Adelson Elias Vasconcellos
Esta edição praticamente concentrou-se em analisar os vários aspectos do pouco crescimento brasileiro desde 2011. Creio que a melhor avaliação que se pode fazer sobre o tema se concentra no editorial do Estado de São Paulo, sob o título “Discurso não resolve crises”. Com efeito, pelo menos a crise econômica não aceita nem discurso vazio, tampouco mau gerenciamento. E não há jeito: há regras e princípios que, se contrariados, comprometem todo o esforço de um país e colocam em xeque seu próprio futuro.
O governo Dilma vendo-se diante da continuidade da crise iniciada em 2009, resolveu adotar o mesmo figurino seguido por Lula. Contudo, as mesmas mágicas não poderiam, como de fato não provocam os mesmos resultados em razão de que o cenário atual, internamente, é completamente diverso do de 2009. Portanto, temos aí um erro de diagnóstico grave. Mas não é só o diagnóstico: o remédio que se está adotando apenas amenizam as dores do paciente. Nada muito além disto.
Lá havia um contingente enorme de pessoas chegando ao mercado de consumo via os novos empregos (apesar de sua baixa qualidade), ampliação exponencial do crédito, além de milhões de beneficiários de programas sociais que passaram a consumir e maior quantidade e melhor qualidade, graças, sobretudo ao crédito. Porém, e este alerta já fizemos aqui, em razão de que mais de 90% dos milhões de empregos o foram de baixa qualçidade4, portanto, com baixa remuneração, todo este contingente acabou estourando seu limite de endividamento e freou o ritmo de consumo. De um lado, aqueles que tem juízo, resolveram não ultrapassar o limite da responsabilidade, e reduziram seu consumo para nãop comprometerem seu orçamento. Mas, pelo menos cerca de 25%, calcula-se que em torno de 10 milhões de famílias, não tiveram o mesmo cuidado, acabaram se endividando além do recomendado, e hoje engrossaram a fila dos inadimplentes. Em consequência, também frearam suas compras. E, na medida em que o nível de inadimplência foi crescendo, os bancos e financeiras começaram a se tornar mais exigentes na abertura de linhas de crédito. Mas também um expressivo número de pessoas que, por terem renda melhor, continuam comprando e gastando, porém, lá fora, incentivadas pelo câmbio. Mas estes também se forçarão a reduzir suas comprars em razão da desvalorização do real.
Ora, para um país cujo força motriz de sua economia é justamente apostar no consumo de seu mercado interno, a conjugação dos fatores acima acabam produzindo retração na sua atividade econômica. É bom considerar, também , que a adoção de medidas protecionistas adotadas recentemente pelo governo Dilma também estão restringindo a entrada de importados. Assim, vê-se que o baixo crescimento se justifica quase que plenamente. Mas não é só isso.
A atividade econômica em ritmo menor precisa ser vista por outros ângulos. A agropecuária , por exemplo, que manteve crescimento vigorosos nos últimos anos, em 2012, em razão do clima, estiagem no sul, seca no Nordeste e inundações no Norte sofreu queda brusca no trimestre. A indústria, apesar da pequena reação, sabemos que não se sustentará nos próximos meses. Como vimos ontem, este pequeno crescimento se deu muito mais em função reposição de estoques do que propriamente fruto das medidas do governo.
Mas há, contudo, um elemento que se deve pesar com carinho: o governo atual reduziu drasticamente seus investimentos. Continuou gastando, sim, e mãos cheias, mas gastos correntes, decorrentes da máquina pública, e não investimentos que pudessem agregar valor à economia brasileira. E isto também pesou.
Olhando o quadro que temos no presente, não resta dúvida que o país acabará sentindo os efeitos da crise europeia. O mercado internacional, de modo geral, reduziu seu apetite por commodities, e isto se reflete diretamente em nossas vendas externas. Apesar da valorização do dólar nos últimos meses frente ao real, nossas exportações de manufaturados e semimanufaturados continuam emperradas por conta do elevadíssimo Custo Brasil que, de forma muito tímida e lenta em demasia dada à urgência do pais, começa a desenhar um diagnóstico mais relista, prometendo atacar alguns destes custo que oneram nossa produção. Neste sentido se fala na fusão do PIS/COFINS (espero que com uma alíquota significativamente menor). Também se acena com a redução dos encargos incidentes sobre as tarifas de energia elétrica.
Aqui, apesar da promessa do governo Dilma, não acredito que o resultado final alivie o peso que a energia elétrica exerce sobre os custos das empresas. Primeiro, que o peso maior dos encargos deriva do ICMS, portanto, tributo estadual, e do que os governos estaduais estão sempre de pires na mão, será difícil convencê-los abrirem mão de alguma receita. Segundo, retirando-se os encargos, ainda assim, em comparação com os demais países, a tarifa incidente sobre o consumo permanecerá elevada em demasia. E, ao que se saiba, apesar disto, muitas concessionárias estão mal das pernas. Portanto, o espaço fica reduzido para que se pratique uma redução tarifária necessária.
Assim, e considerando-se que este governo não tem a menor vontade de praticar as reformas estruturais indispensáveis para garantir crescimento, é bem provável que continuaremos nos arrastando. Portanto, o discurso presidencial, devidamente copiado pelo ministro da Fazenda, continuará fora de sintonia. Um dos caminhos que poderiam vitalizar nossa economia seria o Mercosul. Mas como confiar num mercado, em que o principal parceiro brasileiro continuam remando contra, colocando empecilhos de toda a ordem para a entrada de nossos produtos? Vejam o que acontece com os calçados, em que as fábricas gaúchas aguardam há um ano a liberação de suas vendas! Deveria, claro, o governo Dilma aplicar a mesma reciprocidade, e com a mesma energia com que agiu em relação à Espanha com sua política de dificultar a entrada de brasileiros naquele país. Mas qual, quem disse que este governo vai afrontar a vizinha Argentina! Covardia? Fraqueza? Incompetência? Podem somar tudo isso e colocar mais alguma coisa.
Poderia alinhar aqui a curta visão do governo em relação ao que vem a ser um programa social digno do nome. O governo vê apenas as urnas, os efeitos que a distribuição de dinheiro ´pde provocar na eleição mais próxima. Não vê a importância de se valorizar o indivíduo, dar-lhe ferramentas para seu próprio crescimento. Mas quem se importa? Poderia acrescentar a questão da Copa. Um gasto milionário para abrigar uma competição esportiva, enquanto os brasileiros são jogados e tratados como lixo ou até dejetos humanos nos hospitais públicos caindo aos pedaços. E falar de política, santa Deus, depravada e degrada como a nossa, melhor esquecer, deixar de lado para não juntar raiva.. Poderia também falar da educação, mas ainda seria exigir demais de um governo cujo projeto prioritário é e continuará sendo apenas a manutenção no poder, mesmo que isto entrave o desenvolvimento do país.
Creio que a nota a seguir publicado pelo Cláudio Humberto em sua página, resume bem o espírito que alimenta as ações do governo petista. É um assombro! “Nuncadantez na história deste país” se teve um governo tão corajosamente imbuído de prefere investir lá fora, do que fazê-lo aqui dentro.
Brasil financia aeroporto milionário... na África
Por aqui está devagar, quase parando, mas Gana, na África, que não sediará Copa do Mundo ou Olimpíadas, ganhou financiamento de 174 milhões de dólares (R$ 350 milhões) do contribuinte brasileiro, através do BNDES, para construir o aeroporto internacional de Tamale, ao norte da capital, Acra. A construtora Queiroz Galvão tocará a obra, sob a responsabilidade da administração portuária estatal Ghana Airport.
No Brasil, 17 dos 20 principais aeroportos estão em “situação critica”, segundo o Ipea, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.
O estudo do Ipea atestou também que os investimentos nos aeroportos do Brasil “foram inferiores à necessidade”.
Obsoletos e com instalações arcaicas, doze dos nossos principais aeroportos operam acima do limite de sua capacidade, aponta o Ipea.
Agora juntem todos os ingredientes acima citados e vocês concluirão que o mundo lá fora tem razão em seu desencanto em relação ao Brasil. Só que isto é simplesmente a consequência de um governo pautado pelo poder. Sua publicidade mentirosa jamais conseguirá esconder a realidade que nos cerca. As máscaras, senhores, cedo ou tarde, acabam caindo, por mais bravateiro, demagogo e mistificador que seja o discurso de ocasião.
Um país sem guerras, com uma natureza rica, com um potencial infinitamente superior ao restante do mundo, crescer aquém destas potencialidades é indicativo do tamanho do governo que o conduz. Países em guerras, vivendo crises econômicas imensas, conseguem fazer mais e melhor do que estamos fazendo. Portanto, o problema não está lá fora, o problema do Brasil continua sendo seu governo com uma brutal incapacidade de gestão.
Encerro com uma reflexão relevante. Na página inicial do site do Instituto Millenium está reproduzido um pensamento de William Simon, ex-secretário do Tesouro do EUA, e que se encaixa perfeitamente bem no caso brasileiro:
"O primeiro objetivo do burocrata é a preservação de seu trabalho, fornecido pelo Estado inchado, às custas dos contribuintes. Se os problemas reais do mundo são resolvidos ou não, é de importância secundária. Não é preciso muito cinismo para ver que os burocratas não têm interesse em ter os problemas resolvidos. Se os problemas não existem não há razão para o burocrata ter um emprego"


