sexta-feira, julho 13, 2012

O real peso do poder para o povo brasileiro


Adelson Elias Vasconcellos


O jornalista Gilberto Dimenstein assina uma coluna na Folha que, confesso, não ser um leitor assíduo e, quando cruzo por ela, geralmente, não concordo muito com as opiniões que o jornalista expõe. Mas isto não impede de concordar com ele quando entendo que ele está certo. Hoje, então, ele vai direto a um ponto sobre o qual tenho me debatido aqui no blog há muito tempo, para não dizer desde sempre.

Já o título  é bem apropriado: Brasil não sabe quanta paga pelo poder. Por um lado, poderia ser uma indagação, uma espécie de desafio que ele propõe ao debate. De outro, pode ser uma afirmação que, sob a ótica pessoal do jornalista, chega a ser uma constatação.

De fato, o poder no Brasil é caro, muito caro. Não vale o quanto pesa sobre o país. Se a gente for coletar as principais mazelas nacionais, as centenas de carências a que a população está entregue, vamos constatar que todas, sem exceção tem começo, meio e fim  neste peso asfixiante.

Reparem: a depender do câmbio, o Brasil hoje é a 6ª ou 7ª economia do mundo. Portanto, a riqueza produzida no país não é pequena não. De tudo o que geramos, cerca de 38% fica com o Estado. Isto não seria preocupante se deste montante,  o Estado retornasse para sociedade, em serviços e investimentos, a maior quantia deste total. Seria se fosse, mas não é. Em investimento mal chega a 2% e, em serviços, bem basta a avaliação que a própria sociedade faz dos “tais serviços” que o Estado lhe entrega.

É muito pouco, ou quase nada, para o tamanho do garrote que nos é aplicado. Só da pessoa física, são cinco meses por ano de trabalho que o Estado retém para si. E, no entanto, a educação é péssima, a saúde está em estado terminal, a segurança é a pior possível, o saneamento básico literalmente é uma merda, o transporte público  é um lixo, e a infraestrutura é um horror. Notem, ainda, que grande parte destes “serviços” teve sua estrutura criada em outros tempos. Competiria ao Estado dar-lhes manutenção, ampliá-los e qualificá-los. Não há manutenção, não há ampliação e a qualificação é nenhuma. 

Agora, a partir da Lei de Acesso à Informação é que começaremos a enxergar nas mãos de quem o país está entregue. Apenas pelas amostragens já é possível perceber o espanto. Comentando aqui sobre a tal elite estatal, informamos que a folha dos servidores federais chega próxima dos R$ 200,0 bilhões e que, se atendidas às reivindicações salariais das diferentes categorias de servidores chegará a R$ 280,0 bilhões.  

Agora, imaginemos o custo considerando-se o Brasil como um todo, união, estados e municípios, e em todas as esferas de poder, Executivo, Legislativo e Judiciário, o total que esta estrutura colossal representa em gastos para o país! É uma fábula, uma fortuna que na contrapartida não se justifica. 

Portanto, vivas à Lei de Acesso à Informação porque, através dela, a sociedade brasileira conhecerá o peso que, de fato, representa o real custo do poder no Brasil. E é sempre bom lembrar que, deste cálculo, não podemos deixar de fora a grana distribuída aos centilhões de partidos e partidecos políticos que vicejam por aí, e as estatais – ah, as estatais! -  e fundações. Claro que se deve levar em conta o tamanho gigante deste país continente que é o nosso Brasil, como, também, as diferenças geográficas das diferentes regiões. Tudo isto impõe um severo custo para a manutenção da máquina pública, mas tais aspectos nem autorizam tampouco justificam a péssima qualidade dos serviços e a falta de investimentos em escala ao menos razoável.  Não são recursos que nos faltam, e sim maior eficiência proveniente de melhor gerenciamento dos recursos, a partir de um projeto de país com o devido escalonamento de prioridades.

Há um projeto correndo no Congresso que, se aprovado, dará ainda melhor certeza ao que afirmamos quanto à falta de melhor gerenciamento de recursos. Por este projeto, todas as mercadorias e serviços deverão informar e especificar os impostos embutidos no preço final. 

Diante de tais informações, ficará claro para a sociedade o real custo do poder no Brasil, o total de recursos que é gasto e consumido dentro de um aparelhamento despropositado para as diferentes carências com que vive e sofre esta sociedade. 

Esta transparência representará um novo grito de independência. Impossível que a população continue indiferente ao que se passa à sua volta  e permaneça inerte aos absurdos que são cometidos em seu “pretenso” nome. 

Se de um lado a Lei de Responsabilidade Fiscal serviu para por ordem nos gastos públicos e evitar os bilionários rombos orçamentários causadores de hiperinflação e superendividamento, a lei do Ficha Limpa evitar que bandidos profissionais ingressem na vida pública para nela continuarem sua delinquência, a Lei de Acesso à Informação tornará, com o tempo e apesar das resistências que já existem mas que serão vencidas, a vida pública brasileira mais transparente, permitindo que a sociedade exerça seu papel de fiscalizadora do destino que é dado ao seu dinheiro, e exerça efetiva cobrança para que o Estado cumpra seu dever com a riqueza que retira do que o país produz. 

Por mais “demorado” que este processo se solidifique,  a transparência é um caminho sem volta. Apostar no contrário, ou resistir a este movimento, é desconhecer a própria história humana. No caso brasileiro, apesar da demora, está chegando o bom momento do brasileiro tomar o destino do seu país em suas mãos. Falta-nos ainda, e antes de qualquer outra conquista, impor aos diferentes governos que estão aí e que ainda virão, que a prioridade número Um, do qual não podemos abrir mão e que os governantes DEVEM CUMPRIR, é promover a Educação ao seu grau mais alto. A recente lei que fixou em 10% do PIB os investimentos em educação já foi um passo decisivo. Agora precisamos cobrar e exigir que a lei se cumpra. E será através da educação que não apenas os eleitores se educarão para melhor escolherem seus representantes, como ainda aprenderão a exigir, fiscalizar e cobrar suas atuações em favor da sociedade, e não apenas de si mesmo como hoje ocorre.   

Os leitores hão de convir que, em seis meses, praticar uma nona revisão do PIB brasileiro, não é coisa que se possa considerar como “normal”. O pior é que estas revisões são sempre para baixo. Agora, projeta-se uma variação positiva em 2,05%. Ou seja, se 2011 já foi ruim, 2012 desenha-se como péssimo.

Sobre o pibinho – 
Segundo informou o BC, o Brasil pode ter tido retração no PIB em maio. Coisa pequena, em torno de 0,2%. Considerados os 12 últimos meses, seria de 1,27%. Talvez fechemos 2012 com algo em torno de 2,0% e não muito mais do que isso. Portanto, cresceremos menos neste ano do que o baixíssimo crescimento de 2011. Mas considerando as solenidades de lançamentos de pacotinhos por atacado, como também os discursos, promessas e outros que tais, covenhamos, se trata  de um vexame. Em seis meses, foram nove, NOVE correções de rumo, e sempre apontando para baixo. Neste ritmo, periga virar 2012 com PIB menor que o americano, mergulhado em crise profunda, e só um pouco melhor do que os países europeus quebrados como Grécia, Itália, Espanha e Portugal. Vamos perder até para os latinos. 

Como estamos pedindo há algum tempo, passa da hora do governo rever o diagnóstico sobre a economia brasileira e atacar nas reformas estruturais. Não interessa o preço político que o governo petista terá que pagar, ele está governando o Brasil para o Brasil, e não para o partido. Tem, portanto, obrigação de fazer o melhor para o futuro do país. Enquanto navegar neste cretinismo que é a sua ideologia e seu projeto de poder, mais ficará comprometido este futuro.

Compete que a presidente Dilma reúna seu staff econômico para rediscutir seu programa de governo e redesenhe sua estratégia para a economia brasileira. Do jeito que vai, e já existem alertas neste sentido, o Brasil até poderá ser rebaixado do grupo dos BRIC’s para o dos subdesenvolvidos. Seria um papelão do tamanho do mundo!

Para encerrar: presidente Dilma, não existe bem estar social, seja para crianças, adolescentes, adultos e velhos, sem crescimento econômico. E o que mede este crescimento é o PIB. Para que as crianças e adolescentes tenham um futuro melhor é imprescindível  que o país cresça e se desenvolva, ok? Saiba reconhecer um mau resultado quando estiver diante de um. Dê todas as desculpas que quiser, mas não tente desfazer de um indicador que é estratégico para qualquer nação, está certo? 

Descalabro
Uma nota na página do Cláudio Humberto, serve para reforçar minhas críticas em relação à elite estatal e suas vantagens imorais num país com tanta miséria. Será que alguém explica o descalabro?

"A divulgação dos salários no Senado, determinada pelo Supremo Tribunal Federal, vai revelar que senadores ganham menos que o funcionário do protocolo, por exemplo. Para carimbar documento, um servidor com ensino fundamental incompleto chega a ganhar R$ 27 mil."

E dizer que o governo petista tem a safadeza de cobrar imposto de renda na fonte de quem recebe 2,8 salários mínimos! E depois não sabem as razões da nossa má distribuição de renda. As causas estão todas no poder que desgoverna o país.

Dilma quer reinventar a roda


Comentando a Notícia

Em texto de Rafael Moura e Tânia Monteiro para a  Agência Estado, leiam a seguir, a declaração “revolucionária” de Dilma Rousseff, após ter sido informado pelo pífio desempenho da economia brasileira no primeiro semestre.  Voltaremos depois para comentar.

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Uma nação não é medida pelo PIB, afirma Dilma

Para a presidente, Brasil será um país desenvolvido quando todas as crianças e seus jovens tiverem acesso à educação de qualidade

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff afirmou na manhã dessa quinta-feira que a grandeza de uma nação não é medida pelo Produto Interno Bruto (PIB), mas pelo que faz pelas suas crianças e adolescentes. "Uma grande nação deve ser medida por aquilo que faz para as suas crianças e adolescentes, não é o PIB, é a capacidade de o País, do governo e da sociedade de proteger o seu presente e o seu futuro", discursou Dilma, diante de uma plateia formada, na maioria, por adolescentes, durante a 9ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e Adolescente.

"O Brasil durante muito tempo conviveu com uma situação lamentável e terrível, ser um país com tantas riquezas, formado por um povo tão solidário, mas que uma parte imensa da sua população estava afastada dos direitos e, sobretudo, dos benefícios dessas riquezas e de tudo que esse país pode produzir", afirmou.

Dilma destacou programas do governo federal, como o Brasil Carinhoso e o Bolsa Família, prometendo aumentar - até o final de 2014 - de 33 mil para 60 mil escolas o número de escolas de ensino fundamental e médio que tenham dois turnos.

"Vamos disputar o que é a economia moderna, que é a economia do conhecimento, aquela que agrega valor, a internet, as tecnologias de informação. Esse país vai ser um país desenvolvido quando todas as crianças e seus jovens tiverem acesso à educação de qualidade", afirmou.

"Lugar de criança e adolescente é na creche e na escola, num ambiente seguro, é nas escolas técnicas, é nos campos esportivos, é em todas as manifestações artísticas, é sobretudo em um ambiente seguro, livre da miséria, da violência e dos abusos."

No encerramento do discurso, a presidente manifestou apoio à candidatura do brasileiro Wanderlino Nogueira Neto ao Comitê de Direitos da Criança da ONU. Dilma deixou o Centro de Convenções Ulysses Guimarães, local do evento, sem falar com a imprensa, evitando comentar a redução da taxa Selic, definida ontem pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Por PIB – Produto interno bruto, entende-se a soma de toda a riqueza por um país. É um indicador que afere a atividade econômico de um país, um estado, um município, uma região. É através dele que podemos mensurar a direção que o país está tomando em termos de crescimento. 

Dilma resolveu inovar. Disse que uma grande nação não se mede apenas pelo tamanho do PIB.  Preferiu resvalar pelo imensurável, pela fantasia, pelo delírio. Preferiu aconchegar o discurso ao ambiente e aos ouvintes da plateia já que se tratava de uma solenidade em nome de crianças e adolescentes. De fato, visto sob certa ótica, a presidente está certa: uma grande nação não se mede apenas pelo tamanho do PIB. Vejamos, então:

a.- Que tal pelo tamanho geográfico? Neste caso, o Brasil é sim uma grande nação.

b.- Que tal pelo tamanho da população? Neste caso, o Brasil também é uma grande nação.

c.- Que tal pelo IDH, índice de desenvolvimento humano? Neste caso, em que posição no ranking se situa o Brasil?

d.- A presidente falou em preocupação com suas crianças e adolescentes. Claro, isto é um fato que ninguém discute. Mas, então, qual o índice de mortalidade infantil? E qual a quantidade de crianças em trabalho infantil?

e.- Crianças e adolescentes merecem cuidados especiais, certo presidente? Então, neste caso, imaginamos que a educação deva ser a prioridade número um em seu governo. Pois bem, quanto percentualmente o Brasil investe em educação? E comparativamente, como nos colocamos neste ranking em relação aos demais países?

f.- E já que falamos em educação, como ficaram nossos alunos no último teste de avaliação internacional?

Presidente Dilma: apenas pelos indicadores acima, tirando a geografia e a população, no restante nosso país aparece na rabeira de qualquer dos rankings citados.  Acredite, o Brasil pode até ser um grande país, mas ainda não é uma grande nação qualitativamente falando. O caminho até lá é muito longo, e vai depender muito do que a gente investir hoje para melhorar os indicadores acima. E, neste sentido, perdoe-me presidente, mas seu governo não consegue sair da promessa, por mais entusiasmo com que é revestida.  

Discurso não prova coisa alguma, o que conta são resultados e, neste campo, estamos muito longe. Creio que durante a campanha eleitoral a senhora deva ter percorrido alguns dos grotões brasileiros e deve ter constatado o muito de miséria, pobreza e indigência que ainda temos para ser vencido até transpassar as fronteiras de um país subdesenvolvido para o de nação desenvolvida. No gogó ninguém vence esta barreira.  Assim, aceite a sugestão: menos discurso ufanista, e mais trabalho naquilo que realmente interessa. 

E, faça um favor a si mesma: não tente reinventar a roda. O PIB é um indicador econômico valioso,  e dentre outros, serve sim para aferir uma grande nação. Por mais que se desgoste do resultado que, de fato é ridículo, o primeiríssimo passo para mudá-lo, melhorando o indicador de acordo com as potencialidades do país,  é dar a ele a dimensão de importância que ele merece. E, a partir daí, presidente, trabalhar para elevar o mau resultado. Porque ninguém terá futuro melhor se o país não crescer e este crescimento é justamente medido pelo PIB.

E já que a presidente se preocupa tanto com o “bem estar social e o futuro das crianças e adolescentes (mais demagógico só mesmo os discursos de Lula), não deixe de ler e conferir a situação das universidades federais, sem futuro nenhum no estado em que se encontram..  Aqui


A demissão por justa causa


Adelson Elias Vasconcellos


Qualquer político eleito deve seu mandato à sociedade. Esta outorga, contudo, não lhe permite transgredir as regras, os regulamentos e as leis que ditam os caminhos e as fronteiras de suas atuação. Portanto, a um político não é dado que, por ter ganho nas urnas um mandato, seja parlamentar ou executivo, sinta-se livre para fazer o que lhe der na telha. Em países autoritários, os políticos enfeitam as leis de acordo com a sua vontade. Na democracia, as leis preexistem ao mandato. Assim, mesmo eleito por esmagadora maioria, se descumprir as regras que delimitam este mandato, estará sujeito a perda dele. E isto vale tanto para um vereador dos grotões como para um presidente da república.  Na democracia, as instituições sobrevivem e garantem a integridade do regime justamente por submeter todos a uma mesma régua e compasso.

É por este diapasão que as deposições de presidentes na América, casos de Collor, no Brasil, Manuel Zelaya, em Honduras e, recentemente, Fernando Lugo no Paraguai, feitas sob a guia constitucional, aprovadas pelo parlamento destes países e, posteriormente, referendadas pelo Poder Judiciário, jamais se caracterizarão como ”golpes”, porque a deposição feita de acordo com a lei democrática golpe não é.

A queda de Demóstenes, cassado no Senado por ampla maioria, deve ser vista sob vários ângulos e, todos representam um pouco do Brasil atual. Voltando um pouquinho no tempo, vamos lembrar de outros dois senadores envolvidos em acusações diversas de desvio de função, ainda no reinado de Lula. Falo de José Sarney, o vampiro da República, e de Renan Calheiros, o cínico de Alagoas. Ambos pertenciam à base de apoio do presidente e, só por conta disto, tiveram seus mandatos mantidos. Fossem ambos da oposição, teriam conhecido as mesmas agruras e teriam descido ao inferno da mesma forma como agora acontece com Demóstenes Torres. 

Havia na atuação do agora ex-senador goiano, a defesa firme e rigorosa de valores e princípios que, em função da cassação, temo venham a ser  postos de lado. O discurso da moralidade, do respeito à lei e à ordem, e isto já se percebe em algumas páginas na internet, são coisas hoje mal vistas. Justamente porque quem as defendia com maior vigor, foi apanhado pregando moral em cueca. Falava uma coisa, fazia outra. 

Deste modo, seus valores agora passam a ser questionados, e se mais adiante outro parlamentar aparecer com o mesmo discurso sempre será visto com desconfiança, do tipo “será que ele não é outro Demóstenes?”. E isto é preocupante, porque os maus políticos que permanecem no Senado, e mesmo aqueles que já correram sob a corda bamba e se safaram, acreditam que podem continuar agindo da mesma forma criminosa e tudo bem. Outros, poderão se sentir tentados a serem cafajestes sem riscos desde que se bandeiem para a base aliada... 

E os valores que o senador defendia? Mais do que os parlamentares, bons ou maus não importa, o que me preocupa é que estes valores sejam mal vistos, ou considerados como virtudes nefastas. Se for este o caminho, bem, não há jeito de evitar que o parlamento se degrade  mais um pouco. Há quem considere que o Senado se valorizou um pouco com a cassação de Demóstenes. Bem, meus caros, mesmo que tenham sido eleitos em seus estados pela maioria do povo, gente como Sarney, Collor e Renan, apenas para ficar nestes exemplos, não representam, a meu ver, valores que se deve seguir. Respeito a instituição, mas não sou obrigado a respeitar gente deste naipe. E, infelizmente, o que lá vigora são os valores desta trinca, e definitivamente, não os meus valores, ou os valores da grandiosa maioria do povo brasileiro. Espero, sinceramente, estar enganado, mas creio que a queda de Demóstenes tenha este significado: a de que ética na vida pública é coisa do passado e na política somente os cafajestes sobrevivem.

O agora ex-senador caiu não apenas porque se uniu e tornou-se um despachante legislativo do crime organizado. Caiu porque professava um discurso na direção contrária. Caiu por seus enganos, por suas máscaras, por sua dupla atuação e caracterização na vida pública, caiu até por vingança de alguns de seus pares, ou pelo desejo de petistas em destruir um pouquinho mais a oposição ao governo. Pode ter sido  deposto por todos estes fatores e motivos, e outros mais que a gente talvez desconheça. Mas, por certo, jamais terá caído  pelos valores que, pretensamente, dizia defender e respeitar. E, justamente por ter traído e renunciado a estes valores de forma camuflada até ser descoberto e ver sua máscara arrancada, é que agora é apenas um ex-senador cassado. 

Mas um aspecto positivo podemos destacar nesta cassação: a de que ninguém está acima da lei. O voto popular não confere ao eleito salvo conduto para delinquir. Em sua defesa o ex-senador tentou usar este argumento, assim como os presidentes depostos no Brasil, Honduras e Paraguai. Como disse, todos caíram por não honrarem seus mandatos e terem transgredido as fronteiras que a lei delimitou. Foram demitidos por justa causa. E este entendimento deve vigorar sempre e cada vez mais. Porque, senhores, há limites até para ser cafajeste. E isto vale muito mais na vida pública, porque o mandato não pertence ao eleito, e sim ao povo. E no exercício do mandato é como se o eleitor estivesse ali e, portanto, ao parlamentar escolhido não cabe trair esta confiança. 

Assim, que este significado e os valores de integridade moral na vida pública, encarnados pelo personagem, não pelo ator,  permaneçam como baluartes a conduzir a ação parlamentar brasileira. E que todos por ela se guiem. É uma esperança, eu sei, mas poxa, todos temos direito de sonhar, até com a possibilidade de que um dia a política brasileira se moralize. Mas para isso ser possível, nosso voto deve ser honrado também. Moralizador. Ético. Seletivo. Porque se continuarmos a por no Congresso cafajestes, não podemos esperar que a política nacional deixe de ser cafajeste. Não se pode exigir e cobrar de ninguém, o caráter que ele não tem.

O personagem que o ator Demóstenes Torres encarnou tinha o roteiro certo. Pena que o ator resolveu mudar o script e incorporar no personagem o caráter do ator. E esta é uma mistura pouco saudável quando o ator é ruim. O resultado é que a peça se torna um tormento, um desastre. Um enredo ruim, até um bom ator pode salvar, mas não há peça que resista ao mau desempenho de um péssimo ator. Demóstenes Torres, neste sentido, foi dispensado da companhia por mau desempenho. Foi demitido por justa causa. 

“Brasil vai crescer menos do que os EUA”, diz Forbes


Naiara Infante Bertão
Veja online

Imprensa e analistas internacionais destacam o mau desempenho do país, com queda do IBC-Br de maio, além de desaceleração na indústria e no comércio

 (Ueslei Marcelino/Reuters)
Analistas duvidam que o ministro da Fazenda, 
Guido Mantega, consiga evitar um 'pibinho'

IBC-Br “jogou combustível ao argumento de que o modelo do Brasil, baseado no desenvolvimento impulsionado pelo estado, tem levado o crescimento a um beco sem saída”, diz Financial Times

"Existe um risco cada vez maior de o crescimento do PIB brasileiro ficar ainda mais fraco que os 2% de avanço que espero para os EUA", afirma Robert Wood, da EIU

Depois de ser um dos “queridinhos do mercado” no ano passado, o Brasil não é mais visto pelos investidores internacionais como um lugar sem crise e em pleno desenvolvimento. Matéria da revista Forbes desta quinta-feira destaca que entre os BRICs – grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China – o país é o que vai crescer menos. A reportagem ressalta que a economia doméstica terá desempenho pior que a americana, epicentro da crise financeira internacional, que até hoje luta para voltar a crescer. “A projeção é que os Estados Unidos cresçam 2% neste ano, o maior avanço entre os países desenvolvidos. Entretanto, o PIB do Brasil parou completamente, dando-lhe o pior desempenho entre os quatro maiores emergentes (BRICs)”, diz a Forbes.

A publicação repercute o índice de atividade econômica do Banco Central, o IBC-Br, divulgado nesta quinta-feira. O dado – que é considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro – teve em maio retração de 0,02% na comparação com abril. Apesar de a queda ter sido muito leve, a estatística revelou uma mudança de tendência (antes só se via alta no índice) que surpreendeu o mercado. Além disso, o índice de abril foi revisado para baixo: a expansão real passou a 0,10%, contra os 0,22% apurados anteriormente. Nos cinco primeiros meses do ano, o IBC-Br acumulou alta de 0,40% em comparação com mesmo período de 2011, ao passo que, no acumulado de doze meses, o aumento foi de 1,27%.

A Forbes lembra ainda que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) já havia divulgado dois indicadores ruins em julho: as vendas do varejo caíram 0,8% em maio ante abril, a maior baixa desde novembro de 2008, e a produção industrial mostrou declínio mensal de 0,9%, o que significou o terceiro resultado negativo consecutivo neste tipo de comparação.

Projeções – 
A expectativa de que o país passe vexame entre os emergentes e fique, inclusive, atrás de uma economia desenvolvida em dificuldade, a americana, é endossada por analistas. Robert Wood, da Economist Intelligence Unit (EIU), afirmou ao site de VEJA que, por ora, suas projeções apontam para uma expansão de 2% tanto para a economia dos EUA como para a do Brasil. "Mas existe um risco cada vez maior de o crescimento do PIB brasileiro ficar ainda mais fraco que os 2% que espero para os EUA", destacou. Também consultado pela reportagem, Jim O'Neill, economista do Goldman Sachs e o criador do termo BRICS, procurou não endossar a projeção pessimista da Forbes. "Espero alta de 3,4% para o PIB do Brasil neste ano e 2,2% para a economia americana, mas vou revisar esses dados na semana que vem", declarou. 

Fracasso do modelo – 
Outras publicações, como o prestigiado jornal britânico Financial Times, também registraram a queda do IBC-Br nesta quinta-feira. Sob o título “Economia brasileira: indo para lugar nenhum”, o jornal inglês diz ainda que o indicador “jogou combustível ao argumento de que o modelo do Brasil, baseado no desenvolvimento impulsionado pelo estado, tem levado o crescimento a um beco sem saída”. 

O jornal contesta a efetividade das medidas – monetárias e econômicas – tomadas pelo Banco Central e pelo Ministério da Fazenda para alavancar o consumo e dar suporte à indústria. “Com o México crescendo em seu espelho retrovisor, líderes brasileiros devem pensar se não poderiam aprender com os concorrentes de crescimento mais rápido e pensar em reformas, como a do mercado de trabalho”. Na quarta-feira, o Banco Central anunciou novo corte na taxa Selic, para 8% ao ano, destacando o fato de que a desaceleração da economia e a crise internacional abrem espaço para a queda dos juros.

O The Wall Street Journal, dos Estados Unidos, lembra que, no mês passado, o banco Credit Suisse revisou para baixo sua expectativa de crescimento para a economia nacional para apenas 1,5% neste ano, abaixo do consenso do mercado que está por volta de 2%. Isso foi “uma surpresa para a nação sul-americana, que uma vez foi sinônimo de crescimento rápido”.

O jornal afirma que o Brasil é, em parte, vítima de seu próprio sucesso. Com o real em alta na última década e investidores colocando bilhões de dólares no país, a indústria doméstica agora tem dificuldade de competir no mercado externo. A apreciação do câmbio descortina, na prática, as deficiências estruturais da economia brasileira. O grande problema, segundo analistas consultados pelo WSJ, é que o modelo de crescimento do Brasil – que mistura exportação decommodities, protecionismo industrial e a demanda do consumidor alimentada pelo crédito – parece ter perdido o fôlego.

Fora dos BRICs? – 
A publicação lembra também que o economista Jim O’Neill acredita que a desaceleração pode levantar questões sobre a permanência do Brasil no grupo dos BRICs. Ele tem argumentado, segundo o WSJ, que o país pode ter atingido seu limite de crescimento e agora os investidores estariam migrando para outras economias da região como México, Chile, Colômbia e Peru, que crescem mais que o Brasil. 

Recordar é viver, não é mesmo, ministro Mantega?


Comentando a Notícia

Se diz que brasileiro tem memória curta. E se justifica este mito pelo lado da formação cultural incipiente, pelo lado da educação deformada, e pelo pouco interesse do brasileiro em se informar sobre acontecimentos políticos de seu próprio país. Tirando os exageros de uns e outros, o fato que livros, jornais e revistas saem caro para bolsos quase vazios dos quais os reais que saem se destinam à sobrevivência, isto à alimentação e moradia. O resto, como se diz, a gente dá um jeito.

A vantagem da leitura é que ela deixa vestígios no passado de como as pessoas são ágeis no manejo opiniático sem fundamento. Assim, mais adiante, e diante de determinadas circunstâncias revira esta memória em busca de algumas respostas. Por exemplo, durante o governo Lula, muitos cobraram do ex-presidente “coerência” em relação aaos seus discursos quando era oposição “a tudo que está aí”.

Pululam na internet, via youtube, vídeos em que Lula emitiu opiniões  contra o Plano Real quando de seu lançamento. Também passeiam vídeos em que Lula senta o porrete nas diferentes bolsas implementadas e distribuídas por FHC, que tentaram minorar as agruras dos mais desfavorecidos. 

No governo, Lula não apenas manteve o Plano Real e todas as suas reformas circundantes, mas ainda acolheu as bolsas em torno do Bolsa Família, criada com a mesma finalidade com FHC as criara. 

É fácil cobrar coerência de Lula, uma vez que dia sim, dia também, o homem não sai da mídia. Nem o câncer o manteve distante dos holofotes. Num se viu um ex ser tão “candidato” a sucessor de sua sucessora como Lula. 

O que pouca gente recorda foram as declarações e opiniões, por exemplo, do atual ministro da Fazenda Guido Mantega. Olhando-se para a salada confusa com que ele vem conduzindo a sua pasta, até dá para saber que ele “foi do contra”. 

Assim, quanta felicidade encontrar alguém que recorde este passado recente do atual ministro da Economia e traga para o presente   estas “memórias”. E foi o que fez o jornalista Augusto Nunes em seu blog nas páginas da Revista Veja. Tem quem não goste na revista semanal da Abril – as esquerdas, então a detestam -, tem quem não se encante com o texto do jornalista. De minha parte, confesso, enquanto um e outro emanarem opiniões com as quais também concordo, não tenho problema existencial nenhum. 

Mas para quem aprecia um e outro, ou apenas um, ler a republicação do artigo de Guido Mantega, datado de 12 de julho de 1994, e publicado no jornal Folha de São Paulo, é bastante divertido.

Faço questão de transcrever a memória do Augusto Nunes porque isto nos ajuda a entender o momento que vive a economia brasileira no momento. Quem acompanha o blog, sabe bem o quanto tenho sido crítico das ações do senhor Mantega à frente do Ministério da Fazenda.  E a crítica não é recente não: ela é contumaz desde sempre, para ser exato, desde a criação do Comentando a Notícia. Lá atrás, nos idos de 2006, seis anos portanto, já me debatia aqui contra o câmbio, por exemplo, ou contra os juros altos, ou conta o excesso de gastos correntes.  Ou a tendência regular do governo Lula em reduzir paulatinamente as faixas de isenção  do imposto de renda na fonte obrigando que um número cada vez maior de assalariados pagassem imposto sobre uma renda de miséria. 

Nem quando a economia brasileira sofreu abrupto crescimento em 2010 mudei minha posição. E apontei as razões: aqueles 7,5%, dado que a aparência era totalmente falsa,  em razão de que fora apurada em cima da retração ocorrida no ano anterior. Se ficássemos apenas na média dos oito anos de Lula, ela seria ligeiramente superior, não muito, para se soltassem os foguetes de alegria e comemoração. Tanto é assim, que em 2011, o crescimento pífio de 2,7% nos trouxe de volta à realidade terrena. E, se nada de muito surpreendente acontecer no segundo semestre deste 2012, periga fecharmos o ano com um PIB ainda menor. 

Pois bem, os dados estão todos aí. Não como contestá-los, ou afirmar, levianamente que sejam manipulados ou distorcidos. São dados oficiais. Ora, Mantega assumiu o Ministério da Fazenda em 2006. São, portanto, seis anos à frente da economia e, muito embora as coisas no Brasil andem de forma muito lenta, neste tempo dava para Mantega ter enterrado o Real e criado outro plano econômico. Mas qual?, cara pálida, e o homem vai mexer em time que está ganhando!!!??? Para com isso, camarada, o cara pode ser tudo, idiota é que não. 

Todas as amarrações introduzidas pelo Plano que Mantega condenou, criticou, e tal ponto que seu artigo na Folha tinha o pomposo título de “As Fantasias do Real”, permanecem intactas. O homem cuida apenas de questões “pontuais”, nada que altere os fundamentos macroeconômicos que antes condenou. 

Certa ocasião, criticando a condução econômica imprimida pelo governo Lula, critiquei o que chamei de “covardia”. Com efeito, como não foi nem Lula nem seus ministros que participaram da costura, criação e implementação das reformas de FHC, que deram modernidade e estabilidade ao país, e todos os fundamentos produziam resultados positivos que o próprio acabou donatário, havia uma certa apreensão de que, se alterasse qualquer coisa de maneira mais profunda, a maionese desandaria.  Deste modo, e conforme nossa crítica tem se centrado, o país continua perdendo tempo e oportunidades para aprofundar reformas determinantes ao crescimento do país.  

Então, vamos nos divertir um pouco e ver como, em 1994, o senhor Guido Mantega tratou o Plano Real que, completou em 2012, 18 anos de uma existência feliz e exitosa, da qual o atual ministro é um herdeiro muito, muito vistoso.

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‘As fantasias do real’, 

por Guido Mantega
PUBLICADO NA FOLHA DE S. PAULO EM 12 DE JULHO DE 1994

Diga-se o que quiser do Plano Real, pelo menos num aspecto ele foi bem sucedido. Conseguiu excitar a imaginação popular e passar a impressão de algo novo e diferente dos planos anteriores.

Os arquitetos do real não pouparam sua imaginação para lançar velhas ideias com aparência de novas, como o Comitê da Moeda, Banco Central independente, ou a dolarização com conversibilidade, mesmo que nada disso tenha sido utilizado.

Chegaram ao ponto de reinventar os reis ou reais, uma nova moeda fantasiada do dólar e garantida por um lastro que não exerce nenhum papel prático, uma vez que o real não é conversível, a não ser o de dar a impressão de que o real vale tanto quanto a moeda norte-americana.

E todo esse barulho para quê? Para vestir com roupagens sofisticadas e muitos truques de ilusão, mais um ajuste tradicional, calcado no corte de gastos sociais, numa contração dos salários, num congelamento do câmbio e outros ativos e, sobretudo, num forte aperto monetário com taxas de juros estratosféricas.

A parte mais imaginativa do plano, que foi a superindexação da economia pela URV, revelou-se a mais perversa, porque passou a ideia de que os salários estavam sendo perfeitamente indexados e resguardados da inflação. Quando, na verdade, foram colocados em desvantagem na conversão para a URV em relação a preços, tarifas e vários outros custos e ainda perderam os reajustes automáticos que a lei salarial lhes garantia.

De primeiro de julho em diante os salários serão pagos em real, que tem a aparência de ser uma moeda indexada, como se tivesse herdado as virtudes da URV, porém é uma moeda desindexada e totalmente vulnerável a corrosão inflacionária do real.

A regra de conversão dos salários pela média e dos preços, tarifas e outros custos pelo pico, matou dois coelhos de uma só cajadada. Reduziu preventivamente a demanda dos assalariados, que poderia aumentar com a queda brusca da inflação e comprimiu os custos salariais, dando uma folga para os preços.

Com esses artifícios, os preços têm chance de apresentar alguma estabilidade por algum tempo, porque desfrutarão de um conjunto de custos estáveis, como salários, tarifas, matérias-primas importadas, aluguéis e tudo o mais que foi congelado por até 12 meses, sem a aparência de estar congelado.

E aqui também a ilusão funcionou, porque vendeu-se a ideia de que o plano não utilizou o congelamento, quando, na verdade, congelou o câmbio, tarifas, aluguéis e contratos. Só não congelou mesmo os preços e deixou os salários no limbo de um semicongelamento, com o ônus de correr atrás do prejuízo que será causado pela inflação do real.

Portanto, mais do que um plano eficiente e bem concebido, o real é um jogo de aparências, que pode durar enquanto não ficar evidente que as contas do governo não vão fechar por causa dos juros altos, que o mercado sozinho não é capaz de conter os preços dos oligopólios sem uma coordenação das expectativas por parte do governo, que os salários não manterão o poder aquisitivo por muito tempo, que o real não vale tanto quanto o dólar.

Mas não se deve subestimar a eficiência das aparências e dos jogos de prestigit6ação nas artimanhas eleitorais. As remarcações preventivas dos preços, junto com os congelamentos, permitirão uma inflação moderada em julho e, talvez, uma ainda menor em agosto, numa repetição da trajetória dos preços por ocasião da implantação da URV, que subiram muito em fevereiro, na véspera da fase dois, elevando os índices de inflação de março, e depois caíram em abril e só voltaram a subir em maio e junho.

A questão é saber em quanto tempo o grosso da população irá perceber que uma inflação moderada por si só, acompanhada por um aperto monetário e recessão, não melhora sua situação, não cria empregos e, na ausência de uma lei salarial e correções automáticas, pode ser tão deletéria quanto uma inflação de 30% a 40% com indexação.

Custo Brasil, custo Lula


Carlos Alberto Sardenberg
O Estado de S. Paulo

O governo nem sabe investir, nem deixa o setor privado investir

Todo mundo concorda: é preciso turbinar os investimentos no Brasil, públicos e privados. Ambos estão travados. Os primeiros, por incapacidade e falta de recursos, os segundos, porque é difícil e caro investir no país. 

A falha do governo federal é flagrante. O dinheiro reservado para investimentos no orçamento deste ano é de R$ 90 bilhões, equivalente a 2% do Produto Interno Bruto esperado. É mais do que se gastou nos últimos anos, mas pouco diante das necessidades do país e diante do atraso em infraestrutura. Já houve tempo em que o governo federal investia até 5% do PIB – isso antes de aumentarem fortemente os gastos com previdência, pessoal, custeio e programas sociais e assistenciais. Mas além de ser um dinheiro insuficiente, até a metade deste ano a administração só conseguiu gastar 20% do orçado. 

Exemplo das dificuldades: o diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, general Jorge Fraxe, nomeado há um ano pela presidente Dilma para botar ordem na casa, contou a este Estadão que encontrou contratos de obras no valor de R$ 15 bilhões – ou “15 bilhões de problemas”. O general está mudando o sistema de contratação, mas o Tribunal de Contas da União encontrou irregularidades nos novos projetos. Assim, vai tudo muito arrastado no órgão responsável pela maior parte dos investimentos em infraestrutura. 

Repararam que nem falamos de corrupção. Ela existe, claro, como prova a recente Operação Trem Pagador, da Polícia Federal, que apanhou ex-dirigentes da estatal Valec, dedicada ao importante serviço de construir ferrovias. É grave a roubalheira. Mas os problemas de gestão são maiores, porque espalhados por praticamente toda a administração. Todos os dias saem notícias dando conta de atrasos e aumentos de preços em obras federais e nas suas estatais. Outro dia mesmo, a nova presidente da Petrobrás, Graça Foster, reviu para baixo as metas de produção, para cima os custos e para mais à frente os prazos. 

Isso resultou do modo de operação do governo Lula. Seu estilo “vamo-que-vamo”, forçando obras e multiplicando metas, tudo a cargo de uma administração loteada entre os partidos políticos, reduziu drasticamente a qualidade técnica da gestão e abriu espaço para os malfeitos. Esse é o custo Lula. 

O que funcionou mesmo foi o marketing. Lembram-se da campanha para celebrar a auto-suficiência em petróleo? Pois então, a Petrobrás é importadora de óleo, gasolina e diesel. 

Em resumo, o setor público no Brasil nunca foi lá essas coisas. Loteado e politizado, ficou ainda mais incapaz. 

Já o setor privado tem dinheiro e competência para investir. Não o faz porque os custos são elevados e por falta de condições institucionais, muitas das quais dependem do governo. Considerem o caso dos aeroportos. Com a privatização de Guarulhos, Viracopos e Brasília, os investimentos anunciados nesses três lugares superam em várias vezes o que a Infraero podia fazer. 

Logo...Informações recentes dizem que, de fato, a presidente Dilma está examinando a ampliação das concessões para aeroportos, portos e rodovias. É disso mesmo que se precisa: um enorme programa de privatização, um salto expressivo nos investimentos. Outros informações, porém, dizem que isso ficará para o próximo ano, dada a necessidade de rever os modelos de privatização, montar os processos e tal. Sabe como é ... 

Como conseguem demorar tanto? Concessões não são coisa nova. Há décadas que se faz isso, aqui e no mundo todo. A concessão dos aeroportos, por exemplo, foi discutida deste o primeiro governo Lula. Havia um obstáculo político – a rejeição petista às privatizações, à qual se juntou a fisiologia dos partidos aliados que precisam de estatais e governo para tirar de lá seu sustento político e pessoal. 

Mas superada a rejeição do PT, a força dominante, por que não avança? O problema não está apenas nos grandes aeroportos. Há pólos incrivelmente dinâmicos pelo Brasil afora – desde o turismo em Foz de Iguaçu até a moderna agropecuária em Luís Eduardo Magalhães, passando por centros de alta tecnologia em São José dos Campos. 

Os três sofrem com aeroportos ridículos para suas necessidades. E eis por que o exemplo é bom: nesses três lugares, conforme pude verificar em visitas recentes, empresas privadas e associações civis têm tudo pronto: terreno, dinheiro, projeto, expertise e vontade de fazer. Prefeituras locais estão envolvidas na história. Basta o governo federal dizer – podem fazer! – e vão brotar aeroportos modernos e, sobretudo, rentáveis, por toda parte. Parece até mais fácil essa privatização regionalizada ou municipalizada. 

Mas não anda. Fontes diversas me contam que batalham há anos em busca de autorização para fazer até mesmo obras paralelas, como a ampliação de estacionamentos, e topam com burocracias e má vontade. 

Acrescente o custo Brasil e o ambiente de negócios hostil, que dificultam e encarecem os investimentos privados em geral, e fica evidente por que o país não deslancha. Sim, há uma crise internacional, mas os outros emergentes estão se saindo melhor, com mais crescimento e menos inflação.

A aposta errada do governo


Rolf Kuntz  
O Estado de S.Paulo

O governo continua apostando no mercado interno para enfrentar a crise global, mas até agora a aposta deu pouco ou nenhum resultado. As políticas de estímulo resultaram quase exclusivamente no aumento do consumo, do endividamento, da insolvência e das importações. Jornais publicam longas matérias sobre os altos níveis de calote, em geral involuntário, e sobre como evitar as armadilhas do crédito. O problema é importante, mas é apenas um dos muitos sintomas de um desarranjo muito mais amplo. Por nove semanas o mercado financeiro reduziu as projeções de crescimento econômico. O último número é 2,01%, mediana das previsões coletadas pelo Banco Central (BC) para o Boletim Focus. O próprio BC já havia, em junho, baixado sua estimativa de 3,5% para 2,5%.

A economia brasileira teria crescido muito mais no ano passado e continuaria a expandir-se com folga, neste ano, se o aumento do produto interno bruto (PIB) fosse mais dependente do consumo privado e do custeio do setor público. Foi essa, no entanto, a terapia básica adotada pelo governo. Teria dado resultados melhores, provavelmente, se os grandes problemas da produção nacional fossem conjunturais. Não são, mas os formuladores da política oficial têm agido como se a maior ameaça econômica viesse de fora, isto é, das grandes potências em crise. Com essa interpretação, tão irrealista quanto confortável, o governo se dispensa de cuidar mais seriamente dos problemas reais, todos made in Brazil.

Gastança pública e estímulo ao consumo são bons para fazer a economia pegar no tranco, em tempos de desemprego e muita capacidade ociosa. A longo prazo, o crescimento depende mesmo é da taxa de investimento e da eficiência do capital investido. Entre janeiro e março deste ano, o Brasil investiu o equivalente a 18,7% do PIB. Além de baixa, essa proporção foi inferior à do primeiro trimestre do ano passado (19,5%) e à de igual período de 2010 (19,2%). Mesmo para esse resultado abaixo de medíocre foi necessária a participação externa, porque a taxa de poupança, naqueles três meses, ficou em 15,7% do PIB (17% em 2011). O governo, como já foi comprovado muitas vezes, é o mais importante moedor de recursos e tem-se dedicado com empenho à despoupança.

O Ministério da Fazenda reduziu de 20,8% para 20,4% sua projeção da taxa de investimento. A nova estimativa apareceu em abril, no último boletim da série Economia Brasileira em Perspectiva. Esse tipo de correção tem sido frequente. O setor privado investe menos do que poderia, se enfrentasse menos entraves, e o governo, bem menos do que promete, por incapacidade gerencial. Neste ano, o governo federal acelerou os empenhos e desembolsos, num esforço para se antecipar às limitações do período eleitoral. Mesmo assim, os resultados foram ruins.

De janeiro a junho, o Tesouro aplicou R$ 18,9 bilhões, 2,1% mais que em igual período de 2011, descontada a inflação, mas 13,7% menos que no primeiro semestre de 2010. Além disso, o total desembolsado correspondeu a apenas 21% do valor previsto para 2012 no Orçamento Geral da União. Como sempre, restos a pagar, R$ 14,1 bilhões, compuseram a maior parte dos desembolsos.

A realização do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento, continua deficiente e os números divulgados pelo governo são enfeitados. No primeiro semestre, 52,6% dos desembolsos foram financiamentos destinados aos programas habitacionais, como indica tabela divulgada pela organização Contas Abertas. A maior parte do PAC é executada mais lentamente. Também é ruim a execução dos projetos dependentes das estatais. Mesmo a mais eficiente, a Petrobrás, tem sido incapaz de entregar os resultados prometidos, como deixou claro a nova presidente, Graça Foster, em suas primeiras declarações depois de assumir o posto.

O baixo investimento seria compensado, em parte, se a produtividade do capital investido fosse mais alta. Não se pode, no entanto, contar com isso. No setor privado, é normal o esforço para extrair o máximo de cada real investido, mas a aplicação do dinheiro no setor público segue outros critérios. Queimam-se recursos com emendas parlamentares de alcance paroquial. Montanhas de dinheiro são perdidas em projetos mal preparados, em contratos com empreiteiras malandras, em convênios com organizações delinquentes e em negócios com fornecedores despreparados. O escândalo do petroleiro João Cândido, lançado ao mar com discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e só entregue dois anos depois, é um exemplo especialmente pitoresco de como investir mal.

Tudo isso se reflete na balança comercial. Até a primeira semana de julho, as exportações foram 1,4% menores que as de um ano antes, as importações, 4% maiores e o superávit, 44,6% inferior. O sistema produtivo está emperrado e só o governo insiste em desconhecer esse fato.

Engasgou


Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

O tombo inesperado do consumo nacional em maio, conjugado com a forte expansão do calote, parece mostrar que a atual estratégia de política econômica do governo, baseada no estímulo ao consumo, está fracassando. O problema é que a opção é puxar pelo investimento, algo que o governo não vem conseguindo fazer.

O consumo em maio caiu 0,8% em relação a abril, um mês carregado de feriados e, portanto, em princípio, comercialmente mais fraco.

Ainda é cedo para concluir que esse desempenho ruim aponta para uma tendência firme de desempenho também medíocre no segmento que até agora vinha bem.

No entanto, esse recuo vem acompanhado de prolongada estagnação da indústria. E, agora se sabe, o indicador da Serasa Experian indica uma alta na inadimplência de nada menos que 19,1% no primeiro semestre deste ano em relação ao primeiro semestre do ano passado.

Na média, analisa a Serasa, "cada inadimplente carrega quatro dívidas não honradas e 60% dos inadimplentes têm dívidas acima de 100% da renda".

Essas agravantes sugerem que a expansão do crédito, instrumento fortemente acionado pelo governo para empurrar o consumo nessa conjuntura de crise global, esbarra em pronunciadas limitações técnicas. O governo Dilma já se deu conta de que os nove pacotes anticíclicos, destinados a estimular as vendas, não vêm reativando a produção e podem já não ter capacidade para puxar a demanda. Por isso, entendeu que devesse atuar na ponta dos investimentos. A Petrobrás está sendo cobrada para tocar mais agressivamente seu programa de negócios e o próprio governo, informa a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, se prepara para acionar os investimentos.

O problema é que esta administração vem dando demonstrações seguidas de deficiência gerencial. Como o jornalista Rolf Kuntz mostrou na sua coluna de ontem no Estado, os desembolsos do Tesouro no primeiro semestre deste ano corresponderam a apenas 21% do total previsto no Orçamento.

O PAC continua empacado, excessivamente concentrado em programas habitacionais. E a Petrobrás, de quem se esperam investimentos de US$ 236,5 bilhões nos próximos quatro anos, reconhecidamente vem se apresentando como contumaz furadora de cronogramas. Afora isso, o governo vem sendo incapaz de dar agilidade à concessão de licenciamentos ambientais.

Esses e tantos outros indicadores mostram que sobram dúvidas sobre a eficiência de uma provável mudança de ênfase nas políticas de estímulo, do consumo para o investimento.

O biólogo francês do século 19 Jean Lamarck se notabilizou por enunciar a tese evolucionista segundo a qual "a necessidade cria o órgão".

Pois o governo Dilma enfrenta inadiável necessidade de mostrar serviço na área econômica e ainda tem tempo de virar o jogo adverso.

Quem sabe essa cobrança possa ajudar a mudar a direção e, sobretudo, a qualidade de sua administração.

Os engenheiros da confusão


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O Governo segurou o preço da gasolina, para evitar inflação (é mais fácil segurar um preço-chave do que conter gastos públicos, cortar mordomias, buscar eficiência). O álcool entrou em crise: com o preço da gasolina artificialmente baixo, foi empurrado para fora do mercado. Resultado: como não é compensador produzi-lo, o investimento em álcool caiu (e o Brasil está importando álcool americano para misturar na gasolina). Como o consumo de gasolina subiu, o Brasil está importando gasolina. Como os preços estão contidos, falta dinheiro à Petrobras para concluir suas novas refinarias. E o Governo procura estimular a produção e venda de automóveis para lutar contra a recessão. Sem as novas refinarias, com os novos automóveis, torna-se preciso importar mais gasolina.

A Petrobras acaba de pedir ao Ministério de Minas e Energia que autorize a mistura de 25% de álcool na gasolina, em vez dos 20% atuais. Tecnicamente, não há problema: a frota brasileira funcionou muito tempo com os 25%. Ambientalmente, é bom: reduz um pouco a poluição dos automóveis. Só que, como não há álcool suficiente, o Brasil terá de importá-lo em maior quantidade. Reduz a importação de gasolina, mas tem de gastar com a importação de álcool.

Lembra do Aprendiz de Feiticeiro, episódio de Fantasia, de Walt Disney, com música de Paul Dukas e tendo Mickey como astro? Mickey achava que sabia ser feiticeiro, mas só provocou confusões com sua bruxaria mal-ajambrada.

Hoje Mickey não teria a menor chance. Há gente mais confusa do que ele.

Bons tempos
Fantasia, que nome ótimo! A gente lembra do presidente Lula com as mãos sujas de óleo, ao visitar um campo de testes do pré-sal; a gente lembra do presidente Lula anunciando a autossuficiência em petróleo. A gente lembra do presidente Lula comunicando que a matriz energética mundial iria mudar, com o combustível verde, renovável, de nossos canaviais. A gente lembra dos especialistas explicando que o álcool de milho americano era inviável pelo custo, incapaz de concorrer com nosso álcool de cana. E é dos EUA que importamos álcool.

Macacão x toga
Como dizia o mestre Millôr Fernandes, "ditadura é quando eles mandam em nós, e democracia é quando nós mandamos neles". O novo presidente da CUT, Vagner Freitas, ameaçou o Supremo de ocupar as ruas para defender os réus do Mensalão, caso o julgamento seja "político" e não "técnico". Ou seja, se os réus forem condenados, o julgamento terá sido político; se absolvidos, terá sido técnico. Se, como é possível, alguns réus forem condenados e outros absolvidos, a parte política do julgamento será alvo de protestos, e a técnica não.

O mais curioso da escandalosa ameaça do novo presidente da CUT é que, dos ministros do Supremo, a maioria esmagadora foi nomeada por Lula e Dilma Rousseff, ambos eleitos pelo PT, partido de boa parte dos réus. Se houvesse algum risco de parcialidade ou partidarismo no julgamento - o que o comportamento dos ministros do Supremo, até hoje, mostra não existir - seria o oposto.

Trocando de camisa
Sabe aquela história de que o homem troca de mulher, troca de religião, troca de emprego, troca até de sexo, mas de time não troca? O prefeito do Rio, Eduardo Paes, do PMDB, candidato à reeleição, mostrou que nem disso é capaz: vascaíno, cedeu um prédio público, a Prefeitura, para a apresentação do reforço do Botafogo, o holandês Seedorf, para poder tirar fotos a seu lado.

Seedorf é craque, tem físico impecável aos 36 anos, treina duro, luta pelo seu time, merece a festa que lhe fizeram os torcedores do Botafogo. 

Quem não merece festa é Eduardo Paes, candidato que tenta tirar sua casquinha até em festa de batizado de boneca. 

O custo, quase nada
O procurador regional eleitoral do Rio, Maurício da Rocha Ribeiro, acha que houve abuso do poder político e uso da máquina administrativa. Esta coluna não é jurídica, mas tudo indica que o procurador tenha razão. O problema é a punição: para que uma multinha como aquela de R$ 5 mil, a que o candidato petista Fernando Haddad foi condenado, por fazer entrevista de uma hora na TV, no programa do Ratinho, antes do início da campanha para prefeito de São Paulo?

Injustiça demonstrada
O caso dos moradores de rua que acharam um saco com R$ 20 mil no meio da rua prova que a opinião pública muitas vezes é injusta com os políticos. Vários multiplicaram suas posses com golpes de sorte como este, só que ninguém acreditou neles. 

A única diferença é que os moradores de rua devolveram o dinheiro.

Um dia, quem sabe
Deve ser um recorde internacional: a inauguração do novo Fórum de São José dos Campos, SP, acaba de ser adiada pela quinta vez. O novo prazo, segundo o Tribunal de Justiça, encerra-se em 9 de novembro. Motivo oficial do quinto adiamento: atraso em licitações de informática e de móveis.

A construção do Fórum começou em março de 2005. O interessante é que, já há algumas centenas de anos, sabe-se que os móveis são necessários para o bom funcionamento de uma organização. Por que só terão sido lembrados agora? 

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Para não ser esfolado, Senado esfola Demóstenes


Ricardo Noblat

“É carta jogada a cassação do mandato e dos direitos políticos do senador Demóstenes Torres (sem partido-Goiás), acusado de ser sócio do bicheiro Carlinhos Cachoeira na exploração de jogos de azar. O que ainda não está certo é se a punição será aplicada a Demóstenes antes do recesso do Congresso, daqui a dois meses, ou depois do recesso.” (Abertura de artigo meu aqui publicado no último dia 10 de maio).

A punição foi aplicada antes do recesso do Congresso, que terá início no próximo dia 18. O placar não surpreendeu ninguém: Demóstenes acabou cassado por 56 votos contra 19 e cinco abstenções. São 81 senadores. Um não votou. Metade mais um deles bastariam para subtrair o mandato de Demóstenes e seus direitos políticos até 2027.

Ao longo dos seus 186 anos de história, o Senado só puniu com a pena máxima dois senadores. Luiz Estevão de Oliveira (PMDB-DF), amigo do ex-presidente Fernando Collor, empresário da área da construção civil, perdeu o mandato e os direitos políticos sob a acusação de ter desviado dinheiro público destinado a uma obra da Justiça do Trabalho em São Paulo.

Um senador faltou ao julgamento de Luiz Estevão em junho de 2000. O placar que interrompeu sua curta trajetória política no Distrito Federal foi parecido com o que abateu Demóstenes: 52 votos contra 18 e 10 abstenções. Abster-se é igual a votar a favor da absolvição. Luiz Estevão conseguiu 28 votos para escapar. Demóstenes, 24.

Os senadores mais experientes calculam que exista entre eles um núcleo duro de 20 a 30 colegas refratário a cassar mandatos. Não importa que crimes possam ser imputados aos acusados. Os duros não querem saber de cassações - alguns por piedade, outros por receio de que um dia precisem da piedade alheia.

Um monte de razões explica a cassação de Demóstenes. E a principal não foi sua ligação com Cachoeira, preso desde fevereiro último depois de investigado durante mais de três anos pela Polícia Federal. Quantos senadores não têm um Cachoeira para chamar de seu? Era preciso dar uma satisfação à sociedade.

E essa foi, sim, a principal razão para se cassar o mandato e os direitos políticos de Demóstenes. "Queremos desfilar de cabeça erguida por aí, com o bótom de senador na lapela e sem passar por constrangimentos", explica um senador que pediu para não ser identificado. Como escapar de apertos absolvendo Demóstenes?

Outra razão para cassá-lo: quase todos os senadores se solidarizaram publicamente com Demóstenes quando ele pela primeira vez assomou à tribuna do Senado para jurar que era inocente. Conhecia, sim, Cachoeira - quem não o conhecia em Goiás? Admitia que era seu amigo. Mas dele não recebera favores. Nem a ele prestara favores.

A enxurrada de conversas grampeadas entre Cachoeira e Demóstenes desmentiu o discurso e deixou os senadores com a cara no chão. Muitos votos foram movidos à raiva. Contra Demóstenes pesou ainda o seu passado de político nada solidário com eventuais dificuldades enfrentadas por seus pares.


A imagem de justiceiro incorruptível foi construída por Demóstenes à custa de muita pancada desferida nos que conviviam com ele. O episódio que melhor ilustra seu temperamento inflexível teve como personagem Carlos Wilson Campos, ex-governador de Pernambuco, um político ameno e de muitos amigos. 

Carlos Wilson sofria de câncer quando foi chamado a depor no Congresso sobre irregularidades na empresa que presidira por dois anos - a Infraero. Amigos dele pediram a Demóstenes para deixá-lo em paz. "Ele virá depor nem que seja para morrer aqui", respondeu o senador.

De José Sarney, presidente do Senado pela terceira vez, se poderá dizer tudo - menos que seja uma pessoa inclinada a resolver no tapa as diferenças com desafetos. Em dezembro último, Demóstenes provocou-o com expressões ásperas. Nervoso, Sarney abandonou a cadeira de presidente e de dedo em riste caminhou na direção de Demóstenes na lateral direita do plenário.

O esquentado senador Fernando Collor (PTB-AL) meteu-se entre os dois para evitar o pior. A certa altura do bate-boca, Sarney baixou o tom da voz e disse a Demóstenes: "Quem sabe de sua vida é Cachoeira". Até ali, fora Cachoeira, quem sabia da vida de Demóstenes era a Polícia Federal.

Houve senador que considerou arrogante o discurso feito por Demóstenes durante a sessão que lhe custou o mandato. Não foi arrogante. Foi altivo. Demóstenes tinha a certeza de que seria cassado. Era um morto-vivo. Quis deixar a política sem renunciar ao comportamento que sempre foi uma de suas marcas.

Sarney ainda não acabara de anunciar o resultado da votação quando Demóstenes, com passos largos, já abandonava o plenário.

O Senado esfolou Demóstenes para não ser esfolado.

Brasil pode perder participação nos Brics, diz criador do termo


Álvaro Campos
Agência Estado
Com informações da Dow Jones.

Segundo Jim O'Neill, presidente do Goldman Sachs, isso pode ocorrer se o crescimento do País não acelerar nos próximos anos


SÃO PAULO - O presidente do Goldman Sachs Asset Management, Jim O'Neill, criador do termo Brics (que reúne Brasil, Rússia, Índia e China), afirmou que a posição do Brasil no grupo pode ser questionada se o crescimento econômico do País não acelerar nos próximos anos.

Em 2001, O'Neill criou o termo Bric, ao identificar os países que seriam as potências econômicas do futuro. Agora, ele afirma que para manter esse status o Brasil precisa melhorar sua taxa média de crescimento. "O que acontecerá em 2012, em termos de crescimento do PIB, não é tão crucial. Mas nesta década o Brasil precisa recuperar uma taxa de crescimento mais forte rapidamente. Se isso não acontecer, então o poder do B no termo Bric começaria a parecer um pouco questionável", afirmou.

Mas, apesar da desaceleração da economia brasileira, o executivo ainda espera que o PIB do País cresça entre 4,5% e 5% ao ano nesta década, na média. Após uma expansão de 7,5% em 2010, o Brasil teve um tímido crescimento de 2,7% no ano passado. E desde então a economia brasileira só tem desacelerado. A maioria dos economistas projeta um crescimento de cerca de 2% em 2012, mesmo com os esforços do governo para impulsionar a atividade econômica e a queda na taxa básica de juros para mínimas históricas.

Para O'Neill, as expectativas para a economia brasileira podem ter se tornado irrealistas, o que torna mais fácil uma decepção com o País. "As pessoas parecem esquecer que, em boa parte dos últimos dez anos, o Brasil cresceu apenas cerca de 3,5% ao ano, na média. Os anos realmente fortes podem ter dado às pessoas uma falsa crença", comentou.

As expectativas exteriores com o Brasil foram um dos fatores que atraíram investidores estrangeiros ao País nos últimos anos. Isso contribuiu para uma apreciação do câmbio, que deixou o real "forte demais", segundo O'Neill. Embora reconheça que é perigoso deduzir que todos os problemas do Brasil foram causados pelo câmbio, o executivo defendeu as intervenções do governo. "Eu acredito que as medidas que eles têm tomado com o real são bem-vindas. O câmbio ainda pode flutuar. As autoridades simplesmente tornaram a compra menos atrativa", afirmou.

Olhando para o futuro, O'Neill acredita que o Brasil deveria lidar com assuntos complicados relacionados com a competitividade doméstica e a produtividade, "o que requer reformas no lado da oferta e, provavelmente, menos intervenção do governo".

O Brasil tem uma nota 5,4 (a escala vai de zero a dez) na pontuação de Ambiente de Crescimento do Goldman Sachs. O banco analisa a produtividade e a sustentabilidade no crescimento de 180 países. A nota brasileira está no mesmo nível da China, e acima de Índia e Rússia. 


A aula de gestão do trem-bala


Elio Gaspari
Folha de São Paulo

No mesmo dia em que a Polícia Federal pôs na cadeia José Francisco das Neves, o "doutor Juquinha", ex-presidente da Valec, o governo anunciou a retomada do projeto do trem-bala com a abertura de uma licitação internacional para a elaboração do projeto executivo da obra. Foi uma trapaça do acaso, talvez um mau presságio.

"Doutor Juquinha" foi o comissário das ferrovias públicas, presidindo a Valec de 2003 a 2011.

No seu mandarinato prosperou a ideia de um trem que ligaria o Rio a São Paulo e sua trajetória é uma aula para o conhecimento da leviandade e da inépcia que acompanham os projetos de infraestrutura do governo federal.

Em 2006, "Juquinha" anunciou que o projeto executivo estava pronto, a obra custaria US$ 9 bilhões, a Viúva não colocaria um ceitil, e o trem rodaria antes da Copa de 2014.

A doutora Dilma Rousseff, que então estava na chefia da Casa Civil, encantou-se com a proposta e incluiu-a no PAC. O presidente Lula anexou-a ao Programa Nacional de Desestatização, informando que o trem seria licitado em 2008.

Tudo lorota. Não havia projeto executivo, e o consórcio italiano que alavancava a marquetagem inventara uma demanda de 32 milhões de passageiros/ano. O trem do Doutor Juquinha seria o único do mundo a percorrer uma distância como a do Rio a São Paulo (430 km) sem uma única parada.

O Tribunal de Contas acendeu o sinal de perigo, e o projeto foi da Valec para o BNDES. Lá o consórcio foi desmascarado e posto para fora. O Doutor Juquinha só foi demitido da Valec no ano passado, sem que se discutisse sua gestão. Agora o Ministério Público confiscou-lhe 15 imóveis, parte de uma fortuna de R$ 60 milhões, uma acumulação de alta velocidade, pois em 1998 declarava um patrimônio de R$ 560 mil.

O trem-bala é uma atração do parque de diversões do governo. A cada ano anuncia-se uma nova data para a licitação, e a cada ano surge um novo preço. As grandes empreiteiras nacionais têm mais medo desse trem da doutora Dilma do que de CPI. Fracassaram dois leilões, e o projeto continua enfeitando as contas do PAC, agora com um custo estimado em US$ 21 bilhões.

A única coisa que andou foi o processo do consórcio italiano que cobra ao governo brasileiro uma indenização de US$ 290 milhões. Aquilo que seria uma obra inteiramente privada, tornou-se um projeto público, com a Viúva desembolsando boa parte do investimento.

Não há trem e não há projeto, mas já há uma empresa estatal para cuidar do assunto, a Etav. Tudo indica que será presidida pelo doutor Bernardo Figueiredo, diretor administrativo e financeiro da Valec do "Doutor Juquinha" até 2005 e diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres a partir de 2008, na fase 2.0 do trem-bala. Pelas previsões de hoje, o projeto executivo ficará pronto no ano que vem. É improvável que a obra seja licitada antes de 2014.

O comissariado anunciou que contratará um projeto executivo de engenharia com a naturalidade de quem troca uma sandália.

Durante cinco anos, vendeu-se para a patuleia um trem que percorreria 518 quilômetros, do Rio a Campinas, atravessando 103 quilômetros de túneis (duas vezes a extensão do Chunnel que liga a Inglaterra à França), e agora vai-se começar do zero? É isso mesmo.

Dilma compra retroescavadeiras


Ferreira Gullar 
Folha de São Paulo

Como não me cabe fazer a análise técnica da política econômica do governo, limito-me a tecer comentários acerca desta ou daquela medida, quando é o caso.

Esse é o caso do último pacote anunciado por Dilma Rousseff e Guido Mantega, com pompa e circunstância, no Palácio do Planalto. É o oitavo pacote, emergencial como os outros, tentando conter a tendência da economia brasileira à estagnação.

Como disse outro dia, a festa acabou, o banquete que Lula encontrou pronto tratou de usufruir dele politicamente o mais que pôde, distribuindo benesses a torto e a direito, sem se preocupar com o futuro.

Garantiu desse modo a própria popularidade e elegeu Dilma, que recebeu como herança, além de ministros corruptos, o encargo de continuar a festa.

Mas, embora não tivessem percebido, a festa acabara e nenhuma medida havia sido tomada para manter a mesa farta. É que, para isso, seria necessário que o país crescesse e, para crescer, seria preciso investir nos setores estruturais. Sucede que isso não é próprio de governos populistas, uma vez que investimentos, cujos resultados custam a aparecer, não interessam.

Acontece que o processo econômico não obedece à vontade de Lula, pois tem suas próprias leis e exigências. Disso resulta que, esgotado o potencial contido nas medidas do governo anterior, a economia começou a ratear, quase parando. Dilma acordou e começou a produzir pacotes.

Como se sabe, os partidos revolucionários não têm programa de governo, pois acreditam que, como o mal da sociedade é a burguesia, basta eliminá-la para chegar-se à sociedade perfeita.

Os exemplos não faltam. O PT, embora não fosse revolucionário de fato, trouxe deles essa herança e, assim, ao assumir o governo do país, adotou o programa do governo anterior, que havia combatido ferozmente. Mas ficou nisso: esgotadas as possibilidades do programa herdado, não tem o que pôr no lugar, a não ser os pacotes emergenciais que se sucedem.

Outra característica do governo petista, afora não ter programa, e por isso mesmo, é valer-se da propaganda para ganhar a opinião pública. Esse é um recurso muito usado pelos governos populistas, já que, para o povo em geral, quer o pacote dê resultado ou não, fica a notícia de que o governo está trabalhando, resolvendo os problemas.

O PAC é exemplo disso: para o grande público (o eleitor), o governo está “acelerando” o crescimento do país, mas, na realidade, dos R$ 80 bilhões aprovados no Orçamento deste ano, só gastou até agora menos de ¼ dele. Sabem por quê?

Porque lhe falta competência técnica para realizar os projetos. E, se lhe falta, é porque o preenchimento dos cargos executivos não é determinado por critério técnico, mas político. Não por acaso, o governo espantosamente admite que cada ministério pertence a determinado partido, que o usa politicamente.

E, por falar em acaso, foi exatamente agora, a poucos meses das eleições, que Dilma decidiu lançar seu oitavo pacote. Mas não foi só por isso. Foi também porque o pacote anterior, reduzindo os juros para estimular o consumo, não deu certo, porque as famílias já estão demasiado endividadas. Por isso mesmo, no caso deste oitavo pacote, quem compra não é o cidadão, mas o governo. É ele quem se endivida. É que alguém tem que comprar, do contrário o país para.

Aliás, para dizer a verdade, em todos os países, quem mais compra é mesmo o governo; no nosso, também. Daí que me pareceu estranho o modo solene como foi anunciado o pacote, em palácio e com a presença de empresários e prefeitos.

Fiquei sinceramente surpreso ao ouvir da boca do ministro Guido Mantega que o pacote consistia em comprar coisas como retroescavadeiras, tratores, caminhões, ambulâncias, que devem ser compras normais em qualquer governo, por meio de seus ministérios.

Mas quem comprará retroescavadeiras, desta vez, não será o ministro, mas a própria presidente da República. Estranho, não? Devo entender, então, que aquilo que deveria ser um procedimento corriqueiro é agora anunciado como uma extraordinária decisão presidencial. É isso mesmo ou sou eu que estou entendendo mal?

Quem financia a campanha das centrais sindicais a favor dos mensaleiros? Você!


Fábio Pannunzio

As duas maiores centrais sindicais — CUT e Força Sindical — prometem mobilizar suas “bases” para pressionar o STF a absolver os mensaleiros. O engajamento, anunciado pela CUT, logo foi seguido pela Força Sindical, como noticiou o blog nesta terça-feira.

Pergunto: quem financia a campanha pela impunidade da quadrilha do Mensalão? Respondo: você, com o que lhe é descontado do salário a título de pagamento da contribuição sindical equivalente a um dia de trabalho por ano.

A quase totalidade do dinheiro arrecadado na marra dos trabalhadores para manter a paquidérmica organização sindical brasileira não é pequeno. 60% do que é arrecadado vão para os sindicatos; federações e confederações ficam com outros 20%; as centrais sindicais recebem 10%. Não é pouca coisa. Só no ano passado, a CUT recebeu quase R$ 32 milhões; a Força Sindical ficou com R$ 29 milhões.

Por obra e graça do companheiro Lula, que regulamentou as centrais sindicais em 2008, essas organizações receberam o beneplácito da imunidade. Foram desobrigadas de prestar contas da aplicação dos recursos inclusive ao Tribunal de Contas da União. A rigor, podem fazer o que quiserem coma dinheirama — inclusive prover meios para a arregimentação de uma massa-de-manobra para ressionar o Poder Judiciário a absolver criminosos.

Dilma Rousseff, que tem sido mais dura com as centrais do que seu criador, ainda assim foi extremamente cordata com relação à fiscalização. Ao sancionar a Lei de Acesso à Informação, que obrigou sindicatos a prestar contas da fração que recebem da contribuição sindical, manteve a imunidade das centrais sindicais.

Hoje, portanto, elas gozam de um privilégio que não é dado a nenhum outro segmento da economia ou da política. Ninguém sabe, a rigor, e não existem instrumentos legais que permitam saber, o que é feito do donheiro arrancado na marra do trabalhador e destinado pelo governo a essas organizações.

Certo mesmo é que pelo menos uma parte dele vai financiar atividades como a reabilitação de Delúbio Soares, cuja volta da proscrição foi marcada por um regabofe custeado pela pelegada cutista. Não satisfeitos em transformar a entidade numa trincheira partidária — o que é compreensível, dada a imbricação histórica entre o partido e a central — os novos pelegos agora se dispõe a fazer o papel de reabilitadores de deliqüentes caídos.

E tudo isso às suas custas.

Em vez de motores, Lula usou ‘velas’para fazer reformas, diz FHC


Pablo Uchoa
Da BBC Brasil 

Fernando Henrique Cardoso 
recebe premiação nos EUA por sua obra acadêmica

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pode ser um sociólogo presidente, ou presidente sociólogo – em qualquer um dos casos, razão pela qual recebeu da Biblioteca do Congresso americano uma das premiações mais importantes das ciências humanas, o prêmio Kluge, concedido a intelectuais pelo conjunto de sua obra.

Nesta terça-feira, ele indicou que continua afiado nas ferramentas da sua "dupla carreira", ao conversar com jornalistas que lhe entrevistaram em uma imponente sala coberta de painéis de madeira, em um dos edifícios do complexo em Washington.

Político, alfinetou o seu sucessor imediato, Luiz Inácio Lula da Silva, dizendo que seu rival usou "velas" em vez de "motores" para tocar reformas de base – o que na sua opinião, teria contribuído para o processo de desindustrialização que o país está enfrentando hoje.

"De fato, por causa da taxa de câmbio e da produtividade, alguns setores da economia brasileira estão perdendo competitividade. Mas essa perda não é no chão da fábrica, é global. É no custo da energia, na má infraestrutura, no peso dos impostos", afirmou FHC.

"Isso só se resolve com muitas reformas que foram paralisadas. O governo Lula paralisou as reformas. O vento soprou a favor, e ele em vez de usar motor, usou vela. Velejou bem, mas não aperfeiçoou os motores. Agora precisa voltar a mexer nessas questões, para fazer frente a uma tendência real de desindustrialização."

Retrospecto
Comparando a condução da economia de um país à tarefa da navegação, FHC avaliou que o Brasil tem uma "ilha à vista", da qual precisa começar a desviar já.

"A ilha qual é? Os superávits comerciais são decrescentes, porque o preço das matérias-primas voltou a cair. A exportação das manufaturas não se expandiu por causa do câmbio e da produtividade", disse.

"O protecionismo não resolve. É bom ter um pouco de história econômica. Eu entendo que num caso ou noutro se atue em termos de erguer barreiras alfandegárias, mas como regra, olhando historicamente, isso vai fazer com que haja uma perda de produtividade."

Passando seu governo em retrospecto, o ex-presidente se queixou por ser taxado de "neoliberal" e criticado por políticas que foram continuadas nos governos posteriores. Disse que fez uma administração favorável a uma maior competição na economia brasileira.

"Os governos sempre bancam a economia. O problema é a medida. No caso do Brasil o governo às vezes até força e cria campeões", disse FHC, citando como exemplo os empréstimos subsidiados do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

"O subsídio do BNDES no último ano foi de US$ 20 bilhões (R$ 40 bilhões), mais que as bolsas. A quem foi dado esse dinheiro? A dez, doze grupos. Qual foi o critério? Não foi debatido. Isso excede, ao meu ver, o que o governo tem que fazer."

FHC disse que esta posição não significa uma oposição à mão nada invisível do BNDES.

Reconhecimento
O prêmio Kluge, de US$ 1 milhão, é concedido a intelectuais das áreas de ciências sociais e humanas, que não são cobertas pelo Nobel, e pretende ser um equivalente à premiação do comitê de Oslo.

A honraria começou a ser dada em 2003, mas não sai todo ano. O ex-presidente brasileiro é o oitavo intelectual e o primeiro latino-americano a recebê-lo.

Ao justificar a sua decisão, os organizadores do prêmio disseram que FHC combina "o estudo profundo com respeito pela evidência empírica".

Sua obra principal é o trabalho pioneiro escrito nos anos 1960 com o colega chileno Enzo Faletto, Dependência e Desenvolvimento, que discutia a posição dos países periféricos em relação às economias ricas.

Para os organizadores do prêmio, a teoria de FHC ajudou a mostrar que os países periféricos "podem fazer escolhas inteligentes e estratégicas" para promover modernização e desenvolvimento, mesmo estando em desvantagens em relação às nações industrializadas.

Na prática, afirmou FHC, as políticas do seu governo integraram o Brasil no sistema capitalista internacional de forma a "assentar as bases para a ascensão (do país) à proeminência mundial".

Agradecendo o prêmio, FHC disse que o prêmio "não se deve só a mim", mas a este avanço do Brasil. "Passamos a ser uma fonte de interesse global e portanto alguém que escreve sobre o Brasil e é brasileiro se qualifica para receber esse prêmio", disse.

O ex-ocupante do Planalto disse que "não são os presidentes" os responsáveis pela continuidade no avanço de uma sociedade como o Brasil.

"É o povo, é o processo democrático, é a sociedade brasileira que está evoluindo. Não foi um presidente que fez a democracia ou a Constituição. Foram as lutas, as Diretas Já, as greves, a briga na Constituinte, o sentimento de que era necessário crescer", disse.

"O presidente está lá. Às vezes ele atrapalha, às vezes ele acelera (o avanço). Eu acho que eu acelerei."