Adelson Elias Vasconcellos
Pesquisas, como diria Nelson Rodrigues, são como biquínis, mostram tudo menos o essencial. Mas, ainda assim,l quando feitas com apuro técnico, quando não dirigidas a parir um resultado pré-determinado, tal qual o camarada que começa lendo o livro do final prá frente, podem ser uma bela demonstração sobre o que pensam grande parte das pessoas.
Quando se está diante de uma pesquisa eleitoral, algumas condicionantes devem ser levadas em consideração. E, uma delas, sem dúvida, é o universo pesquisado.
Imaginem que um instituto qualquer, queira fazer uma pesquisa considerando por exemplo, a aprovação do governo Lula. Claro que, onde o peso maior do Estado na vida das pessoas é orientado pelo clientelismo e assistencialismo, irá indicar índice totalmente diferente daquela região onde este peso é muito menor.
Quando o Sensus divulgou sua última pesquisa sobre a corrida presidencial, tentei buscar razões que pudessem justificar um crescimento tão rápido de Dilma, num período de tempo tão curto. A questão, e disto não me havia dado conta, é que imaginava que, apesar de diferenças pontuais nos critérios que cada instituto de pesquisa emprega em seu trabalho, se as pesquisas seguirem princípios básicos de seriedade, mesmo que haja diferença nos resultados entre um instituto e outro, teremos um quadro mais ou menos homogêneo.
Tão logo o resultado foi divulgado, tirando-se aqueles analistas isentos, não empenhados em fazer boca de urna do petismo, não identifiquei em seus comentários a mesma festa alegórica dos militantes e meliantes que, sob o signo do jornalismo, se empenham em bater tambor em favor das esquerdas.
Havia algo que me escapava, não o quê, mas o sentimento da falta de um elemento que ligasse todos os pontos era intrigante.
Não identificava razões para alguns estúpidos ficarem festejando o tal do “empate técnico” entre Dilma e Serra. A começar que este “empate” dependia de algumas condições sobre as quais não se tinha nenhuma certeza. Primeiro, era preciso que, na relação dos prováveis candidatos, constasse o nome de Ciro Gomes. Apesar de toda a encenação de Ciro, se sabe que ele não concorrerá contra Dilma. Até porque há um perigo enorme de, em havendo segundo turno, ser ele o escolhido para se defrontar com Serra, e não Dilma. E este pensamento tira o sono de Lula que tudo fará para evitar o desastre.
Segundo, a margem de erro de tr5es pontos percentuais para cima ou para baixo, deveria indicar para cima com Dilma, para baixo com Serra para houvesse um encontro das águas.
Mas, sem a margem de erro e sem Ciro o que a pesquisa indica? Que Serra venceria já no primeiro turno. Assim, apesar de todo o carnaval dos governistas, melhor que se acautelassem. São muitos “ses” para que o empate esteja consagrado.
Mas e aquele algo mais, aquele fato novo, aquela explosão bombástica que justificasse uma mudança tão brusca no cenário em tão pouco tempo, onde estava? Nada !
Até que surgiu o estalo: afinal, qual o critério empregado pelo Sensus para apontar o resultado que divulgou? Fui pesqu8isar para saber quais universos foram pesquisados e... tchan, tchan,tchan... eis que a luz se fez.
Acontece, meus amigos, que a pesquisa CNT/Sensus, indicando “empate técnico” entre José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), deu peso expressivo, nas entrevistas, a municípios remotos alvos de programas assistencialistas de Lula, como o Bolsa-Família. O Sensus informou ao TSE que no Rio Grande do Norte, por exemplo, ouviu 9 pessoas em Natal (508 mil eleitores), onde o PT perdeu em 2008, e 13 em Sítio Novo (4 mil eleitores, 803 bolsas).
Em Santa Catarina, o Sensus entrevistou apenas 4 pessoas na capital, Florianópolis (306 mil eleitores), e 13 em Guaraciaba (7,7 mil eleitores).O Sensus ouviu apenas 4 pessoas na capital capixaba, Vitória (245 mil eleitores), e 17 em Venda Nova do Imigrante (14 mil eleitores).
Questionado, Ricardo Guedes, do Sensus, explica que todos os institutos usam a técnica “PPT” (Probabilidade Proporcional ao Tamanho) de municípios. A explicação convence a você? A mim, pelo menos, ela esclarece do “porquê” do resultado, e isto faz enorme diferença.
Sendo assim, ao invés de ampliar ao máximo o universo de entrevistados, para ter um apanhado o mais heterogêneo possível, concentrando as entrevistas maciçamente, como o Sensus fez, em beneficiários dos programas assistencialistas do governo Lula, é lógico que o resultado seria mais favorável ao candidato... do governo, no caso, Dilma.
Vale a pena lembrar que por trás de Vox Populi e CNT Sensus estão mineiros ligados ao sr. Clésio Andrade, bem conhecido de todos vocês. Mas existem mais discrepâncias nestas pesquisas. Por exemplo: na cidade de Saubara, BA, com 8.776 eleitores foram entrevistadas 15 pessoas. Em Porto Alegre com 1.043.389 forma entrevistadas… 15 pessoas! Em Florianópolis, com 306.040 eleitores, foram 4 pessoas, já em Afogados da Ingazeira com 26.195 eleitores foram… 16 entrevistados! Pergunta simples: este “método” tem alguma lógica? Só se for direcionada para “fabricar” um determinado resultado final.
Claro que Dilma, já há mais de dois anos em campanha eleitoral desbragada (o TSE continua cego), e sabendo-se que o percentual de eleitores cativos do PT somam cerca de um terço do total, cedo ou tarde, teria que se aproximar dos 30%, como agora. Isto é mais do previsto. Mas, reparem, que apesar de toda a máquina a favor, com Serra recolhido e confinado em São Paulo apenas, o tucano mantém a dianteira. E, a depender com que olhos se queiram analisar a recente pesquisa, ainda assim, leva já no primeiro turno.
O que isto quer indicar? Há sim uma grande rejeição ao nome de Dilma, e isto é um fato, mesmo que a pesquisa do Sensus queira ocultar.
Claro que para Serra vencer, o caminho além de longo, exigirá que a oposição saiba adotar a estratégia adequada, coisa que já analisamos aqui. Porém, e isto também é um fato, há uma imensa “conspiração” forças a favor não de Dilma Rousseff, a ministra chefe da Casa Civil, mas a favor da candidata de “Lula”. Pode não parecer, mas isto conta muito.
Carlos Montenegro, em entrevista ao Estadão (veja posts abaixo), afirmou, de forma arrojada até, que Dilma já teria captado o máximo de votos que Lula lhe poderia transferir e ele aposta, há nove meses da eleição, quase meia ano antes da campanha se iniciar, que a vitória não será “dela”.
Certo ou errado, é preciso que, aqueles que ainda permanecem indecisos, não se deixem nem influenciar tampouco intimidar, por estes números “fabricados” para agradar o cliente. Nem sempre a beleza da embalagem representa a realidade do que o produto contém. E este é o caso da Dilma.
Contudo, é preciso ter em mente que Dilma poderá até chegar lá. Nunca candidato em eleição alguma teve a seu favor uma máquina tão fabulosamente montada em torno de si. Não são apenas os recursos públicos, mas sindicatos, ONGs de todo o tipo, além, é claro, da própria militância. E o patrocínio desta estrutura se alicerça além da máquina pública, em setores tanto da mídia quanto do empresariado, aqueles que adoram uma bolsa BNDES e umas concessões tributár5ias e favores governamentais.
Só resta rezar para que a oposição, desta vez, tenha apreendido a lição que a campanha de 2006 lhes ensinou, e adote estratégia vencedora. E o primeiro passo, conforme deixei claro ontem, é defender sua própria obra, que, repito, não foi pequena.



