quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Ninguém perde o que não tem

Adelson Elias Vasconcellos

Estamos em 2009, mas Lula está montando agora o palanque de 2010

O encontro que se encerrou ontem era de prefeitos, certo? Errado. Mulheres, filhos, secretários municipais e vereadores lotaram o auditório. Resultado: esperava-se 5 mil, e chegaram 15 mil pessoas. Muito embora o governo tenha dito que cada prefeito custearia sua própria despesa, sabe-se que a organização do evento consumiu dos cofres federais mais de R$ 260 mil. É o Brasil governado por Lula em tempos de crise.

Do que os prefeitos que assumiram em janeiro passado, mais se queixam? Da falta de verbas, certo? Pois bem, como político em Brasília tem seu custo bancado por recursos públicos, neste evento que reuniu 15 mil pessoas entre prefeitos/as e esposas/os, filhos, filhas, secretários, vereadores quanto custou aos “combalidos” cofres municipais? Não foi pouco. E para quê?

Ora, se a gente for olhar bem de pertinho as medidas anunciadas por Lula, todas, sem nenhuma exceção, poderiam ter sido passadas por fax para cada prefeito ou prefeita e, depois, em cadeia nacional, Lula poderia ter dado um discurso simples e direto de anúncio das medidas. O restante da divulgação a própria imprensa se encarregaria. E de graça, inclusive. A isto se chama racionalizar gastos, ainda mais em tempos bicudos como os atuais. Porém, fosse assim, Lula não seria quem é, não é mesmo? É preciso sempre dar um toque de solenidade para qualquer medida por mais irrelevante que ela seja. Vai daí que, estando há um ano e pouco das eleições, Lula não perderia a oportunidade de armar, pela milionésima vez, seu palanque eleitoreiro. Claro, com direito a discurso de barbaridades. Assim, além do pacote de bondades, também entregou um pacote de ataques. E, se seu besteirol ainda fosse pouco, querendo praticar a cretinice costumeira, embaralhou as estatísticas e divulgou um percentual de analfabetos em São Paulo simplesmente mentiroso. Afirmou ser de 10%, quando na verdade sequer chega a 5%, precisamente, 4,6%! Aquele índice que Lula maldosamente divulgou, pertence ao ano de 1991!!!!

Sua irritação (nestas ocasiões ele sempre está irritado, seu discurso destila uma raiva tão incontida quanto inexplicável!), foi por conta da imprensa, ao divulgar o evento, ter registrado que se tratava de uma reunião de prefeitos para, no embalo do pacotinho de bondades, alavancar a candidatura de Dilma para 2010. Bem, Lula sempre se transforma em cão raivoso quando a imprensa fala a verdade sobre ele. Mas isto não surpreende. Se o discurso fosse diante de uma platéia de jornalistas, ele elogiaria o papel da mídia no processo de consolidação da democracia brasileira, etc, etc, etc, como aliás já o fez até recentemente. Há sempre um discurso pronto de ocasião, a depender do tipo de público...

Na verdade, para quem afirmou que não lê jornais para não ter “azia”, referir-se às manchetes nas quais aparecia sendo criticado, deve lhe ter provocado convulsões violentíssimas...Seja como for, com o silêncio da oposição e da Justiça Eleitoral, diante do abusivo uso da máquina pública para fazer propaganda eleitoral, além de denunciar tal comportamento obsessivo, nos cabe analisar o pacote anunciado. Não sem antes destacar o seguinte: a data escolhida para o evento de prefeitos, coincidência ou não, se deu justo no dia em que o PT comemorava seus 29 anos. E quem foi a estrela da noite? Sim, isto mesmo: de batom, maquiagem carregada e metida em um terninho branco, só deu a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) na festa realizada no clube Monte Líbano, em Brasília.

Goste Lula ou não, fique irritado o quanto quiser ou puder, o evento foi sim um enorme palanque eleitoral armado para o lançamento da candidatura Dilma. Podendo os convidados principais, prefeitos e prefeitas, levarem a tiracolo a família e assessores.

Do discurso raivoso, muita besteira, muita mentira e muita leviandade. Vejamos algumas. Sob o resultado de um estudo feito pela associação dos prefeitos, apurou-se que, menos de 5% dos recursos anunciados pelo governo federal, para atender os municípios em estado de calamidade, chegam aos municípios, efetivamente. Menos de 5%, repito. O estudo aponta como uma das razões para tal flagrante irregularidade, o excesso de burocracia. Note-se que o levantamento foi feito no período 2003 – 2007, portanto, sob as luzes do governo Lula. E o que Lula falou em resposta? Repetiu a indignação dos indignados. Santo Deus! Quem o ouviu falar, imaginaria fosse ele qualquer outro, menos o próprio presidente que vem a ser responsável pela burocracia reclamada. E, novamaente, como se estivesse entregando a senha para outros pensamentos, ainda afirmou que o período em que está no poder, 6 anos, é um tempo pequeno demais para promover todas as reformas... Com tal pensamento, não é de estranhar ter elogiado a reeleição indeterminada da Venezuela...

Claro que se trata de um truque que o grande chefe sempre usa para defender-se das críticas. Ele sempre diz abraçar a mesma indignação, dando a entender que, nesta hora, o governo é dos outros, e não dele próprio. Ora, por que a burocracia aumentou? Justamente pelo aparelhamento da máquina pública promovido pelo governo de - vejam só, quanta surpresa – Lula. Mas, ele não se assume.

Seja como for, interessante notar que, a burocracia, pode provocar atraso nas liberações dos recursos, mas não o seu enxugamento, que é do que os prefeitos reclamam. Assim, ou muitos ficam cobrando propinas e comissões pelo caminho, ou os recursos não estão sendo liberados na quantidade em que são anunciados. Ou, o que talvez seja ainda mais verdadeiro, a combinação das duas, comissões para os “atravessadores” , “lobistas” e “facilitadores” e liberação muito aquém do prometido. É sempre bom lembrar que o anúncio de “ajuda de milhões de reais às vítimas” sempre dá bom ibope. Depois, no mundo real...

Mais adiante, no melhor estilo demagógico de ser, ele lascou esta pérola: “- “... Cortaremos o batom da dona Dilma, cortaremos o meu corte de unha, mas não cortaremos nenhuma obra do PAC neste país...” - ressaltando que o programa "é a segurança do desenvolvimento no país". Considerando-se que a última maquiada no PAC o elevou para mais de R$ 1,0 trilhão em investimentos fantasmas, fico imaginando o quanto caro são tanto o batom da Dilma quanto o corte de unha de Lula, para serem provocadores de atrasos no PAC...

Quantas as medidas, dizer o quê? Como quem pagará a conta serão seus sucessores, ele pratica seu proselitismo de forma escancarada. Enquanto fica com o ônus político das “medidas redentoras”, empurra o bônus da ingovernabilidade do país para quem vier depois. Mas ainda voltaremos a elas.

Como estivesse com a macaca, sapecou a seguinte acusação à imprensa:

- Fiquei muito triste porque estão abusando da minha inteligência. Pensam que o povo é marionete, vaca de presépio. Posso perder minha postura, mas não perco minha dignidade, meu caráter - disse o presidente, ao discursar para a platéia.

Lula também afirmou que não foi eleito porque a imprensa brasileira ajudou:

- Nunca tive bondade, nunca tive um favor, nunca fui eleito porque a imprensa brasileira ajudou. Eu fui eleito porque o povo quis. Eu poderia não estar falando isso aqui porque um presidente não pode perder a postura. Posso perder a postura, mas não perco minha vergonha, nem meu caráter.

É mentira que a imprensa brasileira não tenha ajudado em sua eleição. Nenhum presidente, antes dele, mereceu tanta reverência e condescendência de parte da imprensa quanto Lula. Ele próprio, há bem pouco tempo atrás, admitiu e reconheceu este fato. Poucos, raros são aqueles jornalistas que o criticam como ele merece. Tanto é que se apropriou do plano econômico de estabilidade e dos programas sociais implantados por seu antecessor, e poucos o criticaram pelo uso do chapéu alheio.

Até o PAC é mistificação de doer. Há poucos dias contamos aqui a história do Metrô de São Paulo onde não há, rigorosamente, um único dedo do governo federal, e na última maquiada do PAC, lá está o metrô como obra do PAC. Mais uma: a Usina de São Salvador, inaugurada no Tocantins semana passada, teve suas obras iniciadas no governo FHC, mas lá está ela como obra executada pelo PAC. Tais exemplos, se encontram às centenas, na relação das obras gerenciadas pela Dilma...

Como se classifica um sujeito que se comporta, habitualmente, com tamanha desfaçatez? O final do discurso nos dá a dica. Disse ele: “...Eu poderia não estar falando isso aqui porque um presidente não pode perder a postura. Posso perder a postura, mas não perco minha vergonha, nem meu caráter.” Pois bem, vejam, “poderia não falar” mas acabou falando, não é? Para finalizar, quanto a perder a vergonha e o caráter, como dizia meu avô: ninguém pode perder o que já não têm!!!!

Lula é a lei

Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa

Esta história Pernambuco conhece de sobra. Mas é uma lição nacional. Aliás, uma antilição. Dia de festa em Limoeiro. O time da cidade ia jogar com a seleção de Garanhuns, disputando a final do campeonato intermunicipal. O coronel Chico Heraclio, o rei do pedaço, chegou ao campo todo de branco, sentou na sua cadeira de vime, o jogo começou.

Primeiro tempo, segundo tempo, nada. Zero a zero. Não saia gol. Cinco minutos para acabar a partida, o juiz, que tinha ido do Recife, marcou um pênalti contra Limoeiro. A torcida endoidou, invadiu o campo. O juiz correu para junto do coronel Heraclio com medo de ser linchado.

Chico Heraclio
O coronel levantou a bengala, todo mundo parou:

- O que é que houve, seu juiz?

- Um pênalti que eu marquei, coronel.

- Como é esse negócio de pênalti?

- É quando o jogador comete uma falta dentro da sua própria área. Aí a bola fica ali naquela marca, em frente à trave, e um jogador adversário chuta. Só ele e o goleiro.

- E faz o gol, seu juiz?

- Geralmente faz, coronel. É difícil goleiro pegar pênalti.

- Muito bem, seu juiz. Sua explicação é muito boa, muito clara. E eu não vou tirar sua autoridade. Já que houve o tal do pênalti, faça como a regra do futebol manda. Só que o senhor, seu juiz, em vez de botar a bola em frente da trave de Limoeiro, faça o favor de botar do outro lado, diante da trave de Garanhuns e mandar um jogador daqui da cidade chutar.

- Mas, coronel, isso é contra a lei.

- Pois já ficou a favor. Aqui em Limoeiro a lei sou eu.

Limoeiro ganhou.

Governadores
Lula tem tanta gente boa para imitar em Pernambuco e foi escolher o coronel Chico Heraclio.Ele acha que ele é a lei. E agora são ele e a Dilma.

Seis governadores foram condenados pelo Tribunal Superior Eleitoral, dependendo apenas do julgamento de recursos, inclusive o Marcelo Deda, do PT de Sergipe, todos ameaçados de perderem seus mandatos, acusados de uso de dinheiro público, da máquina pública ou de programas públicos nas suas campanhas e eleições.

Prefeitos são dezenas, centenas, por todo o País, também acusados pela Justiça Eleitoral e condenados pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Governadores e prefeitos, para se elegerem ou reelegerem, fizeram exatamente o que Lula fez em 2006 e está começando a fazer para eleger sucessora a ministra Dilma, sua chefe da Casa Civil e candidata do PT: colocar o governo, a máquina do governo, a serviço da candidatura.

O Tribunal Superior Eleitoral já caiu no ridículo nacional, virou piada na internet. Para o TSE, Lula pode tudo. E só ele pode. Lula é a lei.

"Folha"
O que o País viu nos três últimos dias é uma vergonha, um escárnio:

1 - "O governo anunciará (anunciou), no Encontro Nacional dos Prefeitos, em Brasília, um pacote de bondades. No evento, que custará (custou) R$241 mil (do governo federal) estavam presentes também primeiras-damas e secretários municipais. Foi um grande palanque para o presidente Lula e a ministra Dilma Roussef, anfitriões do encontro".

2 - "Passagens e estadias foram por conta dos convidados (das prefeituras e Câmaras de Vereadores). A previsão era reunir (reuniu) cerca de 8 mil pessoas" (entre prefeitos, vereadores, secretários municipais e suas mulheres). O encontro, na prática, foi organizado pelo governo". ("Folha".)

"Globo"
O "Globo" confirmou:

1 - "O evento reuniu 8 mil pessoas, mais de 3.200 prefeitos e 700 primeiras-damas. A ministra Dilma integrou um painel para discutir ações voltadas ao crescimento. As prefeitas e primeiras-damas de todos os municípios foram convidadas a participar de um debate sobre políticas para crianças e adolescentes com a primeira-dama Marisa Letícia". (Ela fala!)

2 - "O custo do evento (para o governo federal) foi de R$245 mil, mas cada participante arcou com hospedagem e alimentação. Ministros transferiram seus gabinetes para o encontro, organizado pelo governo federal. O ministro José Pimentel (Previdência) reservou uma sala no Centro de Convenções. Marcio Fortes (Cidades), José Temporão (Saúde), Patrus Ananias (Desenvolvimento Social) e Orlando Silva (Esporte) também ficaram à disposição. E o BNDES, a Caixa e o Banco do Brasil".

Dilma
Nada errado em um Encontro Nacional de Prefeitos, nem no fato de ministros os receberem. Existem para isso. O inaceitável é tudo ter sido transformado em um grande e milionário comício da campanha da Dilma.

Calculem quanto as prefeituras e Câmaras de Vereadores gastaram com prefeitos, vereadores, secretários municipais, primeiras-damas, primeiros-damos, namorados, namoradas, acompanhantes. Milhões de reais.

E o Tribunal Superior Eleitoral, só para agradar ao senador Sarney, cassou o governador do Amapá e sua mulher, a deputada federal Capiberibe, acusando-os da "compra de dois votos por R$26 reais cada".

Quando o TSE deixará de ser só um escritório eleitoral do Planalto?

A síndrome do presidente

Estadão

Mais o presidente Lula parece ficar fora de si, mais autêntico ele se revela. Nos seus furiosos destampatórios, quando perde a "postura" - como reconheceu, alterado, a certa altura do seu discurso de 50 minutos para alguns milhares de prefeitos e acompanhantes reunidos em um centro de convenções de Brasília na terça-feira - é que ele expõe as suas "metamorfoses". Os 84% de aprovação popular deixaram-no totalmente despreocupado com a possibilidade de ser prejudicado por alguma bobagem que fale ou mesmo por alguma das patranhas a que costuma recorrer em seus discursos cotidianos. Aos 63 anos, duas vezes titular da República, Lula ainda conserva, entalada, uma profunda compulsão de desforra da ordem social que o fez comer o pão que o diabo amassou, antes que conseguisse dar a volta por cima como nenhum outro brasileiro que tivesse passado pelas mesmas adversidades.

Lula, a figura pública, com a sua excepcional inteligência e senso de realidade, aprendeu a se conciliar com (e a desfrutar de) um sistema que o Lula, retirante, engraxate e operário, jamais perdoará. A dupla personalidade tem menos que ver com esquerda e direita - se algo não mudou nele é o seu entranhado desdém pelas ideologias - do que com o apaziguamento íntimo dos desencontros entre o "antes" e o "depois" de sua singular biografia. E é por isso que Lula não é cínico quando toma a calculada decisão de se deixar transtornar para jogar as suas plateias contra as "elites" e a instituição que mais ama odiar - a imprensa. Nem por serem de caso pensado, para acentuar a construída polaridade entre ele e "os de cima", como gosta de dizer, as suas investidas deixam de externar o que de inextricável lhe vai pelo espírito. Simplificadamente, é a lógica de sua (aparente) incoerência.

Está para nascer o governante que não se queixe dos meios de comunicação. Mas, no caso de Lula, trata-se de uma obsessão - parte da sua síndrome. Olhe-se ao redor e não se encontrará um líder nacional que diga que a leitura dos jornais lhe dá azia. Mesmo o ex-presidente Bush, que tem em comum com Lula o desprazer de ler, temperou com elogios à imprensa a confissão de que não se informava pelos diários, mas pelos assessores que os digeriam para ele. Foi, portanto, um ponto absolutamente fora da curva - quem sabe por ter achado que passou dos limites com a sua teoria gástrica do jornalismo - a sua surpreendente barretada à mídia, há dias. "É preciso parar com essa mania de dizer que, porque a imprensa deu, é porque é contra o governo, porque não gosta do governo", admoestou sabe-se lá quem. "Se a imprensa deu e o fato aconteceu, em vez de a gente reclamar, tem de consertar."

Deve ter-lhe custado a retratação. Não surpreende, pois, que o verdadeiro Lula tenha voltado com tudo contra a mídia no grande comício político que foi o Encontro Nacional de Novos Prefeitos e Prefeitas. Ele disse que acordou "virado" com o noticiário sobre o pacote de bondades com que o governo os presenteou, a começar do escandaloso parcelamento, em até 20 anos, das dívidas das prefeituras com o INSS, beneficiando até aquelas que fizeram acordo com a Previdência em 2004 e não pagaram as prestações devidas. Foram "insinuações grotescas", atacou. Não foram nem uma coisa nem outra. A imprensa não insinuou nada, mas, sim, associou as bondades à promoção da candidata de Lula à sua sucessão, Dilma Rousseff. E não há nada de artificial no nexo, como ele próprio fez questão de explicar às mulheres dos prefeitos em reunião depois do comício com seus maridos, ao justificar a candidatura Dilma com os exemplos de Michele Bachelet, no Chile, e Cristina Kirchner, na Argentina.

Lula se disse triste "porque estão abusando da minha inteligência". Abusa da inteligência alheia o presidente que tenta tapar o sol com a peneira, negando o que não cessa de fazer, como fez no encontro com os prefeitos, quando, previsivelmente, elogiou a "mãe do PAC" (que subiu ao palco ao seu lado) e, sem mais aquela, soltou uma patranha direta contra o governador-presidenciável José Serra. Triste, no episódio, foi Lula negar que teria chegado aonde chegou sem a liberdade de imprensa, como não se cansava de lembrar. Agora, da nova "metamorfose" sai a versão de que "nunca fui eleito porque a imprensa brasileira ajudou", mas "porque o povo quis". Só que, antes disso, a imprensa apresentou Lula ao País e cobriu exaustivamente o seu percurso - no estrito cumprimento do seu dever de informar.

Nota zero

Folha de São Paulo

Avaliação medíocre de professores estaduais de São Paulo indica urgência de radicalizar critérios de mérito na rede de ensino é lamentável , tanto mais por não trazer surpresa nenhuma, o resultado da prova de classificação para professores temporários aplicada pelo governo estadual de São Paulo. Nada menos que 1.500 docentes foram incapazes de acertar uma única questão entre as 25 do teste de conhecimento. E todos eles, absurdo dos absurdos, estarão em sala de aula na próxima segunda-feira.

O contingente dos nota-zero representa só 1,5% do universo de 100 mil temporários -necessários para completar o quadro, dada a carência de profissionais concursados-, num corpo docente de 230 mil. Trata-se, porém, da famigerada ponta do iceberg: estimativa preliminar indica que 50% não obtiveram nem nota cinco. Poucos acreditam que a situação entre os 130 mil concursados seja muito melhor.

Tal retrato medonho da educação no Estado mais desenvolvido do país motivou nova queda-de-braço entre a Secretaria da Educação, que mal ou bem busca enfrentar a questão da qualidade no ensino, e o sindicato dos professores (Apeoesp), sempre pronto à mais retrógrada defesa dos interesses menores da corporação. Uma tragédia de erros.

Estudantes e suas famílias saem perdendo, para variar. O único efeito da avaliação dos temporários até agora foi o adiamento das aulas, pois uma liminar obtida pela Apeoesp suspendeu os efeitos da prova, que tinha defeitos em demasia, registre-se.

Na rede estadual, são os profissionais que escolhem em que estabelecimento darão aula. A avaliação seria um critério, baseado no mérito, para determinar a primazia das escolhas. Diminuiria o peso de quesitos como antiguidade e títulos.

Medido o estrago, resta agora radicalizar a proposta. É imperioso estender a avaliação a todo o corpo docente, concursado ou não. Constitui obrigação do professor dominar o conhecimento que pretende transmitir ao aluno e dele exigir em provas. Não cabe falar aqui em ímpeto punitivo, eterno argumento diversionista da Apeoesp.

Há consenso em torno da ideia de que o ciclo vicioso de degradação do ensino só será rompido com a revalorização da carreira docente. Os bons resultados de nações como Finlândia e Coreia do Sul originaram-se da capacidade de atrair os melhores formandos das universidades para dar aulas na rede pública.

Um objetivo no mínimo difícil de alcançar aqui, quando boa parte do professorado se compõe de docentes pouco qualificados que trabalham em regime precário.

Criar vagas permanentes e realizar concursos públicos, como promete o governo José Serra, é fundamental. Não, porém, para multiplicar o número de professores acomodados, quando não resistentes a aumentar sua qualificação e modernizar o ensino.

Plano de carreira e certa estabilidade, sim. Mas não sem promoções, oportunidades de requalificação e bônus vinculados a desempenho em avaliações criteriosas. E, muito menos, sem a possibilidade de retirar do sistema de ensino aqueles professores incapazes de dar as aulas pelas quais são pagos.

Ignorando o aparelhamento

Estadão

O ministro Roberto Mangabeira Unger aprendeu uma coisa ou duas com o fato de ter sido convidado a fazer parte do mesmo governo que qualificara como o mais corrupto da história brasileira. Ele aprendeu, por exemplo, a não se preocupar com os efeitos de suas palavras sobre os fatos. Aprendeu também a não se preocupar com a desconexão entre as suas ideias e a realidade a que supostamente deveriam dizer respeito. "Livre-pensar é só pensar", como diria o humorista Millôr Fernandes. Acrescente-se a isso uma insopitável tendência a inflacionar a importância de sua pessoa e de suas elucubrações, a ponto de se apresentar urbi et orbi como "professor de Obama", dando a entender que desempenhou um papel decisivo na formação do novo presidente dos Estados Unidos quando de sua passagem pela Universidade Harvard.

Nessa condição, deu há pouco uma entrevista ao jornal espanhol El País, na qual simplesmente prega a superação tanto da "esquerda vendida, que aceita o mercado e a globalização e quer simplesmente humanizá-los por meio de políticas sociais", como da "recalcitrante, que quer desacelerar o progresso do mercado e da globalização" - uma rombuda simplificação dos debates ideológicos da atualidade. "A esquerda que me interessa", completou, "quer reconstruir o mercado e reorientar a globalização com um conjunto de inovações institucionais", seja lá o que isso queira dizer. Descendo do olimpo intelectual para onde frequentemente o propele a sua egolatria desprovida de desconfiômetro, o professor veio anteontem a São Paulo para uma reunião com empresários interessados em discutir melhoras na gestão pública.

Sua foi a proposta de virtual extinção dos cargos comissionados (de confiança) na estrutura administrativa estatal e a sua substituição por carreiras de Estado. Tomados pelo seu valor de face, os seus argumentos são surpreendentemente lúcidos. "Nunca completamos a obra do século 19 em matéria de administração pública, que é a construção de uma burocracia profissional baseada no mérito", avaliou, segundo notícia da Folha de S.Paulo. "Continuamos numa situação em que há ilhas de profissionalismo burocrático que flutuam num oceano de discricionarismo político. Precisamos acabar com isso." O problema, porém, não é tão simples quanto parece pretender o ministro.

Em primeiro lugar, embora desejável para descontaminar o Estado das conveniências dos governos de turno, a implantação da meritocracia no funcionalismo público e a formação de elites burocráticas em todos os níveis da Federação não dispensam uma certa proporção de servidores comissionados. Estes são indispensáveis à atividade governamental em regimes que se renovam periodicamente - e podem sair mais em conta para as finanças públicas do que a outra alternativa, sobretudo porque, quando concursados, invocando o sacrossanto princípio da isonomia, conseguem arrancar dos governos privilégios de que continuarão a usufruir mesmo na aposentadoria. Cargos em comissão, de resto, existem em outros países em aparelhos estatais consolidados e robustos, como o dos Estados Unidos. A questão, naturalmente, é de escala: a cada mudança efetiva de governo menos de 3 mil mesas mudam de dono em Washington.

O que remete à questão da sinceridade do ministro: acredita ele na possibilidade de o governo Lula levar a sério sua proposta? Ao apresentá-la, Unger critica o "oceano de discricionarismo político" na ocupação histórica da máquina pública, enquanto serve diligentemente - ou assim deve imaginar - o governo que alargou e aprofundou esse mesmo oceano em proporções sem precedentes. Só que o termo que descreve com precisão esse retrocesso é outro - a institucionalização do aparelhamento. A era Lula, como se supõe que o professor não ignore, abriu espaço no Executivo a uma verdadeira "nova classe" de milhares de "operadores do Estado" - existem hoje cerca de 30 mil funcionários em cargos de confiança - vindos do sindicalismo e de áreas de atuação governamental em que o PT deitou raízes. Deles se pode dizer que só servirão ao interesse coletivo se e quando este coincidir com o interesse partidário e, por extensão, do chefe maior da companheirada. Disso o ministro não fala - nem com as suas construções estrambóticas.

Consenso e Globalização

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

A economia brasileira decolou quando o produto mundial crescia a taxas raríssimas de 5% ao ano e o comércio global de mercadorias e serviços se expandia a um ritmo em torno dos 10%, ainda mais inédito.

O Brasil perdeu o embalo e desacelerou fortemente a partir de outubro de 2008, quando a economia global entrou em recessão.

Teria sido apenas coincidência?

Observem estes números: em 2003, a Vale exportava US$765 milhões de minério de ferro para a China; no ano passado, foram nada menos que US$4,9 bilhões. Claro que o país não cresce apenas por causa das exportações. Ao contrário, a demanda doméstica brasileira vinha crescendo a um ritmo quase chinês perto de 10% ao ano.

Mas a atividade exportadora multiplica negócios internos. Imaginem a quantidade de pessoas e empresas trabalhando aqui no Brasil para que a Vale vendesse minério de ferro na China.

Outra conexão: a Petrobras ganha dinheiro com o petróleo encarecido pela explosão do consumo mundial de combustíveis. Aliás, até 2003, o Brasil não exportava um litro de óleo para a China. Em 2007, vendeu US$1,7 bilhão.

Com esse dinheiro, a Petrobras acelera a exploração e produção no Brasil, gerando demanda doméstica.

Outro exemplo: em 2007, auge do crescimento mundial, as empresas privadas brasileiras captaram R$160 bilhões com a emissão de ações, debêntures, notas promissórias e outros títulos. Foi tudo no mercado doméstico, mas dinheiro trazido na maior parte por investidores estrangeiros, nas rodadas da ciranda financeira.

Sabem quanto as empresas haviam captado em 2003? R$13 bilhões.

No ano passado, essas captações ainda deram alguma coisa até setembro. Depois, sumiram.

Claramente, a globalização puxou o Brasil, assim como trouxe quase todas as nações do mundo para um ritmo de crescimento muito forte. A festa foi para todos, ricos, emergentes e pobres. Entre os emergentes, um padrão idêntico: rápido crescimento das exportações e recebimento de bilhões de dólares em investimento externo direto e outros bilhões em financiamento e aplicações em bolsas de valores.

O período foi tão bom que cresceram até os países com governos ruins mas que tinham alguma coisa para vender no mundo, fosse a carne da Argentina, o petróleo da Venezuela, o gás da Ucrânia.

O presidente Lula e seus ministros contam aqui uma outra história. Dizem que o Brasil cresceu e vai continuar crescendo por causa do PAC e dos gastos sociais de seu governo.

Mas, como disse Míriam Leitão no seu comentário na CBN, ontem, se o PAC está funcionando tão bem, com as obras em dia e agora com mais investimentos, por que as empresas estão parando e desempregando?

O PAC é só propaganda.

Tome o caso do metrô de São Paulo, um empreendimento do governo paulista, com dinheiro do estado, da prefeitura de São Paulo, de empreiteiras privadas e mais financiamentos locais e externos, sem recursos federais.

Não estava no PAC, agora foi incluído.

O que muda?

Nada. A obra continua do mesmíssimo jeito, sujeita às mesmas condições, controlada pelo governo paulista, e dependendo das condições gerais da economia.

A única diferença é que passa a chamar-se obra do PAC. E assim o presidente vende à população a tese de que seu governo está combatendo a crise que veio de fora.

Mas Lula tem razão em dizer que o país está mais bem preparado para enfrentar a crise. Ao contrário das crises anteriores, desta vez o Brasil não vai quebrar.

E sabem por quê? Porque cumpriu os principais preceitos do Consenso de Washington, a saber: equilíbrio fiscal, com superávit primário para pagar a conta de juros e reduzir o endividamento público; regime de metas de inflação com Banco Central independente na prática; câmbio flutuante, que facilitou a aquisição de reservas; e privatizações, retomadas por Lula com as concessões de estradas, ferrovias, portos e usinas hidrelétricas.

Isso garantiu a estabilidade macroeconômica, reconhecida pelo mercado global, que nos concedeu o título de grau de investimento.

Eis a receita real: globalização e Consenso de Washington.

O resto é propaganda, que pega.

TOQUEDEPRIMA...

***** Ministério prevê queda de 8,4% na renda agrícola em 2009
Em razão dos problemas climáticos enfrentados na região Sul e da queda nos preços, o Ministério da Agricultura já prevê uma queda significativa na renda agrícola brasileira para 2009. Segundo comunicado divulgado nesta segunda-feira, a renda deste ano recuará para R$ 149,6 bilhões, resultado 8,4% inferior aos R$ 163,4 bilhões obtidos em 2008.

"O efeito desses fatores está fazendo com que a renda do produtor rural sofra forte declínio neste ano", destacou o coordenador-geral de Planejamento Estratégico do ministério, José Garcia Gasques.

***** CNJ abre processo contra Justiça do MT
O Conselho Nacional de Justiça aprovou nesa terça-feira, por unanimidade, a abertura de processo contra o ex-presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso José Ferreira Leite e mais três juízes: Antônio Horácio da Silva Neto, Marcelo Souza Barros, Marrcos Ferreira e Irênio Fernandes. O pedido foi feito pelo corregedor de Justiça de MT, Orlando Perri. Segundo relatório dele, o grupo é acusado de ter desviado R$ 1,5 milhão dos cofres do Judiciário, de “ligações espúrias entre membros do Judiciário e parlamentares estaduais que respondem a processos cíveis e criminais perante o Poder Judiciário Estadual”, pagamentos irregulares de precatórios, etc.

***** Para BC, oferta de crédito já voltou aos níveis anteriores à crise
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse nesta segunda-feira que a oferta de crédito no Brasil já retornou aos níveis anteriores à crise financeira. "As concessões de crédito livre passaram a apresentar recuperação. Já voltamos a nos aproximar dos níveis pré-crise e já estamos um pouquinho acima dos níveis de setembro", afirmou.

Segundo dados do BC, considerando a fase anterior à crise como base 100, as condições de crédito tiveram uma queda para 92,7 em outubro e retornaram a 101,1 em janeiro.

***** Focus: Estimativa para crescimento da economia volta a cair
Analistas de mercado voltaram a reduzir suas expectativas para o crescimento da economia em 2009, segundo boletim Focus divulgado nesta segunda-feira pelo Banco Central. A projeção média de crescimento feita pelos economistas passou de 1,8% para 1,7%. Além disso, a estimativa para o crescimento da produção industrial também caiu, passando de 2% para 1,5%.
O governo federal trabalha com uma meta de avanço do Produto Interno Bruto (PIB) em 4%.

***** Gangue do mensalão ainda dá prejuízo
Além do afano geral da Nação, no primeiro governo Lula, a gangue do mensalão continua dando prejuízos ao contribuinte brasileiro: a tradução das cartas rogatórias e dos autos do processo, que corre no Supremo Tribunal Federal, vai nos custar R$ 19,1 milhões. A explicação: sem tradução, juízes estrangeiros não podem formular perguntas, nem ouvir as várias testemunhas de defesa convenientemente vivendo no exterior

***** Câmara rejeita MP das 'Pilantrópicas'
O Plenário da Câmara dos Deputados rejeitou hoje (10) a Medida Provisória (MP 446/08) que renovava automaticamente todos os certificados de Entidade Beneficente de Assistência Social (Cebas) que dão direito à isenção de contribuições sociais para entidades filantrópicas. Os deputados acolheram o parecer do relator Ricardo Barros (PP-PR), que considerou que a MP não atendia aos requisitos constitucionais de relevância e urgência. Por isso, a matéria não precisa ser analisada pelo Senado; um decreto legislativo deverá regular as ações tomadas com base na MP. A rejeição decorre de acordo feito pelo Colégio de Líderes na semana passada.

***** IBGE: Emprego na indústria tem queda histórica
Pelo terceiro mês consecutivo, o emprego na indústria brasileira registrou queda, segundo dados divulgados nesta segunda-feira pelo IBGE. Em dezembro, o recuo chegou a 1,8% frente ao mês anterior, a maior baixa desde o início da série histórica, em 2001. A diferença, porém, é que agora o índice também é negativo na comparação com mesmo mês do ano anterior: -1,1% em relação a dezembro de 2007, algo que não ocorria há 29 meses.

"Em síntese, a mudança do quadro macroeconômico a partir de setembro teve impactos negativos sobre a atividade industrial e, consequentemente, sobre o número de horas pagas e o emprego. A desaceleração nestes indicadores ficou evidente nas comparações mensal e trimestrais, com reflexos no fechamento do ano", diz o IBGE em nota. Mesmo com os resultados negativos do último trimestre, o ano do emprego na indústria fechou positivo, com crescimento de 2,1%.

***** Índios são acusados de canibalismo
A Polícia Civil do Amazonas indiciou quatro índios da etnia Kulina por assassinar, esquartejar e ainda comer parte das vísceras do fazendeiro Océlio Alves de Carvalho, de 21 anos, em um ritual de canibalismo no município de Envira, no Amazonas. O crime aconteceu na semana passada, mas, de acordo com o secretário municipal de Comunicação, Luís Moura, nenhuma ação para prender os suspeitos foi realizada. Segundo o secretário, a legislação que protege os indígenas “não permite que a Polícia Militar ou a Polícia Civil entrem na tribo para fazer as investigações”. Em resposta, a Funai informou que está acompanhando os fatos. A fundação explicou, porém, que há dificuldade de comunicação porque o local onde ocorreu o crime é de difícil acesso. Os índios encontram-se foragidos.

***** A saúde é de ouro no Pará
Cláudio Humberto
A governadora do Pará Ana Júlia Carepa (PT) não mede orçamento para bem atender: cancelou, sem aviso prévio, o contrato de R$ 22,2 milhões com o Centro Integrado e Apoio Profissional na gestão do Hospital Regional, alegando “redução de despesas”, e assinou outro, de R$ 60,7 milhões com a Pró-Saúde. O acréscimo mensal é de 36%. O governo diz que o Ciap “atrasou o cronograma” e “cometeu irregularidades”.

***** Estatais gastam R$ 300 mil com anúncio em revista americana

O polêmico encarte publicado na última edição da revista americana Foreign Affairs, que contém elogios ao governo Lula e lança a ministra Dilma Rousseff como "provável" candidata à presidência em 2010, custou R$ 303 mil para dois órgãos estatais. Segundo reportagem publicada neste sábado pela Folha de S.Paulo, o BNDES investiu R$ 180 mil em anúncios na edição, enquanto a Embratur desembolsou R$ 123 mil. A Petrobras, que também anunciou no encarte, não informou o valor pago.

O governo nega que tenha orientado os órgãos a patrocinarem o encarte. As três empresas admitiram que decidiram anunciar na revista depois que foram procuradas pela publicação e não porque estavam em busca de veículos para divulgar suas marcas.

***** Propaganda

O DEM vai pedir que o Conselho de Ética Pública investigue a aparição da ministra Dilma Rousseff em encarte publicitário da revista inglesa Foreign Affairs. Quer saber quem pagou a fatura. E quanto custou.

***** Essa alma quer reza
É grande o apreço do presidente Lula pelo governador Eduardo Campos, mas as constantes visitas a Pernambuco dão o que falar. Como se diz no Nordeste: alma, quando aparece muito, ou é assombração ou quer reza

***** CNJ instaura processo contra juíza do Pará
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) abriu nesta terça processo administrativo disciplinar contra a juíza Clarice Maria de Andrade, de Abaetetuba, no Pará, acusada de ter mantido uma menina de 15 anos numa cela com 20 homens, durante 24 dias, no ano passado. Durante os dias em que ficou presa, a menina sofreu abusos sexuais. Na época, o corregedor de Justiça do Pará, desembargador Constantino Guerreiro, denunciou o caso, mas o Tribunal de Justiça do Pará decidiu não instaurar processo contra a juíza.

***** A galinha, a pamonha e o deputado
Ricardo Noblat

No último fim de semana, viajando de carro do Recife para Petrolina, no alto sertão de Pernambuco, o deputado federal Luiz Gonzaga Patriota (PSB) sentiu fome e resolver almoçar numa birosca de beira de estrada que oferecia como prato principal galinha com pamonha.

Em toda sua vida, Patriota jamais comera galinha com pamonha.

Comeu, gostou e pediu a conta à dona da birosca.

- São R$ 60,00 - respondeu a mulher já idosa.

Por esse preço, se come bem e fartamente no mais tradicional restaurante do Recife, o centenário "Leite".

- Mas R$ 60,00 ? - espantou-se Patriota.

- Sessentinha - devolveu a mulher sem nem piscar.

- É muito difícil encontrar galinha por aqui? - provocou Patriota, irônico.

- Não. Difícil é encontrar deputado - respondeu a mulher.

***** MP processa integrantes da máfia dos sanguessugas
O Ministério Público Federal em Jaú ajuizou ação contra os empresários Darci José Vedoin, Luiz Antônio Trevisan Vedoin e Ronildo Pereira de Medeiros por atos de improbidade administrativa relativos à máfia dos sanguessugas. Darci e Luiz Antonio Vedoin são donos da Planam, empresa suspeita de liderar um esquema de venda superfaturada de ambulâncias para prefeituras. A Procuradoria denunciou ainda os ex-deputados federais Ildeu Alves de Araújo (PP-SP), Irapuan Teixeira (PP-SP) e Wanderval Lima dos Santos (PR-SP), além do ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde, Gastão Wagner de Sousa Campos. O Ministério Público pede que os acusados percam a função pública, a suspensão de seus direitos políticos e pagamento de multa. A máfia dos sanguessugas, desarticulada pela Polícia Federal, causou um prejuízo de R$ 15,5 milhões aos cofres públicos.

***** BB e Caixa: a rebelião dos juros
O Banco do Brasil e a Caixa não aceitarão passivamente a imposição de novos cortes nas taxas de juros de suas operações. Seus diretores acham que já operam “no limite” e novas imposições de corte pelo Banco Central e pelo presidente Lula, colocariam em risco sua saúde financeira. Sociedade de capital aberto, o BB tem contas a prestar aos acionistas. E a Caixa tem que remunerar os recursos do FGTS, dos quais é gestora.

***** A marola agita
Especialista em crises, o professor José Pastore acha que a marolinha de Lula vai ceifar 1,5 milhão de empregos no Brasil. Pior: nada garante que sejam recuperados depois do tsunami, que ele prevê para 2010.

****** Economia do Peru crescerá 5% em 2009
O Ministério da Economia do Peru prevê que o país manterá um “bom ritmo de crescimento em 2009”, ano considerado mundialmente como difícil, devido os impactos da crise financeira internacional. Segundo o ministro da pasta, Luis Carranza, o Produto Interno Bruto (PIB) peruano deve crescer 5% neste ano e 6% em 2010. Quanto aos investimentos, ele afirmou que embora estejam diminuindo de maneira geral, continuarão a registrar aumento em alguns setores. De acordo com o Banco Central peruano, o PIB do país avançou cerca de 9% em 2008, dando continuidade a uma série histórica de altas taxas de crescimento nos últimos anos.

***** Protecionismo
Cláudio Humberto
Já está definida a política comercial dos Estados Unidos em relação ao Brasil. A indústria americana dá o aço e o Brasil leva o ferro.

***** Bispo polêmico, Williamson é afastado de seu cargo na Argentina
O bispo britânico Richard Williamson, que nega a ocorrência do Holocausto, foi afastado anteontem da direção de seminário em La Reja (a 40 km de Buenos Aires) pela Sociedade São Pio 10º, ligada ao arcebispo ultraconservador Marcel Lefèbvre. No mês passado, o papa Bento 16 reverteu a excomunhão de Williamson -que pouco antes havia declarado "não acreditar que seis milhões de judeus foram exterminados na Segunda Guerra". O Vaticano ordenou que o bispo se retratasse, mas em entrevista sábado à revista alemã "Der Spiegel", ele afirmou que "primeiro tinha que estudar as provas históricas".

Democracia e terrorismo na Itália

Pedro Del Picchia (*), Folha de São Paulo

Não conheço o processo. Mas, seguramente, sei que Battisti não era, nos anos 70, um perseguido político por um regime ditatorial

APÓS A queda do regime fascista e o fim da Segunda Guerra Mundial, o povo italiano decidiu pela instauração do regime republicano, por meio de referendo, em 2 de junho de 1946, colocando fim à monarquia. Na mesma data foi eleita a Assembleia Constituinte.

A nova Carta entrou vigor no dia 1º de janeiro de 1948, afirmando em seu artigo 1º que "a Itália é uma República democrática". Mais adiante estabelece o voto universal, a liberdade partidária e o sistema parlamentarista de governo. Com a introdução de emendas ao longo dos anos que não modificaram sua essência, a Constituição de 48 permanece em vigor.

Nesse contexto, vivi na Itália de 1978 a 1981, trabalhando como correspondente desta Folha. Acompanhei de perto os inúmeros atos terroristas praticados à época por grupos de esquerda e de direita. Em dezembro de 1970, ocorreu uma tentativa fracassada de golpe de Estado por parte da extrema direita.

Este fato açulou os ânimos dos agrupamentos de extrema esquerda, que se tornaram mais ousados. As Brigadas Vermelhas, que surgiram em meados de 1970 ainda sob os ecos radicais do movimento de 1968, logo ganharam notoriedade por suas ações violentas.

Os ideólogos das Brigadas diziam que estavam dando continuidade à Resistência. Se os "partigiani", nos anos 40, lutaram contra o fascismo e a ocupação alemã, os "brigatisti" estavam dando continuidade à "luta de libertação nacional", agora contra o "Estado Imperialista das Multinacionais" -da sigla SIM em italiano.

Depois de ferir e assassinar dezenas de "inimigos de classe", as Brigadas Vermelhas cometeram seu ato mais audacioso com o sequestro e assassinato de Aldo Moro, em 1978, que cobri para a Folha. Moro era uma espécie de paradigma moral da Democracia Cristã -partido que liderava a coalizão de governo na época.

O grupo Proletários Armados pelo Comunismo entrou em cena na segunda metade dos anos 70, na crista das ações espetaculares das Brigadas. É importante deixar claro que, diferentemente da opinião de alguns analistas brasileiros, o governo da Itália não era de extrema direita no final dos anos 70. Provavelmente até havia infiltração de gente de extrema direita nos serviços secretos italianos. Na ocasião, comentou-se e especulou-se muito sobre isso.

Mas o governo, propriamente, era constitucional, democrático, com um Parlamento eleito pelo povo no pleito histórico de 1976, quando o Partido Comunista Italiano quase venceu a Democracia Cristã. Aliás, o PCI sempre foi contra os grupos terroristas, de esquerda e de direita. Tachava-os de antidemocráticos.

Essa também era a opinião do presidente da República, Sandro Pertini, que jamais poderia ser tachado de conivente com a direita. Pertini, socialista histórico, uma lenda da esquerda europeia, foi companheiro de cárcere de Antonio Gramsci -ambos presos pelo regime fascista.

Umas das razões para o assassinato de Moro, segundo inúmeros analistas, foi o fato de ele defender um entendimento direto entre a Democracia Cristã e o PCI. O democrata-cristão e o então líder comunista Enrico Berlinguer propugnavam por um "compromisso histórico" -uma nova aliança entre as duas maiores forças políticas do país, visando a governabilidade e os avanços administrativos que a Itália requeria para superar o pântano da burocracia, a ineficiência crônica do Estado e enfrentar os desafios da revolução tecno-científica que dava seus primeiros sinais.

Evidentemente, para os extremistas -à direita e à esquerda-, o chamado "compromisso histórico" era inaceitável. Não podiam admitir a aliança entre os dois maiores partidos políticos do país com a finalidade de renovar o Estado que combatiam. Aldo Moro foi assassinado por nostálgicos da Revolução Bolchevique que eram, não apenas leninistas, mas stalinistas -na mais crua e cruel definição desse qualificativo. Os "brigadistas" diziam, então, que estavam "golpeando o coração do Estado".

De fato, esses radicais atacaram o Estado democrático de Direito que, com todas as imperfeições, mantinha-se na Itália -como se mantém até hoje- desde o final da Segunda Guerra. Eles visavam declaradamente tomar de assalto o poder e implantar a "ditadura do proletariado". Até no nome, por exemplo, a organização Proletários Armados pelo Comunismo dizia a que vinha.

Não conheço o processo e, portanto, não sei se o sr. Cesare Battisti cometeu os homicídios a ele atribuídos.

Mas, seguramente, sei que ele não era, nos anos 70, um perseguido político por um regime ditatorial. Ao contrário, na vigência do Estado de Direito, ele optou, por vontade própria, pela subversão da democracia e, para isso, aceitou e incentivou o recurso às armas e ao terrorismo.

(*) Pedro Del Picchia é jornalista e escritor. Foi correspondente da Folha em Roma de 1978 a 1981