segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Uma Holanda para 500 índios

Renan Antunes de Oliveira Especial para o JB

Já demarcada, nova reserva será entregue em abril

Boa Vista, Roraima. O governo vai entregar mais um pedaço do Brasil para tribos indígenas: pouco antes do carnaval e sem publicidade, o Ministério da Justiça iniciou a demarcação de 4 milhões de hectares de terra para criar a reserva Trombeta Mapuera, na divisa dos Estados de Roraima, Pará e Amazonas.

Ela será quase do tamanho da Holanda, país com 16 milhões de habitantes apinhados em 4 milhões e 152 mil hectares. Eleva para 52% a área de Roraima agora sob controle indígena.

A reserva vai abrigar as tribos wai wai, que já vive no pedaço, e karafawyana, ainda isolada na selva amazônica - indigenistas estimam que esta tenha apenas 500 indivíduos.

A colocação de marcos na reserva está sendo feita por uma empresa contratada pela Funai. O trabalho ficará pronto no fim de março. O presidente Lula deverá anunciar a criação da reserva no Dia do Índio, em abril.

A atuação discreta do Ministério da Justiça se explica: o governo quer evitar controvérsias. É o jeito para impedir reações e fugir das críticas crescentes de vários setores da sociedade que acham que o país dá muita terra para pouco índio: eles seriam apenas 300 mil para ocupar reservas em 13% do Brasil.

A criação da reserva Trombeta Mapuera é obra da Congregação da Consolata, uma missão católica italiana que se estabeleceu no Brasil depois da Segunda Guerra. Seus padres seguiam a Teologia da Libertação - a Igreja já mudou para uma rota light, mas o trabalho deles nos grotões ainda está vivo.

A Consolata conseguiu grande penetração entre as tribos do Norte nos anos 70. Como os padres enfrentaram a ditadura ombro a ombro com sindicalistas do PT, forjaram alianças políticas que beneficiaram a congregação quando a democracia foi restaurada - hoje eles têm tratamento vip em Brasília.

Os missionários da Consolata aproveitaram a pouca presença governamental na região - tema da Igreja para a Campanha da Fraternidade deste ano - para apoiar e influenciar ianomâmis, macuxis e wai wais.

Agora, uma curiosa reviravolta está em curso: a presença física dos padres está diminuindo. E sob pressão dos próprios índios que, já de posse da terra, estão se afastando dos religiosos que tanto os ajudaram.

Em Roraima, na reserva Raposa Serra do Sol, a Consolata se viu obrigada a doar suas missões às tribos que tinha catequizado.

Mas o apoio estrangeiro continua forte: o governo alemão é quem paga pelo policiamento da área. Uma frota de carros fora-de-estrada, com logotipo do BNDES da Alemanha mas pilotada por índios, patrulha a reserva. Os wai wais já pediram um financiamento idêntico para proteger Trombeta.

Por que este pequeno Brasil dentro do Brasil cresceu fora do radar da oposição unida de alguns antrópologos e indigenistas, políticos de várias correntes, fazendeiros, madeireiros, garimpeiros e burocratas dos Estados atingidos pela reserva? Porque a área escolhida é de mata virgem, entre os rios que lhe dão nome, o Trombeta e o Mapuera.

Quem comanda a criação da nova reserva é um índio alçado à diretoria da Funai, José Raimundo da Silva. Já foi chefe de um posto próximo dos isolados. Silva disse que a política atual é deixá-los quietos "até se achar um jeito de nos aproximarmos de forma segura".

Os karafawyanas já rechaçaram tentativas de contato com brancos. Tempos atrás a Funai mandou um cacique aculturado atrás deles, mas o homem foi recebido a flechadas - recado claro de quem não quer modernidade.