de empregos, grandes exportações e reduz importações, num claro beneficio à sociedade.

Grandes investimentos foram feitos por empresas de Petróleo, tradings americanas, europeias e asiáticas, cooperativas de produtores agrícolas franceses, grupos nacionais, entre outros que acreditaram na cana e no etanol. Apesar de fundamentos fortemente favoráveis, hoje estes ativos não apresentam rentabilidade, o setor não cresce mais e investidores estão arrumando as malas, o que gera um prejuízo, também de imagem e credibilidade.

A falta de rentabilidade é consequência de preços não remuneradores e custos de produção elevados, advindas de três conjuntos de fatores. Os primeiros dois, ineficiências do setor produtivo e fatores de mercado (principalmente os preços internacionais do açúcar) têm um terço de responsabilidade e serão tema de outro artigo. O terceiro, com dois terços de responsabilidade, é a equivocada política do governo brasileiro, principalmente o federal.

(Foto: Lia Lubambo / Exame.com) 
Usina de etanol: 
uma única empresa de São Paulo tem 40 delas
 para vender, sinal de um setor sem rumo 

Erros do governo — e o que poderia fazer imediatamente
Exigências e ineficiências do governo geraram sensíveis aumentos de custos, o etanol de cana recebe quase o mesmo elevado tributo que a poluente gasolina e a energia elétrica limpa e renovável advinda da cana tem a mesma falta de reconhecimento. Com isto, o governo não privilegia fontes renováveis e limpas.

O governo controla o preço da gasolina e coloca um teto no preço do etanol. É um claro processo de dumping feito pela Petrobras, obrigada a importar gasolina e vender no mercado interno a um preço menor que o pago, com prejuízo à empresa, à seus acionistas e ao setor de cana, onde também é acionista.

Duas rápidas ações do governo, que vêm sendo solicitadas há anos, trariam efeito imediato: um ligeiro aumento no preço da gasolina e uma redução tributária do etanol e da eletricidade da cana.

E nos tornamos compradores de álcool dos EUA!

Ao mesmo tempo, nos EUA, o programa de combustíveis renováveis usando o etanol de milho, visivelmente menos competitivo que o etanol de cana, cumpriu o seu papel. Lá existe uma política pública clara, estratégica e bem desenhada.

Ganhou a sociedade americana, que com o etanol de milho, gerou trabalho e produção, interiorizou desenvolvimento, criou empregos e tributos, produziu internamente combustível renovável, reduziu sua dependência de importação de petróleo, reduziu emissões de carbono e por fim, ganhou um produto exportável.

Por mais incrível que possa parecer, os EUA encontraram no Brasil, o seu antigo parceiro das lutas em favor do fortalecimento do etanol como commodity mundial, um grande comprador do seu etanol.

(Foto: Getty Images)
"Nos EUA, o programa de combustíveis renováveis usando
 o etanol de milho, visivelmente menos competitivo que o 
etanol de cana, cumpriu o seu papel" 

A expansão da cana poderia ser feita com desmatamento zero
É interessante observar que o etanol de cana é um combustível limpo e renovável, de emissão praticamente zero, quando considerada toda sua cadeia produtiva. Seus competidores são altamente poluentes.

Pesquisa divulgada na revista Nature comprovou que a cana esfria a temperatura nas regiões onde está sendo produzida. É uma planta que, com inovação, pode produzir três vezes mais na mesma área. Sua grande expansão no Brasil envolveria desmatamento zero.

Porém, apesar de todos os benefícios ambientais, sociais e econômicos que sua produção e uso trás, a cana não desperta os interesses destes mobilizados brasileiros e estrangeiros das ONGs, cartunistas e artistas que aderiram à competentemente orquestrada campanha “Veta Tudo Dilma”, feita para o Código Florestal. Fica aqui lançada a sugestão para que esta gente possa, com a mesma força e mobilização, criar o movimento “Veta Gasolina, Presidente Dilma”. Seria um importante e coerente apoio.

Lula alardeou os benefícios do etanol de cana e a “autossuficiência” em petróleo: hoje, importamos petróleo, gasolina e etanol norte-americano
Há muito tempo, e mais fortemente desde a crise do final de 2008, em discursos, entrevistas e textos clamamos por uma política pública, por uma estratégia de médio e longo prazo que privilegie no Brasil as fontes renováveis de energia. Faltou sensibilidade econômica, ambiental e social no governo.

Nosso comunicativo ex-presidente fez o elogiável trabalho de alardear ao mundo os benefícios ambientais, econômicos e sociais do etanol de cana, prometendo que seriamos grandes produtores e exportadores, e também a imagem de sua mão suja de petróleo no dia do anúncio da “autossuficiência” do Brasil circulou por todos os lugares.

Pouco tempo após, somos importadores de petróleo, de gasolina, de etanol norte-americano, o etanol de cana perdeu participação no mercado interno e perdemos espaço no mercado mundial de açúcar.

Políticas públicas coerentes, se vierem, virão tarde: o estrago já foi feito
Prejuízo geral para nossa sociedade, mais um caso evidente de discurso desalinhado com a prática. Muitos tem memória curta, alguns não.

Políticas públicas coerentes precisam vir e se sabe quais são as necessárias. Mas já virão tarde.

O estrago já foi feito, o prejuízo à sociedade e aos empresários do setor é quantificável e aumenta ano a ano.

É difícil recuperar rápido este apagão de quatro anos, muitos postos de trabalho já foram perdidos, impostos deixaram de ser coletados, exportações minguaram, importações já foram consumidas e a luta contra a inflação perdeu um aliado.

Fica registrado no currículo de quem esteve à frente neste período da gestão, o naufrágio do etanol de cana, a maior vergonha do Brasil na Rio+ 20.

Falar de reforma é pecado no Brasil


Ricardo Galuppo 
Brasil Econômico

São R$ 180 bilhões por ano, de agora até 2015. Daí por diante, o volume de recursos exigidos aumentará – mas espera-se que lá, com a economia mais acelerada, seja mais fácil conseguir o dinheiro.
Mas, por enquanto, R$ 180 bilhões é o valor que o Brasil precisa investir todo ano caso realmente queira dar um passo importante em direção ao desenvolvimento.

Esse dinheiro é necessário para reformar e ampliar os aeroportos, construir estradas e ferrovias, erguer hidrelétricas e redes de distribuição de energia – ou seja, tudo aquilo que atende pelo nome de infraestrutura.

Há centenas de necessidades identificadas, dezenas de projetos prontos e aprovados. Mas faltava o essencial: o capital para financiar tanta obra fundamental e inadiável. O BNDES, tradicional financiador desse tipo de empreendimento, dispõe de uma capacidade de empréstimos que suporta, no máximo, um terço de tudo isso – ou seja, R$ 60 bilhões por ano. E os outros R$ 120 bilhões, sairão de onde?

Por enquanto, esse dinheiro será aplicado por investidores que ganharam, nos últimos meses, do governo uma série de incentivos para investir em infraestrutura, seja sob a forma de Parcerias Público-Privadas, seja pela aquisição de debêntures dos projetos (conforme reportagem de Gustavo Machado, nesta edição).

Tudo bem: as PPPs ajudam a dinamizar o mercado e, de quebra, aumentam o peso da banda privada no conjunto da economia. Ótimo. E os recursos das debêntures, por sua vez, devem ser vistos como dinheiro de primeira linha. Até aí, tudo bem.

A questão é que mesmo os sócios privados necessitam de fontes de financiamento, o que, entra ano e sai ano, serve para caracterizar cada vez mais a inexistência de um estoque de poupança interna capaz de fornecer recursos para esse tipo de investimento. Os R$ 120 bilhões em questão sairão dos fundos de pensão já conhecidos ou de investidores estrangeiros. Sem problema.

A questão é que os fundos de pensão, como se sabe, são ricos mas não dispõem do dinheiro necessário para suprir todas as necessidades do país. Os investidores estrangeiros, por sua vez, têm um humor que varia ao sabor dos ventos da economia mundial – e fazer qualquer planejamento de longo prazo com base no comportamento errático desses recursos é um erro.

Não é preciso ser economista brilhante para saber que, nas economias mais sólidas, não existe fonte de formação de poupança interna mais interessante do que o sistema de previdência.

Uma mudança no modelo de gestão dos recursos pagos pelas empresas e pelos empregados a título de contribuição ao INSS seria o primeiro passo para que, dentro de alguns anos, o país dispusesse de uma fonte segura para fornecer os recursos necessários para a construção do sistema de saneamento, das estradas e dos portos que precisam existir para dar suporte ao crescimento da economia.

No Brasil, parece que é pecado falar em reformas estruturantes – e as pessoas costumam fugir desse tema como sonegador foge do fiscal da Receita. Mas é bom ficar atento a isso.

Dez magistrados de MT são aposentados compulsoriamente


Revista Consultor Jurídico (*)

O Supremo Tribunal Federal, por unanimidade, cassou liminares concedidas a dez magistrados de Mato Grosso que foram punidos pelo Conselho Nacional de Justiça com a aposentadoria compulsória. Eles foram acusados de desviar verbas do Tribunal de Justiça de Mato Grosso para socorrer financeiramente a maçonaria.

Foram aposentados compulsoriamente pelo CNJ os desembargadores José Ferreira Leite, José Tadeu Cury e Mariano Travassos e os juízes Marcelo Souza Barros, Antônio Horácio da Silva Neto, Irênio Lima Fernandes, Juanita Cruz da Silva Clait Duarte, Marcos Aurélio Reis Ferreira, Maria Cristina Oliveira Simões e Graciema Ribeiro Caravellas.

As liminares foram concedidas pelo ministro Celso de Mello, em 2010, para que esses magistrados retornassem aos seus cargos. No julgamento de quarta-feira (13/6), o próprio Celso de Mello votou pela cassação das liminares, ao reconhecer a competência originária do CNJ para investigar e punir magistrados.

Quando concedeu as liminares, o relator destacou que, ao enviar o caso diretamente ao CNJ, sem antes submetê-lo ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso, o então corregedor-geral da corte estadual, Orlando Perri, “teria provocado indevida supressão da competência primária do Tribunal de Justiça para agir, em caráter prioritário, no plano administrativo-disciplinar, em ordem a apurar (e eventualmente punir), de modo regular e adequado, alegadas transgressões funcionais supostamente cometidas por seus membros e juízes de direito”.

Ainda naquela ocasião, o ministro Celso de Mello afirmou que a análise do caso por parte do CNJ representaria uma “prematura intervenção” que não observava a cláusula de subsidiariedade. Em outras palavras, o ministro destacou que o CNJ deveria ter um papel subsidiário e complementar em relação aos tribunais, atuando somente quando constatada a ineficácia dos mecanismos ordinários de administração e repressão do Poder Judiciário local.

Mas, diante da decisão do Plenário do STF na ADI 4.638 no sentido de que o CNJ tem competência originária (primária) e concorrente a dos tribunais, na sua incumbência de zelar pela autonomia e pelo bom funcionamento do Poder Judiciário, o ministro ajustou seu posicionamento sobre o tema para aplicar o entendimento firmado pela corte. De acordo com esse entendimento, a própria Constituição Federal garantiu tais competências ao CNJ (artigo 103-B, parágrafo 4º, da CF).

“Tendo em vista que o único fundamento que me levou a conceder o provimento cautelar foi o princípio da subsidiariedade, eu digo que, não obstante a minha pessoal convicção em sentido contrário, devo ajustar meu entendimento à diretriz jurisprudencial prevalecente nesta Corte em respeito e em atenção ao princípio da colegialidade”, afirmou Celso de Mello.

O ministro Cezar Peluso, que na ocasião do julgamento da ADI 4.638 votou contra a competência originária do CNJ, também acolheu o que foi decidido pela maioria. Assim, acompanhou voto do ministro Celso de Mello para cassar as liminares.

A decisão foi tomada em recursos (agravos regimentais) interpostos pela União contra as liminares concedidas pelo ministro, que levou o caso para a apreciação do Plenário na sessão desta quarta.

O presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, desembargador Rubens de Oliveira, ao tomar conhecimento do resultado do julgamento do Supremo Tribunal Federal, disse que, ao ser notificado, dará imediato cumprimento à decisão tomada. “Trata-se de uma matéria judicializada e, portanto cabe ao Poder Judiciário estadual cumpri-la”, disse o presidente.

O desembargador Rubens de Oliveira acrescentou, ainda, que adotará as medidas necessárias para assegurar a continuidade da plena prestação jurisdicional à população mato-grossense. 

(*) Com informações da Assessoria de Imprensa do STF e da Coordenadoria de Comunicação do TJ-MT.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
E os caras ainda chamam a esta vergonheira de "punição". É um absurdo!!!! Experimente o cidadão comum, que, aliás, paga o salário destes cretinos, roubar uma mísera galinha para matar a fome para ver o que lhe acontece!

E tem gente que ainda não entende as razões pelas quais a violência e a criminalidade cresce no Brasil sem parar. Acima, temos o exemplo bem característico de uma destas razões.


Cidadã abaixo de qualquer suspeita


Carlos Brickmann 
Observatório da Imprensa

A esposa do empresário Marcos Matsunaga confessou tudo: disse que o matou com um tiro, que o esquartejou, que o motivo do assassínio foi uma desilusão matrimonial, pois descobriu que estava sendo traída e que o marido planejava, na separação, ficar com a guarda da filha pequena. 

E, porém, há tanta coisa a esclarecer! Há pontas soltas na história e não há veículo de comunicação que busque esclarecê-las. Há espantosas declarações de autoridades sem que algum repórter se mova para verificá-las. Ao contrário, tudo que é dito é publicado a seco, sem que se verifique sequer se tem alguma lógica.

Algumas declarações de autoridades que soam estranhas:

1 - Há na casa mais freezers do que seria normal. 
Ou seja, alguém andou comprando freezers já imaginando que algum dia teria de matar e esquartejar alguém e planejando ampliar o espaço disponível para o congelamento? A primeira pergunta é: qual seria o número normal de freezers que uma casa como aquela deve ter? Qual a capacidade, em litros (já que os freezers podem ter diversos tamanhos) que a autoridade consideraria normal? Se alguém compra mais freezers do que este número considerado normal vira suspeito? Este colunista conhece um cavalheiro que tem mais de cem relógios de pulso (e, como a maioria das pessoas, tem apenas dois pulsos para usá-los). E daí?

2 - Há armas, todas legais, já que o empresário era colecionador, espalhadas pela casa inteira.
E onde seria conveniente guardar uma coleção de armas? Na sala, onde possa ser mostrada aos amigos, ou num cofre de banco, onde nem o colecionador poderia apreciá-las? Se ele colecionava armas, que é que esperavam encontrar em sua residência: estatuetas de corujas? Mais: quem colecionava armas era ele, a vítima; não ela, apontada como a assassina. 

3 - Suspeitíssimos sacos plásticos presos por uma linha vermelha 
- ??? Que é que isso tem de estranho? Se a residência tem vários freezers, nada mais normal que tenha sacos plásticos especiais, com fechamento hermético. Ou esses sacos plásticos não têm nada com o crime, e não deveriam sequer constar nas reportagens, ou têm - e, nesse caso, os repórteres deveriam ter percorrido supermercados e lojas especializadas das redondezas, para saber se dispunham daquele modelo e se tinha havido alguma compra recente fora do volume habitual. 

4 - A moça foi enfermeira e disse ser capaz de esquartejar uma pessoa. OK; mas como é que aconteceu a quebra da espinha do marido?
Tudo indica que a confissão foi real, que não foi obtida mediante pressão, que efetivamente a moça disse a verdade quando declarou ter matado o marido. Mas ainda há coisas a esclarecer. E, esclarecendo-se essas coisas, talvez se abra uma janela para saber a história inteira do crime.

Tortura para sempre
Este colunista já escreveu algumas vezes que se lembra bem do tempo em que os advogados eram valorizados pela opinião pública exatamente pela defesa dos direitos humanos e das garantias individuais. Depois, com forte apoio da imprensa - e concessões como vazamentos de informações e fornecimento de reportagens praticamente prontas - a opinião pública se voltou para o outro lado: os promotores - sempre "jovens", não importa a idade que tenham, e "combativos", não importa que mergulhem quando surgem problemas com eles ou pessoas próximas - viraram os xodós da população. E os advogados passaram a ser responsáveis pela absolvição de pessoas que a opinião pública, altamente influenciada pela opinião publicada, considera culpadas. 

"Bons advogados" deixou de ser um elogio; "bem pagos" deixou de ser um ideal da população; e "bons advogados, bem pagos", viraram o contraponto dos "jovens e combativos" promotores. É como se os promotores, com salários superiores a R$ 20 mil mensais, com aposentadoria integral, fossem mal pagos. Como se os promotores não tivessem feito os mesmos cursos de Direito, as mesmas pós-graduações, possuíssem menor capacidade profissional. Mas conseguem se colocar como representantes da Justiça; os advogados seriam, neste caso, os protetores dos fora da lei.

E que é que isso tem a ver com os fatos de hoje? Simples: pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo mostra que 47,5% da população do país são favoráveis a que os tribunais aceitem provas obtidas por meio de tortura. Repugnante? Sim - mas exigir que as provas obtidas por gravações ilegais sejam consideradas boas, esquecendo a formalidade de que foram obtidas por métodos fora da lei, não é praticamente a mesma coisa? A diferença é só o método ilegal: um, sangrento, horrível; outro, limpinho, de colarinho branco. Ambos são atos de banditismo. E aceitar o limpinho leva, inevitavelmente, a que se aceite também o método sujo.

Relembremos o coronel Jarbas Passarinho, ministro de vários governos militares (a frase não é exatamente esta, mas o sentido é): "Se você souber que um terrorista vai jogar uma bomba numa escola, e a pessoa que você prendeu tiver informações para evitar a matança de crianças, é errado torturá-la para que revele o que sabe?"

Em princípio, a maioria dos entrevistados acha que não deve haver violência nos interrogatórios. Mas isso vale apenas para alguns crimes. Para investigar suspeita de estupro, por exemplo, são bem-vistas torturas como choques, queima com ponta de cigarro, espancamento ou deixar o interrogado sem água nem comida. É uma barbaridade auto-alimentável: pode-se torturar porque o crime é terrível e, portanto, o criminoso é repulsivo. Mas como saber se o cavalheiro é criminoso, se não houve sequer julgamento? Ou seja: o cavalheiro é criminoso porque alguém acha que ele é criminoso, e deve ser torturado para que confesse o crime e justifique a tortura que sofreu. 

E pensar que estamos no século 21!

A voz dos assassinos
Conta Elio Gaspari, na sua excelente série de livros sobre a ditadura militar brasileira, que o presidente Ernesto Geisel, em certa ocasião, disse que era uma barbaridade, mas que só depois que o regime começou a matar é que obteve êxito na luta contra a guerrilha urbana e a rural.

Agora, que tanto se debate a questão - e em que o destino dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia é um dos temas centrais da Comissão da Verdade - sai um livro que não pode ser perdido: Mata! - o major Curió e as Guerrilhas do Araguaia, do repórter Leonêncio Nossa, que trabalha na Sucursal do Estadão em Brasília. Leonêncio fez longas entrevistas com Sebastião Rodrigues de Moura, por codinome Major Curió, e teve acesso a seu arquivo. No livro, Curió relata o assassínio de integrantes da Guerrilha do Araguaia, que durou três anos, de 1972 a 1975. Segundo Curió, dos 67 mortos, 42 foram assassinados depois de presos. O que se comenta - e talvez seja esclarecido no livro - é que sua atividade se desenvolveu principalmente na área de informações, com farta utilização da tortura de guerrilheiros e de pessoas da região, até que contassem tudo o que sabiam.

Depois da luta, o Major Curió foi encarregado pelo Governo de outra missão: organizar os garimpeiros de Serra Pelada. Teve êxito. Tornou-se popular entre os garimpeiros, a cidade que surgiu por lá acabou se chamando Curionópolis, ele foi seu prefeito, terminou por eleger-se deputado. Agora, diz que seu objetivo, ao fornecer informações para o livro de Leonêncio Nossa, é educativo: "Não me julgo dono da verdade. Sei muita coisa porque vivi", disse. "É preciso contar a história com imparcialidade para que os mais jovens possam avaliar a atuação das Forças Armadas no Araguaia."

O livro Mata!, editado pela Companhia das Letras, já pode ser comprado na Livraria Cultura em versão digital. A versão em papel sai em 13 de julho, em São Paulo, durante um congresso de jornalistas.

A Ford, a Justiça, a Imprensa
João Alkimin, jornalista de São José dos Campos, SP, cansou de esperar - cansou de esperar a ação da Justiça, a correção dos problemas de seu carro pela Ford, a reação da imprensa. E foi direto ao alvo: representou á ministra Eliana Calmon, que comanda o Conselho Nacional de Justiça.

O caso: a esposa de Alkimin comprou um Ford Taurus que teve problemas. A Ford lavou as mãos, a cliente pediu a instauração de inquérito policial no 1º DP de São José dos Campos. O Instituto de Criminalística da Polícia Civil fez perícia oficial que demonstrou defeito estrutural no carro.

A Ford continuou em silêncio. A cliente entrou com ação judicial pedindo a substituição do veículo em razão do defeito estrutural. O juiz, alegando que o laudo oficial do Instituto de Criminalística não era oficial, mas particular, nomeou outro perito, cujo laudo disse que o veículo estava em condições, embora apresentasse problemas em velocidades mais altas.

Mas o problema que levou Alkimin a representar à ministra Calmon foi a sucessiva mudança de câmaras judiciais para examinar o processo. No total, envolveram-se quatro câmaras. Por que? É este um fato absolutamente incomum.

Houve mais irregularidades: por exemplo, o laudo elaborado pelo perito designado pelo juiz se refere a veículo com outro número de chassi. O perito nomeado pelo juiz alegou que não conseguiu entrar em contato com a revenda que havia entregue o carro pois ela já não existia - só que continuava existindo, sim. E o perito alegou, para tentar explicar seu erro, que "cometeu um lapso".

E a imprensa? Quietinha, uai! A Ford não é uma campeã de anúncios, mas suas verbas não são de jogar fora. A briga está na Justiça. Este colunista é amigo da cliente, mas não é advogado e não sabe quem tem razão. Entretanto, negar que um laudo do Instituto de Criminalística seja oficial, fazer o processo tramitar por várias câmaras judiciais, exibir um laudo de outro veículo sem nenhuma autoridade judicial perceber o problema, tudo isso soa muito esquisito. 

Se a ministra Eliana Calmon se pronunciar, será ótimo. E se algum veículo de comunicação decidir acompanhar o caso, como se supõe que seja de seu interesse e de seus leitores, será ainda melhor.

Devolve, Dilma


Magno Karl
Opinião & Notícia

Opção simples para reativar o investimento: devolver um pouco de dinheiro para o pagador de impostos

(Reprodução/Internet)
Dinheiro deve voltar para quem paga os impostos


Nesses tempos estranhos, a mera afirmação do óbvio pode nos trazer alguma satisfação. E não é sempre que damos de cara com ele assim, solto numa página de opinião de um jornal brasileiro.

Na Folha de São Paulo de segunda-feira, 4, ao comentar as movimentações do governo para poupar menos e gastar mais, Vinícius Mota lembrou de uma opção simples para reativar o investimento: devolver um pouco de dinheiro para o pagador de impostos, para que ele mesmo gaste e faça as suas escolhas.

Não se cogita, por preconceito e falta de coragem de enfrentar o corporativismo estatal, devolver dinheiro à sociedade para que ela mesma se encarregue de reativar o gasto e o investimento. Para cada R$ 100 investidos no Brasil, os governos respondem por menos de R$ 15.

O setor público, essa máquina fabulosa de arrecadar, tem propensão baixíssima para poupar e investir – e altíssima para consumir. O Brasil tem margem para baixar substancialmente sua carga tributária, hoje em 35% do PIB, a fim de estimular a atividade econômica. Praticamente nenhuma outra nação importante às voltas com a crise pode fazer isso

Caro óbvio, foi bom vê-lo novamente. Não suma, não.

Fontes: Ordem Livre - 

Por uma solução sustentável e forte


Raul Velloso 
O Estado de S. Paulo

Difícil é reativar a demanda pelo lado sustentável, o do investimento.

Nos 12 meses acumulados até março, a taxa de crescimento do PIB ante os 12 meses precedentes mostrou nova queda, ficando em torno de 2% ao ano(a.a.). Essa taxa vem caindo seguidamente desde o final de 2010, quando o insustentável pico de 7,6% foi alcançado. À época, o próprio governo apoiou a percepção de que o Brasil estava “bombando” e não se tratava de um mero efeito estatístico.

Estima-se, contudo, que a taxa de crescimento do PIB potencial, ou sustentável, oscila hoje ao redor de 3,4%. Para a frente, a média dos mercados vê o PIB fechando em 2,7% em dezembro deste ano e em 4,5% no final do ano que vem, com muita dispersão. Por essa visão, antes do final de 2013 cruzaremos a linha da taxa sustentável do PIB, a partir de quando caberá, talvez, até desacelerar a economia, a fim de trazê-la de volta ao equilíbrio.

A atual frustração se deve ao esgotamento da estratégia de crescimento puxado pelo crédito interno e ao acirramento da crise europeia, que arrasta consigo, para baixo, a atividade econômica do resto do mundo, incluindo países como a China, de alto peso na demanda externa por nossos produtos. Paralelamente, salta aos olhos o desempenho desfavorável da indústria de transformação, com queda de 1,2% a.a. para os 12 meses acumulados até abril. Como tudo isso não afetaria o Brasil?

Ressalvada a hipótese de ruptura na Europa, reativar a economia no curto prazo não parece, contudo, ser o maior de nossos problemas. Isso já foi provado na reação à crise de 2008/2009, e, de fato, o Brasil tem um modelo puxado pelo crescimento fácil de demanda, a relacionada com o consumo, que facilita a tarefa de emergir do fundo do poço. Na verdade, o atual ciclo de queda da taxa de juros Selic ainda nem se completou. Vivemos, assim, uma oportunidade única para, finalmente, praticar taxas reais civilizadas. Ou seja, o problema de curto prazo não é tão grave quanto aparenta no noticiário.

O difícil é reativar a demanda pelo lado sustentável, o do investimento. Na área privada, mesmo se o consumo crescer mais, o quadro é incerto. Entre os investidores estrangeiros há uma nova nuvem de preocupação com o país. Por sua vez, o governo sinaliza mudanças, mas o investimento público padece de duas doenças, já antigas: a inoperância governamental e a falta de recursos, ou seja, de poupança pública.

Após décadas de sucateamento e ingerência política indevida, tenta-se hoje reorganizar a área de transportes, a de maior peso nos investimentos, na qual o grau de execução dos investimentos, ficou entre 22% e 50% da dotação total atualizada, de 2001 a 2011.

Na verdade, por mais que o Tesouro monitore a execução de caixa para viabilizar a meta de superávit primário, seus dirigentes costumam afirmar que atualmente inexiste qualquer restrição à liberação de recursos para investimentos em transportes. Ou seja, num primeiro momento, depende só do governo melhorar sua gestão e fazer mais.

Só que, como a restrição de poupança logo aparecerá, a saída é atrair investidores privados para a infraestrutura, via concessão ou parceria, que obviamente irão comparar essa com outras oportunidades de inversão antes de tomarem suas decisões. As concessões foram retomadas no atual governo, mas a ânsia dos dirigentes políticos em geral de agradar aos usuários dos serviços de infraestrutura via achatamento tarifário sem cobrir os subsídios implícitos tem, contudo, afugentado os melhores investidores e operadores, abrindo espaço para os oportunistas. Estes fingem aceitar condições desfavoráveis, como se entrassem no negócio para perder, apostando em revisão futura dos contratos, com vistas a recompor condições econômicas sustentáveis. Ao final, o investimento demora ou não acontece ou vira elefante branco. Ou seja, para sairmos do imbróglio atual, o governo deve entrar para valer e mudar sua postura em relação ao investimento privado em infraestrutura.

O redirecionamento dos investimentos privados em prol da área de infraestrutura tem a vantagem adicional do consequente aumento de produtividade. Para entender essa conexão, todo o crescimento do PIB que não possa ser atribuído ao aumento do capital físico e humano é, por resíduo, considerado aumento de produtividade. Essa parcela residual se associa a muitos fatores, tais como o progresso tecnológico, mas depende crucialmente da composição dos investimentos.

De fato, como a infraestrutura presta importante serviço a si mesma e aos demais setores, serviço esse que não pode ser importado do exterior, se não houver investimento suficiente e de qualidade, os custos sobem e o PIB cresce menos. Já em setores que produzem bens finais, a falta de investimento é menos prejudicial ao crescimento econômico, à medida que os produtos possam ser trazidos de fora, o que costuma ser feito a custos mais baixos e, portanto, em benefício dos consumidores locais. Em síntese, quanto maior o peso dos investimentos em infraestrutura de qualidade no total, maior o crescimento da produtividade e do PIB sustentável.

A esfinge brasileira


Monica Baumgarten de Bolle e Fernanda Guardado
Valor Econômico

Cerca de 45% da dívida das famílias tem prazo inferior a um ano, sendo que 30% do total é de menos de 6 meses

“Decifra-me ou devoro-te”. Como impulsionar o consumo? Como destravar o investimento? Eis os grandes enigmas atuais da economia brasileira. Desatar o nó górdio do investimento privado em meio à crise financeira internacional e à imprevisibilidade europeia é um desafio quase insuplantável no momento. Resta, portanto, ele, o consumo. Fonte de acalorados debates, teses incompletas e frases de efeito. “O modelo de consumo se esgotou”. Alguém ainda aguenta ouvir isso?

O debate atual em torno desse suposto esgotamento do “modelo de consumo” para o crescimento brasileiro tem misturado alhos com bugalhos no afã de desqualificar a atual estratégia adotada pelo governo para incrementar o ritmo de crescimento econômico. Embaralham os estímulos cíclicos de demanda – o que qualquer governo faz quando vê a atividade ameaçada por choques externos – com políticas de médio prazo de expansão da capacidade produtiva, para chegar à apressada conclusão de que “não há mais espaço” para a expansão do consumo e do endividamento das famílias. É claro que só uma estratégia de crescimento focada nas reformas estruturais e nas condições para o avanço do investimento privado garante a sustentabilidade da expansão da atividade e do desenvolvimento do país. Não há como discordar disso. A recomendação é tão sensata quanto qualquer conselho de avó.

Mas isso nada tem a ver com a tentativa legítima de incentivar o consumo quando a economia ameaça escorregar por causa da crise internacional. Ou melhor, incentivar o consumo nestas condições é o mesmo que seguir o conselho avoengo de incontestável sensatez, “proteja-se das correntes de ar”.

“Decifra-me ou devoro-te”. Cadê o esgotamento? Vamos aos fatos. O crescimento brasileiro foi beneficiado, nos últimos anos, tanto pelo consumo, quanto pelo investimento. Basta olhar as Contas Nacionais. Entre 2003 e 2011, a razão investimento/Produto Interno Bruto (PIB) saiu de 15% para 20%, enquanto o consumo perdeu participação no PIB.

A expansão do consumo neste período foi acompanhada de um aumento da alavancagem do consumidor, cujo comprometimento mensal da renda disponível atingiu 22% em março de 2012, após permanecer em torno de 19% entre maio de 2009 e maio de 2011; um avanço de três pontos percentuais que foi acompanhado de muito estardalhaço. Sobretudo quando os próprios bancos costumam trabalhar com um nível máximo de comprometimento de cerca de 30%. Houve, sim, uma alta de inadimplência. Mas os dados coletados pelo Banco Central (BC) e os indicadores do Serasa já apontam uma queda destas taxas à frente.

O prazo médio das dívidas para pessoas físicas é curto. Cerca de 45% do estoque tem prazo inferior a um ano, sendo que 30% do total é de menos de seis meses. Assim, as dívidas “acabam rápido” – e em um ambiente de estímulo ao refinanciamento, isso tende a ser acelerado, como agora. As taxas estão em queda, o que reforça o estímulo ao refinanciamento e abre espaço para maior contratação de dívida e consumo, uma vez que o percentual da renda comprometida com o pagamento de juros diminui proporcionalmente; dados preliminares do BC já apontam queda entre janeiro e maio na taxa média para pessoas físicas.

Os consumidores vêm se desalavancando mais recentemente, e mostram maior conforto com seu nível de endividamento, possivelmente um reflexo da curta duração das dívidas. A Sondagem do Consumidor da FGV mostra que, ao longo de 2011, o percentual de famílias que estava se endividando recuou, e, desde então, subiu apenas ligeiramente, atingindo 17,6% da amostra – abaixo da média histórica da pesquisa, de 20,5%. No mesmo período, o percentual de famílias que estão poupando subiu sistematicamente, e tem mostrado alguma estabilidade em torno do pico da série.

A Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio aponta uma diminuição do percentual de famílias endividadas entre maio de 2011 e maio de 2012. As famílias que se consideram pouco ou não endividadas atingem 64,5% da amostra, um avanço ante o mesmo mês do ano passado. Os próprios consumidores se mostram mais dispostos a aumentar suas compras. Segundo a FGV, cerca de 19% das famílias da amostra pretendem aumentar suas compras de bens duráveis. O percentual de famílias que pretendem diminuir suas compras, por outro lado, segue em patamar historicamente baixo (28%).

O consumidor quer aumentar seus gastos, tem confiança na perspectiva de emprego, passa por um momento em que uma boa parte das dívidas contraídas até o fim de 2011 estão vencendo, e se depara com custos declinantes para a contratação de novas dívidas. O que parece faltar é uma maior oferta de crédito por parte dos bancos, o que é compreensível no momento. Entretanto, espaço para consumir mais e crescer mais há, sim, ainda que não no ritmo observado ao longo de 2010. Desde que haja crédito. A estratégia pode não ser a melhor nem a mais segura, afinal estimula a alavancagem do consumidor. Mas decerto deve ser potente no curto prazo para estimular o crescimento.

Enigma decifrado.

O viajante desencantado


Roberto DaMatta
O Estado de S.Paulo

Uma conferência sobre a obra de Jorge Amado, organizada pela presidente da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado; pela British Library; e pela Embaixada Brasileira a propósito da celebração do centenário de nascimento de um dos nossos maiores escritores, leva-me à Europa da Europa: a Paris e a Londres, onde ocorreu a reunião no último dia 8.

Escrevo estas notas como um viajante que não sabe ser turista, esse estilo de andança moderna inventada por um Ocidente hoje em plena dúvida consigo mesmo. Uma dúvida que, lamento constatar, é tão real quanto o meu cansaço depois de bater perna pelo British Museum (que ainda não perdeu seu charme...) e pela cidade, já que um dos prazeres que continuam a existir nas metrópoles clássicas é caminhar por suas calçadas impecáveis, no deslumbramento de tentar enxergar o passado soterrado pelo presente.

De Paris, meu ponto de chegada como um velho turista, tenho mil memórias despedaçadas. Uma delas é a de uma conferência na Maison des Sciences de l'Homme quando minha obra despertava uma certa curiosidade entre os franceses. Lembro-me de uma conferência realizada justamente no auditório Émile Durkheim a convite de um acolhedor Michel Maffesoli. Falei sobre o carnaval como uma festa de inversão, mas a todo momento não me saía da cabeça o que diria o mestre fundador se ouvisse o que eu expunha para um grupo de jovens de olhar curioso. Uma outra recordação vem dos vários encontros com Claude Lévi-Strauss, a quem eu visitava religiosamente e que, depois de me receber gentilmente por cerca de 20 ou 30 minutos, olhava para o relógio como um sinal evidente de que meu tempo havia terminado. Eram "visitas estruturais" que tinham o dom de tornar Paris um lugar mágico e a Rue des Écoles, onde trabalhava o meu admirado mestre, o local das verdadeiras "mitologias", como disse uma vez num ensaio num número a ele devotado do Magazine Littéraire, em 1985.

Andando no início da semana passada numa Paris abarrotada e visitando os lugares onde vivi, fui possuído pelas visões de um jovem cujo amor pela antropologia francesa era uma forte razão de viver. Hoje, constato feliz, a chama não mais existe e dela fica um conjunto de imagens agradecidas, como a de um Louis Dumont e de um Luiz Tarlei de Aragão, ambos falecidos - este discípulo fiel do primeiro, ouvindo um seminário que dei mais nervoso do que um padre rezando sua primeira missa, para o grupo do professor Dumont, durante o qual surgiu inesperadamente a figura majestática de Lévi-Strauss, causando espanto em pelo menos um colega francês e muita inveja num outro. Depois do ordálio de ter sido ouvido por dois dos maiores mestres do pensamento sociológico francês, quando jantávamos descontraídos, Dumont levantou um brinde à minha presença que havia feito com que o seu antigo mentor no Museu do Homem, Claude Lévi-Strauss, viesse ao seu encontro - graças, disse ele, à vossa presença. Os olhos de uma mulher, que sabia da minha admiração e do meu encanto sem dúvida adolescentes por esses mestres, brilhavam de orgulho e amor.

Hoje, flanando por uma Paris superlotada de turistas, eu me vi como um peregrino desencantado. Tinha visto tudo. Os mestres haviam morrido. Eu não conhecia os novos luminares. Senti-me, graças a Deus, como um herege em Meca. Perguntei-me sem medo: Paris continuava a ser Meca? Na disputa palmo a palmo por um espaço para caminhar e entrar nos museus, notei a ausência daquela homogeneidade branca, esguia e apolínea que fazia da França um modelo de vida que nós, dos trópicos - esses tristes trópicos, como dizia Lévi-Strauss -, jamais iríamos atingir.

Onde foi parar a pureza da França que hoje me lembra uma Bahia coroada pela Notre-Dame? Pensei e, depois, disse em alto e bom som em Londres: vocês, hoje, têm o desafio que nós tivemos no Brasil no início do século 20. Como integrar essa diversidade de pessoas, línguas, corpos e culturas nestas cidades que foram (e ainda são) modelos da utopia social moderna?

* * *
Cruzei uma rua, esperei numa gigantesca fila e finalmente me vi dentro do Museu d'Orsay. Na velocidade da visita, vendo e não vendo suas obras, dei-me conta da maravilhosa doidice humana. Pois apenas havia saído da loucura da multidão em busca de arte, para encontrar nas exposições a materialização sistemática e despudorada, porque explicita e ritualizada, da sublimação feita em mármore, bronze e tinta da demência humana. Pois ali, em grandes e micronarrativas, como é típico das artes visuais, estampava-se livre toda a neurose. Neurose em diálogo, já que um artista não existe sem outro e todos se revelam devedores do grande manancial da imaginação humana que não tem começo porque tem fim.

* * *
Ontem, já em Londres, recordei Jorge Amado meditando sobre o romance Dona Flor e Seus Dois Maridos. Foi quando enfatizei para meus ilustres companheiros de seminário, Ana Maria Machado, Kenneth Maxwell, Maria Lúcia Pallares-Burke, João Ubaldo Ribeiro, Peter Wade, David Teece e Mark Sabine, que o importante era escolher não escolher e, desse modo trocar o dilema shakespeariano do "ser ou não ser" para a fórmula amadiana do "ser e ser".

Por que Thomaz Bastos acusa a imprensa e Dirceu tenta insuflar os jovens. Será uma ação orquestrada?


Carlos Newton
Tribuna da Imprensa

O comentarista José Guilherme Schossland chama atenção para a entrevista do ex-ministro da Justiça Marcio Thomaz Bastos ao programa “Ponto a Ponto”, da BandNews, canal por assinatura da TV Bandeirantes,  acusando a imprensa de ter tomado partido contra os réus do processo do mensalão para influenciar o resultado do julgamento no Supremo Tribunal Federal, ao fazer “publicidade opressiva” do caso.

Bastos reclamou que a imprensa “elevou a um ponto muito forte o mensalão que vai ser julgado, deixando de lado os outros mensalões”. Como se sabe, ele era ministro da Justiça quando o escândalo veio à tona e hoje é advogado de um dos réus do processo, o ex-diretor do Banco Rural José Roberto Salgado, acusado de colaborar na montagem do esquema de financiamento político que beneficiou o PT e seus aliados.

Bastos já tentou adiar o julgamento, alegando que seu cliente tem de ser julgado pela Justiça comum, por não ser parlamentar. Mas o Supremo não aceitou a tese e depois decidiu marcar para agosto o início do julgamento do escândalo que sacudiu o governo Lula em 2005 e atirou no banco dos réus políticos do PT e de outros partidos que ajudaram os petistas a chegar ao poder.

CASO NARDONI?
Ao defender seu cliente, Bastos não mede esforços e adota posições verdadeiramente extremadas. Na entrevista, conduzida pela jornalista Mônica Bergamo e pelo sociólogo Antonio Lavareda, o advogado chegou ao cúmulo de comparar o mensalão com o caso de Alexandre Nardoni e sua segunda mulher, Anna Carolina Jatobá, condenados em 2010 pela morte da filha dele, Isabela Nardoni, de 5 anos.

“É um exemplo típico de um julgamento que não houve”, disse. “Foi um justiçamento”, disse Bastos, assinalando que o advogado do casal Nardoni, Roberto Podval, foi agredido na rua durante o julgamento, “de tal maneira aquilo foi insuflado pelos meios de comunicação”, e afirmou que “o julgamento se torna uma farsa” em situações como essa.

O ex-ministro disse ver com preocupação a capacidade da imprensa de influenciar os juízes. “A vigilância da imprensa é fundamental”, afirmou. “Mas algumas vezes ela erra.”

Questionado se queria dizer que isso também estaria ocorrendo no processo do mensalão, o advogado respondeu: “Não estou querendo dizer, mas tenho medo que ocorra. Será possível fazer um julgamento com uma publicidade opressiva em cima?”

Bastos, que é amigo do ex-presidente Lula e participou da seleção de 8 dos 11 ministros que integram a corte atualmente, depois amainou as declarações e disse acreditar que a pressão da imprensa chegará “muito esbatida [atenuada]” ao Supremo desta vez.

“Os ministros são homens experimentados, preparados, probos e capazes de fazer um julgamento técnico que se aproxime o mais possível da justiça”, disse o advogado, refreando seu “jus sperniandi”,  como se dizia em linguagem jurídica de quem não tem argumentos sólidos.

Ao mesmo tempo, José Dirceu decide insuflar os jovens contra o Supremo. Será mera coincidência? Ou uma ação orquestrada pelo próprio Thomaz Bastos, para tumultuar o processo? Logo, logo saberemos.

Para mostrar a força da tropa, Dirceu planeja a Marcha pela Impunidade dos Bandidos


Augusto Nunes
Veja online


Vencido pelo padeiro de Ibiúna em 1968, paralisado pelo medo nos anos 70, debilitado pela arrogância crescente nas décadas seguintes, José Dirceu foi definitivamente derrotado pelo tamanho do prontuário em 2005, quando se descobriu que o chefe da Casa Civil do governo Lula também chefiava a quadrilha do mensalão. Mas o revolucionário de araque está sempre pronto para perder mais uma, constatou o post publicado neste espaço em junho de 2010.

Continua o mesmo, avisa a discurseira beligerante no congresso nacional de uma certa União da Juventude Socialista. Assustado com a aproximação de 1° de agosto, quando o Supremo Tribunal Federal começará a decidir o destino dos mensaleiros, Dirceu pediu à plateia, como Fernando Collor às vésperas da queda, que não o deixe só. “Todos sabem que este julgamento é uma batalha política”, fantasiou o réu soterrado por provas que permitem condená-lo por corrupção ativa e formação de quadrilha.

Depois de tirar do armário o trabuco imaginário, declarou-se pronto para a guerra. “Essa batalha deve ser travada nas ruas também, porque senão a gente só vai ouvir uma voz, a voz pedindo a condenação, mesmo sem provas”, caprichou Dirceu na pose de inocente injustiçado. “É a voz do monopólio da mídia. Eu preciso do apoio de vocês”. O combatente que nunca lidou com balas de chumbo não se emenda.  Ele vive reprisando o blefe que inaugurou em 2005, logo depois de perder o emprego por excesso de patifarias.

”Vou percorrer o país para mobilizar militantes do PT, dos sindicatos e dos movimentos sociais”, preveniu o então deputado federal num encontro do partido em São Paulo. ”Temos de defender o governo de esquerda do presidente Lula do golpe branco tramado pela elite e por conservadores do PSDB e do PFL”. Passou as semanas seguintes mendigando socorro até aos contínuos da Câmara, teve o mandato cassado em dezembro e deixou o Congresso chamando o porteiro de “Vossa Excelência”.

Passados sete anos, o sessentão que finge perseguir o socialismo enquanto caça capitalistas com negócios a facilitar assumiu formalmente o comando do regimento de mensaleiros que luta para livrar-se da cadeia. Sempre dedilhando a lira do delírio, promete liderar mais uma ofensiva do que chama de “forças progressistas e movimentos populares”, expressões da novilíngua lulista que abrangem os pelegos da União Nacional dos Estudantes Amestrados, os vigaristas das centrais sindicais, os blogueiros estatizados e outras aberrações que só esbanjam competência no assalto aos cofres públicos.

E que ninguém se atreva a acionar os instrumentos de defesa do Estado de Direito, determina o manual do stalinismo farofeiro. Usar a polícia para conter badernas é “repressão política”. Lembrar que, por determinação constitucional, figura entre as atribuições das Forças Armadas a neutralização de ameaças à ordem democrática é coisa de golpista. No país que Lula inventou, a corrupção institucionalizada só existe na imaginação da mídia golpista.

Nesse Brasil Maravilha, Erenice Guerra é uma dama de reputação ilibada, Antonio Palocci prosperou honestamente, Dilma Rousseff é uma pensadora, Lula é o gênio da raça e o partido segue honrando a frase que Dirceu declamava fantasiado de vestal: “O PT não róba nem deixa robá”. O  mensalão, claro, é uma farsa montada pela imprensa. E os que ousam defender o Código Penal não sabem com quem estão falando.

“Como se trata de uma batalha política, mostraremos nossa força”, avisou aos velhacos da Juventude Socialista. O mais recente surto reafirma que, para o mitômano sem cura, o País do Carnaval não consegue enxergar diferenças entre fato e fantasia. Como Dirceu não para de repetir-se, faço questão de repetir-me: um ataque de tropas comandadas pelo guerrilheiro de festim só consegue matar de rir.

Qualquer torcida organizada de time de futebol mobiliza mais militantes que o PT. As assembleias sindicais são tão concorridas quanto uma reunião de condomínio. Sem as duplas sertanejas, os brindes e a comida de graça, as comemorações do 1° de Maio juntariam menos gente que quermesse de lugarejo. Os movimentos sociais morreriam de inanição uma semana depois de suprimida a mesada federal.

“Dirceu, guerreiro do povo brasileiro!”, berram os milicianos durante os palavrórios do general da banda podre. Estão todos convidados a exibir seu poder de fogo com um desfile paramilitar na Avenida Paulista. Puxada pelo revolucionário de festim e engrossada por todos os alistados no exército fora-da-lei, seria a primeira Marcha pela Impunidade dos Bandidos desde a chegada das caravelas em 1500.