quarta-feira, novembro 07, 2012

Uma democracia doente


Adelson Elias Vasconcellos

Está na hora dos políticos brasileiros começarem a ouvir, DE FATO,  o que o eleitor está dizendo nas urnas, ou melhor, fora dela.

Não é de hoje que os índices de abstenção vêm crescendo assustadoramente, é assustadora porque se dá num país em que o voto é obrigatório, o que em si já revela um vexame. Não se pode OBRIGAR ninguém a exercer um direito que a lei lhe confere. Ou é um direito, e ele o exerce livremente, ou é um dever do qual ele não tem alternativa, a não ser deixar de cumprir e se submeter, assim, às penalidades que a lei dispõe. 

Mas retomo o foco. O crescimento das abstenções, votos brancos e nulos revela certo desfalecimento do sentimento democrático do povo brasileiro. Há um forte desencanto com o discurso, com as ideias, com os programas, com os tais “compromissos” dos agentes políticos.  É de tal forma o desencanto que o eleitor prefere curtir o dia em casa com a família, porque sabe que tanto faz como tanto fez, o escolhido, seja ele quem for, pertença  a este ou aquele partido político, não terá o dom de mudar coisa alguma da porcaria que está aí. Continuará vigorando o mau hábito do político eleito fazer o que lhe der na telha, sem se sentir obrigado a coisa nenhuma junto ao eleitor de quem ele jamais será cobrado, já que a representação política, no fundo, não passa de uma ficção. Por aqui, até quem é pouco foi votado, acaba assumindo o posto carregado nos ombros pelos Tiriricas da vida.

Empossado, continuará a marcha desgraçada de capitalizar para seu bolso  mais e mais vantagens, esquecendo-se que está a tirar recursos que os eleitores entregam ao Estado para receberem, em troca, escolas melhores, saúde melhor, infraestrutura melhor, segurança segura.   Continuará expropriando o Erário com mais vantagens para si e para os seus, e dane-se futebol clube, já que esta forma de expropriação, que no fundo se trata de um roubo, está institucionalizada.  Ninguém vai preso por dobrar vergonhosamente seus próprios salários e verbas de gabinete fora outras patifarias transformadas em “verbas da representação parlamentar”, nome bonito que se deu para a pilantragem. 

E vai viver sob toda esta cretinice institucional trabalhando cada vez menos, e sem ter que prestar satisfações a quem quer que seja. Por quatro anos, a menos que cometa alguma lambança proibida por lei, viverá como marajá em meio à miséria dos milhões que o sustentam.

Em São Paulo, por exemplo, cerca de 1/3 do eleitorado não conseguiu identificar ninguém merecedor de seu crédito, e havia candidato para todos os gostos. No restante do país o quadro se repetiu.

Ora,  disse aqui, logo após o segundo turno, que todo este contingente somado aos votos dos candidatos de oposição, demonstravam bem que há não partidos hegemônicos. Podem um e outro predominar em determinados currais eleitorais, no entanto, em nível nacional, há uma imensa maioria de eleitores que não se sente representada por nenhum partido em especial. E isso se dá, acreditem, porque nem o partido que detém o poder federal conseguiu impor uma ideologia majoritária, tampouco as oposições conseguiram sintonizar a alma deste batalhão de pessoas que ou anulam ou simplesmente sequer comparecem para votar. 

E é precisamente este o grande recado das urnas. Não se trata de renovação como se tenta vender. Trata-se isto sim de falta de sintonia. Ninguém conseguiu entender o que estes milhões de votos soltos no ar esperam encontrar. E é justamente a partir daí que as oposições podem encontrar seu prumo. Porque, isto é certo, o PT apesar de sua presença crescente, o PMDB apesar de liderar ainda na maioria dos municípios, ambos não representam o pensamento e os anseios de, pelo menos, 1/3 dos eleitores.  

Assim, tanto a falta de sintonia quanto o desencanto com isso que está aí, vão fazendo estragos e tornando a vida política nacional quase coisa nenhuma.

Exemplo acabado do quanto parte dos políticos não conseguiu fazer a leitura correta do que as urnas estão clamando, é o senhor Gilberto Kassab. Não é nenhuma coisa nem outra, não é oposição, não é governo, é apenas poder. Se alia a quem estiver no comando e isto, definitivamente não é política, é adesismo puro, é pilhagem do poder, é oportunismo vagabundo. Segue a balada do que tem sido o PMDB, um enorme aglomerado de aproveitadores e oportunistas, que se aliam a qualquer governo apenas para tomarem para si cargos e verbas, enquanto o exercício de uma atividade representativa em favor desta ou daquela parcela da população fica relegada a lugar nenhum. 

É bom lembrar de como foi feito o PSD de Kassab: a união de inúmeros políticos pertencentes a partidos de oposição  ao PT. Vê-los agora agregados precisamente a quem um dia se opuseram é achar que o eleitor é um perfeito idiota. Como se viu, tanto no primeiro quanto no segundo turno destas eleições municipais, e como se vem observando já há algum tempo, o eleitor brasileiro quer votar em quem pensa como ele, que tenha um discurso que combine com seu pensamento, que conjugue no discurso os verbos de seu inconformismo com o Brasil que se arrasta miseravelmente sem sair do lugar, que não tolera mais políticos corruptos e impunes, que quer lei, ordem, trabalho, emprego, salário justo, mas, especialmente, serviços públicos dignos dos cinco meses de impostos que se obriga a pagar sem receber nada em troca. Ou seja, o eleitor brasileiro quer votar em alguém que sirva ao país e não apenas se sirva dele em proveito próprio.

Ou a classe política se toca de uma vez por todas que ela está na contramão do que pensa e deseja a sociedade, ou os fantásticos números de abstenções, brancos e nulos tenderão a crescer nos próximos anos. Se esta mudança vier a ser proposta por novos ou velhos, para o eleitor não interessa. Não é renovação de caras, e sim de modos, de jeitos, de ações, de atitudes. E aí tanto faz se o político tiver 18 ou 80 anos. Vai encontrar um imenso oceano de votos em seu favor. Porque, senhores, mudar as moscas apenas não bastará. 

E isto serve tanto para quem já exerce o poder quanto para aqueles que pretendem alcançá-lo. A reportagem da Folha reproduzida num post anterior, já mostra mais de 44% de eleitores que, se pudessem, simplesmente, não compareceriam às urnas. Creio que no restante do país este índice não deva ser muito diferente. E uma democracia na qual o eleitor não se sinta respeitado -  e a brasileira é bem assim - conduz, inevitavelmente, à irrelevância do voto. E este sintoma revela uma doença difícil de curar e que pode abrir caminho para o totalitarismo, uma vez que as forças que a ele poderiam se opor, perderam o encanto e a força de resistência. 

Assim, é de se esperar que as oposições se compenetrem de sua real dimensão. Não existe democracia sem imprensa livre e sem oposição. O adesismo sempre foi o lubrificante das engrenagens absolutistas responsáveis por milhões de mortes ao longo da história.