quarta-feira, novembro 07, 2012

Violência em São Paulo: tem algo fora do lugar


Adelson Elias Vasconcellos

Ontem, o Ministério da Justiça e o governo do Estado de São Paulo sentaram-se para firmar uma parceria no sentido de se colocar um ponto final nesta crescente, repentina e inexplicável (pelo menos na aparência) onde de violência que assolou São Paulo em vésperas de eleição municipal.

Fizeram bem. Antes das subterrâneas questões políticas, é preciso resguardar a vida e a segurança das pessoas, que vivem quase que os mesmos sobressaltos que afligiu o estado em 2006. 

Claro que, conforme vimos nesta edição, o governo de Dona Dilma, conseguiu a proeza de reduzir em mais de 20% os gastos previstos em orçamento com segurança pública.   Claro que a atitude delinquente do senhor Cardozo, ministro da Justiça, ao negar pedido de ajuda feito pelo governo paulista, e nos termos em que se referiu, é inadmissível e, fosse este um governo sério, o senhor Cardozo, com sua atitude estúpida, mereceria o olho da rua. 

Nesta semana, reproduzimos aqui os presentinhos que o mesmo ministro entregou de bandeja ao governo do Rio de Janeiro. Não que aquele estado ou outra unidade qualquer da federação não necessitasse dos “brindes”. Mas é um despautério agir com dois pesos e duas medidas, quanto mais quando é a vida dos cidadãos brasileiros que está em jogo.

Claro, também, que apesar desta onda intempestiva de violência, São Paulo consegue ainda exibir números que deveriam servir de exemplo para todo o país. Conseguiu a façanha de reduzir a violência a níveis aceitáveis e compatíveis com os índices de países desenvolvidos. Mas deveria ter sido mais decisivo na busca da ajuda federal. Deveria ter denunciado o ministro da Justiça quando este negou a ajuda pleiteada e na forma como o fez. 

Claro que os presídios paulistas poderiam estar menos lotados se os criminosos federais estivessem trancafiados nas prisões federais. 

A reação bandida da criminalidade em São Paulo também deve ser vista pelo seu lado positivo: a ação das forças policiais paulistas não deram trégua nos últimos anos. E apenas por que lá se prende mais bandidos do que em qualquer estado do pais, é que foi possível reduzir com tamanha eficiência a criminalidade.

Tudo isso é sabido, é de conhecimento público. Mas a onda criminosa que assistimos neste 2012, guarda algumas características próprias que não foi percebida em 2006, por exemplo. Por que os criminosos estariam preferindo executar policiais, militares ou civis, com a facilidade como ora acontece?

Digam: qual o poder de informação que bandidos podem ter para encontrarem policiais até fora do serviço e em frente de suas residências para executá-los com tamanha facilidade? De onde estão partindo as “dicas” sobre as vidas pessoais dos executados? Não se venha alegar ser apenas fruto da coincidência a execução sumária de cerca de 100 policiais  em tão curto espaço de tempo. Quem está “facilitando” tais informações?

Se a parceria firmada hoje entre governos federal e estadual quiser de fato chegar ao ponto inicial destes assassinatos em série, devem levar em conta que as informações “estratégicas” ou foram “vendidas” ao crime organizado, ou estão sendo vazadas de dentro dos próprios órgãos. 

Poderemos encontrar até outras causas, origens e culpas, mas não dá para se afastar de que há,  sim, um movimento interno na própria corporação que está repassando informações pessoais sobre policiais, seu modo de vida, seus endereços, suas rotinas, seus dias de folgas, lugares que frequentam, etc. 

Este é o ponto. É este “algo” que está fora do lugar e para a qual se deve centrar parte das investigações. Não se pode aceitar que o comando do crime, cujos chefes mais importantes estão trancafiados, possam obter dentro dos presídios informações pessoais sobre policiais que estão fora dali. Ou parte deste crime organizado tem alguma forma de infiltração para assim obter dados sigilosos, ou alguém dentro da corporação está repassando tais dados para a bandidagem com o propósito específico não apenas de desafiar as ações de segurança pública, mas constrangê-las e jogar no lixo sua credibilidade junto à população.

Entendo até que o governo paulista tenha sido reticente em solicitar a ajuda federal justamente por fazer a mesma leitura.  Seja como for, este movimento, esta onda desproporcional de homicídios em um determinado período e contra policiais civis e militares,  e circunscrita apenas ao estado que exibe os melhores índices de combate à criminalidade, tem explicações específicas e que não se enquadram apenas  a atos de retaliação e vingança. 

Vamos ver se a parceria será capaz de devolver à São Paulo o estágio de segurança anterior a esta onda. Talvez até por conta da participação de forças federais, haja um recuo no número de execuções. Mas a pergunta permanecerá em aberto: por quais caminhos as informações pessoais de policiais seguiram até chegarem aos criminosos?  

O Brasil e o rabo de cavalo


Adelson Elias Vasconcellos

Não há desenvolvimento num ambiente de negócios sofrível como o brasileiro.

Nesta edição e nas anteriores,  reproduzimos matérias diversas que, se não esgotam completamente o tema, pelo menos, traçam um perfil sólido sobre o péssimo ambiente de negócios que o Brasil oferece para quem deseja investir em empreendimentos produtivos.

Chega a ser incompreensível que um país rico, que poderia oferecer uma qualidade de vida invejável aos seus cidadãos, seja tão pobre em criar condições para que se possa atingir este estágio de excelência.

Não se diga que o brasileiro é vagabundo, preguiçoso, que é desinteressado. Pelo contrário, diante das más condições que o poder público oferece, nós ainda conseguimos driblar as dificuldades todas para nos colocarmos em patamar até razoável quando o assunto é empreendedorismo. E só não avançamos mais, não nos tornamos uma nação mais próspera e mais justa, em razão de um poder público que envergonha a qualquer um.

Somos um dos países que mais impostos recolhem e, contudo, os serviços que são ofertados aos seus cidadãos são de quinta categoria. Projetos e programas fantásticos são festejados no ato de seus lançamentos e, entretanto, só serão lembrados de forma cafajeste às vésperas de novas eleições. Passada a festa da vitória, empossados os eleitos, ao se fazer porém um balanço do que efetivamente foi feito, do que foi concluído, o saldo é lastimável. Um dos programas que andaram bem quando lançado no governo FHC, Luz no Campo, foi encampado por Lula, mudou de nome, foi feito muita festa, muita propaganda, muito marketing cretino e, no entanto, tem gente que espera a luz há mais de oito anos e não sabe quando poderá usufruir deste direito. Estradas, conforme vimos aqui na semana passada, não passam de verdadeiros buracos e poeira que aparecem asfaltadas apenas nas propagandas eleitorais do governo. Casas populares que ficam pelo meio do caminho que abrigam apenas drogados.  Sequer o leite das crianças está livre da ganância e da propensão ao crime que reveste o mau caráter  da imensa maioria de nossos políticos. Falta honestidade de todo o tipo ao poder público. Não passam de choldra de vigaristas e larápios. A mentira, a mistificação, a empulhação se tornaram instrumentos de poder onde o roubo descarado de recursos públicos, desviando-os de sua finalidade que deveria ser nobre e coletiva, tornou-se  propriedade particular nas mãos de uma casta política e de uma elite estatal que escravizam, exploram e roubam milhões de pobres e miseráveis.

E, nesta edição também, temos ali as condições que o poder público oferece para aqueles que se aventuram em investir no Brasil. Carga tributária que é verdadeiro atentado. Burocracia burra, ignorante, atrasada e estúpida. Não há uma única medida que se possa apontar capaz de desobstruir as imensas barreiras colocadas no caminho de investidores, que não seja da exclusiva responsabilidade do poder público.  Não há uma única repartição onde a pilhagem ao Erário não provoque milhões de prejuízos. A corrupção tomou assento na vida pública, e corrói riquezas e trabalho, sufocando o país. Não há um só canto do poder público brasileiro que resista a cinco minutos de uma investigação séria. E, no entanto, são os ladrões de margarina que vão presos. Riquezas são construídas à margem da lei, patrimônios são multiplicados nos subterrâneos do poder em negociatas vergonhosas e espúrias, e dali não se vê um único cafajeste condenado, preso, e obrigado a ressarcir os cofres públicos dos bens tomados a mão grande. 

Abrir uma empresa no Brasil tornou-se um imenso calvário de padecimentos. E, mesmo que se vençam todas as barreiras, para sobreviver ou o empresário se alia à podridão reinante no poder público, ou será expurgado como ente indigesto. 

O Brasil só não quebra dada sua imensa riqueza. Dependesse de seus dirigentes políticos, e viveríamos nas trevas da ignorância eternamente  – da qual não estamos muito longe -  e sob o tacão da escravidão – para a qual falta muito pouco. 

Mente-se desbragadamente que vivemos uma era próspera, de pleno emprego. No entanto, e vimos aqui, o mesmo instituto que indica esta era com pleno emprego,  se vê obrigado a apontar a existência de  cerca de 66 milhões de brasileiros  que simplesmente desistiram de procurar trabalho. Um em cada cinco  jovens na faixa de 18 a 25 anos nem trabalha tampouco estuda. O que se pode esperar no futuro?

Fala-se em modernidade, contudo, o país não está livre dos apagões: apagões de mão de obra, de energia (sim, eles ainda estão presentes no nosso dia a dia), apagão aéreo, apagão de infraestrutura, apagão de educação (sem qualidade de ensino não há povo que se desenvolva), apagão de combustíveis (incrível!), apagão de costumes, de justiça, de segurança, apagão na saúde, apagão na segurança jurídica indispensável para qualquer ambiente favorável aos negócios e investimentos, e até estes, os investimentos, estão se tornando raridade por aqui. 

Enfim, somos um Brasil andando sem rumo, sem objetivos, sem ponto de chegada, movido apenas na base da mentira, da farsa, da criminalidade impune, do assalto diário aos recursos públicos,  sustentando uma imensa corja de políticos sem moral, e de uma casta estatal ignóbil, colonizadora, escravagista e vadia. Enquanto o país for comandado e desgovernado por este bando organizado para o crime, infelizmente não haverá jeito de sairmos da mediocridade.  Estamos vivendo, fartamente, e com toda a imensidade possível, a república dos canalhas. Dizem que o gigante adormecido despertou. Acho que depois que viu quem governa este país, embarcou num primeiro voo para fora daqui, e com passagem só de ida.  

Uma coisa, contudo, podemos ter certeza: dona Dilma não é e acho que jamais conseguirá ser a excepcional gerente com que seu perfil foi vendido ao país. Seu governo é ruim, é inepto, é incapaz, é inconsequente.  A imprensa informou  que a soberana teria se reunido ontem em Brasília com algumas cabeças coroadas da república para tratar de conchavos para a sua reeleição em 2014. Porém, antes de pensar em se reeleger, seria importante que ela começasse a governar o país. Metade de seu mandato se revelou, até agora, como absolutamente inútil. Todos os problemas que havia em janeiro de 2011 permanecem inalterados. E em alguns aspectos, as perspectivas são as piores possíveis. Há retrocesso em todas as frentes. Assim, antes de pensar em outubro de 2014, que tal se a divina soberana pensasse em janeiro de 2013 e o que fazer a partir daí com o seu governo???!!! 

Porque, convenhamos, com “isso aí” que tem sido o seu desgoverno, não há jeito do país deixar de ser uma república de pródigos canalhas e incompetentes.  A crítica pode parecer dura e é. Não é possível ser menos com um governo que triturou metade de seu mandato em administrar a herança maldita que recebeu, e em armar verdadeiras bombas relógios para o futuro. 

Perdemos competitividade, a indústria está em recessão,  as contas públicas só não  aparentam situação pior graças a malabarismos contábeis e financeiros para mascarar sua degradação, a infra estrutura vai de mal a pior, sem objetivos, sem  planos, sem instrumentos reguladores, a violência campeia solta de norte a sul, a corrupção firmou raízes sólidas em todos os recantos da vida pública, há uma visível regressão institucional, gastam-se  cifras cada vez mais bilionárias numa máquina pública ineficiente e caótica, os serviços públicos se deterioram com maior intensidade dia após dia, os investimentos estão ficando cada dia menores, e o país paga cada vez impostos mais altos (com exceção dos colaboradores ao caixinha do partido, é claro).  

Em suma, com Dilma, o Brasil cresce feito rabo de cavalo, em todos os sentidos.

Uma democracia doente


Adelson Elias Vasconcellos

Está na hora dos políticos brasileiros começarem a ouvir, DE FATO,  o que o eleitor está dizendo nas urnas, ou melhor, fora dela.

Não é de hoje que os índices de abstenção vêm crescendo assustadoramente, é assustadora porque se dá num país em que o voto é obrigatório, o que em si já revela um vexame. Não se pode OBRIGAR ninguém a exercer um direito que a lei lhe confere. Ou é um direito, e ele o exerce livremente, ou é um dever do qual ele não tem alternativa, a não ser deixar de cumprir e se submeter, assim, às penalidades que a lei dispõe. 

Mas retomo o foco. O crescimento das abstenções, votos brancos e nulos revela certo desfalecimento do sentimento democrático do povo brasileiro. Há um forte desencanto com o discurso, com as ideias, com os programas, com os tais “compromissos” dos agentes políticos.  É de tal forma o desencanto que o eleitor prefere curtir o dia em casa com a família, porque sabe que tanto faz como tanto fez, o escolhido, seja ele quem for, pertença  a este ou aquele partido político, não terá o dom de mudar coisa alguma da porcaria que está aí. Continuará vigorando o mau hábito do político eleito fazer o que lhe der na telha, sem se sentir obrigado a coisa nenhuma junto ao eleitor de quem ele jamais será cobrado, já que a representação política, no fundo, não passa de uma ficção. Por aqui, até quem é pouco foi votado, acaba assumindo o posto carregado nos ombros pelos Tiriricas da vida.

Empossado, continuará a marcha desgraçada de capitalizar para seu bolso  mais e mais vantagens, esquecendo-se que está a tirar recursos que os eleitores entregam ao Estado para receberem, em troca, escolas melhores, saúde melhor, infraestrutura melhor, segurança segura.   Continuará expropriando o Erário com mais vantagens para si e para os seus, e dane-se futebol clube, já que esta forma de expropriação, que no fundo se trata de um roubo, está institucionalizada.  Ninguém vai preso por dobrar vergonhosamente seus próprios salários e verbas de gabinete fora outras patifarias transformadas em “verbas da representação parlamentar”, nome bonito que se deu para a pilantragem. 

E vai viver sob toda esta cretinice institucional trabalhando cada vez menos, e sem ter que prestar satisfações a quem quer que seja. Por quatro anos, a menos que cometa alguma lambança proibida por lei, viverá como marajá em meio à miséria dos milhões que o sustentam.

Em São Paulo, por exemplo, cerca de 1/3 do eleitorado não conseguiu identificar ninguém merecedor de seu crédito, e havia candidato para todos os gostos. No restante do país o quadro se repetiu.

Ora,  disse aqui, logo após o segundo turno, que todo este contingente somado aos votos dos candidatos de oposição, demonstravam bem que há não partidos hegemônicos. Podem um e outro predominar em determinados currais eleitorais, no entanto, em nível nacional, há uma imensa maioria de eleitores que não se sente representada por nenhum partido em especial. E isso se dá, acreditem, porque nem o partido que detém o poder federal conseguiu impor uma ideologia majoritária, tampouco as oposições conseguiram sintonizar a alma deste batalhão de pessoas que ou anulam ou simplesmente sequer comparecem para votar. 

E é precisamente este o grande recado das urnas. Não se trata de renovação como se tenta vender. Trata-se isto sim de falta de sintonia. Ninguém conseguiu entender o que estes milhões de votos soltos no ar esperam encontrar. E é justamente a partir daí que as oposições podem encontrar seu prumo. Porque, isto é certo, o PT apesar de sua presença crescente, o PMDB apesar de liderar ainda na maioria dos municípios, ambos não representam o pensamento e os anseios de, pelo menos, 1/3 dos eleitores.  

Assim, tanto a falta de sintonia quanto o desencanto com isso que está aí, vão fazendo estragos e tornando a vida política nacional quase coisa nenhuma.

Exemplo acabado do quanto parte dos políticos não conseguiu fazer a leitura correta do que as urnas estão clamando, é o senhor Gilberto Kassab. Não é nenhuma coisa nem outra, não é oposição, não é governo, é apenas poder. Se alia a quem estiver no comando e isto, definitivamente não é política, é adesismo puro, é pilhagem do poder, é oportunismo vagabundo. Segue a balada do que tem sido o PMDB, um enorme aglomerado de aproveitadores e oportunistas, que se aliam a qualquer governo apenas para tomarem para si cargos e verbas, enquanto o exercício de uma atividade representativa em favor desta ou daquela parcela da população fica relegada a lugar nenhum. 

É bom lembrar de como foi feito o PSD de Kassab: a união de inúmeros políticos pertencentes a partidos de oposição  ao PT. Vê-los agora agregados precisamente a quem um dia se opuseram é achar que o eleitor é um perfeito idiota. Como se viu, tanto no primeiro quanto no segundo turno destas eleições municipais, e como se vem observando já há algum tempo, o eleitor brasileiro quer votar em quem pensa como ele, que tenha um discurso que combine com seu pensamento, que conjugue no discurso os verbos de seu inconformismo com o Brasil que se arrasta miseravelmente sem sair do lugar, que não tolera mais políticos corruptos e impunes, que quer lei, ordem, trabalho, emprego, salário justo, mas, especialmente, serviços públicos dignos dos cinco meses de impostos que se obriga a pagar sem receber nada em troca. Ou seja, o eleitor brasileiro quer votar em alguém que sirva ao país e não apenas se sirva dele em proveito próprio.

Ou a classe política se toca de uma vez por todas que ela está na contramão do que pensa e deseja a sociedade, ou os fantásticos números de abstenções, brancos e nulos tenderão a crescer nos próximos anos. Se esta mudança vier a ser proposta por novos ou velhos, para o eleitor não interessa. Não é renovação de caras, e sim de modos, de jeitos, de ações, de atitudes. E aí tanto faz se o político tiver 18 ou 80 anos. Vai encontrar um imenso oceano de votos em seu favor. Porque, senhores, mudar as moscas apenas não bastará. 

E isto serve tanto para quem já exerce o poder quanto para aqueles que pretendem alcançá-lo. A reportagem da Folha reproduzida num post anterior, já mostra mais de 44% de eleitores que, se pudessem, simplesmente, não compareceriam às urnas. Creio que no restante do país este índice não deva ser muito diferente. E uma democracia na qual o eleitor não se sinta respeitado -  e a brasileira é bem assim - conduz, inevitavelmente, à irrelevância do voto. E este sintoma revela uma doença difícil de curar e que pode abrir caminho para o totalitarismo, uma vez que as forças que a ele poderiam se opor, perderam o encanto e a força de resistência. 

Assim, é de se esperar que as oposições se compenetrem de sua real dimensão. Não existe democracia sem imprensa livre e sem oposição. O adesismo sempre foi o lubrificante das engrenagens absolutistas responsáveis por milhões de mortes ao longo da história. 

44% não teriam ido às urnas em SP se o voto fosse facultativo


Comentando a Notícia

O texto a seguir é da Folha de São Paulo. Se a este estudo acrescentarmos o resultado das eleições de 2012 no tocante a abstenções, votos brancos e nulos, ele acaba revelando uma democracia doente. Perigosamente doente. Comentaremos sobre isso no próximo post. Segue o texto.

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Se o voto não fosse obrigatório, 44% dos eleitores que foram às urnas escolher o prefeito de São Paulo no domingo passado afirmam que não teriam comparecido à votação, mostra o Datafolha.

O cenário não favoreceria nem Fernando Haddad (PT), que saiu vencedor com 56% dos votos válidos, nem seu adversário, José Serra (PSDB). Isso porque o percentual dos que deixariam de votar é semelhante entre eleitores dos dois: 40% dos que declaram voto no petista e 39% dos que votam no tucano.

Entre os que afirmam ter votado branco ou nulo, o índice dos que não teriam comparecido é bem maior: 77%. A pesquisa foi realizada no dia seguinte à eleição.

Se a indicação se concretizasse, a taxa de abstenção na cidade de São Paulo saltaria de 19,99% para 55,2%.

Na eleição de Barack Obama nos Estados Unidos, em 2008, por exemplo, a abstenção foi de 44%. Nos EUA, o voto é facultativo.

Dados da Justiça Eleitoral, no entanto, mostram que o índice de abstenção em São Paulo pode estar superestimado por falta de atualização no cadastro dos eleitores.

O cientista político Vitor Marchetti, da Universidade Federal do ABC, diz que o dado, sozinho, "não indica se uma democracia está instável ou estável". Ele cita como exemplo o alto comparecimento na eleição venezuelana. "Pode ser que a população esteja mobilizada politicamente, mas não em nome da democracia", afirma.

No Brasil, o voto é obrigatório para as pessoas alfabetizadas que têm entre 18 e 70 anos. Quem não comparece nem justifica a ausência é multado em R$ 3,51. Se a multa não for paga, ficará impedido de participar de concursos públicos ou tirar documentos como o passaporte.

Editoria de Arte/Folhapress

PERFIL
O percentual dos que não iriam às urnas em São Paulo é maior entre os que dizem ter renda menor: 48% dos que ganham até dois salários mínimos ante 32% dos que recebem mais de dez mínimos.

A maior inclinação dos mais pobres à abstenção é um dos principais argumentos usados pelos que defendem a obrigatoriedade do voto. Para eles, a exigência é um estímulo para que essa parcela da população seja contemplada nas propostas.

Defensores do voto facultativo, no entanto, afirmam que a obrigatoriedade faz com que eleitores escolham sem conhecer as plataformas dos candidatos em quem estão votando.

Câmara aprova texto dos royalties que prejudica Estados produtores


Comentando a Notícia

Na derrota do governo sobre os royalties do petróleo, uma das proposições era de que a grana fosse destinada inteiramente à educação. Quando o governo veio com esta ideia afirmei aqui que esta seria uma derrota anunciada. Só para lembrar: trouxe como exemplo a falecida CPMF que também tinha o fim nobre de destinar recursos para saúde. Ao fim e ao cabo de sua tramitação pelo Congresso, o projeto foi tão vilipendiado que para a saúde o que restou foram migalhas.   

A riqueza que se imaginava há três quatro anos sobre o petróleo do pré-sal sequer foi dimensionada. Sequer sabemos se será possível tornar economicamente viável a extração do total medido das reservas já descobertas. E, no entanto, face à mistificação criada por Lula e Gabrielli quanto as tais “riquezas”, os anúncios bombásticos açularam o apetite ganancioso dos políticos brasileiros. Sequer se respeitará os contratos sobre áreas já licitadas, o que, certamente, acabará desaguando para o Judiciário decidir. Afinal, está se quebrando contratos firmados antes até do projeto sobre os tais royalties. 

Mas afirmei que duvidava que esta ganância corrosiva sobre riquezas futuras que ainda estavam por se realizar, não se destinariam unicamente à educação, como pretendia o governo.  Hoje, no texto aprovado, tal obrigação ficou de fora. E até possível que muito pouco acabe se destinando à educação. Político detesta sentir-se engessado quanto à destinação de recursos. O oportunismo corrupto de todos os eles jamais se concentram nas necessidades maiores do país. Olham para o próprio umbigo, para o seu saldo bancário, para sua volúpia em fazer inchar, mesmo que de modo desonesto, seus patrimônios pessoais. Como dizia Paulinho da Viola, dinheiro na mão é vendaval.

Vamos rezar para que fruto da exploração futura das áreas produtores de petróleo não ocorram desastres ambientais. Certo é que os municípios que serão afetadas pelo boom econômico que advirá da exploração e produção, faltará recursos público para atender os investimentos necessários para dotar estes municípios de mínimas condições de qualidade de vida. 

Infelizmente, este é um passo atrás em direção ao atraso. Nossa canalha política levará muito tempo ainda não apenas para olhar o futuro e as necessidades que este futuro impõe ao país. Eles levarão é tempo demasiado para se tornarem homens sérios e comprometidos com a sociedade que sustenta sua falta de moral.

O texto é Erich Decat para a Folha de São Paulo.

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O governo Dilma foi derrotado na votação do projeto dos royalties do petróleo, quando os deputados aprovaram por 286 votos a favor e 124 contra o texto que havia sido aprovado no Senado.

A decisão prejudica os Estados produtores de petróleo, pois o texto do Senado aumentava a verba de Estados e municípios não produtores, além de alterar a distribuição dos tributos de campos já licitados.
O projeto vai a sanção, mas deve passar por vetos da presidente Dilma, pois ela já havia orientado seus líderes a não aceitar a proposta vinda do Senado e apresentar uma que a substituísse.

Inicialmente, a Câmara iria votar o projeto do deputado Carlos Zarattini (PT-SP), que havia sido elaborado com a ajuda de técnicos do governo. O texto de Zarattini aumentava os recursos dos Estados e municípios não produtores e mudava a distribuição dos royalties de campos já licitados. Dilma, porém, mudou de opinião e passou a defender que não fossem feitas alterações que atingissem as regras dos campos já licitados, aceitando apenas que fosse modificada a distribuição dos royalties das áreas de petróleo do pré-sal ainda não leiloadas --posição que atende reivindicação do governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ), aliado do Planalto.

Durante a sessão, contudo, requerimento do deputado Ônix Lorenzoni (DEM-RS) foi aprovado, invertendo a ordem de votação, dando preferência ao projeto vindo do Senado. O democrata mostrou dados indicando que o texto do senador beneficiava mais os Estados e municípios não produtores do que o de Zarattini.

Lorenzoni leu em plenário um levantamento feito pelo CNM (Confederação Nacional de Municípios) em que apontava queda na receita da maioria dos Estados não produtores de petróleo caso a proposta de Zarattini fosse aprovada. "O meu Estado por exemplo vai perder R$ 100 milhões. Para beneficiar o Rio de Janeiro, o relator tirou de todos os outros. Isso mobilizou todo mundo", disse Onyx.

O requerimento do deputado teve votação apertada e contou com 220 votos a favor e 211 contrários. Segundo os deputados ouvidos pela Folha, também contou para a vitória do texto do Senado o fato de não "congelar" a totalidade dos recursos dos royalties na Educação, como ficou estabelecido no texto de Zarattini.

Durante a votação, o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP) chegou a fazer um apelo da tribuna contra a proposta do Senado e pediu mais tempo para apresentação de um novo projeto. O pedido do petista, no entanto, não surtiu efeito e a proposta foi aprovada com 286 votos a favor e 124 contra.

No texto aprovado, de autoria do senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), a União tem sua fatia nos royalties reduzida de 30% para 20% já em 2012. Os Estados produtores caem de 26,25% para 20%. Os municípios confrontantes são os que sofrem maior redução: de 26,25% passam para 17% em 2012 e chegam a 4% em 2020. Os municípios afetados pela exploração de petróleo também sofrem cortes: de 8,75% para 2%. Em contrapartida, os Estados e municípios não produtores saltam de 8,75% para 40%.

O texto também mexe com os percentuais de repasse da participação especial que é cobrada apenas em campos de alta produtividade e suas alíquotas são progressivas de acordo com a produtividade do campo. De acordo com o texto aprovado, a partir de 2013 cai de 40% para 32% o repasse da participação especial para os Estados produtores e de 10% para 5% os destinados aos municípios produtores. A União também entra na lista dos que terão a alíquota reduzida passando dos atuais 50% para 43% no próximo ano.

Em contrapartida, os Estados e municípios não produtores passam a receber, cada um, 10%, a partir do ano que vem. Esse valor chega a 15% em 2020.

Câmara aprova projeto de royalties; Dilma deve vetar


Exame.com
Com Agência Reuters

Divisão entre produtores e não produtores é alterada; projeto contraria governo e Dilma deve vetar proposta

Ueslei Marcelino/Reuters
Presidente Dilma Rousseff é vista durante cerimônia em Brasília:
 por 286 votos a favor e 124 votos contrários, os deputados aprovaram a proposta do Senado

São Paulo- A Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira o projeto enviado pelo Senado que modifica a distribuição de royalties do petróleo entre União, Estados e municípios, inclusive dos contratos vigentes.

O texto segue agora para a sanção da presidente Dilma Rousseff, que deve vetá-lo, segundo disse à Reuters uma fonte do governo que pediu para não ser identificada.

Por 286 votos a favor e 124 votos contrários, os deputados aprovaram a proposta do Senado aprovada há um ano, que reduz a participação da União e de Estados e municípios produtores e eleva o recebimento dos royalties pelos não produtores.

Foram rejeitados todos os destaques e emendas apresentados ao projeto do senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), cujo texto na última hora foi privilegiado em detrimento da proposta elaborada na Câmara, que chegou a ter processo de votação aberto.

Assim como o projeto da Câmara, o projeto do Senado aprovado nesta terça-feira pelos congressistas contraria a presidente Dilma ao mudar a divisão das receitas provenientes dos royalties dos contratos vigentes.

Além disso, o projeto do senador não contempla a destinação dos recursos para a educação, uma das exigências da governante.

Outro motivo que deve levar a presidente a vetar a proposta aprovada no Congresso é que há um erro de cálculo na proposta do Senado, na qual os percentuais de distribuição de royalties somavam 101 por cento, e não 100 por cento.

Assim, o resultado foi comemorado pelos deputados das bancadas dos Estados produtores, que apostam no veto de Dilma.

Se fosse "tudo combinado não seria tão bom para nós", disse o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), em entrevista à Reuters. O Já o líder do PMDB, deputado Enrique Eduardo Alves (RN), lamentou o resultado, mas argumentou que houve "uma forte divisão de todos os partidos da base".

No caso da presidente vetar o projeto, poderia haver duas consequências imediatas: aumentaria o risco para não realização da 11a de concessão de áreas de petróleo, marcada para 201, já que haveria uma insegurança jurídica; e aumentaria no Congresso a pressão política para que se derrube um veto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao projeto que redistribui todas as receitas de royalties de forma ainda mais radical entre Estados e municípios.

Reviravolta - 
Com a aprovação do texto do Senado, a proposta que tinha sido elaborada pelo deputado Carlos Zarattini (PT-SP) foi arquivada.

A reviravolta na votação ocorreu após a Confederação Nacional dos Municípios (CMN) distribuir uma tabela alegando que os municípios ganhariam menos com o projeto dos deputados.

Pressionados, os deputados aprovaram um requerimento que privilegiou a votação no plenário da proposta do Senado.

"É fácil defender municípios. Os parlamentares dependem de votos e ninguém quer sequer parecer que está contra os interesses dos municípios. Mas, contraditoriamente, podem estar", disse o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia.

Já Zarattini considerou a rejeição de seu parecer como "uma perda enorme".

Para o deputado, o projeto produzido por senadores "não se sustenta juridicamente" e tem erros.

Royalties: Rio perderá R$ 77 bi e Cabral confia em veto de Dilma


O Globo

Segundo governador, se projeto aprovado pela Câmara virar lei, finanças do estado vão ao “colapso”

O governador Sérgio Cabral afirmou, em nota, que confia que a presidente Dilma Rousseff vá vetar o projeto aprovado pela Câmara, agora à noite, que impõe perdas bilionárias aos estados produtores de petróleo, como Rio de Janeiro e Espírito Santo.

“Estou tranquilo porque a presidenta Dilma já anunciou publicamente que vetará qualquer projeto de lei que venha a alterar a distribuição dos royalties e da participação especial dos campos de petróleo já leiloados, de contratos já assinados, e receitas comprometidas em função do ato jurídico perfeito”.

Segundo Cabral, se o projeto virar lei, “levará as finanças públicas do Governo do Estado ao colapso. O mesmo acontecerá com muitas prefeituras do Estado do Rio”. Nos cálculos da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado do Rio, se o projeto aprovado virar lei, Estado e municípios fluminenses perderiam R$ 3,468 bilhões em royalties e Participações Especiais (PEs) já em 2013. No período 2012-2020, a perda seria de R$ 77,3 bilhões. A conta considera o preço do barril de petróleo a US$ 90 e câmbio de R$ 2.

— Os estados não podem abrir mão dessas receitas — disse o secretário de Desenvolvimento do Rio, Júlio Bueno.

O governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, afirmou que a medida mais urgente é buscar o veto da presidente Dilma Rousseff.

— Queremos o veto a esse desrespeito à Constituição e à legalidade, numa divisão desequilibrada e sem nenhum bom senso. Não se pode reduzir receita de estados e cidades. Faltou solidariedade federativa.

Se a presidente vetar, mas o Congresso derrubar o veto, Casagrande vai recorrer ao STF:

— Nós não conseguimos nesses três anos nenhuma proposta para convencê-los (Congresso) de que não se pode romper contrato. Depois que a presidente Dilma vetar, eles vão derrubar o veto e aí vamos para o Supremo. Vamos agir em unidade, Rio e Espírito Santo — afirmou Casagrande.

Para Bueno, o impasse sobre as novas regras para a divisão dos royalties prejudica o Brasil todo, pois essa demora ameaça a realização da 11ª Rodada de Licitações da Agência Nacional do Petróleo (ANP).

— Quem perde não é a indústria, que pode ir para qualquer lugar do mundo. Quem perde é o Brasil. O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) sequer votou a 11ª rodada — disse Bueno.

Na semana passada, a diretora-geral da ANP, Magda Chambriard, afirmou que, se não houvesse uma decisão sobre os royalties até janeiro, não haveria tempo para a 11ª rodada ser realizada em maio.

Para o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Adriano Pires, a disputa no pacto federativo “parece insolúvel”. Segundo ele, em 2008, eram 300 mil quilômetros quadrados de campos explorados no Brasil. Em 2012, essa área foi reduzida para 114 mil quilômetros quadrados:

— Se a decisão for para a Justiça, vai mostrar a debilidade do governo e do Congresso na questão regulatória.

Para Cabral, o projeto aprovado, “além de violar o direito adquirido e o ato jurídico perfeito, é inconstitucional também por não dar aos estados e municípios produtores a compensação prevista no artigo 20, parágrafo 4, da Constituição Federal”.

O governador argumenta ainda que a “própria modificação feita pelo governo federal foi no marco regulatório, nos campos que serão leiloados. O governo federal teve a preocupação de não alterar contratos já celebrados, porque isso fere a Constituição”.

O novo imbecil coletivo


Olavo de Carvalho 
Mídia Sem Máscara

Quando entre os anos 80 e 90 comecei a redigir as notas que viriam a compor O Imbecil Coletivo, os personagens a que ali eu me referia eram indivíduos inteligentes, razoavelmente cultos, apenas corrompidos pela auto-intoxicação ideológica e por um corporativismo de partido que, alçando-os a posições muito superiores aos seus méritos, deformavam completamente sua visão do universo e de si mesmos. Foi por isso que os defini como “um grupo de pessoas de inteligência normal ou mesmo superior que se reúnem com a finalidade de imbecilizar-se umas às outras”.

Essa definição já não se aplica aos novos tagarelas e opinadores, que atuam sobretudo através da internet e que hoje estão entre os vinte e os quarenta anos de idade. Tal como seus antecessores, são pessoas de inteligência normal ou superior separadas do pleno uso de seus dons pela intervenção de forças sociais e culturais. A diferença é que essas forças os atacaram numa idade mais tenra e já não são bem as mesmas que lesaram os seus antecessores.

Até os anos 70, os brasileiros recebiam no primário e no ginásio uma educação normal, deficiente o quanto fosse. Só vinham a corromper-se quando chegavam à universidade e, em vez de uma abertura efetiva para o mundo da alta cultura, recebiam doses maciças de doutrinação comunista, oferecida sob o pretexto, àquela altura bastante verossímil, da luta pela restauração das liberdades democráticas. A pressão do ambiente, a imposição do vocabulário e o controle altamente seletivo dos temas e da bibliografia faziam com que a aquisição do status de brasileiro culto se identificasse, na mente de cada estudante, com a absorção do estilo esquerdista de pensar, de sentir e de ser – na verdade, nada mais que um conjunto de cacoetes mentais.

O trabalho dos professores-doutrinadores era complementado pela grande mídia, que, então já amplamente dominada por ativistas e simpatizantes de esquerda, envolvia os intelectuais e artistas de sua preferência ideológica numa aura de prestígio sublime, ao mesmo tempo que jogava na lata de lixo do esquecimento os escritores e pensadores considerados inconvenientes, exceto quando podia explorá-los como exceções que por sua própria raridade e exotismo confirmavam a regra.

Criada e mantida pelas universidades, pelo movimento editorial e pela mídia impressa, a atmosfera de imbecilização ideológica era, por assim dizer, um produto de luxo, só acessível às classes média e alta, deixando intacta a massa popular.

A partir dos anos 80, a elite esquerdista tomou posse da educação pública, aí introduzindo o sistema de alfabetização “socioconstrutivista”, concebido por pedagogos esquerdistas como Emilia Ferrero, Lev Vigotsky e Paulo Freire para implantar na mente infantil as estruturas cognitivas aptas a preparar o desenvolvimento mais ou menos espontâneo de uma cosmovisão socialista, praticamente sem necessidade de “doutrinação” explícita.

Do ponto de vista do aprendizado, do rendimento escolar dos alunos, e sobretudo da alfabetização, os resultados foram catastróficos.

Não há espaço aqui para explicar a coisa toda, mas, em resumidas contas, é o seguinte. Todo idioma compõe-se de uma parte mais ou menos fechada, estável e mecânica – o alfabeto, a ortografia, a lista de fonemas e suas combinações, as regras básicas da morfologia e da sintaxe -- e de uma parte aberta, movente e fluida: o universo inteiro dos significados, dos valores, das nuances e das intenções de discurso. A primeira aprende-se eminentemente por memorização e exercícios repetitivos. A segunda, pelo auto-enriquecimento intelectual permanente, pelo acesso aos bens de alta cultura, pelo uso da inteligência comparativa, crítica e analítica e, last not least, pelo exercício das habilidades pessoais de comunicação e expressão. Sem o domínio adequado da primeira parte, é impossível orientar-se na segunda. Seria como saltar e dançar antes de ter aprendido a andar. É exatamente essa inversão que o socioconstrutivismo impõe aos alunos, pretendendo que participem ativamente – e até criativamente – do “universo da cultura” antes de ter os instrumentos de base necessários à articulação verbal de seus pensamentos, percepções e estados interiores.

O socioconstrutivismo mistura a alfabetização com a aquisição de conteúdos, com a socialização e até com o exercício da reflexão crítica, tornando o processo enormemente complicado e, no caminho, negligenciando a aquisição das habilidades fonético-silábicas elementares sem as quais ninguém pode chegar a um domínio suficiente da linguagem.       

O produto dessa monstruosidade pedagógica são estudantes que chegam ao mestrado e ao doutorado sem conhecimentos mínimos de ortografia e com uma reduzida capacidade de articular experiência e linguagem. Na universidade aprendem a macaquear o jargão de uma ou várias especialidades acadêmicas que, na falta de um domínio razoável da língua geral e literária, compreendem de maneira coisificada, quase fetichista, permanecendo quase sempre insensíveis às nuances de sentido e incapazes de apreender, na prática, a diferença entre um conceito e uma figura de linguagem. Em geral não têm sequer o senso da “forma”, seja no que lêem, seja no que escrevem.

Aplicado em escala nacional, o socioconstrutivismo resultou numa espetacular democratização da inépcia, que hoje se distribui mais ou menos equitativamente entre todos os jovens brasileiros estudantes ou diplomados, sem distinções de credo ou de ideologia. O novo imbecil coletivo, ao contrário do antigo, não tem carteirinha de partido. 

Publicado no Diário do Comércio.

Recados com puxão de orelha


Gaudêncio Torquato 
 O Estado de S.Paulo

É natural que os competidores partidários procurem exibir seus troféus após a contenda eleitoral, mesmo quem obteve vitórias em isoladas arenas do nosso vasto território. Afinal, a competitividade interpartidária, em expansão na esteira de um país que se projeta como potente economia global, confere à política alto grau de importância na escala dos interesses nacionais.

Compreende-se, pois, que o PT se arvore em maior vencedor, ao argumento de que governará 27 milhões de eleitores a partir de 2013, aumentando em 15% as prefeituras; que o PSB proclame ser o partido que mais cresceu porcentualmente, por ter pulado de 308 para 443 municípios e passar a governar o maior número de capitais (5); ou, ainda, que o PMDB desfralde a bandeira do maior número de cidades sob sua administração (1.031) e a segunda posição na soma eleitoral (23,1 milhões de votos), mesmo sofrendo queda de 13,5% em relação a 2008. É até razoável a tese de que as oposições ganharam fôlego, com as expressivas vitórias do DEM em Salvador e do PSDB em Maceió, Manaus, Belém e Teresina, além de ficar com a terceira posição no ranking de eleitores (16,5 milhões). Da leitura mais atenta do quadro eleitoral se pinça, porém, um conjunto de recados que partidos e líderes precisam ouvir e ponderar, sob pena de verem fechadas as portas de seu futuro político.

O pleito deste ano, para começo de conversa, se despiu de arabescos que adornavam a liturgia no passado, particularmente os mantos festivos e os salamaleques de militantes dispostos a fazer vigílias cívicas por seus candidatos. Há uma explicação para o fato, a começar pelo redesenho das ruas. As multidões que acorriam aos eventos eleitorais, obedecendo ao sinal dos comandantes, refluíram, passando a se abrigar em grupos reunindo categorias profissionais. Sua participação no cenário político perdeu intensidade. Não se veem mais densos contingentes mobilizados para ouvir a peroração mofada de candidatos e cabos eleitorais. Ante um cenário social menos barulhento e conflituoso, os antigos trombeteiros das massas passaram a ter menos ouvidos para fazer ecoar seus surrados refrãos. A subtração das multidões tem, ainda, conexão com dois fenômenos pouco sensíveis ao faro dos nossos atores políticos: a autonomia decisória dos cidadãos e a emergência da micropolítica. O primeiro se ancora na expansão da racionalidade eleitoral e o segundo se amarra na árvore da pragmática política.

A cada pleito, o voto abandona o espaço emotivo para se refugiar no terreno da razão. Sai do coração e sobe à cabeça. O processo, lento e gradual, acompanha a dinâmica social, cujas alavancas apontam para a expansão educacional e a ascensão das categorias sociais nos andares da pirâmide. Noutra ponta, a cadeia de casos negativos - escândalos, denúncias, tramoias, corrupção - propicia o desencanto dos eleitores com a velha política. Partidos passam a ser substituídos por novos polos de referência, como a constelação de entidades organizadas. Os aglomerados populacionais, dispersos e anônimos, cedem lugar às comunidades regionais. O todo divide-se em partes. Forma-se, assim, uma base sobre a qual se assenta a autonomia cidadã, e esta é a alavanca que abre as opções eleitorais.

Tem diminuído, sensivelmente, a fila de eleitores que ainda obedecem aos comandos de caciques políticos. (É patente que Lula pinçou Fernando Haddad do bolso do colete e o elegeu. Ponto para ele. Mas não se pode negar que perdeu em Salvador, Manaus, Belo Horizonte e Fortaleza, onde abriu o verbo - e promessas de verbas - para os seus candidatos.) A organicidade social volta-se para a defesa do habitat  o bairro, os distritos, as regiões, onde a micropolítica estabelece um apreciável conjunto de demandas, principalmente as que afetam diretamente a vida comunitária, como saúde, educação, transportes e segurança. Abre-se o tempo do cidadão pragmático.

Exemplos de racionalidade e autonomia ocorreram em muitas frentes no pleito deste ano. Encaixam-se nesses compartimentos, por exemplo, a eleição de Clécio Luís (PSOL), em Macapá, e de Edivaldo Holanda Júnior (PTC), em São Luís. Ambos são de partidos nanicos e, pasmem, encravados em Estados dominados por pesado caciquismo político: Amapá e Maranhão. Trata-se de um bem aplicado puxão de orelhas que o eleitor dá na política embolorada. Outra sinalização da racionalidade é dada na área dos gêneros. As mulheres avançam no campo da administração municipal, conquistando 664 prefeituras, ou 12,03% do total. Em 2008 foram 9,12%. No rol de recados há também o que indica o desejo de renovação. Perfis que encarnam mudança de página, estética e semântica diferentes das que se conhecem no mercado da política passam agora a povoar o mapa municipal.

Por último, distingue-se o eleitor descontente e indignado: ele se abstém, vota nulo ou em branco. E sabe separar alhos de bugalhos, eleição de mensalão ou de "kit gay". Acontece que a descrença social na política nivela todos os atores. O eleitorado não enxerga um partido mais ético ou menos moral que outro. A corrupção na esfera da representação bate em todos os entes partidários. Campanhas de desconstrução de adversários, portanto, não angariaram a simpatia dos cidadãos.

Em São Paulo, por exemplo, há anos o revezamento se dá em torno de Serra e Alckmin. Como se sabe, a ordenação dos ciclos eleitorais, que exige permanente troca de perfis, é pedra fundamental no jogo de poder. Ou, no dizer de Elias Canetti, é um atributo eminente da dominação política. Eis a analogia que o autor de Massa e Poder faz com a figura do rei: "Se o rei começa a envelhecer, sua força mágica está ameaçada. Pode diminuir ou enfraquecer, transformar-se em seu contrário; por isso, tira-se a vida do rei que envelhece para transferir sua força mágica ao sucessor". Qualquer semelhança com nossos "velhos reis" não é mera coincidência.

Hora de Balanço


Fernando Henrique Cardoso
O Estado de São Paulo

As avaliações sobre quem venceu as eleições podem ser discutidas a partir de vários critérios, há, entretanto, dificuldades para um juízo objetivo

As eleições municipais foram um prato cheio para análises, avaliações, distorções e apostas. Os resultados eleitorais foram muito dispersos. Dão margem para tudo: ganhou o PT, pois levou São Paulo; perderam Lula e o PT, pois, no Norte e no Nordeste, o PSDB e o DEM ganharam várias capitais e cidades importantes.

Ou ainda: o PSDB foi “dizimado” no Sudeste. Ao que replicam os oposicionistas: quem perdeu foi Lula, derrotado em Salvador, Campinas, Manaus, Fortaleza etc.

Se o PSDB era um partido “do Sudeste”, expandiu-se no Norte e no Nordeste. O próprio DEM, candidato à extinção, segundo muitos, derrotou o lulo-petismo em Salvador, Aracaju e Mossoró.

Juntos, PSDB e DEM levaram sete das 15 maiores cidades da região: no bunker petista das eleições presidenciais a oposição encontra agora fortes bases de apoio. O mesmo se diga sobre o Norte.

As avaliações sobre quem venceu podem ser discutidas a partir de vários critérios: número de prefeituras (o PMDB manteve a dianteira com cerca de mil, o PSDB tem 698, e o PT, 636), número de votos obtidos etc.

Há, entretanto, dificuldades para uma avaliação objetiva. Por exemplo: em Belo Horizonte, ganhou o PSB aliado ao PSDB, mas os votos são dos socialistas ou do PSDB de Aécio? O mesmo se diga de Campinas. Bastaria mudar o cômputo dessas duas cidades para alterar a posição relativa dos partidos no rol dos vencedores.

O PT se pode gabar de haver ganhado São Paulo. Mas deve reconhecer que seu avanço no país foi tímido para quem queria obter mil prefeituras e detém as rédeas do poder federal e as chaves do cofre. Manteve 16 prefeituras nas cidades com mais de 200 mil habitantes, contra 15 do PSDB (que antes tinha apenas dez).

O PMDB, sem vitórias expressivas fora do Rio de Janeiro, guardou, contudo, uma rede importante de prefeituras: nas cidades com mais de cem mil habitantes, ganhou em 45, ficando o PSDB com 48, e o PT com 54.

São esses os três partidos com maior capilaridade no eleitorado brasileiro. O PSDB manteve a posição sendo oposicionista e, portanto, com maior dificuldade para obter recursos financeiros e políticos.

O PSB teve dois êxitos significativos: derrotou o lulo-petismo em Recife e em Fortaleza. Isso abre margens à especulação sobre suas possibilidades para as eleições presidenciais, com uma cisão no bloco que até agora apoia o governo Dilma.

A divisão entre os eleitores continua sendo entre governistas e oposicionistas. Daí a peculiaridade da situação do PSB, que, governista, derrotou o partido hegemônico no governo, o PT. Prosseguirá nesse rumo? Difícil responder.

Para ocupar posições polares num sistema organizado entre governo e oposição, é preciso dispor de base social e rumo político. Se o PSB vier a disputar com chances de êxito as presidenciais, terá que ser identificado pelo eleitorado como diferente do lulo-petismo, ainda que não oposto a ele, e terá de obter apoio em amplos setores sociais em função dessas diferenças.

Uma coisa é ganhar votos nas eleições municipais, outra, nas federais.

A consideração vale para o PSDB. Apesar das críticas de que o partido não faz oposição vigorosa, conseguiu manter-se como seu carro-chefe. Em São Paulo, ganhou 176 prefeituras, contra 67 do PT, e, mesmo na capital, arrastando o desgaste da administração local, obteve 40% dos votos.

Elegeu candidatos de nova geração, como os prefeitos de Botucatu, João Cury, de Americana, Diego Natal, e de Votuporanga, Junior Marão, com votações muito expressivas.

Em Maceió, Rui Palmeira venceu no primeiro turno. Em Blumenau, Napoleão Bernardes ganhou no segundo, assim como, em Pelotas, Eduardo Leite. Mariana Carvalho, em Porto Velho, sem se eleger, teve boa votação.

O PSDB renovou os quadros, mas não fez o erro de dispensar os mais experientes: Arthur Virgílio, Firmino Filho ou, para mencionar um entre os veteranos paulistas, o prefeito de Sorocaba, Antonio Pannunzio, são exemplos disso.

Ser jovem não assegura ser portador de mensagem renovadora, e tê-la é a questão estratégica central. Carlos Melo em artigo publicado em “O Estado de S. Paulo” afirmou que o PSDB era originariamente “liberal na economia, social-democrata nas políticas públicas e progressista nos costumes”.

Essa poderia continuar a ser a mensagem do partido, desde que se acrescente ao liberalismo econômico o contrapeso de um Estado atuante nas agências reguladoras e capaz de preservar instituições-chave para o desenvolvimento, como Petrobras e os bancos públicos, sem chafurdar no clientelismo e na confusão entre público e privado.

O progressismo nos costumes implica na defesa da igualdade de gênero, no apoio às medidas racionais de compensação social e racial, bem como em políticas modernas de controle da violência e das drogas que não joguem as populações pobres contra os governos.

Sem esquecer que o crescimento do PIB só é satisfatório quando respeita o meio ambiente e beneficia a maioria da população.

Renovar implica se comunicar melhor, usando linguagem contemporânea nas mídias televisivas e eletrônicas. Mas não basta a pregação durante o período eleitoral. É preciso a reiteração cotidiana das crenças e dos valores partidários, para reagir à tentativa dos adversários de estigmatizar o PSDB como o partido “dos ricos”, privatista a qualquer custo e arrogante.

Perguntem aos pobres de Maceió, Teresina, Belém ou Manaus em que partido votaram e verão que a identificação com os partidos se dá mais pela mensagem e pelas características de quem as proclama e a quem se dirige do que por classificações abstratas de segmentos sociais.

Sem deixar de ser um partido modernizador, o PSDB, como escrevi tantas vezes, deve se dirigir aos mais pobres, mas também às classes médias, tanto às antigas como às camadas que aumentaram a renda, mas ainda não têm identificação social própria. É esse o caminho para êxitos futuros.

O mensalão e as eleições municipais


Roberto DaMatta
Revista Época

Carisma vira rotina e oposição corajosa transforma-se em poder estabelecido

As eleições municipais, como os campeonatos de futebol, fazem surgir novos personagens e sepultam outros. Como temos 5.568 municípios com milhões de eleitores, há um verdadeiro firmamento de supernovas, velhos cometas que jamais saem do céu e muitos astros que simplesmente se apagam – ou dão a impressão de que desaparecem.

Se tomarmos as duas cidades mais importantes do país, há, no Rio de Janeiro, a emergência do jovem Eduardo Paes (PMDB), que desenha uma nova liderança. Em São Paulo, venceu Fernando Haddad, do PT, com e por meio de Lula. Isso pode criar um novo padrão eleitoral baseado no voluntarismo pessoal do ex-presidente. Lula escolhe uma pessoa – você ou eu, caro leitor -, nos lança pelo PT (que serve como uma embalagem ou veículo) e, com a ajuda de seu carisma e poder simbólico de falar às massas eleitorais que não assinam nem leem jornais, somos – salvo erro de cálculo – eleitos! Nesse desenho, estaríamos retornando aos tempos do populismo, que falava precisamente o que cada qual queria ouvir, prometendo ganho para todos.

Mas isso não é tudo. Em Belo Horizonte, no Recife e em Porto Alegre tivemos as vitórias de Márcio Lacerda (PSB), Geraldo Júlio (PSB) e José Fortunati (PDT). Que são, além de caras novas, representantes de partidos com um novo protagonismo no cenário nacional. Essas cidades terão nos próximos anos um peso decisivo no cenário político e cultural brasileiro que hoje elimina, graças à comunicação instantânea e globalizada, a velha hierarquia dualística do café com leite predominante na Velha República e incondicional no Rio de Janeiro da Corte e dos tempos em que era a Cidade Maravilhosa e capital da República.

Esses novos atores juntam-se ao retorno de personalidades importantes, mas postas no ostracismo político pelo poder do governo federal e pela vontade de Lula, como o ex-senador Arthur Virgílio, um político de peso e novo prefeito de Manaus. Dirão que cito uma cidade sem importância, mas falo na coletividade que, ao lado de Belém e outras comunidades, será uma peça importante do futuro deste nosso universo planetário, todo ele conectado em rede e totalmente condicionado pelas descobertas e pela humanização ecológica, cujo centro mundial é a Amazônia brasileira. A vitória em Belo Horizonte projeta, além disso, Aécio Neves – isso, claro, se o PSDB não atrapalhar com seu notório ideologismo acadêmico e sua notória ausência de ânimo oposicionista.

Estaríamos no mato sem cachorro ou diante de grandes esperanças? Penso que vivemos um hiato ou uma pausa. Tomo como prova disso os votos em branco que, obviamente, são o grande fantasma eleitoral deste nosso Brasil. Eles exprimem um profundo desgosto pelos candidatos, uma grave decepção com os políticos Chega – dizem esses não votos – de calhordas que apenas roubam ou desperdiçam recursos públicos! Eles são igualmente o sinal do final das fórmulas ideológicas fáceis com raízes no populismo salvacionista e messiânico de esquerda e direita. Se você soma messianismo e ideologia numa luta contra uma ditadura militar, como fazia o PT quando Lula era um operário com cara colérica, tem uma esperança. Só que carisma vira rotina e oposição corajosa transforma-se em poder estabelecido.

Pois, no poder, o líder oposicionista é devidamente socializado por nossa elite republicana. Que dá, logo de cara, ao presidente eleito e ainda tonto pelos ritos de posse, um palácio, um cartão corporativo com crédito ilimitado, mais de 100 puxa-sacos, entre mordomos e guarda-costas – para não falar nos 22 mil cargos de confiança que ele pode preencher de sua cabeça. Afora, ainda, os ministérios que ele pode aumentar ou diminuir e, por fim, mas medidas provisórias. Isso transforma o raivoso operário num sorridente presidente. Ou faz um raivoso varredor de corruptos virar um projeto de ditador cujas “forças ocultas” inventaram uma renúncia que era um protogolpe, como ocorreu com Jânio Quadros. Ou um dramático e admirável suicídio de honra para redimir a nome do “mar de lama” da corrupção política, como ocorreu com Getúlio Vargas. Algo impensável para quem é, hoje, eleito em nome do povo com a ideologia da caridade, toma vinhos de US$ 500 e tem centenas de gravatas. Para quem montou um mensalão e até hoje tem problemas com um fato que fala alto nesse nosso novo momento: a exigência de clareza e transparência que o governo deve à sociedade – a todos nós que somos o povo (constituído de todo o tipo de gente) – que, afinal, elege, concede e legitima cargos a esses, digamos com candura, candidatos.

Há, penso, sinais claros de uma desilusão com as fórmulas feitas, mesmo porque ninguém mais voltará dos Estados Unidos, da França, da Alemanha, da Inglaterra ou da Rússia com a “última palavra” em termos de receitas. Hoje elas chegam de locais impensáveis como uma China e de uma Ásia incompatíveis com nosso forte eurocentrismo e, mais ainda, com nosso estatismo legalista e paquidérmico, forjado em Coimbra, e com nosso tradicional sindicalismo petebista, cuja força de zumbi deverá ser estudada com afinco pelos politicólogos. Na ausência de receitas tanto do lado liberal quanto do lado messiânico-stalinista, seremos obrigados – eis aí a enorme novidade – a fazer o que estamos fazendo: resolvendo nossos graves problemas na vivência de nosso dia a dia.

E encontro, aqui, talvez a novidade final. Uma espécie de paisagem em que se desenrola a mudança, sempre humilde como um mendigo. Quero me referir à tendência pouco percebida de gente interessada em fazer política local, em pensar ou repensar as rotinas de suas comunidades no que elas têm de bom e desastroso, de modo mais prático que ideológico.

Menos que novas propostas no papel, o povo quer gerentes e administradores presentes, eficientes e capazes de resolver ou melhorar suas vidas de trabalho e particularidades. Essas coisas que são como a chuva miúda e não precisam de grandes discursos e demagogos. Necessitam apenas de trabalho ao lado do povo, e não contra ele. Nisso, o julgamento do mensalão e o papel que nele tem tido o Supremo Tribunal Federal são decisivos. Porque, como as revoluções, ele só será efetivamente sentido com o tempo. O tempo de estabelecer um Brasil igualitário. Um Brasil governado pela lei que vale para todos, mesmo para o partido dominante. Eis, quem sabe, o fim de uma época.

A Pátria, o Pacto e os Patos


Paulo Rabello De Castro
Folha de São Paulo 

Estamos diante da maior escalada de impostos já realizada num regime dito democrático

Frequentemente me questiono que pátria é esta, a nossa, que tanto comemora a democracia de urna, cujos representantes, tão logo diplomados, sairão lhes tomando rendas duramente ganhas, por meio de uma carga tributária de nível alemão que lhe retorna serviços da mais duvidosa competência. Em matéria de impostos, elo fundamental da relação entre o cidadão e a pátria (leia-se, o Estado com emoção e fidelidade) nunca estivemos tão longinquamente afastados de um nível adequado de representação desse cidadão-pagante ao pé do poder instituído, o tal Estado-pedinte-demandante-manipulador. Vamos aos fatos concretos.

Mal encerrada a apuração das “preferências do povo brasileiro”, o Senado federal, por meio de seu presidente José Sarney, trouxe ao conhecimento do público o resultado de uma Comissão do Pacto Federativo, grupo de doutos em matéria fiscal, tributária e financeira pública, por ele formado, sob a coordenação de um brasileiro de vulto, o pluri-ministro Nelson Jobim.  A Comissão tinha uma missão: estudar e propor a atualização do modo de relacionamento das três esferas de governo, União federal, Estados e Municípios, hoje muito esgarçado por críticas e até condenações recíprocas, especialmente pela reclamação de que as verbas dos impostos e contribuições não chegam até o nível local, onde ocorrem as efetivas demandas dos cidadãos.  A Comissão, ao que tudo indica, trabalhou duro e, na semana passada, propôs vários anteprojetos, inclusive de emendas à Constituição. Até ai tudo bem, parabéns ao coordenador Jobim e ao seu time de experts.  Apenas um detalhe parece ter escapado à maioria dos comissários: os patos do pacto. Os patos somos nós, os que pagamos a conta, seja como trabalhadores, que hoje saímos com descontos diretos de cerca de 23% sobre o salário mensal, mais cerca de 32% de modo indireto, só ai perfazendo mais de metade do salário total, ou como empresários, que absorveremos ou tentaremos repassar a preços finais, uma carga de tributos diretos ou indiretos na média de 30 a 35% sobre o valor das mercadorias ou serviços. Somos os campeões mundiais do escracho tributário.

Paradoxalmente, a douta Comissão não tratou, no pacto federativo por ela proposto, de quem paga o pato, financia a conta do pacto, banca os subsídios dos que por ela deliberam e das novas despesas que pretendem criar para manter “o pacto de estabilidade e tranquilidade política desta República”. A omissão da Comissão do pacto, ao não incluir os “patudos” que pagarão a conta indecente ao final do dia, é a própria cara da nossa democracia de fanfarra. Estamos diante da maior escalada de impostos já realizada num regime dito democrático: numa década e meia, engordamos as três esferas de governo com mais de DEZ pontos de percentagem do PIB sobre o que se tributava ao início do plano Real, quer dizer, em bom português, o poder público acrescentou nada menos do que QUINHENTOS BILHÕES DE REAIS por ano ao que já tomava da população embasbacada e alegre em 1994. E para quê? Alguns doutos membros da Comissão do pacto têm explicado, em artigos publicados aqui e alhures, que esta avalanche de dinheiro assacado à população é para a própria, já que tudo que se arrecada é para cobrir o que os governos gastam. Pois bem: e que tal debater com mais abertura e franqueza o que se despende? Hoje, dependemos de jornalistas corajosos para fazer matérias como a que agora denuncia os bilhões manipulados e jogados fora na tal Bolsa-Família, como recentemente noticiado. Mas o dispositivo existente na Lei de Responsabilidade Fiscal, no seu artigo 67, que comanda o funcionamento de um Conselho de Gestão Fiscal, exatamente para prevenir o desmando nos gastos públicos e o exagero truculento da carga tributária, este simples comando jamais foi objeto de regulamentação pelo Congresso. Tampouco lembrou-se a douta Comissão de cobrar essa providência simples ao nosso dedicado presidente do Senado federal e pai da plêiade.

Enquanto não houver posicionamento lógico por parte dos especialistas da nossa Pátria, para sempre pedirem e proporem primeiro o que deve vir primeiro, respeitando e fazendo respeitar quem paga a conta do “pacto”, portanto atribuindo prioridade aos descalabros maiores, antes de tratar dos interesses hierarquicamente subalternos dos que vivem à custa do suor dos pagantes de impostos, nosso direito moral de comemorar a vitória do voto nas urnas melhor ficaria se adiado e suspenso, até que os patos do pacto retomem seu devido lugar na cabeça dos doutos da Pátria.

A muralha de Ávila


João Ubaldo Ribeiro
O Globo

Aquele caos em Nova York, aquela perplexidade desamparada, só pode render uma extraordinária sensação de humildade e impotência, lembrete ríspido de nossas limitações

Não tenho certeza, mas acho que já me queixei aqui de não vivermos mais no tempo de Marco Polo ou, melhor ainda, no tempo do grande Fernão Mendes Pinto, lembrado por portugueses ingratos como “Fernão, Mentes”. Os mentirosos ilustres, que empolgavam a Europa com a narração dos perigos e portentos encontrados pelo mundo afora, hoje não poderiam soltar sua imaginação e legar aos contemporâneos tantas histórias empolgantes, narrativas sobre monstros marinhos capazes de engolir caravelas de uma só bocada, árvores falantes, rios de mel ou leite, ilhas de queijo, pássaros encantados que furtavam as almas dos homens que escutassem seu canto e tiranos orientais com haréns de milhares de mulheres.

Perdeu a graça, todo mundo já viu tudo e as coisas se complicaram, a começar pela circunstância de que os maiores mentirosos agora não são os viajantes, mas os políticos, concorrência imbatível. Se eu contar que testemunhei um monstro antropófago circulando e devorando passantes aqui em Madri, não somente ninguém vai acreditar, como poderei ser processado pelas autoridades turísticas espanholas, por espalhar lorotas cuja consequência seria afastar visitantes de outros países. No quarto do hotel em que fiquei antes de ir a Salamanca, havia um retrato de Torquemada, o temível Grande Inquisidor. Em matéria de fantasmas, Madri não tem tanta tradição quanto, por exemplo, Londres, mas contar uma boa historinha sobre aparições de Torquemada bem que podia quebrar o galho. Postei-me diante do retrato, pensando em como faria para puxar conversa, mas acabei decidindo não facilitar. Por algum desses azares do destino, quem sabe se ele não apareceria mesmo, decidido a me transformar em churrasco, depois de cortar minha língua, para que eu não blasfemasse, na hora em que acendessem a fogueira?

Sem monstros e sem fantasmas, nada do que posso contar sobre Madri e a Espanha em geral será novidade, mesmo para quem nunca esteve aqui. E então, como todo repórter que precisa mandar seu relato para a redação, resta-me sair pelas veneráveis ruas e praças do centro de Madri e lá colher observações agudas e judiciosas sobre a Espanha de nossos dias. Tomado de novo brio, preparo-me para sair, resolvido a não voltar antes de ter notado alguma coisa que venha a interessar o leitor. Mas que ouço? Que barulhinho suave é esse, que entra pela janela e noto somente agora?

Si, es la lluvia, como me esclarece, ao ver minha cara desapontada, um funcionário do hotel. É a chuva e, assim, ironicamente, se algum velho conhecedor de Madri me lesse, pensaria que agora, sim, se trata de uma grossa mentira. Em Madri, como sabe quem a conhece bem, quase nunca chove, mas está prevista chuva para os próximos dias. Ligo a televisão e confirmo a previsão, chuva e mais chuva. Bem, neste caso pode-se talvez transformar o limão numa limonada. Talvez cole eu alegar que sou o mandachuva de Madri, porque tenho certeza de que essa água toda que despenca na cidade foi desencadeada pela minha presença. Por alguns instantes, fantasio ser contratado pela municipalidade para regular o regime pluvial de Madri, talvez até de toda a Espanha, mas o devaneio passa logo e volto à fria realidade.

E chega finalmente o dia em que devo ir a Salamanca. São pouco mais de 200 quilômetros de Madri até lá, mas a chuva me acompanha. Lembro um personagem das histórias em quadrinhos só conhecido dos mais velhos Ferdinando, de Al Capp. Na cidade de Brejo Seco, onde morava Ferdinando, havia um sujeito tão azarado que tinha sempre uma nuvenzinha chuvosa, bem em cima de sua cabeça, acompanhando-o aonde quer que ele fosse. O mesmo destino me cabia na Espanha, pois também não chove tanto em Salamanca, mas minha chuva não falhou e assim me instalei resignadamente no hotel, para ver de longe a venerável cidade, que já era um centro universal de cultura uns quatro séculos antes de o Brasil ser achado pelos portugueses.

E, no hotel, os noticiários de tevê só falavam na catástrofe causada por um furacão sem precedentes, nos Estados Unidos. Já estive, algumas vezes, nas regiões mais atingidas pela calamidade e até as conheço relativamente bem. E, mesmo que não conhecesse, não faria muita diferença. Ver toda a devastação causada pela tempestade e sua conjugação mortífera de ventos, chuvas, inundações e nevascas, no país mais poderoso do mundo, onde o homem está acostumado a achar que doma a Natureza e que dispõe da tecnologia necessária para vencer qualquer obstáculo, de repente nos apequena e nos traz de volta à nossa precária condição. Aquela sucessão de acontecimentos contra a qual não havia força humana capaz de fazer qualquer coisa além de rezar, aquele caos na cidade de Nova York, aquelas pessoas assustadas e bestificadas por fatos que aprenderam a ignorar, aquela perplexidade desamparada, tudo isso só pode render uma extraordinária sensação de humildade e impotência, um lembrete ríspido de nossas limitações.

A caminho de Salamanca, tínhamos parado em Ávila, cidade conhecida dos católicos através de Santa Teresa. Uma de suas paisagens mais conhecidas é sua sólida muralha antiga, erguida há séculos, para conter invasores inimigos. Seus construtores acreditavam que ela, como as pedras de que é feita, duraria para sempre. Durou e dura, mas há muito é inútil para qualquer defesa, permanece apenas como monumento. E não um monumento para celebrar a obra humana, mas, se pensarmos bem, para mostrar sua fragilidade. Como os construtores de muralhas invencíveis, erguemos cidades invencíveis, das quais Nova York é símbolo. Mas, num instante, vemos como tudo isso não passa de ilusão voluntarista. Foi bom ver a muralha de Ávila, é sempre uma lição.

Longe dos olhos


Dora Kramer
O Estado de S.Paulo

Os votos das eleições municipais ainda estavam sendo apurados quando um político, que além de governista é ministro, em conversa reservada chamou atenção para o detalhe: "Vocês (jornalistas) não estão percebendo a jogada".

Ele se referia ao noticiário sobre a possível candidatura à Presidência da República do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, saudado como liderança emergente na política nacional.

O ministro falava mais especificamente da leitura que se faz do afastamento de Campos do ex-presidente Lula e seu provável alinhamento ao campo da oposição mais adiante, se a economia e os humores do eleitorado criarem dificuldades para a reeleição da presidente Dilma Rousseff. Segundo ele, não é assim que o panorama é visto em algumas rodas de governo.

Nelas se conversa o seguinte: Lula estaria adorando e de alguma maneira até incentivando os festejos em torno de Eduardo Campos.

Quem conhece bem os anseios e o modo de agir do ex-presidente aposta que o plano dele é realmente tentar voltar ao Palácio do Planalto em 2014.

A primazia é a recandidatura de Dilma que Lula, no entanto, não teria dificuldade de afastar. Mas, ponderam os analistas palacianos, faria isso muito melhor se tivesse uma boa justificativa. É aí que entra em cena o fortalecimento da figura do governador. Quanto mais viável ele se apresentar como alternativa ao campo governista, mais argumentos Lula e o PT terão para alegar que só a volta do ex-presidente seria capaz de assegurar a vitória e a preservação do projeto de poder.

Nesse caso, consideram aqueles autores, ofereceria o lugar de vice para o pernambucano e reforçaria a presença do PMDB no Ministério como forma de compensação. É o que vai acontecer? Não necessariamente, mas é o que os observadores engajados no processo entendem que Lula engendra.

E também o que alguns espectadores da oposição acham provável partindo do princípio de que seria muito difícil Eduardo Campos, um situacionista, mudar radicalmente o discurso para buscar votos na condição de oposicionista.

Moto próprio. 
O PT tem autonomia para aplicar seu estatuto como bem entender. Nisso o presidente do partido, Rui Falcão, diz o óbvio ao justificar a decisão de não punir os condenados pelo Supremo: "Quem aplica o estatuto somos nós".

O PT só não pode insistir em dizer que o partido não se confunde com os crimes cometidos "por alguns" quando os protege alegando que a previsão de expulsão para condenados "por crime infamante ou práticas administrativas ilícitas" nesse caso "não se aplica". A interpretação é discricionária e casuística. Se de um lado evidencia uma unidade rara - senão inexistente - em outros partidos, de outro elimina a possibilidade de qualquer separação entre a ação de um grupo e o pensamento do coletivo, neste aspecto representado pelo presidente. Com a agravante de autorizar a conclusão de que para o PT as leis e regras não requerem obediência irrestrita. Dependem da conveniência.

Meia volta. 
Se arrependimento matasse não sobraria um deputado federal do PT para contar a história do acordo de rodízio na presidência da Câmara firmado com o PMDB.

É grande a inquietação na bancada, que não acha a menor graça em ficar de fora do comando do Congresso, ainda mais em ano de sucessão.

Na Câmara o acerto é em prol do líder pemedebista Henrique Eduardo Alves e no Senado vale o critério da escolha de um representante do maior partido. No caso, o PMDB.

Os deputados petistas alegam que não foram ouvidos sobre o acordo, cujos termos estão bem postos por escrito, assinados e devidamente guardados na gaveta do vice-presidente Michel Temer.

Eleitor garimpeiro


Cristovam Buarque
O Globo

A eleição de 2014 precisa representar uma inflexão no modelo dos últimos 20 anos

Para vencer eleição é preciso estar sintonizado com os interesses imediatos do eleitor, mas não vale a pena vencer se não estiver sintonizado com os anseios e as possibilidades do futuro do país. Nos últimos anos, o processo eleitoral brasileiro tem se orientado apenas de acordo com a primeira parte: os interesses imediatos de cada eleitor, indicados por pesquisa de opinião pública e o uso de marketing para ajustar o discurso dos candidatos. Nas eleições municipais nenhuma relevância é dada ao longo prazo nem às concepções diferentes para o futuro da cidade.

Mas a eleição de 2012 foi caracterizada pela mistura de siglas e o vazio de ideias. A eleição municipal tende a exigir do eleitor atenção às propostas dos candidatos olhando os aspectos mais locais, mas não necessariamente imediatos.

Mesmo assim, até pouco tempo atrás, os candidatos a prefeito ou a vereador pertenciam a correntes de ideias que se chocavam. Isto acabou e permitiu as estranhíssimas alianças entre partidos que deveriam estar em lados opostos. O eleitor deixou de ser visto como um ser político, com ideias, e foi transformado em garimpeiro em busca de peneirar o que sobra dos discursos vazios dos candidatos vestidos pelos marqueteiros.

Nem mesmo a separação entre éticos e não éticos é levada em conta, porque nenhum partido está livre de marcas negativas de comportamento de seus candidatos. No último debate na TV Globo, Serra perguntou ao Haddad sobre o mensalão do PT e este respondeu que o outro deveria entender mais disto, porque o mensalão tucano é mais antigo. O assunto virou uma questão cronológica, não mais ética, porque os partidos ficaram iguais.

Em 2014, esta falta de diferença nas ideias, comportamentos e propostas, com todos discutindo apenas qual vai conduzir melhor o mesmo rumo e não quem vai oferecer um rumo melhor, ameaça repetir o mesmo aborrecimento visto no processo eleitoral de 2012. Por falta de nitidez e credibilidade que diferenciem candidatos e seus partidos, os eleitores garimpeiros vão virar eleitores jogadores, ficando obrigados a escolher de acordo com o jogo da moeda: cara ou coroa.

O Brasil precisa de propostas que ofereçam um novo rumo para o país, que aponte uma saída da economia concentradora de renda, destruidora do meio ambiente e baseada nas técnicas do passado para uma economia sustentável, de alta tecnologia e distributiva socialmente, capaz de revelar que o país não terá futuro se continuar fugindo da revolução educacional de base e da refundação de sua universidade.

A eleição de 2014 precisa trazer um discurso de reorientação, de inflexão no modelo dos últimos 20 anos. Mas dificilmente isso acontecerá. Provavelmente, os candidatos serão dominados pela mesmice, pelo cálculo de não assustar os financiadores de campanha e de servir docilmente aos marqueteiros do ano, conforme as pesquisas de opinião que reflitam o interesse imediato do eleitor garimpeiro.

Que herança é essa?


Eliane Cantanhêde
Folha de São Paulo

BRASÍLIA - Um apagão atrás do outro, ora apagando a capital da República, ora jogando no escuro não apenas um ou dois Estados, mas todos os Estados da região Nordeste, com milhões de prejudicados.

A nova presidente da Petrobras convivendo com prejuízos imensos e admitindo que as metas da gestão anterior eram faraônicas -logo, furadas- e obrigada a botar os pés no chão, a rever tudo e a trabalhar com a realidade, não com fanfarronices.

Agora essa notícia de que o governo teme falta de combustível até o fim do ano. Se ele teme, imagina nós! Era só o que nos faltava.

Essas notícias já são de amargar e se tornam particularmente constrangedoras por serem justamente da área que rendeu a fama de competência e de boa gerente a Dilma Rousseff e a catapultou à condição de presidenciável no governo Lula. Ela era ministra de Minas e Energia, antes de nomeada para a Casa Civil.

Agora, o Banco do Brasil na boca do povo por causa do mensalão e a ordem do ministro Joaquim Barbosa para apurar tráfico de influência, nada mais, nada menos, no Banco Central no governo Lula.

E os apagões e vexames não param aí. A lista é grande e só faz crescer no fim do ano, com a bagunça e o desrespeito do setor aéreo com os usuários, os cancelamentos, atrasos, as taxas absurdas de remarcação, agora a cobrança até pela escolha de assentos. Sem falar na segurança...

A violência também está fora de controle. O Estado mais crítico, uma calamidade, é São Paulo, mas está praticamente impossível conversar por mais que 20 minutos com alguém sem que o assunto não descambe para furtos, roubos, estupros, mortes.

Assim como a Regina Duarte, que foi do medo ao PT ao encantamento por Dilma, o país está muito satisfeito com sua primeira presidente mulher. Mas Dilma não tem como lavar as mãos e explicar tudo como "herança maldita", tal como fazia Lula. Só se for a herança da "mãe do PAC" para ela própria.