quarta-feira, maio 27, 2020

O perigo é acharem que o vídeo era a única prova. Não era!

Comentando a Notícia

Bolsonaristas de todos os matizes, ministros e mesmo Bolsonaro comemoram a exibição do vídeo da reunião ministerial patética de 22.04.2020, cujo sigilo foi levantado pelo ministro Celso de Mello, na sexta feira, 22/05, por entenderam que nele não se encontrou a tal “bala de prata” que os mesmos personagens temiam. É aí que mora o perigo.

Este inquérito, por tudo quanto já se sabe, não se restringe apenas ao tal vídeo. A interferência na PF fica indicada em alguns trechos, mas o que o consagra são os atos anteriores à reunião praticados por Bolsonaro, e os que seguiram. 

Bolsonaro acusara que tentou mas não conseguiu mudar agentes da ponta de sua segurança,. Mentiu. A imprensa pesquisou e mostrou que Bolsonaro fizera mudanças na sua segurança, via GSI, sem problema algum antes de 22.04.  E só conseguiu mudar tanto a Direção Geral da PF quanto o superintendente do Rio de Janeiro a partir da demissão de Sérgio Moro. Mais|: o ex-ministro exibiu mensagens de texto, as quais repassou como provas à PF, em que Bolsonaro o pressiona a “mais uma razão para troca”, a partir de um link do site O Antagonista, comunicando investigação de deputados de sua base parlamentar.   

Além disso, no dia da demissão de Moro, ao discursar à tarde, Bolsonaro evidenciou seu desejo de receber informações confidenciais da Polícia Federal, afirmação que ele próprio já havia feito na reunião ministerial. 

Seguindo, tem-se o propósito presidencial de praticar mudança na PF apenas na Direção Geral e na superintendência, seu domicílio e de seus filhos. Sabe-se da interferência em operação de busca e apreensão que seria feita na residência de Flávio, seu filho, e que de repente foi suspensa. Sabe-se do vazamento ao próprio Flávio de outra operação que ligava Flávio, Queiroz e as rachadinhas. O mesmo Flávio já impetrou 11 ações judiciais tentando suspender as investigações.  A justiça até agora indeferiu tudo.

Portanto, antes de soltarem rojões e saírem para comemorar o não aparecimento da tal “bala de prata” é melhor aguardar o andamento do inquérito. 

Não se sabe quais outras evidências foram apresentadas e que permanecem em segredo neste inquérito. 

A acusação da tentativa de interferência política na Polícia Federal, por tudo que já se sabe está mais do que comprovada. Porém, atrevo-me a dizer que esta acusação de “interferência” acabará se tornando a menor das preocupações que Bolsonaro deve observar. 

A interferência um crime ainda mais grave que é a de obstrução de justiça, no caso, as investigações que estavam em curso contra Flávio Bolsonaro. E, como se viu, foram maias de uma ação de obstrução. E isto, para um presidente da República, representa crime de responsabilidade passível de processo de impeachment   . 

Mesmo que o presidente da Câmara de Deputados, o deputado Maia, a quem cabe acatar os pedidos de impedimento que são protocolados no Congresso – já são mais de 30 pedidos - diga que não  há clima no momento para abertura de tal processo ( e não há mesmo, a prioridade é o combate à pandemia do covid-19), a partir da exibição pública do vídeo da reunião ministerial de 22.04, a pressão política pelo afastamento de Bolsona da presidência tende a crescer carregando consigo movimentação cada vez mais intensa da sociedade civil. 

Não pensem que a nota estúpida redigido pelo Gen. Augusto Heleno se restringia apenas a uma possível apreensão do celular do presidente, nota esta aprovada pelo Ministro da Defesa neste sábado.  Hoje, no Planalto, até mesmo dentre a ala militar do Ministério, existe um forte clima de apreensão do cenário que lentamente vai se desenhando contra a permanência do presidente no comando do país. A reunião não é, de fato, a temida bala de prata, mas é rastilho de pólvora suficiente para iniciar um incêndio de grandes proporções no ambiente político.  Daí a ameaça de “consequências imprevisíveis na estabilidade nacional” feita pelo chefe do Gabinete da Segurança Institucional.

Bolsonaro conviveu o ambiente do Congresso por cerca de 30 anos. Ele sensibilidade suficiente, em razão deste convívio, para sentir quando o cerco começa  se fechar em torno de si. Não por outra razão, o presidente apressou-se em selar aliança com o Centrão, abraçando a velha política que ele tanto criticou durante a campanha, para conquistar votos suficientes pra impedir a aprovação de um processo de impedimento. 

Collor caiu por conta de um Fiat Elba. Dilma caiu por conta de malabarismos contábeis nas contas públicas transgredindo os limites impostos por lei.  Bolsonaro, quiçá, poderá despencar por crimes muito mais graves.

Seria de bom tamanho, como forma de se precaver, que o presidente desse um parada nas suas agressões e ataques aos demais poderes e adotasse uma postura, por longo, de paz e amor. Se continuar e insistir em exalar ódio, rancor, agressões e ataques estúpidos tanto ao Judiciário quanto ao Legislativo Federal, se teimar em agredir, dia após dia, órgãos de imprensa que apenas fazem seu trabalho de informar, se permanecer abrindo guerra contra governadores e prefeitos se opondo ao combate que  eles estão travando para combater à pandemia, insistir com ofensas até com termos chulos, rapidamente verá sua aprovação popular despencar para índices bastante baixos.

E sua tropa de milicianos – que se dizem militantes e não passam de fscistóides -   é bom que recolham suas armas e manifestações estúpidas, mais palha na fogueira estão jogando. O clima ficou muito ruim, mas pode piorar muito mais. Não pensem que as vítimas da pandemia que já perderam mais 22 mil familiares, além dos que assistem o sofrimento   de cerca de 350 mil infectados, diante da nenhuma ação de Bolsonaro, além de sua teimosia em minimizar a pandemia,  estão batendo palmas de louvor. Seu sentimento de revolta e repulsa é imenso.  Joguem, ainda,  neste caldeirão os milhares de beneficiários do tal auxílio emergencial que, ou padecem nas portas da Caixa em filas quilométricas ou ainda aguardam  a aprovação do benefício,  como combustível para desaprovação completa da atuação presidencial. 

O cerco se fecha rapidamente. Mais um ou dois meses (assim esperamos) a pandemia tende a sumir ou reduzir drasticamente seus efeitos danosos, O depois, caso Bolsonaro não mude de atitudes, poderá trazer todo este clima de desaprovação e até de revolta contra o presidente, e é bom não contar com  a fidelidade do Centrão. Basta pequena mudança na direção dos ventos, e eles não hesitarão em saltar para fora do barco. 

Para encerrar: a grande recolta de Bolsonaro contra instituiçõrs e imprensa, é que ele descobriu que não tem o pode que imaginava ter. A Constituição de 1988, apesar de seus muitos defeitos, teve a grande virtude de fracionar o poder. Não o colocou de forma absoluta nas mãos de um único indivíduo. Gost ou não, Bolsonaro precisa seguir as leis, negociar aprovação de projetos com o Congresso que mudar, recusar desaprovar porque sua função, em última análise não é apenas aprovar leis. Maas cabe-lhe também fiscalizar o Poder Executivo. 

Como Bolsonaro não consegue, apesar de queree, reinar de forma absoluta tal qual os generais presidentes da ditsdura, isto o deixa irritado, fora de s Em suma: aos poucos Bolsonaro está descobrindo o que é DEMOCRACIA. Por ela foi eleito, mas nunca soube quais as regras do jogo. 

Operação da PF contra as fake news –

 O blog ainda voltará a esta matéria. Mas, FINALMENTE, a PF resolveu por um ponto final na bandidagem do “gabinete de ódio” e suas ações de difamação através de fake News. Interessante é que, ontem, os bolsonaristas comemoraram a ação da mesma PF contra o governador do Rio de Janeiro. E hoje, se insurgiram contra a mesma PF. Pimenta no fió alheio é refresco, né? Detalhe: Bolsonaro vaia dar parabéns à PF hoje, como ele fez ontem? Fala aí, Bolsonaro!!! 

Líderes começam a se perguntar: como será o mundo depois da pandemia?

Nick Wadhams, da Bloomberg
Exame.com

As previsões não são boas. Governos em colapso, fome, economias em crise e extremistas com mais poder estão entre os cenários mais sombrios

(Kena Betancur/Getty Images)
Enquanto a pandemia de coronavírus causa estragos em muitos países, líderes políticos
 e empresariais já começam a pensar como será o mundo quando a pior fase do surto passar.

As previsões não são boas.

Governos em colapso, fome, economias em crise e extremistas com mais poder estão entre os cenários pós-pandemia mais sombrios. No entanto, mesmo perspectivas menos drásticas têm um tom sombrio, com alianças políticas em ruínas e baixas expectativas de que as economias se recuperem rápido o suficiente para atenuar o impacto de centenas de milhões de empregos perdidos.

As divisões antes do surgimento do vírus se ampliam mais rapidamente. A disputa entre EUA e China sobre as origens e a resposta ao vírus agora ameaça o acordo comercial que poderia ajudar o mercado global a se recuperar. A briga pela distribuição de uma possível vacina divide aliados. Enquanto a ONU é deixada de lado, governos autocráticos intensificaram ataques às liberdades civis.
A esperança de que os países possam momentaneamente deixar de lado as diferenças para combater o coronavírus praticamente evaporou.

“Esta pandemia está quase tão perto de um asteroide que atinge a Terra quanto você possa imaginar em termos de ameaça comum”, disse Richard Fontaine, diretor-presidente do Center for a New American Security, em Washington. “Além de não haver cooperação significativa, se tornou apenas mais um vetor para concorrência.”

Muitos países, tendo visto a resposta “America First” à pandemia, terão receio de depender muito do governo de Washington. A maior economia do mundo, que possui muitas das principais universidades e pesquisadores, não conseguiu garantir testes e equipamentos médicos suficientes para combater o vírus, que já matou mais de 86 mil americanos.

Ao mesmo tempo, as demandas da China por concessões em troca de equipamentos extremamente necessários – geralmente de baixa qualidade – e sua contínua recusa em permitir uma investigação completa sobre a origem do vírus tornam a nação asiática a opção menos atraente para países espremidos entre as superpotências.

 “O dano corrosivo é bastante profundo”, disse William Burns, ex-vice-secretário de Estado dos EUA que agora é presidente do Carnegie Endowment for International Peace. “A crise da pandemia é um doloroso acelerador de muitas tendências no cenário internacional – fragmentação entre estados, foco no nacionalismo restrito, agravamento da competição entre grandes potências e desordens regionais.”

A pandemia deve eliminar US$ 8,5 trilhões do PIB global e colocar 130 milhões de pessoas nas fileiras da extrema pobreza, segundo a ONU. Mais de 100 países recorreram ao Fundo Monetário Internacional para ajuda.

“Vamos ver um papel maior do governo na economia, porque essa é a única maneira de injetar algo nela”, disse Nathalie Tocci, diretora do Instituto Italiano de Assuntos Internacionais em Roma. “Haverá um papel maior do governo na recuperação econômica, mas também uma atenção maior para evitar aquisições hostis, principalmente com a China em mente.”

Respeito à Ciência, por favor

Josef Barat*, 
O Estado de S.Paulo

Na guerra contra a pandemia, é hora de os economistas também ouvirem os médicos

Militantes de movimentos anticiência, antivacina e afins – sem compromisso com o conhecimento – vêm tentando levar o mundo para uma nova era de atraso e ignorância. Mas eis que a pandemia do coronavírus veio mostrar, com clareza, que não há saída fora do trabalho exaustivo de cientistas, pesquisadores e profissionais de saúde, cujo trabalho nos trará alguma saída para esta calamidade.

Obviamente, estes militantes têm a certeza de que, quando se sentirem ameaçados, recorrerão aos serviços de saúde e à dedicação dos seus profissionais. Mas a verdade é que, imbuídos da missão de propagar teses medievais em pleno século 21, desinformam e atraem uma legião de ignorantes, lembrando a frase de Nelson Rodrigues “os idiotas vão tomar conta do mundo não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”.

Se a tragédia da pandemia nos mostrou exemplos fantásticos de solidariedade, altruísmo e dedicação, desvendou também as profundezas da ignorância e da idiotice. Países que não levaram em conta, desde o início, a espantosa capacidade de difusão e contágio do vírus estão pagando alto preço em vítimas e mortes. No Brasil, a ação rápida do Ministério da Saúde, tanto pelas medidas de isolamento social como pela bem estruturada rede do SUS, de início conseguiu conter a propagação mais rápida. Mas a falta de apoio firme à ação do ministério acabou por passar uma mensagem dupla e incutiu a ideia de salvamento por medicamentos milagrosos.

Nossos generais sabem que, numa guerra, a dubiedade nas mensagens e palavras de comando e a indecisão em mostrar a situação real comprometem o êxito de qualquer ação. É óbvio que estamos ante uma escolha de Sofia. Taxa elevada de desemprego, queda abrupta na produção e nas vendas e comprometimento das cadeias produtivas. A escolha é difícil, mas na guerra contra esta pandemia o objetivo central é reduzir a mortalidade. É nesta hora que os generais têm de ouvir os médicos. Simplesmente porque a retomada do crescimento e do emprego já fica comprometida, de saída, com o avanço maior da pandemia. O impacto das mortes e as limitações do sistema de saúde já são fatores impeditivos do pleno funcionamento da economia. É hora, também, de os economistas ouvirem os médicos.

Os impactos da estratégia de isolamento social, ao contrário do que pensaram inicialmente muitos governos com a perspectiva de preservar a economia, poderão ser mais positivos na recuperação econômica (além de trazer menos mortes associadas) do que não realizá-lo. Se forem calculados os custos e benefícios das duas alternativas, um isolamento social seletivo (ou vertical) só faria sentido se fosse possível identificar em massa o número de positivos por meio de testes e rastrear a rede de contatos dos positivos para que estes dois conjuntos se submetessem a quarentenas e se quebrasse a correia de transmissão.

Países que utilizaram o isolamento seletivo são países pequenos, com populações menores, altos níveis de tecnologia e controle social, sistemas de informação e capacidade ociosa dos serviços de saúde. Começaram a realizar os testes com muita antecedência, permitindo um mapeamento dos casos positivos bem no início da pandemia. Mesmo assim, mudaram sua política em prol do isolamento social quando não conseguiram o achatamento da curva epidemiológica no ritmo desejado.

Sabe-se que Itália, Espanha e EUA falharam ao não iniciar o distanciamento social na hora certa ou não realizar testes para mapear os casos com antecipação, gerando situações de estresse em seus sistemas de saúde. Ainda que tenham partido posteriormente para o isolamento social compulsório, houve dificuldades de realizá-lo de forma plena. Cabe lembrar que na província de Hubei, na China, a reversão da curva pandêmica se deu após um severo lockdown regional.

O momento exige, pois, atitude firme e linguagem direta e clara dos dirigentes. Os que não agirem com grandeza serão varridos para a insignificância ou o desprezo na História.

*Economista, Consultor de Entidades Públicas e Privadas,  Coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da Associação Comercial de São Paulo







Bolsonaro está levando Brasil ao desastre, diz colunista do Financial Times

Redação, 
O Estado de S.Paulo

Autor diz que o presidente é responsável pela 'resposta caótica que permitiu que a pandemia saia do controle' e que 'mortes e desemprego são exacerbados' por essa conduta

  Foto: Joedson Alves/EFE
Jair Bolsonaro é visto como um presidente populista pelos analistas 

O jornal econômico Financial Times publicou nesta segunda-feira, 25, um artigo dizendo que o presidente Jair Bolsonaro está levando o Brasil ao desastre com sua condução da crise causada pelo novo coronavírus. O texto foi publicado pelo colunista Gideon Rachman, o principal analista de assuntos externos do diário britânico. 
No artigo, Rachman diz que o presidente brasileiro adotou uma abordagem semelhante à de Donald Trump, mas ainda mais "irresponsável e perigosa". "Ambos os líderes ficaram obcecados com as propriedades supostamente curativas da hidroxicloroquina. Mas enquanto Trump está apenas tomando o produto, Bolsonaro forçou o Ministério da Saúde brasileiro a emitir novas diretrizes, recomendando o medicamento para pacientes com coronavírus", escreve.  
Nesta segunda, o Estadão mostrou que o confronto entre governo federal e governadores, a indefinição no combate ao coronavírus e dúvidas sobre a capacidade de o País continuar com reformas estruturais são focos de preocupação no exterior. 
O autor lembra que Trump brigou com consultores científicos, mas Bolsonaro demitiu um ministro da Saúde e provocou a demissão de outro, uma referência a Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Também cita que o presidente brasileiro participa das aglomerações e que a situação piora rapidamente no Brasil, que já é o segundo país com mais casos de mortes e de contaminações. No domingo, eram 363 mil pessoas contaminadas e 22.666 mortes. 
"O Brasil já está pagando um preço alto pelas palhaçadas de seu presidente", diz o texto, lembrando que a situação econômica e social do Brasil indica que o país será severamente afetado. "Incentivando seus seguidores a desrespeitar os bloqueios e minando seus próprios ministros, Bolsonaro é responsável pela resposta caótica que permitiu que a pandemia saia do controle. Como resultado, os danos à saúde e à economia sofridos pelo Brasil provavelmente serão mais severos e mais profundos do que deveriam ter sido".
Ele diz que países com situação socioeconômica mais difícil, como a África do Sul, tiveram uma resposta muito mais eficaz. Rachman escreve ainda que o Brasil é um país profundamente polarizado, onde as teorias da conspiração são abundantes e que o presidente se fortalece com esse cenário.
"No estilo populista clássico, ele vive da política da divisão. As mortes e o desemprego causados pela covid-19 são exacerbados pela liderança de Bolsonaro. Mas, perversamente, um desastre econômico e de saúde poderia criar um ambiente ainda mais hospitaleiro para a política do medo e da irracionalidade".

Isolamento é vida

Notas & Informações, 
O Estado de S.Paulo

Não há outra medida capaz de frear a disseminação sem controle do coronavírus

Enquanto uma vacina ou um tratamento eficaz para a covid-19 não estiverem maciçamente à disposição da população, não há outro meio capaz de preservar vidas a não ser o isolamento. Por mais difícil que seja se manter firme a ele, no momento não há outra medida que possa frear a descontrolada disseminação do novo coronavírus. Isto deve ser dito por pais a seus filhos, por professores a seus alunos, por um amigo a outro, por governantes a seus governados, em suma, por qualquer pessoa sensata que nutra genuína preocupação com seu próprio bem-estar e com o de seus semelhantes.

O novo coronavírus é um patógeno mortal, como tristemente atestam a estatística nacional e os depoimentos emocionados de familiares e amigos dos mais de 12 mil mortos no País. Ao mesmo tempo, trata-se de um vírus que sucumbe ao contato com água e sabão ou álcool em gel. Portanto, o cuidado quase obsessivo com a higiene das mãos aliado ao isolamento salva vidas. É a garantia que há hoje.

Preocupa muito que esta não seja a visão compartilhada por grande parte da população. O monitor de isolamento social do Estado, feito com base em dados fornecidos pela Inloco, empresa de tecnologia que fornece inteligência de dados por geolocalização, revela que a média de isolamento no País é de 43,4%, porcentual muito abaixo da meta de 70%, o mínimo necessário, segundo especialistas, para frear a taxa de contaminação pelo novo coronavírus e dar fôlego para que os sistemas público e privado de saúde possam preservar a capacidade de atendimento aos doentes mais graves.

De acordo com o levantamento, nenhum Estado atingiu mais que 51% de isolamento. O Amapá é o primeiro do ranking, com 50,9% de sua população isolada. São Paulo, Estado mais afetado pela doença no País, com mais de 54 mil casos e 4.300 mortes, ocupa a 13.ª posição, com taxa de isolamento de 43,03%. O dado do monitor Estado/Inloco diverge do dado oficial do governo paulista, que indica algo em torno de 47%, por uma questão de metodologia. De qualquer forma, trata-se de um porcentual muito baixo diante da extrema gravidade da pandemia. Na capital paulista, nem o rodízio de veículos mais restritivo tem se mostrado eficaz para aumentar a adesão ao isolamento pelos paulistanos. Diante disso, não será surpresa se, num futuro próximo, um bloqueio total, o chamado lockdown, se impuser como único meio de salvaguardar vidas. Esta é a prioridade que deve nortear as ações de todo governante responsável na condução de suas ações durante a pandemia: salvar o maior número de vidas possível.

Um estudo elaborado pelo Imperial College de Londres revelou que o isolamento social foi capaz de reduzir em 54% a taxa de infecção pelo novo coronavírus nas localidades em que foi adotado com mais vigor no País. Ou seja, o isolamento reduziu a quantidade de pessoas que um doente pode infectar. Não obstante, a covid-19 avança de forma descontrolada. “Sem uma mudança significativa, a tendência é que o número de casos (no Brasil) continue crescendo”, disse ao Estado o médico Ricardo Schnekenberg, coautor do estudo.

É lícito inferir que, a despeito do volume de informação circulante, um porcentual da população ainda não tenha aderido com firmeza ao isolamento por desconhecimento da eficácia da medida. Mas a esmagadora maioria das pessoas que insistem em sair às ruas quando poderiam perfeitamente ficar em casa, ao contrário dos que prestam serviços essenciais, o faz por desdenhar da gravidade da doença ou porque seu ganha-pão diário depende das ruas, dada a enorme informalidade do mercado de trabalho no Brasil.

Não se deve subestimar o efeito que o comportamento irresponsável do presidente Jair Bolsonaro tem sobre uma parcela dos que não respeitam o isolamento. O apequenamento do Ministério da Saúde em meio à pandemia é o retrato mais bem acabado do desdém do presidente pela vida, pelos fatos, pela ciência. E se o presidente da República não mostra grande preocupação com a doença, podem pensar os que burlam o isolamento, é porque talvez ela não seja, de fato, tão grave assim. Um engano que pode ser fatal.


O gabinete dos horrores

Alexander Busch
Deutsche Welle

Após reunião mostrar que Bolsonaro desrespeita as instituições democráticas e ignora a pandemia, quem continua em seu gabinete é corresponsável pelo fracasso do governo na crise do coronavírus, opina Alexander Busch.    


A reunião ministerial do governo de Jair Bolsonaro realizada em 22 de abril dá uma perspectiva única sobre a sala das máquinas de seu governo populista de direita. Para quem lê a transcrição da reunião, com 75 páginas, fica claro como o governo funciona. Diante do mortal coronavírus, Bolsonaro só está interessado numa coisa: deformar a realidade como lhe convém e expandir seu poder.

Quando o gabinete se reuniu, há cerca de um mês, quase 3 mil brasileiros já haviam morrido em decorrência do vírus. Uma semana antes, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, havia sido demitido. No entanto, o combate à covid-19 e o número crescente de mortes não foram mencionados na reunião.

O tema principal era o Plano Pró-Brasil, que foi apresentado à opinião pública naquele dia. O plano de investimentos estatais em infraestrutura deveria amenizar as consequências da pandemia por meio da criação de empregos. Ele foi coordenado pelo ministro-chefe da Casa Civil, o general Walter Braga Netto, o que, para o ministro da Economia, Paulo Guedes, foi uma afronta. Como superministro, o economista de Chicago deveria reformar o Estado e a economia, reduzir os orçamentos e privatizar estatais. Mas, o Plano Pró-Brasil autoriza a ala militar a gastar o que Guedes tinha economizado por meio de reformas. Nesse meio tempo, nada mais se ouviu do Pró-Brasil.

Nas duas horas de reunião, logo fica claro quem detém as rédeas do governo: o presidente – e os militares. Braga Netto conduz o encontro, concedendo e retirando a palavra. Apesar de ainda haver outros sete generais no gabinete, eles permanecem em silêncio.

Sem abrir a boca, eles  escutam enquanto os chicoteadores ideológicos do governo apresentam suas ideias abstrusas: o ministro da Educação, Abraham Weintraub, quer colocar todo o Supremo Tribunal Federal na cadeia; a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, quer que governadores e prefeitos sejam presos; e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, sonha com uma nova globalização de valores, na qual o Brasil ajudará a definir, ao lado de outras cinco nações, a nova ordem mundial.

Esses ministros são frequentemente vistos como bobos da corte. Agora fica claro que quem pensa assim está enganado: eles são os pilares decisivos que sustentam Bolsonaro.

O mesmo vale para o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, que quer permitir jogos de azar em resorts. Guedes aguarda ansiosamente por milionários vacinados que viriam se divertir no Brasil.
O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugere que se aproveite a crise do coronavírus para "ir passando a boiada" e mudando a legislação ambiental no Congresso, enquanto a imprensa está distraída.

Os trechos da reunião que foram suprimidos aparentemente escondem declarações desrespeitosas sobre a China. Segundo Guedes, a China é "aquele cara que você sabe que tem que aguentar" porque o país compra muito do Brasil.

Bolsonaro usa insultos grosseiros para falar sobre seus adversários políticos. Ou seja, sobre todos os que não pensam como ele. O presidente queixa-se do fato de que, segundo diz, a imprensa só implica com ele. Qualquer ministro que for elogiado por jornalistas, perderá o cargo, afirma. Ele exige que os ministros o defendam publicamente. Além disso, ele quer armar a população rapidamente, pois, segundo ele, somente com cidadãos armados é possível evitar uma ditadura.

A frase decisiva é aquela em que ele exige que "gente da segurança nossa no Rio de Janeiro" seja finalmente trocada. Se isso não for feito, então que se troque o chefe dele, e se isso não puder ser feito, que se troque também o ministro, diz. "E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira."

Essas declarações foram o motivo por que o também presente e então ainda ministro da Justiça, Sergio Moro, anunciou sua demissão pouco depois. O presidente teria tentado interferir na Polícia Federal para barrar investigações sobre corrupção envolvendo seu filho Flávio Bolsonaro. Como prova, Moro exigiu a divulgação da gravação da reunião – e o Supremo concordou.

A interpretação jurídica é que com tais declarações de Bolsonaro não é possível comprovar sem margem para dúvidas que Bolsonaro queria interferir no aparato policial para proteger seu filho.

Apoiadores de Bolsonaro pensam o mesmo: nas redes sociais, eles comemoraram os trechos divulgados com o slogan "Bolsonaro 2022". Para eles, agora nada impede que seu ídolo seja reeleito. A aparente inação e falta de interesse do presidente na pandemia não parece incomodá-los.

Sobre os restantes ministros e militares não há mais dúvidas após a divulgação do conteúdo da reunião: a partir de agora, eles são corresponsáveis tanto pelo número crescente de mortes na pandemia como pela tentativa de acabar com as instituições democráticas.

Sem imprensa livre não há democracia

Felipe Santa Cruz e Marcelo Trasel*, 
O Estado de S.Paulo

Assédio moral a jornalistas se tornou cotidiano no governo de Jair Bolsonaro

  Foto: Gabriela Biló / Estadão
Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro em um novo cercado no Palácio da Alvorada 

Um dos pilares da democracia que estamos construindo, desde que a Constituição de 1988 foi promulgada, é a liberdade de expressão e de imprensa. Infelizmente, no Brasil contemporâneo, algumas autoridades e militantes políticos radicais aparentemente desconhecem ou desprezam esse princípio constitucional e o papel do jornalismo. Em lugar de respeitar a função da imprensa e manter um ambiente de civilidade diante da fiscalização do noticiário, como fizeram todos os governos desde a redemocratização, alguns mandatários e servidores públicos respondem com injúrias dirigidas aos profissionais responsáveis por manter a sociedade informada. 

Um levantamento da rede Voces del Sur, a partir de dados fornecidos pela Abraji, aponta que houve no Brasil 59 ocorrências de discurso estigmatizante contra jornalistas em 2019 e outras 39 em 2020, categoria na qual se incluem apenas ataques derivados de agentes políticos e agentes públicos. No caso de assédio virtual, foram computados 30 incidentes em 2019 e 20 no ano de 2020. Em relação à pandemia de covid-19, 24 violações à liberdade de imprensa foram detectadas entre 1º de março e 21 de abril, sendo 13 agressões e ataques a repórteres, 9 casos de discurso estigmatizante e dois assédios virtuais. 

No atual governo, o assédio moral a jornalistas se tornou cotidiano. Nas entrevistas em frente ao palácio, o presidente responde às perguntas sobre indícios de corrupção ou incompetência em seu governo com frases como “pergunte à sua mãe”, dirige gestos obscenos ou ofensas homofóbicas e sexistas a repórteres, ou ainda faz críticas às empresas de comunicação, tudo sob aplausos de uma claque de militantes. Nas redes sociais, uma militância, muitas vezes conduzida por assessores pagos com dinheiro público, promove campanhas de difamação contra repórteres e veículos, se valendo inclusive de perfis falsos e robôs. 

O resultado da ausência de civilidade do governo federal em sua relação com a imprensa são as agressões físicas a jornalistas noticiadas nas últimas semanas. Legitimados pelo discurso conspiratório e hostil do presidente, seus apoiadores atacam repórteres com bandeiras, empurram fotógrafos de cima de escadas ou quebram o dedo de cinegrafistas no exercício de sua função profissional e de seu papel como cidadãos. Isso precisa ter fim, porque é até possível existir algo semelhante a jornalismo num regime autoritário, mas é impossível a existência de uma democracia sem a fiscalização do poder pelos jornalistas.

Atentas à necessidade de garantir a segurança física e psicológica dos jornalistas, OAB, por meio do Observatório da Liberdade de Imprensa, e Abraji firmaram convênio para orientação jurídica de profissionais agredidos ou assediados. O livre exercício do jornalismo é condição fundamental para que exista liberdade de imprensa, garantida pela Constituição. Haverá orientação sobre medidas legais contra ameaças e assédio online, roteiro para reconhecer um abuso virtual e o passo a passo para denunciá-lo às autoridades brasileiras e às cortes internacionais de direitos humanos.

A insatisfação com a imprensa é um traço comum aos mandatários, e não só aqui no Brasil. Afinal, é papel da imprensa manter uma postura crítica e independente em relação a todos os Poderes instituídos. Esse monitoramento das ações das instituições, dos políticos e das autoridades é uma das mais relevantes contribuições para o debate público e para o fortalecimento da democracia. É um trabalho que não pode, em qualquer hipótese, ser cerceado nem confundido por qualquer que seja o governo com o papel da oposição, atividade a ser exercida por partidos e por outros setores organizados da sociedade – igualmente importante e digna de respeito quando exercida dentro da legalidade.

Portanto, nenhum tipo de violência ou assédio contra os profissionais da imprensa pode ser admitido. Nenhum tipo de ameaça de retaliação aos veículos que cumprem o dever de informar pode ser visto como razoável. Em qualquer democracia, é mister aceitar contraditórios e essencial rechaçar a violência como forma de solução dos conflitos.

Os sinais de uma democracia asfixiada frequentemente aparecem sob a forma de jornalistas e opositores sendo censurados, coagidos ou ameaçados. Ao primeiro sinal, é preciso dar um basta.


* Felipe Santa Cruz é Presidente do Conselho Federal da Ordem Dos Advogados do Brasil (OAB) 

Marcelo Träsel é Presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI)

O Brasil de volta à Idade das Trevas

Thomas Milz
Deutsche Welle

Governo não é técnico e Estado não é laico. Positivismo, tão fundamental na criação da República Federativa do Brasil, também se foi. Abandonado por seu líder máximo, país voltou para a Idade Média, lamenta Thomas Milz.
    

Tempos de pestes sempre trouxeram um ar lunático, com todos buscando um culpado pela praga. Na Alemanha, se reúnem atualmente em praças públicas negacionistas de todas as causas, ativistas anti-vacina, da extrema direita e extrema esquerda, e juntos se manifestam contra a conspiração viral de Bill Gates e George Soros. Ainda bem que representam uma minoria. E que a Alemanha – por enquanto – tem um governo baseado na razão e na ciência, e não em likes das redes sociais ou vídeos de youtubers.

Chama a atenção o fato de que países governados por mulheres passaram com mais facilidade pela pandemia, a ver: Alemanha, Finlândia, Noruega e Nova Zelândia. A alemã Angela Merkel é física, a finlandesa Sanna Marin formada em Administração, a norueguesa Erna Solberg é sociológica, cientista política e ainda economista, enquanto a neozelandesa Jacinda Ardern é bacharel em comunicação política.

Por outro lado, os três países com mais casos de coronavírus –  Estados Unidos, Rússia e Brasil –  são liderados por homens de egos tão inflados que desprezam a ciência e os conselhos das vozes da razão. Magnata, Czar e Messias: todos se achando invencíveis devido a um vírus, que causaria uma "gripezinha". E estão pagando o preço da prepotência, por terem abandonado o caminho da ciência em favor de ideias obscurantistas, que misturam superstição com uma dose de pseudo-religiosidade. Minto. São os cidadãos desses países que estão pagando o preço, em milhares de mortes.

"O vírus tá aí, vamos ter de enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, pô, não como moleque", disse o presidente do Brasil. Para isso, promoveu um dia de oração contra o vírus, medida muito superior ao isolamento social feito nos países governados por mulheres. Depois da tentativa das orações, veio o remédio milagroso, revelado pelo Messias (é óbvio que o messias deve apresentar o milagre, para justificar seu nome): a cloroquina, um medicamento sem eficácia comprovada, como o próprio presidente admite. Mas, "pior do que ser derrotado é a vergonha de não ter lutado", segundo Jair Bolsonaro. Orem e, depois, morram como heróis, bravos brasileiros!

Havia a falsa esperança (e promessa) de um governo técnico, sem ideologia. Mas na área de saúde, onde mais se precisa de liderança técnica, os ministros técnicos foram dispensados por terem feito uma gestão meramente técnica. E por não terem defendido as ideias messiânicas do presidente.

Há no mundo três líderes defendendo o uso da cloroquina:

1. O magnata Donald Trump, que, depois de aconselhar as pessoas a tomarem uma injeção de desinfetante contra o vírus, agora disse tomar cloroquina como profilaxia.

2. O maquinista de metro Nicolás Maduro, líder da Venezuela, que já disse que seu falecido tutor Hugo Chávez lhe aparece em forma de passarinho. Se tal acontecimento se realizou depois de ele ter tomado a cloroquina, não se sabe.

3. O capitão reformado Jair Messias Bolsonaro, que, como deputado, liderou o projeto para aprovar a fosfoetanolamina sintética, a chamada "pílula do câncer". O produto, ainda sem a eficácia comprovada, foi barrado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O Ministério da Saúde está agora interinamente nas mãos de um general com vasta experiência em logística, mas sem experiência na área de saúde. Foi ele que, finalmente, seguiu o desejo do presidente de incluir a cloroquina e seu derivado hidroxicloroquina no protocolo de tratamento para pacientes com sintomas de coronavírus. Mesmo admitindo que não há comprovação da eficácia. Fica a dica do presidente: "Quem é de direita toma cloroquina, quem é esquerda, tubaína".

Seria cômico se não fosse trágico. Mas, para ser sincero, já estava claro desde o começo que não se podia esperar muita coisa desse governo, muito menos políticas sérias baseadas na ciência e na razão.
Há, no entanto, uma grande decepção com a ala militar do governo. Esperava-se dela segurar as loucuras da ala ideológica. Afinal, há uma longa tradição científica dos militares brasileiros. Houve uma época em que eles lideraram a marcha da modernidade, hasteando a bandeira do positivismo, do lema "Ordem e progresso". Defenderam a ideia de que o conhecimento científico deveria ser a base da sociedade e não as orações e remédios milagrosos. O Brasil voltou para a Idade das Trevas.
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* Thomas Milz saiu da casa de seus pais protestantes há quase 20 anos e se mudou para o país mais católico do mundo. Tem mestrado em Ciências Políticas e História da América Latina e, há 15 anos, trabalha como jornalista e fotógrafo para veículos como o Bayerischer Rundfunk, a agência de notícias KNA e o jornal Neue Zürcher Zeitung. É pai de uma menina nascida em 2012 em Salvador. Depois de uma década em São Paulo, mora no Rio de Janeiro há quatro anos.

Brasil constrói a própria catástrofe na pandemia

 Thomas Milz
Deutsche Welle 

País se torna terceiro do mundo em número de casos de covid-19 e avança para se tornar o epicentro global da doença, enquanto presidente se esquiva de responsabilidade. E, ao que tudo indica, o pior ainda não passou.
    

Bolsonaro ignora consenso científico internacional 
e volta apoiar aglomeração em Brasília

No fim de semana, viu-se novamente um clima de festa entre os jovens na Lapa, bairro boêmio do Rio de Janeiro. E ao longo das famosas avenidas litorâneas da cidade, muitos apreciavam o drinque noturno, muitos sem a máscara de proteção determinada pela prefeitura. Depois de dois meses cheios de restrições, muitas pessoas em bairros mais abastados parecem se se comportar relaxadamente.

Por outro lado, muitos vivem com medo nas favelas, onde o vírus é galopante. "Colocando a proteção facial e sempre limpando as mãos com desinfetante, não acontece nada", afirma o funcionário de uma pequena mercearia que faz entregas de bicicleta aos clientes em quarentena. Sua esposa, que trabalhava fazendo faxina para famílias com melhores condições, está em casa há meses por medo. "Mal se consegue sobreviver", diz o marido.

O coronavírus atinge particularmente os pobres que, apesar do perigo, não podem simplesmente ficar em casa e não podem contar com nenhuma clínica particular bem equipada no caso de uma emergência. Com 256 mil casos confirmados e mais de 16,8 mil mortes, o Brasil estava em terceiro lugar nas estatísticas globais de coronavírus nesta terça-feira (19/05).

Mas é provável que o número real de mortes seja mais que o dobro, e o número de casos não relatados de infecção pode ser até 15 vezes maior. Sem testes, os especialistas ficam no escuro. E como os hospitais públicos estão superlotados em muitas localidades, cada vez mais pessoas morrem em casa sem serem testadas.

Os números oficiais já são, por si só, suficientemente assustadores. Atualmente, até 15 mil novas infecções e mais de 800 mortes são relatadas todos os dias. As curvas apontam acentuadamente para cima, não há achatamento à vista. Imagens de valas comuns em Manaus e São Paulo rodam o mundo. No centro da cobertura da mídia está o presidente Jair Bolsonaro, que parece estar pouco preocupado com o sofrimento dos cidadãos.

De "gripezinha" a foco da epidemia

Bolsonaro ainda acha que o vírus causa uma "gripezinha" e ele suspeita que, por trás dessa "histeria", esteja a China. Ele acredita que alguém quer prejudicar a ele e ao presidente dos EUA, Donald Trump. No início de março, Bolsonaro visitou o líder americano na Flórida. Ao retornar, mais de 20 membros da delegação brasileira testaram positivo para o coronavírus, um desastre de relações públicas para Bolsonaro.

Ele desrespeita deliberadamente as regras de distanciamento social recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e seu próprio Ministério da Saúde. De forma demonstrativa, ele tira selfies e aperta as mãos de seus seguidores, que protestam todos os domingos em frente ao Palácio do Planalto pelo fim das medidas de combate à pandemia. O ex-paraquedista disse que, por seu "histórico de atleta", ele não precisaria se preocupar e "nada sentiria", caso fosse contaminado pelo vírus.

Além disso, nas grandes cidades do país, há caravanas de carros de apoiadores de Bolsonaro. Eles criticam abertamente os governadores e prefeitos que fecharam shopping centers e lojas, atividades que não são consideradas essenciais na pandemia. Enquanto seus adversários atribuíam a Jair Messias Bolsonaro o número crescente de mortes, ele comentou com escárnio: "E daí? Eu sou Messias, mas não faço milagres."


Orações e remédio para malária

Mesmo assim, ele pediu aos seus compatriotas que orassem contra o vírus. Além disso, da mesma forma que Trump, ele está exigindo o uso de cloroquina, um medicamento contra a malária. Bolsonaro instruiu os laboratórios das Forças Armadas a fabricar milhões de comprimidos do remédio.

Depois que recusou-se a aprovar o uso da controversa droga, o médico Luiz Henrique Mandetta teve que deixar o cargo de ministro da Saúde em meados de abril. Seu sucessor, o oncologista Nelson Teich, também se recusou a prescrever cloroquina para pacientes com covid-19. Após 28 dias no cargo, Teich jogou a toalha na última sexta-feira.

Até o momento, não foi possível comprovar a eficácia do medicamento contra a covid-19. Em vez disso, em muitos pacientes, ele leva à arritmia cardíaca. Os médicos suspeitam que centenas de brasileiros tenham morrido em casa nas últimas semanas porque se trataram com cloroquina sem supervisão médica.

No entanto, o Ministério da Saúde deverá mudar esta semana o protocolo para o uso da cloroquina: Bolsonaro quer que o medicamento seja usado de forma ampla e, não somente em casos graves com orientação médica, mas também no início do tratamento.

Bolsonaro contra governadores

Os ex-ministros da saúde Mandetta e Teich também caíram em desgraça por apoiarem as medidas de distanciamento social ordenadas por governadores e prefeitos. Bolsonaro, por outro lado, quer reabrir "quase tudo" para salvar a economia brasileira. "Espero que não venham me culpar lá na frente pela quantidade de milhões e milhões de desempregados", disse o presidente, apontando que os culpados são os governos locais.

Mas Bolsonaro está de mãos atadas. Porque os governadores e prefeitos são responsáveis por decidir sobre medidas de confinamento. Como os hospitais em algumas regiões já estão sobrecarregados, cada vez mais governos locais estão anunciando medidas drásticas. O bloqueio total já foi anunciado em alguns municípios do Rio de Janeiro, e o governo estadual está prestes a fazê-lo em São Paulo, unidade mais populosa da federação e que já tem mais mortes do que a China. A situação é ainda mais dramática no Norte e Nordeste, onde as cidades de Belém, Manaus e Fortaleza não têm mais leitos hospitalares livres.

Por insistência do Congresso, o governo iniciou pagamentos de ajuda a trabalhadores informais e mães solteiras. O auxílio emergencial de 600 reais será pago durante três meses. Até 50 milhões de pessoas, cerca de um quarto dos brasileiros, têm direito ao benefício. A procura é enorme. Em todo o país, o pagamento caótico da primeira parcela vem causando filas em frente às agências bancárias há semanas ‒ e provocando provavelmente muitas novas infecções.

Mas a recessão iminente pode salvar Bolsonaro, cuja aprovação está caindo nas pesquisas. Para tal, ele tem que conseguir culpar os governos locais pela miséria econômica.

Brasil chega aos três meses de crise com mais de 24 mil mortes por covid-19 e sem plano para frear doença

Beatriz Jucá
El Pais

Ministério da Saúde afirma agora, três meses depois da chegada do vírus ao país, que financiará leitos de hospitais de campanha quando Estados e municípios chegarem a limite

  RAPHAEL ALVES / EFE
Um hospital de campanha em Manaus.

Às vésperas de completar três meses da primeira confirmação de covid-19 no país, o Brasil chegou às 24,512 mortes e 391.222  casos da doença completamente acéfalo em sua frente de combate. Enquanto o Ministério da Saúde segue sem um comando oficial definido há dez dias, o país falha em apresentar qualquer plano contundente para tentar barrar a progressão da doença, que não para de acumular cifras trágicas desde o primeiro caso confirmado, em 26 de fevereiro. De quando ocorreu a primeira morte, em 17 de março, já foram 14 óbitos por hora, em média, no país.

O Governo de Jair Bolsonaro segue apostando na estratégia de incentivar o retorno da população às ruas para tentar aquecer a economia, contrariando as determinações das agências sanitárias, e vê, dia após dia, sua promessa de elixir, a cloroquina, ser desacreditada pela comunidade científica —a Organização Mundial da Saúde anunciou nesta segunda a suspensão “temporária” de ensaios clínicos internacionais com a droga por “precaução”. De planos mais concretos até o momento, o Governo só parece ter um: a substituição de seu primeiro escalão técnico, formado por profissionais na área, por militares, já que ao menos 15 foram nomeados até agora. Nesta segunda, o secretário de vigilância, Wanderson de Oliveira, responsável pela estratégia brasileira de combate à crise, foi exonerado.

Nesta segunda-feira, três meses depois do início da crise, o Governo federal criou regras para financiar leitos em hospitais de campanha. A pasta, que chegou a construir uma única unidade do tipo até agora, em Águas Lindas (Goiás), mas entregou apenas nesta semana, com atraso. Por isso, disse que não construiria mais estruturas provisórias, que agora devem ser implementadas e gerenciadas por Estados e municípios —algo que muitos locais, como por exemplo São Paulo, Ceará e Rio de Janeiro. “Com a pandemia, tudo é novidade e estamos tendo de buscar soluções de maneira ágil. No primeiro momento, se apoiou com o hospital de campanha, que tem uma gestão compartilhada, mais complexa. Com as dificuldades, chegou-se à conclusão de que era melhor descentralizar recursos e que isso ficasse com os Estados e municípios”, explicou o secretário-executivo substituto, Élcio Franco.

O hospital de Águas Lindas ficou um mês parado. Na sexta-feira, foi assinada a cooperação com o Estado de Goiás, que agora está na fase de contratar profissionais de saúde para que ele passe de fato a operar. Um outro hospital de campanha exclusivo aos povos indígenas, que chegou a ser anunciado pelo ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, até hoje nunca saiu do papel. Com a mudança anunciada nesta segunda, a ideia é que as gestões locais demandem o financiamento dessa estrutura provisória. Mas, segundo o Ministério, elas só devem ser construída quando a capacidade instalada do sistema de saúde dos Estados e municípios atingir o limite e não haja mais possibilidade sequer de contratar leitos de hospitais privados. Os hospitais de campanha devem receber apenas pacientes com sintomas mais leves da doença —os mais graves são levados para as UTIs de hospitais normais, que em muitos Estados, como Amazonas e Ceará já estão saturadas. “Não quer dizer que o hospital só vai ser construído quando não tiver nenhum leito de UTI e sim que eu estou acompanhando a evolução, estou verificando o percentual de ocupação e baseado nesse prognóstico, vou identificar a necessidade de requisitar leitos da rede privada ou optar pelo hospital de campanha”, garantiu o secretário, em coletiva.

O problema é que até agora o Governo ainda não consegue sequer oferecer dados precisos de como estão as UTIs de Estados, municípios e do sistema particular. Ainda na gestão Mandetta, o Ministério da Saúde chegou a criar uma plataforma para acompanhar a taxa de ocupação tanto de leitos públicos quanto privados, mas nunca chegou a divulgar essas informações, que deveriam ser acompanhadas pela sociedade diariamente. A pasta admite que apenas 611 hospitais atualizaram até o momento o sistema e apela para que os hospitais cadastrem as informações diariamente. Também assumiu que não tem um controle global dos hospitais de campanha que já foram instalados por Estados e municípios. Sabe apenas que há altas taxas de ocupação de leitos em Estados com maior incidência da doença, como por exemplo São Paulo, Rio de Janeiro, Paraíba, Ceará e Pernambuco. “Se nós não tivermos dados atualizados de ocupação de leitos, taxa de óbitos e notificação de casos, fica muito difícil da gente ajudar tecnicamente e até reforçar estruturas nesses locais”, afirmou Élcio Franco durante a coletiva.

Sem uma estratégia unificada com Estados e municípios, e diante de discursos do próprio presidente que prejudicam essa integração, o ministro interino Pazuello decidiu viajar outra vez a Manaus ―onde o ex-ministro Nelson Teich já havia cumprido agenda para visitar hospitais― para avaliar as ações implementadas ali e a possibilidade de replicá-las em outros Estados. Durante a coletiva, Franco confirmou que Pazuello avaliaria o êxito de políticas, sem detalhar quais seriam elas. Manaus vive uma situação dura frente à pandemia. O Governo enviou 267 profissionais da saúde de seu cadastro nacional, que são custeado pelos gestores locais, e habilitou leitos de UTI. Não lançou ali, no entanto, nenhum ensaio de uma política diferenciada de enfrentamento à doença.

O EL PAÍS perguntou durante a coletiva qual é a nova estratégia do Ministério da Saúde para conter a epidemia após a saída de seu segundo ministro, mas a pergunta sequer foi lida aos gestores pela assessoria de imprensa. A estratégia de comunicação do Ministério da Saúde também tem mudado durante as sucessivas trocas de comando da pasta. Em seus releases à imprensa, tem preferido ressaltar números de pessoas que contraíram o novo coronavírus e se curaram, com a publicação de textos no site oficial no qual discorre sobre esses números por vários parágrafos até chegar nos dados mais duros da pandemia: as mortes e contágios em uma curva ascendente.

Na coletiva de imprensa, ao ser questionado se o ministério mudaria a estratégia em relação ao uso da cloroquina, após a suspensão dos ensaios pela OMS, Franco defendeu, novamente, a segurança da droga. “Meu filho teve malária e tomou sem nenhum problema”, afirmou, antes de passar a palavra para Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, que rechaçou o estudo da organização, afirmando que ele não é “metodologicamente aceitável”, e disse seguir estudos nacionais e internacionais ainda em andamento, sem citar quais. “Estamos muito tranquilos e serenos sobre a nossa orientação do uso da cloroquina associada à azitromicina. Claro, respeitando a autonomia da prescrição médica”, diz

“Presidente legitima ações agressivas contra a imprensa”

Deutsche Welle
 Bruno Lupion

Insultos e a ameaças de militantes de extrema direita levam veículos de comunicação a suspender cobertura no Palácio da Alvorada. Para presidente da Abraji, comportamento de Bolsonaro incentiva hostilidade.
    


Nesta terça-feira (26/05), pela primeira vez no governo Jair Bolsonaro, repórteres de diversos veículos de comunicação não se deslocaram de manhã cedo para a porta do Palácio da Alvorada, em Brasília, para fazer perguntas ao presidente sobre temas relevantes ao país, devido à crescente hostilidade dirigidas por militantes de extrema direita aos jornalistas no local.

A decisão de suspender temporariamente a cobertura jornalística na saída da residência oficial do presidente, com o objetivo de proteger a integridade física dos repórteres, foi tomada pelo jornal Folha de S.Paulo, a TV Bandeirantes, os sites Metrópoles e UOL e por veículos do Grupo Globo, entre eles a TV Globo, a Globo News, os jornais O Globo e Valor Econômico e o portal G1.

O presidente da Associação Brasileira de Jornalismo (Abraji), Marcelo Träsel, afirma à DW Brasil que a retirada dos jornalistas da porta do Alvorada é o capítulo mais recente de uma escalada de ataques à imprensa promovido pelo próprio presidente da República e seu grupo político, que estimulam a hostilidade contra os repórteres e oferecem uma sensação de impunidade aos militantes que decidem partir para a violência.

"As palavras do presidente acabam legitimando ações mais agressivas da militância, criam um clima de desconfiança na população sobre os jornalistas, e algumas pessoas mais exaltadas acabam partindo para a violência. (…) E como a maior autoridade da República não condena essas agressões, pelo contrário, segue com o discurso hostil, passa a impressão que não haverá punição contra esse tipo de atitude”, diz.

Träsel, que também é jornalista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, afirma que a hostilidade patrocinada por Bolsonaro contra a imprensa faz parte de uma estratégia política de mobilização de sua base. Além das agressões físicas, ele aponta que o assédio virtual contra os jornalistas tem sido um grande problema enfrentado pelos profissionais. E pondera que a decisão dos veículos de deixar a cobertura da porta do Alvorada é complexa do ponto de vista da ética jornalística.

DW Brasil: Como a Abraji avalia a decisão de grandes veículos de comunicação tirarem seus repórteres da porta do Alvorada?

Marcelo Träsel: A Abraji apoia a decisão dos veículos que tiraram seus repórteres, mas não condena os veículos que optaram por deixar repórteres lá. É um debate complexo do ponto de vista da prática profissional e da ética jornalística.

Temos acompanhado os problemas que acontecem nessas entrevistas, emitimos diversas notas de repúdio por causa do comportamento do presidente nessas ocasiões, em que ele ofende os repórteres e faz críticas à imprensa. Há um clima constante de hostilidade, e mais recentemente falta de segurança, pois os jornalistas e os militantes que apoiam o governo compartilham o mesmo espaço. Tem havido agressões físicas de jornalistas em Brasília, e repórteres que estão na porta do Alvorada dizem que não têm garantias à sua integridade física.

Uma vez garantida a segurança dos jornalistas, a imprensa deveria ir à porta do Alvorada todas as manhãs, apesar dos repetidos ataques verbais do presidente à imprensa?

A Abraji não faz avaliações sobre decisões editoriais, e reconhece que existem bons motivos tanto para ficar quanto para sair de lá. A única recomendação é que a segurança dos jornalistas seja garantida.

Minha impressão particular, como jornalista e professor, é que essas entrevistas não têm oferecido notícias que justifiquem expor os jornalistas a uma humilhação constante. Como pesquisador, analiso essas entrevistas como uma peça na estratégia de propaganda política do presidente e do grupo politico que ele representa.

Muitas vezes a militância edita os vídeos e distribui por redes sociais trechos do Bolsonaro ofendendo repórteres e a mídia, para inflamar a base de apoio. Se a melhor forma de garantir a segurança é se retirar de lá, apoiamos a decisão, embora reconheçamos que se possa perder alguma declaração do presidente. Mas há outras formas de cobrir o governo, e o Bolsonaro sempre se manifesta em outras ocasiões e faz lives.

As intimidações contra repórteres feita por militantes na porta do Alvorada se inserem em uma escalada de violência contra jornalistas, com diversos casos de agressões físicas. O presidente tem alguma responsabilidade por esses episódios?

Sim, o discurso de Bolsonaro nessas entrevistas e em diversas oportunidades é hostil à imprensa, colocando os jornalistas como inimigos do governo federal. As palavras do presidente acabam legitimando ações mais agressivas da militância, criam um clima de desconfiança na população sobre os jornalistas, e algumas pessoas mais exaltadas acabam partindo para a violência.

Se a gente analisar o que essas pessoas dizem durante os vídeos, é praticamente o mesmo que o presidente diz sobre a imprensa. E como a maior autoridade da República não condena essas agressões, pelo contrário, segue com o discurso hostil, passa a impressão que não haverá punição contra esse tipo de atitude.

Além de notas de repúdio, o que mais as associações de jornalistas ou de veículos de imprensa poderiam fazer para fazer frente a esses ataques? 

As associações têm o poder de pressão política. O próprio registro e denúncia internacional desses casos contribui para que haja pressão sobre o governo. Além disso, amanhã vamos lançar um convênio junto com a OAB pelo qual os jornalistas que forem assediados nas redes sociais poderão ter uma primeira orientação com um advogado para saber como proceder — além das agressões físicas, o assédio virtual tem sido um grande problema.

Recentemente a Abraji participou de uma audiência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos na qual foram expostas todas essas infrações à liberdade de imprensa que estamos vivenciando. Também estamos sempre telefonando para prefeitos e secretarias de comunicação pedindo explicações sobre casos de violação, e muita vezes esse contato já ajuda bastante.

O vice-presidente Hamilton Mourão publicou neste mês um artigo no qual afirma que a imprensa precisa "rever seus procedimentos” e defende que opiniões contrárias e favoráveis ao governo deveriam ter o mesmo espaço. No mês passado, o ministro general Ramos pediu que imprensa desse notícias positivas em meio à pandemia. O governo tem uma boa compreensão de qual é o papel da imprensa livre?

Essas declarações deixam bastante claro que não tem. Muitas vezes as pessoas interpretam o noticiário sobre ações do governo com problemas ou casos de corrupção como uma campanha contra um determinado governo, mas isso parte de uma confusão entre estado e governo. O papel da imprensa é fiscalizar as atividades do estado, que é um patrimônio publico de todos nós. Portanto, deve fiscalizar como os governos e os servidores públicos estão se comportando em relação ao estado.

A imprensa acaba sempre tendo uma relação tensa com os governos. Mas desde a redemocratização, com mais um menos vontade, sempre houve uma relação cordial entre autoridades e imprensa. No atual governo, essa regra se quebrou. Isso se deve, por um lado, a essa falta de compreensão, mas também tem muito de uma estratégia política, de criar um conflito entre o governo federal e a imprensa, que parte do governo, porque a imprensa só está fazendo seu papel.

Como o sr. avalia a situação da liberdade de imprensa no Brasil no momento?

A liberdade de imprensa nunca esteve sob tanto risco no Brasil desde a redemocratização. Mas isso não quer dizer que estejamos numa situação tão ruim como a Nicarágua, a Venezuela ou a Hungria. Porém há vários sinais preocupantes.

Além das agressões físicas e dessa estratégia de se criar um conflito unilateral por parte do presidente, me pareceram muito graves as tentativas de pressão econômica. Houve a tentativa de excluir a Folha de S.Paulo de uma licitação para assinaturas de jornais.

Também tentaram mudar a regra que obriga a divulgação em jornais de relatórios financeiros de empresas listas em bolsa, bem quando o jornal Valor Econômico publicou uma reportagem crítica ao presidente, e o próprio presidente fez a relação entre sua decisão e a reportagem. E o presidente tem feito pedidos a empresários para que deixem de anunciar em alguns veículos.

Tudo isso é preocupante. Sem mencionar que temos muitos casos de assassinatos de jornalistas e comunicadores no interior, relacionados a disputas políticas em nível municipal, que ficam impunes.

O Estado paralelo de Bolsonaro

Editorial
O Estado de S.Paulo

Solução encontrada por Bolsonaro para desafiar limites a seu poder foi começar a criar um Estado paralelo, em que as normas não são as inscritas na Constituição

 “É melhor já ir se acostumando”, dizia um dos slogans da campanha de Jair Bolsonaro à Presidência, em 2018, num infame jogo de palavras com o nome do candidato para advertir o País sobre o que estava por vir. E, de fato, parece que uma parte considerável dos brasileiros já se acostumou à chocante degradação moral liderada pelo presidente Jair Bolsonaro e escolheu ignorar ou relativizar as robustas provas de que ele não tem - como jamais teve - a menor condição de exercer a Presidência.

Em qualquer país civilizado, o teor da reunião do presidente com seus ministros no dia 22 de abril, tornado público por determinação judicial, teria escandalizado todos, não só pelos múltiplos delitos ali cometidos e revelados, mas por explicitar a transformação da Presidência da República em propriedade privada de Bolsonaro, da qual, como um monarca absoluto, imagina poder dispor como bem entender. Aqui e ali, no entanto, houve gente disposta a dizer que nada de mais se passou na reunião - nem crimes nem desafio às instituições, só alguns exageros verbais do presidente e de seus ministros mais entusiasmados, pouco comuns até em reunião de condomínio.

A história está repleta de exemplos de sociedades que, em nome do saneamento da política, permitiram que gângsteres chegassem ao poder e, uma vez lá, por meio da propaganda e da intimidação, transformassem seus crimes em atos virtuosos, naturalizando sua imoralidade. Como consequência, todos os que tentassem impedi-los, fossem instituições ou partidos, eram, estes sim, considerados criminosos.

Pois é exatamente o que se passa neste momento no Brasil. Conforme se vê na reunião ministerial de 22 de abril, ministros defenderam a prisão de magistrados que, em obediência à Constituição, tomaram decisões contra o governo e de prefeitos e governadores que, seguindo recomendações de autoridades de saúde, impuseram quarentena contra a pandemia de covid-19. Ou seja, delinquentes, no país dos bolsonaristas, são os que respeitam a lei e o bom senso. Tudo sob o olhar complacente do presidente da República - que por sua vez, em lugar de estimular o urgente debate sobre as medidas para conter a pandemia, que deveria ser sua única preocupação no momento, passou a destratar e ameaçar os ministros que não demonstrassem lealdade absoluta a ele e aos filhos, em constante detrimento da lei.

A solução encontrada por Bolsonaro para desafiar os limites a seu poder, bem ao estilo dos governos totalitários em que se inspira, foi começar a criar uma espécie de Estado paralelo, em que as normas que valem não são as inscritas na Constituição, mas as que vagam na sua cabeça. Conforme ele mesmo revelou na reunião ministerial, depois de se queixar de que os órgãos oficiais não lhe passam “informações”, Bolsonaro disse que dispõe de um “sistema de informações” particular: “Sistema de informações, o meu funciona. O meu particular funciona. Os que têm (informações) oficialmente desinformam”.

Para Bolsonaro e seus camisas pardas, o Estado brasileiro, com suas instituições e sua Constituição, só existe para frustrar suas intenções revolucionárias - razão pela qual, conforme a ideologia bolsonariana explicitada pelo presidente na reunião, esse Estado que lhe tolhe os movimentos é, na prática, uma “ditadura” contra o “povo” que ele diz encarnar. A tal “ditadura” se revela, segundo Bolsonaro, por meio de governadores que impõem quarentena, por meio de ministros do Supremo que o impedem de nomear um amigo para chefiar a Polícia Federal, por meio das instituições judiciais que investigam seus filhos e por meio dos órgãos que não lhe dão informações às quais o presidente legalmente não pode ter acesso.

Para lutar contra essa “ditadura” imaginária, Bolsonaro exige que o “povo” - isto é, a malta bolsonarista - se arme, conforme deixou claro na tal reunião. Em outras palavras, quer a formação de milícias armadas justamente para intimidar as autoridades do Estado que o bolsonarismo deseja destruir.

Foi assim que, num passado não muito distante, na Itália do pré-guerra ou na Venezuela contemporânea, líderes fascistas, aliados a uma elite pusilânime ou simplesmente arrivista, começaram a demolir, tijolo por tijolo, o Estado Democrático de Direito. Mais do que nunca, é prudente levar a História a sério.

Bolsonaro tem de explicar o projeto armamentista

Editorial
O Globo

Afirmações gravadas no vídeo da reunião ministerial requerem esclarecimentos do presidente

Do execrável conjunto da obra exposta pelo vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, liberado pelo ministro do STF Celso de Mello, há muitas cenas que falam por si, e outras que merecem mais atenção e alertas pelas graves implicações para a estabilidade e a paz no país. Bolsonaro sempre defendeu a liberalização de armas e colocou o tema em destaque na sua campanha. Não engana ninguém, portanto, quando trabalha para cumprir sua promessa.

Se seguisse os devidos trâmites para despejar mais armas e munições nas ruas e residências, os embates em torno de sua plataforma armamentista ocorreriam normalmente no Legislativo, e os conflitos seriam mediados na Justiça. Mas Bolsonaro não deixa mais dúvidas de que deseja desmantelar os freios e contrapesos necessários para conter excessos de cada um dos Poderes, sendo que o Executivo brasileiro já é muito forte. Com um presidente ideologicamente espaçoso, vive-se em tensão, no limite de crises institucionais.

Na questão das armas, o Congresso já teve de conter Bolsonaro por baixar decretos presidenciais que ilegalmente alteravam o Estatuto do Desarmamento — uma lei aprovada pelo Congresso —, ato digno de ditaduras. Foi forçado, então, a enviar projetos ao Congresso. Incontido, porém, o presidente determinou ao Exército que revogasse portarias que obrigavam a adoção de normas para facilitar o rastreamento de armas e munições, a fim de permitir sua identificação: origem, proprietário etc. Sem isso, a elucidação de crimes cometidos com armas de fogo ficará muito mais difícil ou impossível.

No vídeo ele aparece gritando o jargão: “povo armado jamais será escravizado!”. Mas não revelou quem são os agentes da escravidão que tirariam a liberdade dos brasileiros, ameaça também vista pelo “militante” Abraham Weintraub, ministro da Educação. Bolsonaro, no entanto, fez uma referência nada sutil à possibilidade de reações armadas contra decisões de prefeitos e governadores com as quais não se concorde. 

Significa, então, que o presidente imagina que seria cabível romper as medidas de isolamento social, às quais se opõe, com arma na mão. Ele próprio se viu indo à rua com dedo no gatilho para lutar contra a intenção “de um bosta de um prefeito” que por decreto obrigue que as pessoas fiquem em casa. Bolsonaro defenderia insurreições armadas quando os tais freios e contrapesos barrassem a sua vontade e a do seu grupo dentro dos espaços da Constituição. Isso se chama golpe.

Pode ser que o Planalto alegue que o presidente estava em um momento particularmente agitado, e não poderia imaginar que aqueles arroubos, não apenas dele, seriam divulgados.

Ainda assim é inaceitável que a plataforma armamentista do governo possa esconder projetos aventureiros, irresponsáveis, de tentativas de desestabilização da ordem constituída, que jogaria o Brasil de volta ao passado distante, em prejuízo de várias gerações.



Por falta de segurança, Globo, Folha e Band suspendem cobertura no Alvorada

Da Redação
Revista ISTOÉ


O Grupo Globo, o jornal Folha de S.Paulo, a Band e outras empresas de comunicação do país decidiram não enviar mais jornalistas para cobrir o Palácio da Alvorada por conta da falta de segurança no local. Os profissionais apontam que os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) têm feito insultos cada vez mais agressivos.

Jornalistas e apoiadores são separados por uma grade baixa e uma fita de isolamento. No entanto, os profissionais de imprensa têm relatado que o grupo bolsonarista não respeita o espaço e os seguranças da Alvorada não tomam nenhuma medida para conter os manifestantes.

Segundo o Grupo Globo, o vice-presidente de Relações Institucionais da empresa, Paulo Tonet Camargo, enviou uma carta ao ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, informando a decisão do grupo de não cobrir mais os pronunciamentos de Bolsonaro no Alvorada.

“Os jornalistas do Grupo Globo encontrarão maneiras seguras de apurar e relatar o que se passa ali, sem prejuízo do público”, diz a nota do Grupo Globo.

A Folha também entrou em contato com o ministro Augusto Heleno. De acordo com o jornal, a empresa questionou o GSI sobre as agressões verbais sofrida pelos jornalistas na segunda-feira (25), mas até o momento da publicação da reportagem não obteve retorno.Pl

 “O jornal pretende retomar a cobertura no local somente depois das garantias de segurança aos profissionais por parte do Palácio do Planalto”, diz a Folha.

Segundo o colunista Mauricio Stycer, do Uol, a Band informou que “também está retirando seus profissionais da cobertura da porta do Palácio da Alvorada a partir de amanhã (terça-feira).”

Também por conta da falta de segurança, o site Metrópoles, de Brasília, anunciou a suspensão da cobertura. “A suspensão perdurará enquanto o clima de hostilidade continuar e não houver condições para que os profissionais de imprensa possam trabalhar em segurança”, informou.

Procuradas pelo Uol, o SBT informou que ainda não tem uma posição a respeito. A Record disse que seguirá cobrindo. A CNN Brasil não respondeu.

Em nota, a ABI (Associação Brasileira de Imprensa) elogiou a decisão das empresas que suspenderam a cobertura no Alvorada. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal e a Federação Nacional dos Jornalistas cobraram ações de proteção aos profissionais por parte do GSI e da Secom.


****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Não é de hoje que Bolsonaro e seus filhos insuflam seus milicianos travestidos de “apoiadores” contra os jornalistas em geral. Insultos, agressões verbais tudo tem servido para ataques absurdos a profissionais que nada mais fazem do que realizar seu trabalho de forma honesta e decente, o que não é aceito pelos vagabundos que outra coisa não fazem senão lamberem o saco do presidente. São verdadeiros prostitutos da político, que alimentam ódio e ignorância. E repito: todos estes ataques são comandados pelos filhos do presidente que não perde oportunidade de insultar a imprensa, por esta não se ajoelhar e render tributo `sua majestade que posa de caudilho dos mais ordinários.

A exemplo do que fez o Estadão, ao tempo da ditadura militar, nos espaços reservados à matérias sobre o presidente e os acontecimentos sobre fatos do Planalto, publique-se receitas culinárias ou até mesmo tarja preta com títulos que informem a violência praticada pelo presidente e seus asseclas.  A que ponto chegamos, meu Deus!!!!


Bolsonaro insistiu em reduzir controle de armas quatro vezes na pandemia para “armar população”. Educação que é bom, NADA!

Felipe Betim
El Pais

Levantamento mostra que o presidente tentou ao menos seis vezes flexibilizar o acesso às armas desde que iniciou seu Governo. Da Itália de Mussolini a Venezuela de Chávez, governos fomentaram armamentismo

  AMANDA PEROBELLI / REUTERS 
Apoiador de Bolsonaro participa de protesto contra a 
quarentena e governador João Doria, em São Paulo.

Corre nas redes sociais a capa do jornal Correio da Manhã de 12 de agosto de 1937. Nela é possível ler a seguinte manchete: “Mussolini diz que só um povo armado é forte e livre”. Na ocasião, o líder fascista italiano discursara para 100.000 pessoas na Sicília. A frase soa familiar?

A mesma ideia apareceu na fala do presidente Jair Bolsonaro durante a fatídica reunião ministerial de 22 de abril. “O que esses filha de uma égua quer, ô Weintraub, é a nossa liberdade. (...) O povo tá dentro de casa. Por isso que eu quero (...) que o povo se arme!", afirmou. No dia seguinte, o então ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro, e o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, assinaram uma portaria interministerial que aumentou em 12 vezes o número de munições —de 50 para 600 por ano— que pode ser comprado por cada cidadão por arma. “Um bosta de um prefeito faz um bosta de um decreto, algema, e deixa todo mundo dentro de casa. Se tivesse armado, ia pra rua. (...) Assine essa portaria hoje que eu quero dar um puta de um recado pra esses bosta! Por que que eu tô armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura!", continuou o presidente na reunião.

De acordo com a ONG Instituto Sou da Paz, foi a quarta medida assinada por Bolsonaro naquela semana enfraquecendo o controle do armamento no país. Antes disso, ele havia revogado outras três portarias do Exército que “traziam importantes avanços para marcação, controle e rastreamento de armas e munições”, segundo a organização.

Mas o presidente fez outras investidas contra o desarmamento ao longo de um ano em meio no cargo. Nos primeiros dias de seu governo, assinou um decreto que flexibilizava a posse de armas em casa. Depois, em maio de 2019, o presidente assinou outro decreto autorizando o porte de armas para mais categorias profissionais —a medida acabou derrubada no Congresso. Somando todas essas iniciativas, o Sou da Paz calcula que Bolsonaro já tomou seis medidas para fazer valer sua vontade de armar a população.

No Brasil vigora desde 2003 o Estatuto do Desarmamento, alvo de Bolsonaro e da bancada da bala por ter colocado regras mais duras para a aquisição de armas. Atualmente, um cidadão comum está autorizado a ter uma arma dentro de casa a partir de vários critérios, mas está proibido circular com ela nas ruas. Antes de entrar em vigor, era possível adquirir pistolas e revólveres sem muita burocracia em lojas esportivas ou grandes magazines, como funciona nos Estados Unidos.

Retórica fascista

O historiador Federico Finchelstein, especialista em fascismo e populismo, explica que a retórica armamentista de Bolsonaro vista durante a reunião de 22 de abril é inspirada nos regimes totalitários e fascistas de Benito Mussolini na Itália e de Adolf Hitler na Alemanha. Mas o presidente também ecoa o discurso de venezuelano Hugo Chávez, que chegou a defender que um milhão de pessoas se armassem para impedir uma suposta invasão norte-americana; e também do lobby pró-arma nos Estados Unidos, onde ter direito a portar armas e ter liberdade são sinônimos —alguns grupos inclusive argumentam de forma demagógica que os judeus poderiam ter evitado o Holocausto se eles pudessem ter adquirido armas.

“Por um lado, Bolsonaro promove a política fascista da doença, segundo a qual os mais vulneráveis, no geral os pobres e mais velhos, devem morrer”, explica o historiador, em referência ao fato de que o mandatário permanece alheio às mais de 20.000 mortes por coronavírus no Brasil. O professor da New School for Social Research vem dizendo desde as eleições de 2018 que o atual presidente é uma das lideranças populistas que mais se aproxima do fascismo. “Por outro lado, a violência é central para o fascismo. É preciso relacionar essa promoção da violência política feita por Bolsonaro com a destruição por dentro da democracia promovida pelos regimes fascistas", acrescenta. “Eles criavam a fantasia de que as ruas eram violentas e, com isso, impulsionavam a formação de milícias fascistas. Quer dizer, era uma profecia autorrealizável, porque quem promovia o caos e a morte eram os agentes fascistas da desordem”.

A criação das milícias fascistas ocorreu tanto na Itália de Mussolini como na Alemanha de Hitler. “A SA e a SS eram civis armados dentro do partido nazista que depois foram incorporados ao Estado”, explica o historiador. Ele afirma ser normal a formação de grupos paramilitares em ditaduras, mas ressalta que outro elemento que aproxima Bolsonaro do fascismo é “a defesa da violência como um fim em si mesmo”.

Ainda que acredite que Bolsonaro também tenha semelhanças com Chávez, o historiador explica que na Venezuela a violência foi promovida como “um meio”. Lá, o regime chavista promoveu a formação dos colectivos, grupos paramilitares que atuam nas comunidades. Já no Brasil, a família Bolsonaro é investigada por seu elo com milicianos do Rio de Janeiro, entre eles o chefe do chamado Escritório do Crime, o ex-policial Adriano da Nóbrega, morto na Bahia neste ano.

“A ideia de que as pessoas precisam se armar para se defender é falsa, sabemos que Bolsonaro quer destruir a democracia por dentro. Quem tem o monopólio da violência numa democracia é o Estado, então por que um governante iria querer debilitar esse monopólio?”, questiona Finchelstein. “Ele quer um Estado forte e violento, mas também que seus seguidores promovam essa violência. Quer que as pessoas se armem contra a autonomia do poder judicial, contra o Congresso, contra a imprensa, contra governadores e prefeitos”, finaliza.