segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Sorry, Periferia

Por Sônia van Dijck, Alerta Total
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Nós estamos no Brasil e não vai adiantar ficar pensando em ética, Lei e mais outras bobagens do mundo civilizado. Aqui corrupto é gente chique e a corrupto a Lei não se aplica. Criminoso que é político, por aqui, tem a indiscutível proteção do STF. Político não comete crime, porque político está sempre acima da Lei.
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Finalmente, a genialidade dos magistrados encontrou a saída: como tem gente demais com telhado de vidro, outros tantos com rabo de palha e mais muitos outros de rabo preso, e um monte de processos contra nossos honrados políticos, vamos acabar com essa idéia idiota de que tem Lei para político no Brasil.E ainda os magistrados estarão no lucro: como não haverá mais políticos acusados de crimes, pois todas as suas ações, que, aos olhos dos cidadãos comuns, podem ser entendidas como ilegais, criminosas, aos olhos dos magistrados serão ações ingênuas, angelicais, de inocentes providências de assalto aos cofres públicos, e assim os nobres magistrados terão bem menor carga de trabalho. Os magistrados querem ganhar mais, trabalhar menos e já estão eliminando um monte de processos atuais e futuros: processo contra político criminoso passa a ser nulo. Com isso, os ilustres magistrados terão mais tempo para fazer contas, pensando no próximo aumento de salário.
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Sorry, periferia, mas quem não havia entendido por que tem tanta gente importante dizendo ser contra a diminuição da idade penal, acusando a classe média como responsável pela violência urbana, inocentando os assassinos do menino João por serem negros e "pobres" e, portanto, vítimas da sociedade e, antes de mais nada, vítimas do próprio menino João, que sendo branco e filho da classe média foi (juntamente com seus pais) responsável pelo seu próprio assassinato, pois seus assassinos não têm responsabilidade pela existência de uma classe média e de tantos brancos no Brasil e até proprietários de carros particulares, vai entender agora: no Brasil, estamos caminhando para a inexistência do crime; a Lei é só uma banalidade, que deve desaparecer no processo de avanço de nossa sociedade para um mundo perfeito. O STF está oficializando que político não comete crime; já sabíamos que menor de 18 anos pode matar e fazer outras brincadeirinhas e não pode ser chamado de criminoso. Estamos a caminho da sociedade perfeita.
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Sorry, periferia. Quem pretender falar em ética é melhor arrumar as malas: o crime é oficial desde o Congresso Nacional até as esquinas das grandes cidades e as ladeiras das favelas. São todos iguais perante a não-Lei: isso deve ser uma opinião profundamente democrática. O STF assim decidiu - quem acreditar que há possibilidade de algum iluminado magistrado mudar o voto não conhece o Brasil.
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Quem decidir ficar por aqui, é melhor aprender a conviver com nossa realidade: obras superfaturadas, desvio de dinheiro público para contas particulares no Brasil e no exterior, sonegação de tributos, compra de votos, crime ambiental, contaminação de lavoura de cacau, depredadores do Congresso Nacional como convidados de honra do Planalto e mais outras miudezas que não ocupam e nem ocuparão o tempo livre dos ministros do STF.
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Caso pretenda visitar o Congresso Nacional, alguma Assembléia estadual ou Câmara de vereadores, ou qualquer outro ambiente em que haja políticos (palácios, prefeituras, por exemplo) é melhor deixar a bolsa/a carteira em casa - leve apenas o ticket do ônibus ou do metrô, no fundo de algum bolso; não há necessidade de levar relógio - os políticos sempre usam ótimos relógios e a qualquer um deles pode-se perguntar "que horas são?".
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Quando seu filho ou outra pessoa querida for sacrificada pela violência urbana, pense no quanto de culpa pelo próprio assassinato tinha seu ente querido e você mesmo, que trabalha, paga impostos e tem até coragem de oprimir os criminosos soltos nas ruas ao sair com seu carro particular, para pegar as crianças na escola ou ir trabalhar. Não acuse político de corrupção: isso não é democrático. Quem aprender a conviver com nossa realidade viverá com certa tranqüilidade - é o que o STF se esqueceu de esclarecer, talvez por pensar que nossa inteligência já havia decifrado as regras do jogo.
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Não se pode desrespeitar decisão dos dignos magistrados (e ninguém é doido para querer saber quais as suas razões). E estamos conversados. O STF liberou geral.
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NOTA - claro que quem quiser pode repassar; afinal, outros amigos deve saber que entramos na nova era: a Idade do "Salve-se Quem Puder".
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Sônia van Dijck é professora universitária aposentada.