Adelson Elias Vasconcellos
Estamos em 2009, mas Lula está montando agora o palanque de 2010
Estamos em 2009, mas Lula está montando agora o palanque de 2010
O encontro que se encerrou ontem era de prefeitos, certo? Errado. Mulheres, filhos, secretários municipais e vereadores lotaram o auditório. Resultado: esperava-se 5 mil, e chegaram 15 mil pessoas. Muito embora o governo tenha dito que cada prefeito custearia sua própria despesa, sabe-se que a organização do evento consumiu dos cofres federais mais de R$ 260 mil. É o Brasil governado por Lula em tempos de crise.
Do que os prefeitos que assumiram em janeiro passado, mais se queixam? Da falta de verbas, certo? Pois bem, como político em Brasília tem seu custo bancado por recursos públicos, neste evento que reuniu 15 mil pessoas entre prefeitos/as e esposas/os, filhos, filhas, secretários, vereadores quanto custou aos “combalidos” cofres municipais? Não foi pouco. E para quê?
Ora, se a gente for olhar bem de pertinho as medidas anunciadas por Lula, todas, sem nenhuma exceção, poderiam ter sido passadas por fax para cada prefeito ou prefeita e, depois, em cadeia nacional, Lula poderia ter dado um discurso simples e direto de anúncio das medidas. O restante da divulgação a própria imprensa se encarregaria. E de graça, inclusive. A isto se chama racionalizar gastos, ainda mais em tempos bicudos como os atuais. Porém, fosse assim, Lula não seria quem é, não é mesmo? É preciso sempre dar um toque de solenidade para qualquer medida por mais irrelevante que ela seja. Vai daí que, estando há um ano e pouco das eleições, Lula não perderia a oportunidade de armar, pela milionésima vez, seu palanque eleitoreiro. Claro, com direito a discurso de barbaridades. Assim, além do pacote de bondades, também entregou um pacote de ataques. E, se seu besteirol ainda fosse pouco, querendo praticar a cretinice costumeira, embaralhou as estatísticas e divulgou um percentual de analfabetos em São Paulo simplesmente mentiroso. Afirmou ser de 10%, quando na verdade sequer chega a 5%, precisamente, 4,6%! Aquele índice que Lula maldosamente divulgou, pertence ao ano de 1991!!!!
Sua irritação (nestas ocasiões ele sempre está irritado, seu discurso destila uma raiva tão incontida quanto inexplicável!), foi por conta da imprensa, ao divulgar o evento, ter registrado que se tratava de uma reunião de prefeitos para, no embalo do pacotinho de bondades, alavancar a candidatura de Dilma para 2010. Bem, Lula sempre se transforma em cão raivoso quando a imprensa fala a verdade sobre ele. Mas isto não surpreende. Se o discurso fosse diante de uma platéia de jornalistas, ele elogiaria o papel da mídia no processo de consolidação da democracia brasileira, etc, etc, etc, como aliás já o fez até recentemente. Há sempre um discurso pronto de ocasião, a depender do tipo de público...
Na verdade, para quem afirmou que não lê jornais para não ter “azia”, referir-se às manchetes nas quais aparecia sendo criticado, deve lhe ter provocado convulsões violentíssimas...Seja como for, com o silêncio da oposição e da Justiça Eleitoral, diante do abusivo uso da máquina pública para fazer propaganda eleitoral, além de denunciar tal comportamento obsessivo, nos cabe analisar o pacote anunciado. Não sem antes destacar o seguinte: a data escolhida para o evento de prefeitos, coincidência ou não, se deu justo no dia em que o PT comemorava seus 29 anos. E quem foi a estrela da noite? Sim, isto mesmo: de batom, maquiagem carregada e metida em um terninho branco, só deu a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) na festa realizada no clube Monte Líbano, em Brasília.
Goste Lula ou não, fique irritado o quanto quiser ou puder, o evento foi sim um enorme palanque eleitoral armado para o lançamento da candidatura Dilma. Podendo os convidados principais, prefeitos e prefeitas, levarem a tiracolo a família e assessores.
Do discurso raivoso, muita besteira, muita mentira e muita leviandade. Vejamos algumas. Sob o resultado de um estudo feito pela associação dos prefeitos, apurou-se que, menos de 5% dos recursos anunciados pelo governo federal, para atender os municípios em estado de calamidade, chegam aos municípios, efetivamente. Menos de 5%, repito. O estudo aponta como uma das razões para tal flagrante irregularidade, o excesso de burocracia. Note-se que o levantamento foi feito no período 2003 – 2007, portanto, sob as luzes do governo Lula. E o que Lula falou em resposta? Repetiu a indignação dos indignados. Santo Deus! Quem o ouviu falar, imaginaria fosse ele qualquer outro, menos o próprio presidente que vem a ser responsável pela burocracia reclamada. E, novamaente, como se estivesse entregando a senha para outros pensamentos, ainda afirmou que o período em que está no poder, 6 anos, é um tempo pequeno demais para promover todas as reformas... Com tal pensamento, não é de estranhar ter elogiado a reeleição indeterminada da Venezuela...
Claro que se trata de um truque que o grande chefe sempre usa para defender-se das críticas. Ele sempre diz abraçar a mesma indignação, dando a entender que, nesta hora, o governo é dos outros, e não dele próprio. Ora, por que a burocracia aumentou? Justamente pelo aparelhamento da máquina pública promovido pelo governo de - vejam só, quanta surpresa – Lula. Mas, ele não se assume.
Seja como for, interessante notar que, a burocracia, pode provocar atraso nas liberações dos recursos, mas não o seu enxugamento, que é do que os prefeitos reclamam. Assim, ou muitos ficam cobrando propinas e comissões pelo caminho, ou os recursos não estão sendo liberados na quantidade em que são anunciados. Ou, o que talvez seja ainda mais verdadeiro, a combinação das duas, comissões para os “atravessadores” , “lobistas” e “facilitadores” e liberação muito aquém do prometido. É sempre bom lembrar que o anúncio de “ajuda de milhões de reais às vítimas” sempre dá bom ibope. Depois, no mundo real...
Mais adiante, no melhor estilo demagógico de ser, ele lascou esta pérola: “- “... Cortaremos o batom da dona Dilma, cortaremos o meu corte de unha, mas não cortaremos nenhuma obra do PAC neste país...” - ressaltando que o programa "é a segurança do desenvolvimento no país". Considerando-se que a última maquiada no PAC o elevou para mais de R$ 1,0 trilhão em investimentos fantasmas, fico imaginando o quanto caro são tanto o batom da Dilma quanto o corte de unha de Lula, para serem provocadores de atrasos no PAC...
Quantas as medidas, dizer o quê? Como quem pagará a conta serão seus sucessores, ele pratica seu proselitismo de forma escancarada. Enquanto fica com o ônus político das “medidas redentoras”, empurra o bônus da ingovernabilidade do país para quem vier depois. Mas ainda voltaremos a elas.
Como estivesse com a macaca, sapecou a seguinte acusação à imprensa:
- Fiquei muito triste porque estão abusando da minha inteligência. Pensam que o povo é marionete, vaca de presépio. Posso perder minha postura, mas não perco minha dignidade, meu caráter - disse o presidente, ao discursar para a platéia.
Lula também afirmou que não foi eleito porque a imprensa brasileira ajudou:
- Nunca tive bondade, nunca tive um favor, nunca fui eleito porque a imprensa brasileira ajudou. Eu fui eleito porque o povo quis. Eu poderia não estar falando isso aqui porque um presidente não pode perder a postura. Posso perder a postura, mas não perco minha vergonha, nem meu caráter.
É mentira que a imprensa brasileira não tenha ajudado em sua eleição. Nenhum presidente, antes dele, mereceu tanta reverência e condescendência de parte da imprensa quanto Lula. Ele próprio, há bem pouco tempo atrás, admitiu e reconheceu este fato. Poucos, raros são aqueles jornalistas que o criticam como ele merece. Tanto é que se apropriou do plano econômico de estabilidade e dos programas sociais implantados por seu antecessor, e poucos o criticaram pelo uso do chapéu alheio.
Até o PAC é mistificação de doer. Há poucos dias contamos aqui a história do Metrô de São Paulo onde não há, rigorosamente, um único dedo do governo federal, e na última maquiada do PAC, lá está o metrô como obra do PAC. Mais uma: a Usina de São Salvador, inaugurada no Tocantins semana passada, teve suas obras iniciadas no governo FHC, mas lá está ela como obra executada pelo PAC. Tais exemplos, se encontram às centenas, na relação das obras gerenciadas pela Dilma...
Como se classifica um sujeito que se comporta, habitualmente, com tamanha desfaçatez? O final do discurso nos dá a dica. Disse ele: “...Eu poderia não estar falando isso aqui porque um presidente não pode perder a postura. Posso perder a postura, mas não perco minha vergonha, nem meu caráter.” Pois bem, vejam, “poderia não falar” mas acabou falando, não é? Para finalizar, quanto a perder a vergonha e o caráter, como dizia meu avô: ninguém pode perder o que já não têm!!!!