sexta-feira, dezembro 03, 2010

Sobre Fascismos e Fascismozinhos

Flavio Morgenstern, Instituto Millenium

Sobre Fascismos e Fascismozinhos: Uma solução liberal para a violência

“O que é então a lei? É a organização coletiva do direito individual de legítima defesa.” – Frédéric Bastiat

A frase mais famosa do economista francês Frédéric Bastiat é: “Não esperar senão duas coisas do Estado: liberdade e segurança, e ter bem claro que não se poderia pedir mais uma terceira coisa, sob o risco de perder as outras duas”.

Há explicação para a completa falta de compreensão da frase no Brasil: nunca tivemos algo que não fosse um Estado inchado e aparelhado. Antes mesmo de ter um governo, ou alguém a quem governar, já tínhamos um Estado: Tomé de Souza chegou aqui, com ministérios debaixo do braço, para governar uma colônia que ainda inexistia. Tínhamos Estado e jurisprudência para governar tamanduá, capivara, suçuarana e bicho-do-pé.

Elevando-se a interpretação para um patamar um pouco mais civilizado, poderíamos compreender a frase da seguinte forma: o governo nos deve garantir segurança, e tão-somente ela. Ao nos garantir a segurança, nos permitirá agir em liberdade em relação ao concidadão circunstante e também estaremos livres de ameaças não presentificadas a direitos mais abstratos: liberdade de expressão, de filiação, de ir e vir.

De um lado estão as ameaças derivadas de outros compatriotas: assaltantes, estupradores, seqüestradores. Em uma zona um tanto quanto imprecisa desta lista de ameaças, os traficantes – que, por um lado, nunca colocaram droga na mão de ninguém aqui embaixo, deixando que “amigos” mais progressistas, antenados e cabeça cuidassem da distribuição e consumo pelo nicho abastado da população. Estas ameaças são coibidas com o governo nos garantindo segurança.

Do outro lado, estão as ameaças que são impingidas pelo próprio Estado, através de governos inescrupulosos. Não importa quão boas sejam suas intenções locais e pontuais, como combater as mentiras e calúnias de um jornal: ao criar um mecanismo que cerceie a liberdade de imprensa para destruir uma atual indústria da mentira, ao deixar o governo, você pode estar deixando uma máquina de opressão que poderá ser pessimamente utilizada por seu sucessor menos escrupuloso e bonzinho. Estas ameaças são coibidas com o governo nos garantindo liberdade.

A rigor, o governo nos garantir liberdade significa: o governo não deve fazer nada que não seja voltado para a nossa segurança. O que não recai nessa alçada não é função do governo. Se exigirmos que qualquer ação além da garantia da segurança seja realizada pelo governo, perderemos a liberdade. Se quisermos que o governo nos garanta algo além da liberdade, perderemos a segurança (jurídica, econômica, política, eleitoral… basta analisar os escândalos envolvendo a promiscuidade estatal com empresas que jogaram bilhões no lixo, de Cacciola e Daniel Dantas a Lehman Brothers, Bear Stearns, Freddie Mac e Fannie Mae, só para ficar no inquestionável exemplo econômico).

Pior: criaremos uma casta superior – o burocrata governista, que pode definir quem tem seu direito á liberdade assistido e quem não tem. A liberdade deixa de ser um direito do cidadão e passa a ser uma garantia revogável do Estado, quase um favor que este faz em troca de bom comportamento – e quando se trata de o governante supor bom comportamento do governado, geralmente significa leniência e laxismo – caracterizando, por si só, coerção, o que é um atentado à liberdade e à segurança.

A frase de Bastiat ainda pode ser compreendida erroneamente como a busca de um termo pacífico de equilíbrio. Como expus, segurança e liberdade, às vezes, são entidades contrárias. É o pensamento da revolução francesa: Liberté e égalité são conceitos que se chocam: um meio-termo pacífico seria regular as ações pela fraternité. É o que faz com que cada crítica ao “sistema” que seja feita hoje em dia, por pouco contato com teorias que prestam, tentem jogar um pouco da culpa em cada um e, invocando a tal fraternité, creia que o mundo vai melhorar quando cada um colocar a mão em sua própria consciência e entender que é melhor pedir do que roubar. De Hollywood aos sociólogos da FFLCH, são os velhos conscientes de plantão.

Mas o que Bastiat propõe não é um meio-termo mediado entre segurança e liberdade. Para o pensador liberal, o papel do governo é garantir segurança. A liberdade, como vista, se dá negativamente: o governo a garante não fazendo alguma coisa, mas justamente não fazendo nada. Assim, garantem-se ambas, sem um falso e nevoento meio-termo a qual qualquer patife pode reivindicar para atentar contra um, o outro, ou ambos.

Por fim, resta entender que a segurança não se trata apenas de polícia. A princípio, porque pode-se não ter tempo para acioná-la quando uma ameaça surge – e, juntando liberdade e segurança, o cidadão pode ter o direito de reagir a uma ameaça assim que se sente ameaçado, sem precisar perder parte de sua segurança quando perde a liberdade de neutralizar o perigo da forma que lhe convém. Segurança e liberdade estão juntas contra o primeiro agressor.

Quando ambas entram em conflito, como no caso da violência generalizada (já que mesmo um sequestrador, assassino ou estuprador é considerado “cidadão”), o Estado deve se pautar não por um meio-termo, como fazem nossos intelectuais: sua função é garantir a segurança. A liberdade é consequência direta de se garantir segurança. Se a polícia é honesta e efetiva, a pequena dose de liberdade que nos toma em um dia (como a de atravessarmos a rua sem sermos baleados) garantirá segurança sempiterna. O contrário destrói a segurança e, pior, deixa que a liberdade seja destruída não pelo governo, mas por outros circunstantes.

No entanto, ambas dependem de mecanismos do governo para garantir que ações do cidadão (a famosa iniciativa privada, que no barbarismo parece ser faculdade apenas de milionários), como se matricular em uma faculdade ou abrir uma barraquinha de cachorro-quente, sejam efetuadas sem agressão aos outros, tenham segurança garantida contra agressores e cujos efeitos, lucros e danos sejam de responsabilidade apenas do seu criador.

Assim, o princípio de defesa da segurança liberal depende de garantir a segurança das ações pacíficas e a liberdade de resposta ao agressor – ambas as coisas garantem a liberdade que o governo, por qualquer ação afirmativa que tente, nunca irá garantir à população.

Como segurança custa caro, é comum que uma boa fatia do que se ganhe seja dada ao governo para fins de proteção do resto do montante. O inaceitável é ser coagido (atentado à liberdade) a ser tungado pelo governo num montante vultoso para fins nunca explicados – e que não garantem nenhuma forma de segurança.


O fim da violência
A Rocinha é uma área gigante, aberta, com uma vista maravilhosa, mão-de-obra barata e uma população gigantesca e crescente querendo trabalhar. Por que ela ainda não foi comprada? A resposta, de tão óbvia, surpreende: porque ela não está à venda.

É um lugar-comum da “crítica social” dizer que a violência grassa onde o Estado não chega. Como tudo aquilo que tem gosto de crítica, soa arcano, genial e fruto da mais engenhosa reflexão de estro próprio: na maioria dos casos, é a velha “crítica” que não passa de um clichê bobo de universitários. Estamos há uma semana ouvindo críticas à “mídia” e em suas respostas apenas para dizer enroladamente que não têm resposta nenhuma.

Acompanhada da ideia consagrada e capengante da crítica à “sociedade de consumo”, o que este clichê quer dizer é que o Estado não chegou até a Rocinha – logo, o território está dominado pelo capitalismo selvagem dessa tal sociedade de consumo. Capitalismo este que, na visão destes intelectuais, grassaria estranhamente logo onde há menos segurança.

Para piorar, os encômios que a população pagadora de impostos rende quando a polícia destrói o comércio ilegal de traficantes, garantindo segurança onde antes não havia e permitindo uma liberdade temporária ao morador local, é visto como demonstração de fascismo. Fascismo por ser obra de um Estado aplicando o monopólio da força, que é seu apanágio. Fascismo, por parecer uma força retrógrada de opressão, quando estes gostariam de tomar o Estado para incutir seu próprio diagrama social. O fascismo que, ensinado como força “de direita”, ou, pior, como a direita in extremis, significaria capitalismo e liberalismo também potencializados.

Ora, se há algo diametralmente oposto ao liberalismo é o comuno-fascismo: ambos os Estados inchados, que buscam garantir muito mais do que segurança e liberdade para os cidadãos – e, como prognosticara Bastiat mais de meio século antes, destruindo justamente as duas primeiramente. Apenas por um representar alguns valores arcaicos e outro falar de uma sociedade futurista não é motivo o suficiente para vê-los como diametralmente opostos, com o liberalismo entre ambos. É muito fácil ver que Hitler e Stálin construíram sociedades bem parecidas, mesmo que professores de História chamem um de direita e outro de esquerda – enquanto que é difícil conceber parecenças entre Hitler e Thatcher ou Hitler e Reagan.

O fator mais curioso, é claro, é que o Estado em que estes críticos das “ações fascistas” defendem é, afinal, bem parecido com um Estado fascista: crítico da liberdade de consumo, busca destruir esta liberdade e muito da segurança mesmo física em prol de princípios macambúzios que consideram os agressores verdadeiros lutadores contra a “antiga” sociedade.

O maior erro desta visão é exposto em casos como a eclosão de violência no Rio de Janeiro: enquanto a grita sobre a violência surgir onde o Estado não chega é consensual, com forte matiz de crítica ao liberalismo, um outro lado da mesma moeda não foi apontado em lugar nenhum da imprensa até agora: onde o Estado não chega, a empresa não chega, e é aí que reside o maior perigo.

Basta perguntar para qualquer criança que ainda não entrou no tráfico nessas comunidades carentes se ela preferiria trabalhar para o Google ou para o tráfico que a resposta não precisa ser nem declarada para ser concebida. Fala-se no Estado como o provedor supremo, aquele que garantirá todas as benesses, mas esquece-se de que, afora a cultura do tráfico, entra-se nele por falta de opção de trabalho em uma outra companhia.

Fala-se que a ocupação do morro pela polícia é ineficiente, e é. Falta a política de segurança. Mas não só essa tal política, também: falta levar uma empresa para cima da favela: o tráfico não é a coisa mais lucrativa do mundo, e seu plano de carreira faz qualquer um, por comparação, querer abraçar o chefe que tem.

Essa é a solução para o tráfico no Rio: fazer com que cada futuro menino do tráfico vire comerciante, técnico de computação, farmacêutico. Isso o governo nunca conseguirá fazer.

Deixem que os sociólogos reclamem da “sociedade de consumo” e do “neoliberalismo” que inexistem nas favelas: o que falta a essas comunidades é, justamente, consumir. Deixe que eles misturem o neoliberalismo com o seu oposto, o fascismo, e critiquem este comportamento na “classe média”, quando defendem exatamente um fascismozinho como solução: Tutto nello Stato, niente al di fuori dello Stato, nulla contro lo Stato. Dêem segurança aos morros e só assim permitam a liberdade individual – e isso inclui permitir que o morador de favelas também tenha seu MacBook e vire um designer tão bom quanto a galera que come no Outback.

Às vezes, até mesmo a segurança é feita de maneira mais apropriada quando não é feita pelo Estado.

Dilma pipocou

Lucia Hippolito – O Globo

No choque entre o mar e o rochedo, quem se dá mal é o marisco. Como sempre.

Hoje de manhã a população do estado do Rio de Janeiro já acordou sete bilhões de reais mais pobre.

E a pobreza só começou. A falência do estado está no horizonte.

Isto porque a Câmara dos Deputados, em plena madrugada, aprovou a emenda Simon, sucedânea da emenda Ibsen, que distribui os royalties do petróleo do pré-sal, das áreas ainda não licitadas e das áreas já licitadas, entre todos os municípios brasileiros.

Isso mesmo. Em flagrante inconstitucionalidade, o deputado e o senador gaúchos não tiveram nenhum pudor em rasgar contratos, violar o pacto federativo, desrespeitar o Art. 20 da Constituição.

Tudo isso para quê? Em nome de quê?

No caso de Ibsen Pinheiro, compreende-se a fúria vingativa do nobre deputado.

Depois de ter sido o todo-poderoso presidente da Câmara, o deputado gaúcho se envolveu no escândalo dos anões do Orçamento e teve seu mandato cassado.

Julgou-se injustiçado, traído e abandonado por seus pares, principalmente pelo PMDB.

Cumpriu a cassação e voltou à Câmara para vingar-se dos caciques peemebedistas.

Quando o acordo em torno dos royalties estava sendo costurado na Câmara, sentiu chegar a hora da vingança.

Campanha eleitoral na porta, apresentou a cada deputado a possibilidade de oferecer aos prefeitos a cornucópia da fortuna: dinheiro fácil e a rodo. E sem ônus.

Beleza. Todos votaram a favor.

O acordo estava destruído. E o deputado estava vingado.

O que não se compreende é a atitude do senador Pedro Simon.

Não só avalizou a insensatez do deputado Ibsen Pinheiro, como aprofundou a inconstitucionalidade.

Resultado: a partir de hoje de manhã estados e municípios produtores de petróleo amanheceram com perdas de mais de dez bilhões de reais.

E por que isso aconteceu nessa madrugada?

Ah, aí é que entra a irresponsabilidade maior da classe política brasileira.

O governador do Rio, Sergio Cabral, reuniu-se com a presidente eleita para confirmar a escolha do secretário de Saúde do Rio, Sergio Cortes, para ministro da Saúde.

Dilma sempre apreciou o trabalho de Sergio Cortes.

Durante a campanha, apropriou-se alegremente das UPAs, as Unidades de Pronto Atendimento instaladas pelo secretário no estado do Rio, declarou que instalaria centenas delas no Brasil inteiro.

Em privado declarava que queria fazer de Sergio Cortes seu ministro.

Pois bem. Tudo acertado, a notícia vazou. E não foi pelo governador. Já estava nos jornais antes de ele dizer alguma coisa.

O PMDB e os partidos aliados fizeram pressão.

E Dilma pipocou.

Declarou que nunca tinha pensado no assunto, que não era sua intenção nomear Sergio Cortes, etc., etc., etc.

Bobagem.

Sergio Cortes sempre foi o seu escolhido.

Mas ela não aguentou o contravapor que levou dos partidos aliados.

Pipocou. Mau sinal.

E para mostrar que não estavam de brincadeira, os partidos aliados aprovaram a emenda Simon.

Um recado para Dilma e um passa-moleque no governador Cabral, que ousou conversar durante três horas com a presidente eleita, quando o vice-presidente Temer não consegue nem meia hora.

Quem pagou o pato? O povo dos estados produtores. Como sempre.

Agora tudo está dependendo do veto do presidente Lula.

Se ele não pipocar.

Sob a ótica do eleitor

Dora Kramer - O Estado de São Paulo

Conversando sobre reforma política, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Ricardo Lewandowski, chamou atenção para a necessidade de a sociedade se incluir e ser incluída nesse debate, sob pena de não se contemplar o principal interessado nessa discussão que há anos não ata nem desata.

Talvez exatamente pela falta do que o ministro chama de "perspectiva da sociedade".

Por mais óbvio que isso seja, quando se fala em reforma política pensamos numa tarefa a ser executada pelo Congresso Nacional, mas nunca acentuamos que enquanto o eleitorado não entrar para valer nesse debate, dificilmente os meios e os modos da política vão se modernizar.

Na verdade, a conversa com o ministro Lewandowski era sobre a pesquisa encomendada pelo TSE ao instituto Sensus para avaliar o trabalho da Justiça Eleitoral e alguns comportamentos do público na última eleição.

O dado divulgado com destaque nos jornais foi sobre o grau de lembrança do eleitor em relação aos candidatos escolhidos por ele no primeiro e no segundo turnos - 3 e 31 de outubro respectivamente.

Quase todo mundo lembra em quem votou para presidente: 89,3% lembram. Menos um pouco, 80,6%, recordam do voto para governador. Mas 20,6% esqueceram os candidatos a senador, 21,7% não sabem mais quem escolheram para deputado federal e 23% já não fazem a mais pálida ideia quais os nomes que teclaram na urna para deputado estadual.

Preocupante? O presidente do TSE não acha. Também vê com naturalidade o índice de 20% de abstenção. "Considerando que a sanção por não comparecer para votar é quase inócua, acho a presença significativa." Aliás, na mesma pesquisa mais de 80% dos consultados se consideraram muito bem preparados para votar e mais de 70% motivados a participar.

Mas, voltando ao apagão dos que já se esqueceram das escolhas para a Câmara e o Senado, Lewandowski considera o porcentual encontrado até baixo. Isso porque, com todos os defeitos do sistema proporcional, que não produz vínculo algum entre representantes e representados, ainda assim quase 70% lembram dos senadores escolhidos, 67,2% não se esqueceram dos deputados federais e 65,4% sabem quem foram seus candidatos a deputado estadual dois meses depois das eleições.

Isso sem contar que a eleição parlamentar tende a ficar em segundo plano quando é "casada" com a presidencial.

Embora não considere os esquecimentos nada de muito extraordinário, o presidente do TSE não acha que as coisas funcionam a contento no sistema político-eleitoral. É, como a maioria, um pregador da reforma.

É a favor do voto distrital misto, do financiamento público de campanha, do voto facultativo, do fim das legendas de aluguel, bem como vê necessidade de se alterar a legislação eleitoral, a propaganda, publicação de pesquisas, o tempo de duração das campanhas etc.

"Sem a pretensão de subtrair prerrogativas de quem as tem para elaborar as leis", defende a ampliação do debate para além das fronteiras do Congresso.

Lembra que a Ordem dos Advogados do Brasil já começou uma rodada e anuncia a disposição de promover a discussão na Escola Judiciária Eleitoral ao longo do ano que vem.

Professor de "Teoria do Estado" na Universidade de São Paulo, o presidente do TSE diz que os temas precisam ser muito bem esmiuçados pela sociedade antes de se chegar à proposição de mudança. Por exemplo: ele é a favor do voto facultativo, mas acha que antes de se instituir esse sistema é preciso que os partidos funcionem de fato como representantes de correntes políticas. "Estimula a participação."

Lewandowski também defende o voto distrital misto - em que o eleitor tem dois votos, um por votação majoritária no distrito e outro em votação proporcional com lista fechada -, mas considera que se não houver alteração da sistemática de decisão interna das legendas o voto em lista só alimentaria o poder das oligarquias partidárias.

Esse tipo de assunto difícil de a maioria compreender é que seria difundido com tradução popular se a reforma política deixasse de ser assunto de uso exclusivo dos partidos e dos políticos.

Cordel da Transição, de Raimundo Cazé

Augusto Nunes, Veja online


Nosso grande comentarista Raimundo Cazé compôs o Cordel da Transição especialmente para a coluna. Divirtam-se


Cordel da transição
(Raimundo Cazé)

Não há nada mais melancólico
Depois de uma eleição
Do que o tempo de espera
Nessa tal de transição
Esperança pros que chegam
Tristeza pros que se vão

Lula e Dilma, finalmente
Vão ficar distanciados
Sai de cena o presidente
Fagueiro e realizado
E o povo brasileiro
Esperando o resultado

A eleita se prepara
Para o que der e vier
Leva como grande trunfo
O fato de ser mulher
A primeira a ser eleita
E seja o que Deus quiser

O presidente que sai
Adotou o populismo
A presidente que entra
Tem raiz no comunismo
Ninguém sabe se virá
Mudança ou continuísmo?

“Pra continuar mudando”
Foi o slogan escolhido
Com isso foram enganando
O eleitor distraído
Que acabou aprovando
Uma coisa sem sentido

Mudança continuada
Sob uma mesma gestão
É uma prova velada
De erros em profusão
Quando a coisa é bem cuidada
Para que mudar, então?

Quem muda só por mudar
Muda sempre pra pior
Se a ordem é continuar
O estilo é um só
O termo aperfeiçoar
Cairia bem melhor

Ninguém nasce igual ao outro
Isso é antigo demais
As pessoas são distintas
Como impressões digitais
Ninguém espere de Dilma
As coisas que Lula faz

Lula nasceu no Nordeste
Mas cedo adquiriu nome
Fez questão de propagar
Que sofreu e passou fome
Criou a falsa imagem
De que é um grande homem

Dilma tem sua origem
Em plagas do exterior
Nasceu em berço de ouro
E com os pais emigrou
Minas e Rio Grande
Foram os chãos que pisou

Ela tem tudo pra ser
O avesso do antecessor
Passou por bancos de escola
Tem curso superior
Enfrentou dificuldades
Que o outro nunca enfrentou

Até na subversão
Dilma foi bem diferente
Seu período de prisão
Foi mais longo e consistente
Chegou a ser torturada
De maneira inclemente

Lula foi condescendente
Com o golpe militar
Passou pouco tempo preso
E aceitou negociar
Para ter vida tranqüila
Não quis radicalizar

No terreno pessoal
Quase nada ele sofreu
Chegou a perder um dedo
Mas disso logo esqueceu
uma aposentadoria
O acidente lhe rendeu

Dilma teve o desprazer
De um câncer que adquiriu
Cuidou cedo da doença
Prontamente reagiu
Depois entrou na campanha
E a tudo resistiu

A ela só falta agora
Se livrar da maldição
Que o populismo de Lula
Causou à população
Como se fosse só dele
O mérito da eleição

Pra governar o País
E ser bem avaliada
Dilma será ela mesma
Por certo e determinada
Mulher nos dias de hoje
Não aceita ser mandada

Se quiser ser grata a Lula
Dê-lhe alguma ocupação
Uma missão estrangeira
Lá no Afeganistão
Pra ele não dar “pitaco”
Em sua administração

Na formação da equipe
Não aceite imposição
No máximo procure ouvir
Uma ou outra sugestão
Porém deixe logo claro
Que é sua a decisão

Se aceitar algum nome
Por lula recomendado
Não deixe no mesmo cargo
Pra não ficar viciado
E nem ter a sensação
De que é apadrinhado

Se puder ser tolerante
Com o grupo derrotado
Faça isso com grandeza
E espírito desarmado
Não diga que o concorrente
Precisa ser massacrado

Nunca faça como Lula
Tem feito com a oposição
Pregando o extermínio
De sigla ou coligação
Que critique os seus atos
Em busca da perfeição

Fale só o necessário
E seja organizada
Como faz toda mulher
Mantendo a casa arrumada
Governar exige isso
É coisa já comprovada

Não confunda transparência
Com visão antecipada
Não crie expectativa
Que não possa ser alcançada
Blá-blá-blá na vida pública
Não contribui para nada.

Se for fazer a reforma
Acabe a reeleição
Devolva a coincidência
Com o mandato tampão
Porém, nunca admita
Que haja prorrogação

Acabe o segundo turno
Jogo prorrogado é chato
Em vez dele, um referendo
Na metade do mandato
Se o titular cair fora
O vice assume de fato

Tire da sua cabeça
A idéia de revolução
Se quiser pegar em arma
Pegue por outra razão
Que tal uma luta armada
Contra a corrupção?

Se Lula se opuser
Ao que estou sugerindo
Não se preocupe com isso
Pise firme e vá seguindo
Lá no Afeganistão
Ele acaba consentindo

Não vá brigar com a mídia
Isso é prejudicial
Liberdade de expressão
É uma coisa normal
Ajuda o governante
A saber quem anda mal

Por nada do que sugiro
Pedirei compensação
Você como presidente
Tem poder de decisão
O povo lhe deu a chance
De mudar nossa nação.

FIM

Uma proposta modesta

Alexandre Schwartsman

A proposta (a rigor um balão de ensaio, como de praxe) do ministro da Fazenda – definir um novo índice de preços, o IPCA sem alimentos e combustíveis, como meta para a política monetária – tem sido atacada como mais um casuísmo para, pretensamente, ganhar espaço para uma redução artificial da taxa de juros. Trata-se de uma injustiça inominável: a valer a experiência recente, caso tivesse sido adotada, esta nova definição do índice referencial para o regime de metas teria, pelo contrário, impedido a queda mais acentuada da taxa de juros no Brasil. Assim, me parece que, ao propor a nova medida, o ministro quis, na verdade, se mostrar ainda mais severo no combate à inflação do que o próprio Banco Central.

É bom que se diga que a ideia em si, se não presenciou o Dilúvio, certamente pisou na lama. Desde a adoção do regime de metas no país tem havido uma discussão profunda sobre os prós e contras da definição de um índice para a meta de inflação que fosse menos sujeito às variações acidentais de preços do que o IPCA “cheio”. Não por acaso, ainda nos primeiros anos de vigência do regime o Banco Central definiu três medidas distintas do “núcleo” de inflação (o núcleo por exclusão de alimentos e preços administrados, o núcleo por médias aparadas, e o núcleo por médias aparadas com suavização de preços administrados), precisamente para obter uma visão do processo inflacionário que refletisse de forma mais clara os desequilíbrios entre demanda e oferta agregadas.

Mais recentemente, às três medidas originais o Banco Central adicionou duas novas definições, aumentando seu arsenal analítico: o IPCA-EX (que exclui do cálculo alguns bens e serviços mais voláteis) e o IPCA-DP (que modifica os pesos do índice, reduzindo aqueles associados a produtos cujos preços que apresentem maior volatilidade).

Realçando, pois, obsessão nacional com a inflação, hoje temos nada menos que cinco medidas de núcleo, além dos oito índices normalmente divulgados (14 vezes) ao longo de um mês, já descontando os menos famosos, assim como algumas medidas locais. Não que nós, economistas que ganham a vida acompanhando minuciosamente cada divulgação, estejamos reclamando, mas eu não descartaria a possibilidade de haver certo exagero na coisa.

De volta, porém, à vaca fria, como teria se comportado um índice de preços que excluísse o preço de alimentos (no domicílio) e combustíveis nos últimos anos? O gráfico mostra o comportamento desta medida relativamente ao IPCA “cheio” de 2004 para cá, revelando que, à exceção de período de meados de 2007 ao segundo trimestre de 2009, o IPCA sem alimentos e combustíveis acumulado em 12 meses superou o índice “cheio”. De fato, este fenômeno ocorreu em cerca de 70% das observações naquele período.


Fonte: IBGE


Mais grave, porém, é que, ao contrário do índice “cheio”, que ficou pouco abaixo da meta nos últimos meses de 2009, justificando a política monetária praticada pelo BC, o IPCA ex-alimentos e combustíveis ficou persistentemente acima dela. Vale dizer, a redução da taxa de juros ocorrida em 2009 não teria acontecido caso a meta tivesse sido definida nos termos defendidos hoje pelo ministro. Se restava ainda alguma dúvida acerca de sua severidade inabalável no trato com a inflação, creio que esta proposta seja suficiente para dispersá-la.

Isto dito, é possível argumentar que, além dos preços dos alimentos em casa, deveríamos também deduzir os preços dos alimentos consumidos fora do domicílio, mas isto não alteraria muito as conclusões. Concretamente, ao invés de uma medida de inflação que supera o IPCA “cheio” em quase 70% das observações, teríamos uma medida que faz isto apenas 63% dos casos.

Ademais, a alimentação fora do domicílio apresenta uma dinâmica muito diferente da alimentação em casa. Não é incomum, por exemplo, observarmos valores muito baixos para a inflação de alimentos no domicílio (0,59% em 2005, -0,13% em 2006, e 0,88% em 2009) acompanhada de observações bastante distintas fora do domicílio (6,90%, 5,92% e 7,75% respectivamente), revelando que a alimentação fora do domicílio apresenta características mais próximas à inflação de serviços, incluindo o hábito condenável de se manter invariavelmente acima da meta.

Nem tudo está perdido, porém. Se o que precisamos é de uma medida de inflação que justifique juro baixo, não faltam candidatas. Minha favorita é parente (distante) do núcleo por médias aparadas. Enquanto este descarta as variações exageradas para cima e para baixo, o núcleo por altas aparadas excluirá tudo o que sobe num determinado mês. No caso bastante provável (se tal medida for adotada) em que todos os preços subam, o núcleo será necessariamente zero.

Com isto garantimos inflação e juros baixos e, de quebra, uma passagem só de ida para Buenos Aires. Não é bem mais vantajoso que o rigor antiinflacionário do ministro?



Aqui não vejo inflação alguma

Lula 3, a presença

Miriam Leitão – O Globo

A presença do presidente Lula no Ministério do governo Dilma Rousseff está sendo maior do que se previa. Ninguém duvidava que a interferência do presidente seria grande, mas começa a passar da conta e das cotas. Até agora, dos indicados e dos em cogitação, só não foi ministro, ou ligado ao governo Lula, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel.

Pimentel é escolha pessoal da presidente, os dois têm uma longa relação de amizade, e está cotado para o Ministério do Desenvolvimento, mas os outros escolhidos têm relação mais estreita com o presidente que está saindo do que com a presidente que está entrando.

A permanência do ministro da Fazenda, Guido Mantega, como ficou público, foi pedido do presidente Lula. Miriam Belchior, quadro do PT do ABC, tem ligações muito mais antigas com o presidente do que com a presidente eleita. O assessor especial, Marco Aurélio Garcia, é o mesmo que conduziu a indigesta política externa, sendo o poder atrás da cadeira de chanceler durante os últimos oito anos.

O ministro Antonio Palocci evidentemente tem ligações históricas com Lula. Durante a formação do governo, em 2002, foi ele quem chamou Dilma para o escritório de transição. Mas depois os dois divergiram publicamente quando ela foi para a Casa Civil. A reaproximação aconteceu durante a campanha, quando ele se tornou uma peça-chave. Mas Palocci é mais ligado a Lula que a Dilma. O mesmo se diga de Paulo Bernardo, que assumirá o Ministério das Comunicações. Na Secretaria-Geral da Presidência estará Gilberto Carvalho, que, como todos sabem, é leal servidor de Lula. O ministro da Defesa, pelo visto, permanecerá sendo o mesmo Nelson Jobim. Ontem, o presidente continuou sua campanha para manter Fernando Haddad na Educação e oi bem explícito: “Não estou satisfeito porque Haddad ainda não foi confirmado.” A superdose de lulismo no Ministério está fazendo com que esse governo se pareça um terceiro mandato. Está definitivamente faltando dilmismo no governo Dilma.

O país está cheio de ineditismos. O presidente Lula mesmo faltando 31 dias para sair do governo ainda não se enfraqueceu. Os americanos usam a expressão “pato manco” para um presidente em vias de deixar o cargo, após a eleição do sucessor. No Brasil, a brincadeira que se faz é que no final nem o garçom do Palácio do Planalto serve mais o cafezinho. Um dos fatos inéditos é que Lula preservou sua força mesmo neste finalzinho de governo, e pela nomeação de um ministério com a sua cara, mais do que com a cara da própria presidente, ele extrapola seu mandato. Não pode “desencarnar”, para usar uma expressão do próprio presidente, quem faz tanta questão de manter tudo à sua imagem e semelhança no mandato subsequente ao seu.

De novo, até agora só mesmo o avião que o presidente Lula quer comprar para os deslocamentos da presidente. Apesar de ter comprado o AeroLula em 2005, agora está em vias de se iniciar os procedimentos para a compra de outro avião.

Havia duas certezas sobre Dilma: de que ela seria muito influenciada pelo presidente Lula; e de que sua forte personalidade no entanto a faria imprimir sua marca mesmo aceitando a influência do atual presidente. Só a primeira certeza se confirmou até o momento.

E daqui para diante há pouca chance de que isso aconteça, porque ontem começaram as negociações com o PMDB para a indicação dos ministérios do partido. A conversa sintomaticamente foi com o vice-presidente, Michel Temer, e com o ex-presidente José Sarney. Um dos nomes cogitados é o de Edson Lobão para o Ministério das Minas e Energia. Ele foi do governo Lula, aceitou de bom grado o comando da então ministra-chefe da Casa Civil, que continuou mandando no Ministério das Minas e Energia, mas todo mundo sabe qual é a sua primeira lealdade: José Sarney. Para a Saúde, vai um escolhido de Sérgio Cabral, o Sérgio Côrtes.

Outro ineditismo é que essa é a primeira vez desde a redemocratização que há um vice-presidente forte. O Sarney não teve vice, porque ele mesmo foi o vice que assumiu. O ex-presidente Collor teve um vice com o qual se desentendeu mas que não teve, a não ser quando Collor estava caindo, força para mobilização de bancadas. O vice do ex-presidente Fernando Henrique foi o discreto, suave, e completamente adaptado à sombra, Marco Maciel. O vice do presidente Lula é um empresário de sucesso, mas um político neófito sem um partido importante a respaldá-lo.

Agora é diferente. Michel Temer fez sua demonstração de força ao organizar o “blocão”. Foi uma reação à decisão de Dilma de passar o primeiro dia reunido apenas com petistas. Temer não será um vice apagado como os outros.

É da natureza da cadeira de presidente fortalecer quem se senta nela, por isso a expectativa é que em algum momento a presidente Dilma Rousseff demonstre ter as rédeas de seu próprio governo. Acontecerá ao longo do mandato, mas quando ela reduzir a presença extravagante das pessoas de confiança estrita do presidente Lula em seu governo.

A notícia e o que ela encobre

Carlos Brickmann, Observatório da Imprensa

O Exército alemão ainda era uma força extremamente poderosa, e o público alemão estava convencido de que a guerra não apenas iria durar muito tempo como, no final, as Potências Centrais (impérios Austro-Húngaro, Turco e Alemão) seriam vencedoras. Essas eram as notícias que recebiam; e, quando a Alemanha se rendeu, o que ficou na opinião pública foi a imagem da traição - da facada nas costas, dos líderes civis e militares que se venderam ao inimigo.

Os meios de comunicação são poderosos. A imagem que traçam da realidade é frequentemente tão ou mais poderosa que a própria realidade, a tal ponto que, quando a realidade se impõe, surgem as versões conspiratórias da História. É o que devemos temer na guerra ao narcotráfico, iniciada no Rio de Janeiro (e que ainda pode perfeitamente estender-se a outros Estados, já que mercado existe e existem os fornecedores). As informações e as imagens são reais: com apoio de blindados dos fuzileiros navais, o Bope, tropa de elite da Polícia Militar do Rio, colocou em fuga um imenso grupo de narcotraficantes e ocupou um de seus principais redutos, a favela de Vila Cruzeiro. Foi uma vitória épica, bonita, acompanhada passo a passo pela TV. Mas nem tevê nem ninguém mostrou tudo.

1 - Qual a vantagem de espalhar os traficantes, em vez de prendê-los? OK, o território brasileiro não deve ser entregue aos bandidos, isto é correto; mas simplesmente afastá-los de onde estão significa que vão para outros lugares, e não que, privados de sua ligação telúrica, de suas raízes na terra em que vivem, se transformarão em cidadãos capazes de exemplarmente cumprir a lei.

É o que acontece em São Paulo, com os nóia, os viciados em crack que se concentravam na região conhecida como Cracolândia: as intervenções policiais fizeram com que saíssem da Cracolândia e se espalhassem por outras regiões da cidade. E, quando a Polícia saiu, boa parte voltou à Cracolândia. Final da história: a Cracolândia continua sendo Cracolândia e outras regiões ganharam um imenso problema que não têm a menor idéia de como resolver.

2 - A existência de consumo faz com que surjam fornecedores. Imaginemos um cenário em que todos os atuais fornecedores sejam presos e colocados em locais de onde não possam comandar o crime. Alguém tomará seu lugar. Sem cocaína, sem ecstasy, sem outras drogas é que o consumidor não vai ficar. Ou seja, num primeiro momento o tráfico será desorganizado, mas logo depois se organiza. E toca a usar armamento pesado para enfrentar os novos donos do pó.

3 - Se a Globo e a Record localizam os bandidos em fuga, que é que impede a Polícia de também fazê-lo? Melhor ainda, tendo em mãos os mapas e conhecendo as trilhas da região, por que deixar de lado o cerco e a captura?

4 - Por que, de repente, os bandidos começaram a incendiar carros e ônibus no Rio? Os serviços policiais de informações não terão qualquer idéia do que possa estar ocorrendo? E não se trata de uma explosão que acabou entusiasmando outras pessoas: tudo indica que o movimento é articulado, coordenado.

5 - Se é tão importante ocupar território, se a Vila Cruzeiro é um território de tão alta importância, por que, após a ocupação de 2008, pelo mesmo Bope que a ocupou agora, foi desocupado e devolvido aos bandidos?

6 - E os bandidos de outras especialidades, por onde andarão? A turma dos sequestros, dos arrastões, dos assaltantes, dos batedores de carteiras, dos ladrões de automóveis, dos desmanches, os mafiosos dos caça-níqueis, todos terão se alistado na turma dos traficantes?

7 - O governador do Rio, Sérgio Cabral, está completando quatro anos de mandato. Há alguma explicação para a quase invisibilidade da presença do Estado em todas as favelas invadidas nestes últimos meses?

8 - Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Garotos da classe média para cima são mais bem tratados pela imprensa e pela Polícia do que pessoas da mesma idade, da classe média para baixo. Isso não acontece só na área de tráfico e consumo de drogas, mas em todas as áreas: recolher os rapazes que, sem provocação, agrediram pessoas que nem conheciam na avenida Paulista, SP, foi um processo que demorou vários dias e exigiu muita pressão de opinião pública. Na área do tráfico a coisa é ainda mais clara: o milionário que dava dinheiro a um traficante de primeiro time, para ajudá-lo a fugir e se esconder, não teve nenhum tipo de aborrecimento, exceto explicar que tinha agido com a mais louvável das intenções. Se fosse pobre, ninguém levaria sua boa intenção a sério.

Fala sério: todo aquele espetáculo de guerra foi só para hastear a bandeira no topo do Alemão?

Pedro Porfírio

Foi competente a operação que não prendeu quase ninguém e não achou o paiol do tráfico?

"A ocupação do Alemão foi preocupadamente tranquila" - Delegado Marcus Vinicius Braga, do comando da operação.

De malas prontas para um trabalho fora do Brasil, não teria tempo para voltar ao assunto dessa "batalha do Rio", com semelhanças da "batalha de Itararé", se não fosse pelo oba-oba orquestrado, disseminado para fazer crer que vivemos um domingo histórico, tão marcante que o prefeito Eduardo Paes, figura absolutamente omissa nesses dias tensos, anunciou um decreto de "refundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no último dia 28 de novembro".

Um amigo me disse ao telefone: "hoje me sinto mais brasileiro". Um leitor me escreveu, perguntando: "depois da ação - perfeita - da polícia, o que mais vc vai falar?". A grande mídia não perdeu a oportunidade de fazer sua própria festa, mostrando os seus heróis, que estiveram no "teatro da guerra" com treinamento prestado por empresa internacional de segurança e sob a proteção da coalizão formada entre tropas do Estado e das Forças Armadas, muitos destes com experiência no combate aos bandidos do Haiti.

Ao que me perguntou, repliquei com a pergunta que faço a todos: e aquele monte de bandidos - 700, estimavam - o que foi feito deles? Todo aquele aparato foi para entrar no Morro do Alemão e hastear as bandeiras do Brasil e do Estado do Rio, ou para pegar os malfeitores que tanto medo disseminaram com suas ações incendiárias insólitas e desafiadoras, além dos males maiores que vêm causando à segurança dos cidadãos?

Libertaram o "Alemão"? Não diga...

Libertaram o Morro do Alemão? Não diga. Eu não sabia que aquele complexo, onde o governo está gastando mais de R$ 500 milhões só para implantar um teleférico que ninguém de lá pediu estava sob governo do "poder paralelo". E nas várias vezes que o presidente Lula e o governador Cabral estiveram lá para inaugurar algumas obras, como isso aconteceu? Tiveram de pedir autorização ao tráfico?

Então quer dizer que estavam gastando nossa grana não área por ser "libertada"? Como, aliás, estão gastando na Rocinha, Manguinhos e outras ainda não tomadas pelas forças policiais.

Menos. Menos, rapaziada. Vamos devagar com o andor que o santo é de barro.

Secretário Municipal de Desenvolvimento Social por duas vezes, conheço o Complexo do Alemão muito bem. Como conheço, aliás, por dever de ofício, quase todos os antigos "parques proletários", denominação oficial dada às favelas antes de 1964.

Vou falar mais dessas áreas a seguir, ou em outra oportunidade, mas antes, com meu "feeling" de meio século de jornalismo, posso dizer que nessa história toda tem truta. E truta das grandes.

E se tiver havido um acordo?

Tenho minhas razões para acreditar que o passeio dominical das forças de segurança aconteceu como resultado de uma certa negociação. Isso mesmo. Não posso afirmar categoricamente, é claro, porque não tenho provas. Porque tudo deve ter acontecido no sapatinho, com a devida discrição que o caso impunha.

Essa idéia me ocorreu logo ao meio dia de sábado, quando José Junior, coordenador do grupo Afro Reggae subiu ao morro, pela Estrada do Itararé, juntamente com outros quatro parceiros, em missão estimulada pelo governo do Estado.

Àquela altura, na hora do almoço, o comandante geral da PM, coronel Mário Sérgio Duarte, em tom marcial, já havia formalizado seu ultimato, retransmitido ao vivo e a cores para todo o mundo, determinando que todos os traficantes descessem em fila indiana, com as mãos na cabeça, porque o morro seria invadido a qualquer momento. Do contrário, não teria como garantir a integridade de ninguém. Nem dos bandidos, nem dos moradores.

Nesse emocionado comunicado, o coronel lembrou que contava com apoio das forças de terra, ar e mar (quer dizer, com os fuzileiros e seus tanques de guerra capazes de transpor qualquer obstáculo).

Não precisa ser especialista em segurança ou coisa que o valha para saber que só havia uma condição para a polícia entrar na área "dominada" com possibilidade de fazer prisões: até às sete da noite daquele sábado claro, quando as atenções do Brasil estavam concentradas no aparato montado, que postava tropas e tanques por todos os acessos do Complexo, nos bairros de Olaria, Ramos, Bonsucesso, Inhaúma e Penha.

O coronel mordeu a língua e ficou no blefe. Ou, então, fez a sua parte no acordo possível, que estou apenas especulando, com base no método da "sintomatologia da informação".

Como na fuga filmada ao vivo
Ao cair da tarde, a situação ficou mamão com açúcar para todos os bandidos. Assim como mais de 300 que estavam na Vila Cruzeiro tomaram um caminho pouco conhecido em direção ao Alemão, percorrendo a pé mais de 10 quilômetros com direito à filmagem do seu passo-a-passo, sem interceptação policial, o grosso da "tropa inimiga" ficou à vontade para planejar sua evacuação, evitando o confronto para o qual nunca esteve preparada.

Bandido não está aí para conflitos cinematográficos. Não tem compromisso com nada, a não ser com sua vida perigosa, que é de pouca duração, mas permite alguns momentos com o rei na barriga.

Mais uma farsa do que uma caça
Mas as autoridades, que conviveram com esses bandidos por todo esse tempo, garantindo, inclusive, por "consenso" a realização das obras financiadas pelo PAC, estavam mais para uma farsa do que para a "caçada implacável" prometida pelas vozes flamejantes em busca dos seus minutos de celebridade.

Não foi difícil para aquele quase milhar de foras da lei dar o fora em busca de outros refúgios ou até mesmo homiziar-se em alguns lugares dentro do próprio complexo. A intenção da coalizão repressiva não era também a do confronto, da captura. Isso já tinha ficado claro e evidente na fuga da Vila Cruzeiro, transmitida ao mundo pelo helicóptero da Globo, que mostrou a marcha de centenas de marginais sem um policial em seu encalço, sem ninguém para proceder a interceptação, em plena luz do dia, no acesso ao Alemão, provavelmente pela estrada da pedreira, que fica na Penha.

Com a entrada "triunfal" na manhã de domingo, sem uma baixa a lamentar, sem achar o paiol dos 3 mil fuzis calculados pelos "especialistas", sem prender quase ninguém, embora exibindo grande quantidade de maconha deixada pelos traficantes, as forças militares e policiais precisavam de um "marketing" de vitória histórica, algo que levasse o prefeito ao extremo de proclamar a refundação da cidade.

E junto com todo o espetáculo consagrador, as informações de que os procurados estavam recorrendo a redes de esgoto para escapulirem.

Para variar, tomando dinheiro do trabalhador
Isso tudo encheu os olhos de uma população atordoado, amedrontada, que agora começa a ficar sabendo de certas peripécias: graças a um fotógrafo do CORREIO BRAZILIENSE, a própria Rede Globo

revelou uma faceta desses heróis: alguns policiais invadiram a casa de um trabalhador e levaram R$ 31.000,00 que ele havia recebido numa rescisão de contrato de trabalho, como provou com farta documentação.

Abrindo caminho para a volta da milícia
Finalmente, vale falar aqui de duas coisas: da possibilidade da polícia estar abrindo caminho para uma "milícia", que não seria estranha na área. Até 1988, pelo menos na área da Nova Brasília, que dá acesso à Avenida Itaoca, havia uma espécie de "mineira", em choque com os bandidos da Grota. Depois da morte de um sargento conhecido como "diabo louro", era comandada pelo "Tião Bundinha", que foi assassinado pelo Betinho, seu lugar-tenente, morto depois, sob suspeita de fazer jogo duplo, quando o "Orlando Jogador" resolveu tomar todo o complexo, . Nessa época também, mataram o sargento Pereira, que controlava o tráfico e a mineira na Fazendinha, tendo sido nomeado administrador regional do Complexo no primeiro governo Cesar Maia.

Suplente de vereador pelo PSDB, embora com pouco mais de 4 mil votos, deu o maior trabalho à Câmara Municipal, porque não apareceu para assumir, quando Roberto Dinamite foi eleito deputado estadual. Seu corpo foi cremado no "microonda", o mesmo que um dia vitimou o jornalista Tim Lopes.

A outra coisa é a quantidade de cartazes de políticos ainda na comunidade. Ao contrário de outras favelas, desde a época do Pereira, ninguém subia o morro sem negociar uma grana com os seus "donos". Será que vão investigar ligações de políticos com os "donos do morro" agora "libertado?"

Quando voltar da viagem, voltarei ao assunto.

Uma surpresa: brasileiros confiam mais na Polícia Civil do que na Polícia Militar

Ricardo Setti, Veja online


Mais de 90% dos brasileiros têm medo de ser assassinados, segundo o impressionante levantamento divulgado hoje pelo Instituto de Economia Aplicada (Ipea), órgão do Ministério do Planejamento.

Os principais dados sobre o temor dos brasileiros e o tipo de crime que mais os preocupa você lê aqui.

A pesquisa é riquíssima, haveria muitos pontos a ressaltar. Nos dados integrais, que você pode conferir no site do Ipea, um ponto em especial me chamou a atenção: os índices de confiança que a população, a despeito de tudo, dedica à polícia — somados os quesitos “confia pouco”, “confia” e “confia muito”: 82,5% à Polícia Federal, 74,1% às polícias civis e 72%,3 às polícias militares.

Surpreende-me um paradoxo revelado pelos dados: há um pouco menos de confiança na PM do que na Polícia Civil. (Um total de 44% de brasileiros “confiam muito” na Polícia Civil e 43% têm essa percepção da Polícia Militar).

Isso porque na maioria dos estados, a Polícia Civil é notoriamente mais corrupta e pune menos a corrupção interna do que a Polícia Militar que, por sua própria natureza hierárquica, vem sendo há muitos anos mais rigorosa na depuração dos próprios quadros e mais transparente em revelar o problema à população em estados como São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Uma explicação que encontro para o fato é que, por fazer a ronda e o patrulhamento das cidades e ser a primeira linha de combate à delinquência, a PM tem muito mais contato com a população e, portanto, a possibilidade de percepção de erros, violência e mesmo crimes por parte de policiais militares é maior.

Quanto à Polícia Federal, se os brasileiros tivessem ciência da quantidade de inquéritos e processos envolvendo parte de seus integrantes em graves irregularidades, e se a TV não espetacularizasse tanto suas ações, certamente não alcançaria os índices de aprovação que ostenta.

A nova tática do narcotráfico

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

Eufórico, o governador Sérgio Cabral anunciou que o Exército permanecerá no Complexo do Alemão até outubro. Valeu-se da declaração do presidente Lula de que as forças armadas atuarão em defesa da segurança pública pelo tempo que for necessário.

Trata-se de uma decisão que desperta os aplausos gerais. Os paraquedistas transformaram-se em heróis da população carioca, fluminense e de todo o país. Quebrou-se o tabu de que soldados não foram feitos para subir o morro, porque subiram, lá permanecem e, pelo jeito, não sairão tão cedo.

É bom, no entanto, tomar cuidado. Apesar de muitos praças, sargentos e oficiais ostentarem experiência de guerrilha urbana adquirida no Haiti, não foram preparados para continuadamente lidarem com a bandidagem. Vivem para a extinção do inimigo. Além do que, pela lei 117 de 2004, do uso das Forças Armadas em atribuições subsidiárias, sua ação deve ser episódica e por tempo limitado. Mesmo assim, vale raciocinar com as esperanças de Sergio Cabral e com as promessas do Lula.

Dúvidas inexistem de que os narcotraficantes darão o troco. O primeiro movimento foi deles, os bandidos, ao deflagrarem o animalesco episódio da queima de carros e ônibus. Tiveram que engolir a ocupação dos morros e a desmoralização. Deve a sociedade preparar-se para a tréplica, ainda que o objetivo maior do narcotráfico seja continuar com seu negócio, mais faturando do que guerreando.

Caso, no entanto, comecem a atacar soldados do Exército, até para tentar recuperar espaço e faturas perdidas, monumental obstáculo se levantará diante das comemorações gerais pela vitória no primeiro round. Como sempre, os animais agirão de surpresa, covardemente, atirando e agredindo os soldados num minuto e fugindo no outro. Estarão provocando precisamente o que pretendem: a reação daqueles que foram preparados para a guerra, treinados para destruir o inimigo. Nessa hora, depois de choques e entreveros, fatalmente com vítimas entre a população, quem estará sendo mais atingido do que as comunidades até agora felizes com os acontecimentos do último domingo?

Numa palavra, a tática do narcotráfico parece de trocar o asfalto, onde queimavam carros, pelo alto do morro, onde tentarão demonstrar que as comunidades viviam melhor com eles do que com o Exército. Não é de graça que a mídia, nas últimas 48 horas, começa abrir espaços para denunciar abusos, saques e excessos de parte da tropa que subiu o morro. Foram fatos inevitáveis, próprios da natureza humana e da tensão diante de confrontos cujo resultado não podia ser previsto, mas é bom prestar atenção como e porque estão ganhando dimensão. A estratégia dos bandidos continuará sendo de exercer o controle da venda de drogas, já que fregueses, infelizmente, continuam não faltando.

Sustentando a afirmação
Choveram e-mails, telefonemas e mensagens endereçadas a este velho escriba, protestando por conta da afirmação de que o narcotráfico está longe de ser debelado pela simples razão de existirem usuários e viciados aos montes. Enquanto eles estiverem dispostos a se drogar, não haverá como impedir a ação dos que vendem drogas.

Verdadeiros tratados de sociologia, psicologia e ciência política povoaram nosso computador, uns indignados na defesa dos drogados, outros alegando que os viciados e usuários sempre existiram na Humanidade, devendo ser desconsiderados como agentes motores dos confrontos. São coitadinhos, fatores desimportantes no entrevero entre a autoridade pública e o crime organizado.

Com todo o respeito e humildade, vale sustentar o raciocínio, sem conclusão nem fórmulas mágicas para mudar o mundo: as drogas não desaparecerão enquanto existirem drogados, sem que isso represente a estultice de concluirmos pela solução de interná-los no hospital ou na cadeia…

Surto de sensatez
No Maranhão, terça-feira, o presidente Lula surpreendeu com uma palavra de simpatia por Fernando Henrique Cardoso, ao dizer que ele só não fez mais, no governo, por conta das dificuldades econômicas.

O sociólogo reagiu de bate-pronto, comentando: “até que enfim o Lula pisou no real, não na moeda, mas na realidade, num surto de sensatez”. Acrescentou que isso aconteceu antes mesmo de seu sucessor tornar-se ex-presidente.

Há quem imagine estar sendo criado um clima de menos beligerância entre os dois, por conta de um cenário que dependerá das concepções de Dilma Rousseff. Afinal, a Constituição prevê uma série de organismos auxiliares do chefe do governo, como o Conselho da República, que nunca se reuniu. Caso a nova presidente, diante de uma crise qualquer, decidir valer-se dos conselhos não apenas do antecessor, com cadeira cativa no palácio do Planalto, mas dos demais ex-presidentes, precisaria convocar ao redor da mesma mesa o Lula, Fernando Henrique, Itamar Franco, Fernando Collor e José Sarney. Uma salada mista para ninguém botar defeito.

Elefante branco
Conhecedores dos meandros da luta pelo poder mundial são unânimes em afirmar que um país só ingressa no clube dos poderosos quando detém, senão a bomba atômica, ao menos um submarino nuclear, eufemismo para concluir que possuindo este, disporá da tecnologia para chegar àquela.

Pois descobre-se que o ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Clifford Sobel, comentou com Washington que o esforço de nosso país para ter um submarino nuclear equivale à busca de um elefante branco. Com todo o respeito, o diplomata quis mesmo nos fazer de bobos. Fica evidente estarem os americanos utilizando todos os expedientes possíveis para impedir o Brasil de chegar lá, tanto que precisamos celebrar um acordo com a França.

Humilhação não é
Passando do mar para o ar, pegou mal o comentário do Lula em favor da compra de um novo avião para a presidência da República, acentuando ser uma humilhação o Aerolula precisar aterrissar para abastecer, em toda viagem superior a 12 horas. Humilhação não é, mas apenas cautela diante de gastos não prioritários. Beira as raias da ostentação aplicar meio bilhão de reais na compra de uma aeronave moderníssima, só para Dilma chegar a Pequim ou Moscou sem precisar descer em algum aeroporto intermediário.

Economist: sem continuidade, operações no Rio serão "mero triunfalismo"

Eduardo Tavares, de EXAME.com

Revista britânica publica reportagem descrevendo ação dos policiais na zona Norte do Rio de Janeiro

AGÊNCIA BRASIL

Policiais no Complexo do Alemão: forças ocuparam a região e
deram início ao que pode ser uma virada para a cidade

São Paulo - A revista britânica The Economist publicou nesta quinta-feira (2/12) uma reportagem falando da ocupação do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, pela polícia. De acordo com a revista, a vitória sobre o tráfico de drogas e a libertação da comunidade local terão sido mera conversa triunfalista se o governo do Rio não for capaz de manter o status quo, retomando o território onde vivem mais de 400 mil pessoas.

No texto, a Economist traz uma breve descrição dos acontecimentos no Rio de Janeiro, desde quando bandidos do Comando Vermelho começaram a queimar veículos nas ruas da cidade no fim de novembro. Em resposta à provocação dos traficantes, policiais militares e homens do Batalhão de Operações Especiais e do Exército iniciaram uma megaoperação no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro, na zona Norte do Rio.

Ao fim da operação, que contabilizou 37 mortes e a prisão de importantes líderes dos principais grupos criminosos, governo e imprensa passaram a discutir os próximos passos para que a ordem seja mantida na cidade.

Segundo a Economist, o governador do Rio, Sérgio Cabral, deve manter o alerta para uma provável contra-ofensiva dos traficantes. "O negócio deles é lucrativo demais para que desistam sem uma briga maior: o Rio não é apenas um ponto de envio de drogas para a Europa, mas o mercado interno da cidade para as drogas é grande", diz o texto.

A revista observa que muitos cariocas viram nestes eventos como uma virada para a cidade, que vem sofrendo há décadas com um "desgoverno". Muito deste novo momento é atribuído pela Economist à gestão de Sérgio Cabral, que colocou em prática instrumentos como as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), que ocuparam 13 favelas expulsando os traficantes. Apesar do sucesso, o texto enfatiza que o tráfico nas comunidades ocupadas ainda continua, só que "mais discreto".

"Em tudo, o Sr. Cabral pode contar com apoio federal. Ele é aliado de Luiz Inácio Lula da Sílva, o presidente em fim de mandato, e trabalhou duro na campanha de Dilma Rousseff, sucessora e protegida de Lula", afirma a revista. A matéria diz que esta pode ser realmente a hora em que o Rio vai sair da letargia que o dominou por décadas graças à presença maciça do tráfico, já que agora os cidadãos começam a confiar que "o Estado está realmente a seu favor".

Oficiais criticam indefinição do papel de militares e temem que maus policiais 'contaminem' soldados

Evandro Éboli, O Globo





BRASÍLIA - Os comandos do Exército e da Marinha estão insatisfeitos com a falta de definição do papel exato das Forças Armadas nas operações no Rio. O chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, general José Carlos de Nardi, tem se reunido com os chefes dos estados-maiores das duas forças e com os comandantes militares. Os oficiais elaboram uma diretriz, a ser encaminhada ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, e que estabelece normas para a ação dos militares, fixando o tempo de atuação das tropas na área da Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão.

Entre os comandantes, há a preocupação com o risco de que, se os militares ficarem muito tempo nessa operação, possam ser "contaminados" por maus policiais, que achacam moradores e colaboram com o tráfico, repassando informações em troca de dinheiro. Um dos oficiais lembrou, numa das reuniões da cúpula militar, que boa parte dos 800 homens do Exército empregados nas ações também mora na cidade, em regiões e comunidades pobres. Os militares consideraram essa uma exposição perigosa, que poderia gerar retaliação dos traficantes contra os soldados.

As declarações do governador Sérgio Cabral de que os homens do Exército e da Marinha devem ficar até sete meses no Complexo do Alemão, esperando a implantação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), desagradaram aos oficiais. Eles consideraram uma intromissão indevida de Cabral. Por considerar que a hierarquia de comando não deve ser quebrada, os militares acreditam que as ações das Forças Armadas não podem ficar subordinadas a um comando estadual. Exército e Marinha entendem que atuar em parceria para conter o tráfico não significa que delegados de polícia tenham voz de comando sobre o oficialato.

Cabral vai se reunir com Jobim neste sábado
Outro ponto que incomoda os comandantes é a coordenação das ações. Até agora, para eles, não ficou claro quem tem o comando e qual o papel de cada uma das forças utilizadas. Os militares não querem fazer papel de polícia nos morros do Rio e descartam ações como entrar em casas e fazer buscas. Eles argumentam não ser função das Forças Armadas ir a favelas e prender suspeitos de tráfico.

O ministro Nelson Jobim está em viagem ao exterior, na Polônia, mas vem sendo informado das reuniões dos oficiais em Brasília. O conteúdo da nova diretriz deverá ser discutido numa conversa entre o ministro e Sérgio Cabral, no Rio, amanhã. Jobim retorna hoje ao Brasil.

O papel do Estado-Maior é traçar as diretrizes de instrução e o emprego das forças. A ação e a estratégia das tropas, além da definição de quantos homens serão empregados e como vão atuar, são tarefa do Comando de Operações Terrestres (Coter). Apesar de subordinado ao Comando do Exército, o Coter tem o mesmo status do Estado-Maior e está sob o comando de um general de quatro estrelas, Antônio Gabriel Esper. No caso das ações do Rio, o Coter transmite as diretrizes para o Comando Militar do Leste.

Na quarta-feiram, Sérgio Cabral refez os cálculos e disse que as forças de paz do Ministério da Defesa terão que permanecer por 11 meses atuando no Alemão. O governador e o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, garantiram que já está acertada, com o Exército, a permanência dos militares até outubro.

O Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas poderá utilizar tropas de unidades militares que já estiveram no Haiti, como guarnições do Rio Grande do Sul, em ações futuras. Essa medida evitaria a exposição de soldados do Rio durante as operações.

PMs não podem usar mochilas no Alemão
Em mais uma medida para ter controle da atuação de seus homens no Complexo do Alemão, a Polícia Militar proibiu que PMs usem mochilas durante incursões. Logo na entrada do 16 BPM (Olaria), um aviso - do tamanho de um papel ofício - foi afixado numa das pilastras. Nele, consta a seguinte determinação: "Atenção senhores policiais. Por ordem do senhor comandante-geral, está proibido o uso de mochilas e similares durante incursões no Complexo do Alemão e proximidades".

O relações-públicas da PM, coronel Lima Castro, disse que a ordem é uma medida preventiva. Somente os policiais do Bope poderão usar mochilas.

Lima Castro explicou ainda que o uso de mochilas era necessário durante a invasão, porque poderia ser preciso que o policial permanecesse um período longo dentro da favela, levando água e comida, entre outras coisas.

- Nesta etapa, não é mais preciso. Eles entram e saem das comunidades - explicou Lima Castro.

Exército vai implantar Força de Paz semelhante à do Haiti no Rio de Janeiro

Folha de São Paulo, com informações da Agência Brasil

O Exército brasileiro vai implantar uma Força de Paz no Rio semelhante à que atuou no Haiti. A ação ainda não tem data para começar e ainda está sendo planejada, disse o comandante-geral do Exército, Enzo Martins Peri.

Até agora, as ações nas favelas do Rio de Janeiro estão sendo comandadas pela polícia. O Exército tem 800 homens da Brigada de Infantaria Paraquedista no local, que atuam em operações de cerco e isolamento.

Peri está no Rio de Janeiro nesta quinta-feira, para receber informações sobre a operação no Complexo do Alemão.

O comandante disse que a missão não será estranha à Força, pois já é desempenhada fora do país. "Nós já fazemos ações policiais. Mas desse tipo, com essa magnitude, é a primeira", afirmou.

Disse também que não teme qualquer desvio de conduta dos soldados, por conta de provocações de criminosos. "Nós estamos sempre atentos a isso tudo. O risco é inerente".

Em entrevista ele falou também sobre as ameaças sofridas pelos militares que atuam no Rio. Ele disse que, se necessário, o Exército vai dar proteção a estes homens. Segundo ele, as Forças Armadas estão investigando as possíveis ameaças.

"Nosso trabalho de inteligência está averiguando e definindo a extensão e profundidade [das ameaças]. Nós daremos a proteção necessária", garantiu.

O comandante do Comando Militar do Leste, general Adriano Pereira Junior, que acompanhou a inspeção realizada pelo comandante do Exército, afirmou que a Força dispõe de 8.000 homens em condições de atuar no conceito de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) --policiamento urbano--, e que estão prontos para reforçarem operações em outras favelas do Rio de Janeiro.

O Complexo do Alemão foi ocupado domingo (28), com o apoio das Forças Armadas, praticamente sem resistência dos traficantes. Na quinta-feira, policiais já tinham entrado na Vila Cruzeiro, favela vizinha ao complexo. As ocupações ocorreram após uma série de atentados ocorridos na cidade, que resultaram em mais de cem veículos queimados.

As ações criminosos seriam uma retaliação dos traficantes contra a instalação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) em morros e favelas, segundo as autoridades de segurança.

Evaristo Sá - 26.nov.10/AFP
 Militares participam das operações na favela da Vila Cruzeiro, zona norte do Rio

A ocupação é que garante a pacificação

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa

A reportagem de Renata Leite e Fábio Vasconcelos, manchete principal de O Globo de 30 de novembro, revelou que o Exército vai permanecer pelo menos durante sete meses no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro para garantir o que podemos classificar de libertação das duas áreas nas quais mais de 400 mil pessoas viviam oprimidas sob o domínio do crime, do tráfico, de um surpreendente estoque de motos e carros roubados. Muitos desses carros e motos, sem dúvida, foram arrancados vilmente de seus proprietários ao preço de vidas humanas.

A situação dos espaços retomados para a sociedade carioca era mais dramática ainda do que se poderia supor à distância. Eram labirintos de teias sinistras da violação permanente. O desfecho de domingo à tarde fica na história do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo como um emblema e um marco. Emblema do que a vontade política é capaz de produzir. Marco de que é impossível pacificação sem ocupação. Não há dúvida quanto a isso.

Tanto assim que as tentativas de pacificação só deram certo nos pontos em que o policiamento encontrava-se ostensivamente nas comunidades. Fora daí, não há como estabelecer-se um paralelo entre a ordem e a desordem, entre o legal e o ilegal, (como já escrevi antes), entre os direitos humanos e sua violação. Direitos humanos não podem servir só aos bandidos. Há os da população em geral. Os criminosos são – graças a Deus – a minoria. Não chegam a 3%. Porém, armados, dispostos a tudo, sem levar em conta sua própria sobrevivência, quanto mais a sobrevivência dos outros, foram implantando impérios do medo sustentados pelos lucros auferidos com o imundo comércio dos tóxicos. Um problema gravíssimo. Um desafio não só para o governador Sergio Cabral, não só para o governo Lula e para o governo Dilma Rousseff, mas sobretudo um desafio para todos os países e todas as cidades.

O consumo de drogas transforma as pessoas, corrompe setores que deveriam atuar com firmeza e responsabilidade, contribui para a formação de bandos criminosos. Faz com que uma parcela ponderável da sociedade ultrapasse a fronteira que separa os planos antagônicos da gravidade legal e institucional, de um lado, e do rompimento às normas de convivência humana, de outro. A corrupção surge no meio do dilema essencial. E permanece até o dia em que as campanhas contra as drogas ilícitas começaram a ter êxito, tanto em sua formulação adequada, quanto – principalmente neste ponto – na execução prática. São muitos anos de omissões e erros acumulados. Tanto assim que a circulação de entorpecentes está sempre atrás ou ao lado de uma série interminável de desfechos trágicos.

No Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro a ocupação – anuncia-se – vai se estender por sete meses. É muito bom. Porém pouco tempo se examinarmos a profundidade de todo o comprometimento que envolveu e atingiu frontalmente aquela área carioca. Cruzeiro e Alemão eram depósitos de tóxico, de armas, de roubos, esconderijo de assassinos e ladrões. A impressão que hoje se nos descortina é semelhante à atmosfera de filme famoso de Fritz Lang, que focalizava a vida de bandidos à noite num covil que se propunha inacessível à lei. Esta imagem, entretanto, desabou no domingo que passou.

Houve a ocupação. Depois do cerco surgiu então a nuvem pacificadora. Ainda aparente, exigindo que seja consolidada, mas sempre um passo largo fortemente positivo. Sobretudo na concepção de um projeto contra o crime. O de que só pode haver pacificação com ocupação. Caso contrário, nada feito.

Cobiça

Merval Pereira, O Globo

Mais uma vez o Congresso foi palco de lamentáveis demonstrações de cobiça na aprovação, na noite de terça-feira, do projeto que redefine a distribuição dos royalties do petróleo, prevalecendo no plenário a proposta do senador Pedro Simon que distribui os royalties a estados e municípios tanto do pré-sal quanto do pós-sal pela proporção do Fundo de Participação, sem levar em conta se são produtores.

Para compensar os prejuízos, a União ressarciria, com “os royalties e as participações especiais”, os estados e municípios que perderem arrecadação.

Como o sistema de partilha aprovado pelo governo para o pré-sal acabou com o pagamento de participações especiais, essa é outra disputa que teria que ser travada pelos estados e municípios produtores de petróleo.

O fim das participações especiais, aliás, é outro golpe na arrecadação dos estados produtores. Estima-se que o estado do Rio deixará de arrecadar R$ 25 bilhões que seriam devidos por participações especiais no modelo de concessão anteriormente vigente.

O projeto de lei aprovado fala apenas de “royalties”, que são limitados a 10% do valor da produção. Já as “participações especiais” têm alíquotas crescentes, de até 40% da receita líquida sobre a produção dos grandes campos brasileiros.

Ao não cobrar as PEs, o Estado brasileiro está abrindo mão de dezenas de bilhões de reais em tributos previstos no modelo de concessão, favorecendo a Petrobras.

Com a aprovação extemporânea e sem um debate aprofundado da mudança do sistema de concessão para o de partilha — com a conseqüência da mudança da divisão dos royalties, que a partir da nova lei serão distribuídos a todos os estados e municípios por meio do Fundo de Participação —, os estados produtores estão tendo que limitar sua luta à recuperação do que perderam, os royalties sobre o pós-sal e dos campos do pré-sal já licitados.

Esse é um direito adquirido que está sendo ferido pela nova lei. Como a votação na Câmara tomou ares de disputa de butim, sem que exista uma visão estratégica de país em discussão, e nem a questão federativa seja debatida, o mais provável é que a questão não se esgote com o puro veto do presidente Lula.

O ânimo dos senhores deputados é mesmo o de retirar o que consideram “privilégios” dos estados produtores, muito especialmente o Rio de Janeiro que, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), fica com mais de 80% dos royalties, enquanto os municípios fluminenses podem ficar com até 75% do total destinado a todos os municípios.

Para se ter uma idéia dos ânimos regionais, quando um representante do Rio, o deputado Chico Alencar do PSOL apelou para o bom-senso de seus pares chamando a atenção para o fato de que “O Rio também faz parte do Brasil”, foi rebatido pelo deputado Ibsen Pinheiro com a afirmação “mas o Rio não é o Brasil”, numa clara posição de contrapor supostas regalias às necessidades dos demais estados brasileiros. Ibsen Foi aplaudido.

Por sinal, ele é o autor da primeira emenda que mudava o critério da distribuição dos royalties, desrespeitando até mesmo o direito adquirido dos estados e municípios produtores.

Sua proposta foi substituída pela do senador Pedro Simon, que mantém o mesmo espírito mas determina que a União indenize os estados e municípios que tiverem perda com a mudança de critério, o que provavelmente servirá de base para o presidente Lula vete a mudança, pois não há no Orçamento da União previsão para tal despesa.

Mas a proclamação de Ibsen Pinheiro contra o Rio de Janeiro soa como se o Estado estivesse tirando alguma coisa dos que não produzem petróleo.

O espírito da lei que determinou os royalties foi compensar os custos que os estados produtores de petróleo têm com a exploração, não apenas materiais, mas também ambientais.

Ao mesmo tempo, os royalties procuram também compensar o pagamento do ICMS no consumo e não na origem, o que prejudicou os estados produtores nas negociações da Constituinte.

O que ficou patente na falta de discussão séria da questão federativa dos royalties é que a política está cada vez mais baseada no toma lá dá cá, sem que haja um pensamento orgânico sobre o país para embasar as decisões do Congresso.

Para garantir um quorum alto na sessão, fizeram uma pauta que privilegiava interesses os mais variados: Lei Kandir, Bingo, micro-empresas e prorrogação do fundo da pobreza.

O deputado Miro Teixeira, do PDT, chama a atenção para o que classifica de “redução da política” à concessão de vantagens, mesmo que admita que alguns temas, como o das micro-empresas, são importantes.

Com esse ânimo, o mais provável é que a questão tenha que ser decidida pela Justiça, já que os deputados e senadores estão dispostos a derrubar o veto do presidente e a derrotar qualquer novo projeto que garanta os direitos dos estados produtores nos campos já em produção.

A questão básica, que é o direito adquirido garantido pela Constituição, está sendo superada pelos interesses regionais.

Dornelles: redivisão dos royalties é inconstitucional

Gabriel Castro, Veja online


Senador pelo Rio de Janeiro diz que estados produtores precisam ficar com a maior parte os recursos. Presidente da Petrobras defende "meio-termo"

O senador Francisco Dornelles, presidente do PP e eleito pelo Rio de Janeiro, não poupou críticas ao novo regime de divisão dos royalties do pré-Sal, que deve tirar recursos de seu estado e do Espírito Santo. Na tarde desta quinta-feira, em entrevista coletiva, Dornelles afirmou que a medida é "indecente, ilegal, imoral e inconstitucional. A maior agressão que o Rio já sofreu no Império e na República".

Na visão dele, a medida não tem poder legal porque teria efeito retroativo, sobre poços de petróleo já perfurados. Dornelles diz que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve vetar a medida aprovoada na madrugada desta quinta-feira: "Ele não terá outro caminho senão vetar. Senão qualquer tribunal, qualquer juiz de primeira instância vai arguir inconstitucionalidade".

Ainda de acordo com o senador, os estados e municípios produtores precisam ser compensados pelos prejuízos econômicos e ambientais da extração."O petróleo é da União. Mas a União, ao tirar o petróleo do subsolo, provoca alguns danos em estados e municípios afetados. A União não deveria receber royalties nenhum. O petróleo é dela".

Dornelles alega que na mudança do regime de concessão para partilha, a União não precisaria mais de participação especial, já que vai controlar, por meio da Petrobras, 30% do que for extraído no país. Dornelles defende uma outra proposta: ampliar de 10% para 15% a parcela royalties sobre os recursos do petróleo extraído. Os 10 pontos porcentuais que hoje ficam com estados e municípios produtores seriam mantidos - a União ficaria de fora. Os outros 5 pontos porcentuais seriam divididos entre os outros estados e municípios.

Dornelles deixou claro que a bancada do Rio de Janeiro no Congresso não dará margens para negociações: "O Rio não vai trocar direito por esmola. Principalmente porque a União não tem o hábito de pagar as esmolas - vide a Lei Kandir", afirmou, em referência à resistência do governo federal em ressarcir estados que tiverma perdas de arrecadação com a isenção fiscal concedida a exportações pela Lei Kandir.

Gabrielli - Já o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, defendeu nesta quinta-feira o que chamou de "meio-termo" entre o modelo atual, que concentra os royalties em estados produtores, e o aprovado pelo Congresso, que divide os recursos entre todos os estados da federação, priorizando as regiões mais pobres.

"A produção vai crescer muito. Consequentemente, haverá uma grande concentração nesses estados.Não é justo concentrar 85% dos royalties nos estados onde está a produção. Mas também não é justo que o estado que tem a atividade de produção receba a mesma coisa que um estado que não tem nada a ver com a produção diretamente", argumentou, após audiência pública na Comissão Mista de Orçamento do Congresso.