Fritz Utzeri, jornalista, Jornal do Brasil
O crime no Brasil compensa, mas delinqüente por delinqüente prefiro os que atuam em São Paulo (daqui a pouco eu conto) ao ex-deputado José Janene, notório mensaleiro do PP, o partido daquela "reserva moral" chamada Paulo Salim Maluf. Janene sofre (?) de uma grave "miocardiopatia" e após três mandatos (12 anos de não trabalho no total) embolsará polpudos R$ 12.847,20 mensais de aposentadoria. Leu, cidadão trouxa que trabalhou a vida inteira para receber a miséria da "aposentadoria" do INSS e ainda ser responsabilizado pelas mazelas do país? Entendeu vagabundo?
Janene protocolou sua aposentadoria assim que a CPI o incluiu entre os mensaleiros e uma semana antes de o Conselho de Ética abrir processo contra ele. A doença não o impediu de freqüentar festas e trabalhar intensamente na campanha eleitoral do ano passado, em seu Estado, o Paraná. Junto com Janene, outros cinco mensaleiros obtiveram ricas aposentadorias, como Roberto Jefferson, cassado e "premiado" com cerca de R$ 9 mil mensais.
Durante 478 dias, Janene ficou licenciado, sem dar posse ao suplente, recebendo salário e verbas, num total de aproximadamente R$ 700 mil (se considerarmos 14 salários e verbas de um ano, mais quatro do outro). No final, para coroar o triunfo do malfeito, Janene - como a maioria dos mensaleiros - foi absolvido pelo plenário. O ex-deputado Antonio Carlos Biscaia, um dos raros exemplos de probidade no que restou do PT, presidia a Comissão de Constituição e Justiça e opôs-se à aposentadoria de Janene. Biscaia não se reelegeu, deixado à deriva por seu partido, que não tem interesse em integridade.
Contem essa história para seus filhos antes de dormir...
Mas e o crime de São Paulo? Sempre que viajava para cobrir uma crise qualquer, uma primeira conversa era com motorista de táxi. Eles são formadores de opinião e antenados devido ao contato com o público. Estava num táxi em São Paulo, semana passada, e ao passar pelo cemitério do Araçá, tive a curiosidade despertada por grandes e reluzentes rolos de arame farpado sobre toda a extensão dos muros da necrópole. Parecia um presídio de segurança máxima, mas ao que me consta, mesmo num lugar estranho como a paulicéia, os inquilinos do Araçá, igual a seus congêneres em todo o mundo, não costumam pular muros para fugir do além (a rigor, a dar ouvidos a quem acredita em almas do outro mundo, se quisessem, poderiam simplesmente atravessá-los).
Perguntei qual a razão de tal aparato e fui informado de que se tratava de evitar assaltos nos cemitérios. Há algumas semanas, o estilista Ronaldo Ésper, famoso por desenhar os vestidos de noiva mais in das paulistanas, foi pego com a mão na cumbuca, ou melhor, em dois vasos de mármore que carregava ao sair do Araçá.
Nem depois de morto a gente deixa de ser assaltado. Mas a coisa vai bem além do roubo post mortem (habitual nos cemitérios brasileiros, inclusive no Rio) de dentes de ouro, jóias ou até sapatos. Segundo o motorista (vendo o peixe que me vendeu), há quadrilhas que vão aos velórios, observam os caixões, escolhem os esquifes mais caros e luxuosos, anotam o túmulo e, na calada na noite, retiram o morto de seu caixão, jogando-o de volta à cova e levando o féretro que, uma vez limpo e recondicionado, poderá ser novamente vendido à família de outro falecido. Os bandidos, se ousarem (e como ousam aqui!), ainda poderão alegar que estão otimizando o uso dos ataúdes e protegendo as florestas.
E não aparece nem uma só alma penada para puxar o pé dos Janenes e dos ladrões de caixão...
O crime no Brasil compensa, mas delinqüente por delinqüente prefiro os que atuam em São Paulo (daqui a pouco eu conto) ao ex-deputado José Janene, notório mensaleiro do PP, o partido daquela "reserva moral" chamada Paulo Salim Maluf. Janene sofre (?) de uma grave "miocardiopatia" e após três mandatos (12 anos de não trabalho no total) embolsará polpudos R$ 12.847,20 mensais de aposentadoria. Leu, cidadão trouxa que trabalhou a vida inteira para receber a miséria da "aposentadoria" do INSS e ainda ser responsabilizado pelas mazelas do país? Entendeu vagabundo?
Janene protocolou sua aposentadoria assim que a CPI o incluiu entre os mensaleiros e uma semana antes de o Conselho de Ética abrir processo contra ele. A doença não o impediu de freqüentar festas e trabalhar intensamente na campanha eleitoral do ano passado, em seu Estado, o Paraná. Junto com Janene, outros cinco mensaleiros obtiveram ricas aposentadorias, como Roberto Jefferson, cassado e "premiado" com cerca de R$ 9 mil mensais.
Durante 478 dias, Janene ficou licenciado, sem dar posse ao suplente, recebendo salário e verbas, num total de aproximadamente R$ 700 mil (se considerarmos 14 salários e verbas de um ano, mais quatro do outro). No final, para coroar o triunfo do malfeito, Janene - como a maioria dos mensaleiros - foi absolvido pelo plenário. O ex-deputado Antonio Carlos Biscaia, um dos raros exemplos de probidade no que restou do PT, presidia a Comissão de Constituição e Justiça e opôs-se à aposentadoria de Janene. Biscaia não se reelegeu, deixado à deriva por seu partido, que não tem interesse em integridade.
Contem essa história para seus filhos antes de dormir...
Mas e o crime de São Paulo? Sempre que viajava para cobrir uma crise qualquer, uma primeira conversa era com motorista de táxi. Eles são formadores de opinião e antenados devido ao contato com o público. Estava num táxi em São Paulo, semana passada, e ao passar pelo cemitério do Araçá, tive a curiosidade despertada por grandes e reluzentes rolos de arame farpado sobre toda a extensão dos muros da necrópole. Parecia um presídio de segurança máxima, mas ao que me consta, mesmo num lugar estranho como a paulicéia, os inquilinos do Araçá, igual a seus congêneres em todo o mundo, não costumam pular muros para fugir do além (a rigor, a dar ouvidos a quem acredita em almas do outro mundo, se quisessem, poderiam simplesmente atravessá-los).
Perguntei qual a razão de tal aparato e fui informado de que se tratava de evitar assaltos nos cemitérios. Há algumas semanas, o estilista Ronaldo Ésper, famoso por desenhar os vestidos de noiva mais in das paulistanas, foi pego com a mão na cumbuca, ou melhor, em dois vasos de mármore que carregava ao sair do Araçá.
Nem depois de morto a gente deixa de ser assaltado. Mas a coisa vai bem além do roubo post mortem (habitual nos cemitérios brasileiros, inclusive no Rio) de dentes de ouro, jóias ou até sapatos. Segundo o motorista (vendo o peixe que me vendeu), há quadrilhas que vão aos velórios, observam os caixões, escolhem os esquifes mais caros e luxuosos, anotam o túmulo e, na calada na noite, retiram o morto de seu caixão, jogando-o de volta à cova e levando o féretro que, uma vez limpo e recondicionado, poderá ser novamente vendido à família de outro falecido. Os bandidos, se ousarem (e como ousam aqui!), ainda poderão alegar que estão otimizando o uso dos ataúdes e protegendo as florestas.
E não aparece nem uma só alma penada para puxar o pé dos Janenes e dos ladrões de caixão...