segunda-feira, junho 11, 2012

Um crescimento econômico do tamanho do governo


Adelson Elias Vasconcellos

Esta edição praticamente concentrou-se em analisar os vários aspectos do pouco crescimento brasileiro desde 2011. Creio que a melhor avaliação que se pode fazer sobre o tema se concentra no editorial do Estado de São Paulo, sob o título “Discurso não resolve crises”. Com efeito, pelo menos a crise econômica não aceita nem discurso vazio, tampouco mau gerenciamento. E não há jeito: há regras e princípios que, se contrariados, comprometem todo o esforço de um país e colocam em xeque seu próprio futuro.

O governo Dilma vendo-se diante da continuidade da crise iniciada em 2009, resolveu adotar o mesmo figurino seguido por Lula. Contudo, as mesmas mágicas não poderiam, como de fato não provocam os mesmos resultados em razão de que o cenário atual, internamente, é completamente diverso do de 2009. Portanto, temos aí um erro de diagnóstico grave. Mas não é só o diagnóstico: o remédio que se está adotando apenas amenizam as dores do paciente. Nada muito além disto. 

Lá havia um contingente enorme de pessoas chegando ao mercado de consumo via os novos empregos (apesar de sua baixa qualidade), ampliação exponencial do crédito, além de milhões de beneficiários de programas sociais que passaram a consumir e maior quantidade e  melhor  qualidade, graças, sobretudo ao crédito. Porém, e este alerta já fizemos aqui, em razão de que mais de 90% dos milhões de empregos o foram de baixa qualçidade4, portanto, com baixa remuneração, todo este contingente acabou estourando seu limite de endividamento e freou o ritmo de consumo. De um lado, aqueles que tem juízo, resolveram não ultrapassar o limite da responsabilidade, e reduziram seu consumo   para nãop comprometerem seu orçamento. Mas, pelo menos cerca de 25%,  calcula-se que em torno de 10 milhões de famílias, não tiveram o mesmo cuidado, acabaram se endividando além do recomendado,  e hoje engrossaram a fila dos inadimplentes. Em consequência, também frearam suas compras. E, na medida em que o nível de inadimplência foi crescendo, os bancos e financeiras começaram a se tornar mais exigentes na abertura de linhas de crédito. Mas também um expressivo número de pessoas que, por terem renda melhor, continuam comprando e gastando, porém, lá fora, incentivadas pelo câmbio. Mas estes também se forçarão a reduzir suas comprars em razão da desvalorização do real.

Ora, para um país cujo força motriz de sua economia é justamente apostar no consumo de seu mercado interno, a conjugação dos fatores acima acabam produzindo retração na sua atividade econômica. É bom considerar, também , que a adoção de medidas protecionistas adotadas recentemente pelo governo Dilma também estão restringindo a entrada de importados. Assim, vê-se que o baixo crescimento se justifica quase que plenamente. Mas não é só isso. 

A atividade econômica em ritmo menor precisa ser vista por outros ângulos. A agropecuária , por exemplo, que manteve crescimento vigorosos nos últimos anos, em 2012, em razão do clima, estiagem no sul, seca no Nordeste e inundações no Norte sofreu queda brusca no trimestre. A indústria, apesar da pequena reação, sabemos que não se sustentará nos próximos meses. Como vimos ontem, este pequeno crescimento se deu muito mais em função reposição de estoques do que propriamente   fruto das medidas do governo.

Mas há, contudo, um elemento que se deve pesar com carinho: o governo atual reduziu drasticamente seus investimentos. Continuou gastando, sim, e mãos cheias, mas gastos correntes, decorrentes da máquina pública, e não investimentos que pudessem agregar valor à economia brasileira. E isto também pesou.

Olhando o quadro que temos no presente, não resta dúvida que o país acabará sentindo os efeitos da crise europeia. O mercado internacional, de modo geral, reduziu seu apetite por commodities, e isto se reflete diretamente em nossas vendas externas. Apesar da valorização do dólar nos últimos meses frente ao real, nossas exportações de manufaturados e semimanufaturados continuam emperradas por conta do elevadíssimo Custo Brasil que, de forma muito tímida e lenta em demasia dada à urgência do pais, começa a desenhar um diagnóstico mais relista, prometendo atacar alguns destes custo que oneram nossa produção. Neste sentido se fala na fusão do PIS/COFINS (espero que com uma alíquota significativamente menor). Também se acena com a redução dos encargos incidentes sobre as tarifas de energia elétrica.  

Aqui, apesar da promessa do governo Dilma, não acredito que o resultado final alivie o peso que a energia elétrica exerce sobre os custos das empresas. Primeiro, que o peso maior dos encargos deriva do ICMS, portanto, tributo estadual, e do que os governos estaduais estão sempre de pires na mão, será difícil convencê-los abrirem mão de alguma receita. Segundo, retirando-se os encargos, ainda assim, em comparação com os demais países, a tarifa incidente sobre o consumo permanecerá elevada em demasia. E, ao que se saiba, apesar disto, muitas concessionárias estão mal das pernas. Portanto, o espaço fica reduzido para que se pratique uma redução tarifária necessária.

Assim, e considerando-se que este governo não tem a menor vontade de praticar as reformas estruturais indispensáveis para garantir crescimento, é bem provável que continuaremos nos arrastando. Portanto, o discurso presidencial, devidamente copiado pelo ministro da Fazenda, continuará fora de sintonia. Um dos caminhos que poderiam vitalizar nossa economia  seria o Mercosul. Mas como confiar num mercado, em que o principal parceiro brasileiro continuam remando contra, colocando empecilhos de toda a ordem para a entrada de nossos produtos? Vejam o que acontece com os calçados, em que as fábricas gaúchas aguardam há um ano a liberação de suas vendas! Deveria, claro, o governo Dilma aplicar a mesma reciprocidade, e com a mesma energia com que agiu em relação à Espanha com sua política de dificultar a entrada de brasileiros naquele país. Mas qual, quem disse que este governo vai afrontar a vizinha Argentina! Covardia? Fraqueza? Incompetência? Podem somar tudo isso e colocar mais alguma coisa. 

Poderia alinhar aqui a curta visão do governo em relação ao que vem a ser um programa social digno do nome. O governo vê apenas as urnas, os efeitos que a distribuição de dinheiro ´pde provocar na eleição mais próxima. Não vê a importância de se valorizar o indivíduo, dar-lhe ferramentas para seu próprio crescimento. Mas quem se importa?  Poderia acrescentar a questão da Copa. Um gasto milionário para abrigar uma competição esportiva, enquanto os brasileiros são jogados e tratados como lixo ou até dejetos humanos nos hospitais públicos caindo aos pedaços. E falar de política, santa Deus, depravada e degrada como a nossa, melhor esquecer, deixar de lado para não juntar raiva.. Poderia também falar da educação, mas ainda seria exigir demais de um governo cujo projeto prioritário é e continuará sendo apenas a manutenção no poder, mesmo que isto entrave o desenvolvimento do país. 

 Creio que a nota a seguir publicado pelo Cláudio Humberto em sua página, resume bem o espírito que alimenta as ações do governo petista. É um assombro! “Nuncadantez na história deste país” se teve um governo tão corajosamente imbuído de prefere investir lá fora, do que fazê-lo aqui dentro. 

Brasil financia aeroporto milionário... na África
Por aqui está devagar, quase parando, mas Gana, na África, que não sediará Copa do Mundo ou Olimpíadas, ganhou financiamento de 174 milhões de dólares (R$ 350 milhões) do contribuinte brasileiro, através do BNDES, para construir o aeroporto internacional de Tamale, ao norte da capital, Acra. A construtora Queiroz Galvão tocará a obra, sob a responsabilidade da administração portuária estatal Ghana Airport.

No Brasil, 17 dos 20 principais aeroportos estão em “situação critica”, segundo o Ipea, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

O estudo do Ipea atestou também que os investimentos nos aeroportos do Brasil “foram inferiores à necessidade”.

Obsoletos e com instalações arcaicas, doze dos nossos principais aeroportos operam acima do limite de sua capacidade, aponta o Ipea.

Agora juntem todos os ingredientes acima citados e vocês concluirão que o mundo lá fora tem razão em seu desencanto em relação ao Brasil. Só que isto é simplesmente a consequência de um governo pautado pelo poder. Sua publicidade mentirosa jamais conseguirá esconder a realidade que nos cerca. As máscaras, senhores, cedo ou tarde, acabam caindo, por mais bravateiro, demagogo e mistificador que seja o discurso de ocasião.

Um país sem guerras, com uma natureza rica, com um potencial infinitamente superior ao restante do mundo, crescer aquém destas potencialidades  é indicativo do tamanho do governo que o conduz. Países em guerras, vivendo crises econômicas  imensas, conseguem fazer mais e melhor do que estamos fazendo. Portanto, o problema não está lá fora, o problema do Brasil continua sendo seu governo com uma brutal incapacidade de gestão. 

Encerro com uma reflexão relevante. Na página inicial do site do Instituto Millenium está reproduzido um pensamento de William Simon, ex-secretário do Tesouro do EUA, e que se encaixa perfeitamente bem no caso brasileiro: 

"O primeiro objetivo do burocrata é a preservação de seu trabalho, fornecido pelo Estado inchado, às custas dos contribuintes. Se os problemas reais do mundo são resolvidos ou não, é de importância secundária. Não é preciso muito cinismo para ver que os burocratas não têm interesse em ter os problemas resolvidos. Se os problemas não existem não há razão para o burocrata ter um emprego"

STF julgará mensalão a partir de agosto. Teremos surpresas?


Adelson Elias Vasconcellos

É óbvio que a marcação em 01º de agosto próximo para o STF dar início ao julgamento do mensalão, representa uma vitória das instituições. E, claro, uma derrota para os réus que, sob o comando de Lula e Dirceu, tentaram adiar e até melar o julgamento.

Em se tratando de Brasil, entretanto, é preciso que a vigília permaneça atenta e alerta. Lula nomeou oito dos atuais onze ministros, ou seja, de certa forma, é fácil para ele ter acesso a conversas de pé de ouvido com um e outro, além do que, conforme alguns julgamentos recentes do STF aquele corte que, teoricamente deveria guiar-se pela a única régua e compasso que a subordina, ou seja,  a Constituição, nem sempre esta submissão tem ocorrido.  Tem sido comum a nossa Suprema Corte, ao arrepio da lei, alterar por conta própria o texto constitucional, invadindo a seara de outro poder, o Legislativo, e sem ninguém lhe tenha delegado tal autoridade.

Juntando-se os fatos e considerações acima, não se pode a priori considerar vitoriosa a campanha que nacos da sociedade empreenderam com o objetivo de pressionar o STF a marcar e dar início imediato ao julgamento da quadrilha mensaleira. 

Apesar de entendermos a complexidade de um julgamento nas proporções do mensalão, o tempo decorrido para que o julgamento tivesse seu início já transcorreu demasiado.  E, dada a natureza dos crimes e a importância dos acusados, conspirar para o julgamento fosse jogado às calendas apostando numa provável prescrição, não é apenas jogar contra à lei, mas contra a sociedade. Assim, deplorável e patética a atuação movida por Lula e sua gangue tentando e apostando para que o julgamento fosse empurrado para depois das eleições, considerando não o calendário eleitoral, mas nas prováveis saídas de Cesar Peluso e Ayres Britto. Como mais deplorável ainda é movimento que se move no submundo petista para tornar Gilmar Mendes impedido de proclamar seu voto.  

Porém, como esta é uma república em que o deplorável e patético são mais comuns na vida publica do que seria razoável de se esperar, é preciso manter o alerta porque para que o julgamento tenha seu início efetivo, Lewandovski ainda precisa entregar seu relatório revisor.  E o país inteiro sabe não apenas da proximidade entre ele e Lula. Não creio, contudo,  que o ministro do STF vá se prestar à desmoralização pública de retardar ainda mais a entrega de seu relatório, quebrando assim a unidade de pensamento majoritário dentre seus pares de que o julgamento já amadureceu o bastante para continuar sendo retardado. E, acreditem leitores, o perigo não mora aí. O sinal de alerta ainda mora nos votos de uns e outros os quais, a exemplo de questões outras, acabaram sendo decepcionantes para a institucionalidade do país. E é neste campo que Lula e Dirceu atuando pesadamente.  Sabendo que o julgamento acontecerá de forma inexorável, atuam e pressionam no sentido de que os votos dos mais sujeitos às suas pressões, e creiam, hoje eles  já são e formam a maioria no colegiado do atual STF, lhes sejam favoráveis. 

Portanto, não dá para levantar guarda. Para  uns, os mais otimistas, estes votos de cumplicidade  até poderão parecer surpreendentes. Porém, para todos quantos olham com reservas para a atual constituição do STF, votos em favor dos réus, não todos, nada terão de surpreendentes. Adoraria estar errado, adoraria ser um péssimo previdente. Mas em julgamentos como os da Raposa do Sol, aborto de anencéfalos, casamento gay, extradição de Cesare Battisti, só para citar alguns, recomendam prudência máxima em relação ao que pensam alguns dos ministros do STF.

Assim, mesmo que TODOS os réus sejam condenados (no que duvido), e recebam pena máxima por seus crimes, é bom a sociedade brasileira prestar muita atenção nos votos de uns e outros.  Será por intermédio deles que a gente poderá proclamar a vitória da lei, das instituições, do estado de direito, da própria democracia. Daí a importância que se dá a este julgamento, por os crimes além de serem cometidos contra o próprio país, representam muito bem os costumes que, de certa forma, ainda vigoram no país. Punir a quadrilha é dar um recado claro às demais quadrilhas que atuam de modo solerte, livre, franco, crentes na impunidade de seu caráter imoral. Se o país quer uma nação decente, o momento de se decretar o dia nº um desta nova era, começa em 01º de agosto próximo. 

A pressão do PT sobre o mensalão, tentando inclusive parecer à opinião pública mais vítima do que propriamente criminoso, vai se arrastar por um bom tempo. Até diria que, da forma como o mensalão está posto, os petistas tem mais é que agradecer aos céus que as suas estratégias e artimanhas lá no início do escândalo, acabaram não sendo piores. O jornalista Ilimar Franco, do jornal O Globo publicou neste domingo uma nota que faz muito sentido. Vejam:

Mensalão: o que não foi investigado - A menos de dois meses do julgamento do mensalão, policiais federais que atuaram nas investigações lembram que muitas coisas que reforçariam a denúncia contra os réus não foram adiante. Na época, não se autorizou buscas nas casas do ex-ministro José Dirceu, do ex-presidente nacional do PT José Genoino, e do publicitário Marcos Valério. A PF queria ouvir o presidente Lula, mas a PGR segurou o pedido. Interceptações telefônicas não foram permitidas, assim como investigações no Banco do Brasil e rastreamento de contas no exterior. “Se tiver absolvição, lavo as minhas mãos”, disse um dos agentes envolvidos”.

A bem da verdade, lá no início quando o Ministério Público aceitou a denúncia deixei colocada uma questão de extrema importância: se o próprio Dirceu afirmava que Lula sabia de tudo, porque o ex-presidente não foi inquirida e até arrolado no processo, já que o esquema criminoso tinha por objetivo beneficiar unicamente ao próprio Lula? Como se vê pelo que informa o jornalista do Globo, fica claro que o trabalho do Thomaz Bastos, como chefe da Polícia Federal, foi muito bem feito urdido em favor do próprio partido e seu comandante...

UNE – uma birosca fora de seu tempo e da lei


Adelson Elias Vasconcellos


A refundação da UNE, a partir do fim da ditadura militar, e especificamente localizando-a ao tempo do impeachment de Collor, (lembram os caras pintadas), parecia trazer para o palco da política brasileira, um novo alento, um esperançoso ar de renovação, afinal, não apenas as velhas oligarquias política já naquela época caiam de podre.

Mas de repente, neste espaço de tempo que vai de Collor a Lula, a UNE jogou toda a sua história de luta no lixo, e resolveu aderir por contra própria ao velho perfil comunista. 

Ou seja, ao invés de ir para frente, a UNE  resolveu contrair-se, andar para trás e adornar-se com os valores e ideias carcomidas, superadas.  E, para culminar este processo retrógado, a partir de Lula, a UNE  vamos dizer assim “pelegou”.   Sei que a expressão não existe, estou forçando um pouco a barra justamente para dar a dimensão da birosca em que se transformou a União Nacional de Estudantes. 

Aceitou passivamente submeter-se aos caprichos nauseabundos de um partido político caquético em troco de uns trocados. E acabou afundado tanto no ideário histórico quanto até na sua força representativa.  Se fechar suas portas,  acreditem, não fará falta a ninguém, a não ser, claro, aqueles que nela se grudam para mamarem a vontade, não precisarem trabalharem nem produzir nada de útil para a sociedade que os sustentam.Numa palavra: bando de vagabundos ressentidos. 

Há várias razões para que entidades como a UNE e até sindicatos não se aliem a governos. Uma delas, por certo, é que sua posição de neutralidade, lhes permite expressarem-se de forma livre, espontânea, cobrando das autoridades públicas a atenção para as causas de quem representam. A partir do momento em que se curvam ao poder de plantão, passam a ser buchas de canhão, massa de manobras, militantes tontos em busca de coisa nenhuma.

A atual diretoria da UNE, e já de algum tempo tem sido assim, estão sob comando de comunistas,  com alguns militantes  dos tais PC do B, PSTU, PT e outras tantas siglas que adoram a farra de mamarem em dinheiro público.

Alguma causa popular? Alguma bandeira em favor da sociedade? Nada, são feitos zumbis zanzando de um lado a outro, cacarejando discursos surrados, bolorentos, sem efeito e sem causa, apenas para se mostrarem como entidades de qualquer coisa irrelevante, para sendo aquinhoados com um dinheiro que é tirado à fórceps do povo que tem a pretensão de querer representar.  Esta gente bisonha tem a petulância de encher a boca de “povo”, mas odeiam feitos Diabo à Cruz terem de viver como povo, trabalhador, honesto, produtivo, útil a si e aos seus. 

A reportagem que reproduzimos no início desta edição sobre a farra protagonizada pela UNE e, que até então vinha sendo relevada pelos vários ministérios com quem a entidade firmou “convênios” e sugou dinheiro público, é bem o demonstrativo do quanto a UNE e semelhados pararam no tempo, perderam sua essência. Enquanto em países com um caldo de cultura democrática mais desenvolvida que o Brasil, estudantes e seus entidades representativas promovem protestos para exigir melhor qualidade de ensino, mais verbas para educação, melhores condições materiais para si (há escolas caindo de pobre de norte a sul),  cobrando e exigindo dos governantes mais verbas para educação, a turma da UNE só sabe promover passeatas para reclamar das passagens de ônibus, exigir meia entrada para qualquer espetáculo, o que, convenhamos, já ultrapassou os limites do ridículo. Se suas bandeiras se estendessem  à causas ligadas diretamente à sua formação, ainda vá lá. Mas nem isso. 

Muitas das atuais lideranças políticas do país tiveram seu aprendizado nas fileiras da velha UNE. Hoje, a geração de novas lideranças terá que ser forjadas em outros lugares, porque a UNE cansada de guerra e batalhas, perdeu sua essência, seu espírito combativo. Tornou-se uma república de sugadores de dinheiro público em troca de sua submissão repulsiva a partidos políticos.  Infelizmente, a educação brasileira anda tão sem prestígio, que nem a entidade máxima que os representa se ocupa de suas bandeiras mais significativas. Jovens ainda, eles morreram como velhos sem causa, oprimidos pelo caixa do governo petista. 

Nós e os outros


J.R. Guzzo
Revista Veja

“Só no Brasil” — eis aí três palavras que todo brasileiro costuma ouvir, 365 dias por ano, a respeito de coisas que só acontecem por aqui, geralmente muito ruins, e que são desconhecidas no resto do mundo.

Em geral começam como uma discreta trapaça no uso do dinheiro público, depois se transformam num hábito nacional e, no fim, acabam virando um maciço conto do vigário aplicado o tempo todo pelos governos — que, como viciados em drogas, não conseguem mais viver sem ele. É o que acontece, entre tantos outros pecados exóticos, com a “publicidade oficial”.

Qualquer cidadão sabe muito bem do que se trata — são esses anúncios que governantes de todos os níveis, da alta administração federal a remotas prefeituras do interior, pagam (com dinheiro do orçamento, é claro) para publicar em jornais e revistas, no rádio e na televisão. Dizem, ali, quanto são bondosos, eficazes e trabalhadores — e mostram as obras de seus governos, reais ou imaginárias, como se estivessem fazendo um imenso favor à população que pagou por elas.

Publicidade que trata o contribuinte como um bobo alegre
A maioria dessa publicidade, para não dizer toda, trata o contribuinte como um perfeito bobo alegre, pronto a acreditar em qualquer coisa que lhe dizem.

Ainda recentemente, em São Paulo, o cidadão podia ver na TV, pago com o seu dinheiro, um anúncio do governo do Estado que começava com a imagem de uma vaca, filmada de ré; a câmera se deslocava, então, para mostrar o que deveria ser uma rija lavradora, entregue à sua labuta de tirar, às 5 da manhã, o leite nosso de todo dia.

Mas o que aparece é uma graça de garota, com umas botas de cano alto que poderiam ter saído de uma loja Hermès, jeans de grife e sob a luz do meio-dia, com as mãos a distância segurando as tetas do bicho. Ela diz, aí, que sua grande alegria na vida é saber que o leite tirado com o seu trabalho é distribuído pelo governo para crianças pobres etc.

A única coisa real, no anúncio todo, é a vaca.

Não há inocente aqui; todos os políticos, sem nenhuma exceção, fazem o mesmo quando estão no governo.

Nesse assunto, ninguém critica ninguém, no conforto geral de saber que delitos coletivos nunca são realmente condenados. É assim que permanece viva, cada vez mais, a publicidade oficial — uma aberração só vista no Brasil.

Dá para imaginar o governo da Itália, por exemplo, gastando fortunas na mídia para dizer “Itália — um país para todos”?

Ou algo assim: “Prefeitura de Londres — antes não tinha, agora tem”? Não dá.

O funcionário que sugerisse uma coisa dessas seria provavelmente encaminhado a uma instituição psiquiátrica.

Neste momento, com a campanha eleitoral, a coisa pega fogo. No ano passado, só o governo federal gastou mais de 3 bilhões de reais em “comunicação”, entre publicidade e patrocínios. Juntando a isso estados e prefeituras, o volume de gastos entra em mares nunca dantes navegados.

Os políticos alegam que é pouco, diante do total de quase 90 bilhões aplicados no mercado publicitário brasileiro em 2011. Pode ser, mas o dinheiro não é deles — é do cidadão, e está sendo jogado no lixo para pagar os elogios que fazem a si próprios.

Sua desculpa é que os governantes têm o dever de “informar a população” e “prestar contas” de como estão aplicando o orçamento.

É uma piada. Não informam coisa nenhuma, e, na hora de prestar contas de verdade, fazem justamente o contrário: desligam a chave geral para deixar tudo o mais escuro possível.

Os órgãos de comunicação, sem dúvida, se beneficiam da publicidade oficial; nenhum deles é uma santa casa de misericórdia, e todos têm de pagar suas despesas. Mas a imprensa de verdade vive do apoio do seu público e dos anúncios privados que ele atrai, e não de verbas publicitárias do governo. Seu único mandamento, nessa história toda, é manter a própria independência. E os que não mantiverem? Problema deles.

Veículos que, em troca de anúncios, só publicam o que interessa ao governo, e escondem tudo o que não interessa, têm de resolver isso com os seus leitores, ouvintes e espectadores; se eles desconfiarem que estão sendo enganados, podem ir embora. O certo, no fim de todas as contas, é que o governo não deveria pagar um único tostão para a mídia publicar sua propaganda.

Eis aí mais uma coisa que nos separa, por exemplo, de um país como a Alemanha, onde publicidade oficial não existe. É que a Alemanha, coitada, é apenas a Alemanha.

Já o Brasil é o Brasil — aqui há dinheiro de sobra para o governo jogar pela janela. Somos um país onde a população é riquíssima.

As contas da UNE


O Estado de S.Paulo

Convertidas em entidades chapa-branca desde a ascensão do PT ao poder e apoiando todas as iniciativas administrativas e políticas do Palácio do Planalto nos últimos dez anos, a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União Municipal dos Estudantes Secundaristas (Umes) de São Paulo estão sendo investigadas pelo Ministério Público (MP) Federal por malversação no uso de verbas públicas.

A investigação, informa o jornal O Globo de sexta-feira, foi aberta pelo procurador Marinus Marsico, que atua no Tribunal de Contas da União (TCU). Ao examinar as prestações de contas das duas entidades, entre outras irregularidades, ele identificou o uso de notas fiscais frias e descobriu que parte dos recursos liberados pelo governo para promoção de atividades culturais e "caravanas da cidadania" foi gasta com a compra de cerveja, vinho, cachaça, uísque e vodca e com a aquisição de búzios, velas e celulares.

Entre 2006 e 2010, a UNE e a Umes receberam cerca de R$ 12 milhões dos cofres públicos para implementar projetos de capacitação de estudantes e promover eventos esportivos, além de iniciativas culturais. Segundo o procurador Marinus Marsico, as duas entidades gastaram perdulariamente esses recursos em atividades que nada tinham a ver com os objetivos dos convênios firmados com os Ministérios da Educação, Saúde, Cultura, Turismo e Esporte.

No caso dos convênios firmados pela Umes com o Ministério da Saúde, no valor de R$ 234,8 mil, por exemplo, a entidade não teria realizado licitação pública para a escolha das escolas beneficiadas nem apresentou qualquer justificativa para a dispensa de concorrência, como exige a legislação.

Segundo o MP Federal, quatro notas da empresa WK Produções Cinematográficas apresentadas para justificar gastos com a Caravana Estudantil da Saúde, realizada em 2009 para promover a "conscientização da importância de doar sangue", são "inidôneas". Gastos de R$ 20 mil previstos para assessoria jurídica foram elevados para R$ 200 mil, sem qualquer justificativa.

As investigações também constataram duplicidade de pagamentos, imprecisão do objeto do convênio e até a transferência de recursos da conta oficial da entidade para contas bancárias pessoais dos responsáveis pela Caravana Estudantil da Saúde. Na representação que encaminhou ao TCU, o procurador Marinus Marsico afirma que as irregularidades são graves, sugerindo "possíveis atentados aos princípios da moralidade, da legalidade, da legitimidade e da economicidade, além de evidenciarem possíveis danos ao erário público".

No caso dos convênios firmados há quatro anos pela UNE com os Ministérios da Cultura e do Esporte, para "implantação de atividades esportivas e debates" durante a 6.ª Bienal de Artes, Ciência e Cultura, as prestações de contas não foram enviadas até hoje pela entidade. "É lamentável, especialmente pela história de lutas dessas entidades. Elas teriam que ser as primeiras a dar à sociedade o exemplo de zelo no uso do dinheiro público", diz o procurador.

Por não prestar contas de como gasta dinheiro vindo de convênios firmados com a União, a UNE foi, no ano passado, inscrita pela Procuradoria-Geral do Ministério da Fazenda como inadimplente no Cadastro Informativo de Créditos não Quitados do Setor Público Federal (Cadin). E, se for condenada pelo TCU, com base nas provas que estão sendo coletadas pelo MP Federal, poderá ser obrigada a devolver as vultosas quantias que já recebeu.

No passado, a UNE lutou efetivamente, tanto contra a ditadura de Getúlio Vargas quanto contra a ditadura dos militares. Hoje, a UNE é um reduto do PC do B - partido que se destacou no escândalo dos repasses irregulares de recursos públicos a organizações não governamentais fantasmas, denunciado no ano passado. Além de viver de regalias do governo e do monopólio na expedição de carteiras estudantis, a UNE é manipulada por estudantes profissionais que fazem do lazer e da bajulação sua principais "especializações".

É por isso que as "tomadas de posição" da UNE já não valem o papel em que são escritas.

A economia das falácias


Ubiratan Iorio 
Mídia Sem Máscara

O governo brasileiro vem promovendo uma verdadeira marcha à ré em termos de intromissão nas liberdades individuais e econômica. A "coisa" chega a impressionar pela intensidade, pela atrocidade e — naturalmente — pela necedade (um eufemismo para burrice). Semanalmente, para não dizermos diariamente, somos surpreendidos por medidas governamentais que nos fazem pensar que voltamos à metade do século passado, àquele período em que ainda se acreditava que as teorias ditas "desenvolvimentistas" da Cepal poderiam produzir resultados bons. Haja paciência!

Neste artigo, vamos apenas mencionar algumas falácias que serviram de base para muitas dessas medidas, ressaltando a tristeza com que escrevemos isso, já que coisas assim deveriam fazer parte apenas de livros de história, para servirem como exemplo daquilo que não deve ser feito.

A primeira é a ideia de que A é pobre porque B é rico, A e B podendo ser pessoas, regiões, países, etnias, gêneros, etc. Tal bobagem, derivada da teoria da exploração de Marx, simplesmente desconhece (ou finge desconhecer) que a história é dinâmica. Conduz, por exemplo, à política externa do PT, que parece guiada por um pretenso teorema, segundo o qual o somatório das pobrezas seria igual à riqueza...

A segunda deriva da primeira. É a crença de que a tributação deve ser "progressiva", algo como um "corolário ou lema de Robin Hood"...  Ora, todo e qualquer tributo nada mais é do que uma extorsão praticada por um agressor, no caso, o estado, contra cidadãos e empresas. Se você é rico, a agressão deverá ser maior do que se você for pobre, segundo os gênios que defendem essa teoria (e não são poucos). Se assim é, para que trabalhar ou empreender para ser rico, então? Mas essa pergunta não passa pela cabeça dos que acreditam nesse conto da floresta de Sherwood...

Estas duas primeiras falácias ilustram perfeitamente como é grande a ignorância a respeito das causas da riqueza, que são as recíprocas das causas da pobreza, bem como a absoluta falta de compreensão de que a economia não é um jogo de soma zero.

Uma terceira falácia é a ideia de que a legislação trabalhista e seus penduricalhos, como o salário mínimo, os encargos e os sindicatos protegem os trabalhadores, o que, em um governo que tem nos sindicalistas uma de suas bases de apoio, tem sido levado às últimas consequências. Na verdade, como escreveram Mises, Rothbard, Hayek e praticamente todos os austríacos, essa legislação apenas prejudica os trabalhadores, além de provocar desemprego.

A quarta é que políticas industriais seriam boas para o crescimento da economia. Ora, essas políticas nada mais representam do que escolhas, por parte dos que detêm o poder, de quais setores serão beneficiados e, consequentemente, de quais serão prejudicados. Além disso, partem do pressuposto teórico de que os burocratas são mais bem informados do que o processo de mercado, para ditarem quais setores são merecedores da ajuda do governo e quais devem ser punidos. Claramente, é um convite a lobistas, um desvio da função empresarial e um convite à corrupção.

A quinta é que o protecionismo é bom para enfrentar a concorrência estrangeira. Sem dúvida, esta é uma proposição que mostra que o mercantilismo está mais vivo do que nunca. Querem que você, consumidor, compre, digamos, um carro ou um computador produzido no Brasil, de qualidade duvidosa e preço exorbitante, quando poderia comprar um modelo importado, melhor e mais barato. Ou que voe em duas empresas que oferecem serviços precários e cobram caro, quando poderia voar em outras empresas estrangeiras, com serviços melhores e mais baratos. Sua opção restringe-se a: aceita uma balinha ou uma barra de cereais, senhor?

A sexta é que exportar é "bom" e importar é "ruim", tolice que equivale a afirmar que "vender é melhor do que comprar". Haja paciência para suportar tanta ignorância. Em artigo recente, Leandro Roque mostrou a situação ridícula criada pela Receita Federal, que resolveu intensificar a fiscalização nos aeroportos internacionais brasileiros, para evitar que tragamos produtos de "alta periculosidade para a segurança nacional", como computadores, camisas, vinhos e outros produtos de qualidade superior e que podem ser comprados a preços baixos no exterior. A falácia de que comprar é ruim e vender é bom é, pura e simplesmente, mais um exemplo de mercantilismo regado a teorias "macroeconômicas" de sabor keynesiano. Ou seja, duas bobagens em uma!Mamma mia, será que esses caras não conseguem perceber que países não compram e nem vendem nada? Que quem faz isso são pessoas físicas e empresas? E que, em transações livres, quem compra sai satisfeito, assim como quem vende? Ah, o déficit externo, dirão alguns... Caramba, que se dane o déficit (ou o superávit) externo das "contas nacionais", até porque, se a taxa de câmbio for flutuante, a tendência é que eles sejam eliminados!

Uma sétima falácia vem sendo usada para sustentar diversos pacotes do governo desde o segundo mandato de Lula: a de que as políticas de estímulos ao consumo seriam ótimas para o crescimento da economia e, de tabela, para esconjurar a maldita "crise internacional". Ora, assim como Esaú, que trocou os privilégios de sua primogenitura por um mero prato de lentilhas, essas políticas conseguem no máximo proporcionar um boomartificial, logo seguido por recessão ou por uma mistura de recessão com inflação, conforme a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (TACE) não se cansa de ensinar. 

Uma derivada dessa falácia é a crença de que o governo é que deve determinar qual deve ser a taxa de juros. E que, se a presidente do país obrigar os bancos oficiais a reduzirem os juros (leia-se, a trabalharem no vermelho), os bancos privados também reduzirão suas taxas de juros. Aquela senhora de Brasília parece desconhecer, primeiro, as verdadeiras causas das altas taxas de juros no Brasil (déficit público, inadimplência, elevada taxa de recolhimento compulsório e altos impostos); segundo, que as taxas reais de juros não obedecem a comandos ou ordens de alguma "sargentona", mas sim a forças de demanda e oferta de fundos; e terceiro, que se pode perfeitamente levar um cavalo até a beira de um rio, mas não se pode obrigá-lo a beber água... Por fim, mostra também absoluto desconhecimento da TACE — o que não é de se estranhar. Juros artificialmente baixos hoje significam necessariamente juros altos amanhã, cara senhora!

Finalmente, a falácia mãe, a de que o estado deve ser o "indutor" do crescimento. Com certeza, os mercados são "burros" e os burocratas iluminados... para quem acredita nisso! Além disso, o conhecimento dos burocratas das circunstâncias de tempo e lugar é infinitamente superior aos dos agentes individuais... Ah, quanta pretensão! Não precisamos mais do que um argumento para rebater prontamente essa falácia: quando alguém lhe disser isso, reaja perguntando a seu interlocutor se ele conhece algum exemplo de economia que conseguiu se desenvolver sob a tutela do estado. Fale da antiga URSS, de Cuba, do caos que está vivendo a Venezuela, da ilusão que foi a Suécia. Enfim, há dezenas de exemplos para refutar essa bobagem estatista.

Dói saber que a economia do Brasil vem progressivamente, sob a batuta do PT, submergindo nessas falácias e nas políticas que elas geram. Vamos precisar, depois, de décadas para consertar tantas asneiras...

Estamos em plena era da economia das falácias. Sinceramente, eu não aguento mais!

Lula e nosso futuro comum


Fernando Gabeira 
O Estado de S.Paulo

O ponto de partida é uma frase de Lula: "Não deixarei que um tucano assuma de novo a Presidência". Lembro, no entanto, que não sou de pegar no pé de Lula por suas frases. Cheguei a propor um "habeas língua" para o então presidente na sua fase mais punk, quando disse que a mãe nasceu analfabeta e que se a Terra fosse quadrada a poluição não circularia pelo mundo. Lembro também que hoje concordo com o filósofo americano Richard Rorty: não há nada de particular que os intelectuais saibam e todo mundo não saiba. Refiro-me à ilusão de conhecer as leis da História, deter segredos profundos sobre o que dinamiza seu curso e dominar em detalhes os cenários futuros da humanidade.

Nesse sentido, a eleição de Lula, um homem do povo, sem educação formal superior, não correspondeu a essa constatação moderna de Rorty. Isso porque, apesar de sua simplicidade, Lula encarnava a classe salvadora no sonho dos intelectuais, via luta de classes como dínamo da História humana, e traçava o mesmo futuro paradisíaco para o socialismo. Na verdade, Lula falava a linguagem dos intelectuais. Seus comentários que despertaram risos e ironias no passado eram defendidos pelos intelectuais com o argumento de que, apesar de pequenos enganos, Lula era rigorosamente fundamentado na questão essencial: o rumo da História humana.

A verdade é que a chegada do PT ao poder o consagrou como um partido social-democrata e, ironicamente, a social-democracia foi o mais poderoso instrumento do capitalismo para neutralizar os comunistas no movimento operário. São mudanças de rumo que não incomodam muito quando se chega ao poder. O capitalismo é substituído pelas elites e o proletariado salvador, pelos consumidores das classes C e D. Os sindicalistas vão ao paraíso de acordo com os critérios da cultura nacional, consagrados pela canção: É necessário uma viração pro Nestor,/ que está vivendo em grande dificuldade.

Se usarmos a fórmula tradicional para atenuar o discurso de Lula, diremos que o ex-presidente queria expressar, com sua frase sobre um tucano na Presidência, que faria todo o esforço para a vitória do seu partido e para esclarecer os eleitores sobre a inconveniência de eleger o adversário. Lula sabe que ninguém manda no processo eleitoral. São os eleitores que decidem se alguém ocupará a Presidência. Foi só um rápido surto autoritário, talvez estimulado pelo tom de programa de TV, luzes e uma plateia receptiva.

Se o candidato tucano for, como tudo indica, o senador Aécio Neves, também eu, em trincheira diferente da de Lula, farei todo o esforço para que o tucano não chegue à Presidência. Aécio foi um dos artífices na batalha para poupar Sérgio Cabral da CPI e confirmou, com essa manobra, a suspeita de que não é muito diferente do PT no que diz respeito aos critérios de alianças e ao uso da corrupção dos aliados para fortalecer seu projeto de poder. Tudo o que se pode fazer, porém, é tornar clara a situação para o eleitor, pois só ele, em sua soberania, vai decidir quem será o eleito.

Na verdade, essa batalha será travada também na esfera da economia. Vivemos um momento singular na História do mundo. A crise mundial opõe defensores da austeridade, como Angela Merkel, e os que defendem mais gastos e investimentos, dentro da visão keynesiana de que a austeridade deve ser implantada no auge do crescimento, e não durante o período depressivo. O PT dirigiu o País num período de crescimento e muitos gastos, não tanto no investimento, mas no consumo. É possível que esse modelo de estímulo à economia tenha alcançado seus limites.

Muito possivelmente, ainda, o curso dos acontecimentos não dependerá tanto da vontade de Lula nem dos nossos esforços individuais. A democracia prevê alternância no poder. E a análise de como essa alternância se dá na prática revela, em muitos casos, uma gangorra entre austeridade e gastança. De modo geral, a crise derrota um governo austero e coloca seu oposto no poder, como na França. Mas às vezes derrota um governo social-democrata e elege seu adversário direto, como na Espanha.

Pode ser que o esgotamento do modelo de estímulo ao consumo abra espaço para discurso de reformas fiscal e trabalhista, de foco em educação e infraestrutura, enfim, de uma fase de austeridade. E não é totalmente impossível que um partido de oposição chegue ao governo. Restaria ao PT, nesse caso, um grande consolo: ao cabo de um período de austeridade, o partido teria grandes chances de voltar ao poder com seu discurso do "conosco ninguém pode", do "vamos que vamos", "nunca antes neste país"... Não estou afirmando que esse mecanismo vai prevalecer, é uma das possibilidades no horizonte. A outra é o próprio PT assumir algumas das diretivas de austeridade e conduzir o processo sem necessariamente deixar o poder.

Por mais que a crise seja aguda, o apelo ao consumo e à manutenção de intensas políticas sociais é muito forte na imaginação popular. O discurso de austeridade só tem espaço eleitoral quando as coisas parecem ter degringolado.

O futuro está aberto e não será definido pela exclusiva vontade de Lula. Com todo o respeito ao Ratinho e sua plateia, o povo brasileiro é mais diverso e complexo. Se é verdade que a História não se define nas academias intelectuais, isso não significa que ela tenha passado a ser resolvida nos programas de auditório.

No script do socialismo real o proletariado foi substituído pelo partido, o partido pelo comitê central e o comitê central por um só homem. No script da social-democracia tropical Lula substituiu o proletariado, o partido, o comitê central e o próprio povo brasileiro ao dizer que não deixará um tucano voltar à Presidência. Se avaliar com tranquilidade o que disse, Lula vai perceber que sua frase não passa de uma bravata.

O que faz um homem tão popular e bem-sucedido bravatear no Programa do Ratinho é um mistério da mente humana que não tenho condições de decifrar. A única pista que me vem à cabeça está na sabedoria grega: os deuses primeiro enlouquecem aqueles a quem querem destruir.

Cachoeiras e cascatas


Carlos Brickmann
Brickmann  & Associados Comunicação

Vamos fazer as contas? Então vá lá: de acordo com o Conselho de Controle das Atividades Financeiras, Coaf, do Ministério da Fazenda, o empresário zoológico Carlinhos Cachoeira lucrou R$ 3 milhões em 2011. Dá para viver bem, muito bem; mas não dá para montar uma teia de distribuição de recursos ilegais estendida por boa parte do país. É como achar que aquele carequinha do Mensalão brincava de política com seus próprios recursos. Para isso, o dinheiro é curto.

A pergunta surge naturalmente: se Carlinhos Cachoeira não é o fornecedor único dos recursos, nem o principal (e talvez nem o seja, limitando-se a operar e a ficar com uma parte), quem paga a corrupa? A outra pergunta é óbvia: quem tem interesse em montar uma caríssima rede de corrupção, que envolve altos funcionários de vários Estados? Só pode ser gente interessada em obter favores que lhes garantam lucros muito maiores do que as propinas que distribuíram.

A foto de cidadãos inebriados pelo sucesso dançando com guardanapos na cabeça, de esposas felizes exibindo caríssimos sapatos de sola vermelha, não sai da cabeça deste colunista. Um dos integrantes da Turma do Guardanapo era governador; outro, empreiteiro. Sua empreiteira recebeu, só em 2012, só da União, R$ 238,8 milhões (em maio, com o escândalo já devidamente divulgado, o Governo Federal pagou-lhe R$ 55,2 milhões). Só? Não: o mais generoso dos bancos estatais, o BNDES, de juros mais bonzinhos, deu-lhe também R$ 139 milhões.

Cachoeira não gera água. Só exibe, lindamente, as águas que vêm de cima.

Inverno quente
Se o caro leitor encontrar homens de terno e gravata apertados às paredes, de costas, estará na CPI do Cachoeira. Não que todos se abracem com o punhal buscando espaço entre as costelas dos colegas: há também abraços sem punhal, conhecidos como "abraço de urso" e "abraço de tamanduá". 

Mas, enfim, o PMDB combinou com o PT que quebraria os sigilos do governador tucano de Goiás, Marconi Perillo, para descobrir como é que se vende uma casa recebendo mais de uma vez por ela e sempre sem saber de quem. Em troca, seria poupado o peemedebista Sérgio Cabral, governador do Rio e sócio-atleta da Turma do Guardanapo, e o petista Agnelo Queiroz, governador de Brasília. 

Nos bastidores, o PMDB combinou com o PSDB que, em troca da proteção tucana a Cabral, protegeria Perillo e pegaria Agnelo (aí com apoio de PP e PR, aliás aliados do PT). Amanhã o PT decide o que fazer. Perillo fala na terça, Agnelo na quarta. Vai sobrar gente descontente.

Em CPIs, são os descontentes que contam boas histórias.

Esqueça as esperanças
O caro leitor pensa que, se a CPI do Cachoeira der certo, o país estará avançando no caminho da moralização? Esqueça. Uma pesquisa do GPP, no Rio, citada pelo ex-blog de Cesar Maia (www.cesarmaia.com.br), mostra que 51% dos entrevistados não tomaram conhecimento das fotos de Sérgio Cabral em Paris (aquelas, da Turma do Guardanapo). Menos da metade tomou conhecimento das fotos. E 15% as acharam normais.

Gilmar Mendes x Lula: 54% não tomaram conhecimento da conversa do ex-presidente Lula com o ministro Gilmar Mendes para adiar o julgamento do Mensalão no Supremo Tribunal Federal. E 9% a acharam normal.

Os réus do Mensalão
O julgamento do Mensalão pode ter impacto nas urnas, desde que tudo ocorra nas vésperas da eleição. Na hora do julgamento, a opinião pública fica chocada e isso pode influenciar o voto. Mas, se o julgamento ocorrer algumas semanas antes, o caso perde força eleitoral. As escandalosas fotos de Sérgio Cabral liderando a Turma do Guardanapo já tiveram seu tempo. Não é possível que mais da metade da população não tenha tomado conhecimento de algo divulgado por todos os meios de comunicação: é mais provável que já o tenham esquecido. 

Este será o destino do julgamento do Mensalão se houver muito tempo entre as sentenças e as eleições: o esquecimento. E todos estarão prontos para outra.

Guerra aos professores
Abra os jornais, ligue a TV, vá à Internet, ouça o rádio: a notícia mais difícil de encontrar é uma das mais importantes que ocorrem no país. As universidades federais estão em greve, com adesão superior a 70%. É problema de salários, mas também é problema de desleixo. Em Guarulhos, SP, o então ministro Fernando Haddad inaugurou unidades sem salas: tudo algum dia vai ser construído. As fotos de estudantes universitários entre ruínas e entulho são terríveis.

No ABC paulista, berço político do PT de Haddad, berço político do ex-presidente Lula, as instalações são tão ruins que a taxa de evasão de estudantes atingiu 42%. No Vale do Jequitinhonha, a universidade federal criada há cinco anos só tem 20% das instalações construídas. Falar bem de professores todo mundo fala, lançar ministros da Educação a cargos públicos é moda, mas gastar com ensino, que é bom, e pagar direito a quem ensina nossos filhos, parece que é tabu.

Na rede universitária federal, há professores com salário inicial de R$ 1.500. É menos do que o salário pago pela Prefeitura de São Paulo para um professor de educação infantil, também em início de carreira. E que já não é um salarião.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Degraus da ilusão


Lya Luft
Revista Veja

Fala-se muito na ascensão das classes menos favorecidas, formando uma “nova classe média”, realizada por degraus que levam a outro patamar social e econômico (cultural, não ouço falar). Em teoria, seria um grande passo para reduzir a catastrófica desigualdade que aqui reina.

Porém receio que, do modo como está se realizando, seja uma ilusão que pode acabar em sérios problemas para quem mereceria coisa melhor. Todos desejam uma vida digna para os despossuídos, boa escolaridade para os iletrados, serviços públicos ótimos para a população inteira, isto é, educação, saúde, transporte, energia elétrica, segurança, água, e tudo de que precisam cidadãos decentes.

Porém, o que vejo são multidões consumindo, estimuladas a consumir como se isso constituísse um bem em si e promovesse real crescimento do país. Compramos com os juros mais altos do mundo, pagamos os impostos mais altos do mundo e temos os serviços (saúde, comunicação, energia, transportes e outros) entre os piores do mundo. Mas palavras de ordem nos impelem a comprar, autoridades nos pedem para consumir, somos convocados a adquirir o supérfluo, até o danoso, como botar mais carros em nossas ruas atravancadas ou em nossas péssimas estradas.

Além disso, a inadimplência cresce de maneira preocupante, levando famílias que compraram seu carrinho a não ter como pagar a gasolina para tirar seu novo tesouro do pátio no fim de semana. Tesouro esse que logo vão perder, pois há meses não conseguem pagar as prestações, que ainda se estendem por anos.

Estamos enforcados em dívidas impagáveis, mas nos convidam a gastar ainda mais, de maneira impiedosa, até cruel. Em lugar de instruírem, esclarecerem, formarem uma opinião sensata e positiva, tomam novas medidas para que esse consumo insensato continue crescendo – e, como somos alienados e pouco informados, tocamos a comprar.

Sou de uma classe média em que a gente crescia com quatro ensinamentos básicos: ter seu diploma, ter sua casinha, ter sua poupança e trabalhar firme para manter e, quem sabe, expandir isso. Para garantir uma velhice independente de ajuda de filhos ou de estranhos; para deixar aos filhos algo com que pudessem começar a própria vida com dignidade.

Tais ensinamentos parecem abolidos, ultrapassadas a prudência e a cautela, pouco estimulados o desejo de crescimento firme e a construção de uma vida mais segura. Pois tudo é uma construção: a vida pessoal, a profissão, os ganhos, as relações de amor e amizade, a família, a velhice (naturalmente tudo isso sujeito a fatalidades como doença e outras, que ninguém controla). Mas, mesmo em tempos de fatalidade, ter um pouco de economia, ter uma casinha, ter um diploma, ter objetivos certamente ajuda a enfrentar seja o que for. Podemos ser derrotados, mas não estaremos jogados na cova dos leões do destino, totalmente desarmados.

Somos uma sociedade alçada na maré do consumo compulsivo, interessada em “aproveitar a vida”, seja o que isso for, e em adquirir mais e mais coisas, mesmo que inúteis, quando deveríamos estar cuidando, com muito afinco e seriedade, de melhores escolas e universidades, tecnologia mais avançada, transportes muito mais eficientes, saúde excelente, e verdadeiro crescimento do país. Mas corremos atrás de tanta conversa vã, não protegidos, mas embaixo de peneiras com grandes furos, que só um cego ou um grande tolo não vê.

A mais forte raiz de tantos dos nossos males é a falta de informação e orientação, isto é, de educação. E o melhor remédio é investir fortemente, abundantemente, decididamente, em educação: impossível repetir isso em demasia. Mas não vejo isso como nossa prioridade.

Fosse o contrário, estaríamos atentos aos nossos gastos e aquisições, mais interessados num crescimento real e sensato do que em itens desnecessários em tempos de crise. Isso não é subir de classe social: é saracotear diante de uma perigosa ladeira. Não tenho ilusão de que algo mude, mas deixo aqui meu quase solitário (e antiquado) protesto.

Produtividade da economia brasileira encolhe pelo segundo ano consecutivo


Fernando Dantas
O Estado de S. Paulo

Estimativa do Instituto Brasileiro de Economia mostra que o País está menos produtivo no governo da presidente Dilma Rousseff

O Brasil está se tornando menos produtivo no governo da presidente Dilma Rousseff. Segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a produtividade da economia brasileira está caindo em 2012 pelo segundo ano consecutivo, após ter alcançado no governo Lula o seu melhor desempenho desde o milagre econômico da década de 70.

Silvia Matos, economista do Ibre, calculou que a queda da produtividade pode ter reduzido em quase dois terços o crescimento dos investimentos no Brasil em 2011, que ficou em 4,7%, depois de uma expansão média anual de 10% no segundo mandato de Lula. Ela projeta crescimento zero dos investimentos em 2012. 

O números do Ibre mostram que a produtividade, após ter crescido uma média anual de 1,2% no governo Lula, e 1,9% no segundo mandato do ex-presidente, recuou 0,03% em 2011 e deve ter nova retração de 1% em 2012. Com isso, a taxa de investimento, que foi de 19,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2011, cairia para 18,9% em 2012, ficando mais distante dos 20% pretendidos pelo governo para este ano.

O indicador medido pelo Ibre é a chamada produtividade total dos fatores, considerada o componente mais importante do crescimento econômico no longo prazo. A queda da produtividade significa que a economia está produzindo menos com uma mesma quantidade de fatores de produção, que são o capital (fábricas, máquinas, imóveis, etc) e o trabalho, medido pelas horas trabalhadas. 

O avanço da produtividade no segundo mandato de Lula, o mais veloz em décadas, não só ajudou o PIB a crescer mais rápido, mas também levou muitos analistas a projetarem que a economia poderia se expandir a um ritmo mais acelerado sem descontrole da inflação e outros desequilíbrios. O chamado "crescimento potencial" chegou a ser estimado pelos mais otimistas, incluindo o governo, na faixa de 4,5% a 5%.

Agora, porém, o pessimismo parece estar voltando sobre a capacidade de expansão da economia brasileira. Em 2011, o PIB cresceu apenas 2,7%, com a inflação batendo no teto do intervalo da meta, de 6,5%. 

O decepcionante resultado do PIB do primeiro trimestre, que cresceu apenas 0,2% ante o trimestre anterior, na série dessazonalizada, levou diversos analistas a rever para baixo suas projeções de crescimento em 2012, levando-as para perto de 2%. 

O governo vê basicamente um problema de demanda, e tem tomado diversas medidas para estimular o consumo e o crédito. Alguns economistas, porém, enxergam no mau desempenho da produtividade - ligada às condições de oferta da economia - um dos possíveis motivos para o desapontador desempenho recente do Brasil.

Centralizadora, Dilma tem nas mãos gargalo de R$ 400 bilhões em investimentos


Danilo Fariello
O Globo

Decisões que dependem da presidente represam injeções privadas em projetos de infraestrutura e mineração

GUSTAVO MIRANDA / AGÊNCIA O GLOBO
Presidente Dilma tem o costume de acompanhar tudo
 e centralizar as decisões

BRASÍLIA — A frase é recorrente em Brasília: “Você sabe como é a Dilma, centraliza tudo”. E revela o processo de decisão no centro do poder. Num cenário de crise global, enquanto o governo promete um mutirão para fazer o Brasil crescer, depois de ver a economia estagnada e as obras andando em marcha lenta, investimentos de pelo menos R$ 400 bilhões, a maior parte privados, esperam por decisões do Palácio do Planalto para deslanchar. O hábito da presidente Dilma Rousseff de acompanhar tudo e centralizar as decisões é a justificativa encontrada em diversos ministérios para o atraso na definição de regras cruciais para viabilizar projetos de infraestrutura nas áreas de mineração, energia e transportes.

São projetos ou marcos regulatórios que estão há meses — em alguns casos há anos — sendo discutidos na Casa Civil e no Grupo Executivo do PAC (Gepac), mas ainda não receberam o aval da presidente. A execução dos investimentos públicos, por sua vez, também anda abaixo do esperado, conforme revelou O GLOBO semana passada: até maio, só 14,9% dos recursos orçamentários destinados à infraestrutura foram usados.

Em muitos casos, a indefinição dos projetos provoca insegurança jurídica e afasta os investidores privados. O novo código de mineração, por exemplo, em debate desde 2009, vai balizar cerca de R$ 350 bilhões em investimentos privados previstos pelo Ministério de Minas e Energia (MME) até 2030. A decisão sobre a renovação das concessões de energia elétrica, em debate há mais de dois anos, terá impacto sobre investidores privados e públicos. No caso da Eletrobrás, são R$ 37 bilhões investidos sem a garantia de retorno firme, já que a estatal ainda não tem confirmação de que as concessões que vencem em 2015 serão renovadas. Nesse caso, pela regra de concessão imposta pela Aneel, a empresa não pode suspender investimentos para manter a qualidade dos serviços.

Nos portos, R$ 11 bilhões à espera
Na área de portos, discute-se um novo marco regulatório que pode incluir concessões de portos à iniciativa privada. A Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP) estima que existam R$ 11 bilhões de investimentos potenciais à espera de definição sobre concessões já vencidas ou a vencer.

— A insegurança jurídica afasta investimentos e enfraquece os terminais, porque os bancos não querem emprestar para nós e os clientes não querem fechar contratos de longo prazo — disse Roberto Zitelmann de Oliva, conselheiro da ABTP.

No Palácio do Planalto, um grupo de seis pessoas é responsável pela análise e preparação desses projetos para a tomada de decisão da presidente. Esse grupo é responsável pelo amadurecimento dos assuntos desde a avaliação dos ministérios até a posição final da presidente, que participa pessoalmente de todas as ações ligadas à infraestrutura e, em especial, ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

O trabalho não é trivial, pois é esse grupo que faz o filtro para identificar, por exemplo, eventuais lobbies de grupos de interesse que podem envolver bilhões de reais e muitas vezes contaminam as posições técnicas dos ministérios. No caso das concessões de energia elétrica, por exemplo, o MME controla a Eletrobras, empresa que deve lucrar com a renovação desses contratos, mas também poderá perder receita com a queda das tarifas, condição imposta por Dilma para a renovação.

A cúpula do governo também tem protelado a decisão sobre o rumo dos mais de R$ 25 bilhões que serão arrecadados até 2027 para o fundo nacional de aviação civil.

Segundo um dos participantes dessas reuniões no Planalto, a demora para decisões sobre os grandes temas de infraestrutura neste governo se deve, em parte, ao fato de que, ao longo de 2011, não havia um método para as discussões, o que acabava tornando mais complexa a tomada de decisões por parte da presidente e da ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. Neste ano, Dilma e a ministra definiram um rito. Cada assunto será tratado em apenas três reuniões diretamente com elas até o encaminhamento final e a tomada de decisão.

— Agora temos uma reunião inicial com a presidente em que se discutem as diretrizes e o contexto de cada tema, uma reunião seguinte já com a modelagem e os elementos gerais que serão influenciados pela decisão, e a última, que fecha a redação final dos textos que serão encaminhados — disse um servidor que comparece às reuniões.

Outro grande projeto que passou meses no Planalto é o Trem de Alta Velocidade (TAV), que ligará o Rio de Janeiro a São Paulo. Objeto de diversos interesses econômicos, o trem-bala é uma obra orçada em R$ 33 bilhões que teve um leilão malsucedido no ano passado em meio a severas críticas de empreiteiras e operadores. Neste caso, a decisão do governo foi fazer um novo leilão e criar a Etav, estatal que será responsável pelo TAV.

Inquieta com a crise, Dilma culpa essa gente que transforma marolinha em tsunami e antecipa o julgamento dos mensaleiros


Augusto Nunes
Veja online

Quem aposta na crise, como alguns apostaram há quatro anos atrás (sic), vai perder de novo”, esbravejou Dilma Rousseff na segunda-feira, ressuscitando o misterioso inimigo interno denunciado por Lula do primeiro ao último dia de governo. Como o tsunami teima em ignorar a ordem do governo para virar marolinha, a afilhada resolveu botar a culpa na mesma assombração que atazanava o padrinho em dezembro de 2008. “Tem gente que vai deitar rezando: ‘Tomara que essa crise pegue o Brasil pra esse Lula se lascar’”, indignou-se no comício de todo santo dia o maior dos governantes desde Tomé de Souza.

Em outro post irretocável, meu amigo e vizinho Reinaldo Azevedo fez a recomendação avalizada por qualquer brasileiro sensato: “A presidente poderia renunciar a esta péssima herança deixada por Lula: atribuir dificuldades objetivas enfrentadas pelo governo a uma espécie de urucubaca ou de macumba feita pelos ‘inimigos’”, escreveu Reinaldo. “Quem são ‘eles’, soberana? Quem, afinal, ‘aposta na crise’ ou, sei lá, torce contra o Brasil?’” Quem faz parte do que Lula continua chamando de “essa gente”?, acrescento.

Fora Lula e Dilma, ninguém sabe. O que se pode inferir da discurseira da dupla é que se trata de uma gente muito rancorosa. Desde o dia da posse, repetiu Lula durante oito anos, essa gente sonhou com o fracasso do migrante nordestino que ocultava o estadista incomparável (e o futuro doutor honoris causa). Essa gente ficou especialmente assanhada a partir de 2007, quando passou a torcer para que a crise nascida e criada em território ianque engolisse o torneiro-mecânico enviado pela Divina Providência para inventar o Brasil Maravilha.

Tudo bem que essa gente exibisse olheiras de galã de cabaré por sonhar acordada com o fiasco daquele que se mostrou mais esperto que Getúlio Vargas, mais sedutor que JK, melhor que todos os antecessores desde a chegada das caravelas, incluídos três governadores-gerais, um príncipe regente e dois imperadores. O intolerável é descobrir que essa gente transferiu para a criatura o ódio ao criador e agora torce para que a crise afogue Dilma Rousseff. Isso é coisa de traidor da pátria, inimigo da nação, quinta-coluna de quinta categoria.

Quem topa até morrer afogado desde que o timoneiro também afunde com o barco não merece o anonimato concedido por Lula e endossado por Dilma. Quem é essa gente?, querem saber milhões de brasileiros. Só os detentores do segredo sabem o nome completo, a data e o local do nascimento, além do estado civil de cada um dos sócios desse abominável clube do contra.

Essa gente certamente não inclui os banqueiros, todos felizes com os lucros obtidos ou por obter. Tampouco os industriais, principalmente os que lucram no setor automobilístico, cada vez mais animados com o pronto-socorro financeiro que o Planalto mantém aberto 365 dias por ano. Muito menos os comerciantes, eufóricos com os sucessivos pedidos do governo para que a freguesia gaste o que não tem. Também estão fora de suspeita os agricultores, que logo estarão exportando alimentos para o planeta inteiro.

Os miseráveis ainda à espera de vaga nas divisões superiores só precisam ter paciência. Os pobres promovidos a integrantes da nova classe média acham que, se melhorar, estraga. A velha classe média nem quer ouvir falar em crise: morre de medo do desemprego, da inflação, da erosão do poder de compra, sobretudo da suspensão das viagens anuais a Buenos Aires. Os reacionários golpistas e os grã-finos paulistas estão muito preocupados em salvar o que têm para perder tempo em conspirações.

Sobram os eternos pessimistas que ainda dão as caras nas pesquisas de opinião. É preciso saber quem são esses 3% ou 45% de maus brasileiros. Parece pouca gente, mas seu poder é muito. Com a indispensável contribuição de governantes ineptos, falastrões, atarantados e tão arrogantes quanto medíocres, essa gente consegue até transformar marolinha em tsunami. E acaba de conseguir a antecipação do pesadelo que Lula tentou empurrar para 2013: o julgamento do mensalão vai começar em 1° de agosto.

Os donos do poder farão a travessia da temporada eleitoral lidando simultaneamente com a crise econômica, o BBB dos mensaleiros e a CPI do Cachoeira e da Delta. O cenário inquietante atesta que Lula e Dilma têm razão: essa gente é um perigo.

Investimento é o menor em três anos


Lu Aiko Otta 
Agência Estado

Gasto foi de R$ 14,3 bilhões de janeiro e maio de 2012, ante R$ 14,7 bilhões em 2011 e R$ 17,7 bilhões em 2010, diz a Contas Abertas

BRASÍLIA - Os investimentos do governo federal são os menores dos últimos três anos, mostra levantamento da organização não governamental Contas Abertas feito a pedido do ‘Estado’. De janeiro a maio, os desembolsos chegaram a R$ 14,3 bilhões este ano, ante R$ 14,7 bilhões em 2011 e R$ 17,7 bilhões no ano eleitoral de 2010. Os valores foram corrigidos pela inflação calculada pelo IGP-DI. Em termos reais, portanto, a queda é de 2,7% em relação a 2011.

"O principal responsável é o Ministério dos Transportes, sobretudo por causa do Dnit", afirmou o secretário-geral da organização, Gil Castelo Branco, referindo-se ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes.

Castelo Branco avalia que a pasta ainda não superou os efeitos da "faxina" que no ano passado dizimou as cúpulas do ministério, do Dnit e da estatal Valec, responsável pelas ferrovias. Ele acredita que as novas administrações estão preocupadas em moralizar as relações com as empreiteiras e isso passou necessariamente por um processo de revisão de contratos. "É ainda um caso mal resolvido."

A demora pode ser agravada se a construtora Delta, responsável por 99 contratos em andamento com o Dnit, no valor total de R$ 2,5 bilhões, quebrar ou for declarada inidônea. Na primeira hipótese, o governo gastará tempo para convocar outra empresa participante da licitação para terminar o serviço ou fazer outra licitação. Na segunda, os contratos em andamento poderão ser paralisados, a depender de uma avaliação caso a caso.

Em comparação com 2011, o Ministério dos Transportes desembolsou R$ 1,8 bilhão a menos. Ou seja, obras correspondentes a esse valor deixaram de ser concluídas no período.

Empenho. 
Outro dado que mostra maior lentidão é o ritmo dos empenhos, que correspondem a uma reserva de verbas para pagar um determinado contrato. Eles caíram R$ 2 bilhões de janeiro a maio, mostrando que o processo de contratação também está mais contido. "Há outros ministérios, como Educação e Saúde, nos quais os investimentos estão crescendo", disse Castelo Branco. "O Transportes é que puxa para baixo."

Os números levantados pelo Contas Abertas mostram a dificuldade do governo em acelerar os investimentos, apesar de a presidente Dilma Rousseff haver estabelecido essa diretriz desde o início do ano. Nesse quadro, o desempenho das estatais é um alento. Dados divulgados na semana passada pelo Ministério do Planejamento mostram que a execução de investimentos, de janeiro a abril, atingiu R$ 26,5 bilhões, um crescimento nominal de 17,1% em comparação com igual período do ano passado.

Diferença. Existe uma diferença entre os dados levantados pela Contas Abertas e os divulgados pelo governo federal. A partir deste ano, o Tesouro Nacional incorporou os gastos com os programas Minha Casa Minha Vida aos investimentos. A ONG, porém, manteve essa despesa classificada como custeio, pois é assim que ela é contabilizada no Orçamento.

Com essa mudança de classificação, os investimentos mostram crescimento de 28,9% de janeiro a abril deste ano, segundo dados divulgados semana passada pelo Tesouro Nacional. Descontando-se os R$ 7,1 bilhões gastos com subsídios à habitação popular, porém, os investimentos federais mostram queda de 3,5%.









Sempre enganando os bobos


Percival Puggina

Acho curioso o modo como por vezes são levados os debates. Se eu criticar os Estados Unidos pela guerra no Iraque ou pelo que acontece na prisão de Guantánamo, ninguém na face da terra vai me cobrar uma crítica ao regime cubano. Ninguém. Todos aceitarão que exerço um direito natural de opinião. Mas se disser qualquer coisa sobre a miséria, o totalitarismo e a opressão que pesa sobre a sociedade cubana imediatamente se forma fila para cobrar posição sobre abusos praticados pelos EUA. Entenderam? Junto à intelectualidade brasileira, para falar mal do comunismo tem que pagar pedágio.

Será o comunismo, como proclamam, uma utopia, uma ideia generosa? Seus 100 milhões de cadáveres devem ficar se revirando na cova. Foi um ideal alheio que lhes custou bem caro! Infelizmente mal conduzido, amenizam alguns cocmpanheiros. Que tremendo azar! Uma ideia tão generosa e não produziu um caso medíocre que possa ser exibido sem passar vergonha.

Durante um século varreu com totalitarismos boa parte da Ásia e da África, criou revoluções na América Ibérica, instalou-se em Cuba e não consegue apresentar à História um único, solitário e singular estadista. Que falta de sorte! Tão generoso, tão ideal, tão utópico, e nenhuma coisa parecida como democracia para botar no currículo. E há quem creia que ainda pode dar certo.

Quanto ao sistema econômico que ficou conhecido como capitalismo (que não é sistema político nem ideologia), eu afirmo que seu maior erro foi aceitar conviver com uma designação deplorável. Contudo, chamem-no assim, se quiserem, embora, a exemplo de João Paulo II, eu prefira denominá-lo “economia de empresa”.

Suas vantagens sobre um modelo de economia centralizada, estatizada, são irrefutáveis na teoria e certificadas pela prática dos povos. É um sistema que não foi concebido por qualquer intelectual. É um sistema em construção na história, muito compatível, também por isso, com a democracia. Promove a liberdade dos indivíduos e a criatividade humana. Reconhece a importância do mercado. A maior parte dos países que adotam esse sistema atribui ao Estado, em sua política e em seu ordenamento jurídico, a tarefa de zelar pelo respeito às regras do jogo em proteção ao bem comum.

Aliás, quem quiser organizar as coisas desconhecendo a autonomia do econômico, submetendo-o a determinações que contrariem o que é da natureza dessa atividade (lembram dos tabelamentos de preços?) vai se dar mal. Vai gerar escassez, câmbio negro, fome. Digam o que disserem os arautos do fracasso do sistema de economia de empresa em vista da crise que afeta alguns países, os embaraços deste momento só se resolverão com atividade empresarial, comércio, pessoas comprando, indústrias produzindo, pesquisa e investimento gerando, expandindo e multiplicando a atividade produtiva.

Outro dia, nas redes sociais, alguém acusou o capitalismo de haver matado milhões. E não deixava por menos. Dezenas de milhões! O sistema? Onde? O capitalismo pode não resolver muitos casos de pobreza. Mas essa pobreza sempre terá sido endêmica, cultural, estrutural, de causa política. Não se conhecem sociedades abastadas que tenham empobrecido com as liberdades econômicas.

Tampouco confundamos economia livre, de empresa, com colonialismo ou mercantilismo. Qualquer economia que queira prosperar e realizar desenvolvimento social sustentável vai precisar do empreendedorismo dos empreendedores, da geração de riqueza e de renda, e de coisas tão desejáveis quanto produção e consumo, compra e venda, lucro, salário e poupança interna.

Quem quiser atraso vá visitar os países que ainda convivem com economias centralizadas: Coreia do Norte e Cuba, onde só o armamento da polícia e das forças armadas não é sucata. Ali se planta com a mão e se mata lagarta com o pé. E o povo vive da mão para a boca, prisioneiro do “ideal” generoso que alguns insistem em impingir aos demais.

O Brasil vem sendo governado por socialistas e comunistas há mais de uma década. Embora não ocultem, no plano da política, as intenções totalitárias que caracterizam sua trajetória, num sentido geral vêm respeitando os fundamentos do sistema econômico no qual ainda engatinhamos. E, algo que muito os agrada, vão extraindo dividendo político de seus resultados. Mas procedem com indisfarçável esquizofrenia. Agem de um modo, falam de outro e vão enganando os bobos.

'Brasil não está na periferia do saber', diz responsável pela internacionalização da Universidade Princeton


Nathalia Goulart
Veja online

Para ele, intercâmbio com instituições de outros países é vital para brasileiros

(Divulgação / Universidade de Princeton)
Jeremy Adelman: 
'As universidades estrangeiras estão de olho no Brasil' 

Universidades de todos os cantos do mundo estão engajadas no processo de internacionalização. Enviar estudantes ao exterior e atrair jovens estrangeiros é motivo de preocupação também no Brasil, que ainda amarga índices tímidos em relação a emergentes como China e Índia. Nos Estados Unidos, o destino mais procurado por universitários, existem 724.000 estrangeiros no ensino superior: quase 158.000 são chineses e cerca de 104.000 são indianos, enquanto os brasileiros representam menos de 9.000, de acordo com o Institute of International Education. 

O Brasil também é pouco atrativo. A Grã-Bretanha, por exemplo, abriga 32.683 estudantes americanos, ante os 3.099 conterrâneos de Barack Obama que estão por aqui. Ficamos atrás de nações como República Checa e até Costa Rica na preferência dos americanos. A despeito dos números tímidos, o Brasil é atrativo para instituições de ponta. A avaliação é de Jaremy Adelman, diretor do conselho para a internancionalização da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, e historiador especialista em América Latina. "O Brasil precisa se libertar desse complexo de inferioridade, desse estereótipo de que está sempre na periferia do mundo", diz. "O fato de não figurar entre os mais bem colocados [nos rankings internacionais] não significa que aqui não existam centros de excelência ou estudantes e profissionais excepcionais." Adelman esteve no Brasil a convite da Fundação Estudar, que oferece bolsas de estudo a brasileiros no país e no exterior, e conversou com o site de VEJA. Confira a entrevista a seguir.

O que, afinal, significa 'globalização do ensino superior'? 
Cada sistema tem uma definição particular para esse termo. Em termos gerais, é a capacidade do saber intelectual de transcender as barreiras nacionais. O aspecto mais conhecido desse processo é o intercâmbio de estudantes e pesquisadores. É criar condições para que eles extrapolem as fronteiras de seus países em direção a uma educação mais global.

Por que essa discussão se tornou tão latente nos últimos anos? 
Pelo simples fato de que saber é poder. Os países têm despertado para isso. Nações ricas, como os Emirados Árabes, por exemplo, passam a entender que a bonança do petróleo pode não durar para sempre. É preciso uma outra forma de exercer poder. A educação oferece isso – é uma forma de exercer o chamado "soft power" em contraposição ao "hard power".

Com raras exceções, o Brasil costuma se localizar na periferia da excelência em rankings internacionais. O que nossas universidades têm a oferecer a instituições de ponta, como as americanas? 
Sou muito cético em relação a esses índices. Eles têm muita utilidade quando falamos de investimentos e o desenho de políticas públicas, mas esconde muitas particularidades das instituições. Existem nuances que não aparecem nessas medições. O fato de o Brasil não figurar entre os mais bem colocados não significa que aqui não existam centros de excelência ou estudantes e profissionais excepcionais. O Brasil precisa se libertar desse complexo de inferioridade, desse estereótipo de que está sempre na periferia do mundo. É preciso baixar um pouco o tom da conversa e enxergar as oportunidades que o país tem de crescer quando o assunto é ensino superior.

Sob essa óptica, o que Princeton busca no Brasil? 
Estamos aqui para aprender. A posição tradicional americana é vender-se. Muitas universidades vêm ao Brasil para vender-se como um bom destino para os estudantes brasileiros ou mesmo para os professores e pesquisadores. O objetivo principal para Princeton é inverter um pouco essa lógica. Nesse novo jogo temos muito o que aprender com países que se definem como atrasados. Critico esse discurso de submissão. Queremos aprender sobre o país a partir de um diálogo fraternal. Não quero chegar aqui com um modelo engessado de ensino e cooperação. No largo prazo, trabalharemos com o fluxo de estudantes e professores entre Princeton e centros brasileiros onde existe grande interesse por parte de ambos os lados. É uma troca de saber. Para isso precisamos conhecer profundamente a realidade do Brasil. E estamos dispostos a isso.

Os níveis de internacionalização das universidades brasileiras ainda são pequenos quando comparados a outros emergentes. Como é possível mudar esse cenário?
Cifras são sempre relativas. É certo que, comparados com China e Índia, os índices do Brasil são relativamente baixos. Isso não quer dizer que não tenha havido um aumento nos últimos tempos. O país precisa, em primeiro lugar, escolher em que modelo de internacionalização quer investir. Que modelo se aproxima mais da realidade das suas universidades. Não adianta querer copiar o modelo americano ou chinês. O Brasil só não pode deixar de aproveitar as oportunidades que estão surgindo no mundo. As universidades de todos os cantos estão mais abertas que nunca a receber estudantes estrangeiros. E cada vez mais haverá, da parte de universidades internacionais, interesse de se associar às universidades daqui. A questão é como negociar com os parceiros. É preciso encontrar um patamar de igualdade nessas relações para que elas sejam produtivas e significativas.

A língua portuguesa, pouco falada em países como os Estados Unidos, é um empecilho para a internacionalização? 
É um obstáculo que o Brasil precisa atacar. O inglês se tornou a linguagem hegemônica do saber. E isso é um problema na medida em que dá aos falantes do idioma muita vantagem. Por outro lado, as novas gerações aprendem inglês com muita facilidade. A língua é muita mais acessível para esses jovens do que para a geração de 25 anos atrás. Na Europa, o enfrentamento dessa questão já está bastante avançado. Vemos hoje programas de mestrado na França sendo oferecidos integralmente em inglês. É preciso observar também que nos Estados Unidos hoje o espanhol é tido como a segunda língua. Isso nunca aconteceu na história americana. Todo jovem americano consegue se comunicar minimamente com um latino. Isso pode ser um caminho para o ensino do português, por exemplo. Não estou dizendo que vai acontecer da noite para o dia, mas é uma oportunidade que nasce.

O esforço chinês em favor da edução é notório. Em termos de ensino superior, o que vem acontecendo naquele país que chama tanto a atenção dos especialistas? 
Existem dois processos simultâneos e até contraditórios. De um lado, existe um investimento maciço sendo feito pelo governo para tornar as universidades da China atraentes para os estrangeiros. Por outro, um esforço grande para patrocinar jovens chineses em centros de excelência mundo afora. A presença do governo nesse caso é extremamente produtiva. É um sistema que contrasta com o sistema americano, onde as regras são mais descentralizadas e o investimento governamental é muito baixo.

Mas, no caso da China, isso tudo se dá debaixo da repressão. 
Exatamente. Esse é o ponto contraditório ao qual me referia. A China tem um grande problema: não é um país liberal. A universidade, por definição, precisa estar livre para pensar e questionar. É de sua natureza. Assim se produz o conhecimento. Na China, isso não é possível. Nesse sentido, o Brasil sai na frente. Porque, a exemplo do gigante asiático, é um país onde há investimento público na educação superior, mas, por outro lado, é uma sociedade mais aberta e democrática. Esse é um valor imprescindível para a universidade.