Comentando a Notícia
Numa longa entrevista concedida nesta semana à Folha de São Paulo, e da qual a Veja online extraiu um trecho em que Tarso Genro fala sobre segurança pública, esta criatura que está à frente do Ministério da Justiça, responsável pelo lançamento de programas sensacionalistas sobre segurança pública fez uma afirmação que merece entrar para a história. Ele que justamente deveria cuidar da segurança nacional, que pintou e bordou no ministério responsável pela área, declarou isto:
(...) "Não é em São Paulo que a segurança pública está problemática", afirmou. "É o sistema todo de segurança pública no País que está falido e tem de mudar."
"Os índices de violência que têm aqui em São Paulo são índices que têm em todos os Estados, em todo o País".(...)
Vamos por partes. Em relação à “problemática” de São Paulo, provavelmente, Tarso estivesse se referindo ao noticiário sobre o aumento da criminalidade em São Paulo. Muitos se preocuparam em fazer alarido e quase ninguém se deteve em analisar para esclarecer, que é o que importa mais. Reinaldo Azevedo, pondo de lado os lambaceiros de plantão, se preocupou em, primeiro analisar, e depois esclarecer. E a conclusão a que chegou foi, de fato esclarecedora: o que se praticou, em parte da imprensa, ao comentar os números da violência em São Paulo, foi cometer violência sobre os números. O texto do Reinaldo segue abaixo.
Mas, antes dele, quero me fixar em algumas das afirmações do Tarso Genro. Primeiro que “problemática” não é a violência de São Paulo que, conforme veremos, o índice em 100 mil pessoas, teve um acréscimo de 2,8% entre 2008 e 2009. Contudo, levando-se em conta os números de 1999, portanto, de 10 anos atrás, a redução da violência em São Paulo foi de fantásticos 65%; onde, então, se situa a “problemática” afirmada pelo ministro?
O que se esconde por detrás desta afirmação, é a tentativa cretina de se igualar as políticas de segurança desenvolvidas por São Paulo, com as desenvolvidas pelo governo federal. Não dá. Os números não deixam dúvidas: se o responsável pela segurança pública brasileira, admite a falência do sistema em todo o país, sendo que Genro a comandou durante o segundo mandato de Lula, quem é o responsável pela irresponsabilidade cometida? O próprio Genro, não é mesmo?
Assim, quando ele diz que vai deixar o ministério a partir de 10 próximo, devemos respirar aliviados. Pelo menos ele não continuará a tornar ainda pior a falida segurança pública que ele próprio comandou.
E mais: São Paulo é a prova provada de que a violência no país tem jeito. É só fazer a coisa certa, agir com mais técnica e com menos ideologia. E não é a segurança do país que está falida, não: são seus governantes e ministros de estado, mercê a sua extremada incompetência.
Os números da violência e a violência com os números
Reinaldo Azevedo
A Folha de S. Paulo anuncia hoje, em manchete, com estardalhaço: “Homicídios crescem em São Paulo após dez anos”. Segue o rigor intelectual e a isenção jornalística que costumam caracterizar o caderno chamado “Cotidiano”.
Quais são os dados? Foram 4.557 homicídios em 2009 contra 4.426 em 2008: 131 a mais. O estado de São Paulo tem 42 milhões de habitantes. Num gráfico, lá no pé da página, o jornal informa números que são públicos: em 1999, houve, em números arredondados, 12,8 mil homicídios. Em 2009, 4,5. A redução é de estupendos 65%. Trata-se de uma redução rara, se não for única, no mundo.
Os números que interessam quando se pensa uma política de segurança pública são os chamados mortos por 100 mil habitantes: eram 35,27 há 10 anos contra 10,95 no ano passado. Comprando-se 2008 com 2009, tem-se 10,76 mortos por 100 mil antes contra 10,95 agora. O aumento é de 2,8%. Qualquer especialista isento sabe que isso não caracteriza nem mesmo uma tendência.
Pode-se alegar sempre que esses dados estão na reportagem. Estou tratando aqui do que chamo “alarde”. Manchete e reportagem tentam caracterizar uma espécie de degeneração da segurança pública. E cometem, obviamente, uma omissão muito grave. O leitor tem o direito de saber se esses números, dada a realidade brasileira, colocam o estado de São Paulo entre os mais seguros ou os menos seguros do Brasil.
No dia 12 de maio do ano passado, o secretário nacional de Segurança Pública, Ricardo Balestreri, admitiu haver mais de 40 mil homicídios por ano no Brasil. Estudiosos da área e ONU falam em mais de 50 mil. São Paulo tem 21% da população brasileira e conta com 11% (segundo números do governo federal) ou 9% (segundo estudiosos) dos homicídios. Qualquer pessoa com os neurônios ajustados percebeu o óbvio, não? No Brasil como um todo, tem-se algo em torno de 25 homicídios por 100 mil habitantes; em São Paulo, 10,95%.
ATENÇÃO: SE A TAXA DE HOMICÍDIOS NO BRASIL FOSSE IGUAL À DE SÃO PAULO, EM VEZ DE 40 MIL OU 50 MIL MORTOS, ELES SERIAM 21.900. SE ALGUÉM LÁ NO COTIDIANO QUER APRENDER A FAZER CONTA, EU ENSINO. Se a segurança pública no Brasil tivesse a eficiência da de São Paulo, seriam poupadas, por ano, entre 18.100 e 28.100 vidas.
A Folha ignora reportagem do próprio jornal publicada em 2008. Levantamento junto a secretarias de segurança, com informações do IBGE, apontou os dez estados com maior número de homicídios por 100 mil. Comparem com os números de São Paulo.
1. Alagoas - 66.2
2 .Esp. Santo - 56.6
3 .Pernambuco - 51,6
4 .Rio - 45,1
5 .Bahia - 32,8
6 .Rondônia - 30,3
7 .D. Federal - 28,0
8 .Paraná - 27,1
9 .Sergipe - 26,9
10 .Mto.G, do Sul - 25,2
Só uma coisinha: de 2009 para 2008, houve um aumento de 2,8% nos homicídios, certo? Ocorre que, de 2008 para 2007, a redução havia sido de fantásticos 9,25%. Posso estar enganado, mas acho que não foi manchete do jornal, que ainda colocou os números sob suspeita, e disso tenho certeza.
“Nossa! Como você protege o governo de São Paulo!” Não! Protejo os fatos. Não adianta me atacar. Não adianta chutar a minha caenal, enfiar o dedo no meu olho e me chamar de bobo. Tentem contestar, os que puderem, os números. A manchete de hoje só serve de material ilustrativo da campanha eleitoral do PT e nada informa sobre a realidade da segurança pública em São Paulo.