domingo, novembro 07, 2021

Quando a ignorância fala mais alto

 Editorial

O Estado de S.Paulo 

Editada no dia 1.º de novembro, a Portaria 620 do Ministério do Trabalho e Previdência (MTP) proibindo a exigência pelos empregadores de certificado de vacinação de seus funcionários é manifestação de exercício abusivo do poder, que fere a jurisprudência constitucional, ultrapassa as competências do Executivo federal, afronta o interesse público, ignora a reforma trabalhista e cria desincentivo para a vacinação, que é a medida mais eficaz para a superação da pandemia e a retomada das atividades econômicas. Poucas medidas expressam de forma tão fidedigna a incapacidade do governo Bolsonaro de atuar com sentido comum. 

Em dezembro de 2020, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a constitucionalidade da vacinação obrigatória. Em questões de saúde pública, a pretensão individual não pode prevalecer sobre o interesse público. Na ocasião, o Supremo afirmou que a obrigatoriedade da vacinação pode ser implementada por medidas indiretas, como a restrição ao exercício de certas atividades ou à presença em determinados lugares. O governo Bolsonaro contraria, portanto, orientação expressa do STF, que tem sido aplicada, de forma pacífica e recorrente, pela Justiça do Trabalho, em suas várias instâncias.

Além disso, é competência do Legislativo – e não do Executivo – fixar novas proibições, como fez indevidamente a Portaria 620. Sem dispor de fundamento legal, o ato do Executivo federal cria uma limitação na relação entre empregador e empregado. Nesse sentido, a medida do governo Bolsonaro é também contrária ao espírito da reforma trabalhista, que veio ampliar – e não restringir – o espaço de liberdade negocial nas relações trabalhistas. A contradição é patente. O governo dito liberal inventa mais uma interferência entre empregador e empregado.

Não bastassem tais vícios – o Executivo federal não dispõe de competência para criar proibição, ainda mais em sentido contrário à orientação do Supremo –, a Portaria 620 ignora o interesse público. Como lembrou a nota da Fecomercio-SP sobre o ato do governo Bolsonaro, “entendemos que há prevalência do interesse coletivo sobre o individual, ou seja, a empresa é obrigada a preservar a saúde e o interesse coletivo do ambiente do trabalho”. Em tempos de pandemia, é medida de elementar prudência assegurar que todos tenham adotado as medidas disponíveis para proteção individual e coletiva contra a covid-19.

A Portaria 620 não apenas desrespeita o Direito e o interesse público, mas a própria realidade. Ao tentar criar desincentivos para a vacinação, o governo Bolsonaro manifesta profunda ignorância sobre o principal meio disponível de enfrentamento da pandemia. De forma inteiramente irracional, finge não ver que é a vacinação, e não as bravatas ideológicas, que permitiu retomar as atividades econômicas e sociais.

De maneira insistente, o governo Bolsonaro pratica a ignorância. Agora, pretende impor o mesmo jeito de trabalhar ao setor privado. Haja paciência.


Um presidente incapaz

 Eudes Lima

Revista ISTOÉ

© AFP

Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, é visto coletiva de imprensa
 na sede do Ministério, em Brasília, no dia 22 de outubro de 2021 -

A passagem de Bolsonaro na Presidência da República deixará sequelas profundas na sociedade brasileira. Uma delas, no entanto, é positiva. A população percebeu que o Supremo Tribunal Federal (STF), as Casas Legislativas e os governadores dos estados são atores imprescindíveis ao jogo da política. A democracia com poderes independentes, é imprescindível. Houve momentos em que o Supremo, especialmente, foi obrigado a intervir no executivo federal para evitar a omissão e o caos que Bolsonaro impunha ao País. Caso isso não tivesse acontecido, uma tragédia ainda maior teria ocorrido, seja na questão de combate a pandemia – mais de 600 mil pessoas mortas –, seja no planejamento da economia, sobretudo porque a miséria voltou a assombrar as famílias brasileiras. 

Medidas sanitárias que confrontaram as orientações do presidente salvaram muitas vidas. O distanciamento social determinado pelos governadores, o uso obrigatório das máscaras, o fechamento do comércio, as aulas por meio de transmissões digitais, enfim, uma infinidade de medidas foram tomadas para contrariar um Bolsonaro negacionista, que estava contra o isolamento social e as medidas de restrição ao comércio, entre outras coisas. D Para além das medidas políticas e administrativas, o exemplo dos governadores foi fundamental. A maioria foi solidária às vítimas, não fez campanha contra a proteção das pessoas e nem recomendaram os medicamentos nocivos à saúde, como a cloroquina. E, mais importante do que tudo, trabalharam pela chegada das vacinas, o que Bolsonaro foi terminantemente contra desde o início. Se estivéssemos sob seu comando em relação à imunização, certamente teríamos chegado a um milhão de mortos. Nesse embate, a população optou, sem qualquer sombra de dúvida, pela vacinação em massa. Hoje, assistimos a pandemia em queda.

Vieram do STF as decisões mais contundentes. Quando houve a judicialização para saber quem poderia decidir sobre as regras sanitárias, os ministros corroboraram o que seria mais adequado para a sobrevivência das pessoas. Também foi no STF que se materializou a CPI da Covid. O Senado precisou ser provocado para tocar as investigações da CPI. E foi exitoso nos seus resultados. Conseguiu mostrar todos os crimes cometidos, inclusive quem se beneficiou financeiramente com a compra de vacinas superfaturadas ou remédios ineficazes. A Câmara dos Deputados, omissa, se escondeu dos debates, mas pegou carona na construção de uma alternativa que impediu uma miséria ainda maior com o auxílio emergencial.

Como se vê, esse deve ser o cenário que vai acirrar ainda mais o debate eleitoral no ano que vem. É necessário, desde já, que os congressistas imponham limites à atuação do presidente. A sua caneta Bic, por mais que esteja quase sem tinta, já em final de mandato, ainda pode fazer muitos estragos na mão de um presidente incapacitado para a gestão e que flerta contra a democracia diuturnamente.


O jogo pesado de Bolsonaro

 Notas & Informações

O Estado de S.Paulo

Sem competência para entender as dimensões e as complexidades dos problemas que tem a responsabilidade de resolver, o presidente Jair Bolsonaro procura apenas se livrar deles. Ora anuncia providências inúteis ou impraticáveis para resolvê-los, ora os menospreza. Em geral, fala grosso, como é da natureza de pessoas com baixo grau de civilidade. Com essa atitude irresponsável, mas de nítidas intenções eleitorais, acaba criando mais problemas, que continuará a lidar com o mesmo método.

Bolsonaro vem agindo persistentemente desse modo no caso dos preços da gasolina, diesel e gás de cozinha, cuja alta tem forte impacto inflacionário, afeta o orçamento de famílias – o que corrói ainda mais sua decadente popularidade – e incomoda alguns segmentos até agora fiéis ao presidente, como uma parte dos caminhoneiros.

Em sua vexaminosa passagem pela Itália, onde oficialmente participaria da reunião dos dirigentes do G-20 (o grupo das 20 maiores economias do planeta), mas não tratou de nenhum assunto de relevância para o Brasil nos planos diplomático e econômico, Bolsonaro prometeu “jogar pesado” com a Petrobras.

“Essa semana vai ser um jogo pesado com a Petrobras”, disse Bolsonaro, na cidade de Anguillara Veneta, no norte da Itália, onde recebeu o título de cidadão local, cumprindo agenda pessoal. Disse que é responsável pela indicação do presidente da estatal, mas o nome precisou da aprovação do conselho de administração da empresa. Mas tudo de ruim que lá acontece “cai no meu colo”, o que não ocorre com o que é bom. O presidente ainda disse ter sabido, de maneira extraoficial, que a empresa aumentará novamente os combustíveis em até 20 dias. “Isso não pode acontecer”, garantiu.

Bolsonaro tenta, assim, mostrar-se rigoroso no trato de um tema de grande interesse social e econômico. É um modo de dar alguma satisfação à população cada vez mais preocupada em colocar comida na mesa. Por mais duro que seja seu jogo, porém, será inútil para conter o preço dos derivados de petróleo. Há muitos fatores que pressionam o preço dos combustíveis em todo o mundo. Obviamente um país isoladamente pode mitigar alguns impactos desses fatores, mas não todos.

A situação fica ainda pior com atitudes como as que Bolsonaro costuma tomar nessa questão, que geram insegurança com relação ao respeito do governo às regras da economia. Esse clima de dúvidas e incertezas contribui para aumentar o custo da dívida pública e, em especial, pressiona a taxa do câmbio. Dólar mais caro dificulta as importações, eleva o preço dos produtos cotados internacionalmente – como os do agronegócio e os do petróleo e de seus derivados – e impulsiona a inflação. Inconsistências e espertezas da política fiscal completam o cenário cada vez mais sombrio.

Em nota, a Petrobras afirmou que os ajustes de preços “são realizados no curso normal de seus negócios” e “seguem as suas políticas comerciais vigentes”. A despeito de óbvia para aqueles que, com alguma sensatez, acompanham o mundo empresarial, a resposta é necessária num governo em que sensatez é um bem escasso. E seguir políticas vigentes, outra obviedade no mercado, não tem sido marca de um governo tão errático como o de Jair Bolsonaro.

Foi preciso, por isso, que o presidente da Petrobras, general da reserva Joaquim Silva e Luna – escolhido por Bolsonaro para ocupar o cargo –, dissesse o que todos deveriam saber, a começar pelo seu maior acionista, que é o governo federal. A empresa não pode fazer políticas públicas, que é tarefa do governo. Como empresa, a Petrobras precisa atender a interesses de seus acionistas, gerando-lhes resultados financeiros. O maior dos acionistas é o próprio governo, responsável por políticas públicas e que pode fazer o que bem quiser com os dividendos que a Petrobrás gerar.

Transformar tudo em tema de palanque, como Bolsonaro faz com assuntos de responsabilidade de seu governo nos campos de saúde, educação, reformas, energia, entre outros, só atrapalha um país já às voltas com grandes dificuldades para retomar o crescimento.


A diplomacia miliciana de Bolsonaro

 Elio Gaspari

O Globo

Ele foi a Roma para brigar na rua

As cenas da passagem da comitiva de Bolsonaro por Roma foram um aperitivo do que pode acontecer durante a campanha eleitoral do ano que vem. Ganha uma viagem a um garimpo ilegal da Amazônia quem souber de uma ideia apresentada pelo capitão durante sua passagem pela cidade e pela reunião do G20.

Pisou no pé da chanceler alemã Angela Merkel, teve uma conversa desconexa com o presidente turco, conversou com garçons e, por não usar máscara nem tomar vacina, ficou sem o aperto de mão do primeiro-ministro Mario Draghi.

Bolsonaro aproveitou a viagem para seguir um roteiro sentimental e, na segunda-feira, foi a Pádua. Lá aconteceu um choque de manifestantes com a polícia, que bloqueou uma marcha. Quem viu as cenas testemunhou um encontro de militantes organizados, mesmo agressivos, com forças da ordem civilizadas. A polícia usou canhão de água e cassetetes para conter a passeata. Uma só manifestante foi detida. Usou-se a força sem violência indiscriminada. Isso em Pádua.

Em Roma, na véspera, milicianos agrediram jornalistas com socos na barriga, empurrões intimidadores e a clássica apropriação indébita de um aparelho celular. Como bem disse um jornalista agredido: “Tá maluco?”.

Bolsonaro foi à Itália com cinco ministros e preferiu bispar a reunião da COP26 de Glasgow. Se tivesse recorrido a um aluno do primeiro ano do curso de formação de diplomatas, teria conseguido uma agenda mais robusta, ainda que vaga. Para isso, existem os diplomatas. Em 1971, o presidente Emílio Médici foi a Washington com uma agenda declaradamente vazia, porém cerimonialmente dignificante.

É verdade que 15 chefes de Estado foram à Fontana di Trevi para uma cena ridícula, durante a qual jogaram no laguinho suas moedas da sorte. Logo naquele delírio barroco celebrizado na cena noturna de Marcello Mastroianni com Anita Ekberg no filme “La dolce vita”.

A agenda romana do capitão poderia ter dispensado seu momento miliciano. As manifestações contra Bolsonaro são organizadas, as dos seus apoiadores, com balões verdes e amarelos, também. É o jogo jogado, mas uma senhora bolsonarista foi jogada no chão pela milícia.

A ação de milicianos em manifestações públicas tem tudo para vir a ser um ingrediente tóxico na campanha eleitoral do ano que vem. A existência dos celulares será um inibidor dessas práticas, desde que as autoridades policiais estejam dispostas a reprimir violências. É sempre bom lembrar que, ao terrorismo de esquerda, disparado no Recife em 1966, juntou-se, em 1968, o terrorismo de direita contra teatros, tripulado por agentes do Estado.

Assim como o ministro Alexandre de Moraes tornou-se o xerife da legislação eleitoral no controle das milícias eletrônicas, a imprensa e o Judiciário poderiam buscar uma fórmula para conter as milícias urbanas. Em junho do ano passado, quando o inesquecível general Eduardo Pazuello resolveu mexer nas estatísticas da pandemia, a pronta e inédita formação de um consórcio de veículos passou a computar diariamente os números que o negacionismo queria manipular. Deu certo, e ninguém pergunta quais são os dados do pelotão sanitário de Brasília, atualmente comandado pelo “coronel” Marcelo Queiroga, aquele que pretende passear em Haia para debochar da CPI.


As cinzas das florestas brasileiras alertam que “o tempo está acabando”

 Marina Rossi

El Pais

Artistas pintam em São Paulo imenso painel com mistura feita com tinta e 200 quilos de cinzas colhidas após queimadas na Amazônia, no Pantanal, no Cerrado e na Mata Atlântica

As cinzas da floresta


Em uma rua deserta de pessoas, onde somente os carros passam pela via larga, escoltada de um lado por grandes galpões e, do outro, pela linha do trem, uma imensa ampulheta lembra que “o tempo está acabando”. Ali, no chão de um desses galpões, a mensagem foi pintada com uma mistura de tinta branca e cinzas. São os restos da floresta Amazônica brasileira, do Pantanal, do Cerrado e da Mata Atlântica, que arderam em chamas nos últimos anos, deixando para trás o pó cinza escuro do que virou carvão. Foi com essas cinzas que artistas criaram o imenso painel que alerta para as mudanças climáticas.

“Eu estou incomodado com a normalização que é viver em um país em chamas”, explica Thiago Mundano, que se intitula artivista e é um dos criadores do projeto Cinzas da Floresta. “A queimada das florestas é algo que vem de décadas, mas o Governo Bolsonaro é muito simbólico quando falamos sobre isso”. Enquanto pinta parte do painel, Mundano explica que a ideia era chamar atenção para o tema durante a COP26, a Conferência do Clima que ocorre até o dia 12 em Glasgow, na Escócia.

O projeto Cinzas da Floresta começou em julho, quando uma expedição partiu de São Paulo para a Amazônia de carro, para buscar os restos das queimadas. O roteiro passou ainda pelo Pantanal, pelo Cerrado e pela Mata Atlântica, totalizando mais de 10.000 quilômetros percorridos ao longo de 24 dias de expedição. “É assustador o que vimos”, diz Mundano. “Como fomos de carro, pudemos assistir de perto à devastação”. Ao todo, mais de 200 quilos de cinzas foram coletados.

A ampulheta pintada na semana passada por cerca de dez artistas é uma das obras que resultaram da expedição. Outra foi terminada há cerca de 10 dias em um prédio no centro de São Paulo. Ali, em uma parede de mais de mil metros quadrados, a figura de um imponente brigadista foi pintada com a mesma técnica. O painel é uma releitura do quadro O lavrador de café, de Candido Portinari. O trabalho foi realizado pelos artistas André Firminano, Mundano, Quinho e Fe Iskor, e alerta para os incêndios rotineiros e muitas vezes criminosos que o bioma brasileiro vem sofrendo.

 SATO DO BRASIL

Painel em São Paulo feito com com cinzas dos incêndios

 nas florestas brasileiras retrata um brigadista.

O painel foi feito a partir da figura real de um brigadista que vive na Chapada dos Veadeiros, parque na região centro-oeste do Brasil cujo último grande incêndio ocorreu em setembro. Na obra, que levou 16 dias para ficar pronta, um homem de rosto cansado segura uma enxada com uma mão em frente a um toco de árvore cuja copa já foi queimada. No chão, um megafone, um dos objetos símbolo do ativismo, e, logo abaixo, o esqueleto de um jacaré, morto e seco pela queimada. Do outro lado, um grilo simboliza o desequilíbrio ambiental, representando a peste em monoculturas. Uma ampulheta lembra do tempo, que chega ao fim.

A técnica de usar as cinzas para pintar não é novidade. “Não inventei nada”, diz Mundano. “Há mais de 20.000 anos os homens das cavernas pintavam com carvão.” Mas o resultado é grandioso. A ideia agora é espalhar pela cidade outros trabalhos a partir das cinzas. Um kit com porções de cinzas dos quatro biomas (Amazônia, Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica) está sendo distribuído para alguns artistas. Além das obras, o filme Cinzas da Floresta, com direção de André D’Elia, e uma exposição agendada para fevereiro, também serão produzidos com o material da expedição.


Por um patriotismo democrático

 Sergio Fausto

O Estado de S.Paulo

Bolsonaro se crê um patriota. O engano é evidente. O atual presidente não revela traço algum de quem ama o seu país.

O desprezo pela vida dos brasileiros, demonstrado na pandemia, e o descaso com o meio ambiente, em geral, e a Amazônia, em particular, falam por si. Bolsonaro não conhece nem tem apreço pela cultura brasileira, na sua imensa riqueza e diversidade. Se dependesse dele, a natureza e a cultura, que dão corpo e alma a este país, não resistiriam. E nossa história ficaria aprisionada nos chavões de um autoritarismo primitivo.

E, apesar de tudo isso, o bolsonarismo tenta se apoderar de símbolos nacionais, como o hino, a bandeira e a camisa da seleção brasileira. Patriotismo excludente, movido a ódio, exterminador do futuro.

Nações são comunidades imaginadas, na definição de Benedict Anderson, autor de um livro clássico sobre as origens dos Estados nacionais e a difusão do nacionalismo. Existem não como um dado da geografia física, mas como construções políticas e culturais, pelo fazer, o falar, o atuar e o escrever constantes de muitos que compartem uma língua e vínculos concretos e simbólicos com um território delimitado e um passado em comum, vivendo sob as mesmas leis. Para subsistirem, as nações precisam ser periodicamente reimaginadas para projetar um destino em comum, melhor para todos.

Os mitos da nacionalidade brasileira – a democracia racial, o gigante pela própria natureza, o país do futuro, etc. – estão em mau estado. Não resistiram ao embate com a realidade de um país que, em 200 anos, resolveu bem suas questões de fronteira, ocupou seu território, se urbanizou e industrializou, tornou-se uma grande economia, mas não conseguiu entregar à grande massa de sua população condições aceitáveis de vida e um terreno firme e plano para o exercício da cidadania.

Quando terminou o regime autoritário (1964-1985), o Brasil figurava entre os países que mais haviam crescido ao longo do século prestes a terminar. Altas taxas de crescimento, porém, não produziram indicadores sociais compatíveis. Ao contrário, no fim da ditadura, 25% dos brasileiros ainda eram analfabetos, muitas crianças continuavam fora da escola (cerca de 30% nas regiões menos desenvolvidas), o ensino médio era ainda uma quimera para a grande maioria dos jovens e a mortalidade infantil se situava na casa dos 40 por mil nascimentos.

A democracia não resolveu todos esses problemas. Mas os colocou no centro do debate público e da agenda nacional e desobstruiu os canais para que a sociedade, nas suas múltiplas e contraditórias vontades e interesses, passasse a demandar soluções, sem bater às portas dos quartéis. A Constituição de 1988 assegurou liberdades e garantias individuais, estendeu o rol dos direitos fundamentais, incorporando a saúde pública e o ensino básico para todos, deu proteção constitucional ao meio ambiente e visibilidade e proteção a minorias antes marginalizadas do espaço público e criou mecanismos para a expressão e defesa de direitos difusos. Embora insuficientes, os avanços saltam aos olhos de quem tem olhos para ver.

Devemos valorizar e compreender essa experiência em toda a sua importância. Para isso, é preciso conhecer e discutir criticamente o nosso passado. Não para nos imobilizar na purgação dos nossos muitos pecados, mas porque saber de onde viemos é essencial para definir aonde queremos chegar.

Constituição não é Bíblia. Ela já sofreu mais de 100 emendas e deverá sofrer outras para reduzir o seu detalhismo e a sua incidência excessiva em questões que devem ser resolvidas na e pela política, no âmbito da legislação complementar. A nossa Constituição, porém, nos oferece o que outras, louvadas por serem mais enxutas, não entregam. Ela projeta a utopia viável de um país mais igualitário e inclusivo, democrático no funcionamento das suas instituições políticas e na oferta de bens públicos, conhecedor e zeloso da sua biodiversidade, orgulhoso da sua diversidade cultural e racial. E nos dá a gramática para processar os conflitos inerentes à busca, na democracia, pela concretização progressiva dessas aspirações.

Podemos divergir sobre a velocidade e os meios para avançar, ainda mais, no caminho que a Constituição aponta, desde as questões mais abrangentes sobre o papel do Estado, do mercado e da sociedade até suas expressões mais concretas em torno da tributação e do gasto público, passando por todas as áreas das políticas públicas, inclusive a política externa.

O importante é convergirmos em relação aos valores fundamentais da Constituição e as regras democráticas que ela estabelece para resolvermos as nossas diferenças.

A Nação não tem dono. Patriotas são aqueles e aquelas que estão dispostos(as) a colocar seus tijolos – de cores e formatos diferentes – na construção nunca terminada de uma casa comum que seja de todos(as) que aqui vivem e viverão um dia, gente que não conheceremos, mas que terão o mesmo amor por esta “comunidade imaginada”, mas bem real, chamada Brasil.

*

DIRETOR-GERAL DA FUNDAÇÃO FHC, É MEMBRO DO GACINT-USP


Governo diminui um país gigante

  Míriam Leitão

O Globo

 Oli SCARFF / AFP 

Em Glasgow, na Escócia, durante a COP-26, a brasileira Txai Suruí, 

ativista indígena do povo Paiter Suruí e fundadora e coordenadora 

do movimento da Juventude Indígena de Rondônia |

O Brasil empatou com o passado. É assim que Márcio Astrini, coordenador do Observatório do Clima, explica a mudança anunciada ontem, em Glasgow, das metas brasileiras. “Esse empate vem depois de um ano de enorme prejuízo para a imagem do Brasil”, diz. O Brasil havia dado uma pedalada climática, e agora, ao subir de 43% para 50% a redução das emissões em 2030, em relação a 2005, o país atinge o mesmo efeito líquido. Na verdade, não elevou as metas, fingiu aumentar as ambições, para voltar ao que se comprometeu quando assinou o Acordo de Paris.

— O Brasil é o único país entre os grandes emissores que havia retrocedido em suas metas climáticas e por isso estava sendo enormemente criticado — diz Astrini.

O Brasil é o quinto maior emissor de gases de efeito estufa, atrás da China, Estados Unidos, Índia e Rússia. Se considerar a União Europeia como um país, é o sexto, informa o coordenador do MapBiomas, Tasso Azevedo. E ele concorda com Astrini. O que aconteceu ontem foi um não evento.

— Sobre a nova meta, o governo brasileiro tirou o bode da sala. Com a meta de 50% sobre a emissão de 2005, com números do quarto inventário, o resultado é o mesmo: o Brasil vai reduzir para 1,2 bilhão de tonelada de carbono. E tem mais, em 2015, quando se fez a meta, o Brasil já havia reduzido em 40% as emissões de 2005. Só que de 2016 para cá o país só fez crescer as emissões e em 2020 aumentou 4,6% sobre 2015. Estamos na trajetória errada — disse Tasso Azevedo.

Entrevistei para o meu programa na Globonews a professora de ecologia da UNB Mercedes Bustamante e a pesquisadora Brenda Brito, do Imazon. O que impressiona é como está claro que o Brasil se apequenou na mesa de negociação.

— Eu não lembro na história recente de ter o Brasil numa posição tão diminuída nas negociações do clima como a gente vê agora. Neste momento, na década decisiva, na COP decisiva, nós estamos fora, a perda é inestimável — disse Mercedes.

O Brasil cresceu na mesa de negociação pelo seu patrimônio ambiental, pela sua história de envolvimento diplomático com o tema desde a Rio-92, e também pelo que conseguiu fazer no passado recente, como conta Brenda:

— O Brasil sabe o que fazer para reduzir o desmatamento, já fizemos isso com sucesso entre 2004 e 2012, tivemos uma redução de 80% da taxa anual de desmatamento, mas a partir de 2013 esse número começa a subir e desde 2019 a gente ultrapassa essa marca de 10 mil km2 que é algo que a gente não via desde 2008.

Os cientistas têm repetido a ideia de que esta década é decisiva, e, portanto, esta COP também. Muita gente vê isso com uma certa dúvida. Como todo o esforço que se faz é para que o aumento da temperatura não ultrapasse 1,5 grau Celsius até o fim do século, por que essa década de 20 seria tão importante?

Mercedes e Brenda explicaram no programa que essas emissões são cumulativas, e esse é o momento de fazer os movimentos mais fortes para impedir que eles se acumulem. Se tomarmos a rota errada agora, será muito mais difícil, e mais caro, no futuro reduzir essas emissões, explicaram.

O Brasil é visto com atenção por ser detentor dos grandes “drenos naturais” desses gases. Ao mesmo tempo, são exatamente esses drenos que estamos destruindo com o desmatamento.

— A gente está vendo neste momento uma corrida por ocupação da floresta, para a grilagem, que é um dos grandes vetores do desmatamento — explicou Brenda.

De Glasgow, Márcio Astrini contou que há uma pressão muito grande dos empresários brasileiros para que sejam definidas as regras para o mercado de carbono. O governo brasileiro havia travado as negociações porque queria que os créditos do Protocolo de Kyoto, que ficaram acumulados, fossem reconhecidos no novo mercado de carbono:

— É mais ou menos assim, o Brasil queria pagar boleto da Sky com URV. Mas agora eu acho que o governo brasileiro vai abrir mão dessa posição e destravar a negociação. Está abrindo mão porque ele seria atropelado. O país está no canto da sala. Isolado — diz Astrini.

O patético vídeo de Bolsonaro passou apenas no pavilhão do Brasil. A imagem do país foi salva ontem no palco principal pela jovem Txai Suruí que disse, em alto e bom inglês, para plateia qualificada, com a presença do presidente Biden e da chanceler Merkel, que agora é a hora de agir, e não em 2050.

(Com Alvaro Gribel (de São Paulo)


A PEC do Calote e a miséria nacional

 Editorial

O Estado de S.Paulo

A novela dos precatórios é uma coleção de absurdos. O governo Bolsonaro pretende não honrar em 2022 suas dívidas reconhecidas pela Justiça. Como esse calote fere a ordem jurídica, o Executivo federal apresentou ao Congresso a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 23/21, que limita unilateralmente o valor das despesas anuais com os precatórios, modifica a forma de correção dos juros dessas dívidas e ainda altera o teto de gastos. Ou seja, numa só tacada, o governo dito liberal deseja constitucionalizar o calote e driblar a responsabilidade fiscal.

A manobra encontrou resistência. Não é nada republicano que o Executivo ignore as dívidas reconhecidas pelo Judiciário, pagando apenas o que bem entender. Na tentativa de superar essas dificuldades, o governo Bolsonaro atribuiu uma suposta conotação social à PEC do Calote. A mudança das regras constitucionais seria condição para os programas sociais de 2022.

Acrescia-se, assim, novo absurdo: sem cumprir o dever de casa, o governo recorre a um argumento sabidamente incorreto. Tivesse estudado o tema com seriedade, o governo Bolsonaro saberia que, para ter programa de transferência de renda em 2022, não é preciso dar calote em credor, tampouco desrespeitar o teto de gastos. A PEC dos Precatórios é uma escolha do governo federal pela irresponsabilidade.

Agora, há um novo capítulo dessa história. Para aprovar a PEC 23/21, o governo Bolsonaro intensificou o uso das chamadas emendas de relator-geral, que servem para o repasse não transparente de verbas públicas para finalidades indicadas pelos parlamentares. É o chamado orçamento secreto, que encobriu, por exemplo, o escândalo da compra de tratores sem os devidos controles.

Como o Estado revelou, o governo Bolsonaro, desde a chegada do texto da PEC 23/21 ao plenário da Câmara, empenhou R$ 1,2 bilhão das chamadas emendas de relator-geral. Com isso, outubro foi o mês de maior valor de emendas liberadas, alcançando a cifra de R$ 2,95 bilhões.

Nessa história, a cronologia das emendas é importante. No dia 27 de outubro (quarta-feira), houve uma tentativa frustrada de votar a PEC dos Precatórios no plenário da Câmara. Nos dois dias seguintes, 28 e 29, foi liberada a maior parte das emendas: R$ 909 milhões para as emendas de relator-geral. Na semana seguinte, no dia 4 de novembro, a Câmara aprovou, por 312 votos contra 144, o texto-base da proposta. Para concluir a votação da matéria em primeiro turno, falta ainda analisar os destaques apresentados pelos partidos.

Segundo relatos colhidos pelo Estado, o valor oferecido por interlocutores do Palácio do Planalto pelo voto de cada parlamentar foi de até R$ 15 milhões. A coordenação das negociações coube ao presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL). Também houve, nos dias prévios à votação da PEC 23/21, aumento do ritmo do pagamento de outras emendas, como as individuais e de bancadas.

Nessa história, não fica mal apenas o presidente Bolsonaro, que, para dar o calote no País, não tem pudores de recorrer às práticas mais daninhas na relação entre Executivo e Legislativo. Houve muitos parlamentares que, de forma absolutamente incompreensível, apoiaram a PEC dos Precatórios. Por exemplo, deputados do PSDB, PDT, MDB e Podemos deram aval à irresponsabilidade bolsonarista de mudar a Constituição para não pagar aos credores e ainda obter autorização para ignorar a principal âncora fiscal do País. A votação da PEC 23/21, no dia 4 de novembro, confirma a situação lamentável da maioria dos partidos, sem identidade, sem conteúdo programático e – não é figura de linguagem – sem caráter.

A PEC dos Precatórios mostra, portanto, não apenas um governo incoerente com suas promessas de campanha. Sem compromisso fiscal e sem transparência, Jair Bolsonaro faz as piores manobras da crônica política. Revela também a existência de parlamentares mais afeitos a emendas que a princípios cívicos. Para que haja uma operação de compra, alguém tem de estar disposto a vender. No caso, disposto a vender-se.


Será difícil manter a recuperação da economia

 Claudio Adilson Gonçalez

O Estado de S.Paulo

 

Paulo Guedes, ministro da Economia

O ministro Paulo Guedes disse que as revisões para baixo que os economistas vêm fazendo para o crescimento da economia brasileira em 2022 não passavam de conversinhas. Não é bem assim. Na verdade, os ventos contrários à recuperação da atividade, tanto internos quanto externos, crescem de maneira preocupante.

No front doméstico, destacam-se as incertezas fiscais e eleitorais, escancaradas na investida irresponsável do governo contra o teto de gastos, o inevitável aperto monetário que poderá levar a Selic para a casa dos 12%, no primeiro trimestre do ano que vem, o alto nível de endividamento das famílias e a corrosão do poder de compra dos consumidores.

Externamente, como reconheceu o próprio Banco Central, o cenário também se tornou mais desafiador. Os países desenvolvidos estão se defrontando com uma surpreendente escassez de produtos manufaturados, matérias-primas e energia, que deverá forçá-los a endurecerem suas políticas monetárias antes do que era esperado. A redução da liquidez internacional, na atual fase do ciclo econômico brasileiro, seria uma péssima notícia.

Mas a maior preocupação é a possibilidade de redução brusca do crescimento da China. Os desequilíbrios macroeconômicos do gigante asiático são flagrantes. Os investimentos, que respondem por mais de 40% do PIB, são sustentados por dirigismo estatal, juros subsidiados à custa de sub-remuneração das poupanças privadas e excessos de alavancagens. Isso prenuncia queda de rentabilidade do capital em vários setores e, consequentemente, aumento de inadimplência.

No setor imobiliário residencial há uma profusão de indicadores que demonstram a existência de bolha com risco de estouro iminente. As dificuldades financeiras da empresa chinesa Evergrande, gigante do setor, podem ter sido apenas um primeiro sinal de alerta. Em grandes cidades, como Shangai, Hangzhou, Shenzhen e Beijing, o aluguel médio está em torno de 35% da renda das famílias e o preço do imóvel chega a superar 60 anos de custo de locação. Mas as taxas de desocupação de imóveis já começaram a crescer.

Como o mercado financeiro e de capitais chinês é fechado, um eventual estouro da bolha imobiliária não teria potência para provocar crise financeira internacional da magnitude da que ocorreu após a quebra do Lehman Brothers, em 2008, mas a desaceleração brusca que provocaria no crescimento econômico daquele país seria muito danosa para o Brasil. Afinal, a China é nosso maior parceiro comercial. Haveria queda das exportações brasileiras, aumento da percepção de risco soberano e pressões sobre a taxa de câmbio.

O negacionismo na saúde amplificou o número de vítimas da pandemia. Se se estender aos riscos econômicos, como as manifestações e ações do ministro Guedes sugerem, poderá provocar danos adicionais ao emprego e à renda dos brasileiros.


A índia e o cara-pálida

 Ruth de Aquino

O Globo

 | Oli Scarff/AFP

Na conferência do clima, Txai Suruí, 24 anos, 

pediu o fim das "emissões de promessas mentirosas". 

Bolsonaro a acusou de viajar "para atacar o Brasil" 

Poderia ter sido uma semana calamitosa para a imagem do Brasil na Europa se não surgisse uma jovem indígena no palco da conferência do clima das Nações Unidas, na Escócia. Com um discurso lido em inglês, poético e afiado como flecha, Txai Suruí, de 24 anos, foi aplaudida por mais de 120 chefes de estado.  

Essa moça bonita e articulada, de rosto pintado e traje tradicional, hoje estudante do último semestre de Direito, eclipsou a mais patética performance de um líder brasileiro no exterior. O cara-pálida foi ignorado na Itália como se nem fosse mais presidente de nada, ciscou pelos cantos sem companhia, pisou no pé de Angela Merkel e chamou o enviado americano John Kerry de Jim Carrey (“gim quérri”), ator de ‘O mentiroso’ e ‘Debi e Loide’, entre outros. Foi ridicularizado no mundo inteiro. Mereceu.

Felizmente, o Brasil não é só Bolsonaro. Precisamos repetir isso a nós mesmos para manter nossa autoestima em dia. Jamais nossa imagem esteve tão degradada quanto agora, percebo pessoalmente na Europa. A cada aparição do presidente – combatida por protestos de rua –, o sentimento de vergonha e pena se acentua. Peço a amigos brasileiros e europeus: não vamos falar desse cara-pálida. Faz mal à saúde.

Melhor pensar que somos a terra do pianista genial e imortal Nelson Freire, reverenciado dentro e fora do Brasil. Em vez de ter azia ouvindo Bolsonaro, escutei as rádios na França que reproduziram concertos de Freire interpretando Chopin e Débussy. Avassalador, sublime. “Gênio passional e discreto”, como disse o presidente francês Emmanuel Macron em comunicado oficial do Palácio do Eliseu, lamentando sua morte súbita e precoce.

Aproveitei para escutar essa indiazinha gigante do povo Suruí-Paiter, que quer dizer “gente de verdade”. “Temos ideias para adiar o fim do mundo”, disse Txai, numa referência ao livro do líder indígena Ailton Krenak. Ela fala tupi e vive em Rondônia numa área chamada Sete de Setembro. Seu pai é cacique e chegou a ser acusado de difamar o governo Bolsonaro nas redes. Sua mãe recebeu ameaças de morte por telefone e teve de se esconder por dois meses. Suas duas avós morreram de Covid. 

Um amigo de Txai, Ari Uru-Eu-Wau-Wau, foi encontrado morto com sinais de espancamento em abril do ano passado. No palco, Txai denunciou o assassinato de seu amigo, que lutava pela floresta, enquanto o mundo faz promessas longínquas para 2030 ou 2050.

“Meu povo vive há pelo menos 6 mil anos na Floresta Amazônica...Vamos frear as emissões de promessas mentirosas e irresponsáveis; vamos acabar com a poluição das palavras vazias, e vamos lutar por um futuro e um presente habitáveis”. Txai falou de utopia e sonhos. Tudo isso em dois minutos. Encantou.

O cara-pálida do Planalto, que nem foi a Glasgow por estar consciente de que o Brasil, isolado e pressionado, teria de assinar compromissos, recuar no desmatamento da Amazônia e enfiar a viola no saco, criticou em seu cercadinho a ida de Txai. “Levaram uma índia para lá, para substituir o Raoni, para atacar o Brasil”. 

Chora, Bolsonaro. O que lhe resta, como especulador, predador e desmatador, é o crime de tentar transformar Paraty, patrimônio mundial da Unesco, na Cancún brasileira. Tudo isso para se vingar da multa que sofreu por pesca ilegal. Não conseguirá aprovar. O projeto de lei de seu filho Flávio Bolsonaro é um feixe de desatinos inconstitucionais. Mais uma bomba na imagem internacional do Brasil.


PEC do Calote, uma ameaça a todo o País

 Editorial

O Estado de S. Paulo

Além de arrebentar o teto de gastos e facilitar a farra com dinheiro público, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios, se aprovada e posta em vigor, transformará o calote em direito constitucional – pelo menos o calote praticado pelo Tesouro da União. Será, talvez, a mais audaciosa reforma promovida pelo desgoverno do presidente Jair Bolsonaro. Além disso, poderá valer como vigorosa resposta a quem cobra do Executivo federal maior empenho reformista. Com essa mudança, argumentam o presidente e seus acólitos, o poder central terá dinheiro para o Auxílio Brasil, versão turbinada do programa Bolsa Família, e a política social será ampliada e reforçada. Já quem se opõe a essa transformação, diz o coro oficialista, pouco deve importar-se, portanto, com os brasileiros em pior situação.

Esse coro inclui o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente da Câmara, Arthur Lira, fidelíssimo, até agora, a seu grande eleitor para o cargo atual, o presidente Bolsonaro. Graças, em grande parte, ao esforço de Lira, 312 deputados, 4 além do mínimo necessário, votaram a favor da PEC dos Precatórios. Garantiram sua aprovação em primeiro turno, mas ainda faltaria enfrentar o segundo turno na Câmara e dois no Senado. Entre os senadores, segundo se calcula, a resistência ao projeto deve ser maior. Não se pode, no entanto, tratar essa proposta como algo normal e razoável.

Aprovada, a PEC dos Precatórios produzirá vários desastres. Ao converter o calote em direito constitucional, deformará o próprio conceito de precatório, até agora um crédito confirmado e protegido por sentença judicial. Ao retardar a liquidação desse crédito segundo sua conveniência, o Executivo imporá seus critérios a uma determinação do Judiciário. Além disso, uma âncora fiscal inscrita na Constituição, o teto de gastos, ficará subordinada a outro dispositivo constitucional, construído para atender às demandas do presidente e de seus associados. Também a noção de ordem constitucional se enfraquece, como valor, quando mudanças desse tipo – improvisadas e concebidas para servir às conveniências do momento – são aprovadas e inscritas no sistema básico de normas.

Ao desmoralizar uma âncora do sistema fiscal, o presidente e seu séquito, formado principalmente pelo fisiológico Centrão, fortalecem as dúvidas sobre o futuro das contas oficiais e passam um recado sinistro: atropelados os credores dos precatórios, restará alguma segurança para outros credores do governo? Que juros serão compatíveis com o risco de financiar o Tesouro?

Essas perguntas obviamente remetem a outras questões, como a conveniência de buscar segurança em outros mercados. Diante da nova ameaça ao teto de gastos, o dólar voltou a subir, prenunciando pressões inflacionárias mais fortes. O Banco Central já reiterou a disposição de promover um duro aperto, com juros altos, para conter os desajustes associados ao risco fiscal. Menor crescimento econômico e crise social prolongada são efeitos fáceis de prever.

Mas o ataque ao teto de gastos é defendido pelo presidente como condição para ajuda aos pobres. Há quem mencione também uma situação excepcional. São argumentos falsos. Haveria dinheiro, se outros gastos – com emendas de relator, por exemplo – fossem cortados. O auxílio emergencial aos mais necessitados em 2020 foi reduzido à metade em setembro de 2020 e extinto em janeiro. Cerca de 19 milhões de cidadãos foram jogados na miséria.

O auxílio voltou em abril, com menor valor e menor alcance e previsto para acabar antes do fim do ano. Prometeu-se ampliar o Bolsa Família, mas a extensão bastaria apenas para assimilação da fila de espera. Faltaria definir a situação de mais de 20 milhões de assistidos pela ajuda emergencial. Não há uma situação nova, mas um drama prolongado e agravado pela política inadequada. Violando o teto e os precatórios, Bolsonaro tentará conciliar a ajuda eleitoral aos pobres com a manutenção de dinheiro para sua base. O resto é conversa para quem acredita em terra plana.


A perigosa permanência do lavajatismo

 Notas & Informações

O Estado de S.Paulo

 Toda operação de investigação deve ter início, meio e fim. Em vez de efetividade, a eventual perpetuidade de uma operação revelaria sua ineficiência. O fim da Lava Jato não é, portanto, nenhum problema. Na verdade, depois de sete anos, com 80 fases realizadas, era passada a hora de a famosa operação acabar. Por óbvio, terminou a Lava Jato, mas isso não significa que o Estado passe a ser omisso na investigação de malfeitos e suspeitas de crime. Basta ver o que a CPI da Covid descobriu em relação a negociações de vacinas no entorno do Ministério da Saúde. Não pode haver impunidade.

A Lava Jato chegou ao fim, mas – eis ponto que merece ser destacado – continua existindo o que se pode chamar de espírito lavajatista. Segue viva uma específica mentalidade que vai muito além do princípio republicano de que todos são iguais perante a lei e, portanto, todos devem responder à luz da lei por seus atos. Partindo de uma ideia bastante discutível (com bons argumentos de apoio e outros de refutação) – a de que a corrupção seria o grande problema do País, causa e estímulo de todas as mazelas da vida nacional –, essa visão pretende justificar uma conclusão inteiramente antirrepublicana: a de que, para combater a corrupção, seria permitido e autorizado utilizar todos os meios disponíveis, também os ilegais.

Haveria uma guerra entre corruptos e heróis. E, nessa guerra, os heróis não poderiam ser privados de nenhum meio, uma vez que os corruptos são ardilosos, poderosos e incrivelmente capazes de se perpetuar.

Trata-se, a rigor, de um raciocínio profundamente incoerente. Para combater ilegalidades, seria possível cometer novas ilegalidades. Por óbvio, tal proposta desrespeita a Constituição, que exige fins adequados e meios igualmente adequados. Num Estado Democrático de Direito, os fins não justificam os meios.

No entanto, a mentalidade lavajatista (também seria possível chamá-la de jacobina) reveste-se de outras cores, mais sutis. Dificilmente alguém vai dizer, com todas as letras, que o Ministério Público deve, para combater a corrupção, cometer ilegalidades. A tática tem tons aparentemente civilizatórios, ou mesmo constitucionais. Por exemplo, em vez de pleitear a prática impune de ilegalidades, defende-se uma autonomia irrestrita do Ministério Público, a impedir qualquer controle sobre eventuais ilegalidades de procuradores. Sob o manto da autonomia, não haveria ato ilegal.

A tática ficou especialmente visível na tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 5/21, a respeito do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Note-se que o conselho já existe desde a reforma do Judiciário, com a Emenda Constitucional (EC) 45/2004. Ou seja, a PEC 5/21 não vinha criar um novo controle, mas apenas dar alguma efetividade ao que já existe. No entanto, valendo-se da mentalidade lavajatista, isto é, recorrendo à ideia de que o combate à corrupção exigiria procuradores inteiramente irresponsáveis sobre seus atos, setores do Ministério Público conseguiram inviabilizar o debate sobre o tema.

Em boa medida, a PEC 5/21 foi rejeitada pelo plenário da Câmara pelo modo atropelado com que a presidência da Casa tratou o assunto. No entanto, seria ingenuidade ignorar como procuradores e algumas entidades privadas de natureza associativa conseguiram impor, uma vez mais, a ideia de que controle sobre a legalidade dos atos do Ministério Público seria sinônimo de mais impunidade e menos efetividade investigativa.

É parte essencial das liberdades de pensamento e opinião que cada um possa eleger livremente o que considera ser o principal problema nacional. Exercendo sua autonomia individual, muitas pessoas veem a corrupção como o grande mal a ser combatido no País. Outra coisa, que causa muitos danos e injustiças – pois autoriza o uso arbitrário e abusivo do poder estatal –, é pretender que, em razão do juízo da gravidade sobre a corrupção, agentes da lei possam atuar impunemente fora da lei. Ninguém, nem mesmo o Ministério Público, está acima da lei.


Moro e Dallagnol

  Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

A entrada de Sergio Moro e Deltan Dallagnol na política tem suscitado dois tipos de interpretação.

Para a primeira, dos petistas, dos seus advogados, dos políticos processados e de juízes como Gilmar Mendes, uma turma só, o movimento demonstra que a Lava-Jato era desde sempre um partido político. Embora não seja a regra no Brasil, partidos devem ter programa. E qual seria o programa da Lava-Jato, segundo essa versão? Acabar com o PT, os políticos tradicionais e o Judiciário a eles ligados de algum modo.

E colocar o que no lugar?

Aí já é querer demais dessa tese e desse pessoal.

A segunda interpretação segue assim: Moro e Dallagnol acharam que a corrupção era o maior problema político do país. Isso mesmo: uma política feita à base de compra de favores do Estado e dos partidos não pode nunca representar a vontade do povo. Logo, combater a corrupção é, sim, uma ação política.

A Lava-Jato tentou isso pelas vias judiciais. E obteve grande sucesso. Ou por acaso nunca existiram R$ 54 milhões em dinheiro vivo num apartamento de Geddel Vieira Lima? Ou por acaso Antonio Palocci não devolveu milhões para os cofres públicos? Ou por acaso a Petrobras não recebeu de volta mais de R$ 6 bilhões, entregues pelos que a haviam roubado? E nem existia o departamento de propinas da Odebrecht, conforme confessaram seus donos e executivos?

Mas o pessoal da Lava-Jato não contava com a capacidade de reação da Corte de Brasília — como denomino esse conglomerado de políticos, membros variados do Judiciário, lobistas, donos de grandes empresas e, como se viu no episódio das compras de vacina no governo Bolsonaro, de um bando de picaretas de quinta categoria.

(Dia desses, depois de um artigo criticando essa Corte, recebi telefonema de um juiz do STF me perguntando: “Você acha que, por ser amigo de políticos, não tenho isenção para julgá-los”? Respondi: “Acho sim”. Ficou ofendido.)

Começou o persistente trabalho de desmonte não apenas da Lava-Jato, mas de todo o sistema de combate à corrupção, como o fim da prisão após condenação em segunda instância.

Nesse momento, Sergio Moro cometeu um grave erro de avaliação. Convidado pelo então presidente eleito Jair Bolsonaro para o Ministério da Justiça, fez uma série de exigências: controle do Coaf, que captava as operações financeiras suspeitas, autonomia total da Polícia Federal, cujos chefes ele, Moro, escolheria, e a proposta de numa legislação de combate à corrupção. A República de Curitiba se instalaria em Brasília.

Bolsonaro entregou tudo. Até dá para entender a tentação de Moro. Mas não dá para entender que acreditasse na palavra de Bolsonaro.

Atenção, não foi por falta de aviso, inclusive deste colunista. Em 27 de setembro de 2018, antes do segundo turno, publiquei aqui mesmo o artigo “Voto impossível”. Dizia: “Eleger Fernando Haddad é absolver Lula e condenar a Lava-Jato; eleger Bolsonaro é absolver o capitão da direita radical e populista e condenar a tolerância política e moral”.

Moro saiu a tempo do governo — e saiu atirando. Mas terá de falar disso durante toda campanha em que vier a entrar.

Dallagnol, não. Vai direto para uma provável candidatura a deputado federal.

Tudo considerado, os dois entenderam — e esta me parece a visão correta — que, se estavam sendo destruídos pela velha política, só restava um meio de defesa: entrar para a política partidária.

Sim, não basta entrar com a Lava-Jato. Precisam apresentar programas e propostas para o país, além do combate à corrupção, apesar de esse eixo ser fundamental.

Ou está certa essa descarada compra de votos para a aprovação da PEC dos Precatórios?

Aliás, Moro já fez uma boa intervenção: comentou, na revista Crusoé, que, depois de liquidar o combate à corrupção, o governo Bolsonaro e o Centrão de Artur Lira querem acabar com o Plano Real.

Lulistas chegaram a dizer que Moro não tem condições éticas de se candidatar. Mas acham que políticos condenados, réus e processados podem gastar o dinheiro público e fazer leis de “improbidade”.


Notório uso político de dados incorretos

 Notas & Informações

O Estado de S.Paulo

O governo do presidente Jair Bolsonaro tornou a desconfiança elemento necessário para os cidadãos avaliarem as informações divulgadas por órgãos e altos funcionários públicos federais, especialmente as mais celebradas pelas autoridades. Deliberadamente ou não, muitas dessas informações são ou podem estar erradas. É o caso dos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que o governo utilizou como propaganda para tentar esconder a dimensão da crise social e econômica. Sabe-se agora que os números exuberantes exibidos pelo presidente e por seu ministro da Economia, Paulo Guedes, para mostrar a rápida geração de empregos de qualidade no ano passado estavam errados. A realidade é bem menos brilhante do que a que o governo vinha mostrando. O saldo de empregos formais gerados em 2020 é praticamente a metade do que havia sido anunciado.

Após meses negando que tivesse havido subnotificação de contratações e demissões nos meses que se seguiram ao início da pandemia, o Ministério do Trabalho e Previdência afinal admitiu o que pesquisadores independentes já apontavam desde meados do ano passado. Os números estavam errados. A mudança de metodologia de coleta de dados (com o uso de informações do eSocial) juntou-se à crise que reduziu a atividade de muitas empresas, levou ao encerramento de atividades de outras e forçou boa parte delas a suspender o envio regular de informações mensais. Os dados do Caged ficaram desatualizados ou subnotificados. Daí a necessidade de sua revisão.

A revisão mostrou que a geração de emprego formal foi bem menor do que a anunciada. Em janeiro, o Ministério da Economia havia divulgado a criação líquida de 142.690 empregos formais em 2020. A revisão reduziu esse número para 75.883, 47% menor.

Meias-verdades, fatos descontextualizados e mentira pura e simples são tão frequentes em falas do presidente da República, seus filhos e assessores graduados, que parte do público parece protegida dos efeitos deletérios dessas práticas. Dados imprecisos ou incorretos processados por instituições públicas, porém, são mais raros.

Revisar dados econômicos não deveria ser evento político. Mas este governo transformou até estatísticas em instrumento de manipulação político-eleitoral. Não faz muito tempo, ao comentar os números do Caged, o ministro Paulo Guedes afirmou que o Brasil estava criando empregos “muito rapidamente”. E completava: “Estamos gerando praticamente 1 milhão de empregos a cada três meses e meio”.

Era óbvio o contraste entre os dados do Caged e os apurados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em sua Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, mostrando a existência de cerca de 13 milhões de desempregados e outros milhões de desalentados ou subocupados. Sem argumento técnico para explicar essa discrepância, Guedes disse que “o IBGE ainda está na idade da pedra lascada”. Felizmente, ao contrário do ministro, pesquisadores do mercado de trabalho responsáveis sabem onde buscar dados confiáveis.


A vilania climática de um certo capitão

 Carlos José Marques

Revista ISTOÉ

 (Crédito: Divulgação)


Não foi apenas a ausência que preencheu uma lacuna. O capitão Bolsonaro, que faltou (por medo, mesmo, e falta do que dizer) à COP-26, a mais importante conferência sobre o clima dos últimos tempos, converteu-se em objeto de desprezo internacional. Não somente o pária. Melhor classificá-lo de inimigo. O primeiro-ministro inglês, Boris Johnson, indagado abertamente no encontro sobre o que aconteceria caso o Brasil não cumprisse as metas previstas e acordadas na conferência, foi direto ao ponto: “temos meios comerciais de responder a qualquer país desobediente nesse sentido”. 

Todos sabem, não há nada de legítimo ou sério nas promessas firmadas pelo governo brasileiro para a redução total dos desmatamentos até 2030. Ao menos durante o período de duração da era Bolsonaro os esforços seguirão na direção contrária. Ele demonstra isso dia a dia. Não está nem aí para as intempéries do clima ou para as consequências dos desastres ambientais. Acha tudo uma grande bobagem. Os discursos dos participantes em Glasgow, cada um mais dramático que o outro, tratavam da ameaça da fome, da condenação de gerações futuras, do risco de conflitos globais, eventos relacionados ou impactados por um aumento de temperatura no planeta. Cada um dos líderes e especialistas das principais nações e praticamente todos os agentes globais que cuidam do assunto e importam estavam presentes. Menos, naturalmente, Bolsonaro. 

O Brasil segue na contramão do mundo, segregado, desgastado, após décadas protagonizando e comandando as discussões ambientais. Embora ansiosamente aguardado, não foi apresentado pela delegação verde-amarela qualquer plano efetivo de controle da devastação na Amazônia e Pantanal. A expectativa de o País ter uma estratégia consolidada para eliminar o problema da exploração ilegal na região foi frustrada. Chefes indígenas chegaram até a denunciar a guerra promovida pelo garimpo e a inércia das autoridades locais para colocar fim ao embate, fechando os olhos aos abusos. Em seu papel de mitômano habitual, durante os dias de “dolce far niente” passados na Itália, o capitão Bolsonaro resolveu voltar a mentir sobre as queimadas, distorcendo dados e fatos. Ninguém caiu na conversa. Na sua ignorância grotesca, quebrando com fundamentos basilares das relações internacionais, sem qualquer pragmatismo ou respeito às preocupações alheias, ele seguiu negando as evidências do desprezo que alimenta pela causa da preservação.

 No encontro do G-20, ao contrário dos demais chefes de Estado, demonstrando a política diplomática inepta e a falta de disposição para o diálogo, Bolsonaro foi um dos poucos a não ter reuniões agendadas com os demais líderes – à exceção daquela com o presidente italiano, Sergio Mattarella, que, como anfitrião, teve de receber a todos. O Messias “mito” dá, rotineiramente, provas da trágica extensão do isolamento ao qual submeteu o Brasil. Numa iniciativa paralela, coalizões de empresários e ONGs, além de governadores de Estado presentes à COP-26, tentaram salvar o País do completo fiasco. Levaram alternativas locais e independentes de combate aos crimes ambientais que foram bem recebidas. Tentaram adotar um tom propositivo, embora saibam não estarem totalmente descartadas as iniciativas punitivas contra países em desenvolvimento que, como o Brasil, romperem com as metas acertadas. E, no caso, estão conscientes, serão medidas no campo comercial. A pedalada climática que o governo Bolsonaro promoveu desde o ano passado — tentando empurrar para frente taxas de redução das emissões de gases — soou como alarme: enquanto o mundo havia reduzido as emissões em 7%, o Brasil seguiu subindo o nível, em um ritmo de 9% em 2020. Não foi por menos que se converteu no grande vilão da cúpula do clima. 

Uma vilania deliberadamente patrocinada pelo capitão. O mundo agora se pergunta com qual mecanismo as autoridades locais pretendem atingir a redução das emissões. O estrago na credibilidade está consolidado e o País deverá levar anos para conseguir ser encarado novamente de maneira positiva, sem as barbeiragens da figura tóxica do presidente, que tem destruído a reputação nacional além mares.

No cômputo geral da COP-26, uma promessa alvissareira sobressaiu: cerca de 100 países se comprometeram a fazer o possível para manter o aumento da temperatura da Terra em, no máximo, 1,5 graus Celsius. Qualquer coisa acima disso é tido como uma catástrofe a comprometer o futuro da humanidade. Por aqui, os efeitos de gases estufa lançados na atmosfera nos últimos dois anos praticamente dobraram. Na gestão de Bolsonaro a situação piorou até alcançar patamares críticos. Ao patrocinar o avanço do garimpo sobre terras indígenas e desmantelar por completo as agências fiscalizadoras do meio ambiente, ele deixou correr soltas as práticas de desmatamento, além das queimadas em profusão. A Amazônia teve um território, comparável ao tamanho dos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais juntos, completamente devastado. 

No ano passado, o Pantanal colecionou o maior número de focos de incêndio do século, enquanto o presidente, inerte e impassível, ignorava as consequências. Fauna e flora foram completamente destruídas enquanto o “mito” insistia em vender a ideia do Brasil como exemplo de preservação ambiental. Lorota das grandes. O que ainda está de pé não é por obra ou interferência sua. Mas da natureza privilegiada que o País detém. A retórica negacionista desse inquilino do Planalto, que nos impôs mais um vexame internacional, não pode ser maior que o compromisso e a crença dos brasileiros nos valores da preservação ambiental para a sobrevivência de nossos filhos e netos. A sua vilania terá fim e o bom-senso triunfará.


Em meio a 610 mil mortes apenas por Covid, por que Marília nos comove tanto

 Revista ISTOÉ 

Morre gente todos os dias. E como morre! Nos últimos quase dois anos aprendemos a contar diariamente o número de mortos por Covid. Nunca contamos a quantidade de mortos por, sei lá, atropelamento. É curiosa a seletividade humana.

  Reprodução / TV Globo

 Marilia Mendonça 

Estatisticamente falando, somos especialistas em óbitos. Sabemos quantas pessoas passam desta para uma melhor, todos anos, por causa de tabaco, acidente de trânsito, assassinatos e quaisquer motivos que valham estudos científicos.

Não acredito no Deus criador da Terra e do Universo. Nem mesmo no Deus criador da vida, e não faço diferença, nesse caso, de vida humana, selvagem, vegetal, marinha, unicelular ou o escambau. Viveu, tá vivo, pode morrer, tá valendo.

MORTE

Por isso não atribuo a Deus nem o culpo por nenhuma morte. Até porque, na boa, se há uma invenção mais maldita do que essa, eu desconheço. A separação de corpos – e de corações – que se amam é de uma crueldade insuportável.

Toda e qualquer morte nos choca, comove e causa algum tipo de dor, ainda que não seja tão fácil compreender e aceitar isso. Sim, porque somos todos mortais e, ao nos deparar com a realidade que nos espera, não saímos ilesos.

Ao nascer, o ser humano, dotado de consciência, inicia sua angustiante contagem regressiva de tempo de vida. E quanto mais racional o bicho-homem, menos crédulo em crendices, mais angústia a cada volta (ano) do relógio biológico.

DOR

Perdi minha mãe faz quase um ano. Apesar da idade avançada – dela e minha – não consigo passar um dia sem sofrer sua ausência, em alguma medida. Para além das relações, há um troço chamado proximidade. Quanto mais próximo, mais dor.

E proximidade não significa, necessariamente, parentesco ou amizade, por isso escrevi ‘para além das relações’. Ayrton Senna não era meu amigo, mas sofri sua morte miseravelmente, e assim também ocorreu quando morreram os Mamonas Assassinas.

O Selmo Geber, sim, era meu amigo. Muito mais do que isso! Faz quase dois meses que falta um tijolo na minha parede, já tão rachada e desgastada por 54 anos de uso intenso. Não dói como a minha mãe, claro, mas dói pra caramba; mais que o suportável.

MARÍLIA

Sinto muito pela vida que não terá a jovem cantora. Sinto muito pela dor que sua ausência trará aos fãs. Sinto muito pela saudade que sentirão seus parentes e familiares e também seus amigos mais próximos e queridos.

E como sinto muito, meu Deus (olha Ele aí!), pela criança que nem sequer chegou a saber o que é ser filha e ter uma mãe. Putz! Eu tive a melhor mãe que poderia desejar. Pobre dessa criaturinha de dois aninhos, pois não terá a sua.

Pronto. Tá aí! Formou-se o vínculo da tal proximidade, e agora sofro pela morte da moça. Em verdade, sofro pela vida da órfã. Como pai, não suporto pensar na dor da minha filha ao, um dia – e espero que muito distante! – me perder.

Meus sentimentos também ao caro Rabino Nissim Katri e toda sua família. Não têm sido dias fáceis para muita gente.


Mais do que sofrências, Marília Mendonça deixou uma libertação

  Julio Maria

O Estado de S. Paulo

 

Morre a cantora Marília Mendonça, aos 26 anos, após queda de avião

Marília Mendonça pode levar um tempo para ser entendida como algo maior do que a cantora que chegou às multidões de jovens consumidores da música sertaneja de sofrência. A tal sofrência, com ela, deixou de ser um estado de espírito para se tornar um gênero de massa, mas isso também seria reduzi-la. Ali havia mais do que um ponto importante na sequência temporal da modernização iniciada por Chitãozinho & Xororó nos anos 70, mantida por Zezé Di Camargo & Luciano nos 80 e 90 e, revista em sua escola de voz e em sua temática, muito mais sexualizada, pelas duplas que trouxeram o único gênero que não conhece crises para os anos 2000. Marília, para o bem e para o mal, fazia parte de uma transformação que o meio sertanejo demorou para entender e o meio não sertanejo sempre esteve pronto para alvejar.

Sua vida artística concentrada em dez anos, de 2011 a 2021, serviu, para além de turbinar hits estrondosos como Troca de Calçada, Me Ame Mais ou Esqueça-me se For Capaz, a sedimentar um conquista dos tempos ao mudar o eixo e projetar-se sobre um narrador homem de histórias machistas que já não era mais aceitável. Marília, transferindo para o canto feminino a mesma tradição da impostação exuberante do masculino, ou seja, falando de igual para igual, na cultura sertaneja, passou a dizer não. Não à objetificação histórica que a música brasileira dos sertões faz à mulher, não ao cancelamento do corpo feminino fora dos padrões, não à traição pela traição. Seu último trabalho, Patroas 35%, feito com Maiara & Maraisa, fala muito sobre isso. “É que eu vivo com alguém / Que não me dá motivos pra ficar com mais ninguém / Se eu pudesse ter dois corações, teria / Mas me cancela da sua vida / Porque em sã consciência eu não conseguiria.”

Ao mesmo tempo em que essa mulher apaixonada ainda está frágil, lá vem sua força mais visível em Você Não Manda em Mim. “Você não manda em mim / Eu sei aonde devo ir / Eu sei o que eu posso vestir / Se tudo que eu faço te incomoda / Você sabe o caminho da porta / Se um dia eu mudar pra te agradar / Eu juro que eu troco meu nome / Quer me ensinar a ser mulher / Primeiro aprende a ser homem.” Marília bloqueou homens abusivos em Troca de Calçada, desmascarou namorados falsos em Infiel e reconheceu as fraquezas de um amor confuso em Impasse. Ao escancarar sua vida, trouxe consigo a vida de brasileiras que jamais haviam sido representadas por uma música popular em uma escala tão grande. O que ela deixa não é a sofrência, mas a libertação.


Saiba quem foi Marília Mendonça, a voz feminina do sertanejo

 Revista ISTOÉ

Com informações Estadão Conteúdo

 (Crédito: Divulgação)

Marília Mendonça 

A cantora Marília Mendonça, morta nesta sexta-feira, 5, aos 26 anos, num desastre aéreo a bordo de um avião de pequeno porte em Caratinga, interior de Minas Gerais, deixou um legado relevante para a representação feminina no gênero musical sertanejo. Ela deixa seu filho pequeno Léo, de apenas dois anos.

Goiana de Cristianópolis, Marília começou sua carreira musical como compositora, escrevendo sucessos para duplas como Henrique & Juliano, João Neto & Frederico, Matheus & Kauan e Jorge e Matheus, além dos cantores Wesley Safadão e Cristiano Araújo, também morto prematuramente em um acidente aéreo, em 2015.

Foi apenas a partir de 2014, após emplacar várias músicas como Até Você Voltar, Cuida Bem Dela e É com Ela que Eu Estou, na voz de outros artistas, que Marília Mendonça se lançou como cantora em carreira solo.

Em 2015, a cantora despontou com o sucesso Infiel, uma das músicas mais executadas nas rádios brasileiras.

Se suas letras, mesmo aquelas compostas para vozes masculinas, já haviam dado indícios de uma postura mais feminina no sertanejo, foi em 2016, com Agora É Que São Elas, parceria de Marília Mendonça com Maiara & Maraisa, que ela se firmou como uma das principais vozes femininas do estilo. O trio continuaria lançando músicas em conjunto até 2020.

Desde então, Marília chegou a figurar, em 2019, como a artista brasileira mais ouvida em um ranking do YouTube, e a 13ª em todo o mundo.

Nesse mesmo ano, Marília venceu o Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Sertaneja por Todos os Cantos.

Em 2021, a cantora já havia lançado Nosso Amor Envelheceu, seu mais recente álbum solo.


Mario Frias, o Itamaraty e a morte de Nelson Freire

 Lauro Jardim

O Globo

Morreu  o maior pianista erudito do Brasil, Nelson Freire, e não houve qualquer manifestação do Secretário de Cultura, Mario Frias.

Já o Itamaraty ao menos manteve sua tradição de civilidade.

Emitiu uma nota oficial em que lamentou "a perda de um de seus maiores artistas, que engrandeceu a cultura brasileira no exterior" e destacou a "trajetória que o coloca entre os mais destacados pianistas de sua geração e entre os maiores músicos brasileiros de todos os tempos". 

Frias, aquele que não tinha ideia de quem foi Lina Bo Bardi, talvez não soubesse do mesmo modo a importância de Freire. 

 


Nelson Freire, uma questão de elegância

 Vladimir Safatle

El Pais

Elegância sempre foi vista como a proporção de quem pode fazer muito com pouco, assim como a leveza e facilidade dos movimentos. O toque único de Nelson Freire tinha exatamente essas qualidades

 MAT HENNEK 

Nelson Freire posa junto a um piano.

Em 1839, Chopin escreveu três curtas peças que apareceriam no ano seguinte em um método de piano com o nome de “Método dos métodos”, de Moschelles e Fétis. São peças que não duram mais do que duas páginas de partitura e passaram a posteridade como sendo os “Três estudos póstumos”. Costuma-se dizer que elas não teriam as dificuldades técnicas e exigências de virtuose de alguns dos estudos presentes nos dois livros anteriores, catalogados como opus 10 e opus 25. No entanto, a primeira dessas peças tem uma característica singular que produz uma dificuldade real para sua interpretação. Há muitas interpretações feitas, entre outros, pelos pianistas mais paradigmáticos que conhecemos (AlfredCortot, Arthur Rubinstein, Claudio Arrau, Samson François, Sviatoslav Richter), assim como várias interpretações de pianistas contemporâneos. Mas nem todas são igualmente bem sucedidas em dar forma musical aquilo que faz desse estudo um evento tão singular. E dentre essas, há uma interpretação que realiza a ideia musical do Estudo como nenhuma outra.

Antes de Chopin, os Estudos para piano eram exercícios para o desenvolvimento da habilidade técnica do pianista. Todo estudante ainda hoje se depara com tal literatura que estava disponível na época de Chopin: Czerny, Cramer, Clementi. Esses são apenas alguns dos nomes que vem à mente quando se trata de pensar na disciplina que um pianista deve internalizar para saber como se expressar musicalmente. O termo “disciplina” não está aqui por acaso, pois se trata de criar disposições corporais para dar forma a um legato, a uma intensidade fortíssima, como abrir e fechar os braços para encontrar o peso adequado de um arpeggio, como usar a força distinta de cada dedo para criar a coloratura expressiva da interpretação. Podemos não saber se uma indicação de pianíssimo em uma partitura indica ternura, solidão, tristeza ou quietude contemplativa, mas sabemos quais gestos corporais são necessários para o pianíssimo aparecer. Sei como meu corpo deve estar, de que parte do corpo deve vir o peso do toque. Neste sentido, a técnica pianística impõe claramente a construção de um corpo expressivo a partir da internalização de um sistema complexo de tempos, de gestos e de movimentos. O que não deixa de ter sua ironia: a sensibilidade musical é fruto de uma disciplina corporal, os sentimentos musicais estão enraizados nos gestos corporais.

Nesse sentido, não será uma das menores genialidades de Chopin ter transformado exercícios de desenvolvimento da técnica em música para concerto. Foi apenas com ele que os Estudos para piano se tornaram um gênero musical. Depois de Chopin, vieram vários outros (Liszt, Debussy, Scriabin) e até hoje forma-Estudo aparece a compositores como um gênero vivo, haja vista os Estudos de contemporâneos como Ligeti, Dusapin ou Glass.

No entanto, há de se lembrar como uma das condições para Chopin fazer de meros exercícios um verdadeiro gênero musical foi entender que corpo é construído, na verdade por ímpeto, por impulso, por desequilíbrio, por multiplicação. Suas peças têm, em muitos casos, a capacidade de confrontar o corpo com seus limites, em alguns casos, fazê-lo procurar a exaustão, em outros recuperar o peso diferenciado dos dedos para que os toques extraíssem camadas de sonoridade até então indiferenciadas. Isso a ponto de um pianista e teórico, Charles Rosen, ver-se obrigado a dizer: “nos Estudos de Chopin, o momento de maior tensão emocional é geralmente aquele que a mão é alongada da maneira mais dolorosa, de maneira que a sensação muscular se transforme – mesmo sem o som – em uma mimesis da paixão”.

Mas havíamos começado falando de um estudo específico, esse que abriria a sequência dos últimos três estudos compostos por Chopin. E havíamos falado de uma interpretação específica.

Esse estudo deve ser especificado porque sua ideia de base é um problema que não poderia deixar de nos interrogar de diversas formas. Ele poderia ser descrito da seguinte maneira : “como fazer o mesmo corpo habitar, simultaneamente, dois tempos diferentes”, como deixá-lo ser atravessado pela simultaneidade de dois tempos. Scott Fitzgerald escreveu um dia: “o teste de uma inteligência superior é a capacidade de manter duas ideias opostas na mente ao mesmo tempo e ainda conservar a capacidade de funcionar”. Para conseguir tocar bem esse Estudo é necessário manter duas ideias opostas na mente e continuar funcionando.

Notemos, por exemplo, como essa peça de Chopin é construída a partir de uma dupla estrutura simultânea. Os quatro primeiros compassos apresentam uma divisão do tempo 2/2 em duas tercinas de semínima a serem tocadas pela mão direita. Os quatro compassos seguintes levam a mão esquerda a se acostumar à divisão do mesmo tempo em oito colcheias. Do nono compasso em diante, toda a peça será a sobreposição entre o tempo de seis semínimas da mão direita e o tempo de oito colcheias da mão esquerda.

Ou seja, a mão esquerda “conta” o tempo em dois grupos de três, a mão direita “conta” em dois grupos de quatro, como se houvesse duas formas de cortar o mesmo espaço que se desdobram simultaneamente. Tanto é assim que, com uma única exceção, a peça toda é composta com notas do mesmo valor, como se fosse o caso de produzir uma continuidade temporal em forma de fluxo. Com isto, a peça consegue criar uma espécie de equilíbrio sob o fundo de desequilíbrio. Como se a função determinante do Estudo fosse levar o intérprete a viver em dissociação, sem com isto perder a capacidade de produzir a impressão de se estar no interior de uma duração. Uma duração sob o fundo de dissociação, na qual é impossível contar, pois há duas contas sendo feitas simultaneamente.

Esse problema musical, vinculado ao uso da poliritmia, foi interpretado de várias formas. Há interpretes que darão um andamento acelerado à peça reforçando a melodia da mão direita, como se tentassem apagar a dissociação. Há aqueles, como Alfred Cortot, que acharão por bem destacar as dinâmicas internas das frases melódicas, sublinhando suas intonações através de rubatos e todo um sistema de pequenos atrasos e acelerações. Claudio Arrau chegará a fortalecer a expressão acelerando e desacelerando o tempo. Outros, como Samson François, irão privilegiar um toque homogêneo. Haverá ainda os que fortalecerão em demasia os crescendo e os contrastes, colocando muitas vezes na mão esquerda no nível da mão direita.

Mas há duas que são absolutamente geniais, por razões distintas. A primeira é de Arthur Rubinstein pela sua capacidade de, ao mesmo tempo, preservar a regularidade e ouvir as intonações, de não crescer nos ostinatos mas a fim de, paradoxalmente, trabalhar a intensidade, criando assim uma repetição que parece lutar contra seu próprio desfalecimento.

A outra interpretação genial nos foi deixada por Nelson Freire, pela sua definição em ato do que significa elegância. Ela recusou todas as saídas pela intensificação dos meios sem efetivamente se privar de nenhum. Há rubatos, mas eles são contidos, há o desenho claro das frases e entonações, mas eles também são contidos. Há a segurança de apresentar a frases em sua clareza, mesmo sabendo que a mão esquerda não está servindo de acompanhamento, pois está a insistir em outro tempo. Recusando todas as outras saídas, ela parece simplesmente encontrar a interpretação “a mais natural”.

Elegância sempre foi vista como a proporção de quem pode fazer muito com pouco, assim como a leveza e facilidade dos movimentos. O toque único de Nelson Freire tinha exatamente essas qualidades. Pois isso, ele parecia se afirmar sem precisar fazer esforço para ser notado. Ele lembra um país que em certo momento acreditou na força de não ter que mostrar força para fazer ouvir uma singularidade. Essa era uma pequena homenagem não apenas a um pianista, mas a alguém que representava toda uma maneira de fazer música.


Nelson Freire era o Brasil que deu certo

 Marcos Strecker

Revista ISTOÉ 

A morte do pianista Nelson Freire nesse momento comove não apenas pelo desaparecimento de um dos grandes nomes da música erudita mundial. É também uma lembrança dolorosa de que o País, em época de guerra civil, ainda é capaz de produzir gênios da raça.

O artista era um representante do Brasil da contenção, da discrição. Quem assistiu ao excelente documentário “Nelson Freire” (2003), de João Moreira Salles, viu um artista circunspecto que extraía a potência de suas performances de seu silêncio e sua intimidade.

Por definição, o ofício de pianista exige disciplina, foco e incontáveis horas de prática. Não é possível virar um virtuoso sem muito suor, longe das câmeras.  Esse trabalho solitário combinava com a personalidade de Freire, que refletia não apenas a exuberância cosmopolita do Rio (onde morava), mas também a antiga cultura do interior do País (nasceu em Boa Esperança, em Minas Gerais), que valorizava a educação musical nas casas de família e gerou grandes talentos do piano e também do violão.

Tudo isso desapareceu com a urbanização e com uma espécie de mudança de caráter do País, que nos últimos anos ganhou ares de tragédia.

O cinismo hedonista suplantou a genialidade contida. O Brasil atual, em sintonia com a explosão das redes sociais e da comunicação digital, não valoriza a virtude low profile, mas a ostentação e a estridência popularesca.

A própria música erudita parece deslocada em um momento em que a arte engajada e o ativismo político e identitário abafam a voz comedida e insultam o recato. O pianista é um símbolo da dignidade perdida. Representa o Brasil que deu certo, mas não se reconhece mais.


Especialistas apontam caminhos para recuperar a educação do país

 Revista ISTOÉ

 

G1 - Globo

Brasil melhora acesso à escola, mas ainda precisa 

superar desigualdade, aponta OCDE |

Especialistas participantes de audiência pública promovida hoje (5) pelo Senado apontaram alguns caminhos que poderão ajudar o país a superar os efeitos perversos da pandemia da covid-19 na educação do país. Na avaliação dos expositores, as deficiências acumuladas mostram não só a desigualdade no ensino do país, mas a necessidade de inclusão social e de revisão do formato adotado para aprendizagem.

Na avaliação da diretora-geral do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Cláudia Costin, antes de tudo é necessário ao poder público, às famílias e a todos envolvidos no processo educativo do país, desenvolver o “sentido de urgência” no resgate das aprendizagens perdidas.

“Vamos parar de mascarar a realidade. Sim, muitas aprendizagens foram perdidas em um ano e meio de escolas fechadas”, alertou a diretora da FGV. Ela acredita que todas as aprendizagens podem ser resgatadas. “Mas isso requer esforços”.

Segundo Cláudia Costin, um passo importante a ser dado é o de tornar as escolas “espaços de aprendizagem colaborativa e de planejamento colaborativo”. 

“Professor aprende mais com outro professor”, disse, enfatizando que isso só será possível se o país “acabar com essa história de professores darem aulas em três ou quatro escolas diferentes”, o que, para ela, inviabiliza o foco na solução dos problemas nas instituições de ensino.

Tempo integral

Cláudia Costin foi enfática ao defender que as escolas passem a funcionar em tempo integral e em turno único, a exemplo do que já é praticado em vários outros países. “Aulas se dão em turno único de até 9 horas. Precisamos avançar nessa direção, com professores tendo dedicação exclusiva a uma única escola, de forma a não ficarem rodando em escolas. Professores precisam de tempo para um certo estudo dirigido e para uma certa orientação àqueles alunos que não têm ambiente em casa para recuperar a aprendizagem”.

Ela disse que as salas de leitura tendem, a partir das constatações nesses tempos de pandemia, a serem mais do que bibliotecas, transformando-se em espaços de multimédia. “Laboratórios equipados, porque não há como ter ensino significativo sem experimentação”, defende.

A diretora da FGV ressaltou que a defesa do ensino integral é ainda mais fundamental se for levado em conta que a educação brasileira não estava bem antes mesmo de a pandemia chegar, em especial com relação à alfabetização. Segundo ela, “54,73% dos estudantes acima dos 8 anos estão em níveis insuficientes de leitura, o que indica que provavelmente a abordagem, embora bonita e poética, não estava dando certo”.

“Além disso, apenas 10,8% dos jovens do terceiro ano do ensino médio aprenderam o suficiente em matemática; e 37,1% em português. Metade dos jovens brasileiros de 15 anos não têm nível básico em proficiência em leitura e interpretação de texto, o que é fundamental para qualquer profissão e para o exercício da cidadania”, acrescentou. E defendeu que não basta melhorar a aprendizagem, mas que “é importante que a desigualdade educacional brasileira, que já é muito grande, não cresça mais ainda, mas que diminua”.

Cultura digital

Cláudia Costin lembra que a “cultura digital” já vinha sendo trabalhada por vários países antes mesmo da pandemia. “Nesse sentido, a pandemia serviu de acelerador aqui no Brasil e acabou entrando na base nacional docente. O ensino híbrido também trouxe algumas aprendizagens importantes, apesar de não ser perfeito ainda”, disse.

A professora defende que educadores trabalhem o protagonismo do aluno, ensinando que é ele [o aluno] o “empreendedor da própria vida, além de um portador de sonhos”, e que o que ele aprende na escola “é fundamental para a construção do seu projeto de vida”.

“O aluno tem de ser formado para uma autonomia em que ele se sinta não alguém que deva se beneficiar de dependência, mas um ser independente e, ao mesmo tempo, solidário e colaborador para uma cidadania global. Nesse sentido, vai haver uma transformação importante na profissão de professor, inclusive com relação a um ensino híbrido”.

Nesse formato, ela disse que o professor pode preparar vídeos ou selecionar “entre os professores youtubers da internet” vídeos com os conceitos a serem ensinados.

“Ele então usa o melhor do seu talento na sala de aula – e no conceito de sala de aula invertida – para ensinar o aluno a aplicar esses conceitos que aprendeu em situações de realidade. Nesse sentido, o professor vai deixar de ser percebido como mero fornecedor de aulas expositivas e ser cada vez mais um assegurador de aprendizagem”, acrescenta.

Avanços e otimismo

Cláudia Costin disse que alguns avanços foram obtidos na história recente do país, o que, segundo ela, pode ser visto com otimismo. “Não há só dados de copo meio vazio. Há dados de copo meio cheio também. Houve avanços no Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica], índice que mede a qualidade da educação no fundamental 1 a cada edição do Saeb [Sistema de Avaliação da Educação Básica] desde 2005. A gente vem melhorando, ainda que em um ritmo que eu gostaria que fosse mais acelerado”, disse.

Ela acrescenta que no fundamental 2 o país apresentou melhoras nas últimas cinco edições. “E na edição de 2019 demos um salto no ensino médio. Melhoramos por dois motivos. Um deles, por causa das melhoras que foram sendo progressivamente introduzidas no ensino fundamental”, disse e citou medidas como a de colocar um ano a mais no fundamental e a de passar a aliar a aprendizagem com outras medidas. “A expansão das escolas em vários estados também ajudou a melhorar”.

A especialista disse que o país está em um “patamar baixo” no ensino médio, já que nem todos conseguem acessá-lo ou concluí-lo. Ela, no entanto, vê alguns sinais positivos com relação a essa etapa de aprendizagem. “Em 2020, por exemplo, 69% dos jovens de 19 anos tinham concluído o ensino médio, o que é uma evolução na comparação com 2012, quando eram apenas 52%”.

 Rede CpE

Especialista aponta caminho para melhoria de índices de alfabetização

Diagnósticos

A especialista em gestão escolar Shirley Ana Dutra corroborou com as avaliações feitas pela diretora da FGV, em especial no sentido de que a desigualdade social foi determinante para a forma como a pandemia afetou as pessoas, o que levou à necessidade de se “reinventar e descobrir novos caminhos” para a educação brasileira.

Para tanto, ela disse ser necessária a preparação de um diagnóstico sobre como professores e alunos estão nesse momento de retorno às escolas. “Esse diagnóstico é determinante para o novo fazer pedagógico”, disse.

“Diante dessas situações [decorrentes da pandemia], estamos todos doentes emocionais. É uma carga emocional muito forte, que poucos conseguem carregar em meio a tantas mudanças abruptas e inesperadas”, disse. “Mas os professores da rede pública são muito criativos e têm habilidade fora do comum. Mas precisamos cuidar do professor, assim como precisamos cuidar dos alunos”, acrescentou.

Shirley Dutra avalia que “mais do que nunca a educação está defasada em todos os sentidos: tecnologicamente, sem recursos e sem humanização. Vimos, no decorrer da pandemia, o quanto nossos alunos não conseguem se manter sozinhos fora da escola. E vimos o quanto a presença do professor é essencial”.

“Nossos alunos foram atingidos pelo déficit de aprendizagem e também de alimentação. Isso é real! Foram atingidos pela falta do convívio social e por problemas de saúde física, mental e emocional, que contribuem ainda mais para outras crises, como a da saúde, porque hoje professor e aluno estão adoecidos, e o sistema de saúde não tem como atender. Professores do DF [Distrito Federal], por exemplo, sequer têm plano de saúde. Então estão sem acompanhamento. É uma realidade muito triste”.

Orçamento

O presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Luiz Miguel Martins, disse que os desafios para a retomada das aulas presenciais de maneira híbrida, e para a adoção de medidas visando a superação das deficiências acumuladas, envolvem “bilhões em orçamentos que não são cumpridos e a implementação do Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação]”.

“Precisamos discutir a aprovação do Sistema Nacional de Educação, que é fundamental, e o cumprimento das metas e estratégias dos planos decenais. E, de fato, é um absurdo e desumano aceitar jornadas de mais de 60 horas para professores”, defende.