quinta-feira, fevereiro 21, 2008

A desigualdade na Secretaria da Igualdade

Adelson Elias Vasconcellos

Nos bons tempos em que o bom senso e a decência ainda preservam alguns respingos de existência nas altas esferas do poder, quem chefiava um ministério era chamado de ministro, quem chefiava era Secretário. Não no governo Lula. Ali, crime contra o Tesouro virou “falha administrativa”, crime contra o decoro legislativo virou “erro companheiro”, e outras falcatruas legais passaram a ser chamadas de “alopramento”.

Claro que este vocabulário só foi implementado a partir de 2003 quando o crime organizado se instalou no poder federal, e a incompetência e a mentira passaram a fazer parte do cardápio de perfis dos ocupantes de cargos de confiança. Bastava ser sindicalista ou petista de carteirinha e pronto: nada mais se exigia do candidato, que logo era agraciado com a boquinha rica às custas do otário contribuinte e trabalhador brasileiro que, de contrapeso, era brindado com uma bolsa miséria de qualquer coisa.

Chegamos ao ponto de mais baixa iguaria da incompetência na administração que, por um longo período, o ministério foi ocupado em grande parte por “interinos”. Gente que apenas ocupa o posto vago para fazer parte do banquete da imoralidade institucional da nação.

Hoje, o senhor José Ignácio, dito presidente deste país, deu a prova eloqüente do quanto de cretinice somos governados. Dando posse ao substituto da ex-secretária Matilde Ribeiro da Secretaria de (des) Igualdade, que se mancou do crime cometido no uso dos tais cartões corporativos, já que fez uso de verba pública em benefício que, claro, em qualquer país sério e decente do mundo, seria motivo não apenas para demissão sumária, mas também para responder na Justiça a um processo penal.

Porém no governo do companheiro tais relevâncias não são consideradas. Muda-se o nome de crime para “falha administrativa” e pronto, fica tudo por isso mesmo.

Mas, do alto de sua arrogância, como também de sua benevolente mansuetude para com os companheiros, Lula resolveu acrescentar um tijolo na obra de desconstrução moral das institucionais públicas do país. O tal substituto, por ser deputado, não poderia apenas prestar um serviço à sociedade. Precisa ganhar um bônus especial. Através de uma medida provisória, o dito cujo passou à categoria de ministro chefe, vejam vocês de uma ... Secretaria. A secretaria permanece como tal, mas seu mandatário passa a ser ministro apenas para não precisar renunciar ao seu mandato parlamentar, e poder continuar espoliando aos contribuintes com uma renda extra de um mandato que não mais ocupa.

Ou seja, num único ato, Lula torna desigual o sujeito que deverá zelar pelas políticas de igualdade. Será que neste poço é possível descerem moralmente ainda mais ? De qualquer modo é possível sabermos que o consolo para se jogar a moral no lixo é ter os bolsos recheados com salários por cargos que não se ocupa. Haja cretinice neste antro pervertido que transformaram o governo do país!!! E os canalhas têm a petulância em falar de “igualdade” !

Duas novas notas sobre um mesmo tema dissonante

Adelson Elias Vasconcellos

Sabem aquele roubo na Petrobrás ? Pois então: ontem comentamos numa nota curta que a fedentina verdadeira ainda está por surgir. Dentre outras questões, colocamos: a quem interessava as ‘tais informações estratégicas”, lembram ? Hoje, a Agência Estado informa que, dentre as informações furtadas, encontravam-se detalhes sobre a mega-reserva de gás descoberta no campo de Júpiter. E, a segunda notícia, da Redação do Portal Terra informa que a lista de objetos furtados ainda pode maior do que a inicialmente se disse.

Sem querer ser adivinho, continua esquisita a lambança e suas notas iniciais. A empresa de segurança não é nenhuma porcaria. Trata-se de uma companhia de grande porte, de nível internacional e que não comprometeria seu bom nome em trapaças tupiniquins. Assim, entendo que, da forma como foi roubado O QUE foi roubado, somente seria possível com a conivência, para se dizer o mínimo, de gente de dentro da estatal e com interesses que sequer é bom pensar. Claro que compensações financeiras muito gordas devem ter assanhado apetites pouco honestos. Mas, ainda assim, espero que esta “entrega” de dados sigilosos com informações pra lá de estratégicas não acabe se transformando, ao final das investigações, em fedentina partindo do andar de cima.

Vamos ver onde isto tudo vai nos levar. Mas que a porcaria não é coisa para amadores, e tampouco o furto de equipamentos foi praticado apenas bandido do tipo ladrão de galinha, ah! que não foi mesmo isto não resta a menor dúvida. E até aqui, a reação muito tímida do governo é bastante estranha. Estranha e suspeita.

Detalhes sobre mega-reserva de gás estão entre dados furtados
Marcelo Auler, da Agência Estado

MACAÉ, RJ - Os dados sigilosos que estavam nos computadores da empresa Halliburton e que foram furtados tinham sido coletados nos trabalhos de sonda de perfuração NS-21 conhecida também como Ocean Clipper, responsável pela descoberta gigante no campo de Jupiter, anunciada no mês passado. A informação de que os dados furtados são destas sondas foram levantadas pela investigação da Polícia Federal e já foram confirmadas em Macaé.O campo de Jupiter representa uma extensa reserva de gás natural da bacia de Campos e é a descoberta mais recente da Petrobras.

A sonda pertence à companhia americana Diamond, representada no Brasil pela filial Brasdrill, e trata-se de uma das duas únicas unidades contratadas pela Petrobras com capacidade para perfurar poços abaixo da camada de sal, em uma área muito profunda, abaixo do leito marinho. A descoberta de Júpiter foi comemorada pela estatal como a confirmação de que o risco exploratório da região é extremamente baixo.

Segundo as testemunhas, os equipamentos da consultoria Halliburton deixaram a plataforma no dia 18 do mês passado, mesmo dia em que a sonda interrompeu as atividades no bloco BM-S-24, e chegaram ao Rio no dia 25, onde ficaram armazenados no terminal Poliportos, na zona portuária.

No dia 29 de janeiro, os equipamentos seguiram rumo a Macaé (RJ) em um caminhão da transportadora Transmagno, que é monitorado por rastreador. O motorista passou a noite no posto Mucelin, em Itaboraí, na região metropolitana do Rio, seguindo determinação da transportadora de não viajar após às 22 horas. A polícia sabe que não houve desvio no trajeto do caminhão e que o posto tem segurança particular para proteger os caminhões que passam a noite em suas instalações.

Caso Petrobras: lista de objetos furtados seria maior
Redação Terra

Além dos quatro laptops e duas memórias de computador, mais um computador, uma impressora e um gravador de DVD foram furtados do contêiner da Petrobras que continha dados sobre o campo de gás de Júpiter. A informação, que estaria no boletim de ocorrência feito pela polícia, foi divulgada pelo Jornal Nacional.

Segundo o programa, 24 pessoas serão interrogadas até a semana que vem pela Polícia Federal de Macaé, no Rio de Janeiro. O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, disse que não sabe se o furto foi um caso de espionagem.

A Polícia Federal informou ontem que apenas os quatro laptops e dois pentes de memória haviam sido roubados.

Jefferson apresenta defesa e põe Lula como testemunha número 1

Rodrigo Rangel

O ex-deputado Roberto Jefferson ajuizou nesta terça-feira (19) sua defesa prévia no processo do mensalão e indicou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como sua testemunha número um. Jefferson apresentou um rol de testemunhas com 33 nomes. A lista, encabeçada por Lula, inclui o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, além de nomes de candidatos à sucessão presidencial de 2010: o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o deputado federal Ciro Gomes. Por lei, pessoas indicadas como testemunhas em processos judiciais são obrigadas a comparecer à Justiça - nesse caso, ao Supremo Tribunal Federal, onde corre a ação penal contra os acusados de participação no mensalão. O presidente Lula, por ter foro privilegiado, poderá marcar data e hora do depoimento.

Na defesa prévia, Roberto Jefferson nega ter recebido propina do PT. Sustenta que os R$ 20 milhões repassados pela cúpula petista ao partido eram parte de um acordo para as eleições municipais de 2004 - e não pagamento pelo apoio aos projetos do governo no Congresso.

Ao longo das dez páginas da defesa, o ex-deputado dá seguimento à estratégia de envolver o presidente no processo do mensalão. Além de arrolá-lo como testemunha, ele volta a questionar a participação de Lula no escândalo, seguindo o raciocínio de que, se o Supremo decidiu processar integrantes do primeiro escalão do governo sob a acusação de comprar apoio político no Congresso, a co-participação do presidente da República seria "óbvia". Os advogados de Roberto Jefferson já haviam feito esse questionamento ao STF antes, num embargo de declaração ainda não apreciado pela Corte.

Na defesa prévia, o ex-deputado repete que, antes de estourar o escândalo, avisou o presidente sobre o mensalão. Agora, ele anexou ao processo o que diz ser a comprovação de que, mesmo alertado, Lula nada fez. Trata-se de certidões do Palácio do Planalto atestando que, após o aviso ao presidente, não foram abertos processos internos para investigar a denúncia. As certidões foram solicitadas ao palácio pelos advogados de Jefferson. "Com surpresa, como evidenciam os documentos anexos, informa-se por certidão que nada foi localizado a respeito", diz a defesa prévia. Sem maiores explicações, Jefferson também inclui no rol de testemunhas o nome de Waldomiro Diniz, pivô do primeiro grande escândalo do governo Lula. O estratagema está lançado.

Fidel conduziu regime derrotado pela História

William Waack, Portal G1

Não dá para se falar de Fidel como se fosse um morto, ainda que as idéias que ele defende tenham sido sepultadas em quase todas as partes do mundo. O comandante em chefe deixa de comandar mas, conforme escreve, continuará sendo ouvido.

Lembro-me de algumas ocasiões nas quais estive, como jornalista, nas cercanias de Fidel. Uma das mais divertidas foi durante uma conferência de cúpula ibero-americana em Oporto, Portugal. Fidel passava carrancudo pelo bolo dos jornalistas quando foi avisado por nós, repórteres, que o ditador Pinochet acabara de ser confinado à prisão domiciliar enquanto visitava a Inglaterra.

El comandante parou, virou-se para nós com um sorriso maroto e disse: “pero esto, sí, me interesa”. Nem ele disfarçou o motivo: se a moda de mandar prender ditador latinoamericano em viagem pega….

Como enviado especial a Berlim Oriental estava no camarote da imprensa dentro do Palácio do Povo, em outubro de 1989 – o último grande encontro de todos os líderes comunistas amigos da então URSS. Menos de três anos depois, estavam todos fora da foto – menos Fidel.

Sobreviveu ao maior coveiro de regimes socialistas na História recente, o Papa João Paulo II. Em visita ao Vaticano, Fidel não se importou nem um pouco em posar para a célebre pintura do Juízo Final. Sua frase mais famosa foi pronunciada ainda antes de tomar o poder em Cuba: “a História me absolverá”.

Dificilmente Fidel escapará de um julgamento bastante duro. O teste é saber que capacidade o regime cubano terá de sobreviver a quem o criou e conduziu com mão de ferro. Se a História nos ensina qualquer coisa, os exemplos a mão são contundentes. Nenhum dos regimes socialistas (a Coréia do Norte é a exceção) sobreviveu a seus criadores.

Da mesma maneira, nenhum regime socialista “reformou-se” e continuou socialista (a China que o diga). As transições parecem ter sido ditadas a) pelo tipo de sistema que o país da órbita soviética vivia antes de ter sido sovietizado; b) por cultura e religião. A regra é simples, mas ajuda em boa parte a entender os caminhos que foram tomados pelas ex-repúblicas soviéticas na Europa do leste, por exemplo, ou na Ásia Central (ou no Cáucaso).

Fidel conduziu até o ponto de quase ruptura um regime derrotado pela História. Para mim, justificar a repressão a idéias ou opiniões dissidentes com base nos avanços sociais é absolutamente inaceitável. Nossos princípios, especialmente os de direitos humanos, têm de ter aplicação universal. Caso contrário, não são princípios.

Da mesma maneira, é possível entender quais circunstâncias (especialmente a burrice de seguidas administrações americanas) levaram Fidel a percorrer os caminhos de seu socialismo de um homem só. Mas “o embargo”, “as conspirações da CIA” não servem mais, hoje, para tornar simpático um regime interessado apenas na própria sobrevivência.

Sem dúvida Fidel fez História. E foi derrotado por ela.

E os mensalões continuam...

Adelson Elias Vasconcellos

Muita gente se pergunta o que leva um sujeito aparentemente decente a jogar no lixo seus escrúpulos para se aferrar com unhas e dentes a um carguinho federal. Pois bem, num país em que os gigolôs da nação, leia-se TODA A CLASSE DE POLÍTICOS ORDINÁRIOS QUE INFESTAM a vida pública, não tem o menos interesse em educar o povo mantendo-o na escuridão da ignorância e da desinformação, e que estes mesmos cafajestes fazem questão de manter os processos penais atrasados no intuito de beneficiar-se a si próprios tão somente, uma vez que isto lhes concede o bolsa impunidade eterna, permitindo-os expropriarem a nação com tamanha ganância, fica fácil entender o que tais cargos lhes é possível conceder: a abertura do cofre donde jorram generosas e indecentes “doações” financeiras, dinheiro arrancado mercê a escravidão de um povo e para o qual os vagabundos não moveram uma só palha para produzir,

Nas duas notícias seguintes fica compreensível o desespero do governo federal diante do fim da CPMF. Se com 40 bilhões a menos, anualmente, em seus cofres, os cretinos fazem o que vocês irão ler a seguir, imaginem se a CPMF tivesse sido aprovada. E se com tamanha arrecadação de impostos a saúde, educação, infra-estrutura e segurança vão de mal a pior, culpe-se exclusivamente esta cambada que se instalou no poder. São bilhões e bilhões de reais sugados do povo brasileiro que, ou são jogados na lata do lixo do desperdício ou vão acabar desviados para pomposa e “secretas” contas bancárias pessoais destes energúmenos.

Claro que eles sempre têm uma desculpa imunda para aplicarem seus rombos e assaltos aos cofres públicos. Acredite se quiser...

Assim, se justifica que no inquérito do mensalão, o ex-deputado Roberto Jefferson tenha arrolado como sua testemunha de defesa n° 1 o presidente Lula. Afinal foi o único beneficiado de toda a lambança...

Ministério do Trabalho favorece o PDT com repasse de R$ 50 milhões
Comandado pelo presidente do PDT, Carlos Lupi, o Ministério do Trabalho e Emprego do governo Lula vem beneficiando a sigla. De acordo com reportagem da Folha de S. Paulo desta quarta, foi aprovado repasse de nada menos que R$ 50 milhões a pelo menos 12 entidades ligadas ao PDT que realizam treinamento de jovens em vários Estados do país.

Dos 30 convênios firmados pela pasta – um total de R$ 111,5 milhões – quase a metade do dinheiro seguirá só para 12 entidades dirigidas por parentes, doadores de campanha ou amigos dos políticos do PDT.

Escândalo à vista: Câmara reforma 96 apartamentos a R$ 307,6 mil cada
A Câmara dos Deputados iniciou reforma em 96 apartamentos funcionais que se encontram atualmente abandonados. Em média, serão gastos com cada imóvel R$ 307,6 mil – totalizando mais de R$ 29,5 milhões. A obra deve avançar até o próximo ano. Na licitação estão previstas as instalações de banheira, triturador de alimentos, sistema de aquecimento solar, de cabeamento para antena coletiva, televisão por assinatura e telefonia via internet, entre outros.

"O valor não está dentro dos padrões. Mas é claro, se você quiser mármore em tudo, o preço vai ficar muito alto", diz Alexandre Langer, dono de imobiliária. A Câmara diz que os gastos não estão elevados, e que serão compensados com a economia em auxílio-moradia (cerca de R$ 3 mil por deputado).

Leis, cartões e ética

Roberto DaMatta, site do Instituto Millenium
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Uma medida provisória, assinada pelo presidente Lula no dia 21 de janeiro, proibiu a venda de bebidas alcoólicas nas margens das rodovias federais. Tudo indica que a lei funcionou, diminuindo os acidentes mortais. Entretanto, as liminares mostram que muitos se consideram injustiçados. Temos, como sempre, um recorrente dilema: como instituir uma lei mais rigorosa numa democracia, num regime em que os cidadãos são legalmente livres, iguais e têm o direito de buscar o seu bem-estar? No Brasil, esse "bem-estar" inclui, entre outras coisas, a velha e boa "cervejinha gelada" que os usuários supõem - como revela uma pesquisa que venho realizando com o Futura Pesquisa no Estado do Espírito Santo - atuar de modo relativo. Todos acreditam que algumas pessoas são mais afetadas que outras, de modo que a proibição geral comete a injustiça de colocar santo e pecador na mesma panela. Dentro dessa lógica, legislações universais seriam impossíveis, pois todas conteriam uma semente de injustiça.

Como, num ambiente de liberdades individuais, fazer uma lei e dela extrair políticas públicas eficientes? Seja qual for a sociedade, o dilema reapresenta a questão dos valores. O problema das prioridades que articulam os vários interesses, subordinando-os uns aos outros e, claro está, agüentando as conseqüências, porque tudo neste mundo produz resultados positivos e negativos. As linhas divisórias do criminalizado são sempre - estamos aprendendo a duras penas - arbitrárias.

Mais: todas são sujeitas ao charlatanismo, à malandragem e à desobediência. Mas se não há lei que não produza sua contrapartida, ela ao menos conduz a uma reflexão que não tem sido feita no Brasil. Refiro-me ao nosso gosto pelas leis, e o nosso descaso pelas campanhas educacionais que, discutindo as implicações e o significado dos regulamentos, substituem a polícia e a reação punitiva pela consciência preventiva. Que a lei seja implementada, é claro, mas que - a seu lado - seja realizado um amplo debate sobre o modo como ela vai afetar e interferir nos nossos comportamentos mais habituais ou rotineiros. Sem tal dialogo, continuaremos a mudar tudo pela lei, deixando intactas as práticas sociais e os hábitos que a lei tem como alvo influenciar, coibir e mudar.

Em sociedade, é comum querer uma coisa e realizar outra. No Brasil, o fim da escravidão não produziu apenas cidadãos negros libertos, produziu principalmente uma multidão de clientes e dependentes pessoais de seus ex-donos, que passaram de senhores a patrões. A mesma lógica surge nas nossas patéticas tentativas de acabar com a chamada "burocracia" que demanda papelada trabalhosa e as incríveis "provas" de residência e até de vida. Por isso, a carteirinha acaba valendo mais do que a pessoa, pois, sem o "papel", somos simplesmente "indivíduos" desqualificados. Quantos governos você recorda, caro leitor, que iam acabar com a corrupção e inventaram o mensalão? Que iam liquidar o crime e rotinizaram o escândalo cujo centro foi sempre o axioma segundo o qual "o Estado é nosso" e não o velho e famoso "o Estado somos nós"? No último caso, a responsabilidade sobre a coisa pública era absolutamente do Rei; no brasileiro, ele é sempre de um outro: dos jornais, da oposição, e de leis mal escritas ou ainda não desenhadas!

Adotamos o cartão de crédito corporativo como mecanismo para simplificar os gastos de pessoas teoricamente responsáveis pela boa ordem e pelo gerenciamento transparente da coisa pública e, ao fim e ao cabo, criamos o justo oposto. Sou favorável a uma CPI que remonte aos tempos de Dom João Charuto. Mas espero que se respeite a minha inteligência e, sobretudo, a minha sensibilidade, e não se culpe o cartão ou os seus regulamentos pelos desmandos do governo com o seu uso e distribuição. O uso do cartão, como os outros instrumentos de demonstração de despesas modernos - automáticos e precisos -, formam hoje uma das pás mais contundentes do moinho satânico do liberalismo entre nós. Pois os governantes podem dizer que nada sabem, mas os extratos eletrônicos não mentem. Tudo indica que os novos (e velhos) donos do poder ainda não compreenderam que o liberalismo globalizado do real exige uma inesperada coerência não apenas entre o que se diz e o que se faz, mas entre o que se diz e o que se gasta. Não dá mais para gastar recursos públicos como antigamente, roubando de locais inacessíveis do povo eleitor. Quando o econômico engloba o político, as contas surgem como mais básicas do que as idéias vagas e os apelos populistas. Mais valem os programas do que os políticos que os apresentam; mais valem os políticos que, no Parlamento, são coerentes com o que é do povo, do que os que falam em seu nome, mas compram jóias, flores e - PQP! - tapioca com o nosso dinheiro. Haja paciência e tome ética!

A cruzada contra o individualismo

por Marcelo Scotton, site Diego Casagrande

O tenista Gustavo Kuerten está encerrando, aos 31 anos de idade, sua vitoriosa carreira. É um talento uno que inspirou até quem não joga tênis. Eu era um daqueles aficionados pelo tênis que perdiam 2, 3 ou até mais horas assistindo àquelas partidas épicas de 5 sets.

Kuerten só não fez mais sucesso porque, no Brasil, realmente ninguém gosta de tênis. O tênis é um esporte individual. Assim como nas preferências políticas e ideológicas, os brasileiros são mais adeptos ao coletivo. O individualismo, o mais ocidental de todos os valores, no Brasil, sempre foi mal visto.

Muito provavelmente, essa ojeriza ao individualismo tenha berço na ignorância do conceito da palavra. O individualismo, conforme alguns confundem por aqui, flertaria com o egoísmo, com a mesquinharia, com o orgulho. Esse delírio é comum não só aos iletrados, mas também a muitos “intelectuais” coletivistas. Também costuma-se associar o individualismo -- desta feita, de maneira correta -- ao capitalismo, “pecado mortal” em nosso país. Ao invés de criarmos uma cultura que incentive os homens a enriquecerem, cultuamos o “pobrismo”.

As bases do individualismo estão fundamentadas na igualdade, na liberdade e na crença nos conceitos de propriedade privada. O individualismo é a afirmação e o livre-arbítrio do indivíduo perante a sociedade e o Estado, que não tem – nesta ideologia – controle sobre o indivíduo, pois este despreza as hierarquias sociais existentes. É a negação do sentimento de grupo. Bem ao contrário do coletivismo comunista, que subjugou individualidades durante seu regime, por exemplo, na União Soviética – e hoje subjuga em Cuba.

Para ilustrar melhor, podemos nos lembrar como o individualismo foi soberbamente retratado em três clássicos do cinema contemporâneo, como em “Forrest Gump”, “O Náufrago” (ambos com Tom Hanks), e “A Procura da Felicidade” (com Will Smith). Recomendo assisti-los.

No campo religioso, dirimimos quaisquer dúvidas sobre a nobreza destes valores que tanto os coletivistas recriminam. Basta lembrarmos dos princípios do individualismo cristão, onde podemos até alcançar Jesus Cristo pela palavra ou pelo exemplo do próximo, mas só seremos realmente cristãos quando descobrirmos isto por nós mesmos. Ou então a salvação prometida por Jesus, que consiste na busca – individual – pela verdade, e na responsabilidade pelos nossos próprios atos.

Quando esteve na pior, seriamente lesionado, sem disputar torneios, Gustavo Kuerten foi esquecido. Agora, no momento da despedida, onde as lembranças de um passado glorioso de vitórias e títulos fragilizam a todos e, as lágrimas escorrem para viver as emoções da despedida, bem, aí todos aparecem. Até Lula tirou uma casquinha, pegando carona na despedida de Kuerten, prestando-lhe “homenagens”. Proselitismo e populismo, como vêem, não tem hora nem lugar para acontecer. Mas é o que o coletivo (o povo) gosta de ouvir. Por essa, o tenista de “simples” – modalidade individualista do tênis – Guga poderia ter passado incólume.

Para empresários, projeto de reforma tributária é tímido

Eles criticam prazo para desoneração e tentarão mudanças no Congresso

Ribamar Oliveira, Estadão

A proposta de reforma tributária do governo foi considerada muito tímida por empresários que se reuniram com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ontem. Eles criticaram, principalmente, o longo prazo de transição para a total desoneração de exportações e investimentos, que vai até 2016, e a manutenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e do Imposto sobre Serviços (ISS).

Mantega informou que a proposta será enviada ao Congresso no dia 28. Amanhã, os detalhes serão apresentados ao Conselho Político do governo. O ministro garantiu que a recriação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) não está no projeto.

”Radicalizar”Após o encontro com Mantega, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro, disse que o projeto retira o viés anticrescimento do sistema tributário e representa "um inquestionável avanço". Mas avaliou que ficou "bastante aquém" do que a indústria gostaria.

"É preciso ter mais ambição. É preciso avançar mais, radicalizar na simplificação, encurtando o período de transição, sobretudo na perspectiva de desoneração ampla dos investimentos." Monteiro anunciou que os empresários tentarão "radicalizar" o projeto durante sua tramitação no Congresso.

A proposta atual prevê a criação de um imposto sobre valor adicionado (IVA) federal, que substituirá a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), a Contribuição para o Programa de Integração Social (PIS) e a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), que incide sobre os combustíveis.O governo desistiu de incluir o IPI no IVA, o que frustrou os empresários. A justificativa é que o IPI é um tributo seletivo, com alíquotas elevadas para alguns produtos, como bebidas e cigarros, o que dificultaria sua fusão no IVA. Outra razão para não fazer a mudança é o efeito negativo que teria sobre a Zona Franca de Manaus.

O projeto do governo prevê ainda a incorporação da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) ao Imposto de Renda e a unificação das legislações e alíquotas do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que passará a ser cobrado no destino. Os empresários não gostaram da decisão do governo de não incorporar o ISS ao novo ICMS.

Mantega disse que a proposta busca compatibilizar os diferentes interesses da sociedade, o que permitirá que seja aprovada pelo Congresso. "O projeto só terá sentido se for sustentado por toda a sociedade."

O testamento de Fidel

Editorial do Estadão

Não foram poucos os observadores que estranharam o fato de Fidel Castro apresentar-se como candidato a uma das 614 cadeiras da Assembléia Nacional do Poder Popular, há pouco menos de um mês. Para muitos, isso só fazia sentido se o ditador pretendesse reeleger-se presidente do Conselho de Estado, como vinha acontecendo desde 1976, depois de ter exercido o cargo de primeiro-ministro durante os 18 primeiros anos da revolução cubana. Era óbvio, porém, que o estado de saúde de Fidel não lhe permitiria exercer o cargo, por isso mesmo entregue interinamente a seu irmão Raúl Castro desde julho de 2006.

Nesta terça-feira, Fidel Castro abriu o jogo. Em mensagem publicada no Granma, comunicou aos cubanos que "não pleitearei nem aceitarei - repito -, não pleitearei nem aceitarei o cargo de presidente do Conselho de Estado e Comandante-em-Chefe. E explicou porque, apesar de debilitado pela doença, não comunicou sua decisão há mais tempo: "Prepará-los para minha ausência, psicológica e politicamente, era minha primeira obrigação, depois de tantos anos de luta." Não se poderia esperar nada diferente de um autocrata que criou e nutriu o culto à sua própria personalidade e subjugou uma nação a seus dogmas e vontades durante 49 longos anos.

Seu herdeiro, Fidel nomeou há muitos anos. É seu irmão Raúl. Os rumos de Cuba, no que depender dele, também estão traçados e são os de sempre. Para mantê-los, confia nos quadros da velha guarda - naqueles que combateram a ditadura de Batista nas montanhas, para que ele pudesse implantar a sua própria tirania - "e na geração intermediária que aprendeu conosco os elementos da complexa e quase inacessível arte de organizar e dirigir uma revolução". Esses quadros, afirmou, "contam com a autoridade e a experiência para garantir a sucessão".

Há cerca de dez anos, quando se tornaram insuportáveis as agruras causadas pela interrupção da mesada que Cuba recebia da União Soviética, Fidel ensaiou uma modesta abertura econômica na Ilha, mas sem permitir a menor possibilidade de que houvesse uma fissura na couraça política da ditadura. Não gostou da experiência e voltou atrás. O testamento político que acaba de divulgar, se cumprido à risca, petrificaria Cuba por mais meio século. E esse não parece ser o plano de Raúl Castro.

Não se deve esperar, no futuro previsível, grandes aberturas no regime castrista. Na sessão da Assembléia Nacional que se inicia no domingo, os homens que constituem o núcleo principal do castrismo - Raúl, o vice-presidente Carlos Lage, o presidente da Assembléia, Ricardo Alarcón, e o chanceler Felipe Pérez Roque - certamente cumprirão o ritual de vassalagem ao ditador que se desapega dos cargos. Mas, mesmo fora da estrutura formal de poder - do Estado e do partido -, Fidel continuará tendo uma influência notável e, até sua morte, talvez decisiva sobre os destinos de Cuba.

Desde que substituiu o irmão, Raúl Castro tem manifestado publicamente o desejo de fazer reformas econômicas e de iniciar um diálogo diplomático com os principais países do Ocidente, inclusive os Estados Unidos. Quando apresentou seu programa de governo, por exemplo, surpreendeu ao reconhecer que os salários pagos na Ilha são insuficientes para uma subsistência digna, que são necessárias reformas estruturais e que a economia tem de se abrir para o capital estrangeiro. Diz-se disposto a acabar com o "excesso de proibições e de burocracia" e a permitir o comércio de automóveis e imóveis. Depois disso, propôs um debate nacional sobre os problemas econômicos de Cuba, do qual participaram cerca de 5 milhões de pessoas.

Também manifestou o desejo de normalizar o relacionamento de Cuba com a União Européia - abalado desde a prisão de 75 dissidentes - e sugeriu a abertura de um diálogo direto, sem intermediários, com o presidente George Bush.Embora tivesse condicionado todos esses avanços à manutenção do regime castrista - ou seja, das restrições às liberdades fundamentais -, as reformas não aconteceram. "Todos gostaríamos de marchar mais rápido, mas nem sempre é possível", disse Raúl à Assembléia.

O obstáculo, como se sabe, era Fidel. E continuará sendo, enquanto ele for "uma arma a mais do arsenal, com a qual se poderá contar".

A lanterna na proa para a crise americana

Paulo Guedes, Revista Época

A luz que a experiência nos dá é a de uma lanterna na popa, que ilumina apenas as ondas que deixamos para trás”, lamenta Samuel Coleridge, no registro de Roberto Campos, na introdução de suas extraordinárias memórias, A Lanterna na Popa (1994), e de Barbara Tuchman, no epílogo de sua A Marcha da Insensatez (1984). Já Alan Greenspan, em seu interessante A Era da Turbulência (2007), recorre a um insight de Winston Chuchill – segundo o qual, “quanto mais se recua na observação do passado, mais se avança na visão de futuro” – para anunciar com sua lanterna na proa: “Temos muito a deduzir sobre a economia dos Estados Unidos e do mundo nas décadas vindouras”.
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Uma boa interpretação de um momento histórico exige tanto a lanterna na popa quanto na proa. Pois o tempo é uma dimensão fundamental em eventos econômicos. Há enormes defasagens entre causas e efeitos, importantes para uma interpretação correta desses eventos. Em que medida o “recessivo” programa de estabilização da memorável dupla Campos e Bulhões foi responsável pelo “milagre” econômico de nosso simpático Delfim Netto? Da mesma forma, até onde o “brilhante e formidável” Plano Cruzado resultou na “irresponsável” seqüência da moratória externa, da explosão inflacionária e do seqüestro da poupança? E quanto deve a popularidade atual do presidente Lula aos ventos favoráveis de um ininterrupto período de cinco anos de crescimento econômico global?

A crise americana exige iluminação abrangente. A lanterna na popa registra uma recuperação cíclica e uma reestruturação corporativa da economia dos Estados Unidos nos anos 80, que se estendeu em um poderosíssimo ciclo de crescimento deflagrado por inovações tecnológicas e pelas forças da globalização nos anos 90. Esse prolongado período de excepcional crescimento nos Estados Unidos perdeu intensidade na virada do século. Mas as forças deflacionárias resultantes das reduções de custos trazidas por ondas de novas tecnologias, pelo aumento da produtividade, pela competição de preços em mercados globais, pela mão-de-obra barata e pela colossal taxa de poupança eurasianas permitiram a Alan Greenspan exorbitar na condução de uma política monetária e creditícia excessivamente expansiva à frente do Fed, o banco central americano.

Greenspan postergou o declínio, mas trouxe a exaustão. Fez a economia americana correr dopada, formando bolhas sucessivas nas Bolsas, nos imóveis e nos mercados de crédito. Greenspan sacou contra o futuro, mas escapou da detecção de sua índole inflacionista graças exclusivamente a fatores externos. Os excessos que promoveu são hoje visíveis em toda parte, e exibem suas digitais. Acendendo agora a lanterna da proa, vemos pressões de custos exercidas por aumentos de preços dos recursos naturais e das matérias-primas em geral; pela desaceleração do aumento da produtividade, após a difusão de novas tecnologias; pela convergência de preços trazida pela globalização; e pela eventual absorção do excesso de mão-de-obra e poupança asiáticas.Adverte Greenspan: “O ônus de gerenciar essa mudança de ambiente recairá sobre o Federal Reserve. O árbitro final da inflação é a política monetária. Tudo dependerá da reação do Fed. A maneira como responderá ao ressurgimento da inflação terá efeitos profundos sobre o desempenho das economias americana e mundial em 2030”. Pergunto eu: apenas em 2030? E se tudo isso já estivesse ocorrendo quando Greenspan deixou o cargo? Entenderíamos por que seu sucessor, Ben Bernanke, muito preparado quando estava na popa, parece agora tão assustado com a lanterna na proa.

O MAGNATINHA

por Ralph J. Hofmann, site Diego Casagrande

Cremos que o biólogo Lulinha deve estar aproveitando a tranqüilidade e o silêncio das gélidas paisagens da Antártida para entre um e outro grito da mãe lembrando-o de vestir as galochas e o blusão antes de sair do abrigo, e as entrevistas com pingüins, para avaliar novos lances para sua Gamecorp.

Chegou o momento de vender a empresa de novo. Consta que seu IBOPE é superior ao da MTV.
É, mas a MTV aparentemente fatura setecentos milhões de reais. A Gamecorp fatura sete milhões de reais.

Ou seja, a MTV sabe produzir programas e sabe vender anúncios. A Gamecorp sabe apresentar o que a audiência quer. Mas entende bulhufas do resto.

Na realidade só sabe se vender. E isto com intensos interesses políticos por detrás. E lá estava Lula, o Pai, comparando seu filho com Eike Batista e outros.

E se Lulinha não está tendo lucro na Gamecorp, de onde está tirando dinheiro para se tornar um magnata da pecuária?

Será que o dinheiro da venda da Gamecorp espichou tanto? Ou é este dinheiro que está faltando para a Gamecorp se tornar rentável?

É difícil transformar uma orelha de jumento numa bolsa de seda. Mas com as metamorfoses ambulantes o caso é outro. Tudo é viável.