terça-feira, fevereiro 23, 2021

Inconsequente

 Comentando a Notícia


Bolsonaro governa o Brasil como se estivesse num quartel, achando que somos soldadinhos dispostos a seguir e obedecer seu mandos e desmandos. Não somos. É ele quem deve servir ao povo e não o contrário como sua mente desequilibrada imagina. .



A compulsão que o nosso presidente tem para gerar crises e criar conflitos impressiona e preocupa. O de que menos o país precisa , neste momento crítico que vivemos,  é que  cadeira presidencial  seja ocupada por um aloprado.  

A ignorância de Bolsonaro parece não ter limites. E isto fica muito claro em ações do tipo armamentista (quando o que o brasileiro precisa mesmo é de educação e saúde), o apoio dado aos movimentos antidemocráticos, em não reconhecer a ditadura militar como tal e sim como um “regime diferente”, as inúmeras falas e iniciativa para sabotar o combate à pandemia, na vez que tentou interferir na Polícia Federal e que resultou na demissão de Sérgio Moro, na sustentação e incentivo ao gabinete do ódio, e nesta interferência política na Petrobrás com reais ameaças de intervenção à Eletrobrás e Banco do Brasil. 

Muitos consideram todos estes fatos como sendo fruto de seu desejo em reeleger-se em 2022. Até pode ser, mas as razões estão muito mais na personalidade doentia do presidente. Seu passado como parlamentar e até quando ainda vestia farda, demonstram um caráter possessivo, autoritário, arrogante ,   com intenso destempero e desequilíbrio emocional. Suas atitudes intempestivas, com declarações estúpidas, ofensivas e grosseiras ao referir-se às pessoas que o serviram e que, em dado momento, resolveram discordar de suas opiniões imbecis e patéticas, não se alimentam nas raízes das ambições políticas. E o que dizer da guerra aberta à imprensa!

Recentemente, declarou que, a depender de sua vontade, o Brasil não teria o regime político que tem. Sem dúvida, Bolsonaro se fantasia com a ditadura militar, tão ao seu gosto. Ao permitir ter ao seu lado um gabinete que destila ódio e espalha fake News contra adversários, e vibrar de forma juvenil com as manifestações antidemocráticas, fica claro que, em algum momento, o presidente sonhou com golpe de estado. Recolheu seus desejos quando percebeu a reação contrária vinda das ruas. Mas o sonho não acabou. Ele se alimenta de desejos autoritários em tempo integral. 

A reação cretina contra o presidente da Petrobrás, Castello Branco, o destrato ao home office e suas recentes declarações canalhas contra o uso de máscara e isolamento social, demonstram claramente o quanto é pobre a formação de Bolsonaro.  Ora, a ciência já deu provas suficientes de que combater a disseminação do vírus se faz com o uso permanente da máscara e isolamento social. Não fosse tais atitudes preventivas, o caos se instalaria de vez na rede pública de saúde, e haveria filas quilométricas de espera por vagas em internações e UTIs.  

Tais cuidados e um programa intensivo de vacinação em massa, seria o caminho mais curto para a volta à normalidade. 

Mas qual! Bolsonaro não seria o jumento que é se em seu cérebro houvesse lugar para o bom senso e racionalidade. 

As intervenções despropositadas nas estatais trarão um alto preço para o país. Afora a desvalorização das ações, vão afastar de vez investidores, dos quais dependemos muito para a retomada mais célere do desenvolvimento.

A ignorância fica mais comprovada ainda pelo desconhecimento que Bolsonaro tem de como se formam os preços do petróleo no mercado internacional. Por mais que ele invente ações populistas para a redução de preços, vai provocar prejuízos à estatal do mesmo modo como já ocorrera em passado recente através da mediocridade da senhora Dilma Rousseff. Sua excrecência ignora o montante de petróleo que o Brasil precisa importar para abastecer sua frota. Assim, é pura balela esta afirmação de que “o petróleo é nosso”. Nosso coisa nenhuma. Ao importar milhões de  barris para abastecer o mercado interno, lá fora ninguém subsidiará o preço só porque Bolsonaro quer. Com igual pensamento tresloucado ele procura conduzir a importação de vacinas. Ora, o mundo tem uma população 7,5 bilhões de pessoas. Deixar de vender para o Brasil não causará abalo financeiro nenhum para as farmacêuticas internacionais. Somos nós que precisamos das vacinas. E nesta condição, ou concordamos em aceitar as condições de venda ou nada feito e deixem o covid-19 fazer a festa e continuar matando, diariamente, milhares de brasileiros. 

Bolsonaro com seu destempero e ignorância corre sério risco da população ir para as ruas e cobrar ações decentes de seu governo em respeito à vida. E se tal vier acontecer, sua ambição de reeleger-se em 2022 vai para o buraco. 

As tais reformas estruturais prometidas, a agenda liberal do discurso de campanha e a recente promessa de extensão do auxilio emergencial vão ficando pelo caminho do estelionato. Não foi para atentar ao regime democrático que ele foi eleito. Não foi para condenar os brasileiros ao abandono diante de grave crise de saúde pública em escala mundial que ele foi escolhido. Não foi para sabotar iniciativas de combate à corrupção que foi nomeado. Não foi para empurrar milhões de brasileiros para a pobreza e miséria que os brasileiros sufragaram seus votos em seu nome. Infelizmente, sua excelência escolheu este caminho. E vai ter que responder por suas irresponsabilidades. Goste ele ou não.

Bolsonaro governa o Brasil como se estivesse num quartel, achando que somos soldadinhos dispostos a seguir e obedecer seu mandos e desmandos. Não somos. É ele quem deve servir ao povo e não o contrário como sua mente desequilibrado imagina. .

Há limites até para irresponsabilidades. Talvez descubra tarde demais que não aceitamos mais este regime de torturas, e que serenidade, equilíbrio e bom senso são requisitos indispensáveis para o ocupante da cadeira presidencial. Infelizmente são requisitos que lhe faltam. Pena.  As mais de 247 mil mortes e 10 milhões de infectados pela covid-19 são provas incontestáveis de quanto um presidente desequilibrado, irresponsável e inconsequente pode causar danos a um país. Vamos pagar caro por isso!


O ano em que tudo mudou

 The Economist, 

O Estado de São Paulo

Por que a pandemia de 2020 será lembrada como ponto de inflexão da história, assim como o foram os anos 1920

  Foto: Gilles Sabri/NYT


Pandemia de 2020 será lembrada como ponto de inflexão da história 

Warren Harding construiu sua campanha para as eleições presidenciais de 1920 em torno de uma nova palavra: “normalidade”. Era um apelo ao suposto desejo dos americanos de esquecer os horrores da 1.ª Guerra e da gripe espanhola e voltar às certezas da Era Dourada. No entanto, em vez de abraçar a normalidade de Harding, os loucos Anos Vinte se tornaram um fermento para arriscadas novidades sociais, industriais e artísticas de olho no futuro.

A desinibição da Era do Jazz teve algo a ver com a guerra e também com a pandemia de gripe, que matou seis vezes mais americanos que os combates e deixou os sobreviventes com apetite para viver os anos 1920 a toda velocidade. Esse espírito também animará a década de 2020. A própria escala do sofrimento da covid-19, as injustiças e perigos que a pandemia revelou e a promessa de inovação indicam que 2020 será lembrado como o ano em que tudo mudou.

A pandemia é um acontecimento que ocorre uma vez a cada século. O Sars-Cov-2 já foi encontrado em mais de 70 milhões de pessoas e possivelmente infectou outras 500 milhões que nunca foram diagnosticadas. O vírus causou 1,6 milhão de mortes registradas; muitas centenas de milhares não chegaram aos registros. Milhões de sobreviventes estão convivendo com a exaustão e as enfermidades das “sequelas da covid”.

A produção econômica mundial está pelo menos 7% abaixo do que se previa, a maior queda desde a 2.ª Guerra. Das cinzas de todo esse sofrimento surgirá a sensação de que a vida não deve ser poupada, mas, sim, vivida.

Outro motivo para esperarmos mudança – ou, pelo menos, desejá-la – é que a covid-19 serviu de alerta. Os 80 bilhões de animais abatidos para alimentação e vestimenta todos os anos são placas de Petri para os vírus e bactérias que a cada década evoluem para se tornarem patógenos letais aos humanos. Agora a conta chegou – e foi astronômica. O céu claro que surgiu quando a economia entrou em lockdown foi um símbolo poderoso de como a covid-19 é uma crise veloz se movendo dentro de uma crise lenta, à qual se assemelha em alguns aspectos. Assim como a pandemia, a mudança climática é impermeável a negações populistas, é global na disrupção que causa e, se for negligenciada agora, sairá muito mais cara no futuro.

Um terceiro motivo para esperarmos mudanças é que a pandemia destacou a injustiça. Algumas crianças ficaram para trás nas aulas – e muitas vezes passaram fome. Os jovens que tiveram de abandonar a escola e os recém-formados viram suas perspectivas se estreitarem, mais uma vez.

Pessoas de todas as idades sofreram com a solidão ou a violência doméstica. Trabalhadores migrantes ficaram à deriva ou foram mandados de volta para suas aldeias, levando a doença consigo. O sofrimento variou muito conforme a cor da pele. Um hispano-americano de 40 anos tem 12 vezes mais probabilidade de morrer de covid-19 do que um americano branco da mesma idade. Em São Paulo, os brasileiros negros com menos de 20 anos têm duas vezes mais chances de morrer do que os brancos.

Enquanto o mundo se adaptava, algumas dessas iniquidades pioraram. Estudos sugerem que, nos Estados Unidos, cerca de 60% dos empregos que pagam mais de US$ 100 mil anuais podem ser exercidos de casa, em comparação com 10% dos empregos que pagam menos de US$ 40 mil.

E, se o desemprego disparou este ano, o índice MSCI dos mercados de ações mundiais aumentou 11%. No pior cenário, calcula a ONU, a pandemia pode levar mais de 200 milhões de pessoas à pobreza extrema. Sua situação será exacerbada por governantes autoritários e candidatos a tiranos que exploraram o vírus para reforçar seu controle sobre o poder.

Talvez seja por isso que, no passado, as pandemias provocaram revoluções. O FMI analisou 133 países no período 2001-18 e descobriu que a inquietação social aumentou cerca de 14 meses após o início das doenças, com pico após 24 meses. Quanto mais desigual é a sociedade, maior a convulsão. Na verdade, o fundo alerta para um círculo vicioso, pelo qual os protestos intensificam ainda mais as dificuldades, o que, por sua vez, alimenta os protestos.

Felizmente, a covid-19 não apenas trouxe a necessidade de mudança como também apontou um caminho a seguir. Isto se deve, pelo menos em parte, ao fato de ter servido como motor para inovação. Sob regime de lockdown, a parcela do comércio eletrônico nas vendas do varejo americano cresceu tanto em oito semanas quanto nos cinco anos anteriores. Com as pessoas trabalhando em casa, as viagens no metrô de Nova York caíram mais de 90%. Quase da noite para o dia, negócios começaram a ser administrados a partir de quartos vazios e mesas de cozinha – um experimento que, de outra forma, levaria anos para se desenvolver, se é que chegaria a ser cogitado.

Essa disrupção está só começando. A pandemia é a prova de que a mudança é possível até mesmo em setores conservadores, como o de saúde. Alimentada por dinheiro barato e novas tecnologias – entre elas inteligência artificial e, possivelmente, computação quântica – a inovação vai derrubar uma indústria depois da outra. Por exemplo, nos últimos 40 anos, os custos nas faculdades e universidades americanas aumentaram quase cinco vezes mais rápido do que os preços ao consumidor, mesmo que o ensino quase não tenha mudado, abrindo espaço para disrupções.

Outros avanços tecnológicos em fontes renováveis de energia, redes inteligentes e baterias de armazenamento são etapas vitais no caminho para a substituição dos combustíveis fósseis.

O coronavírus também revelou algo profundo sobre a maneira como as sociedades precisam tratar o conhecimento. Os cientistas chineses sequenciaram o genoma do sars-cov-2 em semanas e o compartilharam com o mundo. As novas vacinas resultantes são apenas uma das paradas do progresso supersônico que esclareceu de onde o vírus veio, quem ele afeta, como ele mata e como se pode tratá-lo.

É uma demonstração notável do que a ciência pode realizar. Em um momento em que as conspirações correm soltas, esta pesquisa se ergue como uma repreensão aos ignorantes e fanáticos – em ditaduras e também democracias – que se comportam como se a evidência para uma afirmação não fosse nada perto da identidade de quem afirma.

A pandemia também gerou um salto de inovação nos governos. Os países que podem bancar – e alguns que não podem, como o Brasil – suprimiram a desigualdade gastando mais de US$ 10 trilhões na covid-19, três vezes mais em termos reais do que na crise financeira. Isso redefinirá dramaticamente as expectativas dos cidadãos sobre o que os governos podem fazer por eles.

Muitas pessoas sob lockdown estão se perguntando o que é mais importante na vida. Os governos devem se inspirar nesse momento de reflexão, concentrando-se em políticas que promovam a dignidade individual, a autossuficiência e o orgulho cívico. Devem reformular o bem-estar e a educação e enfrentar concentrações de poder entrincheiradas, de modo a abrir novos horizontes para seus cidadãos. Toda a miséria deste ano da peste pode trazer algo de bom. E esse algo de bom precisa incluir um novo contrato social mais adequado ao século 21. 

 

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

© 2020 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM


Sem vacina e sem economia

 Editorial

 O Estado de S.Paulo

Vacina é hoje um insumo essencial para retomada econômica, mas Jair Bolsonaro mostra-se incapaz de entender essa verdade

Sobram máquinas e equipamentos parados, enquanto a economia rasteja, e há mão de obra ociosa em todo o País, por causa do desemprego, mas falta vacina para conter a covid-19 e abrir espaço a uma recuperação mais ampla. Vacina é hoje um insumo essencial para uma firme retomada econômica na maior parte do mundo, como têm dito e repetido dirigentes do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e de outras instituições multilaterais. Vacinação foi um dos primeiros assuntos mencionados pela economista Ngozi Okonjo-Iweala logo depois de anunciada, na segunda-feira, sua escolha para dirigir a Organização Mundial do Comércio (OMC). O presidente Jair Bolsonaro mostra-se incapaz, até hoje, de entender essa verdade simples.

“O aumento do número de casos de covid-19 representa um risco do processo de recuperação econômica”, segundo o Boletim Macro, edição de janeiro, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Essa incerteza, somada a outros fatores, como a suspensão do auxílio emergencial, levou a uma redução das expectativas em relação ao ritmo da atividade neste início do ano. Economia fraca no primeiro semestre e crescimento a partir do segundo compõem o cenário apresentado no boletim.

Risco de recessão, com recuo do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro e no segundo trimestres, é apontado por vários analistas mencionados nesta segunda-feira em reportagem do Estado. Outras equipes, pouco mais otimistas, projetam retração no período de janeiro a março e baixo crescimento nos três meses seguintes.

A melhora do quadro, em todos os casos, é associada a um possível ganho de impulso da vacinação, depois de um começo muito lento e muito mal preparado pelas autoridades federais. Sinais de escassez de vacinas em vários municípios, incluídas grandes capitais, comprovam a escandalosa inépcia do ministro da Saúde, estrito cumpridor de ordens do presidente da República.

O ano terminou com um Natal fraco, queda de 6,1% nas vendas do varejo, setor de serviços ainda estagnado e a indústria avançando mais devagar que nos meses anteriores. Nada sugere maior atividade no início de ano nem melhora significativa no mercado de emprego (14 milhões de desocupados, 14,1% da força de trabalho, no período setembro-novembro, segundo os últimos dados). A disposição de empresários e consumidores, no começo de ano, reflete esse desempenho medíocre, ou abaixo disso, da economia brasileira.

Em janeiro, o Índice de Confiança do Consumidor medido pela FGV caiu pela quarta vez seguida e atingiu o menor nível desde junho, quando se recuperava da queda recente. O Índice de Confiança do Empresário caiu, igualmente, em relação ao nível de dezembro.

Também a Confederação Nacional da Indústria detectou menor disposição do empresariado. O Índice de Confiança do Empresário Industrial caiu 1,4 ponto entre janeiro e fevereiro, na segunda queda consecutiva, e chegou a 59,5 pontos. Manteve-se na área positiva, acima de 50 pontos, mas a piora de humor desde o início do ano se agravou.

Medíocre talvez seja uma palavra suave para qualificar o desempenho econômico previsto, nas instituições financeiras e nas principais consultorias, para 2021. A mediana das últimas projeções ficou em 3,43%. Para isso, no entanto, bastará a economia manter a atividade alcançada no trimestre final de 2020, 3,14% superior à do período de julho a setembro, segundo o índice estimado pelo Banco Central.

Sem o auxílio emergencial, mais de 17 milhões de pessoas caem de novo no estado de pobreza, ampliando para cerca de 62 milhões o contingente de indivíduos com renda diária inferior a US$ 5,50. Passada a Quarta-feira de Cinzas, o governo ainda espera do Congresso medidas para restabelecer, em condições mais limitadas, o socorro financeiro abandonado, por falta de previsão e de planejamento, na virada do ano. Quanto às demais condições necessárias à sustentação da economia, continuam obscuras. Quando se trata de previsão e de planejamento, estão empatados, ou quase, os Ministérios da Economia e da Saúde.


Faroeste caboclo no país da Terra plana

 João Gabriel de Lima, 

O Estado de S.Paulo

Facilitar o acesso a armas no Brasil é como jogar um fósforo aceso em chão de pólvora

  Foto: Valeria Gonçalvez/Estadão

Decreto de Bolsonaro facilita acesso a armas de fogo e munições 

“Em relação à carnificina que provocam, as armas de uso individual podem ser comparadas às armas de destruição em massa”, disse Kofi Annan, ex-secretário-geral das Nações Unidas. A frase é de 2000. No ano seguinte, a ONU realizou em Nova York a Primeira Conferência Internacional sobre Armas de Fogo – o Brasil do presidente Fernando Henrique enviou uma das maiores delegações, com representantes do governo e da sociedade civil. Se existe um consenso no planeta Terra – aquele que é azul e, para espanto de alguns, redondo – é o que defende o controle das armas de uso individual. Tal entendimento, baseado em evidências e estudos acadêmicos, formou-se há mais de 20 anos. Da conferência de Nova York para cá vários países criaram leis nessa direção. 

O espírito de tais leis – incluindo a brasileira, alinhada ao consenso internacional – é impedir que as armas turbinem os homicídios ou caiam nas mãos do crime. Os vários decretos do presidente Jair Bolsonaro sobre o assunto, incluindo os que foram publicados na sexta-feira de carnaval, vão na contramão desse espírito. Eles emasculam o Exército e a Polícia Federal em seu poder de fiscalizar os armamentos. No limite, dificultam a investigação de crimes por parte das polícias, como mostra Michele dos Ramos, assessora especial do Instituto Igarapé e mestre em segurança internacional. Ela é a personagem do minipodcast da semana. 

Os que discordam do consenso – principalmente nos Estados Unidos – costumam brandir o exemplo do Canadá, país com legislação liberal e criminalidade baixíssima. No livro Armas para quê?, o professor Antônio Rangel Bandeira – pós-graduado em Ciência Política justamente no Canadá – afirma, com base em pesquisas, que a violência urbana é causada por pelo menos 40 variáveis. Elas estão praticamente ausentes no Canadá, onde há bem-estar social, polícia eficiente e alto grau de confiabilidade nos governantes. Em países como o Brasil, com altos índices de pobreza e desigualdade, corrupção minando as instituições policiais e desconfiança dos políticos, facilitar o acesso a armas é como jogar um fósforo aceso em chão de pólvora. 

O Congresso brasileiro reflete o pensamento da maioria acadêmica. Os decretos de Bolsonaro foram criticados pela esquerda (Marcelo Freixo, do PSOL), pela centro-direita (Rodrigo Maia, do DEM), por aliados de Bolsonaro (Marcelo Ramos, do PL) e por alguns integrantes da bancada evangélica – que enfatizaram o caráter “anti-humano e anticristão” da medida, nas palavras de Eliziane Gama, senadora pelo Cidadania. 

Em editorial publicado na quarta-feira, o Estadão lembrou que o presidente “já deu a entender que defende o uso desse armamento contra inimigos políticos”. Na inesquecível reunião ministerial de abril de 2020, Bolsonaro afirmou que, “se estivesse armado”, o povo “iria para a rua” em desobediência às medidas de alguns governadores para combater a pandemia. 

Na semana da posse de Joe Biden (defensor, aliás, do controle de armas), esta coluna listou medidas sensatas de diversos governantes mundo afora – num indício de que a Terra, depois de um momento de loucura, voltaria a ser redonda. Cabe ao Congresso colocar o Brasil na rotação normal do planeta e gongar o faroeste caboclo. Se não fizer isso, continuaremos a ser o país que – seja no combate à pandemia, seja no controle de armas – ignora o conhecimento baseado em evidências. O país da Terra plana.

*ESCRITOR, PROFESSOR DA FAAP E DOUTORANDO EM CIÊNCIA POLÍTICA NA UNIVERSIDADE DE LISBOA



A interferência de Bolsonaro na Petrobras

 Editorial

Gazeta do Povo (Paraná)

 Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil


O presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco (foto), recebeu

 uma ameaça velada de demissão do presidente Jair Bolsonaro.| 

O preço dos combustíveis e o populismo tarifário estão derrubando mais um excelente presidente da Petrobras graças à interferência de um presidente da República. Em 2018, Pedro Parente pediu demissão após a pressão do Planalto para baixar os preços do diesel como forma de contentar caminhoneiros em greve. Pouco mais de dois anos e meio depois, é Roberto Castello Branco quem está prestes a deixar o cargo após o anúncio de um novo reajuste no preço praticado nas refinarias; o aumento foi criticado na quinta-feira pelo presidente Jair Bolsonaro em sua live semanal, com a insinuação de que haveria mudanças na estatal. “Tem que mudar alguma coisa. Vai acontecer”, disse o presidente. O reajuste praticamente anulou o efeito da decisão de zerar o PIS/Cofins cobrado sobre o diesel. No fim da tarde de sexta-feira, veio o anúncio: Bolsonaro quer substituir Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna.

Para justificar o aumento, a estatal argumentou que “o alinhamento dos preços ao mercado internacional é fundamental para garantir que o mercado brasileiro siga sendo suprido sem riscos de desabastecimento” – de fato, a política de preços aplicada pela Petrobras desde que Parente assumiu a empresa, a convite de Michel Temer, foi a de acompanhar as oscilações do petróleo no mercado internacional. Foi assim que a estatal conseguiu voltar ao azul e deixar para trás a tragédia lulopetista, com os preços dos combustíveis artificialmente represados para evitar uma disparada inflacionária. Esta medida abalou profundamente os cofres da empresa, que ainda por cima sofreu com a corrupção desenfreada e decisões de negócio absurdas, como as que envolveram as refinarias de Pasadena e Abreu e Lima.

Por mais que se reconheça o impacto daninho de reajustes sucessivos 

dos combustíveis para toda a população, a resposta não pode ser 

a repetição do populismo lulopetista que jogou a Petrobras na lona

E o petróleo está, de fato, ficando mais caro – a onda de frio nos Estados Unidos apenas piorou a situação ao elevar a demanda. O barril do petróleo brent, que custava US$ 23 no início da pandemia, em março do ano passado, superou os US$ 60 no início de fevereiro de 2021 e não há indícios de baixa; além disso, também o dólar não dá sinais de que irá se desvalorizar diante do real. Esta combinação é a pior possível para os preços dos combustíveis no Brasil, e a Petrobras pode até amortecer uma parte deste efeito, mas não há como represar completamente seus preços sem ameaçar a própria saúde financeira.

Para uma troca na presidência da Petrobras, não basta a vontade de Bolsonaro; a decisão cabe ao Conselho de Administração da companhia, que se reúne no dia 23 e tem Castello Branco em bom conceito. Até esta sexta-feira, a opção de Bolsonaro, segundo informações de bastidores, era a da fritura, a exemplo do que ocorreu com o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta: à medida que as divergências públicas foram se acentuando, a situação do subordinado ficaria insustentável, levando-o a pedir demissão. No entanto, ao contrário de Mandetta, que dobrava a aposta nas coletivas sobre a Covid-19 e em entrevistas a veículos de comunicação, aprofundando o fosso, Castello Branco vinha optando pelo silêncio. E ele nem precisaria responder, pois os investidores, que nada têm de ingênuos e também sabem identificar pressões veladas, já o fizeram no pregão desta sexta-feira, com as ações preferenciais da estatal caindo 6,14% e as ordinárias, em queda de 7,23%. Se apenas a fritura já levou a tamanha queda, é de se imaginar o que ocorrerá na próxima segunda-feira, agora que a interferência está escancarada.

Esta troca no comando da Petrobras, motivada por um descontentamento com a política de preços da empresa, aparece como mais um sinal a desmentir o discurso liberal que ajudou a levar Bolsonaro à Presidência. Por mais que se reconheça o impacto daninho de reajustes sucessivos dos combustíveis para toda a população, a resposta não pode ser a repetição do populismo lulopetista que jogou a Petrobras na lona. Pelo contrário: o mercado de petróleo, gás e combustíveis, ainda marcado por várias restrições no Brasil, precisa de mais liberdade e competição, algo que o próprio Castello Branco defende e vinha colocado em prática, por exemplo no plano de venda de refinarias. Sacrificar o médio e longo prazo em nome de um conforto passageiro é um erro que não podemos voltar a cometer.


O fim da autonomia da Petrobras

  Editorial

O Globo


Por não entender a regra tão candidamente expressa pelo general-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello — “um manda, o outro obedece” —, o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, foi demitido ontem pelo presidente Jair Bolsonaro, irritado com mais um aumento de preço nos combustíveis. Foi substituído pelo general da reserva Joaquim Silva e Luna. Bolsonaro cumpriu a ameaça feita na véspera, de que “algo” aconteceria na Petrobras depois dos reajustes.

De uma só vez, acabou com qualquer confiança que ainda pudesse existir no modo como o governo conduz a empresa. Mandou às favas o compromisso com uma linha liberal de política econômica. Não era mesmo confiável o discurso de que não interferiria na empresa para defender sua base eleitoral de caminhoneiros. Bolsonaro já anunciara que todos os impostos federais (PIS-Cofins e Cide) serão retirados do diesel por dois meses e do gás de cozinha sem prazo definido.

Só faltou, naturalmente, indicar a fonte de compensação para a perda de receitas, como determina a Lei de Responsabilidade Fiscal. A questão deverá ser acompanhada de perto pelo Tribunal de Contas da União e pelo Congresso.

Na prática, Bolsonaro repete exatamente o que fez a presidente Dilma Rousseff, do PT, quando interveio de forma demagógica no preço dos combustíveis e tecnicamente quebrou a Petrobras. Bolsonaro transfere o ônus aos contribuintes, enquanto Dilma esvaziou o caixa da empresa, que se viu forçada a acumular um volumoso endividamento. Bolsonaro age de forma atabalhoada para atender a interesses políticos pessoais. Dilma acreditava num projeto econômico nacional-desenvolvimentista. Os motivos podem ser distintos, mas ambos se equivalem nas políticas desastrosas.

Os reajustes aplicados pela Petrobras — 15,1% no diesel (27,7% no acumulado do ano) e 10,2% na gasolina (34,7% desde janeiro) — têm dois motivos evidentes. O primeiro é o aumento no preço do petróleo no exterior, referência para toda empresa do setor. O segundo motivo é a desvalorização do real, uma das moedas que mais perdem valor no mundo. Trata-se de reflexo evidente da degradação da imagem do país no exterior, devido à falta de capacidade do governo Bolsonaro em dar a velocidade necessária às reformas e em transmitir confiança.

Depois do aumento anterior, o Planalto decidiu enviar ao Congresso um projeto de Lei Complementar que altera a incidência do ICMS, principal imposto estadual sobre os combustíveis. Seria um tema adequado para tratar na reforma tributária. Virou instrumento da intervenção demagógica na estatal.

Os danos da interferência de Bolsonaro na Petrobras vão muito além do caso específico dos combustíveis. As repercussões negativas da queda de uma gestão profissional, guiada pelo mercado, serão intensas e causarão mais estragos. O Brasil vai se tornando a passos largos um pária mundial também na economia. Atos como a ingerência do Executivo na política de preços de uma estatal causam fuga de investidores e desestimulam a vinda de outros. Só contribuem para aumentar o clima de insegurança para quem quer fazer negócios aqui.


A Lava Jato morreu na infância

 Elio Gaspari

 O Globo

Ninguém saiu da operação como entrou e ninguém saiu bem dela

Acabou-se a força-tarefa de Curitiba que durante sete anos mostrou ao país o maior esquema de corrupção de sua história. Morreu sem choro nem vela. Empreiteiros corruptos e onipotentes foram para a cadeia, suas empresas encolheram, milhares de empregos sumiram e nenhum deles ficou pobre.

O juiz Sergio Moro tornou-se uma celebridade nacional, mumificou-se indo para o ministério de Bolsonaro e de lá para a humilhação pública. Alguns procuradores lambuzaram-se com a fama. Ninguém saiu da Lava Jato como entrou e ninguém saiu bem dela.

Só a poesia de Paulinho da Viola captura o tamanho dessa tragédia: “A marca dos meus desenganos ficou, ficou. (…) / Foi um rio que passou em minha vida, e meu coração se deixou levar.”

Em seus quase 200 anos de história, o Brasil teve solavancos e ditaduras, mas nunca teve um governo internacionalmente comprometido com o atraso. (Dom Pedro 2º nunca saiu pelo mundo defendendo a escravidão.)

Em 1831, depois de ter assinado um tratado com a Inglaterra, o governo brasileiro proibiu a importação de escravizados. O centrão daquele tempo mastigou a lei, e o tráfico só foi suspenso em 1850. Nesse período, entraram no Brasil 800 mil escravizados. O contrabando alimentava uma economia que cevava a política de senhores vestidos como europeus. Como ensinou Mark Twain, a história não se repete, mas às vezes rima.


Este país é um espeto.

 Coluna Carlos Brickmann

 Há vegetarianos, há veganos, mas a grande maioria de nossos leitores ama uma boa picanha na brasa. Há abstêmios, há quem não goste, mas a grande maioria de nossos leitores quer uma cerveja de qualidade na hora da picanha.

Então, por que tanto escândalo só porque as Forças Armadas compraram no ano passado 714 mil quilos de picanha, com cerveja suficiente para o que der e vier? Tudo no capricho: cerveja Stella Artois importada da Bélgica, ou Heineken, ou Skol, tudo puro malte, coisa fina. Até mesmo a Skol não é das comuns, é também puro malte. Coisa para bons paladares – o que explica até como o general-ministro da Saúde ficou daquele tamanho. E tudo caríssimo.

Quer dizer, caríssimo para nós, caro leitor. Para eles, mais caro ainda: as garrafas de cerveja saíram por R$ 9,80 – veja o preço no supermercado mais próximo. A deles deveria sair por preço menor, já que comprada em grande quantidade; mas saiu mais cara, bem mais cara. Nas 76 licitações da picanha, há preço de uns R$ 85 o quilo. A Picanha Nobre Swift Ouro, na loja chique da Swift dos Jardins, SP, sai por R$ 77 o quilo – e no varejo, não no atacado.

Como se vê, é falsa a informação de que o Governo sobrevive de beber o nosso sangue. Há coisas mais nutritivas. Os preços que o Governo paga estão em documentos oficiais. É por isso que um grupo de deputados federais acionou o Tribunal de Contas da União e a Procuradoria Geral da República para investigar as compras. A suspeita é de sobrepreço, ou superfaturamento.

 O lobo e o pelo

A vantagem de ter idade, já ensinava o sábio Octavio Frias de Oliveira, o mago que transformou a Folha num império empresarial, é ter visto tudo acontecer, e o contrário também. Este colunista lembra que, nos tempos do presidente Médici, os incontáveis militares gaúchos que foram para Brasília odiavam a carne do gado da região. E ia um avião da FAB toda semana para o Rio Grande do Sul buscar a carne adequada para eles. A explicação era de que a tripulação tinha de cumprir determinado número de horas de voo. Por que não indo a Porto Alegre buscar a ótima carne do bom gado gaúcho?

 A vida é bela

Do excelente colunista carioca Aziz Ahmed, de O Povo: “O BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, paga a seus funcionários R$ 1.521 de auxílio-refeição e R$ 654 de cesta-alimentação”. Isso é que é pensar em tudo: o auxílio-refeição é para o funcionário pagar a conta do restaurante e a cesta-alimentação para ajudar na alimentação do lar. Houve queda no valor do auxílio-refeição por causa do home-office? É claro que não: os funcionários não têm culpa nenhuma da pandemia.

SP-NY

Talvez alguém consiga explicar-me por que o governador Doria, em boa fase por ter conseguido trazer ao Brasil a vacina que o presidente ainda está procurando, brigou com boa parte de seu partido para expulsar Aécio Neves e tirar a presidência de Bruno Araújo? Bruno Araújo era gente sua e o próprio Doria o havia indicado; Aécio não é um político tão importante que justifique uma briga. Resultado, não só Araújo continua no comando, e agora sabendo que Doria não o quer, como Aécio ficou no partido e há tentativas de lançar à Presidência, em vez de Doria, o governador gaúcho Eduardo Leite.

Lembrando Fiorello la Guardia, o lendário prefeito de Nova York: “O político tem de ciscar para dentro. Quem cisca para fora é galinha”.

 Os nomes

Ainda falta muito tempo para as eleições presidenciais. Já se lançaram o governador Doria (mal nas pesquisas) e Fernando Haddad, tentando mais uma vez fazer o papel de Lula – mais ou menos como escalar Renato Aragão para substituir Sylvester Stallone em Rocky 22. Mandetta? Seu DEM rachou. E, daqui a um ano e meio, quem se lembrará do ministro da Saúde que, no início da pandemia, virou herói? Luciano Huck? Pode ser – mas ele não é o Sílvio Santos, que por pouco não rachou a candidatura de Collor e, se não fossem os tribunais, teria sido altamente competitivo. Moro? Hoje parece um candidato forte. Se a destruição da Lava Jato pegar mal, ele ganha força, mas tem de manter-se forte até outubro do ano que vem.

Ainda falta articulação para lançar um nome – mas cadê os bons articuladores políticos do país?

 Palpite

Preste atenção na empresária Luiza Trajano, do Magazine Luiza: caso o plano que vem articulando para vacinar toda a população do país antes do fim do ano dê certo, ela pode ser a novidade eleitoral. Terá feito aquilo que ninguém conseguiu fazer, sua reputação é excelente, já mostrou que é muito competente e capaz de fazer o que é preciso. Mas, exatamente por isso, espere pelos obstáculos que vão colocar-lhe no caminho. Não podemos nos iludir: salvar vidas, ajudar a vencer a pandemia, melhorar a situação da população, nada importa para os lá de cima.

Importa é não ter adversário.


carlos@brickmann.com.br

Twitter:@CarlosBrickmann

www.brickmann.com.br


Se você passou dos 65 anos e pode acessar a internet, entenda que é um ser abençoado…

 Mário Assis Causanilhas

Tribuna da Internet

 

Charge do Frank (Arquivo Google)

Certas informações que circulam na internet merecem ser lidas por todos, porque servem até como lições de vida, para que cada um de nós se posicione tendo certeza de quem verdadeiramente é, em meio aos demais habitantes da Terra, que estão em torno de 7,8 bilhões de pessoas. Confira esses dados importantíssimos e, se você está acima dos 65 anos e acessou a internet para lê-los, entenda que é um grande privilegiado,

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OS NÚMEROS NOS MOSTRAM A VERDADE SOBRE O MUNDO

Para a maioria das pessoas,7,8 bilhões é um número grande. Isso é tudo. No entanto, em termos percentuais, podemos apreciá-lo em uma dimensão mais humanamente gerenciável. A análise resultante é relativamente mais fácil de entender.

Desse total, 11% estão na Europa; 5% na América do Norte; 9% na América do Sul; 15% na África e 60% na Ásia. E se dividem em dois grupos – 49% vivem no campo e 51% vivem em cidades.

Outro dado muito curioso – 12% falam chinês; 5% espanhol; 5% inglês; 3% árabe; 3% hindi; 3% bengali; 3% português; 2% russo; 2% japonês; e 62% falam sua própria língua nativa.

CASA E COMIDA –

 77% possuem casa própria, mas 23% não têm onde morar. Enquanto 21% podem comer à vontade e 63% conseguem fazer refeições completas, 16% desnutridos, comeram a última refeição, mas não sabem como será a próxima.

O custo de vida diário de 48% é inferior a dois dólares. Se 87% têm água potável limpa, 13% ainda carecem de água potável ou têm acesso a uma fonte de água contaminada.

Outro dado importante – 75% têm telefones celulares, 25% não, e só 30% têm acesso à internet, enquanto os restantes 70% não têm condições de se conectar.

EDUCAÇÃO E SAÚDE –

 Somente 7% receberam educação universitária e 93% não cursaram faculdade, mas 83% sabem ler e 17% continuam analfabetos.

Em matéria de religião, 33% são cristãos; 22% muçulmanos; 14% hindus; 7% budistas; 12% são de outras religiões; e 12% não têm crenças religiosas.

Outros dados impressionantes: 26% vivem menos de 14 anos; 66% morrem entre as idades de 15 e 64 anos e apenas 8% ultrapassam os 65 anos.

AGORA, RACIOCINE – 

Se você tem sua própria casa, faz refeições completas e bebe água limpa, tem telefone celular, pode navegar na Internet e fez faculdade, você está no pequeno lote privilegiado (na categoria abaixo de 7%).

Nas condições atuais, de cada 100 pessoas no planeta, apenas 8 podem viver mais de 65 anos. Portanto, se você tem mais de 65 anos, seja feliz e grato. Aprecie a vida, aproveite o momento, porque, se você não deixou este mundo antes dos 65 anos, como as 92 pessoas que partiram antes de você, você já é um ser abençoado na humanidade.

Cuide bem da sua saúde, porque ninguém se importa com ela mais do que você. E aprecie cada momento restante!


No caso Petrobras, Bolsonaro implode confiança de gestores

 Juliana Machado*

Exame.com

Como separar o que é ruído do que é uma indicação da forma como será conduzida a gestão de uma estatal? Essa é uma das perguntas que gestores se fazem neste momento

 (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, 

em evento para falar de reajuste de combustíveis e da política

 de preços da Petrobras, no dia 5 de fevereiro de 2021 

Bastou uma declaração com ares intervencionistas do presidente Jair Bolsonaro para uma das maiores companhias do Brasil, a Petrobras, deixar na mesa do mercado financeiro nada menos do que 28 bilhões de reais em valor de mercado – e abrir, entre gestores de fortunas do mercado financeiro, um temor que há tempos não se via: o de ingerência nas estatais e populismo. Quem chega agora ao mercado financeiro se pergunta: é para tanto? A resposta entre profissionais é: sim, é para tanto. Aliás, é até para mais.

A EXAME ouviu alguns porta-vozes, todos na condição de anonimato: sentem dificuldade de traçar cenários, sentem desconforto com o momento e temem até mesmo que o evento transborde ainda mais para outras estatais grandes, outros mercados, como câmbio e juros, e até mesmo para a expectativa com a agenda de reformas – o que parece ser o último bastião do investidor. Trata-se de um risco de quebra de confiança, um tipo de teste bastante complicado de ser feito em um ano de ressaca pandêmica e contas públicas flageladas.

Nos bastidores, diversos gestores se queixam do novo capítulo de um Brasil que imaginavam ter ficado no passado. “Acabou com meu final de semana”, reclama um profissional veterano de uma grande gestora, que ainda avalia os impactos para a casa e que tem ações da companhia, tanto por considerá-la barata demais em relação ao seu valor justo quanto pelo ciclo de alta de commodities atual.

A Petrobras entrou em rota de queda no pregão da sexta-feira logo no começo da tarde, depois que o presidente afirmou, com todas as letras, que mudanças seriam feitas na empresas. Neste caso, promessa, infelizmente, foi dívida: o pregão fechou e, na sua conta do Facebook, Bolsonaro declarou que indicaria o general Joaquim Silva e Luna, atual diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, para o cargo de CEO da estatal petroleira, cadeira ocupada por Roberto Castello Branco. A declaração do presidente veio antes do comunicado oficial de quatro linhas do Ministério de Minas e Energia, informando que procederia à indicação de Silva e Luna.

Quem referenda a decisão é o conselho de administração. Portanto, a novela não terminou. Mas quem é investidor de companhias estatais na bolsa sabe muito bem que só uma sugestão, um atropelo, um sinal de recrudescência, tem poder suficiente para levar o mercado a amargar prejuízo.

Esse é o tipo de dinâmica que pode acontecer com qualquer companhia, mas é especialmente importante nas sociedades de economia mista porque nelas habita uma estrutura um pouco diferente das demais, tratada em leis específicas como a 13.303/2016: o controle acionário pelo governo, dividido com investidores privados.

Isso significa que indicações da diretoria feitas pelo controlador – o governo federal, neste caso – são tratadas com muita sensibilidade, já que ali se desenha (ou não) o compromisso de atuar alinhado ao interesse público e de forma compatível com objetivos econômicos.

O grande desafio de investir é sempre saber separar o que é ruído do que é fundamento, mas como saber isso no caso de empresas que dependem da condução do governo? Como separar o que é ruído do que é uma indicação da forma como será conduzida a gestão de uma estatal? Como assegurar que uma companhia vai se preocupar fundamentalmente com o seu objetivo econômico e o zelo pelos seus acionistas? Quanto vale a empresa nesse contexto?

Essas são as perguntas que grandes gestores, entre detentores ou não de ações da Petrobras, fazem-se neste exato momento. E logo agora, em que a agenda fiscal tentava esboçar um avanço e a Petrobras, conduzida com alinhamento à governança corporativa e na venda de ativos, era o menor dos problemas.

“Bastante graves esses eventos... Aliás, bastante tristes. E bem na hora em que a empresa e o país iam começar a lucrar com esse ciclo de alta das commodities”, resigna-se um gestor de um grande fundo que detém posição na Petrobras. “Acho bastante difícil o conselho de administração aceitar a indicação do Silva e Luna, a maneira que foi feito [o anúncio] deixa explícita a interferência política. Isso pode tumultuar até mesmo as vendas de refinarias... Quem vai querer investir bilhões em refinarias em um país com esse tipo de interferência?”

“Não temos posição na Petrobras, mas achei a decisão muito ruim, porque questiona sim a liberdade de reajustar seu preço”, limitou-se a afirmar outro profissional, no momento sem interesse em investir no papel antes de ter melhor visibilidade sobre o futuro.

A gravidade da condução do anúncio de troca do comando da Petrobras reside sobretudo no discurso intrusivo e incisivo usado pelo presidente ao demonstrar o seu descontentamento com a alta no preço dos combustíveis, gerada pelo repasse do petróleo – uma prerrogativa que a Petrobras tem assegurada pelo seu estatuto. Para fazer frente ao impacto gerado para grupos de interesse do governo – os caminhoneiros, sobretudo –, o presidente Bolsonaro tratou de zerar impostos sobre combustíveis por dois meses. Aparentemente, não foi suficiente.

“A empresa vinha sendo negociada em bolsa já muito descontada [barata, no jargão do mercado] e esses momentos de estresse em geral podem trazer boas oportunidades. Mas é um desastre, outros ativos pode sofrer muito no processo e as coisas podem demorar a se encaixar”, afirma outro gestor de um grande fundo.

Resta a dúvida a respeito do tamanho e da duração do ruído até ele se dissipar ou, por outro lado, o quanto as indicações feitas por Bolsonaro representam um catalisador de mudança na tese tanto para a empresa quanto para a própria visão do investidor sobre o governo e a sua tão prometida agenda liberal.

*Juliana Machado é jornalista e especialista em fundos de investimento da EXAME Invest Pro.


Entubados, mas armados

 Vera Magalhães

O Globo 

Se depender de Jair Bolsonaro, o número de mortes pela Covid-19 passará em breve dos 300 mil brasileiros, sem que haja uma palavra de compaixão, reconhecimento da tragédia ou das múltiplas ações e omissões propositais que nos levaram a isso. O presidente não está nem aí, já se cansou de dizer.

Para este homem, este presidente incidental e lamentável, pouco importa que as UTIs colapsem com gente entubada em uma, duas, três ondas sucessivas e contínuas da pandemia, desde que ele passe com sua boiada de desmonte das políticas civilizatórias. Para isso, quanto menos gente estiver olhando, melhor.

Se for na calada da noite de um não carnaval ermo, sombrio, melancólico, em que as pessoas lamentam a alegria suprimida com as vidas das pessoas amadas, perfeito.

Para o presidente da República do Brasil, o “povo tá vibrando”. Bolsonaro conhece tanto de povo quanto de cloroquina: absolutamente nada. Sua noção de povo se limita a olhar gráficos de popularidade em pesquisas e, quando eles caem, se preocupar com o próprio pescoço.

É quando isso acontece, que ele se lembra de chamar algum auxiliar e ordenar uma medida que arrefeça a indisposição com seu governo, coalhado de ministros tão ineptos quanto o chefe, que só por isso estão onde estão.

Quem seria Gilson Machado em qualquer outra época que não fosse o governo Bolsonaro? Nem para tocar sanfona como calouro num daqueles programas dos anos 1980 serviria. Seria gongado por Aracy de Almeida. Sem o escrutínio daquele baluarte do bom gosto musical, somos obrigados a ouvi-lo não apenas tocar desajeitadamente o instrumento, como fazer perorações absurdas acerca de um suposto “castigo divino” que teria se abatido sobre nós pelos pecados do carnaval e teria resultado nas mortes por Covid-19.

Tal pessoa, saída de algum desvão da História onde deveria ter permanecido, é ministro do Turismo! Motivo de um indisfarçado orgulho de um presidente que se jacta de ser cercado de fracassados e ressentidos — com cada vez mais raras exceções que, se não se tocarem de onde estão enfiadas, vão virar a regra.

Depois de boicotar de todas as formas que conseguiu a vacinação dos brasileiros e comprar, fabricar e enfiar goela abaixo de doentes incautos um medicamento sabidamente ineficaz, Bolsonaro parece encantado com a possibilidade de a Covid-19 sumir com um spray nasal.

A droga, em fase inicial de testes, é desenvolvida por Israel, o que faz com que o presidente a considere “ideologicamente correta”. Surtiu efeito em, vejam só, 29 pessoas! Uau!

Mas onde estão as vacinas, presidente? Por que seu ministro-general da Saúde, que o senhor disse ser especialista em logística quando demitiu dois médicos, não consegue estruturar um plano de chegada de doses mínimas de imunizantes a estados e municípios que terão de paralisar a vacinação?

Por que, no lugar de editar de uma vez, na calada da noite, quatro decretos inconstitucionais e imorais, que liberam geral não apenas a posse de armas, mas de miras telescópicas e a fabricação de munição, e permitem transformar os amigos caçadores, atiradores e colecionadores em Rambos armados até os dentes, o senhor não estava cobrando de Pazuello que implemente um plano de vacinação capaz de tirar o Brasil da UTI, onde permanece entubado graças à incompetência do senhor e do seu estafe?

É inadmissível que assistamos anestesiados à completa inversão de prioridades numa crise sanitária. A vacina mingua no momento em que estamos no pico de casos e mortes, com a nova cepa do vírus se espalhando pelo país. O auxílio emergencial ainda está sendo estruturado, mas os decretos de armas estão aí, a desafiar o bom senso, o Supremo Tribunal Federal e um Congresso que é cúmplice da incitação à barbárie e à morte.


 Texto Marcos Strecker, Eudes Lima e Iara Lemos

Revista ISTOÉ

Bolsonaro publica um arsenal de decretos que cria um ambiente para a militarização e a formação de milícias urbanas

 


Na véspera do Carnaval e menos de duas semanas após colocar dois aliados na direção da Câmara e do Senado, Jair Bolsonaro editou quatro decretos que ampliam a compra, a posse e o porte de armas. O presidente escolheu esse momento preciso, com o Congresso sob controle do Centrão e desmobilizado pelo feriado, para dar o passo mais ousado até o momento no seu projeto de armar a população. A intenção do presidente é clara e foi exposta pelo próprio mandatário em mais de uma ocasião, inclusive na famosa reunião ministerial de abril de 2020. Disse que o povo precisava se armar, pois isso seria uma “garantia” de que ninguém ousará “impor uma ditadura aqui”.

 (Crédito:Divulgação)

NA MIRA Bolsonaro empunha uma submetralhadora: pandemia

 serviu de pretexto para relaxar o controle de armamentos 

Naquele momento, Bolsonaro já usava a pandemia para defender que a população se insurgisse à força. A desculpa eram as medidas restritivas e o uso de máscaras. Em outro momento, pregou o armamentismo para o povo defender “algo mais valoroso do que nossa vida, nossa liberdade”. Tais apelos não têm nada a ver com a defesa de garantias individuais. Na crise da saúde, normas sanitárias bem mais restritivas que as brasileiras são obedecidas em todas as grandes democracias. Esse discurso é apenas um pretexto para mobilizar a base de apoio, estimulando radicais a promoverem ataques cada vez mais perigosos contra as instituições.

 (Crédito:Divulgação 

VITRINE 

Eduardo Bolsonaro é um dos principais defensores da importação 

de armamentos. Nos cinco primeiros meses da gestão Bolsonaro, 

fabricantes brasileiras e representantes da tcheca CZ 

e da austríaca Glock despacharam em vários ministérios 

Os quatro decretos publicados em edição extra do Diário Oficial na noite do dia 12 facilitam o acesso a armamentos e afrouxam seu controle. Institucionalizam a ausência de fiscalização sobre clubes de tiros, empresas de segurança e atiradores. Um cidadão poderá adquirir seis revólveres e carregar dois consigo em qualquer lugar. Se for do chamado grupo dos CACs (colecionadores, atiradores e caçadores), poderá acumular 2 mil munições (balas) sem controle do Exército. Desde o início do mandato, Bolsonaro já publicou mais de 30 alterações para facilitar esse acesso, entre decretos, portarias e normas infralegais. Em tese, esse arsenal de medidas deveria regulamentar o Estatuto do Desarmamento, de 2003, que visava coibir o porte de armas. Na prática, desrespeitam o seu objetivo e desvirtuam até o referendo que decidiu, em 2005, que as armas eram um direito do cidadão para legítima defesa. A barafunda legal se amplia. Nos próximos dias, o STF julgará a legalidade de outra resolução de Bolsonaro, que zera a alíquota de importação de armas. A medida tinha sido suspensa por liminar do ministro Edson Fachin, seguindo um pedido protocolado pelo PSB. Em junho, a Justiça Federal paulista já havia suspendido outra portaria que triplicou de 200 para 600 o limite na compra de munições para quem possui armamento registrado, uma decisão referendada pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região. Com o afrouxamento da legislação, a população já se arma na prática. O número de armas registradas aumentou 91% em 2020.

(Crédito:Divulgação)


GURU ARMADO Inspirador intelectual dos bolsonaristas, 

o escritor Olavo de Carvalho mora nos EUA e tenta

 mimetizar o culto às armas de grupos conservadores 


A iniciativa de armar a população copia a prática de ditaduras.
 O exemplo mais próximo é a Venezuela, onde o chavismo criou as milícias cidadãs
 para intimidar a oposição

As investidas do presidente vão na contramão da experiência internacional e pioram o quadro da Segurança Pública no País. Em 2020, em plena pandemia e já com a liberação parcial das armas, o número de assassinatos subiu 5%, revertendo uma queda que ocorria desde 2018. No Brasil, 74% dos homicídios são cometidos por armas de fogo. É uma aberração. No mundo, essa média é de 40%. “Com esses decretos, o presidente acaba de destruir qualquer capacidade de controle das armas e munições”, afirma Ilona Szabó, cientista política, fundadora do Instituto Igarapé e especialista em Segurança Pública. Para ela, as normas atrapalham e ameaçam o trabalho da polícia, que carece de profissionalização e ostenta um baixíssimo índice de resolução de crimes. O advogado Ivan Marques, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, lembra que 10% de todos os homicídios registrados no mundo acontecem no Brasil, que é recordista mundial em assassinatos por armas de fogo. “A cada 1% a mais de armas em circulação, aumenta 2% o número de homicídios”, diz Natália Pollachi, do Instituto Sou da Paz. Mesmo assim, desde 2019 o governo liberou para os cidadãos comuns a posse de armamentos sofisticados, como a pistola austríaca Glock 9 mm, que custa cerca de R$ 13 mil. Quem se registra como colecionador ou atirador (CACs) já pode comprar fuzis .50, de alta precisão e uso militar, capazes de derrubar helicópteros. E integrar os CACs também ficou mais fácil com os últimos decretos. Antes, uma pessoa precisava do laudo de um psicólogo credenciado pela PF. Agora, esse documento pode ser emitido por qualquer psicólogo. Com os novos decretos, os cidadãos poderão acumular um poder de fogo superior à própria polícia. Sem o rastreamento de munições, a capacidade de investigação de crimes também será inviabilizada. Já a criminalidade será beneficiada. A experiência mundial mostra que as armas, no longo prazo, acabam migrando para o mercado ilegal. No Brasil, em mais de 50% dos delitos os criminosos usam armas que têm origem legal. Os arsenais que serão autorizados para os CACs preocupam especialmente, pois podem cair no controle de facções e milícias. 

(Crédito:Zanone Fraissat)


APROXIMAÇÃO Bolsonaro participa da formatura 

de sargentos da PM de São Paulo, em 2018 

As medidas também não preservam os principais grupos que são vítimas da violência. “Essa política atende a 30% das pessoas que em geral são de mais alta renda, majoritariamente homens. O pequeno grupo que apoia as armas não faz parte das maiores vítimas de violência, que são moradores de periferia, especialmente os jovens negros”, diz Pollachi. José Vicente da Silva Filho, coronel da reserva da PM paulista e ex-secretário Nacional de Segurança Pública, diz que enxerga “uma certa ma fé por parte do presidente”, apesar de não fazer oposição ao mandatário. “Alguém precisa de oito armas?”, questiona. Ele lembra que 72% da população nem apoia o porte de armas. “Atiradores poderão ter 60 armas, não sei para quê. Só se for pra montar uma milícia”, diz. O Exército, quando fizer a fiscalização do arsenal dos CACs, precisará a partir de agora avisar com 24 horas de antecedência. 

(Crédito:Marcelo Camargo/Agência Brasil)


PROTESTO 

Para o vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos,

 o presidente exacerbou sua competência 

Projeto autoritário

Os decretos não têm justificativa na segurança pública ou defesa pessoal, já a motivação política é clara. A iniciativa de armar a população segue um projeto autoritário e copia a prática de ditaduras. O exemplo mais próximo é a Venezuela, onde foram criadas as “milícias cidadãs”. Esses grupos paramilitares armados foram encarregados de intimidar opositores e garantir a segurança do regime. Mussolini declarava que “só um povo armado é forte e livre”.

A ideologia fascista inspirou o chavismo e agora alimenta seu movimento homólogo de direita, o bolsonarismo. Apesar de os radicais terem sido contidos até o momento pelo STF, com os inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos, o presidente continua a pregar contra a liberdade de expressão. Nos dias seguintes à investida armamentista, voltou a atacar a imprensa. Em uma live transmitida pelo filho Eduardo, o presidente disse que “o certo é tirar de circulação” os grandes veículos pois são “fábricas de fake news”. E emendou: “Não vou fazer isso porque eu sou um democrata”. Mas, dias antes, não escondeu sua convicção autocrata ao fazer a declaração mais explícita contra a ordem constitucional: “Quem decide se um povo vai viver numa democracia ou numa ditadura são as suas Forças Armadas”, disse. Como se vê nas manifestações cada vez mais agressivas dos apoiadores do presidente, que pregam a violência e adoram se exibir com fuzis e pistolas, o risco autoritário é concreto. A própria democracia americana foi colocada à prova por manifestantes que invadiram à força o Congresso americano para interromper o processo de transição pacífica de poder. A ação foi incitada por Donald Trump, que é a grande referência do presidente brasileiro. Outra estratégia golpista do americano já é imitada por Bolsonaro. Por ter consciência de que pode fracassar na sua tentativa de reeleição, ele tenta deslegitimar as eleições de 2022 alegando risco de fraude com as urnas eletrônicas — mesmo que nunca tenha sido registrado um só caso de desvio no processo digital. Nos EUA, uma das prioridades de Joe Biden é aumentar a fiscalização sobre a compra de armas e limitar o poder ofensivo dos equipamentos vendidos, para evitar a repetição dos massacres em escolas — um fenômeno que, infelizmente, já aconteceu no Brasil.

Militarizar a sociedade

A ofensiva armamentista faz parte da estratégica adotada pelo presidente de militarizar a sociedade e politizar os quartéis. Bolsonaro, que já apoiou motins de policiais, pretende tirar dos governadores o controle sobre as PMs. Aparelhou o executivo com fardados e tem investido ativamente para cativar oficiais de baixa patente em todo o País, nas Forças Armadas e nas Polícias Militares. “Permitir o acúmulo de munições e armas sofisticadas sem registro do Exército é inimaginável em um Estado de Direito”, diz Szabó. “O Exército faz o controle de vidros blindados de carros, mas a compra de munição e armas está liberada. Num País violento como o Brasil, qualquer governo sensato recolheria todas as armas”, argumenta José Vicente.

A iniciativa de Bolsonaro irritou partidos e congressistas. O Cidadania alega que o ato do presidente usurpa poderes do Congresso de legislar. A senadora Eliziane Gama apresentou quatro projetos que sustam os efeitos das medidas. “Em dois anos, o número de armas ilegais em mãos de pessoas saltou de pouco mais de 600 mil para perto de 1,2 milhão. É um desvario completo”, critica. Como os decretos presidenciais não precisam ser aprovados para entrar em vigor e passam a valer 60 dias após sua publicação, ao Congresso restará aprovar projetos que sustem seus efeitos. A principal manifestação contrária veio do vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PL), que é do Centrão. Para ele, Bolsonaro exacerbou sua competência. “Eu discordo desse decreto, no conteúdo, na forma e na oportunidade. Não é armando as pessoas que vamos fazer política de Segurança Pública. Alguns aspectos do decreto exorbitam o poder regulamentar. E o momento é inadequado, com 245 mil mortos, 14 milhões de desempregados e mais de 700 mil micro e pequenas empresas fechadas devido à pandemia. Tudo que não é importante é discutir armas agora”, afirmou. Mas Arthur Lira, o presidente da Câmara, já apoiou a iniciativa. “Ele não invadiu competência. Modificou decretos já existentes. É prerrogativa do presidente. Pode ter superlativado na questão das duas armas para porte, mas isso pode ser corrigido”, disse. Com essa atitude, o líder do Centrão já começou a retribuir o apoio do presidente à sua eleição no último dia 1º. A bancada da bala, naturalmente, vibrou. Já a bancada evangélica resiste. Seus representantes argumentam que o armamentismo está em contradição com valores religiosos. Especialistas também apontam a ilegalidade das normas. “O governo não só extrapola entrando na seara do Congresso como também, em algumas partes, viola acordos internacionais e tratados assumidos no passado, como o protocolo da ONU sobre armas de fogo “, diz Marques.

 (Crédito: Eduardo Knapp)

“Com esses decretos, o presidente Jair Bolsonaro acaba de destruir

 qualquer capacidade de controle das armas e munições” Ilona Szabó, 

especialista em Segurança Pública e fundadora do Instituto Igarapé

A edição dos decretos já chegou ao STF, onde o PSB pediu sua suspensão. O PSOL vai entrar com uma ação de inconstitucionalidade e o PCdoB também vai recorrer. Alheio à repercussão, o clã presidencial estava exultante com a repercussão favorável nos grupos bolsonaristas. Acompanhando o pai no feriado do Carnaval no litoral de Santa Catarina, Eduardo Bolsonaro comemorou. Perguntou a apoiadores se estavam “felizes” com os decretos. Questionado por populares, Bolsonaro disse que “o povo está vibrando” (no Twitter, no entanto, bloqueou Ilona Szabó após um tuite em que a especialista criticava os decretos). A euforia também tem uma razão política. A repercussão do tema contribuiu para desviar a atenção da gestão irresponsável na pandemia. Coube à Frente Nacional de Prefeitos cobrar o óbvio. “Não é momento para discutir e avançar com a pauta de costumes ou regramento sobre aquisição de armas e munições.” Para a entidade, isso é um desrespeito com os mortos na pandemia e uma grave desconsideração com a população. A indignação não é só dos municípios. Agora, cabe ao Congresso e ao STF barrar a escalada armamentista para a defesa da própria democracia. Até o momento, muitos em Brasília acham que é melhor relevar as “loucuras” do presidente. Fazem um cálculo político perigoso. Minimizam seus atos e esperam que ele perca popularidade até as próximas eleições. Mas, pouco a pouco, Bolsonaro avança em sua agenda autoritária. Essa “insanidade” tem método e já provou ser bem-sucedida. Loucura é deixar que o mandatário complete seu projeto ditatorial. 


Ilegal, inoportuno e muito perigoso

 Editorial

O Estado de S.Paulo

Decretos que ampliam o acesso e afrouxam o controle sobre armas de fogo desrespeitam o Estatuto do Desarmamento

No dia 12 de fevereiro à noite, uma sexta-feira, véspera do feriado de carnaval, o governo federal divulgou quatro decretos alterando outros quatro atos do próprio governo, editados em 2019, com o propósito de ampliar ainda mais o acesso a armas de fogo e afrouxar o seu controle pelo poder público. Os novos decretos vão muito além de mera regulamentação da legislação aprovada pelo Congresso. Eles desrespeitam o objetivo e as disposições do Estatuto do Desarmamento (Lei 10.826/2003). São, portanto, ilegais, merecendo pronta revogação.

O governo de Jair Bolsonaro não apenas desrespeitou os limites do poder de regulamentação do Executivo. Os novos atos do governo federal em relação às armas são extremamente perigosos, facilitando a vida das milícias e de quem deseja utilizar as armas de fogo para além das coordenadas legais. Por exemplo, as novas medidas tornam mais precário o rastreamento de munições, o que, entre outros danos, pode dificultar a elucidação dos crimes.

Os quatro decretos dão a exata dimensão das prioridades do governo de Jair Bolsonaro. No meio de uma gravíssima crise de saúde pública, com mais de 240 mil mortos pela covid-19, com consequências devastadoras sobre a situação social e econômica do País, o presidente Bolsonaro atua não para prover vacina para a população, mas para desregulamentar o acesso e o uso de armas de fogo.

Para agravar o quadro, Jair Bolsonaro tem sugerido que a ampliação do porte e uso de armas de fogo não tem relação apenas com a defesa pessoal. Ele já deu a entender que defende o uso desse armamento contra inimigos políticos. Em reunião ministerial de abril de 2020, Jair Bolsonaro foi explícito, ao exigir, em meio a muitos palavrões, “que o povo se arme”, pois isso seria a “garantia” de que ninguém ousará “impor uma ditadura aqui” – referindo-se explicitamente a prefeitos e governadores que haviam imposto medidas restritivas de movimento para enfrentar a pandemia. “Se estivesse armado, (o povo) ia para a rua” e, assim, desobedeceria à ordem desses governantes, disse o presidente. 

Na ocasião, ele pressionava o então ministro da Justiça, Sérgio Moro, e o ministro da Defesa, Fernando de Azevedo e Silva, para que ampliassem o acesso da população a armas de fogo, o que afronta a legislação em vigor. Com a Lei 10.826/2003, o Congresso procurou promover precisamente o desarmamento.

Ainda no primeiro semestre de 2019, Bolsonaro havia defendido “o armamento individual para o povo”, mas não para que o indivíduo preserve a própria vida, e sim para defender “algo muito mais valoroso que a nossa vida, que é a nossa liberdade”. Essa campanha para armar a população, ainda mais com fins explicitamente políticos, não encontra nenhum respaldo na Constituição e nas leis do País. 

Tal é o disparate dos quatro decretos de Jair Bolsonaro que até lideranças do Centrão se mostraram avessas à nova regulamentação. Deputados do PL, PSD e MDB disseram ser contrários às novas disposições do governo federal sobre as armas de fogo. “Mais grave que o conteúdo dos decretos relacionados a armas editados pelo presidente é o fato de ele exacerbar o seu poder regulamentar e adentrar numa competência que é exclusiva do Poder Legislativo”, escreveu, em sua conta no Twitter, o vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PL-AM).

No início da semana, foi proposto na Câmara um projeto de decreto legislativo para derrubar o Decreto 10.630/2021, um dos quatro novos atos relativos às armas de fogo. De fato, é preciso que o Legislativo ponha fim ao descalabro do governo de Jair Bolsonaro de liberar, fora dos limites da lei, a posse e o uso de arma de fogo e ainda dificultar o seu controle.

Além de defender as competências constitucionais do Congresso, trata-se de evitar que o País fique refém de um presidente da República que, alheio às responsabilidades do cargo, tenta criar confusão e, no limite, o caos.


Mais armas, mais segurança: a questionável lógica de Bolsonaro

 Ines Eisele

Deutsche Welle

Especialistas afirmam que mais armas também representam mais violência e simplesmente facilitar acesso a elas dificilmente ajudará a resolver os problemas de segurança no Brasil.

 

Bolsonaro cumpre promessa de campanha e 

assina decreto para facilitar a posse de armas

Já na campanha eleitoral o presidente Jair Bolsonaro defendia armar a população para que, segundo ele, os cidadãos pudessem se defender contra o crime e a violência no país. Uma vez no cargo, ele tratou então de liberalizar as regras para aquisição e porte de armas de fogo no Brasil por meio de uma série de decretos.

Entre as novas normas está o direito à posse de até seis armas de fogo em casa ou no trabalho. Os civis agora também têm acesso a calibres que antes eram restritos aos militares ou à polícia e podem comprar muito mais munição. Além disso, também foi abolido recentemente o imposto de importação sobre armas de fogo.

Dois anos após a posse de Bolsonaro, a flexibilização parece ter surtido efeito. Se em 2018 havia pouco menos de 700 mil armas de fogo nas mãos de civis, agora o número passou para quase 1,2 milhão – um aumento de 65%. Os dados foram obtidos junto às polícias federal e militar como parte de uma pesquisa encomendada pelo jornal O Globo. 


Um total de 1,2 milhão de armas de fogo em um país com mais de 211 milhões de habitantes pode não parecer muito quando se compara o Brasil com outros países. Nos Estados Unidos, terra de defensores do armamento, haveria mais de armas do que habitantes. A Alemanha também tem mais armas registradas do que o Brasil: são mais de 5 milhões para uma população de apenas 83 milhões de habitantes.

No entanto, as armas registradas no Brasil são apenas uma pequena parcela do que realmente existe em circulação, afirma o economista Thomas Victor Conti. "Estudos sugerem que o número real de armas de fogo poderia ser de dez a 15 vezes maior." Neste montante, estão, por exemplo, armas ilegais no âmbito do crime organizado ou simplesmente armas não registradas.

É justamente esse imenso arsenal de armas ilegais que muitos brasileiros culpam pela violência e pelo índice exorbitante de homicídios no país, onde dezenas de milhares de pessoas são vítimas da violência todos os anos. Simplesmente munir os "cidadãos de bem" com mais armas, como argumenta Bolsonaro, dificilmente ajudará a resolver tais problemas, diz Conti.

"Pelo contrário: a maioria dos especialistas afirma que mais armas também representam mais violência", afirma Conti, que leciona no Instituto Insper, em São Paulo. "Afinal, não há contradição entre armas ilegais e legais; todas fazem parte do mesmo mercado. Se há mais armas legais em circulação, indiretamente aumenta também a quantidade de armas disponíveis para o mercado negro."

História recente desmente a tese de Bolsonaro

Com o afrouxamento da legislação do armamento, Bolsonaro também age na contramão do que atesta o passado recente do Brasil: no final de 2003, quando a aquisição e a posse de armas de fogo foram regulamentadas de forma mais estrita com o Estatuto de Desarmamento, também com a introdução de incentivos financeiros à venda voluntária de armas, a taxa de homicídios, que até então vinha explodindo, caiu ligeiramente por alguns anos.

Antes disso, a posse e até mesmo o porte de armas era permitido para qualquer brasileiro com 21 anos ou mais, sem grande burocracia. No estado de São Paulo, os efeitos da nova lei de armas foram sentidos de forma notável, afirma o economista Daniel Ricardo de Castro Cerqueira em sua tese de doutorado Causas e Consequências do Crime no Brasil. Segundo o pesquisador, isso se deve ao fato de o estado ter conseguido implementar as novas regras e combiná-las com outras medidas. 

Camiseta pró-Bolsonaro deixa clara posição

 do presidente em relação às armas

Conti, do Insper, chama a atenção para outros fatores que também contribuem para o alto índice de criminalidade e homicídios no Brasil. "Esses problemas são complexos e não podem ser resolvidos apenas com a política de armas. Desemprego, pobreza e falta de acesso à educação desempenham um papel importante, assim como pouco investimento em segurança pública e na solução de crimes violentos."

Mas em vez de se concentrar em tais ajustes, a ideia de Bolsonaro segue uma lógica diferente: o cidadão comum deve ser capaz de defender a si próprio se alguém invadir sua casa. Um levantamento publicado em junho de 2019 pelo Datafolha, porém, indica que esse argumento não é compartilhado pela opinião pública, já que dois terços dos brasileiros adultos se disseram contra a posse de armas entre civis.

A questão da autodefesa

Armar cidadãos comuns parece ainda menos sensato quando se tenta imaginar como se daria essa autodefesa na prática. "O criminoso sempre tem a vantagem do efeito surpresa", diz Conti. "Além disso, se ele achar que a vítima em potencial pode estar armada, é provável que se arme ainda mais e comece a atirar antes."

Os especialistas alertam ainda que casos de violência doméstica, brigas familiares ou outras discussões em geral poderão ainda mais frequentemente acabar em mortes.

Até que ponto Bolsonaro poderá liberalizar ainda mais o uso de armas no Brasil vai também depender do Congresso, que ainda deve decidir sobre outras propostas legislativas sobre o tema encaminhadas pelo presidente.

Conti diz esperar que os parlamentares levem em conta o conhecimento científico e a experiência anterior do Brasil com a legislação sobre armas de fogo em suas decisões. "É totalmente legítimo discutir democraticamente sobre o direito do cidadão comum a uma arma de autodefesa. Mas é uma mentira, dada a extensão da violência no Brasil, vender um acesso facilitado a armas de fogo como uma questão de segurança pública."



Operação abafa

 Merval Pereira

O Globo

Uma entrevista do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso ao historiador Marco Antonio Villa está viralizando nas redes sociais, como contraponto à campanha de tentativa de desmoralizar a Operação Lava-Jato, com o objetivo de anular a condenação do ex-presidente Lula pelo então juiz Sergio Moro por parcialidade no processo do triplex do Guarujá, sentença que foi confirmada no Tribunal Regional Federal em Porto Alegre e no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em Brasília.

Segundo Barroso, há uma “operação abafa” em curso, por meio da aliança de todos os setores para enterrar ações de combate à corrupção. Ele já havia abordado esse tema, entre outros, no livro “Sem data venia”, publicado pelo selo História Real, coordenado por Roberto Feith na editora Intrínseca. Para Barroso, referindo-se às mensagens roubadas dos celulares de procuradores de Curitiba, o problema não é “alguém ter dito uma frase inconveniente ou não. É que estão usando esse fundamento pra tentar destruir tudo que foi feito, como se não tivesse havido corrupção”.

No livro, Barroso desenvolve a tese de que há em curso no Brasil “um esforço imenso para capturar a narrativa do que aconteceu no país”, fazendo uso “de provas ilícitas, produzidas por criminosos, Deus sabe a soldo de quem”.

Ele classifica esse como um “processo de tentativa de reescrever a História, com tinturas stalinistas”, e ironiza: “Só falta a criação de um Ministério da Verdade, como na obra ‘1984’, de George Orwell, que vivia de reescrever a história a cada tempo, modificando os fatos”.

No livro, e também na entrevista a Marco Antonio Villa, Barroso relata os fatos, “para que não se perca a memória do país”: “a) Eu ouvi o áudio do senador pedindo propina ao empresário e indicando quem iria recebê-la, bem como vi o vídeo do dinheiro sendo entregue; b) eu vi o inquérito em que altos dignitários recebiam propina para atos de ofício, abriam offshores por interpostas pessoas e, sem declará-las à Receita, subcontratavam empresas de fundo de quintal e tinham todas as despesas pagas por terceiros; c) eu vi o deputado correndo pela rua com uma mala de dinheiro com a propina recebida, numa cena que bem serve como símbolo de uma era; d) todos vimos o apartamento repleto com 51 milhões de reais, com as impressões digitais do ex-secretário de Governo da Presidência da República no dinheiro; e) eu vi, ninguém me contou, o inquérito em que o senador recebia propina para liberação dos pagamentos à empreiteira pela construção de estádio; f ) todos vimos o diretor da empresa estatal que devolveu a bagatela de R$ 182 milhões; e g) todos vimos a usina que foi comprada por US$ 1,2 bilhão e revendida por menos da metade do preço”.

Barroso compara o que está acontecendo aqui com o que aconteceu na Itália, na Operação Mãos Limpas, que acabou sendo neutralizada por ações do governo e do Congresso: “Como seria de esperar, o enfrentamento à corrupção tem encontrado resistências diversas, ostensivas ou dissimuladas. Em primeiro lugar, as denúncias, processos e condenações têm atingido pessoas que historicamente não eram alcançadas pelo direito penal. (...) Tem-se, assim, a segunda situação: muitas dessas pessoas, ocupantes de cargos relevantes na estrutura de poder vigente, querem escapar de qualquer tipo de responsabilização penal”.

Para Barroso, “a articulação para derrubar a possibilidade de execução das condenações criminais após a segunda instância foi o momento mais contundente da reação, logrando obter a mudança de posição de dois ministros do Supremo que, antes, haviam sido enfaticamente favoráveis à medida”.

Barroso, no entanto, mantém uma visão otimista do processo — ele se diz “realista” —, acreditando que é menos provável que aconteça aqui o que aconteceu na Itália, por várias razões que elenca no livro: “Sociedade mais consciente e mobilizada; imprensa livre e plural; e Judiciário independente e sem laços políticos, ao menos na primeira e na segunda instâncias (apesar de ainda ser extremamente lento e ineficiente)”.


A macabra e psiquiátrica paixão de Bolsonaro pela pólvora

 Juan Arias

El Pais

Talvez o mais grave dessa loucura do presidente seja o silêncio até agora das instituições do Estado frente aos novos decretos para aumentar o número de armas particulares

PAULO WHITAKER / REUTERS 


Apoiadores de Jair Bolsonaro, sempre associando

 sua figura ao uso de armas e à violência.

Se algo caracteriza a idiossincrasia de Bolsonaro é sua paixão pelas armas, por tudo o que cheira à pólvora. Além do tiro ao alvo ser um dos seus esportes preferidos, sua ânsia por armar até os dentes os brasileiros revela seguramente um distúrbio psiquiátrico que não sei se tem nome científico. Dizer que “o povo está vibrando” de felicidade por poder possuir tantas armas revela mais, talvez, sua obsessão macabra pela violência.

Nos comentários à reportagem de Carla Jiménez e Regiane Oliveira sobre os novos decretos do Presidente que amplia de 4 a 6 o número de armas que uma pessoa pode possuir legalmente e os caçadores, até 40, foram muito significativos. “Menos armas e mais emprego”, “menos armas e mais educação”, “menos armas e mais vacinas”. Outros chegaram a fazer hipóteses que nessa pressa de Bolsonaro em armar a população pode significar que o que deseja é criar sua própria milícia para que o defenda no caso de tentarem retirá-lo do poder ou perca as próximas eleições, criando um clima violento no país de guerra civil.

É uma hipótese bem possível, mas acho que essa paixão desmedida por tudo o que cheira à pólvora e a tudo relacionado às armas de fogo pode fazer parte de sua personalidade de morte e destruição, de negacionismo e de mania de perseguição. E até de medo. Ele confessou que dorme com uma arma ao lado de sua cama, como se em sua residência presidencial não existisse segurança suficiente para defendê-lo. Esse amor pelas armas e pela violência pode explicar sua frieza às mortes da pandemia. Não sabemos como são os sonhos de Bolsonaro além de que dorme muito pouco porque sofre de insônia, mas certamente são povoados de armas e mortes.

Essa sua paixão desmedida por disparar armas de fogo fez com que em sua viagem oficial a Israel pedisse para realizar uma exibição de tiro ao alvo. E essa paixão pelas armas é evidente vendo suas fotografias imitando com as mãos o gesto de disparar. Três fotos são particularmente eloquentes e aterradoras a esse respeito: a dele e seus três filhos políticos juntos imitando disparar um fuzil e com os quatro sorrindo de orelha a orelha. A do hospital após a operação depois do atentado durante a campanha eleitoral ainda envolto em mistério. A foto o apresenta ainda se recuperando imitando com suas mãos o disparo de um fuzil. E a mais aterrorizante talvez seja a que o mostra com uma menina de cinco anos em seus braços enquanto a ensina a fazer o gesto de disparar um revólver com suas mãozinhas inocentes.

Bolsonaro querer agora que os brasileiros possam se tornar o país mais armado do mundo com até 600 armas para cada cem habitantes é uma aberração em um Brasil já martirizado com mais de 40.000 homicídios por ano. Não porque seja um país mais violento do que os outros e sim porque sofre uma carência crônica de segurança do Estado incapaz de defendê-lo.

Em um país em que as pessoas podem, se desejarem, ter até seis armas em sua casa é se esquecer que isso só é possível para os que podem se permitir esse luxo. Enquanto os de sempre ficarão mais expostos à violência, que costumam ser os negros, os jovens e as mulheres pobres assim como os habitantes das periferias que já são alvo a cada dia de cenas de morte e terror dos policiais e dos traficantes de drogas.

E talvez o mais grave dessa loucura do Presidente por sua paixão pelas armas e a violência seja o silêncio até agora das instituições do Estado frente aos novos decretos para aumentar o número de armas particulares. O STF, o Congresso e o Senado ficarão de mãos cruzadas? Não vão parar esses instintos de morte e violência de um Presidente que pode contribuir para aumentar ainda mais o rio de sangue inocente que corre pelas ruas do país?

Há silêncios que podem acabar sendo mortais. E o silêncio, quando não a cumplicidade das instituições do Estado com os instintos de morte do Presidente, podem acabar em uma tragédia nacional.