sexta-feira, julho 13, 2012

Recordar é viver, não é mesmo, ministro Mantega?


Comentando a Notícia

Se diz que brasileiro tem memória curta. E se justifica este mito pelo lado da formação cultural incipiente, pelo lado da educação deformada, e pelo pouco interesse do brasileiro em se informar sobre acontecimentos políticos de seu próprio país. Tirando os exageros de uns e outros, o fato que livros, jornais e revistas saem caro para bolsos quase vazios dos quais os reais que saem se destinam à sobrevivência, isto à alimentação e moradia. O resto, como se diz, a gente dá um jeito.

A vantagem da leitura é que ela deixa vestígios no passado de como as pessoas são ágeis no manejo opiniático sem fundamento. Assim, mais adiante, e diante de determinadas circunstâncias revira esta memória em busca de algumas respostas. Por exemplo, durante o governo Lula, muitos cobraram do ex-presidente “coerência” em relação aaos seus discursos quando era oposição “a tudo que está aí”.

Pululam na internet, via youtube, vídeos em que Lula emitiu opiniões  contra o Plano Real quando de seu lançamento. Também passeiam vídeos em que Lula senta o porrete nas diferentes bolsas implementadas e distribuídas por FHC, que tentaram minorar as agruras dos mais desfavorecidos. 

No governo, Lula não apenas manteve o Plano Real e todas as suas reformas circundantes, mas ainda acolheu as bolsas em torno do Bolsa Família, criada com a mesma finalidade com FHC as criara. 

É fácil cobrar coerência de Lula, uma vez que dia sim, dia também, o homem não sai da mídia. Nem o câncer o manteve distante dos holofotes. Num se viu um ex ser tão “candidato” a sucessor de sua sucessora como Lula. 

O que pouca gente recorda foram as declarações e opiniões, por exemplo, do atual ministro da Fazenda Guido Mantega. Olhando-se para a salada confusa com que ele vem conduzindo a sua pasta, até dá para saber que ele “foi do contra”. 

Assim, quanta felicidade encontrar alguém que recorde este passado recente do atual ministro da Economia e traga para o presente   estas “memórias”. E foi o que fez o jornalista Augusto Nunes em seu blog nas páginas da Revista Veja. Tem quem não goste na revista semanal da Abril – as esquerdas, então a detestam -, tem quem não se encante com o texto do jornalista. De minha parte, confesso, enquanto um e outro emanarem opiniões com as quais também concordo, não tenho problema existencial nenhum. 

Mas para quem aprecia um e outro, ou apenas um, ler a republicação do artigo de Guido Mantega, datado de 12 de julho de 1994, e publicado no jornal Folha de São Paulo, é bastante divertido.

Faço questão de transcrever a memória do Augusto Nunes porque isto nos ajuda a entender o momento que vive a economia brasileira no momento. Quem acompanha o blog, sabe bem o quanto tenho sido crítico das ações do senhor Mantega à frente do Ministério da Fazenda.  E a crítica não é recente não: ela é contumaz desde sempre, para ser exato, desde a criação do Comentando a Notícia. Lá atrás, nos idos de 2006, seis anos portanto, já me debatia aqui contra o câmbio, por exemplo, ou contra os juros altos, ou conta o excesso de gastos correntes.  Ou a tendência regular do governo Lula em reduzir paulatinamente as faixas de isenção  do imposto de renda na fonte obrigando que um número cada vez maior de assalariados pagassem imposto sobre uma renda de miséria. 

Nem quando a economia brasileira sofreu abrupto crescimento em 2010 mudei minha posição. E apontei as razões: aqueles 7,5%, dado que a aparência era totalmente falsa,  em razão de que fora apurada em cima da retração ocorrida no ano anterior. Se ficássemos apenas na média dos oito anos de Lula, ela seria ligeiramente superior, não muito, para se soltassem os foguetes de alegria e comemoração. Tanto é assim, que em 2011, o crescimento pífio de 2,7% nos trouxe de volta à realidade terrena. E, se nada de muito surpreendente acontecer no segundo semestre deste 2012, periga fecharmos o ano com um PIB ainda menor. 

Pois bem, os dados estão todos aí. Não como contestá-los, ou afirmar, levianamente que sejam manipulados ou distorcidos. São dados oficiais. Ora, Mantega assumiu o Ministério da Fazenda em 2006. São, portanto, seis anos à frente da economia e, muito embora as coisas no Brasil andem de forma muito lenta, neste tempo dava para Mantega ter enterrado o Real e criado outro plano econômico. Mas qual?, cara pálida, e o homem vai mexer em time que está ganhando!!!??? Para com isso, camarada, o cara pode ser tudo, idiota é que não. 

Todas as amarrações introduzidas pelo Plano que Mantega condenou, criticou, e tal ponto que seu artigo na Folha tinha o pomposo título de “As Fantasias do Real”, permanecem intactas. O homem cuida apenas de questões “pontuais”, nada que altere os fundamentos macroeconômicos que antes condenou. 

Certa ocasião, criticando a condução econômica imprimida pelo governo Lula, critiquei o que chamei de “covardia”. Com efeito, como não foi nem Lula nem seus ministros que participaram da costura, criação e implementação das reformas de FHC, que deram modernidade e estabilidade ao país, e todos os fundamentos produziam resultados positivos que o próprio acabou donatário, havia uma certa apreensão de que, se alterasse qualquer coisa de maneira mais profunda, a maionese desandaria.  Deste modo, e conforme nossa crítica tem se centrado, o país continua perdendo tempo e oportunidades para aprofundar reformas determinantes ao crescimento do país.  

Então, vamos nos divertir um pouco e ver como, em 1994, o senhor Guido Mantega tratou o Plano Real que, completou em 2012, 18 anos de uma existência feliz e exitosa, da qual o atual ministro é um herdeiro muito, muito vistoso.

******

‘As fantasias do real’, 

por Guido Mantega
PUBLICADO NA FOLHA DE S. PAULO EM 12 DE JULHO DE 1994

Diga-se o que quiser do Plano Real, pelo menos num aspecto ele foi bem sucedido. Conseguiu excitar a imaginação popular e passar a impressão de algo novo e diferente dos planos anteriores.

Os arquitetos do real não pouparam sua imaginação para lançar velhas ideias com aparência de novas, como o Comitê da Moeda, Banco Central independente, ou a dolarização com conversibilidade, mesmo que nada disso tenha sido utilizado.

Chegaram ao ponto de reinventar os reis ou reais, uma nova moeda fantasiada do dólar e garantida por um lastro que não exerce nenhum papel prático, uma vez que o real não é conversível, a não ser o de dar a impressão de que o real vale tanto quanto a moeda norte-americana.

E todo esse barulho para quê? Para vestir com roupagens sofisticadas e muitos truques de ilusão, mais um ajuste tradicional, calcado no corte de gastos sociais, numa contração dos salários, num congelamento do câmbio e outros ativos e, sobretudo, num forte aperto monetário com taxas de juros estratosféricas.

A parte mais imaginativa do plano, que foi a superindexação da economia pela URV, revelou-se a mais perversa, porque passou a ideia de que os salários estavam sendo perfeitamente indexados e resguardados da inflação. Quando, na verdade, foram colocados em desvantagem na conversão para a URV em relação a preços, tarifas e vários outros custos e ainda perderam os reajustes automáticos que a lei salarial lhes garantia.

De primeiro de julho em diante os salários serão pagos em real, que tem a aparência de ser uma moeda indexada, como se tivesse herdado as virtudes da URV, porém é uma moeda desindexada e totalmente vulnerável a corrosão inflacionária do real.

A regra de conversão dos salários pela média e dos preços, tarifas e outros custos pelo pico, matou dois coelhos de uma só cajadada. Reduziu preventivamente a demanda dos assalariados, que poderia aumentar com a queda brusca da inflação e comprimiu os custos salariais, dando uma folga para os preços.

Com esses artifícios, os preços têm chance de apresentar alguma estabilidade por algum tempo, porque desfrutarão de um conjunto de custos estáveis, como salários, tarifas, matérias-primas importadas, aluguéis e tudo o mais que foi congelado por até 12 meses, sem a aparência de estar congelado.

E aqui também a ilusão funcionou, porque vendeu-se a ideia de que o plano não utilizou o congelamento, quando, na verdade, congelou o câmbio, tarifas, aluguéis e contratos. Só não congelou mesmo os preços e deixou os salários no limbo de um semicongelamento, com o ônus de correr atrás do prejuízo que será causado pela inflação do real.

Portanto, mais do que um plano eficiente e bem concebido, o real é um jogo de aparências, que pode durar enquanto não ficar evidente que as contas do governo não vão fechar por causa dos juros altos, que o mercado sozinho não é capaz de conter os preços dos oligopólios sem uma coordenação das expectativas por parte do governo, que os salários não manterão o poder aquisitivo por muito tempo, que o real não vale tanto quanto o dólar.

Mas não se deve subestimar a eficiência das aparências e dos jogos de prestigit6ação nas artimanhas eleitorais. As remarcações preventivas dos preços, junto com os congelamentos, permitirão uma inflação moderada em julho e, talvez, uma ainda menor em agosto, numa repetição da trajetória dos preços por ocasião da implantação da URV, que subiram muito em fevereiro, na véspera da fase dois, elevando os índices de inflação de março, e depois caíram em abril e só voltaram a subir em maio e junho.

A questão é saber em quanto tempo o grosso da população irá perceber que uma inflação moderada por si só, acompanhada por um aperto monetário e recessão, não melhora sua situação, não cria empregos e, na ausência de uma lei salarial e correções automáticas, pode ser tão deletéria quanto uma inflação de 30% a 40% com indexação.