segunda-feira, fevereiro 26, 2007

A história que mudou o tiro

Tutty Vasques, NoMínimo
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Passei um mês e tanto fora. Às vezes fora da cidade, às vezes fora do país, às vezes fora de mim, mas o tempo todo – e isso é o que importa aqui – fora do ar, longe do noticiário, da Internet, do celular, dando conta tão-somente do que acontecia ao redor. Muito mais que prazer, tal isolamento é necessidade que satisfaço nas férias. Meu ofício, vocês sabem, é catar gracinhas no palheiro de más notícias que entopem as redes de informação. Bobagens, palhaçadas, gafes, exercícios de retórica, estupidez de toda sorte, maluquices, bravatas, xiliques, lorotas, fogueira das vaidades, barbáries, a matéria-prima do meu trabalho é de lascar.
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Foram tempos maravilhosos esses em que me mantive distante de tudo, em especial do computador. Ô, máquina! Volto revigorado ao teclado, ainda que com alguma dificuldade inicial de achar graça em alguma coisa. Tô ligado: teve o caso do médium cego alemão que lê nádegas, a procura de um lugar para Marta Suplicy na reforma ministerial, a canonização do Frei Galvão durante a visita do papa, o papelão da Mangueira com Beth Carvalho e Nelson Sargento, o fim do mundo fixando residência no Irã, a lula colossal de 450 quilos achada na Antártida, a era Beija Flor a noite do Oscar, o banco antimendigo...
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Há uma semana tento achar assunto para esta coluna, mas já no táxi que me tirou do aeroporto Tom Jobim percebi que uma nótícia permanece tragicamente viva na cabeça do brasileiro desde muito antes do carnaval. “Como é que vão as coisas por aqui?” – caí na asneira de perguntar ao motorista no domingo dos desfiles, data do meu desembarque. Ouvi o suficiente para entrar na Linha Vermelha por um atalho na conversa que foi dar no Flamengo. Não suportava mais o relato sobre o calvário do menino arrastado... Todos sabem do que estou falando, eu talvez saiba menos que todo mundo. Covardemente tenho me escondido do assunto. Não quero saber, não sei o que dizer ao Nizan Guanaes quando ele pergunda “e aí? Nós não vamos fazer nada?”
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Pensei em não escrever crônica esta semana. Como estou ainda chegando, colocando em pé a coluna de notas, decerto os leitores não estranhariam – sequer dariam pela falta - se adiasse esse texto para a semana que vem. Até lá, imagino, já terei arrumado um elenco razoável de gaiatices para comentar. Sobre isso que não sai da sua cabeça, que aperta o coração de quem tem filho, que nos queima por dentro e faz muita gente pensar em desistir do país, sinto muito, sobre isso eu não falo, provavelmente por instinto egoísta de sobrevivência. Eu faço humor, caramba, tô fora!
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Não estaria aqui tomando o tempo de vocês não tivesse me chegado na manhã de sexta-feira a inacreditável entrevista que Virgínia Lane concedeu a Roberto Canázio, da Rádio Globo, no último dia de Carnaval. Falavam sobre marchinhas de época e da atração que as pernas da ex-vedete ainda exerce sobre o público, até que a conhecida relação amorosa que ela manteve com o presidente Getúlio Vargas enveredou pelo delírio absoluto. Não ria assim a tanto tempo que resolvi didivir com os leitores as sensacionais revelações de Virginia Lane sobre o tiro que mudou a história.
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Acompanhem:
- Eu tive paixão por esse cara (o Getúlio);
- E você freqüentava mesmo o Palácio do Catete?
- Você quer saber de uma coisa que vou dizer pela primeira vez. É meio perigoso... Eu estava na cama com ele quando entraram e o mataram. Ele foi assassinado, meu filho! Quando ouviu o barulho de gente entrando no quarto ele ainda chamou o Gregório Fortunato e mandou que ele me jogasse pela janela.
- Você viu o assassino?
- Eram quatro homens de máscaras que atiraram nele. Dois deles ainda correram para o Jardim, tiraram minha roupa, me deixaram nua em pêlo e disseram “vai, vagabunda, vai arrumar outro presidente. Vou contar toda essa história no livro que estou escrevendo, “Sua Excelência, a vedete que viu”. Sou uma testemunha viva da morte de um homem com quem não tive um casinho, não. Passei quinze anos dormindo e acordando com ele.
Enfim, uma notícia bombástica e inofensiva. A vedete salvou a pátria do colunista. A que ponto chegamos, né não?