Fernando Gabeira
Dilma e sua teoria do silêncio nacional sobre Cuba.
Quando uma partido político como o PT e seus aliados ganha uma eleição é razoável que conduza uma política externa de acordo com sua visão de mundo.
Não se pode esperar que Dilma tenha a respeito da Cuba a mesma posição que teriam seus adversários.
No entanto, uma política externa nunca é apenas a visão de um partido porque ele envolve o pais e procura, dentro de seus limites, expressar uma cultura nacional que transcende à estreiteza de uma só visão de mundo.
Tudo indicava que Dilma procurava esse equilíbrio quando concedeu o visto de entrada no Brasil à blogueira Yoani Sanchez.
O próprio assessor especial Marco Aurélio Garcia deixou bem claro que não havia nenhuma simpatia por Yoani Sanchez no governo. O Brasil fazia apenas o que lhe cabia: conceder o visto.
Pensei que Dilma, em Cuba, mantivesse a linha de equilíbrio entre a visão do PT e uma política nacional. Sua entrevista, entretanto, foi a de um militante político.
Ao falar de direitos humanos afirmou que não poderia ser algo ideológico, que cobrisse apenas um lado. Mas referiu-se apenas aos Estados Unidos, contradizendo sua premissa.
O maior desastre foi afirmar que não era possível denunciar, unilateralmente, os direitos humanos em Cuba porque todos os países têm telhado de vidro e nenhum pode atirar a primeira pedra.
Na visão de Dilma, só se pode falar de direitos humanos em termos coletivos. Na Síria, por exemplo, há um massacre semanal de opositores. Antes da ONU se pronunciar, inúmeros países, inclusive a Turquia, manifestaram sua condenação aos métodos repressivos do governo sírio.
Eles estavam certos pois a decisão da ONU acabou saindo influenciado por esse conjunto de manifestações isoladas.
Quando Dilma apontou Guantánamo para se omitir sobre Cuba, ela estava repetindo um dos mais equivocados métodos da esquerda. Quando acusada de algo, ela sempre se defende lembrando um crime do adversário, que considera maior que o dela.
Dilma poderia ter dito apenas que concedeu o visto para Yoni Sanchez e que não falaria do tema , a não ser de forma geral, na sua viagem à Cuba.
Com o visto cumpria os deveres nacionais, com uma referência indireta cumpria com sua fidelidade ao PT que vê a revolução cubana com os olhos românticos da década de 60.
Seu problema foi argumentar. No primeiro parágrafo ela se contradisse, recusando a estreiteza ideológica mas referindo-se apenas aos EUA.
O terceiro parágrafo foi um desastre. Todos desrespeitam os direitos humanos, logo ninguém pode denunciar, a não ser em termos coletivos.
A Rússia se recusa a condenar o governo sírio. Vamos ficar calados até que Putin se decida a dizer alguma coisa?
Emoções de esquerda com ideias de direita, lembrava Wilheim Reich, costumam levar ao totalitarismo. E a entrevista de Dilma revelou um pouco disso: emoções de esquerda, ideias de direita.
O coração presta um tributo aos seus ídolos cubanos; a cabeça formula uma teoria da proibição da luta nacional por direitos humanos, limitando a apenas a manifestações da ONU ou OEA.
Dilma é a presidente dos brasileiros e tem o apoio da maioria da população. É considerada muito inteligente e grande administradora.
Pertenço à minoria, todos sabem. Um jornalista búlgaro que escreveu a história de Dilma ligou no princípio da semana surpreso com suas hesitações em falar dos direitos humanos em Cuba.
Parece que na Bulgária vão compreender Dilma de outra maneira, daqui para a frente. Pelo menos lá há uma curiosidade em confrontar a imagem com as ações concretas.
No Brasil, ainda leva tempo.