Adelson Elias Vasconcellos
O ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, afirmou que o governo quer intervir no futebol brasileiro. A afirmação cheira mal por vários motivos. Primeiro, por se tratar de um desejo puramente eleitoreiro, como a querer o governo, e não a CBF, dar uma satisfação ao povo brasileiro pelo vexame da seleção brasileira diante da Alemanha. Assim, não é da competência do governo federal tal tipo de ação. Fosse para intervir, deveria ter feito ainda quando Ricardo Teixeira era presidente da entidade e sobre ele pesava, e ainda pesam, inúmeras acusações de corrupção.
Se Marin, sucessor e atual presidente, ou Del Nero, presidente eleito para dirigir a CBF a partir 2015, carregassem sobre si o mesmo peso que Ricardo Teixeira, talvez seria o caso de se pensar. Mas a incompetência de Marin não dá asas para uma intervenção que, antes de tudo, seria ilegal, como o próprio ministro Revelo reconhece. Não há dispositivo legal que permita ao governo federal agir de forma abrupta.
Assim, e é Aldo Rebelo quem afirma, é preciso mudar a lei, para que o governo tenha espaço para uma intervenção. De minha parte, prefiro mais fiscalização, de um lado, e, de outro, pressão popular .
Além disso, o regulamento da FIFA veda qualquer tipo de intervenção de governos nas confederações nacionais. Caso aconteça, o país ficaria alijado de participar de qualquer competição internacional oficial que a FIFA organizasse, incluindo a Copa do Mundo.
Mas vamos refletir sobre o desejo manifestado pelo governo através do Ministro de Esportes. Qual o perfil que o próprio Aldo Rebelo tem na direção de clubes, federações ou entidades esportivas? Que se saiba é ZERO.
Vamos mais adiante: qual a missão principal de qualquer governo? Fornecer à população serviços públicos de qualidade e atuar no sentido de impulsionar o desenvolvimento do país. Neste sentido, é de se questionar: os serviços públicos brasileiros, administrados pelo atual governo, são de qualidade? Ou, ainda, apresentaram alguma melhora sensível nos últimos anos? No campo do desenvolvimento, qual o perfil apresentado pelo atual governo no campo econômico, com crescimentos a taxas compatíveis com as do restante do mundo?
Ora, se nem serviços públicos nem crescimento econômico, frutos da ação deste governo, são recomendáveis, que autoridade ou competência teria ele para intervir e colocar em prática mudanças que melhorem a qualidade do nosso futebol? Este apelo político de intervenção, além de não se escorar em nenhum dispositivo legal que o autorize, também não se embasa em nenhuma competência elevada do atual governo para produzir resultados positivos.
Sigamos. Há uma área específica em que a atuação do governo federal pode agir para desenvolver o esporte nacional: a dos esportes olímpicos. Onde existe excelência nesta atividade? Qual a colaboração dada pelo governo federal para o desenvolvimento dos esportes olímpicos brasileiros? Os atletas brasileiros que irão participar dos próximos jogos, em 2016, no Rio de Janeiro, muitos sequer contam com centros de treinamentos especializados, com material adequado, com apoio logístico de excelência, cercados de profissionais renomados para se desenvolveram e aprimorarem sua técnica desportiva. Ora, se neste campo, onde o governo deveria atuar, o resultado é catastrófico, com que autoridade este mesmo governo se arvora na tentativa de mudar os rumos do futebol?
Além disto, a prática de esportes é algo que deveria ser incentivada, desde cedo, nas escolas. Quantas escolas públicas contam com quadras poliesportivas, professores especializados para orientar crianças e jovens?
Assim, este desejo manifestado por Aldo Rebelo não passa de um oportunismo político quase irracional. Nem este governo tem competência administrativa e legal para intervir na CBF, tampouco tem gente especializada capaz de atuar em todos os níveis em que o futebol é praticado para produzir as mudanças necessárias para que o país volte a ser o melhor do mundo.
Além disso, o futebol é popular e apaixonante justamente por não ser lógico. Ele é cíclico, hoje grandes clubes conquistam títulos, amanhã, surgem zebras ou clubes menores capaz de desbancar os grandes. Com países ocorre justamente a mesma coisa. Ontem, a Espanha ganhou tudo, assim como o Brasil já o fizera. Hoje, a Espanha, a Itália, o próprio Brasil vivem a ressaca da entressafra de suas gerações de grandes talentos.
A Alemanha que nos aplicou a maior humilhação da história do nosso futebol, também viveu seus momentos de “pobreza” e decepção, também deixou de ganhar a Copa do Mundo quando a sediou em seu próprio país. Ao invés de intervenção, reuniu seus dirigentes, técnicos, profissionais da área, e fez um diagnóstico dos erros que cometera. A partir daí, traçou um plano de trabalho sério e o levou a frente, sem se deixar conduzir pela emoção e politicagem estúpida.
E é precisamente este bom exemplo que o Brasil deveria seguir. Ao governo federal compete cumprir sua missão no campo dos serviços públicos e na ação de incentivar o crescimento econômico. E, nestas duas áreas, como sabemos, este mesmo governo vai de mal a pior. Portanto, em que a intervenção deste governo medíocre naquilo que lhe cabe fazer, conseguirá fazer melhor do que os atuais dirigentes? Vai é politizar ainda mais a CBF, vai aparelhá-la ainda mais com seus jumentos políticos e postes inconsequentes e irresponsáveis.
Há muita gente competente do ramo, com anos de vivência capazes de mudar os rumos do futebol brasileiro. A atual safra de grandes craques é pobre, não temos mais aqueles talentos todos que faziam a diferença nos gramados.
O atual e futuro presidente da CBF, é sabido, não tem a menor competência para estar à frente da entidade máxima do futebol, e sequer reúne o perfil capaz de provocar as mudanças que todos exigem. Assim, as mudanças deverão partir dos próprios clubes, até porque são os grandes formadores de atletas. E os presidentes destes clubes não caem na direção de paraquedas. Chegam ali eleitos por conselheiros e associados. Trata-se de um processo bastante democrático, portanto, nada há de ilegal ou irregular. E é justamente por aí que as mudanças devem se produzir. De baixo para cima, e não ao contrário, como se está pretendendo.
Alguém poderá alegar que um processo destes demandará muito tempo. Ok, mas o processo que fez da seleção alemã a máquina de jogar um belo futebol como vimos nesta terça-feira, começou em 2000, quando sequer chegaram às finais da Eurocopa. Acentuou-se mais tarde, em 2002, quando perderam a final da Copa para o Brasil, que conquistou seu quinto título mundial. Foram quatorze anos de trabalho intenso, a começar pelas divisões de base. Enquanto o futebol brasileiro conta com um único centro de excelência para treinamento de suas seleções, a Granja Comary, a Alemanha construiu neste tempo 25 centros, contando e dispondo de todos os recursos técnicos, materiais e humanos.
Não é a toa que, no campeonato da série A do Brasil, observa-se uma redução cada vez maior de público nos estádios. Ninguém se atreve a pagar ingressos caros para assistir espetáculos ruins. Sempre haverá outras opções melhores de entretenimento, contando com segurança qualificada. Grandes clássicos, repetidamente, acabam terminando em verdadeiras batalhas campais, dentro e fora dos estádios.
Há muitas questões a serem pensadas para que se provoque uma mudança radical nos rumos do futebol brasileiro no sentido de torná-lo melhor do que o que temos agora. Mas jamais, com gente que sequer é do ramo, que sequer consegue em sua própria atividade ser competente, se conseguirá, através de uma intervenção politiqueira, as mudanças que o momento presente está a exigir. Que o ministro e o governo a que pertence cuide do desenvolvimento dos esportes a partir das escolas, que trabalhem para que os esportes olímpicos ganhem maior impulso, e já estarão dando uma contribuição positiva ao país. Sem ter este perfil, pensar em intervenção só revela espírito autoritário, além de oportunista, de um governo que não consegue sequer cumprir satisfatoriamente sua missão principal.
Quanto ao futebol brasileiro propriamente, o passado já mostrou a nossa capacidade de superar maus momentos, dar a volta por cima e, ali adiante, recuperar o prestígio perdido. Poderíamos apontar 1950, 1966, 1998, 2006 como anos em que a tristeza das derrotas marcou-nos profundamente. Porém, é preciso jamais esquecer os títulos, as grandes vitórias, as grandes campanhas que se seguiram e apagaram estes momentos de frustração. E o esporte é feito disto: superação das derrotas e das tristezas. Ficamos por longos 24 anos distantes da disputa de títulos, entre 1970 e 1994. E nem por isso o futebol acabou ou se enfraqueceu. A derrota para a Alemanha, da forma como aconteceu dispensa qualquer intervenção de governos: é uma lição amarga que nos fará refletir e buscar novos caminhos para alcançarmos novas vitórias e títulos. O futebol brasileiro nunca precisou de governantes intrometidos, até porque eles não passam de meros torcedores. Será que a vaia no Itaquerão na abertura da Copa, ou a de Brasília, no ano passado, já não são recados suficientes para que governantes se mantenham longe da paixão que pertence ao povo, jamais aos políticos?
Que a CBF seja um poço de corrupção e infestada por bandidos, ok, joguem pedra na Geni à vontade. Mas, vale lembrar que, é com essa mesma gangue de mafiosos que o Brasil conquistou seus cinco títulos mundiais. Para removê-los, além dos instrumentos legais necessários, é preciso, portanto, ter alguma coisa a mais além da antipatia ou desejos não confessados de se sentarem no trono de algum conselho de notáveis e se alimentar do capilé que o futebol rende. O que não falta é incompetência na CBF, mas ela é abundante, também, em parte da crônica esportiva com sua hipocrisia lasciva.
Para encerrar: num programa do canal pago ESPN, Juca Kfouri defendeu a intervenção federal na CBF, e citou várias vezes a presidente Dilma Rousseff. Se Juca fosse jornalista de economia, e não de futebol, veria que o vexame na economia do país que a senhora Rousseff produz chega a ser tão trágico quanto a tragédia dos 7x1. Menos Juca: esta senhora sequer consegue comandar com competência as finanças do país, o que dirá enfiar a política misturada ao futebol. Que mudanças precisam ser feitas no futebol brasileiro, disto ninguém tem dúvida. Mas elas precisam ser feitas por gente do ramo do futebol. Sempre que a política interferiu no futebol deu burrada. Seria bom que o Juca refletisse com a razão, não com a emoção. É triste o momento vivido desde terça feira, mas isto não autoriza que busquemos soluções pelos piores caminhos.
Que não se goste de Marin e Del Nero é uma coisa, que eles são incompetentes para comandar uma urgente reformulação do futebol brasileiro, isto é de domínio público. Porém, ambos chegaram aos seus cargos seguindo uma regra aceita por todos. Foram eleitos por quem o regulamento determina e autoriza. Derrubá-los na mão grande, significa dizer e admitir que, sempre que alguém estiver exercendo algum cargo, e não cultivar simpatias no seu meio, será retirado do cargo à força? Desculpem-me, mas equivale a admitir o autoritarismo e o arbítrio como instrumentos legais e legítimos de resolução de problemas. E, só para lembrar, o Brasil ainda vive numa democracia, num ESTADO DE DIREITO DEMOCRÁTICO. De golpismos e golpistas a história já se encheu o suficiente para evitá-los.










