terça-feira, fevereiro 23, 2021

A Lava Jato morreu na infância

 Elio Gaspari

 O Globo

Ninguém saiu da operação como entrou e ninguém saiu bem dela

Acabou-se a força-tarefa de Curitiba que durante sete anos mostrou ao país o maior esquema de corrupção de sua história. Morreu sem choro nem vela. Empreiteiros corruptos e onipotentes foram para a cadeia, suas empresas encolheram, milhares de empregos sumiram e nenhum deles ficou pobre.

O juiz Sergio Moro tornou-se uma celebridade nacional, mumificou-se indo para o ministério de Bolsonaro e de lá para a humilhação pública. Alguns procuradores lambuzaram-se com a fama. Ninguém saiu da Lava Jato como entrou e ninguém saiu bem dela.

Só a poesia de Paulinho da Viola captura o tamanho dessa tragédia: “A marca dos meus desenganos ficou, ficou. (…) / Foi um rio que passou em minha vida, e meu coração se deixou levar.”

Em seus quase 200 anos de história, o Brasil teve solavancos e ditaduras, mas nunca teve um governo internacionalmente comprometido com o atraso. (Dom Pedro 2º nunca saiu pelo mundo defendendo a escravidão.)

Em 1831, depois de ter assinado um tratado com a Inglaterra, o governo brasileiro proibiu a importação de escravizados. O centrão daquele tempo mastigou a lei, e o tráfico só foi suspenso em 1850. Nesse período, entraram no Brasil 800 mil escravizados. O contrabando alimentava uma economia que cevava a política de senhores vestidos como europeus. Como ensinou Mark Twain, a história não se repete, mas às vezes rima.