quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Coisas nossas...

Comentando a Notícia

O tráfico de influência que ex-políticos praticam no seio do Estado, em favor de seus amigos, portanto, de interesse exclusivamente pessoal, é uma prática histórica e difícil de combater.  Basta ocupar, durante um breve ou longo tempo, qualquer cargo público, para, de volta à iniciativa privada,  as relações serem usadas numa traficância imoral, ilegal e, regra geral, impune.

Mas há alguns que, ao menos, deveriam manter distancia, por mais que seus amigos mais próximos insistam no pedido de “você pode dar um jeitinho”. Este é o caso de ex-presidentes da república, desembargadores, ministros ligados à área econômica.

O relato que se seguirá foi postado na página do Cláudio Humberto e revela o cancro que corrói a moralidade pública. Ao afastar-se da presidência da república, Lula prometeu desencarnar, mesmo que afirmasse que continuará praticando política. Até aí tudo bem. Contudo, o ex-presidente continua comportando-se como se o Estado, que ele governou, fosse uma propriedade sua. 

Os arquivos dos jornais estão lotados de notícias sobre a ação influente de Lula no poder. Ele continua misturando o público com o privado e, dada esta enorme influência que ele exerce sobre a máquina pública, continuará dando mostras de como não deveria comportar-se um ex-presidente. Parece que no dicionário do ex-presidente moralidade, decência, decoro são virtudes que não se encontram.  Infelizmente. Seu exemplo ainda vai alimentar, por muito tempo, o comportamento dos demais políticos brasileiros que continuarão na buscando na vida pública, atender interesses exclusivamente pessoais, do foro íntimo. Assim, fica difícil a sexta maior economia do mundo transformar-se em um país minimamente moralizado e civilizado. 

Fica uma questão em aberto: alguém do Ministério Público poderia se interessar pelo caso? O que não faltam são ilegalidades para serem apuradas. Segue o relato.

Amigo estrangeiro de Lula é naturalizado a jato
O espanhol José Lopez Feijoo, amigo de Lula, furou a fila e obteve nacionalidade brasileira no prazo recorde de duas semanas, passando à frente de processos tramitando até há seis anos. Antes, foi nomeado ilegalmente assessor especial da Secretaria Geral da Presidência, em ato de Antonio Palocci (Casa Civil). O artigo 5º da Constituição proíbe estrangeiros em cargos públicos. Comprovantes em poder da coluna.

Lula queria Feijoo, ex-CUT, na diretoria do BNDES e depois o colocou na lista de “ministeriáveis” do Trabalho, para substituir Carlos Lupi.

José Lopez virou “José Lopes Feijoo” ao ser nomeado em 2 de maio de 2011. Somente dez dias depois pediria a sua naturalização. Com “z”.

A naturalização de Feijoo percorreu a jato sete instâncias, da Polícia Federal em São Paulo ao gabinete do ministro da Justiça, em Brasília.

A Secretaria-Geral diz que a nomeação de Feijoo foi “cancelada” e refeita após a naturalização, mas não mostrou atos que o comprovem.

As “diárias” - Além de ter sido naturalizado a jato, como revelou esta coluna, José Lopez Feijoo, espanhol amigo pessoal de Lula, ex-CUT, recebeu R$ 7 mil em diárias no Conselho da Secretaria de Desenvolvimento Social da Presidência da República, entre 2009 e 2011 – ano em que deixou de ser imigrante da Galícia. Pela Constituição, ele não poderia ocupar cargo público, por ser estrangeiro, nem tampouco embolsar diárias.

A Secretaria-Geral diz que só depois da naturalização vapt-vupt José Feijoo tomou posse no cargo... para o qual fora nomeado ilegalmente.

O Portal da Transparência mostra que Feijoo embolsou R$ 5,6 mil em diárias de viagens entre SP-Brasília e Brasília-Rondônia, em 2010.

Para os amigos...
...os favores da Lei: o Ministério da Justiça diz que a naturalização a jato de Feijoo “está prevista na jurisprudência e na doutrina”. Ah, bom.

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A privatização de aeroportos e o exemplo de como não se faz 
O Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou nesta quarta-feira, os editais de licitação dos aeroportos de Campinas, Guarulhos e Brasília, que serão privatizados neste ano. Esta era a última etapa antes do leilão dos terminais, que está marcado para a próxima segunda-feira, na Bolsa de Valores de São Paulo. 

Mas a aprovação foi feita com ressalvas. Reparem: o relator do processo, ministro Aroldo Cedraz, recomendou que o TCU acompanhe de perto o processo de outorga dos aeroportos. Sabem por quê? Porque os editais elaborados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) não detalham quais serão os critérios que deverão ser seguidos pelas concessionárias para prestar serviços de qualidade aos usuários dos aeroportos.

Dá prá acreditar? Ou seja, com todo o tempo disponível do mundo, contando com gigantesca estrutura para elaborar uma peça de interesse público com um mínimo de competência, o governo consegue produzir um documento sem detalhar o indispensável ao processo. Semana passada lembramos aqui a questão das rodovias que, dentre tanta incompetência, uma está na elaboração de projetos. 

O ministro do TCU criticou a falta de planejamento do poder Executivo no processo de concessão dos terminais para a iniciativa privada. Cedraz alertou que, pela rapidez com que os editais foram feitos - com vistas a aumentar a capacidade brasileira de atender os turistas para a Copa do Mundo de 2014 e Olimpíada de 2016, é preciso melhorar a qualidade dos documentos para as próximas privatizações.

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Sobre o CNJ sobram declarações inconsequentes
No discurso de abertura da sessão de retomada dos trabalhos do STF após o recesso, o presidente da casa, Ministro Cezar Peluso, deu um discurso forte e bombástico, mas não escapou de avançar o sinal. Disse ele: “Só uma nação suicida degrada o Judiciário”. Isto revela a reação emocional do ministro quanto ao bombardeio que o Judiciário tem sofrido nos últimos dias. De um lado, a tentativa de cerceamento do poder de investigação do CNJ e, de outro, os milionários privilégios autoconcedidos por alguns juízes, além de desaparecimentos de verbas e equipamentos.

No fundo, o ministro Peluso precisa entender que a sociedade brasileira está sem a menor dose de tolerância, seja para a autoconcessão de privilégios que, se podem ser legais de um lado, por outro, não passam de regalias imorais injustificáveis, seja para a impunidade cancerosa do poder público, já tão apodrecido pela corrupção permanente.  Portanto, muito embora se compreenda a reação do presidente do STF, é preciso separar a emoção da realidade que, neste caso, destoa uma da outra.  Ninguém, em sã consciência, a não ser os bandidos do país, graduados ou não, deseja ver um Judiciário degradado. Pelo contrário. O país todo precisa é de um Judiciário à altura da missão constitucional que lhe é conferida. Há muita injustiça para ser corrigida. Só que, seja um representante do Judiciário, ou até mesmo o próprio presidente da república, ninguém está acima da lei.  Bandidos existem em todas as atividades profissionais, e o fato de vestir toga não inocenta ninguém por crimes praticados, quanto mais aqueles cometidos em função do próprio cargo que ocupa. 

Porém, e também para que tenhamos o Judiciário ideal imaginado e desejado por todos, o país também precisa que o poder fiscalizador do CNJ não seja maculado em nome do corporativismo de alguns magistrados que se sentem ou se sintam ameaçados em ter revelada sua má conduta. O inadmissível para a sociedade brasileira é que a impunidade, já tão presente nos poderes executivo e legislativo, acabe se espalhando e contaminando também o Judiciário,  que é o fiel guardião do estado de direito. Portanto, o berro não é prova de inocência de quem quer que seja. 

Também o presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), Nelson Calandra, andou falando demais, ao afirmar: "Há uma tentativa do CNJ de impor sua competência". Ocorre que o CNJ não precisa impor aquilo que a lei já lhe assegura. Por que somente a partir do momento em que alguns fatos sobre a ação criminosa de alguns juízes e desembargadores vieram a público, a AMB resolveu protestar contra os poderes e a ação do CNJ? Por que a tentativa de cercear que juízes e desembargadores, com evidência claras de comportamento suspeito, sejam investigados, ou será que por serem quem são são, no entender da AMB, eles acima do bem e do mal? Acaso o país já não tem casos de juízes julgados e condenados? Estará 100% da classe isenta de qualquer mácula? Que cada um cumpra com sua obrigação funcional e, que aqueles que porventura se desviem, sejam investigados e, se considerados culpados, sejam exemplarmente punidos. Não pode é o Judiciário conviver com a suspeição pesando sobre a cabeça de seus membros. Isto, sim, seria a degradação total não só do Judiciário, mas de todo o sistema republicano. Afinal, quem não deve, não teme...

Em resposta às declarações infelizes do presidente da AMB, Ophir Cavalcanti, presidente da OAB, disse o seguinte: "A Constituição que eu leio é, certamente, diferente da que a AMB lê. A transparência dos números só foi possível graças ao CNJ”.

Perfeito!!!

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Esqueçam tudo o que eu disse...
Vejam que interessante. A presidente Dilma visita a ilha carregando na mala uma ajuda bilionária, dinheiro que por aqui tem feito falta e que Cuba jamais pagará. Podem considerar doação petista com dinheiro do povo brasileiro. (Os petistas adoram cumprimentar com o chapéu alheio).

Tudo bem, já falamos sobre isto. No discurso aos jornalistas, Dona Dilma teve o destempero de desrespeitar a democracia brasileira para igualá-la à tirania dos irmãos Castro. 

Ok, na hora de visitar o tal porto bancado com o nosso dinheiro, os jornalistas brasileiros que acompanharam a presidente, simplesmente,  tiveram acesso negado ao canteiro de obras. E tem gente que acha o regime cubano um exemplo que o Brasil deveria copiar e seguir... 

Durante muito tempo criou-se  uma espécie de folclore em torno de uma frase atribuída ao ex-presidente Fernando Henrique:”Esqueçam tudo o eu escrevi”.

Parece que Dilma quer criar um folclore próprio em torno de si. “Esqueçam tudo o que eu disse sobre direitos humanos e liberdade de imprensa antes de visitar Cuba”.

Em tempo: ao contrário da visita à Argentina, em 2011, quando se reuniu com as Avós da Praça de Maio, em Cuba a presidente Dilma não recebeu as Damas de Blanco. 

É, tem gosto prá tudo, até para ditaduras...

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Onde está a crise
Temer diz que saída de ministros não significa que o governo está em crise. 

Temer tem razão. A crise é o próprio governo...

Corrupção e incompetência

O Estado de S.Paulo

O tempo está sendo implacável com a imagem que arduamente a presidente Dilma Rousseff tenta construir para si - como fez durante a campanha eleitoral de 2010, com a inestimável colaboração de seu patrono político, o ex-presidente Lula -, de administradora capaz, tecnicamente competente e defensora da lisura e da moralidade dos atos públicos. É cada vez mais claro que tudo não passa da construção de uma personagem de feitio exclusivamente eleitoral.

As trocas de ministros no primeiro ano de mandato por suspeitas de irregularidades são a face mais visível dos malefícios de um governo baseado não na competência de seus integrantes - como seria de esperar da equipe de uma gestora eficiente dos recursos públicos -, mas em acordos de conveniência político-partidárias que levaram ao loteamento dos principais postos da administração federal. O resultado não poderia ser diferente do que revelam os fatos que vão chegando ao conhecimento do público.

A amostra mais recente dos prejuízos que essa forma de montar equipes e administrar a coisa pública pode causar ao erário é o contrato assinado em 2010 pelo Ministério do Esporte com a Fundação Instituto de Administração (FIA) para a criação de uma estatal natimorta. O caso, relatado pelos repórteres do Estado Fábio Fabrini e Iuri Dantas (30/1), espanta pelo valor gasto para que rigorosamente nada fosse feito de prático e porque o contrato não tinha nenhuma utilidade.

A FIA foi contratada para ajudar na constituição da Empresa Brasileira de Legado Esportivo Brasil 2016, legalmente constituída em agosto de 2010 para executar projetos ligados à Olimpíada de 2016. De acordo com o contrato, a FIA deveria "apoiar a modelagem de gestão da fase inicial de atividade da estatal". A empresa não chegou a ser constituída formalmente - não foi inscrita no CNPJ nem teve sede, diretoria ou empregados -, pois, em agosto do ano passado, foi incluída no Programa Nacional de Desestatização, para ser liquidada. E por que, apenas um ano depois de a constituir, o governo decidiu extingui-la? Porque ela não tinha nenhuma função. Mesmo assim, a fundação contratada recebeu quase R$ 5 milhões - uma parte, aliás, paga depois de o governo ter decidido extinguir a empresa, cuja criação fora objeto do contrato com a FIA.

Em sua defesa, o Ministério do Esporte afirma que a contratação se baseou na legislação. É risível, no entanto, a alegação de que "os estudos subsidiaram decisões, sugeriram alternativas para contribuir com os debates que ocorreram nos governos federal, estadual e municipal e deram apoio aos gestores dos três entes para a tomada de decisões mais adequadas".

Mas tem mais. Pela leitura da mesma edição do Estado em que saiu a história acima, o público fica sabendo que, de 10 contratos na área de habitação popular firmados pela União com Estados e municípios, 7 não saíram do papel. Pode-se alegar, como fez a responsável pela área de habitação do Ministério das Cidades, que alguns Estados e prefeituras não estavam tecnicamente capacitados para executar as obras ou realizar as licitações previstas nos contratos de repasse de verbas federais. Isso significa que o governo federal se comprometeu, por contrato, a transferir recursos a quem não estava em condições de utilizá-los adequadamente, o que mostra no mínimo falta de critério.

Além disso, o programa que assegurou boa parte dos votos da candidata do PT em 2010, o Minha Casa, Minha Vida, sobre o qual Dilma falou maravilhas, na Bahia, antes de partir para Cuba, praticamente não saiu do papel no ano passado, e continuará parado em 2012, se não for mudado em alguns aspectos essenciais, alertam empresários do setor de construção civil.

E muitos outros programas considerados prioritários pelo governo Dilma se arrastam. Os investimentos efetivos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), outra grande fonte de votos para Dilma em 2010, são bem inferiores aos programados, e boa parte se refere a contratos assinados em exercícios passados.

O problema não é novo. A má qualidade da gestão é marca da administração do PT. E Dilma tem tudo a ver com isso, pois desempenha papel central nessa administração desde 2003.

É o sistema

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

Todos contra o capitalismo. E daí?

Ricos envergonhados são assim: quanto mais dinheiro ganham, mais adotam posições políticas contra o capitalismo em geral e o sistema financeiro em particular. O patrono da categoria é George Soros, que, aliás, continua lucrando com seus fundos especulativos, mas há representantes espalhados por toda parte. O número cresceu exponencialmente depois da erupção da crise global. 

É como se fosse uma defesa antecipada. Reparem: a era de prosperidade do final do século passado e início deste trouxe um aumento da desigualdade. Centenas de milhões de pessoas deixaram a pobreza, formaram-se novas classes médias nos países emergentes, mas os ricos se deram melhor no mundo todo. Ganharam mais, aumentaram sua participação no bolo na fase de expansão e, se perderam muito no auge da crise, conseguiram melhor recuperação. 

Logo, se os ricos foram os principais beneficiários disso tudo, então necessariamente são os culpados ou pelo menos os principais suspeitos, certo? Errado, respondem seus representantes. O problema está no sistema capitalista, explicam, apresentando-se como apenas uma peça da engrenagem. Vai daí, engrossam o coro anti-capitalista e clamam por reformas. 

Exagero? Pois então leiam sobre os debates no Fórum Econômico Mundial, em Davos, o tradicional encontro de líderes globais, públicos e privados, para ajustar os rumos da economia de mercado. O modelo faliu, procuram-se alternativas – foi o mote principal. 

Terminou sem respostas. Ocorre que a alternativa ao capitalismo, o socialismo, morreu antes. A rigor, há apenas um regime socialista sobrevivente, o de Cuba, estagnado, pobres, com imensa dificuldade de crescimento. Por isso, está em reformas, mas em qual direção mesmo? Pois é, redução do Estado, incluindo demissão de funcionários públicos, e ampliação de áreas abertas à iniciativa privada estrangeira. A brasileira Odebrecht, por exemplo, vai produzir açúcar e etanol na ilha, com a benção da presidente Dilma. 

A presidente não foi a Davos. Foi a Porto Alegre, para o Fórum Social, a versão socialista, e lá lançou mais um ataque ao neoliberalismo, que não é bem um sinônimo de capitalismo, mas é quase. 

De onde o leitor pode imaginar o tamanho da confusão. As reformas em Cuba são, nesse sentido, neoliberais. Menos Estado, mais mercado. Além disso, vamos dar uma olhada no noticiário local recente. 

Está em curso o leilão de privatização de três grandes aeroportos brasileiros. Ok, o governo, e seus aliados de esquerda juram que não se trata de privatização, mas de concessão, porque nada será vendido. (Os demais aliados não dizem nada e muitos deles esperam obter alguma vantagem nesses grandes negócios). 

Mas o mundo todo chama de privatização quando o governo pega um bem público e o concede, mediante pagamento, a empresas privadas por 30 anos, prorrogáveis. De novo, portanto, o que temos? Menos Estado, mais mercado. Aliás, membros do governo disseram isso mesmo sobre o leilão: teremos mais capital, nacional e estrangeiro, mais competição, mais tecnologia de fora. E menos Infraero, espera-se. 

Também nesta semana, a área econômica do governo Dilma comemorou o superávit primário de 2011 e a redução do endividamento público como porcentagem do PIB. Alardearam: viram como este governo faz ajuste fiscal? 

Ora, superávit primário, redução da dívida, ajustes, tudo isso é herança neoliberal. Mas a presidente Dilma disse em Porto Alegre que toda a América Latina, anti-neoliberal, vai muito bem, ao passo que os desenvolvidos, neoliberais, vão mal. E que a Europa vai cair no desemprego e na ditadura se insistir no ajuste “conservador” de redução das dívidas públicas. 

Mas quais países europeus passam melhor por esse turbilhão? Alemanha e Holanda, por exemplo, justamente aqueles que cumpriram mais à risca a cartilha de ajuste conservador. Também foram os europeus que mais avançaram em reformas com o objetivo de destravar suas economias e abrir o mercado. Na Alemanha, houve até uma redução real de salários para tornar os produtos locais mais competitivos. 

E a América Latina? Os países que vão bem são justamente aqueles que avançaram as reformas neoliberais dos anos 90. Podem reparar, todos têm as mesmas bases econômicas: responsabilidade fiscal, superávit primário, regime de metas de inflação, câmbio mais ou menos flutuante, privatizações, muita exportação para a China, acúmulo de reservas e, sim, programas tipo Bolsa Família. (Aliás, transferir dinheiro diretamente para os mais pobres foi uma idéia nascida no campo liberal). 

Finalmente, qual o país rico que está saindo mais depressa da crise? Os Estados Unidos, onde, aliás, há o maior número de ricos envergonhados. Ah! O sistema! 

Dito pelo não dito

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

Saudada aos primeiros acordes por ser discreta e não falar demais, a presidente Dilma Rousseff tem se notabilizado por falar de menos. Sobre assuntos importantes, notadamente se relativos à política e às relações com o Congresso, quem fala é a assessoria, ministros sob condição do anonimato e todo conjunto de vozes que compõem a entidade "Palácio do Planalto".

Dilma Rousseff mesmo, raramente diz o que pensa. Para ela, resta a vantagem de poder mudar de posição no meio do caminho atribuindo a outrem a divulgação de intenções que nunca teriam sido suas. A reforma ministerial é o exemplo presente, embora haja outros.

Não é o caso, entretanto, do tema Direitos Humanos. Sobre ele, Dilma sempre foi peremptória. Como na entrevista que deu ao jornal americano Washington Post logo depois de eleita: "Por ter experimentado a condição de presa política, tenho um compromisso histórico com todos aqueles que foram ou são prisioneiros somente por expressarem suas visões, suas opiniões".

E para que não se dissesse que a posição seria seletiva, já presidente, disse ao Valor Econômico: "Um País democrático ocidental como o nosso tem que ser um País com perfeita consciência da questão dos Direitos Humanos. E isso vale para todos. Se não concordo com o apedrejamento de mulheres, não posso concordar com gente presa a vida inteira sem julgamento (na base de Guantánamo). Isso vale para o Irã, vale para os Estados Unidos e vale para o Brasil".

Só não vale, pelo visto, para Cuba, onde a presidente não aceitou se encontrar com dissidentes porque, segundo o chanceler Antonio Patriota, não se trata de uma questão prioritária para aquele país.

Assim como não era para o governo do Brasil quando Dilma e tantos outros combatiam a ditadura e chefes de Estado (Jimmy Carter, dos EUA, por exemplo) intercederam, compreendendo o quanto era prioritária a questão dos Direitos Humanos para a dignidade da nação.

A declaração da presidente, em Havana, sobre a responsabilidade multilateral e a impossibilidade de se "atirar a primeira pedra" é mera tergiversação. Sugere a existência de ditaduras amigas e ditaduras inimigas.

Uma maneira de generalizar o tema para se desviar do caso específico, cujo significado é um só: o governo brasileiro põe suas relações fraternais com a ditadura Castro, e todo o simbolismo que tenham para a esquerda do PT, acima do direito universal à liberdade.

E também acima daquele "compromisso histórico com todos aqueles que foram ou são prisioneiros somente por expressarem suas opiniões", com o qual Dilma empenhou a palavra.

Sinuca. 
A assessoria do governador Geraldo Alckmin nega que a ausência dele em dois compromissos públicos recentes tenha sido proposital para evitar protestos de rua.

Pode ser e pode não ser. Fato é que, ao contrário do inspirador Mário Covas que gosta muito de invocar, Alckmin tem evitado confronto. Faltou à missa na Catedral da Sé no aniversário de São Paulo e não foi à inauguração na nova sede do Museu de Arte Contemporânea. Em ambas as ocasiões houve manifestações.

Se for coincidência, logo ficará claro pela presença do governador nas agendas públicas concernentes ao cargo. Se não for, a ideia de esconder-se proporcionará significativo aumento de protestos exatamente para marcar o sumiço do governador.

Provocações. 
De posse da faca (a caneta) e do queijo (a popularidade), a presidente Dilma tem tudo para dar ao presidente do PDT, Carlos Lupi, o mesmo tratamento conferido ao líder do PMDB na Câmara, Henrique Alves, que duvidou da demissão de um apadrinhado para vê-lo demitido no dia seguinte.

Lupi quer indicar seu substituto no Ministério do Trabalho e se considera em "plena condição moral" de fazê-lo.

Se o governo concordar, restará explicar por que Lupi não serve como ministro, mas serve como fiador.

Direitos humanos segundo Dilma

Fernando Gabeira

Dilma e sua teoria do silêncio nacional sobre Cuba.

Quando uma partido político como o PT e seus aliados ganha uma eleição é razoável que conduza uma política externa de acordo com sua visão de mundo.

Não se pode esperar que Dilma tenha a respeito da Cuba a mesma posição que teriam seus adversários.

No entanto, uma política externa nunca é apenas a visão de um partido porque ele envolve o pais e procura, dentro de seus limites, expressar uma cultura nacional que transcende à estreiteza de uma só visão de mundo.

Tudo indicava que Dilma procurava esse equilíbrio quando concedeu o visto de entrada no Brasil à blogueira Yoani Sanchez.

O próprio assessor especial Marco Aurélio Garcia deixou bem claro que não havia nenhuma simpatia por Yoani Sanchez no governo. O Brasil fazia apenas o que lhe cabia: conceder o visto.

Pensei que Dilma, em Cuba, mantivesse a linha de equilíbrio entre a visão do PT e uma política nacional. Sua entrevista, entretanto, foi a de um militante político.

Ao falar de direitos humanos afirmou que não poderia ser algo ideológico, que cobrisse apenas um lado. Mas referiu-se apenas aos Estados Unidos, contradizendo sua premissa.

O maior desastre foi afirmar que não era possível denunciar, unilateralmente, os direitos humanos em Cuba porque todos os países têm telhado de vidro e nenhum pode atirar a primeira pedra.

Na visão de Dilma, só se pode falar de direitos humanos em termos coletivos. Na Síria, por exemplo, há um massacre semanal de opositores. Antes da ONU se pronunciar, inúmeros países, inclusive a Turquia, manifestaram sua condenação aos métodos repressivos do governo sírio.

Eles estavam certos pois a decisão da ONU acabou saindo influenciado por esse conjunto de manifestações isoladas.

Quando Dilma apontou Guantánamo para se omitir sobre Cuba, ela estava repetindo um dos mais equivocados métodos da esquerda. Quando acusada de algo, ela sempre se defende lembrando um crime do adversário, que considera maior que o dela.

Dilma poderia ter dito apenas que concedeu o visto para Yoni Sanchez e que não falaria do tema , a não ser de forma geral, na sua viagem à Cuba.

Com o visto cumpria os deveres nacionais, com uma referência indireta cumpria com sua fidelidade ao PT que vê a revolução cubana com os olhos românticos da década de 60.

Seu problema foi argumentar. No primeiro parágrafo ela se contradisse, recusando a estreiteza ideológica mas referindo-se apenas aos EUA.

O terceiro parágrafo foi um desastre. Todos desrespeitam os direitos humanos, logo ninguém pode denunciar, a não ser em termos coletivos.

A Rússia se recusa a condenar o governo sírio. Vamos ficar calados até que Putin se decida a dizer alguma coisa?

Emoções de esquerda com ideias de direita, lembrava Wilheim Reich, costumam levar ao totalitarismo. E a entrevista de Dilma revelou um pouco disso: emoções de esquerda, ideias de direita.

O coração presta um tributo aos seus ídolos cubanos; a cabeça formula uma teoria da proibição da luta nacional por direitos humanos, limitando a apenas a manifestações da ONU ou OEA.

Dilma é a presidente dos brasileiros e tem o apoio da maioria da população. É considerada muito inteligente e grande administradora.

Pertenço à minoria, todos sabem. Um jornalista búlgaro que escreveu a história de Dilma ligou no princípio da semana surpreso com suas hesitações em falar dos direitos humanos em Cuba.

Parece que na Bulgária vão compreender Dilma de outra maneira, daqui para a frente. Pelo menos lá há uma curiosidade em confrontar a imagem com as ações concretas. 

No Brasil, ainda leva tempo. 

O “Memorial da Democracia” de Lula é um acinte aos homens de memória! Ou: Será que eles podem privatizar a democracia e um pedaço de SP?

Reinaldo Azevedo

No dia em que o prefeito Gilberto Kassab (PSD) decidiu ceder uma área de quatro mil metros quadrados ao Instituto Lula para que o Apedeuta crie o “Memorial da Democracia” — nada menos —, veio a público a informação de que o site da “Revista de História da Biblioteca Nacional” ataca de maneira grotesca o PSDB e um de seus líderes, o ex-governador José Serra, que disputou a eleição com Dilma Rousseff em 2010. O texto dá curso ao trabalho de caluniadores profissionais. A Biblioteca Nacional é vinculada ao Ministério da Cultura. A revista é patrocinada pelo próprio governo e pela Petrobras e traz no expediente os nomes de Dilma e de Ana de Hollanda, a ministra da Cultura. “O artigo é um posicionamento pessoal do repórter e contraria a linha editorial da revista, que não defende posições político-partidárias”, diz o presidente da Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional, Jean-Louis de Lacerda Soares, que se desculpou. Entendi. Em nome pessoal, tudo pode… E quem autorizou a publicação? É só um exemplo da forma como o PT usa a máquina púbica para atacar seus adversários. Mas Lula, vejam vocês, vai reunir a história do seu governo no “Memorial da Democracia”. Vai privatizar uma área do centro de São Paulo e a democracia!

Lula terá quatro mil metros quadrados de terreno para erguer o seu memorial, que cantará as suas glórias e as de seu partido em defesa da democracia, mas o PT não viu nenhum problema em mobilizar a Secretaria Nacional de Direitos Humanos para tentar sabotar a operação na cracolândia — o que buscava atingir Kassab também, diga-se. Como não foi bem-sucedido, partiu para a demonização da Polícia Militar porque esta cumpriu uma ordem judicial de reintegração de posse. Perfilaram-se para a guerra contra o governo de São Paulo a presidente Dilma Rousseff, o ministro Gilberto Carvalho, o ministro José Eduardo Cardozo e, claro!, Maria do Rosário, aquela que, a exemplo de sua chefe, não vê transgressões aos direitos humanos em Cuba. Mas o Instituto Lula terá uma área no Centro da cidade para fazer o “Memorial da Democracia”.

Um dia antes da cessão do terreno, Dilma Rousseff preferiu atacar os EUA quando indagada sobre transgressões ao direitos humanos na propriedade privada dos Irmãos Castro. E daí? O Instituto Lula terá uma área no Centro da cidade para fazer o “Memorial da Democracia”.

Dois dias depois da desocupação do Pinheirinho, a Agência Brasil — oficial — publicou entrevista com um advogado de um movimento de invasores  que denunciou a existência de mortos na operação, uma mentira grotesca. O denunciante não precisou apresentar fatos, indícios, nada! Este blog, como sabem, chegou a entrevistar uma das “mortas”. No dia seguinte, uma segunda reportagem trazia as negativas, dando a entender que a existência ou não de cadáveres é uma questão de opinião, de “lado” e “outro lado”. Tudo bem! O Instituto Lula terá uma área no Centro da cidade para fazer o “Memorial da Democracia”.

No site da Presidência da República, o Conselho Nacional de Juventude, uma entidade independente como um táxi, acusa a existência de “políticas militares” no governo de São Paulo e publica dois manifestos — um sobre o Pinheirinho e outro sobre a cracolândia —recheados de mentiras factuais sobre os dois eventos. Está lá, reitero, no site da Presidência! Que importa? O Instituto Lula terá uma área no Centro da Cidade para fazer o “Memorial da Democracia”.

Todos vocês sabem, porque isso já é história, que coube a este blog denunciar, em primeira mão, a mais virulenta tentativa do petismo de controlar a imprensa, com o decreto que trazia o Plano Nacional de Direitos Humanos. Sucessivas conferências patrocinadas pelo Palácio do Planalto esforçaram-se para criar mecanismos para cercear a liberdade de expressão. Lula tentou impor o Conselho Federal de Jornalismo, de caráter policialesco. Nada prosperou porque a sociedade se mobilizou. Mas eles ainda não desistiram. Não tem importância! O Instituto Lula terá uma área no Centro da cidade para fazer o “Memorial da Democracia”.

Sites e blogs patrocinados por estatais atacam com impressionante virulência personalidades da oposição e membros do Poder Judiciário de maneira aberta, escandalosa, constituindo-se numa verdadeira rede de calúnia e difamação. É o dinheiro público — que é de todos, de quem vota e de quem não vota no PT — a serviço de um partido e de um projeto de poder, mobilizado para macular a reputação dos “inimigos do regime”. Não há nada parecido em nenhuma democracia do mundo. Mesmo assim, o Instituto Lula terá uma área no centro da cidade para fazer o “Memorial da Democracia”. E a área será doada por todos, inclusive por aqueles que a máquina petista de enlamear biografias quer destruir. Sempre em nome da democracia, todos sabemos!

Em nove anos de poder petista, jamais se viu a máquina federal tão organizada e pronta para eliminar a divergência. Atenção! Como afirmo aqui há anos, os petistas também funcionam como lavanderia de biografias. Assim como eles sujam, eles lavam. Basta que se lhes façam as vontades.

Eles merecem ou não privatizar a democracia e um pedaço da cidade com um “memorial”???

******* COMENTANDO A NOTÍCIA:
Antes que algum apressadinho saia por aí espalhando mentiras, o local onde instituto do ex-presidente Fernando Henrique está sediado, não foi doação do poder público. Foi comprado por ele!!!   

TCU aprova com ressalvas edital para leilão de aeroportos

Eduardo Cucolo, da Agência Estado

Recomendações feitas pelo Tribunal de Contas da União, no entanto, não impedem a realização do leilão, marcado para a próxima segunda-feira


BRASÍLIA - O Tribunal de Contas da União (TCU) deu sinal verde à realização, na próxima segunda-feira, do leilão de privatização dos aeroportos de Guarulhos, Viracopos e Brasília. O edital de licitação foi aprovado, por unanimidade, com ressalvas que não impedem o prosseguimento do processo de concessão.
O relator Aroldo Cedraz optou por não ler todo o seu voto, mas fazer um resumo, inclusive das ressalvas, que tratam de questões de prazos, cláusulas ambíguas e discrepâncias que podem gerar risco jurídico. Destacou ainda preocupações em relação à falta de especificações técnicas que garantam a qualidade dos investimentos. Por isso, afirmou que o Tribunal deve acompanhar as obras.

"Não é o modelo ideal, mas é o modelo possível", afirmou. Cedraz disse ainda que foram examinados os pedidos de impugnação do edital apresentados à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), por empresas interessadas em participar da licitação, e que não encontrou subsídios consistentes para alterar sua decisão.

Apesar de ter acompanhado o voto do relator, o ministro do TCU José Jorge fez críticas ao processo. Disse que o modelo de concessão pelo maior preço representa "um retrocesso", pois o ágio pago pelos vencedores da licitação terá de ser repassado, em algum momento, na forma de redução da qualidade ou aumento de tarifas.

Afirmou ainda que a participação da Infraero também vai aumentar o custo e diminuir a qualidade do serviço prestado, tendo como base a forma como a empresa gerencia hoje os aeroportos sob sua responsabilidade.
Na terça-feira, o governo federal conseguiu derrubar o primeiro pedido de liminar que pedia a suspensão do leilão. O juiz federal Haroldo Nader, substituto da 8ª Vara Federal em Campinas, indeferiu ação popular movida por quatro trabalhadores que queriam impedir a operação.

A confusão dos juízes

O Estado de S.Paulo

Analisando a ofensiva de associações de juízes e desembargadores contra o controle externo do Poder Judiciário, o ministro Gilmar Mendes - ex-presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) entre 2009 e 2010 e um dos responsáveis pelo modelo de atuação do órgão - atribuiu a crise ao corporativismo de desembargadores que, a seu ver, estariam confundindo conceitos básicos de Teoria do Estado.

"Alguns magistrados afirmam que os Tribunais de Justiça são entidades soberanas. Confundem autonomia (funcional) com soberania (institucional)", disse o ministro em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. A soberania tem sido invocada pelas entidades de juízes que, desde a entrada em vigor da Emenda Constitucional 45, em dezembro de 2004, vêm tentando, no Supremo, reduzir prerrogativas do CNJ. A principal entidade é a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), dirigida por um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP).

Com 1,9 mil juízes de primeira instância e cerca de 360 desembargadores, o TJSP é a maior Corte do País e foi apontada pela corregedora nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon, como a mais refratária às investigações do CNJ. Um de seus principais adversários na polêmica sobre o alcance das fiscalizações do órgão, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Cezar Peluso, nela atuou durante três décadas e meia - 18 anos como juiz e 17 como desembargador.

Para a corregedora nacional de Justiça, os poderes do CNJ são "originais e concorrentes" - ou seja, o órgão tem a prerrogativa de promover investigações independentemente da atuação das corregedorias dos Tribunais Regionais Federais, dos Tribunais Regionais do Trabalho e dos Tribunais de Justiça.

Para Peluso e para a direção da AMB, o CNJ só teria competência "subsidiária" - ou seja, as sindicâncias e a aplicação de medidas disciplinares são de competência das corregedorias, cabendo ao CNJ apenas apreciar os recursos a ele enviados. Apesar de não citar nominalmente Calmon e Peluso, em sua entrevista Mendes deixou claro que endossa a posição da corregedora nacional de Justiça.

A entrevista de Mendes foi publicada no mesmo dia em que os jornais divulgaram uma carta assinada pelos presidentes de Tribunais de Justiça de todo o País, apoiando as liminares do Supremo que determinaram a suspensão das investigações que o CNJ vem fazendo nas Justiças estaduais. Na carta, os signatários pedem mais autonomia para os Tribunais e acusam o órgão responsável pelo controle externo da magistratura de autorizar quebras de sigilo fiscal e bancário, o que não seria permitido pela Constituição.

"Talvez o Judiciário seja o único Poder que esteja fazendo, graças à atuação do CNJ, uma autocorreção. Quase todos os problemas (nos tribunais) foram levantados por nós", afirmou Mendes, depois de lembrar que nem o Legislativo nem o Executivo têm tanta transparência quanto a Justiça.

Além de salientar que as corregedorias judiciais são ineficientes e corporativas, Mendes esclareceu que em momento algum o CNJ autorizou a quebra indiscriminada de sigilos nas investigações sobre pagamentos irregulares a desembargadores e servidores e ainda defendeu a atuação do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) - o órgão de inteligência financeira do governo que, quando identifica movimentações consideradas atípicas, se limita a informá-las aos órgãos de fiscalização competentes.

"Ninguém deve falsear os fatos. Nós, juízes, deveríamos ser mais respeitosos em relação aos fatos. Não há quebra de sigilo quando alguém faz uma verificação em folha de pagamento. Em todos esses anos, pedimos para ter o controle das contas. Trata-se de um princípio republicano. Há algum segredo em relação ao meu salário ou a alguma verba que recebo como ministro?", indaga Mendes. Segundo o ex-presidente do STF, a atuação do CNJ não pode ser considerada ilegal nem exagerada e as Justiças estaduais, apesar de disporem de autonomia funcional, não podem se opor a um órgão de controle, como o CNJ.

STF faz julgamento pontual para poupar ministro Marco Aurélio

Wálter Fanganiello Maierovitch

Ministro Marco Aurélio

Depois de mais de quatro horas de sessão, o Supremo Tribunal Federal (STF) ainda não chegou ao exame da grande polêmica, sobre a competência correcional do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

O início foi marcado por sustentações orais, com intervenções do advogado da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), do presidente da OAB (aquele acusado de receber vencimentos sem ter trabalhado), do advogado-geral da União e do procurador-geral da Justiça. Com exceção do representante da AMB, todos os demais pediram a cassação da liminar de Marco Aurélio, no que toca ao tema do poder correcional do CNJ.

Os ministros do STF entenderam, por maioria, que deveriam, com relação às liminares concedidas pelo ministro Marco Aurélio, examinar em tópicos as postulações contidas na ação declaratória de inconstitucionalidade ajuizada pela Associação de Magistrados Brasileiros (AMB). E assim decidiram porque, na ação, a AMB atacou vários dispositivos da Resolução 135/2011, que unificou a forma dos procedimentos administrativos. Com relação à lei da Ficha Limpa, julgaram de uma vez só, a mostrar que a meta era poupar o ministro Marco Aurélio.

No particular, a Resolução 135/2011 foi, antes de aprovada pelo CNJ, encaminhada à AMB para sugestões. Por ofício, a AMB participou que não tinha sugestões a dar. Depois da publicação da Resolução 135/2011 e diante dos gritos de togas corporativas, a AMB resolveu questionar, no STF, a constitucionalidade de vários artigos. Não contente, pediu liminar, no apagar das luzes do ano Judiciário de 2011.

A respeito da unificação procedimental dos feitos disciplinares, o CNJ agiu diante de casos teratológicos. Por exemplo, um Tribunal de Justiça, ao examinar processo administrativo disciplinar contra juiz, chegou a concluir por consumados desvios funcionais. Parte do tribunal entendeu que a pena adequada seria a de aposentadoria compulsória (a mais grave). A outra parte, no entanto, optava pela pena de censura. Diante da divergência, a Corte entendeu em absolver o juiz acusado. Pela Resolução, caso estivesse em vigor ao tempo, seria aplicada, diante da divergência quanto à sanção mas acordo a respeito da culpa, a pena menos grave (censura).

O julgamento “debulhado” servirá para poupar o desgaste do ministro Marco Aurélio, caso se conclua — relativamente à questão principal — ter o CNJ competência corrente e não subsidiária. É que, em alguns artigos da Resolução, os ministros concluírão, por unanimidade, que o CNJ legislou, ou seja, tomou o lugar do Legislativo. Em outras palavras, o ministro Marco Aurélio acertou com relação ao óbvio.

Pano rápido. Não só os 17 mil magistrados em atividade aguardam uma definição do STF, depois do enorme desgaste perante a opinião pública esclarecida, e  decorrente da atuação corporativa nada republicana da AMB. A sociedade civil, que é a favor da transparência e contra os privilégios, espera que o STF, órgão de cúpula, não a decepcione.

Presidente do Supremo rechaça crise: ‘Só uma nação suicida degrada o Judiciário’

Felipe Recondo e Mariângela Gallucci, de O Estado de S.Paulo

Na abertura dos trabalhos do STF, Peluso responde às críticas de corporativismo da magistratura e suspeitas de corrupção e afirma que Judiciário é o poder que mais fiscaliza seus membros

BRASÍLIA - Com o Judiciário alvo de críticas, suspeitas de deslizes na conduta de magistrados, acusações de corporativismo e dúvidas sobre os poderes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para investigar seus pares, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cezar Peluso, quebrou o silêncio e repudiou as críticas e afirmações de que o Poder está em crise. "Só uma nação suicida ingressaria voluntariamente em um processo de degradação do Poder Judiciário", alertou no discurso de abertura dos trabalhos do STF e horas antes de a Corte Suprema iniciar o julgamento sobre os limites de atuação do CNJ.

Andre Dusek/AE
Em discurso, Peluso classificou como ‘impróprias’
 as pressões exercidas contra magistrados
Numa fala de 38 minutos, Peluso admitiu que a magistratura não é invulnerável à corrupção, mas afirmou que o Judiciário é o Poder que mais se fiscaliza. Ele repeliu pressões sobre os ministros e enfatizou que os juízes continuarão a cumprir sua função com independência.

"Temos ouvido, com surpresa, que o Poder Judiciário está em crise. Os mais alarmistas não excepcionam sequer os outros dois Poderes da República. Confesso que, alheio ao hábito da só visão catastrófica dos homens e das coisas, não é assim que percebo o País, nem o Poder Judiciário", afirmou.

Segundo o ministro, não está em discussão se magistrados suspeitos de corrupção devem ou não ser punidos. "No debate apaixonado em que se converteu questão jurídica submetida ao juízo desta Corte, acerca do alcance e limites das competências constitucionais do CNJ, perde-se de vista que seu âmago não está em discutir a necessidade de punição de abusos, mas apenas em saber que órgão ou órgãos deve puni-los. Entre uma e outra coisas vai uma distância considerável", afirmou.

Pressões. Peluso classificou como "impróprias" e "tendentes a constranger juízes e ministros" as pressões exercidas contra magistrados. Criticou, sem identificar alvos, pressões externas sobre magistrados como forma de levar os ministros a votar contrariamente às suas convicções. "Pressões, todavia, são manifestação de autoritarismo e desrespeito à convivência democrática."

As declarações não fizeram referência direta, mas lembraram as acusações contra ministros do STF que concederam liminares para limitar os poderes do CNJ. No final do ano passado, Marco Aurélio Mello concedeu liminar para dizer que o CNJ só poderia processar magistrados depois que as corregedorias dos tribunais locais processassem esses juízes. No mesmo dia, o ministro Ricardo Lewandowski suspendeu as inspeções que seriam feitas pela Corregedoria Nacional de Justiça em 22 tribunais, analisando declarações de bens e rendas dos magistrados e servidores e valendo-se de dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e das folhas de pagamento dos TJs.

Os dois ministros foram alvos de críticas. Lewandowski foi acusado de dar a liminar por ter recebido verbas atrasadas do Tribunal de Justiça de São Paulo, o primeiro a ser inspecionado.

As liminares suscitaram debates e críticas sobre a caixa-preta do Judiciário. Peluso insistiu que levar o Judiciário para uma crise de legitimidade seria suicídio. "Esse caminho nefasto, sequer imaginável na realidade brasileira, conduziria a uma situação inconcebível de quebra da autoridade ética e jurídica das decisões judiciais que, aniquilando a segurança jurídica, incentivando violência contra os juízes e exacerbando a conflitualidade social em grau insuportável, significaria retorno à massa informe da barbárie."

O Judiciário é - na visão de Peluso -, entre os três Poderes, aquele com estrutura mais rigorosa para punir seus integrantes. Nem a Controladoria-Geral da União (CGU), que faz o controle administrativo do Executivo, nem as corregedorias da Câmara e do Senado teriam tantos poderes correcionais quanto o órgão de controle do Judiciário, segundo o ministro. "Nenhum dos Poderes se reveste do portentoso aparato de controle que (...) cerca o Judiciário mediante as corregedorias locais e dos tribunais superiores e do Conselho Nacional de Justiça (...), o único órgão integrado por agentes externos a exercer contínua e rigorosa fiscalização do próprio Poder", disse.

Peluso reconheceu que o Judiciário não está isento de vícios e que o juiz não é "invulnerável à corrupção", mas disse que esses problemas atingem a sociedade como um todo. "Esta, a corrupção, não é objeto de geração espontânea, nem o resultado de forças estranhas à dinâmica social, senão que é produto mesmo das sociedades cuja cultura está em privilegiar, como objetivo primordial da vida, a conquista e o acúmulo, por qualquer método."

Os ferozes patrulheiros

Carlos Brickmann, Observatório da Imprensa

Foi uma entrevista histórica: Cacá Diegues, de impecáveis credenciais esquerdistas, expoente do Centro Popular de Cultura da UNE, um dos diretores do clássico Cinco Vezes Favela, obra pioneira do Cinema Novo, disse ao Jornal do Brasil que vinha sendo vítima de patrulhas ideológicas, de gente que queria obrigá-lo a fazer exclusivamente filmes políticos (e da linha que adotavam). Faz 33 anos - e não adiantou: ainda hoje, os patrulheiros políticos, agora aliados ao racismo, tentam comandar o pensamento dos outros e a perseguir quem não concorda com suas ideias. Já atacaram William Waack, Boris Casoy, Soninha, Pedro Bial, Carlos Nascimento, sob os pretextos mais ridículos (chegaram a jurar que viram Boris Casoy, com 1m90 de altura, mais de cem quilos, com sequelas de poliomielite, de pé sobre uma moto, vestido com roupa de couro, numa manifestação anticomunista). 

Agora tenta-se atingir Diogo Mainardi e Caio Blinder, sempre pelo crime de opinião. Um grupo que se imagina bem-pensante os critica por opiniões a respeito do assassínio de um cientista nuclear iraniano, manifestadas no programa Manhattan Connection, da Globonews, canal a cabo da Rede Globo (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=174015&id_secao=8.) Fizeram o habitual - um abaixo-assinado, para diluir responsabilidades - e o enviaram aos donos da emissora, para que tomem providências. 

E deixaram entrever seu racismo: criticam Mainardi sem referência à sua ascendência italiana ou à sua religião, mas Blinder, judeu, é chamado de "agente do Mossad" no abaixo-assinado. Há, no grupo, pessoas fortemente identificadas com o antissemitismo (como o autor de um artigo que acusa Israel de ter desenvolvido uma bomba étnica, que mataria árabes e pouparia judeus - http://www.oocities.org/monicabo/atualidade32.htm).

A bomba étnica, que pede passaporte ou RG ao explodir, ou o vírus étnico, com capacidade para sequenciar e identificar o DNA do alvo, já seriam suficientes para mostrar até onde é capaz de chegar a radicalização. Mas é preciso completar: este colunista conhece Caio Blinder há mais de 30 anos e é seu amigo. Pode afirmar: agente do Mossad é a mãe. 

Erros deles, erros nossos
No caso da desocupação da gleba do Pinheirinho, em São José dos Campos, SP, houve uma cascata de erros: dos poderes públicos, que assistiram à ocupação sem nada fazer, que nada fizeram quando começou a batalha judicial, que não se mexeram para buscar uma solução menos traumática e que, quando finalmente os moradores foram desalojados, ainda não conseguiram sequer reunir-se para discutir o que fazer com tantas pessoas sem casa; dos invasores, que aceitaram a liderança radical de alguém que não tinha interesse em resolver o problema, mas em agravá-lo, e rejeitaram qualquer tipo de acordo (como descreveu, com grande precisão, o jornalista Elio Gaspari); de jornalistas engajados e/ou desinformados, que noticiaram mortes que não ocorreram; de oposicionistas que, longe de buscar uma solução para os desabrigados, preferiram criar um massacre que não existiu.

E houve, extremamente sérios, os erros dos meios de comunicação. 

1 - não conseguiram explicar a quem pertencia o terreno. Se era de uma massa falida, não era de Nagi Nahas; se era de Nagi Nahas, não era de nenhuma massa falida. A propósito, parece que em determinado momento a gleba pertenceu a Nagi. Como se transformou em dono? Quais os proprietários anteriores?

2 - não mostraram as tentativas de acordo (que só Gaspari mostrou mais tarde). Não mostraram as alternativas possíveis a uma decisão judicial;

3 - não conseguiram acompanhar (nem sequer explicar) os conflitos de jurisdição entre a Justiça Federal e a Estadual. O que passou, em primeiro lugar, foi a ideia de que a PM estava desobedecendo a uma determinação federal que teria anulado a estadual. Não era isso. 
4 - não mostraram o líder dos ocupantes - Valdir Martins de Souza, do PSTU, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos. Que é que ele pensava, quais as alternativas que propunha?

5 - E quem mostrou algo mostrou errado. Uma agência pública de notícias, paga com o dinheiro dos nossos impostos, não pode, de maneira nenhuma, noticiar mortes que não houve, ainda mais se o objetivo era apenas partidário. 

Foi ruim; poderia ter sido ainda pior. E só não foi pior por sorte: autoridades, ocupantes e imprensa não ajudaram em nada.

Desabamento sem aviso
Num primeiro momento, foi constrangedor: prédios desabam no centro da cidade que internacionalmente representa o Brasil, e as emissoras de TV, presas á programação normal, não conseguiram sequer acertar o número de prédios em questão. Imagens, só do Google, da CET e das câmeras de edifícios próximos. Houve momentos em que os locutores falavam na queda de um prédio e os repórteres nas ruas já falavam em dois ou três; e não havia quem os harmonizasse. As emissoras de TV demoraram para reagir aos fatos. Traduzindo, equipes e equipamentos devem estar no limite de uso, sem capacidade ociosa para enfrentar imprevistos.

As coisas depois se normalizaram. Mas cobertura boa só mesmo no dia seguinte, quando tudo já estava na pauta. 

Um belo desafio
O Jornal da Band divulgou acusações do irmão de Celso Daniel, prefeito petista de Santo André assassinado há dez anos, contra o ministro-chefe da Casa Civil da presidente Dilma Rousseff, Gilberto Carvalho. Segundo o Jornal da Band, "todos os personagens citados nesta reportagem foram ouvidos pela Band, mas não responderam aos pedidos de entrevista". 

A assessoria do ministro protestou, alegando ele não tinha sido procurado. E protestou ainda contra a Coluna do Augusto Nunes (http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/), que "também não procurou o ministro antes de analisar e tirar conclusões equivocadas sobre um silêncio que só existiu por conta do erro do Jornal da Band."
Augusto Nunes topou o desafio: encaminhou a Sérgio Alli, da assessoria de Comunicação do Gabinete Civil, uma proposta de entrevista com Gilberto Carvalho, nos seguintes termos: "Ele poderá escolher a data, o horário e o local da entrevista, que terá a duração mínima de 30 minutos. O tempo máximo será fixado pelo entrevistado. Comprometo-me a divulgar a íntegra da gravação, sem cortes, sem nenhum tipo de edição, sem textos introdutórios e sem comentários adicionais. O vídeo se limitará a registrar perguntas e respostas. Espero que o ministro não se negue a contribuir para esclarecer um episódio que continua a intrigar milhões de brasileiros". 

Se Carvalho aceitar o desafio, será um belo debate.

Triângulo das Bermudas
É um título promissor: um item que este colunista pretende tornar permanente, para acompanhar os assuntos que desaparecem na imprensa, ou que nem sequer conseguem chegar a ela. São assuntos como o desaparecimento do remédio Lotensin, contra a hipertensão, de uso contínuo, que o laboratório Novartis retirou do mercado há meses e prometeu oficialmente, por escrito, voltar a vender a partir de 15 de dezembro do ano passado (a promessa não foi cumprida). Ou do remédio Detrusitol, do laboratório Pfizer, cujas versões com dosagem menor foram retiradas do mercado (mantiveram-se apenas, com preços lá no alto, as versões com dosagens maiores). Ou as perguntas que as autoridades preferem não responder - por exemplo, por que atribuir a Medalha Amigo da Rota a quatro cervejarias, sem especificar por que as empresas se transformaram em amigas da letal tropa de choque da PM paulista. 

E também outros temas - como esta carta do leitor Eduardo Abramovay, sobre seu relacionamento (como o de todos os clientes, difícil) com uma empresa de telefonia celular. Pois não é que o estão chateando por 17 centavos?

"Desisti de ser cliente da TIM há mais de um ano. Um sem-número de aborrecimentos, incluindo um envio de meu nome para o cadastro negativo de consumidores inadimplentes, seguido de um pedido de desculpas. 

"Mas agora se excederam. Mandaram uma cobrança de R$ 0,17 - dezessete centavos, isso mesmo, referente a juros de uma conta que não sei qual é, pois da minha não pode ser, dado que tenho comunicação deles de que estava encerrada sem qualquer débito. 

"É o desmando e a inépcia levada à enésima potência. Quanto custou imprimir e postar essa conta? E por que eles acham que não precisam explicar a que se refere a cobrança? E outra, como não posso pagar num caixa automático, devo enfrentar uma fila de banco para pagar R$ 0,17. Será que na Itália os donos da TIM sabem como operam seus prepostos por aqui?"

Boa pergunta. Este colunista não mergulhou no assunto, mas está convencido de que sabem, sim. E de que o leitor tem razão. Empresa que chateia o cliente por causa de 17 centavos ou quer chateá-lo ou não tem a menor ideia de como operar com competência.

O cavalo do Spielberg

Roberto DaMatta - O Estado de S.Paulo

Assisti ao Cavalo de Guerra. Havia tempo que eu não tomava parte do estranho ritual de ir ao cinema para participar da exibição mecânica de um drama que independe de quem o assiste. Pois diferentemente de outros rituais de desempenho - como as celebrações religiosas, cívicas e teatrais - onde os oficiantes dependem da cumplicidade dos espectadores, no cinema somente a plateia pode atrapalhar-se a si mesma, falando alto ou chegando atrasada. O que não atinge o filme que, indiferente como um meteoro, "passa" transformando fotografias mortas numa narrativa viva.

Invejei Steven Spielberg por ter inventado mais um cavalo para a nossa extensa mitologia equestre. Tínhamos o de Troia, o de batalha (que ocorre todo dia no Brasil); o Trigger, do Roy Rogers, um remoto caubói; o Silver, o cavalo prateado do Zorro ex-amigo do Tonto (um índio); e, para terminar uma formidável lista, o cavalo branco de São Jorge que Napoleão, com sua megalomania digna dos presidentes republicanos, tentou roubar. Eis uma modesta mostra de como o cavalo desempenha, ao lado do cachorro, um denso papel na nossa imaginação.

O cavalo detém a força do puro poder e da mobilidade, ao lado de uma contida e disciplinada imponência, ausente nos cães mais indômitos. Mesmo no papel humilde de puxador de um veículo, o cavalo chama atenção pela sua obediência tranquila. Dele é aquele ar bovino, aquele sossego das sujeições serenas: feliz com os seus limites e ciente do seu papel. Mas é dele também o poder de chegar rapidamente a algum destino. Os cavalos permitem voar e alguns são alados...

Ser dono de um cavalo ou montá-lo é sinal claro daquela liberdade igualmente contida da nobreza, como mostra a melhor sociologia do cavalo que li até hoje, a de Câmara Cascudo.

Hoje em dia não temos mais cavalos, diria um leitor cético diante de minhas baboseiras etnológicas. Verdade, mas nas nossas garagens estão centenas de "cavalos de força" devidamente encurralados nos nossos automóveis. Temos centenas de cavalos prontos para galopar sincronizada e perigosamente - em cima dos outros quando nos movemos pra valer!

E continuamos a ter cavalos de guerra que lutam contra ladrões, marginais ou subversivos que infestam nossas cidades mal planejadas e sem fiscalização que julgamos protegidas por São Jorge, o santo inglês que, como diz Gilberto Freyre, tornou-se popularíssimo no Brasil por ser um santo montado num país de escravos a pé e de aristocratas falsos, preguiçosos e gordos. Mais preocupados - como ocorre até hoje - com suas famílias do que com o seu povo.

Esse cavalo de batalha não teme dragões. Ademais, ele é também o símbolo, como assinala o sociólogo Thorstein Veblen na sua pioneira teoria do consumo como um traço básico da identidade social no capitalismo - um penhor de consumo conspícuo ou supérfluo. Um consumo como expressão de posição social e não de necessidade. Sobretudo no papel de "cavalo de corrida".

Dominar um cavalo fazia parte do treinamento dos nobres. Quem mandava num cavalo sabia comandar pessoas. O cavalo eleva e dá capacidade ao seu dono, servindo como perfeita metáfora para uma suposta (ou imposta) superioridade social. Que o leitor preste atenção nas estátuas equestres. Nelas, quanto mais importante o herói, mais sua montaria tem as patas levantadas; e, quanto mais patas no ar, em atitude de movimento grandioso, mais heroico é o gesto e o personagem.

Um dado empolgante da mitologia do cavalo é a sua identidade com o cavaleiro. Quando os dois formam uma só pessoa (ou "conjunto"), como ocorre nas provas equestres, verifica-se um grau de simultaneidade que torna difícil não ver a montaria e o montador como uma só pessoa. Foi assim que os astecas avistaram os espanhóis que os conquistaram e dizimaram.

Essa figura do cavalo como símbolo de poder - como animal de trabalho e como montaria que passa a ser uma arma quando os seus donos entram em guerra - foi o que mais me tocou no filme. Pois o que a narrativa de Spielberg realiza, em estilo de John Ford, é mostrar como cada um dos seus "donos" o vê como uma projeção de si mesmos.

Joey (esse é o nome do cavalo herói) é construído e constrói o seu primeiro e "verdadeiro" dono, o rapaz que se vê obrigado a treiná-lo como besta de trabalho; seu segundo dono é um oficial inglês de Cavalaria que o usa como uma arma de guerra; depois chega a vez de "pertencer" a uma menina francesa e doente que o torna parte de suas delicadas fantasias de adolescente; daí, Joey é de um duro, mas sensível sargento encarregado de puxar canhões para o Exército alemão; até que, aterrorizado e perdido na terra de ninguém e de todos os horrores humanos que é a guerra, o cavalo tenta escapar somente para ficar embaralhado nos arames farpados - típicos de nosso modo de viver - que dividem ingleses e alemães.

Então Joey fica como todos nós ficamos quando a vida nos leva para a terra enlevada do sofrimento, dos pesadelos, das lágrimas e da solidão.

É justamente nesse momento que Joey se torna cavalo e, assim, como o "outro" tanto dos ingleses quanto dos alemães, ele neutraliza a guerra, fazendo com que dois soldados inimigos que tornem parceiros na tarefa de libertar e salvar esse "outro do outro", como diz Viveiros de Castro. Eis a melhor cena do filme e um dos momentos mais belos que vi no cinema. Pois quem somos nós, autointitulados humanos, senão meros cavalos igualmente passando de mão em mão e servindo como veículos para que a vida possa ocorrer por meio de nossas existências?

A política da irrelevância

Rolf Kuntz, Estadão

Sem o exotismo rústico de seu antecessor e sem disposição para conduzir uma diplomacia madura, a presidente Dilma Rousseff tende a tornar-se uma figura irrelevante no palco internacional, muito abaixo do papel esperado de quem governa a sexta maior economia do mundo. Ainda terá a vantagem de passar longe de cenas constrangedoras. Não prevenirá o ex-KGB Vladimir Putin para tomar cuidado com os governantes capitalistas, nada confiáveis. Não elogiará uma cidade da África por sua limpeza (“não parece africana”, disse Lula). Não insistirá, perante uma plateia na Turquia, em explicar a velha identificação brasileira de “turco” e mascate. Não tendo sido sindicalista, ficará, talvez, livre da propensão, tão ostensiva em seu padrinho político, de agir e falar em qualquer parte do mundo como se estivesse num palanque de Vila Euclides. Mas isso parece menos garantido e talvez a expectativa, nesse caso, seja muito otimista. Se tivesse ido a Davos, disse o chanceler Antonio Patriota, a presidente Dilma poderia ter feito um discurso parecido com a fala de Sharan Burrow. Mas a comparação parece imprópria.

A australiana Burrow é secretária-geral da Confederação Internacional de Sindicatos, com sede em Bruxelas, e especialista em educação, relações industriais e políticas sociais. É uma figura internacional e age de acordo com suas funções. Convidada para um painel no Fórum Econômico Mundial, foi lá, desceu a lenha nos governos, falou horrores das condições atuais do capitalismo e enfrentou uma discussão dura com pessoas de peso político e intelectual. Deu seu recado num dos mais importantes foros internacionais de debates, onde se tratou, na mesma semana, de alguns dos assuntos mais quentes do momento – a crise europeia, as perspectivas da economia mundial, o drama do desemprego e o futuro do capitalismo. Políticos do primeiro time, tanto de países avançados quanto de emergentes, discutiram propostas, condenaram políticas e expuseram-se publicamente a críticas e pressões. E a presidente Dilma?

Convidada com insistência para ir a Davos e fortalecer a presença brasileira no Fórum Econômico Mundial, preferiu fazer um discurso ridículo no Fórum Social de Porto Alegre, recitando a velha ladainha contra o neoliberalismo e exaltando as maravilhas da América Latina. Como é normal entre os de seu grupo, esqueceu a história: nenhuma economia da região ganhou segurança sem passar por aqueles ajustes combatidos tradicionalmente pelo PT e pelos autointitulados desenvolvimentistas.

A presidente poderia ter ido a Porto Alegre e depois a Davos, como fez Lula há alguns anos. Mas preferiu bater ponto naquele circo esvaziado e muito menos importante que outro evento “paralelo”, o Fórum Aberto de Davos, onde empresários, banqueiros e autoridades enfrentam um auditório às vezes agressivo. O megainvestidor George Soros esteve lá, num dos últimos anos, e se expôs a um monte de desaforos.

A presidente Dilma Rousseff escolheu a obscuridade e a omissão. Em Davos, milhares de políticos, empresários e acadêmicos envolveram-se durante cinco dias em intensas discussões sobre a crise e sobre as saídas possíveis. Entre as figuras públicas havia chefes de governo, ministros, presidentes de bancos centrais e dirigentes de instituições multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio. A briga foi pesada. Chefes de governo, como o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, e servidores de primeiro escalão, como o secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, pressionaram abertamente o governo alemão e outros da zona do euro para fazer muito mais pela solução da crise das dívidas. Figuras de todo o mundo, como o governador de Hong Kong, Donald Tsang, e o vice primeiro-ministro da Turquia, Ali Babacan, entraram no jogo. Os governos da zona do euro, disse o ministro turco, precisam de um ajuste muito mais sério para ganhar credibilidade. Além disso, devem a qualquer custo evitar a insolvência grega, porque um calote poderá abrir a porteira para um imenso desastre.

Apesar de um duro ajuste orçamentário, a economia turca cresceu 8,2% em 2010 e deve ter crescido uns 7% no ano passado. Babacan foi lá, deu seu recado, participou do jogo e mostrou – sem a arrogância brasiliense – a boa evolução da economia grega. A presidente Dilma Rousseff poderia ter feito algo semelhante. Talvez não o tenha feito por causa de um grave provincianismo ideológico ou por não se sentir à vontade entre interlocutores bem preparados e sem subordinação. Porto Alegre é muito mais confortável. Mas o Brasil não conquistará peso internacional no irrelevante Fórum de Porto Alegre, nem dependerá, para isso, de “movimentos sociais” financiados pelo Tesouro Nacional.

Prefeitura registra BO contra líder de ex-moradores do Pinheirinho

Rodrigo Mesquita, colaboração para a Folha de São Paulo

A prefeitura de São José dos Campos (91 km de SP) registrou nesta quarta-feira um boletim de ocorrência contra o líder sindical Valdir Martins, 54, conhecido como Marrom, por difamação e dano qualificado. A ação é devido a um vídeo, publicado no YouTube, em que Martins acusa a prefeitura de servir comida estragada no abrigo Vale do Sol, que recebeu ex-moradores da área do Pinheirinho, desocupada em 22 de janeiro. 

No vídeo, Martins, que é diretor do Sindicato dos Metalúrgicos da cidade, aparece dizendo que a comida estaria azeda, que as crianças do abrigo estariam passando fome, e que seria a terceira vez que esse problema acontecia. Uma mulher chegou a dizer que nem cachorro chegava perto da comida.




Em nota, a prefeitura disse que a comida é a mesma servida nos outros dois abrigos que receberam os ex-moradores, e que a cena da comida estragada foi forjada. "A travessa de frango com molho foi retirada à força do buffet pelo líder no movimento, Valdir Martins, quando mais da metade das pessoas já havia almoçado, e colocada no sol por mais de 40 minutos para criar mais uma sabotagem contra os serviços da prefeitura e provocar tumulto nos abrigos".

Segundo a prefeitura, a intenção seria criar um "factóide" para a imprensa. De acordo com a nota, a empresa que fornece alimentos para os abrigos também participou do registro do boletim de ocorrência contra Martins.

Em um primeiro contato com a Folha, o líder sindical confirmou que a comida estaria estragada, e que os moradores do abrigo estariam sem almoçar. Durante a tarde, a reportagem voltou a tentar contato com Martins, mas ele não atendeu mais o telefone.

O advogado de Martins, Antonio Donizete Ferreira, estava em uma audiência pública na Assembléia Legislativa sobre o caso Pinheirinho e não havia retornado a ligação até as 19h. O Sindicato dos Metalúrgicos também não havia se posicionado sobre o boletim de ocorrência.

MST diante de um futuro incerto

O Globo - Editorial

O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, embora há nove anos conte com aliados políticos no poder, continua a reclamar da falta de reforma agrária, de “avanços sociais” no campo. As invasões de propriedades privadas continuam, e a vida segue sem aparentemente grandes mudanças.

Poderia ser que tudo não passasse de tática de organizações políticas que se alimentam da contestação e da cobrança constantes. Porém, parece haver algo mais, e de extrema gravidade para a organização. Sintomático que um dos dirigentes nacionais do MST, Joaquim Pinheiro, tenha reconhecido um “descenso” nas atividades do movimento, e culpe como responsáveis pelo mau momento da organização o crescimento do emprego e programas sociais, em que se destaca o Bolsa Família. Tem lógica a análise, mas ela não explica tudo.

Um aspecto a se destacar é que, se o MST não conseguiu a reforma agrária dos sonhos com Lula no poder, será impossível materializá-la numa outra conjuntura política, a não ser que se rompa o estado de direito, como alguns demonstram desejar.

Afinal, dentro do modelo de puro fisiologismo pelo qual o lulopetismo montou equipes de governo nestes últimos nove anos, coube ao MST o privilégio de atuar dentro da máquina do Estado, em aparelhos montados no Incra e no Ministério do Desenvolvimento Agrário.

E com todas as benesses disso derivadas, como a fartura de dinheiro público para financiar, inclusive, ações de atropelamento da própria Constituição. Cenas de Lula com o chapéu da organização e a bandeira do MST desfraldada no gabinete presidencial eram mais que um símbolo. Retratavam uma situação real: o MST, em alguma medida, estava no poder.

Mesmo assim, a reforma agrária não andou, denunciam os militantes sem terra. Mas a desmobilização do MST não foi apenas devido a efeitos colaterais de uma conjuntura de virtual pleno emprego vivida até há pouco tempo pelo Brasil, nem pela conhecida generosidade do assistencialismo público.

A própria modernização da agricultura subtraiu do MST e satélites áreas de “latifúndios improdutivos”, e com isso começou a erodir a razão de ser da proposta de reforma agrária, tema cativo de programas de sucessivos governo há décadas.

Começaram a faltar terras para o MST — que radicalizou ao se voltar contra propriedades produtivas — e a escassear massa de manobra. O próprio esvaziamento do campo, decorrente da modernização da economia, atua contra o MST. Restou-lhe mobilizar o lumpesinato de cidades médias e pequenas.

Mas a ampliação da oferta de empregos e as bolsas assistenciais completaram o cerco à organização, cuja razão de viver é a crise social. E para alimentar ainda mais os pesadelos de dirigentes sem terra, o crescimento da classe média, conhecida por rejeitar rupturas, conspira contra projetos de poder mais ambiciosos da organização política.

O MST, então, se defronta com um dilema: insiste num projeto de tinturas revolucionárias e antidemocráticas, de execução impossível, e para o qual depende de ter amigos no Planalto; ou se assume como uma força política legal, sai da semiclandestinidade consentida e tenta obter apoio para seu modelo de Brasil junto ao eleitor. A terceira hipótese é a marginalização, em vários sentidos.

Parafusos espanados

José Paulo Kupfer, Estadão

Sempre que se instala um período de valorização do câmbio – e esse tem sido um evento recorrente na história econômica brasileira recente -, recrudesce a polêmica sobre a tendência à desindustrialização no Brasil e a necessidade de “políticas industriais” capazes de revertê-la. É um debate sem fim e, pior, sem resultados práticos.

O indicador da suposta desindustrialização, de aceitação mais ou menos generalizada, é a gradual redução da participação da indústria no PIB. De fato, em 30 anos, a fatia da indústria caiu pela metade – de 30%, em 1980, para pouco mais de 15%. Nesse período, a indústria brasileira regrediu de uma produção que superava China, Coreia do Sul, Tailândia e Malásia somadas para apenas 15% do total do que elas produzem hoje.

Existe um diagnóstico também genérico a respeito do fenômeno. Ele se deveria a perdas de competitividade relativa, que dificultam exportações e facilitam importações substituidoras de produção doméstica. Daí em diante, porém, ninguém se entende.

De um lado, há quem encare essa situação com um misto de conformismo em relação à trajetória do câmbio, uma visão benigna do avanço dos serviços em detrimento da indústria no perfil da economia e críticas ao “custo Brasil” – conjunto de obstáculos tributários, trabalhistas e burocráticos muito maiores que os existentes nos competidores.

Há, de outro lado, os que concentram o foco da perda competitiva nos movimentos das cotações do dólar, recomendando compensá-la com ações de política cambial, defesa comercial e medidas específicas para as indústrias afetadas.

A verdade é que concluir que o País evolui para uma economia de serviços, replicando as sociedades pós-industriais, soa tão enganoso quanto insistir no ativismo cambial e no protecionismo comercial. Uma consulta às tabelas de ocupações e rendimentos por atividade do IBGE realça a esquisitice da tese da “economia de serviços”, ainda que os serviços já respondam por 70% do PIB e das ocupações. O que se constata é que essa “economia de serviços” é uma economia de serviços precários demais e dinâmicos de menos – trata-se antes de uma patologia derivada da baixa qualidade dos empregos e da mão de obra disponíveis.

Um terço dos trabalhadores do setor de serviços, no Brasil, é remunerado, em média, com menos de 2 salários mínimos mensais e metade não ganha mais de 3,5. Na economia americana, verdadeiramente pós-industrial, pelo menos um terço das ocupações remuneram, em média, dez vezes mais.

Também as “políticas industriais” de caráter protecionista parecem desprezar o processo de adensamento e alongamento das cadeias de produção industrial, com terceirizações, outsourcings e integrações típicos dos serviços.

A moral dessa história toda é que a polêmica da política industrial acaba se parecendo com o esforço para soltar um parafuso espanado – a insistência no método convencional só resulta em perda de energia.

É preciso formular e aplicar políticas para a indústria – como, aliás, é costumeiro em todos os cantos do mundo -, mas para a indústria de hoje, não a de ontem. Muitíssimo arriscado deixar a economia atrelada a fatores externos – no caso atual, cotações de commodities nos mercados externos e ingressos de recursos externos que vazam de um anômalo excesso de liquidez global.

Só que, para tanto, talvez não baste atacar distorções tributárias, trabalhistas, financeiras e burocráticas. Nada disso, nem em conjunto com taxas de câmbio desvalorizadas, impedirá perda de mercados, dentro e fora do País. Diante dos novos processos de produção, uma política competitiva eficaz terá também de alcançar o setor de serviços, abrindo espaço a empregos de mais qualidade, agregadores de valor à produção industrial.

Exemplo disso é o da indústria têxtil e de vestuário. Inútil competir com os chineses em tecidos básicos e camisetas padronizadas. Ou, como fez o governo, recentemente, baixar pacotes específicos de proteção. Mas, e se a indústria buscar mais valor, produzindo artigos de grife ou design diferenciado? Não é essa a explicação para o êxito internacional, com ou sem chineses, câmbio, carga tributária e todos os demais et cetera, da “moda praia” brasileira?

O poder de competição, nos tempos atuais, continua a depender do câmbio, de um ambiente propício aos negócios e de mão de obra qualificada. Depende, porém, mais ainda da integração das cadeias produtivas, nas quais a indústria desempenha o papel crucial de elo indutor de mais e mais partes interdependentes.

Revista ligada ao governo critica PSDB e diz que Serra 'está morto'

Folha de São Paulo

Em resenha sobre o livro "A Privataria Tucana", o site da "Revista de História da Biblioteca Nacional" criticou o PSDB e afirmou que o ex-governador José Serra (PSDB) está "aparentemente morto".

A biblioteca é vinculada ao Ministério da Cultura. Além de ser patrocinada pelo governo e pela Petrobras, a revista tem o nome da presidente Dilma Rousseff e da ministra Ana de Hollanda no seu expediente.

O texto foi ao ar no dia 24 de janeiro. As críticas a Serra foram repercutidas nesta quarta pelo jornal "O Globo".
O livro, escrito pelo jornalista Amaury Ribeiro Jr., acusa Serra de receber propinas de empresários que participaram das privatizações conduzidas pelo governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

Assinada por um dos repórteres da revista, a resenha diz que o livro joga "uma pá de cal na aura de honestidade de certos tucanos". Afirma ainda que ele mostra que o "jornalismo está vivo".

Em nota, a direção do PSDB criticou o texto. "O PSDB, que é o verdadeiro alvo dessa vilania, presa sua história e seus valores. Por isso, continuará combatendo o aparelhamento político-partidário desenfreado do Estado brasileiro e seus efeitos secundários indesejáveis", diz o presidente da legenda, Sérgio Guerra.

A associação que edita a revista admitiu o erro e pediu desculpas. De acordo com ela, o texto não foi avaliado pelos editores antes de ser publicado.

"O artigo é um posicionamento pessoal do repórter e contraria a linha editorial da revista, que não defende posições político-partidárias", diz o presidente da Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional, Jean-Louis de Lacerda Soares.

De acordo com ele, a Biblioteca Nacional não tem responsabilidade sobre os textos da revista.

A Folha entrou em contato com o Ministério da Cultura, mas ainda não obteve resposta.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
"O artigo é um posicionamento pessoal do repórter" justificou-se Lacerda Soares. Ok, mas alguém autorizou que a posição pessoal de um repórter fosse publicada. Ou ali se publica qualquer coisa, desde a mentira à qualquer outro absurdo, sem qualquer controle???!!! 

Quando o que está em jogo é a aplicação de dinheiro público, um mínimo de critério e de responsabilidade deve ser aplicado! Se a opinião pessoal de um repórter tem força para ser publicada, mesmo que contrarie a linha editorial da revista, ou esteja recheada de mentiras, é porque, ao contrário do que sustenta Lacerda Soares, a revista não tem linha editorial nenhuma, a não ser utilizar verba pública para defender posições político-partidárias.