quarta-feira, junho 27, 2012

Antes de retaliar o Paraguai, que Dilma pense mil vezes


Adelson Elias Vasconcellos

Apesar  da esquerda brasileira gritar para o mundo inteiro ouvir, e o governo Dilma junto com seus principais assessores e ministros fazer coro,  a situação paraguaia nada tem de ilegal. Aos fatos. Primeiro, conforme publicamos aqui, o processo de impeachment de Fernando Lugo seguiu rigorosamente o que determina a constituição do país. Nossos democratas de araque apelam para um rito sumário que teria negado ao agora ex-presidente o amplo direito de defesa. Direito de defesa ele teve, tanto que na sessão que o destituiu, quem compareceu foi seu advogado e lhe foi concedido tempo para rebater  e defender-se das acusações. Somente após este tempo esgotado, é que se iniciou a votação.

Segundo, em que país sério do mundo o “rito sumário” impede alguém de defender-se? Ele está previsto até na constituição brasileira. Portanto, se os paraguaios resolveram escolher esta forma para seu processo impeachment, e isto está previsto em lei, onde está a ilegalidade? Até porque são os paraguaios que escolhem suas leis não o Brasil, nem Mercosul, tampouco a tal UNASUL, quanto mais os cucurachas de esquerda do continente.,  

Terceiro, o processo de votação foi primeiro aprovado pela Câmara e em seguida pelo Senado. Em ambas as casas legislativas, o processo foi aprovado por ampla maioria, inclusive por aqueles que se diziam aliados de Fernando Lugo. A própria Igreja Católica por seus representantes no Paraguai reconheceram a legitimidade do processo.  Também o Tribunal Superior daquele país negou recurso de Lugo para que fosse declarada inconstitucional sua deposição. Entendeu aquela corte que o processo seguiu rigorosamente os trâmites exigidos pela legislação paraguaia. Também nas ruas, no dia seguinte, havia total tranquilidade, sem passeatas nem revoltas. Se elas, proximamente, ocorrerem o serão por incitamento de terceiros, fora das fronteiras do país. O que aliás, dada a reação das cabeças coroadas latinas, é bastante previsível que isto ainda venha acontecer.  Assim, e já com o vice Presidente tendo assumido em lugar de Lugo, o que se observa é que a tal crise propalada pela imprensa aqui no Brasil, não existe, não por parte do povo paraguaio. Portanto, é que vive-se no Paraguai   uma total normalidade institucional.

Ora, se as instituições estão funcionando normalmente, se declararam que o processo foi legal, e foi, quem, a menos que queira interferir na soberania alheia, poderá afirmar que não?

Momentos depois que o processo de impeachment foi aprovado pelo Senado, afirmei aqui que a ninguém seria dado o direito de interferir no processo como, ainda, não competia no caso, que país algum retaliasse, sob a forma que for, em nome de um suposto golpe, porque golpe não foi. E que, se prejudicado por qualquer medida restritiva, o Paraguai poderia recorrer e apelar aos tribunais internacionais para ver garantidos seus direitos e sua soberania.

Anuncia-se que Brasil, Argentina, Venezuela, Equador estudam, no âmbito da UNASUL e Mercosul medidas punitivas contra o Paraguai. Menos mal que ninguém até agora falou em “intervenção”. Chavez, pretenso ditador venezuelano, determinou a interrupção do fornecimento de petróleo. Uau, que homem corajoso, não é mesmo ? Será que a medida não é uma represália de Chavez ao fato do senado do Paraguai não ter aprovado o ingresso da Venezuela no Mercosul, justamente por que  aquele país não segue a regra democrática, exigência básica para ingresso no bloco multilateral? Com absoluta certeza, é vingança sim.

Afora estes “democratas” de araque, latinos e ladinos, o restante do mundo reagiu com precaução à deposição de Fernando Lugo, mas não se ouviu de ninguém este discurso histérico de “golpe”.   Portanto, nenhum destes indignados presidentes latino americanos tem moral suficiente para falar em nome da democracia. São exemplos, sim, de totalitários, e  que à força pretendem dobrar as leis às suas vontades pessoais, e comumente agridem as instituições democráticas de seus respectivos países, destacando-se a imprensa e o Judiciário. Mudam as leis ao seu bel prazer para impedir que as oposições os retirem do poder. Isto, em lugar nenhum do mundo chama-se de democracia. Portanto, esse estrondo todo, é pelo simples fato de Lugo ser um deles, um aliado da primeira hora. E só. O resto é puro delírio.

De todos, o único país que teria alguma autoridade moral para se insurgir ao aconteceu no Paraguai seria o Brasil, , ou ao menos criticar. Contudo,   já somos crescidinhos o bastante para não provocar algazarra a toa.  Justamente porque já vivenciamos um processo de impeachment presidencial, que seguiu também o rito e as regras estabelecidas pela nossa constituição, e nem por isso a normalidade democrática foi arranhada um milímetro sequer. Ora, por tal razão, e antes de emitir qualquer opinião, o Brasil deveria ter se informado melhor. Ser prudente é a melhor recomendação neste caso. Porém, o que fez nossa soberana? Largou a  Rio+20 de lado, e promoveu uma reunião de emergência dos integrantes da UNASUL que se encontravam no Rio de Janeiro e, antes de se inteirar sobre o que de fato se passava no país vizinho, já decretou:  “é golpe”. Isto reflete bem uma característica negativa da senhora Dilma Rousseff: a reação emocional perturbada.  Diante de um fato que, aparentemente não concorda, sua reação é chute nas canelas. Não é a toa que tem ministro que evita cruzar seu caminho, para não ser destratado de forma agressiva e mal educada. Já disse em outras ocasiões que   a arte de comandar pessoas exige um mínimo de respeito, firmeza sim, mas dentro das regras da boa educação. Não se precisa gritar, berrar, destratar, humilhar, para demonstrar força de comando. Até pelo contrário: La verdadeira se exerce sem se utilizar de tais ferramentas. E esta capacidade não chega a ser, pelo que se sabe, uma virtude destacada da presidente. 

Assim, de posse de seu instrumento preferencial de reação, o desequilíbrio emocional, atacou um processo legítimo, feito dentro de regras constitucionais aprovadas democraticamente. E, reunindo seu staff  diplomático, decretou sem tomar conhecimento sequer do “outro lado” que o Paraguai precisa ser retaliado e desconvocou  aquele país da reunião que o Mercosul tem marcada para os próximos dias. Infelizmente, a presidente fez  tudo o que não se deve fazer em situação semelhante. Pudera, assessorada por  Marco Aurélio  Top-Top Garcia e Celso Amorin, de fato, não se pode esperar coisa melhor.  

Adoraria que a presidente brasileira se questionasse consigo mesmo se, as retaliações que pretende tomar contra o PARAGUAI, são justas e estão embasadas unicamente na desculpa de que aquele país feriu as regras democráticas. Se foi, presidente, a mesma régua com que o Paraguai este sendo julgado e condenado, nãoi deveria usada para julgar5mos a Venezuela e, principalmente, Cuba, dona Dilma? Onde está a coerência? Se como diz a presidente, Fernando Lugo não teve  amplo direito de defesa, apesar de que dispôs de tempo para fazê-lo perante o Senado sendo ali representado por seu advogado, por que o Paraguai está sendo julgado e condenado sem que se dê às suas autoridades possibilidade mínima de demonstrar a legitimidade do processo que depôs Fernando Lugo? Ou seja, dois pesos e duas medidas é o que vemos aqui. E, no que vem se tornando um hábito vergonhoso, nossa diplomacia, conjugada com uma política externa capenga, vai metendo os pés pelas mãos, demonstrando o quanto somos imaturos em relação às nossas posições e parcerias, enxovalhando algo que até então era motivo de orgulho de todo o  cidadão brasileiro: nossa histórica competência no campo das relações exteriores. 
Porque, senhores, quem, além dos próprios paraguaios , tem maior   autoridade para dar legitimidade ao processo de deposição de Lugo ? Chavez? Morales? Os irmãos assassinos de Cuba, Raul e Fidel Castro? ;Cristina Kirchner? Ora, nem Dilma tem autoridade para tanto, ela governa, mora e reside no Brasil e não do outro lado da fronteira! 

Se todas as instituições daquele país, representativas ou não e seus código de leis, decretam que o processo é legítimo, que o governo que assumiu o fez dentro da lei, quem afora estes, terá autoridade suficiente para decretar o afirmar o contrário? O  que estamos assistindo, infelizmente, é absurda ingerência nos assuntos internos de uma nação soberana, no pleno gozo de seu  estado democrático de direito! O Brasil até pode nutrir mais simpatias por Lugo do que por Fanco, mas daí a declarar que este último foi empossado na presidência de maneira ilegítima, fruto de um golpe,  vai uma abissal distância!!!!

Seria prudente, portanto,  que a presidente pusesse por terra seu gênio impetuoso e irascível para, no âmbito da Unasul e Mercosul,   agir  com a cautela que se faz necessária e recomendada. O Brasil não precisa ser vaquinha no presépio da Argentina ou da Venezuela. Pode seguir seus próprios princípios, mostrando a todos que ele próprio já teve um presidente deposto pelas mesmas regras constitucionais seguidas pelo Paraguai, e  nem por isso sua democracia e institucionalidade foram feridas e abaladas. Repito o que afirmei no dia da deposição: a nenhum presidente, mesmo que eleito democraticamente por seu povo, é dado o direito de extrapolar as leis de seu país. Se a lei estipular que tal comportamento é passível de impedimento, cumpra-se a lei e assuma seu vice. Ponto.

Por fim, a prudência se torna mais imperiosa por parte do Brasil por duas razões exponenciais, uma de natureza humanitária, e a outra econômica. A humanitária: sabe o governo Dilma quantos brasileiros trabalham e moram no Paraguai? Também deve ser conhecer  que estes brasileiros vem enfrentando imensas dificuldades por conta de sem-terras paraguaios com invasão de propriedades, violência e depredações. Manter uma posição de inflexibilidade não seria, portanto, nem inteligente tampouco conveniente à segurança destes brasileiros que passariam a ser alvo predileto de grupos radicais. Já do ponto de vista econômico, é bom lembrar da existência de Itaipú, a maior hidrelétrica do mundo, com quem o Brasil divide em partes iguais sua produção. Até aí nada de mais. Porém, contratualmente, o outro parceiro pode comprar o excedente não utilizado pelo vizinho. O Paraguai utiliza apenas 10% do que lhe cabe, vendendo o restante aos brasileiros. Nem vou entrar no mérito do contrato reajustado por Lula. Quero destacar apenas que, somando-se a parte brasileira com o excedente que compramos dos paraguaios, o total representa cerca de 20% de toda a energia consumida no país. Com a mudança de governo, houve mudança também no comando paraguaio da Itaipu e, no seu discurso de posse, o novo diretor mandou-nos um recado bem significativo: a de que estuda a possibilidade de interromper a venda do excedente não utilizado pelo Paraguai ao Brasil, para consumir tudo em seu próprio país, no que está em seu pleno direito. Representa dizer que o Brasil pode simplesmente parar.

Portanto, presidente Dilma, pense dez vezes antes de tomar qualquer atitude de represália contra o nosso vizinho. Pode ser um tiro no próprio pé, até porque  o impeachment de Fernando Lugo, diga o que se disser, atendeu os preceitos constitucionais do Paraguai, e a ninguém é dado o direito de agredir a soberania alheia.    

A invasão chinesa – 
O governo está anunciando mais um pacote para incentivar a economia. Além de mais investimentos, é prometido que as compras governamentais darão prioridade à produção nacional. Mas gostaria que o leitor refletisse sobre um caso sui generis: livros didáticos, utilizados nas escolas brasileiras, estão sendo impressos na China. Na China? Pois é, na China. Está saindo mais barato imprimi-los do outro lado do mundo do que no Brasil. Aí, gente, já é um pouco demais. Adoraria que as autoridades brasileiras refletissem sobre isto, porque, convenhamos, algo está errado por aqui. E muito errado, não é mesmo, presidente Dilma?

Paraguai soberano


Editorial
Folha de São Paulo

A Corte Suprema de Justiça do Paraguai recusou ontem a alegação do ex-presidente Fernando Lugo de que foi inconstitucional o fulminante processo de impeachment pelo qual o Congresso o depôs, entre quinta e sexta-feira passada.

Com a decisão, caem por terra as pretensões de invalidar a posse do vice Federico Franco como sucessor constitucional. Também ontem a Justiça Eleitoral do país vizinho refutou a possibilidade de antecipar as eleições presidenciais, previstas para abril de 2013.

Não resta dúvida de que o impedimento de Lugo se deu sob evidente cerceamento do direito de defesa, cujo exercício ficou confinado a apenas duas horas de argumentação perante os parlamentares. Infelizmente, porém, a Constituição paraguaia não disciplina esse importante aspecto.

Exige apenas que o processo seja aprovado por dois terços da Câmara e que o afastamento ocorra se assim decidirem dois terços do Senado --limites amplamente superados nas votações que consumaram o impeachment. Como motivo, basta a alegação genérica de "mau desempenho de suas funções".

Eleito numa plataforma esquerdizante, o ex-bispo católico Fernando Lugo conduzia um governo populista e errático, prejudicado pela conduta pessoal do mandatário, compelido a reconhecer filhos em escandalosos processos de paternidade.

Mas o motivo principal da derrocada foram os efeitos desastrosos da crise econômica no Paraguai, cujo produto nacional deverá encolher 1,5% neste ano. A popularidade presidencial se desfez depressa, tornando possível a formação da esmagadora maioria congressual que o afastou do cargo.

Por afinidade ideológica --maior no caso da Argentina, menor no de Brasil e Uruguai--, os demais governos do Mercosul decidiram suspender a presença do vizinho na reunião do organismo, que deve culminar na sexta-feira próxima, quando examinarão possíveis sanções contra o novo governo em Assunção.

Esse comportamento é injustificável. As cláusulas democráticas previstas pelo Mercosul e pela Organização dos Estados Americanos (OEA) aplicam-se a flagrantes violações da ordem constitucional. Ainda que o impedimento de Lugo seja criticável, as instituições paraguaias têm funcionado de acordo com as leis daquele país.

Com um triste histórico de ingerência na política interna do Paraguai, país que mantém laços de dependência econômica em relação ao Brasil, o melhor que o Itamaraty tem a fazer é calar-se e respeitar a soberania do vizinho.

A hipócrita "Guerra do Paraguai"


Maria Lucia Victor Barbosa*
Brickmann & Associados Comunicação

...Cuba, com seu sanguinário e longevo regime castrista é tida pelo governo petista como intocável nação soberana. Chávez, o golpista por excelência, o brutal inimigo da liberdade de pensamento, recebe marqueteiros enviados por Lula para disputar mais uma eleição. Evo Morales, que expropriou ...

O Rio+20, é sabido, redundou num monumental fiasco de dimensões globais. A montanha pariu uma carta de intenções rasa como um pires e, para piorar, a presidente Rousseff não ficou bem na foto, especialmente quando foi criticada na "Cúpula de Mulheres". 

Na imensa Torre de Babel teve de tudo: mulheres nuas, índios de cocar e saiote de palha filmando e fotografando com filmadoras e celulares de avançada tecnologia, indefectíveis sem-terra sempre presentes em manifestações e não no cultivo do solo, adeptos da maconha livre, enfim, povos variados que, de algum modo, foram financiados para no Rio de Janeiro fazer turismo em favelas e festejar em casas noturnas e em restaurantes. 

Não foi, porém, um carnaval sem alguns contratempos, pois numa espécie de antecipação do que vai ser a Copa de 2014, as delegações estrangeiras tiveram que enfrentar falta de estrutura no aeroporto Tom Jobim, ausência de recepcionistas que falassem inglês, lentidão no trânsito e uma série de confusões e desconfortos que, naturalmente, não foram experimentados pelos chefes de Estado, excluídos os mais importantes que tinham mais o que fazer e não vieram prestigiar o governo brasileiro. Os que compareceram gostaram da carta chinfrim, enquanto as ONGs se recusaram a assinar o insosso documento. 

No entanto, a festa global teve um toque interessante. Cientistas se dividiram entre os que dizem que o mundo vai esquentar por conta da intervenção do homem que não cessa de jogar gás carbônico na atmosfera e os que falam numa nova era glacial e excluem a interferência humana nas catástrofes planetárias. Um instigante debate entre ideologia e ciência. Afinal, o cientista que previu as tremendas consequências do aquecimento global voltou atrás em suas teorias que lembravam o fim do mundo para o agrado de milenaristas e, também, de esquerdistas que com a queda do Muro de Berlim resolveram a empunhar a bandeira verde.

Não se pode deixar de mencionar a figura macabra presente ao evento: Mahmoud Ahmadinejad. O que teria o tenebroso personagem vindo fazer no Rio de Janeiro? Aproveitar para abraçar seu grande amigo Lula da Silva? Disseminar a ideia de uma ecologia atômica? Pregar seu terrorismo que iguala os infiéis na morte? 

O abjeto presidente do Irã que nega o Holocausto tem em mente, em primeiro lugar, o extermínio de Israel. Em seu país, "democraticamente", manda apedrejar mulheres, persegue minorias religiosas e homossexuais. Como é "democrático" não tolera a imprensa livre. Dá "lições de democracia" quando prende, tortura e mata os que contestam suas barbaridades. Entretanto, esse ente abominável, que se mostra avesso aos direitos humanos, é idolatrado por Lula da Silva e seus companheiros que dizem que os problemas do Irã são questão de soberania.

Muito melhor aprender com os judeus sobre desenvolvimento sustentável. Isto porque, Israel é líder mundial em eficiência do uso da água, líder mundial inovador na área de alimentos, líder em tecnologia de energia solar e térmica. Assim, se houve alguma coisa séria e que fizesse a diferença nesse Rio+20, essa coisa foi a presença de representantes de Israel.

Quanto a hipócrita "guerra do Paraguai", movida em estilo latino-americano, parece que o governo petista não aprendeu com a vexaminosa lição de Honduras. Quem não se lembra da embaixada brasileira transformada em picadeiro de Manuel Zelaya, o adepto de Chávez que tramava, a exemplo deste, conspurcar a Constituição de seu país a fim de se perpetuar no poder?

Acometida por amnésia histórica a presidente Rousseff se apressou em enviar o chanceler Patriota ao Paraguai com recomendação de que falasse grosso com o Congresso daquele país, o que fez cair por terra a teoria da soberania que é sempre apresentada quando o déspota é companheiro. 

Cuba, com seu sanguinário e longevo regime castrista é tida pelo governo petista como intocável nação soberana. Chávez, o golpista por excelência, o brutal inimigo da liberdade de pensamento, recebe marqueteiros enviados por Lula para disputar mais uma eleição. Evo Morales, que expropriou a Petrobrás e tem tido problemas com revoltas populares é muito apreciado no Brasil. Cristina Kirchner, que está enterrando a economia argentina, reinventou a guerra das Malvinas para atrair as simpatias do seu povo e fez mais: suspendeu o Paraguai da reunião do Mercosul em Mendoza. Aliás, os nove integrantes do bloco aceitaram a decisão em nome da "ruptura democrática em Assunção", apesar do impeachment de Lugo ter sido conduzido de acordo com normas constitucionais.

As sanções que o Brasil pretende impingir ao Paraguai em nome de um golpe que não existiu, demonstra a imitação do estratagema de Cristina Kirchner com sua fictícia guerra das Malvinas. Teríamos uma espécie de guerra do Paraguai para tentar distrair as atenções, uma vez que nossa economia segue velozmente ladeira abaixo. 

Contudo, para que não nos envergonhemos novamente é preciso que o Brasil respeite a decisão soberana do Paraguai e deixe que Lugo, em vez da pantomima do governo paralelo, siga sua verdadeira vocação aumentando a prole como um autêntico pai da pátria. 

(•) Maria Lucia Victor Barbosa - é socióloga.


mlucia@sercomtel.com.br
www.maluvibar.blogspot.com

Crise paraguaia requer sensatez


Editorial
O Globo

O impeachment de Fernando Lugo, executado em alta velocidade e por ampla maioria no Congresso paraguaio, coloca o Brasil diante de uma situação intrincada, circunstância em que a melhor postura a assumir é de serenidade, longe de escaladas verbais e rompantes de bolivarianos e chavistas espalhados pelo continente, inclusive com representantes em Brasília.

Além de a teoria do “golpe parlamentar” ser discutível, o Brasil, ao contrário de outros vizinhos, tem enormes interesses objetivos no Paraguai, como a energia de Itaipu, o comércio propriamente dito, além de uma grande comunidade de “brasiguaios”, responsáveis pelo crescimento agrícola do país e alvo de grupos radicais de sem-terra, fortalecidos com o pouco caso de Lugo diante do agravamento do conflito agrário, um dos argumentos a favor do seu impeachment.

A tese do “golpe” já tinha contra si o fato de não haver notícia de mudanças de legislação encomendadas com o objetivo de afastar o ex-bispo.

O apoio político-parlamentar quase nulo de Lugo — perdeu na Câmara por 73 a 1, e, no Senado, 39 a 4 — não seria suficiente para atestar a legalidade do impeachment. Mas, além do cumprimento formal dos dispositivos legais, a decisão dos parlamentares foi referendada pela Corte Suprema paraguaia, ao mesmo tempo em que o Tribunal Superior de Justiça Eleitoral do país reconhecia o vice de Lugo, Frederico Franco, como o novo presidente do Paraguai.

O suposto “golpe parlamentar” paraguaio equivale a um outro, idêntico, desfechado pelo Congresso e Justiça de Honduras, em 2009, quando o então presidente hondurenho, Manuel Zelaya, com apoio de Hugo Chávez, tentou aplicar o conhecido “kit bolivariano” de convocar um plebiscito e aprovar mudanças constitucionais para se reeleger.

Como há dispositivo na Constituição de Honduras que pune com o afastamento do cargo presidente que tentar manobras para se perpetuar no poder, Zelaya foi destituído legalmente.

Chavistas e bolivarianos protestaram, e o Brasil de Lula e Celso Amorim foi atrás. Chegou a abrigar Zelaya na embaixada brasileira em Tegucigalpa, convertida em comitê de resistência, contra a tradição de profissionalismo do Itamaraty.

Foram feitas eleições, vencidas por Roberto Micheletti, mas o Brasil continuou sob a liderança chavista e se recusou a reconhecer o novo governo.

A história se repete, de forma bem mais crítica para o Brasil, por ser o Paraguai um país estratégico para os interesses nacionais. Mesmo que o impeachment houvesse tramitado por semanas, Venezuela, Honduras, Equador e Bolívia o denunciariam como “golpe”.

Inclusive a Argentina, pois, diante do agravamento dos problemas internos, Cristina Kirchner não tem deixado passar oportunidade de manipular assuntos externos para tentar entreter a opinião pública argentina.

Tudo deve ser feito para evitar conflitos no Paraguai. Sintomático que Lugo tenha aceitado o impeachment sem resistir, e, ao perceber o coro de “golpe parlamentar”, decidiu reunir seu gabinete em frente de casa.

Semeou, com a ajuda do governo Dilma, de Cristina K. e demais o risco de um grande conflito, contra os interesses do Estado brasileiro.

Não que as evidências de um impeachment em rito sumário não devam chamar a atenção de Mercosul, Unasul e OEA. Mas decretar a priori a existência de um “golpe parlamentar” é um excesso.

Mais ainda, num surto ideológico, suspender o país do Mercosul e Unasul, e admitir a presença de Lugo na próxima reunião de cúpula, em Mendoza, Argentina.

O ditador Alfredo Stroessner foi mantido em Assunção durante longo tempo por conveniência de Brasil e Argentina. Este é um tempo a ser sepultado, e a terra por cima devidamente salgada.

Os casos de Honduras e, agora, do Paraguai pelo menos justificam que as mesmas zelosas instituições, e o Itamaraty em particular, também não deixem passar sem análise manipulações que Venezuela, Equador e Bolívia — para citar os notórios — fazem do Congresso e Poder Judiciário a fim de destroçar o que resta de democracia em seus regimes, por meio de instrumentos apenas formalmente democráticos.

Paraguai: Governo brasileiro está a reboque de Chávez


Merval Pereira 
O Globo

O que está sendo colocado em xeque no episódio do impeachment do presidente do Paraguai é a democracia representativa. Quando se questiona a capacidade do Congresso paraguaio de promover a deposição de um presidente de acordo com as normas constitucionais alegando que houve “ruptura democrática”, está-se na verdade colocando em questionamento o próprio sistema eleitoral.

Por que a Unasul não questiona as manobras que os governos de Venezuela, Bolívia, Equador, Argentina vêm fazendo permanentemente para, utilizando-se dos mecanismos democráticos, moldar um Congresso e um Judiciário à sua feição?

Assim como definir que não houve o cumprimento do devido processo legal na deposição de Lugo é uma questão de interpretação, da mesma maneira considerar que na Venezuela há “democracia demais” é uma questão de simpatia pessoal.

Até o momento a Venezuela não foi aceita no Mercosul justamente devido à cláusula democrática, e o processo vem demorando porque há muitas desconfianças de que o que existe naquele país não é exatamente uma democracia.

O Congresso paraguaio é o último bastião contra a aprovação da Venezuela e por isso é acusado de ser dominado por oligarquias direitistas que deram um “golpe parlamentar” em Lugo.

Mas e as oligarquias, direitistas, e os capitalistas selvagens que foram cooptados pelos governos “bolivarianos” em todos esses países, inclusive no Brasil, esses estão autorizados a continuar atuando como sempre atuaram, e com as bênçãos dos governos populares a que servem.

Para “desencorajar ações do gênero” no continente, os membros da Unasul sentem-se no direito de dar lições de democracia a um de seus membros.

O importante a avaliar é que o Congresso paraguaio obedeceu às regras constitucionais. O próprio advogado de Lugo admitiu que tudo correu dentro da lei, e a Suprema Corte recusou liminarmente a reclamação de que Lugo não tivera tempo para se defender. É muita pretensão de outros países quererem interpretar as circunstâncias históricas locais e decidir se houve ou não um rito democrático.

Ninguém tem informações seguras para compreender o que estava em curso no Paraguai para que o presidente ficasse tão isolado, a ponto de ter tão poucos votos de apoio e menos ainda apoio popular.

Não houve imposição de um grupo político, houve um consenso no Congresso. Daí a dizer que o Congresso está dominado pelas oligarquias e que Lugo foi derrubado porque estava trabalhando com os sem-terra de lá, aí já se discute a qualidade da democracia paraguaia, o que não é função de qualquer organismo internacional.

O fato é que não houve ruptura alguma da ordem democrática, razão alegada pelo Mercosul para suspender o Paraguai. O país está em ordem, não há tanques nas ruas, não há manifestações populares, os Poderes todos funcionam normalmente, não há censura à imprensa.

No Brasil, diferentemente de outros países da região, não houve fechamento do Congresso ou mudanças no Judiciário, nem recurso a novas eleições para que uma maioria se formasse, o que torna questionável o nível democrático em vigor.

A maioria no Congresso brasileiro, desde o mensalão de 2005, é formada à base de troca de favores, inclusive dinheiro público e cargos, não para aprovar algum programa de governo, mas uma “maioria defensiva” para evitar episódios como o ocorrido no Paraguai, que quase atingiu Lula no auge da crise do mensalão.

É uma maneira de neutralizar o Congresso. Nesse caso, não faz mal que as oligarquias façam parte da chamada base aliada e continuem governando desde que garantam a proteção necessária.

Nem que os “companheiros” estejam envolvidos em malfeitos diversos: os líderes populares que estão prontos a sair às ruas, mobilizando as massas para acusar uma “ruptura democrática”, são os mesmos que se utilizam dos mesmos instrumentos para defender seus oligarcas de estimação.

Não é à toa que em todos esses países da órbita “bolivariana”, inclusive o Brasil, mais e mais defensores da “democracia direta” surjam, justamente para desacreditar o Congresso como instrumento de representação popular.

O Brasil tem mais interesses no Paraguai do que todos os demais países da América do Sul e deveria, isto sim, estar liderando a Unasul, e não sendo liderado, para defender os nossos interesses na região.

Mas a diplomacia brasileira está se acostumando a seguir, não a liderar. Quando a Bolívia invadiu as instalações da Petrobras, o Brasil também não reagiu.

O Itamaraty tinha informações há muito tempo de que os brasiguaios estavam sendo maltratados pelo governo paraguaio, que os estava expondo à violência dos sem-terra paraguaios, e não usou os muitos interesses econômicos para pressionar o governo Lugo a defender o setor agropecuário brasileiro.

Há entre 350 e 400 mil brasileiros no Paraguai, que produzem na agricultura a ponto de terem tornado o Paraguai o 4º exportador de soja do mundo, cuja produção é exportada através de portos brasileiros.

Esses agricultores são também grandes consumidores de insumos brasileiros como sementes, defensivos agrícolas e maquinário.

Além da questão agrícola, o Brasil depende de Itaipu para o fornecimento de cerca de 20% da energia que consome, e qualquer problema nessa geração provocaria um desastre econômico.

Mas o país já havia se submetido a uma chantagem do governo paraguaio, que rasgou o contrato existente e conseguiu um aumento no pagamento da energia produzida por Itaipu.

O governo brasileiro está colocando os interesses políticos de um grupo da região à frente dos interesses econômicos do país.

A reação contrária da Unasul ao que aconteceu no Paraguai é, na verdade, mais um movimento político dos chamados países “bolivarianos” do que uma reação em defesa da democracia, que continua em pleno vigor no Paraguai.

O governo brasileiro, mais uma vez, está a reboque de uma ação política de Chávez, assim como no caso de Honduras no ano passado.

O governo Dilma parece velho


Marco Antonio Villa (*)
O Globo

O governo Dilma Rousseff completa 18 meses. Acumulou fracassos e mais fracassos. O papel de gerente eficiente foi um blefe. Maior, só o de faxineira, imagem usada para combater o que chamou de malfeitos.

Na história da República, não houve governo que, em um ano e meio, tenha sido obrigado a demitir tantos ministros por graves acusações de corrupção.

Como era esperado, a presidente não consegue ser a dirigente política do seu próprio governo. Quando tenta, acaba sempre se dando mal. É dependente visceralmente do seu criador. Está satisfeita com este papel. E resignada. Sabe dos seus limites.

O presidente oculto vai apontando o rumo e ela segue obediente. Quando não sabe o que fazer, corre para São Bernardo do Campo. A antiga Detroit brasileira virou a Meca do petismo.

Nunca tivemos um ex-presidente que tenha de forma tão cristalina interferido no governo do seu sucessor. Lembra o que no México foi chamado de Maximato (1928-1934), quando Plutarco Elias Calles foi o homem forte durante anos, sem que tenha exercido diretamente a presidência.

Lá acabou numa ruptura. Em 1935 Lázaro Cárdenas se afastou do “Chefe Máximo” da Revolução. Aqui, nada indica que isso possa ocorrer. Pelo contrário, pode ser que em 2014 o criador queira retomar diretamente as rédeas do poder e mande para casa a criatura.

O PAC — pura invenção de marketing para dar aparência de planejamento estatal — tem como principal marca o atraso no cronograma das obras, além de graves denúncias de irregularidades. O maior feito do “programa” foi ter alçado uma desconhecida construtora para figurar entre as maiores empreiteiras brasileiras.

De resto, o PAC é o símbolo da incompetência gerencial: os conhecidos gargalos na infraestrutura continuam intocados, as obras da Copa do Mundo estão atrasadas, o programa “Minha Casa, Minha Vida” não conseguiu sequer atingir 1/3 das metas.

O Nordeste é o exemplo mais cristalino de como age o governo Dilma. A região passa pela seca mais severa dos últimos 30 anos. A falta de chuva já era sabida. Mas as autoridades federais não estavam preocupadas com isso. Pelo contrário. O que interessava era resolver a partilha da máquina estatal na região entre os partidos da base.

Duas agências foram entregues salomonicamente: uma para o PMDB (o DNOCS) e outra para o PT (o Banco do Nordeste). E a imprensa noticiou graves desvios nos dois órgãos, que perfazem quase 300 milhões de reais. A “punição” foi a demissão dos gestores.

Enquanto isso, desejando mostrar alguma preocupação com os sertanejos, o governo instituiu a bolsa-seca, 80 reais para cada família cadastrada durante 5 meses, perfazendo 400 reais (o benefício será extinto em novembro, pois, de acordo com a presidente, vai chover na região e tudo, magicamente, vai voltar ao normal). Isto mesmo, leitor. Esta é a equidade petista: para os mangões, tudo; para os sertanejos, uma esmola.

Greves pipocam pelo serviço público. As promessas de novos planos de carreiras nunca foram cumpridas. A educação é o setor mais caótico. Não é para menos. Tem à frente o ministro Aloizio Mercadante. Quando passou pelo Ministério da Ciência e Tecnologia nada fez. Só discursou e fez promessas. E as realizações? Nenhuma.

Mercadante lembra Venceslau Braz. Durante o quadriênio Hermes da Fonseca, Venceslau foi um vice-presidente sempre ausente da Capital Federal. Vivia pescando em Itajubá. Quando foi alçado à presidência da República, o poeta Emílio de Menezes comentou sarcasticamente: “É o único caso que conheço de promoção por abandono de emprego.”

Mercadante é uma versão século XXI de Venceslau. O sistema federal de ensino superior está parado e vive uma grave crise. O que ele faz? Finge que nada está acontecendo. Quando resolve se manifestar, numa recaída castrense, diz que só negocia quando os grevistas voltarem ao trabalho.

A crise econômica mundial também não mereceu a atenção devida. Como o governo só administra o varejo e não tem um projeto para o país, enfrenta as turbulências com medidas paliativas. Acha que mexendo numa alíquota resolve o problema de um setor.

Sempre a política adotada é aquela mais simples. Tudo é feito de improviso. É mais que evidente que o modelo construído ao longo das últimas duas décadas está fazendo água (e não é de hoje). É necessário mudar. Mas o governo não tem a mínima ideia de como fazer isso.

Prefere correr desesperadamente atrás do que considera uma taxa de crescimento aceitável eleitoralmente. É a síndrome de 2014. O que importa não é o futuro do país, mas a permanência no poder.

Na política externa, se é verdade que Patriota não tem os arroubos juvenis de Amorim, o que é muito positivo, os dez anos de consulado petista transformaram a Casa de Rio Branco em uma espécie de UNE da terceira idade. A política externa está em descompasso com as necessidades de um país que pretende ter papel relevante na cena internacional.

O Itamaraty transformou-se em um ministério marcado por derrotas. A última foi na Rio+20, quando, até por ser a sede do evento, deveria exercer não só um papel de protagonista, como também de articulador. A nossa diplomacia perdeu a capacidade de construir consensos.

Assimilou o “estilo bolivariano”, da retórica panfletária e vazia, e, algumas vezes, se tornou até caudatária dos caudilhos, como agora na crise paraguaia.

O governo Dilma parece velho, sem iniciativa. Parodiando o poeta: todo dia ele faz tudo sempre igual. E saber que nem completou metade do mandato. Pobre Brasil.

(*) Marco Antonio Villa é historiador.

O único problema são os vizinhos


Augusto Nunes
Veja online

É hora de desenhar.

Invocando uma cláusula do regulamento interno que prevê o afastamento do síndico por mau desempenho, o conselho de condôminos de um prédio decidiu quase por unanimidade demitir o ocupante do cargo e substituí-lo pelo subsíndico. Uns poucos descontentes , que se solidarizaram por algumas horas com o demitido. A imensa maioria dos moradores aprovou a decisão, os demais encararam a mudança com indiferença.

Tudo foi resolvido entre os diretamente interessados no assunto. Nenhuma das normas em vigor foi violada, não se registraram interferências indevidas. Ninguém chamou a polícia, os responsáveis pela segurança do edifício continuaram em seus lugares, nenhuma farda apareceu. O antigo síndico declarou-se conformado com a perda do emprego, a vida retomou seu curso. As coisas já estariam inteiramente normalizadas se os brigões da vizinhança não tivessem decidido intrometer-se na história.

A administradora do arranha-céu ao lado, que não dá um pio sobre as bandalheiras no quintal ou no resto da rua e finge não enxergar os abusos nos cortiços alugados por amigos, acha que nenhum prédio pode resolver problemas em dois dias. A viúva que vive tentando fechar a banca de jornais acha que houve um golpe. O dono da loja de botijões de gás, que vive alterando as regras do contrato para renovar o aluguel em condições vantajosas, acha que o fornecimento deve ser suspenso.

O dono do mafuá que abriga incontáveis traficantes de drogas acha que a solução aprovada pela assembléia do condomínio foi ilegal. O bando de intrometidos acha que os moradores do edifício que mudou de síndico devem ser excluídos do clube que reúne os habitantes da quadra. Já ensaiando para conviver com os muitos filhos que mal conhece, o homem devolvido ao lar começa a achar que tem chances de recuperar o emprego.

Como o Paraguai, o único problema que esse prédio tem são os vizinhos.

Tudo estava na Constituição


Ricardo Galuppo  (*)
Brasil Econômico

A situação do Paraguai e a reação dos governos sul-americanos ao processo relâmpago que pôs Fernando Lugo para correr é a prova definitiva de que a democracia, embora tenha presença formal em quase todos os países, está longe de ser um valor enraizado na região.

O que se discute aqui nem é o impeachment propriamente dito. As tais 36 horas (tempo de duração do rito de deposição) são, de fato, insuficientes para se cassar um mandato presidencial conferido pelo povo nas urnas. Sim, o processo foi muito estranho. 

O problema é que, por mais esquisito que tenha sido e por mais que se assemelhe a um golpe de Estado, tudo aquilo estava (e ainda está) previsto tim-tim por tim-tim na Constituição paraguaia.

Ou seja: se os países vizinhos aceitavam como democrático um regime que permitia a deposição do presidente por motivos pouco claros, por que reagem com indignação quando isso acontece? 

A impressão que se tem, quando se percebe a origem dos ataques mais violentos ao "golpe", é a de que, se o deposto não fosse "da patota", talvez não houvesse a menor reação à sua saída.

De repente, o venezuelano Hugo Chávez (que governa sob o princípio "bolivariano" da democracia sem alternância de poder), a argentina Cristina Kirchner (que cria leis malucas sempre que deseja perseguir um adversário) e o equatoriano Rafael Correa (outro que não inspira confiança) tornaram-se paladinos da democracia. 

E tanto fizeram que motivaram o deposto Lugo, que havia saído sem resistência, a pensar em recuperar o poder. 

Sim. Após o veredito, Fernando Lugo - provavelmente convencido de sua falta absoluta de apoio político - aceitou o resultado sem queixas e se mandou.

Mas, à medida que os amigos, sobretudo Chávez e Cristina, elevavam o tom de voz contra o governo do novo presidente, Federico Franco, a postura se alterou e ele, agora, fala até em comparecer à reunião de cúpula do Mercosul, prevista para acontecer esta semana, na cidade argentina de Mendoza. Para fazer o quê? Nada. 

Fernando Lugo não tem motivos para ir à reunião de um bloco comercial que não consegue resolver as pendências econômicas entre seus integrantes e que, a princípio, não tem autoridade para se meter em questões políticas. 

A única exigência dessa natureza feita pelo regulamento do bloco é que estabelece a democracia como condição essencial para participar da união aduaneira. Mas, pelo sim, pelo não, os países decidiram vetar a presença paraguaia no encontro.

O problema está justamente aí. A considerar o que diz a Constituição do país, não houve no Paraguai qualquer afronta às regras democráticas (por mais estranho que tenha sido o processo e as leis que o inspiraram, é bom que se repita). 

Mas tem um aspecto importante em torno de tudo isso. O Paraguai vinha sendo o único sócio do Mercosul que se opunha ao reconhecimento da Venezuela como integrante pleno do bloco.

Se o país guarani não tiver voz nem voto no próximo encontro (como não terá), nada impede que Hugo Chávez seja finalmente aceito como sócio do clube (o que, nessa altura do campeonato, faria um bem enorme ao coronel). 

O veto à presença do Paraguai e a presença inconveniente de Lugo na reunião, com certeza, estão longe de ser gestos em defesa da democracia. Estão cheirando a mais um lance na tal "revolução bolivariana".

(*) Ricardo Galuppo é Publisher do Brasil Econômico

Brasil sinaliza não intervenção no Paraguai. Não diga, top-top?


Brasil 247
Marcos Chagas*
Repórter da Agência Brasil

Em entrevista, Marco Aurélio Garcia, assessor para Assuntos Internacionais da Presidência condena o impeachment, pelo “rito sumário”, mas também avisa que o governo Dilma irá esperar a crise decantar antes de tomar atitudes

Foto: Edição/247 

Brasília - O assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, descartou, a possibilidade de o Brasil e os demais países do Mercosul (Argentina e Uruguai) intervirem em questões internas do Paraguai. Mas Garcia reiterou as críticas do governo brasileiro à forma como foi conduzido o processo de impeachment do presidente Fernando Lugo, que na última sexta-feira (22) foi substituído pelo seu vice, Federico Franco.

Em entrevista à Agência Brasil, Marco Aurélio Garcia rechaçou qualquer atitude que sinalize uma tentativa de intervenção em questões internas paraguaias. Ele reforçou que isso não ocorrerá nem por parte do governo do Brasil, nem do Mercosul.

O Brasil assumirá no fim da próxima semana, em reunião de cúpula, na Argentina, a presidência temporária do bloco, por seis meses, e a pauta principal da reunião deverá ser o impeachment de Lugo. Da parte brasileira, o assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência disse que o governo federal vai agir “sintonizado com as medidas adotadas pelo Mercosul”.

Garcia considera “impossível” qualquer reversão do que foi decidido pelo Congresso paraguaio. Para ele, qualquer ação nesse sentido teria que ser tomada “por ações internas” do país. Ele, no entanto, reiterou a postura do governo brasileiro de avaliar o impeachment de Lugo como um “rito sumário” e sem qualquer chance de defesa.

O embaixador do Brasil no Paraguai, Eduardo Santos, chega amanhã (25) a Brasília, quando se reunirá com o chanceler Antonio Patriota para fazer um relato da situação na política no país vizinho. “Em si a convocação do embaixador pelo governo já é um sinal de desconforto com o que aconteceu”, destacou Marco Aurélio Garcia.

O assessor especial acrescentou que, neste primeiro momento, os países integrantes do Mercosul devem chamar seus embaixadores para reunirem informações. A partir daí, a segunda etapa será decidir qual atitude será adotada.

Segundo ele, o momento é para avaliar a situação e “deixar essa crise no Paraguai decantar para ver como vai ficar”. Em um primeiro momento, o embaixador Eduardo Santos fará os relatos a Patriota. Caso a presidenta Dilma Rousseff considere conveniente ter uma conversa com Santos, poderá chamá-lo, disse Marco Aurélio Garcia.

*****COMENTANDO A NOTÍCIA:
Ou Marco Aurélio estava de porre, ou tem ...sei lá... uma tal arrogância, que o faz ver chifres em cabeça de cavalo, e acaba falando o que não deve e não faz sentido. Senão vejamos: afirma que o Brasil não tenciona interver na questão paraguaia. Mesmo que quisesse, o Paraguai é uma nação e, de resto, nada fez que pudesse macular sua democracia e seu estado de direito. Não compete ao Brasil dar pitacos nas questões internas de qualquer país (muito embora a gente não esquece Honduras, outra patetice da nossa política externa). 

Segundo, afirmar que o Brasil vai “... deixar essa crise no Paraguai decantar para ver como vai ficar...”. Mas que crise, cara pálida? Tanto não há que nenhuma das instituições está parada, funcionam normalmente, a imprensa funciona normalmente, o presidente deposto circula livremente, não há movimentos de quebra-quebra nas ruas, o Poder Judiciário declarou constitucional o processo de impeachment. Onde então a crise? Quem quer criar crise do lado de lá da fronteira, são nossos esquerdistas que não se conformam em ver um dos seus capangas apeado do poder. Quem quer fazer rolo são Hugo Chaves e Cristina Kirchner, com o venezuelano e tentando incitar revoltas no meio militar conforme já foi denunciado. Ocorrida, que estes dois cretinos, precisam de “fatores externos” para darem demonstração de força e capacidade política, no intuito de aplacarem as revoltas internas em seus respectivos países. A viúva, então, nem se fala.

Portanto, o melhor que o Brasil  pode fazer é tomar vergonha na cara, parar de se intrometer onde não é chamado,  deixar de ser reboque de totalitários do continente4 e cuidar de sua própria casa porque se tem coisa mais importante para cuidar.  

Quanto ao Mercosul, meu chapa, que ele cresça e apareça, porque sequer competência legal e institucional ele tem para se intrometer em assuntos internos das nações do bloco. Vamos respeitar a soberania alheia. 

E, e para encerrar, o Brasil antes de criticar o Paraguai porque resolveu cumprir a sua lei, que aliás foi criada antes de Lugo assumir, é bom deixar claro, deveria usar o mesmo peso e a mesma medida com que está julgando o Paraguai para os seus parceiros como Argentina, Equador, Bolívia, Venezuela e Cuba principalmente. No dia em que o Brasil se comportar como defensor da democracia, e como aliado de caudilhos e outros ditadores, como Ahmadinejad, ele terá moral para, ao menos, criticar o Paraguai. 

‘O Brasil tem de respeitar a nossa escolha, feita segundo as nossas leis’


Roberto Simon
O Estado de São Paulo

Alfredo Luis Jaegli, senador paraguaio e articulador da destituição de Fernando Lugo, afirma que mudança ocorreu dentro das regras políticas

Um dos articuladores da destituição do presidente Fernando Lugo, o senador Alfredo Luis Jaegli pede calma à presidente Dilma Rousseff e promete "ótimas relações" entre o novo governo paraguaio, comandado por Federico Franco, e o Brasil. Jaegli, como Franco, é do Partido Liberal, que rompeu com Lugo na semana passada e, na sexta-feira, chegou ao poder pela primeira vez desde 1939. "Vamos fazer de tudo para que o Brasil, nossa nação irmã, fique do nosso lado", adianta o senador. Ele avisa ainda que o novo governo do Paraguai estará "bem distante" da Venezuela - e as relações com os EUA "serão muito melhores". A seguir, trechos da conversa com o Estado.

Qual é a mensagem do novo governo paraguaio à presidente Dilma Rousseff?
Espero que o Itamaraty entenda que tudo que se passou no Paraguai foi constitucional, institucional e republicano. Trata-se de uma mudança que teve de ser feita e foi apoiada em um consenso no nosso Congresso. O Brasil tem de respeitar a nossa escolha, feita de acordo com as nossas leis.

Como o sr. vê esse risco de o governo brasileiro defender a suspensão do Paraguai do Mercosul e da Unasul?
Essa posição brasileira deve ser reconsiderada. O Itamaraty é a chancelaria mais inteligente do Hemisfério Sul. Realmente espero que eles avaliem com cuidado o que aconteceu aqui e se deem conta de que o novo presidente, Federico Franco, é uma grande pessoa. Vamos ser muito amigos do Brasil e fazer muitas coisas juntos.

E como o sr. responde à acusação dos países da Unasul de que o devido processo não foi respeitado e Lugo foi destituído sem amplo direito de defesa?
Por favor... Foi absolutamente respeitado.

O presidente foi destituído em menos de 36 horas.
Nós (congressistas) fazemos as regras do julgamento político, conforme prevê a Constituição paraguaia. Não é como o Brasil. Mesmo assim, vocês suspenderam o presidente Fernando Collor de Melo de um dia para o outro.

Collor renunciou antes de sofrer o impeachment, cujo processo levou meses, e não 36 horas.
Sim, mas foi um processo de julgamento político também. Aqui temos algumas regras diferentes, mas o princípio é o mesmo. E, no caso de Lugo, é preciso notar que 76 dos 80 deputados e 39 dos 45 senadores de todos os partidos políticos apoiaram a destituição. Isso nos dá uma enorme legitimidade.

E como o sr. vê, por exemplo, o futuro de Itaipu ou a situação dos brasileiros que vivem aqui, questões que dependem da cooperação Brasil-Paraguai?
Nossas relações serão ótimas, incluindo a questão de Itaipu e dos brasileiros. Queremos que tudo fique bem. Creio que o governo brasileiro está se apressando um pouco. Vamos conversar calmamente com o embaixador brasileiro em Assunção (Eduardo Santos).

A Venezuela tem uma posição dura em relação ao novo governo. Como o sr. avalia isso?
Eles têm uma posição radical e distante daquela defendida pelo novo presidente do Paraguai. Mas já esperávamos isso.

Haverá mudança nas relações do Paraguai com os americanos?
Nossas relações com os EUA serão excelentes, muito melhores do que as de Lugo.

Suprema Corte rejeita recurso de Lugo para anular julgamento


Folha de São Paulo
Com informações da  France Presse e 
Agências de Notícias

A Suprema Corte de Justiça do Paraguai rejeitou nesta segunda-feira uma ação de inconstitucionalidade apresentada na sexta-feira (22) pelo ex-presidente Fernando Lugo para anular o julgamento político do Congresso.

A sala constitucional da Corte rejeitou "in límine" (sem analisar) a ação apresentada pelo ex-presidente para denunciar a suposta violação do direito de defesa no julgamento político.

Os ministros da Suprema Corte Víctor Núñez, Gladys Bareiro de Módica e Antonio Fretes assinaram o arquivamento da denúncia.

A iniciativa de Lugo se baseou na suposta parcialidade dos senadores no sentido de anunciar antecipadamente o resultado do procedimento de julgamento político (impeachment), além de violar o direito à defesa.

A defesa de Lugo questionou o tempo concedido para preparar sua defesa, que foi de duas horas.

Andrés Cristaldo - 25.jun.12/Efe
Cerimônia de posse de novos ministros paraguaios, em Assunção

No entanto, a Constituição do Paraguai concede ao Senado o poder de estabelecer o prazo para a defesa.

ENTENDA
O ex-bispo foi destituído do poder na sexta-feira passada em um processo parlamentar por "mau desempenho de suas funções".

A rapidez do julgamento político --cerca de 30 horas entre a abertura do processo e a destituição-- mereceu críticas dos países vizinhos, que encetam esforços para isolar politicamente o Paraguai.

Países da região, como Argentina, Equador, Venezuela, Chile e Bolívia chamaram seus embaixadores de volta e se recusam a reconhecer o governo interino de Federico Franco.

Jorge Adorno/Reuters
Apoiadores de Fernando Lugo protestam contra destituição, na capital Assunção
O Brasil, junto com outros países da América Sul, já decidiram pela suspensão do país, um dos pobres do continente, da Unasul e do Mercosul.

Movimentos sociais também começaram a organizar as primeiras manifestações contra a queda de Lugo, enquanto o novo governo dá os primeiros passos para reestabelecer o Executivo e refazer "as pontes" com os vizinhos.

Franco diz que a transição foi feita dentro dos marcos constitucionais do país e, ontem, fez um apelo para que as nações vizinhas não castiguem "6,2 milhões de pessoas" (a população estimada do Paraguai).

Com Paraguai suspenso, Mercosul deve aprovar ingresso da Venezuela


Diogo Alcântara
Portal Terra

A reunião de cúpula do Mercosul em Mendoza (Argentina), marcada para o fim desta semana, deve selar a entrada a Venezuela ao bloco. O país pleiteia um assento pleno e só não tinha aderido ainda porque faltava o aval do Congresso paraguaio. Como é esperada uma suspensão do Paraguai na cúpula de chefes de Estado, marcada para sexta-feira, tecnicamente faltaria apenas uma decisão dos presidentes de Brasil, Argentina e Uruguai.

"É preciso que haja uma manifestação formal, uma vez suspenso o Paraguai, os outros três continuam a atuar", disse uma fonte em condição de anonimato.

Objetivamente, é preciso ainda que haja uma decisão política a ser tomada em nível presidencial entre os demais membros do Mercosul. O mesmo interlocutor sugere que haja uma pré-disposição por parte de Dilma Rousseff, Cristina Kirchner e José Mujica nesse sentido.

Para a cúpula, é esperada uma manifestação formal e muito clara de um apoio à democracia tanto na instância do Mercosul quanto da União das Nações Sul-Americanas (Unasul). O Tratado de Ushuaia I estabelece uma cláusula democrática para que um país seja membro da união aduaneira. Em ambos os foros, o Paraguai deverá ser suspenso pelo menos até as próximas eleições, marcadas para abril de 2013.

O processo de impeachment-relâmpago que derrubou Fernando Lugo na semana passada foi visto como uma ação antidemocrática e fez com que Brasil e Uruguai chamassem seus embaixadores em Assunção para consultas, o que do ponto de vista diplomático significa um gesto de reprovação. Argentina foi mais assertiva e retirou seu embaixador "até que se restabeleça a ordem democrática".

O Paraguai também foi impedido de participar da reunião de Mendoza. O chanceler José Félix Fernández havia confirmado presença e reclamou por não poder ser ouvido pelos demais países. O governo paraguaio não tentou formalizar um contato institucional com o governo brasileiro.

Reunião do Mercosul
O governo Franco está isolado regionalmente depois que Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Venezuela, Peru e Uruguai ou retiraram ou chamaram seus embaixadores em Assunção para consultas. O bloco Mercosul, do qual o Paraguai participa ao lado de Argentina, Brasil e Uruguai, suspendeu a participação de representantes do novo governo paraguaio na cúpula que será realizada na sexta-feira na província argentina de Mendoza por considerar ilegítima a destituição de Lugo.

O ex-bispo pretendia comparecer à cúpula na Argentina, mas disse que avaliava permanecer no país. "Estou quase decidindo que não viajarei na sexta-feira pelos motivos que estou dizendo, que os presidentes da região se sintam em liberdade... não quero pressionar nem os presidentes, nem os países da região a tomarem .

Atrás de respaldo, Franco sugere que Dilma consulte brasiguaios


Daniel Favero
Portal Terra
Foto: AP

O presidente Federico Franco pediu nesta terça que Dilma Rousseff consulte os brasileiros no Paraguai
O presidente paraguaio, Federico Franco, pediu nesta terça-feira que a presidente Dilma Rousseff consulte seus compatriotas que vivem no país vizinho sobre o novo governo, empossado após o impeachment de Fernando Lugo na última sexta-feira. "Aqui tem 500 mil brasileiros, e quando as terras dos brasiguaios eram invadidas, a embaixada respondia que esse é um pais autônomo, que eles não poderiam fazer nada", disse o presidente, logo depois de um encontro com brasiguaios na sede do governo, em Assunção. No domingo, representantes dos brasiguaios encaminharam à Dilma um pedido para que o Brasil reconheça o governo Franco e trate o Paraguai como país amigo.

O novo presidente afirmou que o objetivo imediato é arrumar a casa e não priorizar a melhoria da imagem de seu país junto à comunidade internacional. "Se eu dissesse que a prioridade é a comunidade internacional, eu estaria mentido. Quero arrumar a casa e transmitir daqui para a comunidade internacional a tranquilidade. Prometo que vou me esforçar para demonstrar à comunidade internacional e à região que esse é um governo absolutamente democrático", afirmou.

Franco ainda lembrou o ex-presidente brasileiro Fernando Collor, "que também sofreu impeachment", ao falar sobre o processo que destituiu Fernando Lugo da presidência. Quando ouviu de um jornalista que o processo brasileiro levou meses e não dias, disse apenas que quando isso aconteceu "Itamar assumiu, porque é o que dizia a Constituição".

O presidente paraguaio destacou que ele era a única pessoa que poderia assumir a presidência do país, e afirmou que, se não o fizesse, poderia ser responsável por uma guerra civil. "Sou o responsável por garantir que aqui não vai ter guerra civil".

Perguntado sobre a mobilização de Lugo, que busca força junto a movimentos sociais, além de ter montado um gabinete paralelo, Franco afirmou que vai aceitar as manifestações, desde que ocorram dentro da legalidade. "O que não podem ocorrer são os excessos. Dentro da lei, tudo; fora da lei, nada (...). Fernando Lugo ainda está ferido, creio que por ser um homem da igreja, de reflexão, vai chegar a um momento de iluminação e vai avaliar o custo-benefício no momento de tomar suas decisões. Espero que faça isso", disse.

Processo relâmpago destitui Lugo da presidência
No dia 15 de junho, um confronto entre policiais e sem-terra em uma área rural de Curaguaty, ligada a opositores, terminou com 17 mortes. O episódio desencadeou uma crise no Paraguai, na qual o presidente Fernando Lugo, acusado pelo ocorrido, foi sendo isolado no xadrez político. Seis dias depois, a Câmara dos Deputados aprovou de modo quase unânime (73 votos a 1) o pedido de impeachment do presidente. No dia 22, pouco mais de 24 horas depois, o Senado julgou o processo e, por 39 votos a 4, destituiu o presidente.

A rapidez do processo, a falta de concretude das acusações e a quase inexistente chance de defesa do acusado provocaram uma onda de críticas entre as lideranças latino-americanas. Lugo, por sua vez, não esboçou resistência e se despediu do poder com um discurso emotivo. Em poucos instantes, Federico Franco, seu vice, foi ovacionado e empossado. Ele discursou a um Congresso lotado, pedindo união ao povo paraguaio - enquanto nas ruas manifestantes entravam em confronto com a polícia -, e compreensão aos vizinhos latinos, que questionam a legitimidade do ocorrido em Assunção.

Brasileiros no Paraguai pedem que Dilma reconheça Franco


Veja online
Com Agência Estado

Agricultores pretendem recorrer ao cônsul brasileiro na região da fronteira para sensibilizar o governo Dilma. Brasileiros são alvo de ataques de sem-terra paraguaios desde o início da gestão de Lugo 

Manoel Marques
Seguranças particulares vigiam campos de soja em propriedade
 de brasileiros, em Ñacunday, no Alto Paraná, Paraguai - 

Representantes dos agricultores e produtores rurais brasileiros que moram no Paraguai vão solicitar que a presidente Dilma Rousseff aceite o governo do novo presidente paraguaio, Federico Franco, conforme informações da Agência Brasil. No sábado, em nota, o Itamaraty informou que o governo brasileiro "condena o rito sumário de destituição do mandatário do Paraguai", decidido em na sexta-feira. Para a diplomacia brasileira, não foi assegurado o amplo direito de defesa de Fernando Lugo.

"O Brasil considera que o procedimento adotado compromete pilar fundamental da democracia, condição essencial para a integração regional", informou o Itamaraty.

A estratégia dos brasileiros que vivem no Paraguai é, inicialmente, solicitar ao cônsul brasileiro em Ciudad del Este, embaixador Flávio Roberto Bonzanini, que envie o pedido de reconhecimento de Franco à presidente Dilma. O próximo passo será dado nesta segunda-feira, quando um grupo pretende ir a Assunção para ratificar o apelo na embaixada brasileira.

O objetivo dos agricultores é convencer o governo Dilma de que Franco seguirá a determinação da Justiça, permitindo que os mesmos permaneçam em suas terras com segurança para continuar trabalhando. Enquanto isso, o governo brasileiro estuda, ao lado dos parceiros do Mercosul e da Unasul, medidas a serem tomadas por conta da "ruptura da ordem democrática no Paraguai".

Porém, segundo nota do Itamaraty, o governo brasileiro "não tomará medidas que prejudiquem o povo irmão do Paraguai" e o embaixador do Brasil em Assunção está sendo chamado a Brasília para consultas.

Governo Dilma ignora perseguição a brasileiros no Paraguai


Carolina Freita
Veja online 

Proprietários de fazendas no país vizinho, brasileiros estão sob ameaça de um movimento xenófobo de sem-terra ligado a integrantes do governo Lugo. Fiel à diplomacia da condescendência, Itamaraty dá resposta tímida a abusos


"Temos um diálogo leal e amistoso com o governo paraguaio. 
Nossas relações com o Paraguai são muito próximas", 
Eduardo Santos, embaixador do Brasil no Paraguai

A neta do agricultor gaúcho Milton Seipel, de 54 anos, 34 vividos no Paraguai, pediu chorando ao avô para mudar de escola. Os colegas se uniram para, em meio a empurrões, dizer à menina de 11 anos que ela saísse do colégio. O motivo: ela não fala o guarani, idioma nativo do país. “Ela nasceu no Paraguai, como quatro de meus filhos, meus onze netos e minha bisneta”, diz Seipel. “As crianças disseram que ali não era lugar para brasileiros.” A menina trocou não só de escola como de cidade. Para o avô restou a saudade. Da neta e de tempos mais tranquilos. 

Os 150 000 brasileiros proprietários de fazendas no estado do Alto Paraná, leste do Paraguai, estão sob ameaça. Aproximadamente 8 000 carperos – os sem-terra paraguaios – cercam as suas propriedades. Armados de facões e porretes de madeira, eles destroem plantações, agridem e ameaçam os produtores rurais. Seu discurso tem um claro componente nacionalista e, mais que isso, de estigmatização dos brasileiros, como mostra o episódio com a neta de Seipel. Também há indícios preocupantes de que as autoridades paraguaias se alinham com os carperos.

 No entanto, fiel à diplomacia da condescendência adotada desde o governo Lula em relação aos vizinhos, o Itamaraty responde de maneira tímida aos abusos. O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, conversou apenas uma vez com o chanceler paraguaio, Jorge Lara Castro, sobre os conflitos. Foi coletar informações. A ordem de Patriota para que o embaixador do Brasil no Paraguai, Eduardo Santos, visitasse a região só aconteceu um mês depois da primeira incursão dos carperos pelas terras de brasileiros. Só agora o Itamaraty estuda reforçar a estrutura consular no local, informou o embaixador Eduardo Santos. A reportagem do site de VEJA esteve na região e mostra quem são os protagonistas desse embate e os reflexos diplomáticos dele. 

ABC Color
O líder sem-terra Rosalino Casco, de azul, 
ajuda militares a demarcarem áreas no Alto Paraná

A tensão cresceu nas últimas semanas, quando o Exército paraguaio, acompanhado de falanges de carperos, iniciou uma demarcação de terras no Alto Paraná que ninguém no governo de Fernando Lugo conseguiu explicar até agora. Foram fincados no chão doze marcos de concreto em sete cidades, formando um perímetro que coincide com a área de 162 mil hectares reivindicada pelos sem-terra como terra pública a ser destinada para reforma agrária. Eles acusam os brasileiros de ter se apropriado dos terrenos. “Os invasores são os brasileiros”, afirma Victoriano Lopez, comandante do movimento. A maioria absoluta dos brasileiros que vivem no Alto Paraná, contudo, comprou fazendas de forma legal e tem título da propriedade. E o fato foi comprovado por sucessivas medições judiciais feitas nos últimos anos.

Por onde passaram durante a demarcação, militares e carperos deixaram um rastro de medo(veja infográfico). Durante os nove dias da operação, de 12 a 21 de janeiro, foram registrados nas delegacias da região quinze boletins de ocorrência por invasão de propriedade privada, coação, ameaça, agressão e tentativa de homicídio. Os excessos foram tantos que, em 23 de janeiro, o governo suspendeu a ação. Dias depois, o ministro da Defesa, Catalino Ortiz, foi chamado ao Senado para se explicar e admitiu irregularidades na ação. 

Um dos marcos, de concreto e pintado de laranja fluorescente, foi colocado na propriedade de Milton Seipel. Às 13 horas de 14 de janeiro, um sábado, apontou na porteira um grupo de quarenta carperos armados com facões e de quatro militares. “Os campesinos chegaram, gritaram para minha mulher prender o cachorro, abriram a porteira e entraram”, conta o produtor. “Perguntei se eles tinham documento. Eles não mostraram nada e mandaram que eu me calasse.” 

Uma semana depois eles apareceram nas cercanias da fazenda do brasileiro Alexi Paulo Grutka, de 47 anos, há 20 no Paraguai. Por lá também colocaram um marco. O filho dele, Diego, paraguaio de 23 anos, dirigia pela região quando foi interceptado por duas caminhonetes de sem-terra. Com uma espingarda, um revólver e facões em punho, os carperos mandaram Diego descer do veículo e o revistaram, sob ameaças. Dispararam um tiro de espingarda e fizeram o rapaz correr. Depois, quebraram os vidros do carro e roubaram a carteira e o celular que Diego tinha deixado no carro. 

Os dois casos, como o de dezenas de produtores, foram relatados pelos produtores ao cônsul do Brasil em Ciudad Del Este, Flávio Bonzanini, em uma reunião ainda em janeiro. Pouco foi feito desde então além de acompanhar a situação, em obsequioso silêncio. Na terça-feira da semana passada, mais um encontro, dessa vez com a presença do embaixador do Brasil no Paraguai, Eduardo Santos. “Eles prometeram que agiriam dentro das possibilidades deles. Não quiseram se comprometer com prazos ou ações”, relata Milton Abich, gerente da Coordenadoria Agrícola do Paraguai e filho de brasileiros. 

Em entrevista ao site de VEJA, o embaixador Eduardo Santos disse que tem mantido diálogo permanente com os integrantes do governo Lugo e que solicitou reforço policial na região do conflito. “A tensão da comunidade brasileira é real, prática e permanente”, disse Santos. Ainda assim, o tom usado com as autoridades paraguaias deve se manter. “Temos um diálogo leal e amistoso com o governo paraguaio. Nossas relações com o Paraguai são muito próximas.” 

A única medida concreta apresentada pelo Itamaraty ainda está em estudo e não tem data para sair do papel. A diplomacia avalia a possibilidade de criar um gabinete de crise na região de Ñacunday, na forma de um consulado itinerante. No local, agentes consulares ficariam disponíveis para prestar assistência direta aos brasileiros.  

A diplomacia poderia fazer muito mais pelos brasileiros, sem qualquer desrespeito à soberania paraguaia, com um simples – porém firme – discurso do ministro Antonio Patriota ou da presidente Dilma Rousseff a favor dos compatriotas que lá vivem. Caso contrário, corre-se o risco de repetir no Paraguai a postura frouxa adotada em 2006 em relação à Bolívia. Na época, Luiz Inácio Lula da Silva tratou com brandura o programa de nacionalização na área do gás do presidente Evo Morales, apesar dos prejuízos causados pela política à Petrobras. Agora, estão em jogo a vida e o sustento de milhares de brasileiros que vivem no Paraguai.



Justiça que tarda é falha


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação 

O ministro Ricardo Lewandowski está indignado: teve apenas seis meses para revisar o processo do Mensalão. Segundo disse, foi a mais rápida revisão de processo que já ocorreu no Supremo. Normalmente, garante Lewandowski, a revisão ocorre em seis meses. Seis meses? Seis meses: o prazo que ele levou. 

Mas o ministro Lewandowski não deixa de ter razão: o Mensalão está no Supremo há vários anos e só agora se sente alguma preocupação com a celeridade do processo. As várias licenças por motivo de saúde do ministro-relator Joaquim Barbosa também atrasaram o andamento do caso; a demora da presidente da República na escolha de ministros para vagas já existentes certamente não contribuiu para que o julgamento do Mensalão ocorresse mais cedo. O rigor dos ministros no cumprimento do calendário do descanso, sem que recessos perdessem um só dia, faz parte da lentidão agora tão criticada.

Claro, as reclamações do ministro Lewandowski poderiam até parecer uma declaração de voto - mas não são: fazem parte da ideia de que a nação deve girar em torno do calendário do Supremo. Pressa, até certo ponto; daí em diante, sejam quais forem as consequências da lentidão, não adianta nem reclamar.

Mesmo iniciando-se na data prevista, 1º de agosto, o Mensalão está sujeito a problemas. Um ministro se aposenta obrigatoriamente em 3 de setembro; outro, logo depois. Os novos ministros, mesmo se nomeados em seguida, terão de se inteirar do caso. Se o objetivo é julgar antes das eleições, não será fácil atingi-lo.

Dente no osso
As eleições em São Paulo prometem: o ex-presidente Lula anunciou que, para eleger seu candidato Fernando Haddad, vai entrar duro na campanha. Em julho ou agosto, diz, estará com a garganta boa. "Se for necessário, morderei a canela dos adversários".

Já houve uma série de piadas pesadas a respeito de agosto e da mordida na canela; e, por serem de mau gosto, não cabe transcrevê-las. Mas essa história de morder o osso é ruim. 

A palavra "morder", em política, é coisa feia.

Recordando
Em 1985, Tancredo Neves disputou a Presidência contra o candidato dos militares, Paulo Maluf. O PT resolveu abster-se e expulsou três parlamentares que votaram em Tancredo, contra Maluf. 

Responda rápido: foram expulsos porque votaram, porque votaram em Tancredo ou porque votaram contra Maluf?

Falou, sim
A jornalista Rosa Wassem, assessora de imprensa do senador petista Eduardo Suplicy, rebate nota desta coluna: diz que, ao contrário do que foi publicado, Suplicy não ficou em silêncio, mas criticou a aliança do PT com Paulo Maluf e fez elogios a Erundina. As entrevistas foram divulgadas pelos portais G1 e Terra.

Certo: o silêncio não foi tão estrondoso, embora o senador não se tenha sentido motivado a disfarçar-se de Super-Homem ou Robin Hood, como já o fez, para amplificar seu protesto. A propósito, a assessora de imprensa de Suplicy dirigiu-se a este colunista como "prezado Bismarck". Se o compara ao primeiro-ministro que unificou a Alemanha, é elogio exagerado; se é uma referência ao couraçado, este "pesado Bismarck" é gordo, mas sem a tonelagem de um navio de guerra. 

Ripa no aliado
A coisa passou meio despercebida, mas as críticas da presidente da Petrobras, Graça Foster, "às metas irrealistas" e "nunca cumpridas" da empresa atingem diretamente o presidente anterior, José Sérgio Gabrielli. Ele ocupou o cargo nos últimos seis anos. Hoje é secretário de Planejamento da Bahia, no Governo Jaques Wagner. Gostaria de ser candidato ao Governo, mas não é o primeiro da fila.

La garantía son ellos
Cadê o Exército nas ruas de Assunção? Não está. Cadê os tanques fechando o Congresso e cercando os tribunais? Não há. Em que prisão foram colocados o ex-presidente e seus ministros? Em nenhuma: ao contrário, eles se reúnem normalmente, abertamente, para discutir política e criticar os atos do novo Governo. O Congresso aprovou o impeachment com votação avassaladora e a Corte Suprema considerou que o processo seguiu todos os ritos constitucionais.

Quem diz que houve golpe são os países vizinhos - aqueles que por tantos anos defenderam a não intervenção em assuntos internos de nações soberanas. O Brasil está em cima do muro: critica mas não agride. Vender a energia de Itaipu é essencial para o Paraguai, e comprar a energia de Itaipu é vital para o Brasil.

Las democracías
Venezuela, Equador, Cuba e Bolívia não reconhecem o novo Governo paraguaio. Estados Unidos e Alemanha já o reconheceram. 

O Paraguai deve estar preocupadíssimo com suas relações internacionais.

Boa notícia
A ministra Carmen Lúcia, que dirige o Tribunal Superior Eleitoral, decidiu criar uma Comissão de Transparência, para garantir o livre acesso às informações. Dos sete membros da comissão, dois, respeitadíssimos, já foram convidados e aceitaram o trabalho: o ex-secretário da Receita Federal Everardo Maciel e o jornalista Cláudio Weber Abramo, da Transparência Brasil. 

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