sexta-feira, dezembro 03, 2010

Morte e desrespeito mancham o Brasileirão

Jornal do Brasil - Editorial

É vergonhoso que, na sede da Copa 2014, cidadãos tenham que se digladiar com cambistas furadores de fila

O Fluminense tem grandes chances de se tornar campeão brasileiro no domingo, quando seus torcedores certamente não se lembrarão mais do vascaíno Evangelista Martins Pereira, de 52 anos, morto ontem, depois de passar mal na fila de espera pela compra de um ingresso para seu filho assistir ao jogo decisivo contra o Guarani. O fato deu o tom, logo no início da manhã, do que seria o resto do dia para quem ousou tentar comprar, legalmente, uma entrada – a mais barata custa R$ 60 – para a partida decisiva. Os responsáveis pela organização dos jogos sempre se lembram de aumentar o preço dos ingressos na reta final da competição. Mas nunca tomam providências para que o torcedor tenha um mínimo de dignidade na hora da compra. A irresponsabilidade, ontem, resultou em morte.

A balbúrdia nos poucos postos de venda era tanta que os próprios torcedores tentavam, em alguns locais, organizar as filas e até estabelecer um sistema não oficial de senhas, como se estivessem mostrando aos (des)organizadores do evento como tudo deveria ter sido feito.

A falta de respeito ao torcedor, que, antes de tudo, é um cidadão com plenos direitos, infelizmente virou regra, daquelas que acabam sendo encaradas quase como algo normal. É aí que mora o perigo de uma rotina que resulta na nefasta política do “isso é assim mesmo”. Isso tem de acabar no Brasil. E cabe à população reagir, de forma civilizada, cobrando dos responsáveis mais respeito com quem apenas quer seguir as regras.

Desorganizações como a de ontem é que acabam fazendo com que muitos torcedores busquem os velhos cambistas, que oferecem, para quem puder pagar, ingressos bem mais caros, mas sem fila. Chega a ser suspeita a forma como os (i)rresponsáveis pela venda de ingressos se omitem nesse caso.

É vergonhoso que, numa cidade que se gaba de ser a sede da próxima Copa do Mundo e da Olimpíada, cidadãos de bem tenham que se digladiar com um bando de cambistas furadores de fila. É essa a organização que o Brasil vai mostrar aos milhares de turistas que em breve nos visitarão?

Descanse em paz, Evangelista. Nossas condolências à família.