Adelson Elias Vasconcellos
Ontem, o Ministério da Justiça e o governo do Estado de São Paulo sentaram-se para firmar uma parceria no sentido de se colocar um ponto final nesta crescente, repentina e inexplicável (pelo menos na aparência) onde de violência que assolou São Paulo em vésperas de eleição municipal.
Fizeram bem. Antes das subterrâneas questões políticas, é preciso resguardar a vida e a segurança das pessoas, que vivem quase que os mesmos sobressaltos que afligiu o estado em 2006.
Claro que, conforme vimos nesta edição, o governo de Dona Dilma, conseguiu a proeza de reduzir em mais de 20% os gastos previstos em orçamento com segurança pública. Claro que a atitude delinquente do senhor Cardozo, ministro da Justiça, ao negar pedido de ajuda feito pelo governo paulista, e nos termos em que se referiu, é inadmissível e, fosse este um governo sério, o senhor Cardozo, com sua atitude estúpida, mereceria o olho da rua.
Nesta semana, reproduzimos aqui os presentinhos que o mesmo ministro entregou de bandeja ao governo do Rio de Janeiro. Não que aquele estado ou outra unidade qualquer da federação não necessitasse dos “brindes”. Mas é um despautério agir com dois pesos e duas medidas, quanto mais quando é a vida dos cidadãos brasileiros que está em jogo.
Claro, também, que apesar desta onda intempestiva de violência, São Paulo consegue ainda exibir números que deveriam servir de exemplo para todo o país. Conseguiu a façanha de reduzir a violência a níveis aceitáveis e compatíveis com os índices de países desenvolvidos. Mas deveria ter sido mais decisivo na busca da ajuda federal. Deveria ter denunciado o ministro da Justiça quando este negou a ajuda pleiteada e na forma como o fez.
Claro que os presídios paulistas poderiam estar menos lotados se os criminosos federais estivessem trancafiados nas prisões federais.
A reação bandida da criminalidade em São Paulo também deve ser vista pelo seu lado positivo: a ação das forças policiais paulistas não deram trégua nos últimos anos. E apenas por que lá se prende mais bandidos do que em qualquer estado do pais, é que foi possível reduzir com tamanha eficiência a criminalidade.
Tudo isso é sabido, é de conhecimento público. Mas a onda criminosa que assistimos neste 2012, guarda algumas características próprias que não foi percebida em 2006, por exemplo. Por que os criminosos estariam preferindo executar policiais, militares ou civis, com a facilidade como ora acontece?
Digam: qual o poder de informação que bandidos podem ter para encontrarem policiais até fora do serviço e em frente de suas residências para executá-los com tamanha facilidade? De onde estão partindo as “dicas” sobre as vidas pessoais dos executados? Não se venha alegar ser apenas fruto da coincidência a execução sumária de cerca de 100 policiais em tão curto espaço de tempo. Quem está “facilitando” tais informações?
Se a parceria firmada hoje entre governos federal e estadual quiser de fato chegar ao ponto inicial destes assassinatos em série, devem levar em conta que as informações “estratégicas” ou foram “vendidas” ao crime organizado, ou estão sendo vazadas de dentro dos próprios órgãos.
Poderemos encontrar até outras causas, origens e culpas, mas não dá para se afastar de que há, sim, um movimento interno na própria corporação que está repassando informações pessoais sobre policiais, seu modo de vida, seus endereços, suas rotinas, seus dias de folgas, lugares que frequentam, etc.
Este é o ponto. É este “algo” que está fora do lugar e para a qual se deve centrar parte das investigações. Não se pode aceitar que o comando do crime, cujos chefes mais importantes estão trancafiados, possam obter dentro dos presídios informações pessoais sobre policiais que estão fora dali. Ou parte deste crime organizado tem alguma forma de infiltração para assim obter dados sigilosos, ou alguém dentro da corporação está repassando tais dados para a bandidagem com o propósito específico não apenas de desafiar as ações de segurança pública, mas constrangê-las e jogar no lixo sua credibilidade junto à população.
Entendo até que o governo paulista tenha sido reticente em solicitar a ajuda federal justamente por fazer a mesma leitura. Seja como for, este movimento, esta onda desproporcional de homicídios em um determinado período e contra policiais civis e militares, e circunscrita apenas ao estado que exibe os melhores índices de combate à criminalidade, tem explicações específicas e que não se enquadram apenas a atos de retaliação e vingança.
Vamos ver se a parceria será capaz de devolver à São Paulo o estágio de segurança anterior a esta onda. Talvez até por conta da participação de forças federais, haja um recuo no número de execuções. Mas a pergunta permanecerá em aberto: por quais caminhos as informações pessoais de policiais seguiram até chegarem aos criminosos?

