terça-feira, julho 23, 2013

Jovens querem educação de qualidade, saúde e alimentação

Saulo Pereira Guimarães
Exame.com

Estudo do Ipea indica que temas são mais importantes para jovens do que para adultos

Antônio Cruz/ABr 
Educação de qualidade: demanda dos protestos de junho já 
estava entre reivindicações dos jovens no levantamento de maio

São Paulo – Quais são as prioridades dos jovens no Brasil hoje? Uma pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) nessa segunda-feira se propôs a responder essa e outras questões. De acordo com o estudo, educação, saúde e alimentação estão entre as principais preocupações dos brasileiros entre 15 e 29 anos.

Cerca de 11,4 mil pessoas foram entrevistadas para o levantamento realizado em maio – imediatamente antes da maior onda de protestos no país nos últimos 20 anos, que aconteceu no mês seguinte. Num formulário, jovens e adultos deveriam escolher seis temas prioritários num universo de 16 questões apresentadas.

Levantamento realizado pela Organização das Nações Unidas (ONU), o questionário My World serviu de modelo para a pesquisa. Entre as conclusões obtidas pelo trabalho do Ipea, está o fato de jovens estarem mais preocupados com temas como educação de qualidade, fim do preconceito e oportunidades de trabalho do que as pessoas mais velhas.

Além disso, questões como melhorias nos transportes, liberdades políticas e acesso a telefone e internet também foram mais lembradas entre os mais novos. "A ênfase dada a este último elemento coincide com o meio a partir do qual os protestos de junho no Brasil inicialmente eclodiram", lembra Marcelo Neri, presidente do Ipea.

Prioridade
Jovens
Não Jovens
Educação de qualidade
85,20%
80,50%
Melhorias em saúde
82,70%
86,60%
Alimentação de qualidade
70,10%
76,10%
Governo honesto e atuante
63,50%
65,70%
Proteção contra violência
49%
52,30%
Oportunidades de trabalho
46,90%
43,90%
Melhorias em transportes
40,90%
37,90%
Apoio às pessoas que não podem trabalhar
35,10%
38%
Acesso à água e saneamento
27,40%
28,60%
Proteção de rios, oceanos e florestas
20,10%
19,20%
Acesso à energia em casa
19,90%
19,10%
Fim do preconceito e discriminação
19,50%
15,90%
Igualdade entre homem e mulher
11,70%
12,50%
Liberdades políticas
10,50%
8,20%
Acesso ao telefone e à internet
10%
8,30%
Combate a mudanças climáticas
7,30%
7,10%



Pororoca jovem
O levantamento do Ipea também indica que nunca antes na história desse país houve tantos jovens. Eles somam hoje cerca de 50 milhões e correspondem a 26% do total da população.

O estudo lembra que, proporcionalmente, os jovens já foram mais importantes na composição da sociedade brasileira – chegando a corresponder a mais de 29% do total em 1983. Porém, em números absolutos, a juventude brasileira está hoje no seu tamanho máximo.

Denominado "pororoca jovem", o fenômeno começou em 2003 e deve seguir estável até 2022 – a partir de quando se inicia uma redução que, em 20 anos, deve encolher em 12,5 milhões de pessoas o número de brasileiros nessa faixa etária.

"O Brasil precisa aproveitar ao máximo a longa duração da pororoca jovem para impulsionar suas transformações sociais e econômicas", defende Neri. Segundo o presidente do Ipea, a quantidade de jovens no fim do século XXI vai corresponder a apenas 60% do que representa hoje.

Apesar do tamanho, a juventude brasileira ainda é o principal alvo da violência. Números do Mapa da Violência 2013 mostram que, entre 1980 e 2011, o número de mortes violentas entre jovens cresceu mais de 200%. Além disso, em cidades como Maceió, a quantidade de assassinatos nessa faixa etária mais que dobrou em dez anos.


A falência do Novo Modelo Econômico de Dilma

Revista VEJA 

Reportagem de VEJA desta semana mostra como, a pretexto de acelerar o crescimento, a administração federal se afastou dos princípios que permitiram estabilidade e desenvolvimento

(Antonio Cruz/ABR) 
MUDANÇA DE CURSO? -
Dilma diz que o pessimismo não se justifica, mas os fatos são teimosos      

O economista americano John Taylor, professor de Stanford, lançou no ano passado o livroFirst Principles (Princípios Primordiais, sem tradução no Brasil), no qual argumenta que a recuperação americana tem decepcionado porque os Estados Unidos se desviaram das políticas que, historicamente, os levaram ao posto de país mais próspero do mundo. 

Para Taylor, a interferência equivocada do governo no funcionamento dos mercados e o desequilíbrio nas contas públicas, entre outros fatores, minaram a confiança dos empresários e reduziu a atividade. “Minhas pesquisas em política monetária e fiscal, desde os anos 60, mostram que o desempenho econômico pode ser tremendamente aprimorado se certos princípios bem definidos forem perseguidos”, diz Taylor. “Afastar-se desses princípios básicos leva a crises.”

Difícil não pensar no Brasil, lendo a análise de Taylor. O país havia recobrado a estabilidade, irradiando o otimismo na população e atraindo investimentos produtivos. A base para o novo período de prosperidade era assentada em três pilares: o respeito às metas de inflação, a flutuação da taxa cambial e o controle das contas públicas. Esse tripé, apenas, não basta para trazer o desenvolvimento. 

Mas graças a ele a economia ganhara previsibilidade e credibilidade. Porém, a pretexto de acelerar o crescimento, o governo Dilma Rousseff decidiu se afastar desses princípios. O governo viveu sob a ilusão de ter criado um “moto contínuo tropical”, na expressão do gestor de recursos Luis Stuhlberger, diretor da Credit Suisse Hedging-Griffo. Imaginou ser possível engendrar uma máquina de crescimento que se movesse indefinidamente, sem custos. 

Mas a ilusão parece ter chegado ao fim. Estão por toda parte os sinais de falência da política baseada no crédito farto, na ingerência na vida econômica, na negação das leis de mercado e na farra fiscal.

Crenças errôneas

Paulo Guedes 
O Globo

A economia brasileira caiu na armadilha social-democrata do baixo crescimento. A explicação é simples: somos prisioneiros de nossas próprias crenças. “Um requisito básico para escapar do baixo desempenho econômico é o claro entendimento de que se origina de instituições deficientes, que por sua vez resultam de crenças e percepções inadequadas para a nova realidade.

As instituições moldadas por crenças passadas estreitam as opções presentes, resultando num processo de desintegração de uma sociedade que não consegue superar a rigidez de suas crenças errôneas, impedindo as necessárias mudanças.

A estrutura institucional existente é um poderoso obstáculo às mudanças, pois reage em defesa de interesses adquiridos”, adverte o Prêmio Nobel de Economia Douglass North, em “Compreendendo o processo de mudanças econômicas” (2005).

“Como as instituições afetam nosso desempenho econômico? O que explica a habilidade de algumas sociedades em promover eficientes adaptações institucionais, ajustes flexíveis aos choque de toda natureza por meio de instituições que evoluem para lidar efetivamente com a realidade em transformação?”, pergunta North.

Somos vítimas do fechamento cognitivo da social-democracia brasileira ante o desafio econômico da estagflação e o desafio político da corrupção. A hipertrofia e o aparelhamento do Estado deturpam valores morais e práticas políticas. Fabricam escândalos, desmoralizam partidos e derrubam nossa taxa de crescimento.

Instituições obsoletas e estagnação econômica são também o desafio europeu. Décadas de social-democracia produziram a euroesclerose. Sob o véu do euro, a crise europeia reflete uma realidade econômica mais profunda: a ausência de uma dinâmica de crescimento.

A euroesclerose resulta da falta de sintonia de uma social-democracia hegemônica com os requisitos da nova ordem global. A armadilha social-democrata, com regimes previdenciários irrealistas, legislações trabalhistas inadequadas e organizações sindicais anacrônicas, tornou inflexíveis os mercados de trabalho, estilhaçando o maior mercado do planeta em imensos bolsões “nacionais” de desemprego.

Lá como aqui, a modernização institucional para a integração competitiva nos mercado globais exige substancial revisão de antiquadas crenças políticas.

Preconceito ideológico

Editorial
O Globo

No dia 21 de outubro, a Agência Nacional de Petróleo realizará a primeira licitação de um campo na camada do pré-sal depois de adotado o regime de partilha de produção para esse tipo de reservatório.

Pela potencialidade do campo de Libra, com possíveis reservas da ordem de 12 bilhões de barris e investimentos que alcançariam a casa de US$ 200 bilhões, é provável que a licitação venha a ser, isoladamente, o maior negócio na história do setor.

Somente em bônus de assinatura, o consórcio vencedor terá de pagar ao Tesouro R$ 1,5 bilhão. Além disso, terá de assegurar ao governo pelo menos 41% da produção, descontada parte dos custos para extrair o petróleo. 

A produção, prevista para começar no prazo de cinco anos, vai gerar royalties para os cofres públicos, prevendo-se também a formação de um Fundo Social a fim de que o resultado da atividade possa ser usufruído por futuras gerações de brasileiros, tal qual ocorre em outros países (o melhor exemplo é a Noruega).

Ainda que o regime de partilha de produção tenha sido questionado diante da alternativa de se manter o de concessões que foi adotado em todas as licitações anteriores, tal investimento somente será viabilizado porque o Brasil instituiu uma nova lei do petróleo, abandonando o antigo e ultrapassado monopólio.

A maior beneficiária dessa mudança foi exatamente a companhia estatal que exercia esse monopólio, pois desde então se tornou mais ágil e com mais autonomia para negociar parcerias societárias, operacionais, financeiras, tecnológicas e gerenciais, multiplicando assim sua capacidade de investimento.

A chegada de muitas companhias e a criação de outras de capital nacional oxigenaram a indústria brasileira. Motivaram profissionais a enfrentar desafios vultosos. O parque tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Ilha do Fundão, abriga cada vez mais centros de pesquisas, com ênfase no petróleo, mas que se irradiam também para outras áreas e se intercomunicam com o mundo acadêmico de norte a sul do país, sem deixa de fazer uma ponte com o desenvolvimento da tecnologia no exterior.

Ao optar pelo mercado e a competição no lugar dos defasados monopólios estatais, o Brasil se livrou de amarras que limitavam o investimento pela ausência de capitais sob gestão privada. O exemplo das telecomunicações talvez seja o mais contundente.

Com o antigo monopólio, a telefonia celular, o acesso à internet em alta velocidade e a TV por assinatura seriam hoje serviços distantes da maioria da população. Mesmo a universalização da energia elétrica continuaria sendo um sonho (assim como o é no saneamento básico, segmento dominado por companhias estatais estaduais).

O preconceito ideológico contra o mercado e a mobilização de capitais privados ainda contamina a política no país, infelizmente, mesmo com todas as evidências que o Brasil estava marcando passo com a era dos monopólios estatais. Oxalá isso um dia seja superado.

Opção pelo desperdício

Luiz Tito
O Tempo

Na edição de ontem e ao longo desta semana, O TEMPO publica série de reportagens assinada pela editora de política, Carla Kreefft, resultado de sua viagem a cinco ilhas do Caribe para pesquisar a atividade e o sentido (ou a falta de) das embaixadas brasileiras criadas pelo governo Lula em Barbados, São Cristóvão e Névis, Trinidad e Tobago, Granada e Santa Lúcia. Somadas, por exemplo, as populações dos cinco países chegam a pouco mais de l,6 milhão de habitantes, o equivalente a menos de um terço da população da região metropolitana de Belo Horizonte, registrada no Censo de 2010. 

O PIB desse conjunto, visto pelo governo como perspectiva de relacionamento comercial por meio de importações e exportações monta US$ 30 bilhões; na mesma região metropolitana de BH, o PIB medido em 2008 foi de quase US$ 70 bilhões, mais de o dobro do produzido pelos cinco países. No restante, os números são tão críticos que chega a deprimir o fato de no Brasil, com tanta miséria e carências, jogar-se tanto dinheiro fora. E o governo nada faz para estancar esse ralo, mesmo diante da realidade da inflação, motivada principalmente pelo aumento desordenado dos gastos públicos. Na semana que passou, a presidente 

Dilma colocou seus ministros da área econômica (tardiamente) para trabalhar e conseguir uma poupança de US$ 10 bilhões nos gastos públicos. Não perde quem apostar que essa cifra não resultará do corte de desperdícios como esses denunciados pela reportagem. Um pente fino nas contas das representações brasileiras em todo o mundo produziria valores significativos, tenhamos certeza. A vida de luxo e desperdícios nas embaixadas brasileiras é um crime de lesa-pátria. 

Também na semana passada, a imprensa denunciou os altos salários percebidos pelo quadro de funcionários e juízes do Tribunal de Justiça Militar de MG, cujos valores chegam a cifras vergonhosas. Apenas Minas, São Paulo e Rio Grande do Sul mantêm tais instituições de julgamento; em outros Estados, militares são julgados pelos tribunais civis, o que é perfeitamente mais adequado, porque no mínimo se suprime o corporativismo tão contestado. Caminham em paralelo absurdos como os salários e gastos na manutenção do Congresso Nacional, das câmaras municipais, das assembleias legislativas e dos tribunais de contas de todo o país, apenas como exemplos mais reluzentes. 

O descontrole das receitas dos sindicatos, federações e confederações que, por exemplo, permitem ao empresário Paulo Skaf (e a centenas de outros em todo o país) investir R$ 16 milhões numa campanha publicitária simplesmente para aplaudir a redução das contas de luz e a aprovação da Medida Provisória dos Portos. O mesmo Skaf, que ninguém é capaz de dizer a que indústria pertence no país, como diretor ou presidente, lidera a contratação de espaços nas redes de TV para enfiar sua cara, em comerciais pagos pelo caixa do Sesi, Senai e da Fiesp. O resultado de tais campanhas, até agora, serviu para engordar sua avaliação nas pesquisas eleitorais, nas quais é citado como candidato ao governo de São Paulo. O exame e denúncia desses absurdos são motivos para mobilizar a imprensa e motivar as ruas na busca de medidas que aplaquem tais desgovernos. Não ao desperdício do dinheiro público deveria ser uma bandeira nacional.

Alternativa continental ao estatismo

Editorial
O Globo

Grande plano de investimentos do México em infraestrutura pode aumentar ainda mais as vantagens da Aliança do Pacífico em relação ao Mercosul protecionista

Presente em Villa de Leya, ao norte de Bogotá, para acompanhar, em junho, reunião de nível ministerial da nova Aliança do Pacífico, a colunista especializada em América Latina do “Wall Street Journal”, Mary Anastasia O’Grady, registrou que, enquanto transcorria o encontro em torno do novo bloco comercial , os jornais nas bancas da cidade colombiana traziam notícias das manifestações no Brasil.

O contraste é de forte simbologia, até porque, segundo O’Grady, a aliança provavelmente criará um poderoso contrapeso ao “retrógrado protecionismo e estatismo do Brasil, Venezuela, Argentina e Bolívia”, esta em fase de ingresso no Mercosul, onde se encontram os demais, num momento de crise no bloco, em que, de fato, há forte tendência protecionista e dirigista.

Mesmo o Paraguai, expulso do Mercosul numa manobra para permitir a entrada da Venezuela chavista como membro pleno do acordo comercial, se aproxima da Aliança, enquanto reavalia se compensa voltar ao bloco do Cone do Sul, na presidência de Horacio Cartes, a tomar posse em agosto. As condições oferecidas pela Aliança do Pacífico são mesmo tentadoras, pois o grupo tem uma visão mais aberta da integração com o mundo, e seus fundadores — Chile, Peru, Colômbia e México — ostentam uma performance econômica muito acima dos componentes do Mercosul.

No ano passado, enquanto o PIB brasileiro não foi além de uma expansão de 0,9% e a inflação bateu nos 5,8%, o México cresceu 3,9% e a inflação ficou em 3,2%; o Chile, 5,6% e uma alta média dos preços de 1,8%; o Peru 6,5% e 2,7%; e Colômbia, expansão de 3,4%, com apenas 3,4% de inflação. Quer dizer, não há crise externa — a explicação oficial clássica para as mazelas brasileiras — travando esses países.

A diferença entre a Aliança e o Mercosul, a tomar pela conjuntura mexicana e brasileira, pode aumentar. Pois enquanto no Brasil o governo não consegue ativar os investimentos — estacionados em insuficientes 18% do PIB —, o México, no governo de Enrique Peña Nieto, acaba de anunciar um plano de inversões de US$ 316 bilhões, em seis anos, em rodovias, ferrovias, infraestrutura de telecomunicações e portos, para ampliar a competitividade do país. O Brasil tem o mesmo objetivo, mas falta confiança nos investidores, depois de algumas desastradas intervenções do governo (setor elétrico, petróleo/pré-sal). No México, o clima é outro, porque, sob o novo governo, segue-se um pacto para reformas liberalizantes — parecidas com as realizadas no primeiro governo de FH —, negociadas por Peña Nieto com a oposição antes de tomar posse.

Os ventos a favor podem soprar com mais força à medida que se recupere a economia americana, à qual o México é muito dependente. Não faltam dados para os estrategistas de Brasília avaliarem os prejuízos para o país caso se mantenha imobilizado numa união aduaneira em pane, sem ao menos induzir sua transformação numa aliança comercial, mais flexível.

O fantasma da órfã

João Ubaldo Ribeiro
O Globo

A propalada truculência da presidente está virando folclore e em lugar de força, mais parece denunciar exasperação impotente

Atribuem ao presidente Kennedy a observação de que a vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã. Melancólica verdade, sobretudo na política, que sempre a confirma sem perdão, bastando ver como as mãos políticas que hoje afagam são as mesmas que ontem apedrejavam e vice-versa. Em nosso caso, temos ainda uma tradição de adesismo por que zelar, bem como a prevalência do Sonho Brasileiro, que é descolar uma mamata vitalícia em algum lugar do governo ou do estado, porque aqui governo e estado são a mesma coisa. Entra um governo novo e declara “o estado é nosso e só faz o que nós queremos”. Isso torna impossível a realização do sonho sem que o sonhador abandone o inditoso derrotado e passe para o lado do futuroso vencedor. Suponho que devemos encarar essas coisas com compreensão e até caridade, pois o pessoal está apenas querendo sobreviver e subir na vida, é natural.

Vários outros princípios e paradigmas de conduta estão também envolvidos na questão, entre os quais sobressai o “farinha pouca, meu pirão primeiro”, farol ético que parece nortear nossa formação coletiva, tal o vigor com que se evidencia no comportamento de nossos governantes. Às vezes penso que a frase devia constar de algum emblema nacional, é muito injusto que não receba o reconhecimento merecido. No momento, a farinha ainda não está propriamente pouca, mas há sempre os previdentes, que não querem deixar seu pirão aos cuidados do acaso. Melhor tratar de farejar os ares e descortinar por onde anda a temível assombração da derrota, para ir-se afastando dela quanto antes. Não sei se já começou a debandada, mas acho que pelo menos há alguns sinais dela, difusos nos noticiários e comentários políticos.

O moral do governo não parece andar muito alto. O saco de gatos dos ministérios é um espetáculo triste, desanimado, desarvorado e sem aparentar saber muito para onde ir, ou o que fazer. Ninguém — arrisco-me a dizer que nem mesmo a presidente — é capaz de lembrar todos os ministérios e muito menos todos os ministros. Sabe-se que muitos destes se esgueiram obscuramente pelos corredores e salas dos fundos do poder, sem sequer terem a chance de dar um bom-dia à presidente, quanto mais de despachar alguma coisa. Fica aquela pasmaceira, interrompida por momentos de falatório vago e repetitivo, que não prenunciam nada de importante. E há, seguramente, ministros que, se perguntados de surpresa, não saberão bem o que fazem suas pastas, acrescido o pormenor de que vários ministérios, ou grande parte deles, não fazem nada mesmo, a não ser dar despesa.

A reação às manifestações de rua mostrou um esforço atarantado para manter a aparência de calma, equilíbrio e controle da situação, quando era visível que não havia nada disso e estava todo mundo de olho arregalado e sem saber o que dizer ou, pior ainda, fazer. Comentou-se em toda parte que, como já teria acontecido antes com frequência, a presidente peregrinou ao ex-presidente, para saber dele como agir, porque ela mesma não fazia ideia, o que vem sublinhando a imagem de despreparo e insegurança mal articulada que ela cada vez mais projeta. Ouvidos também os vizires do momento, saiu do Planalto uma voz chocha e pouco inspiradora, naquele tom de professora repetindo uma aula decorada a contragosto e sem nenhum entusiasmo ou até confiança, propondo absurdos, tentando espertezas quase amadorísticas e, em última análise, mostrando a incompetência do esquema que a rodeia.

A tal governabilidade, que tanto mal tem produzido, tão pouco bem tem causado e nunca funcionou direito, servindo basicamente para o intricado jogo das nomeações, colocações, favores e outros objetivos dos nossos homens públicos, está cada vez mais caindo pelas tabelas. Todo dia um cai fora, outro proclama dissidência e independência, formam-se alas e subalas, o rebuliço surdinado é grande. A turma da base aliada, que sempre deu trabalho e aporrinhação e nunca agiu pelos belos olhos da nação, começa a enxergar um governo fraco e a querer distância dele, ainda mais com as ruas pressionando. A corte continua lá, o ex-presidente continua lá, mas é de se acreditar que, de agora em diante, a solidão da presidente vai agravar-se.

A inflação está voltando e as negativas e bravatas das autoridades não convencem, diante da realidade dos preços. As declarações otimistas do ministro da Fazenda são recebidas quase com deboche. O crescimento é minguado, e a economia cambaleia cada vez mais e o governo caracteriza seu comportamento por ações meramente conjunturais e pontuais, respondendo de forma superficial e casuística aos problemas que aparecem. Os índices de popularidade da presidente desabaram e mesmo um antes improvável segundo turno nas eleições já está sendo previsto. Até uma surpreendente vaia de prefeitos ela tomou em Brasília. Tudo isso com certeza provoca inquietude na alma e comichões nos pés de quem quer ficar longe da órfã derrota.

Para completar o quadro, o governo não dispõe de um Big Bang para apresentar, no encerramento destes seus quatro anos. Nenhuma grande obra, nenhum grande passo, nenhum grande marco. Inflação subindo, PIB baixando, educação alarmante, saúde escangalhada, infraestrutura desmantelada, transporte urbano infernal, segurança pública impotente, estrutura fiscal pervertida, ferrovia Norte-Sul em descalabro, transposição do São Francisco roubada e sucateada — nada a apresentar, nada a trombetear, nada a comemorar. A propalada truculência da presidente está virando folclore e em lugar de força, mais parece denunciar exasperação impotente. Cara de derrota para o governo e ninguém vai querer ser o pai dela. Mas receio que não terão dificuldade em apontar a mãe.

A volta do cipó

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Se arrependimento matasse haveria poucos petistas vivos para contar a história do acordo de rodízio para a ocupação da presidência da Câmara firmado entre PT e PMDB, sem a inclusão do Senado no contrato.

Como o PT reivindicou a primazia, presidiu a Câmara nos dois primeiros anos do governo, deixando para o PMDB o comando no período final que coincide com a sucessão presidencial e agora também com a queda livre de Dilma Rousseff nas pesquisas.

No Senado, em lugar da alternância valeu o critério convencional da prioridade à maior bancada. Justamente o PMDB, que ficou com o comando das duas Casas, dois postos na linha sucessória da Presidência da República e o controle total do processo legislativo conduzido por um grupo chamado sem cerimônia de "camarilha": Renan Calheiros, Gim Argello, Eunício Oliveira, Romero Jucá, Eduardo Braga, José Sarney e Vital do Rêgo.

Na Câmara, o espetáculo é comandado por Henrique Eduardo Alves em sintonia fina com o líder do PMDB, Eduardo Cunha, e a gentil colaboração de parte da bancada do PT.

Com isso e mais a vice-presidência, não admira que os pemedebistas proponham redução drástica de ministérios e desdenhem das seis pastas que ocupam e nas quais não mandam de verdade. Já têm poder que não acaba mais.

Essa correlação de forças faz o governo refém do PMDB e deixa parlamentares do PT queixosos de serem alijados pelo Planalto, obrigado a ceder os anéis ao parceiro de aliança.

Temerosos de perder também os dedos - vale dizer, a condição de renovarem seus mandatos - senadores petistas articulam um movimento de aproximação com os chamados independentes da base, os integrantes do "PMDB do bem" (Jarbas Vasconcelos, Pedro Simon e companhia) e até parlamentares do PSDB para confrontar a "camarilha".

Buscam um reequilíbrio, mas pode ser tarde depois de terem menosprezado o potencial de dano que representava a concentração de poder nas mãos do PMDB, apoiado a volta de Renan Calheiros ao comando do Senado, dado apoio a ele quando foi obrigado a renunciar à presidência em meio a denúncias, dado sustentação a Sarney na época do escândalo dos atos secretos, nepotismo e outras peripécias.

Hoje confessam: "Os caras são profissionais". E constatam: "Querem sugar o governo ao máximo e se a reeleição estiver ameaçada, nos jogar fora".

Fava contada. 
A saída de José Serra do PSDB é tida no partido como inevitável. Não que ele tenha comunicado a alguém essa decisão, mas a conclusão parte de um raciocínio lógico: sem espaço no partido para ser candidato à Presidência da República, Serra não teria nada a ganhar ficando nem nada a perder saindo.

Nessa altura da vida não seria candidato a deputado federal para ajudar o PSDB a aumentar a bancada na Câmara, conforme uma das hipóteses correntes, e passar quatro anos sendo mais um dentro de um Parlamento desqualificado. Este mesmo critério vale para a possibilidade de se candidatar a senador.

A candidatura presidencial de Aécio Neves está consolidada, salvo algum tipo de imprevisto muito improvável de acontecer até o início de outubro, data-limite para troca de partido. Ao governo de São Paulo, o espaço está ocupado por Geraldo Alckmin, que tentará a reeleição.

Diante desse cenário, concluem políticos próximos a José Serra, a filiação ao PPS seria a opção. Não havendo remédio, os tucanos analisam que a saída não pode ser vista como uma "tragédia".

Embora uma possível candidatura presidencial de Serra represente um risco. Se de um lado ajuda a levar a eleição para o segundo turno, de outro divide o eleitorado tucano e poder deixar tanto Serra quanto Aécio fora da disputa final.

Reforma política: Razões para irmos com calma

Paulo G. M. de Moura
Instituto Millenium

Uma crise institucional dessa magnitude foi bloqueada pelo parlamento, em nome da defesa da constitucionalidade e da responsabilidade política

Uma breve pesquisa retrospectiva comprovará que a Reforma Política tem sido pautada pelos últimos governos sempre que emerge uma crise da qual o Executivo precisa se livrar, agendando a mídia com uma pauta diversionista que desvie o olhar e a ira da opinião pública para o Legislativo. O presente caso não foge a regra.

Desta vez o mote para o recurso à tática não proveio de um escândalo ou de uma crise de relacionamento do governo com o Congresso. Veio como reação a uma explosão de indignação popular contra a corrupção descarada e impune que assola a nação. A outra novidade é o plebiscito como suposta solução para impasse que impede o consenso sobre a reforma a fazer.

Dificilmente alguém discordará sobre a necessidade de aperfeiçoar nosso sistema político e eleitoral. Porque, então, a Reforma Política não acontece? Simples: mexer na regra do jogo altera o resultado do jogo. Quem, em tese, deve votar a alteração das regras seriam os parlamentares que se elegeram com as regras vigentes. Por que razão eles quereriam mudar leis que os beneficiam?

Um plebiscito e uma Assembleia Constituinte eleita exclusivamente para aprovar essa reforma seriam a solução? Será?

Uma Assembleia Constituinte é um órgão soberano por natureza. Ou seja, nenhum Poder Constituído, a não ser o povo em consulta direta nas urnas, tem poderes soberanos superiores aos de uma Constituinte. Portanto, como pretender limitar as atribuições de uma Constituinte ao debate de um único tema? Se assim fosse, o Congresso Nacional estaria tentando impor limites a um órgão ao qual é subordinado por definição. Como impedir um órgão soberano de deliberar sobre outros aspectos da Constituição? Quais os riscos de mudar a Constituição com as massas em convulsão?

E porque não o plebiscito então?

Em primeiro lugar, em função da complexidade dos temas sugeridos para apreciação popular. Tomarei a liberdade de pegar emprestado um exemplo trazido à luz por Miguel Reale Junior em recente artigo no “Estado de São Paulo”. Nesse artigo o jurista abordou a questão da consulta popular sobre o voto distrital puro; distrital misto ou continuidade do sistema proporcional. Imaginemos que, diante dessas opções, 35% dos eleitores aprovassem o voto distrital, 32,5% votassem pelo distrital misto e outros 32,5% pela continuidade do voto proporcional. Nessa hipótese migraríamos para o sistema distrital puro num contexto em que 65% dos eleitores escolheram as outras duas opções.

E as regras devem valer para 2014? Ok. Passo seguinte, então, a Justiça Eleitoral teria que esquadrinhar o país em milhares de distritos eleitorais. Os distritos teriam tamanhos diferentes e quantidades diferentes de eleitores. Com isso, tornar-se-ia possível que um partido viesse a eleger a maioria dos deputados distritais, sem, no entanto, fazer a maioria dos votos dos eleitores. A soma de vitórias em distritos com poucos eleitores pode derrotar a soma de vitórias nos grandes distritos. Algo parecido aconteceu com a vitória de Bush sobre All Gore nos EUA em 2000.

A lógica das eleições passaria a ser radicalmente diferente, como se pode ver. Todos os partidos passariam e ter eleições primárias para escolha de seus candidatos distritais. Estatutos partidários e regras das disputas internas teriam que ser redefinidos. Para 2014, relembro.

Em seguida, elegeríamos os deputados distritais, com cada partido apresentando apenas um candidato por distrito em campanhas supostamente mais baratas, pois circunscritas a limites geográficos mais restritos. No sistema majoritário, portanto, não existem coligações eleitorais.

Mas, e se o povo resolvesse votar no plebiscito pelo voto distrital e pela continuidade das coligações proporcionais ao mesmo tempo? A quem caberia desatar esse nó?

Como explicar para a população, com 10 minutos de propaganda na TV por dia, durante 30 dias, no que consistem esses sistemas e qual a virtual implicação das mudanças? Sempre lembrando que a presidente deseja submeter ao plebiscito, também, a questão do voto em lista e do financiamento público de campanha, dentre outros temas.

O caro leitor entendeu a confusão na qual estaríamos metidos se o Congresso não tivesse barrado essas propostas? É bem verdade que nossos nobres representantes barraram essa aventura porque não desejam mudar as regras vigentes. Mas, o que importa é que uma crise institucional dessa magnitude foi bloqueada pelo parlamento, em nome da defesa da constitucionalidade e da responsabilidade política.

Interessante observar que prefeitos, governadores, a presidente e esse mesmo Congresso estão aprovando às pressas, por medo das ruas, inúmeras irresponsabilidades fiscais cujo preço se apresentará em breve. Isso tudo num cenário de crise econômica emergente, na qual o problema fiscal é o ingrediente central da volta da inflação.

Aliás, esse é mais um argumento pelo qual não se deve fazer Reforma Política às pressas. Imagine-se um plebiscito em pleno ambiente de crise econômica? O preço da irresponsabilidade, nesse caso, pode ser a desestabilização da Democracia num momento em que as novas tecnologias estão revolucionando o tecido social e as formas de participação da sociedade na política, questão que, por ignorância, tem passado ao largo das propostas de reforma em tramitação no Congresso.

O recurso aos plebiscitos e referendos tem sido usado como forma de canalizar a participação popular para caminhos institucionais que legitimem as instituições democráticas nesse momento em que partidos, parlamentos e governos nascidos nos séculos passados são atropelados pela participação individual e direta dos cidadãos na ágora virtual das mídias sociais.

No entanto, é imperativo saber como eles funcionam e em que contextos eles se aplicam. Nunca é demais lembrar que governantes populistas e autoritários costumam recorrer aos plebiscitos como forma de atropelar as instituições democráticas para aprovar mudanças constitucionais cujo objetivo é perpetuarem-se no poder.

A impossibilidade, aqui comprovada, de submeter questões complexas a plebiscito, sugere que o referendo seria mais adequado ao caso brasileiro. Isto é, o Legislativo, se conseguir chegar a um consenso improvável, elabora novas regras para o sistema político e eleitoral e submete as novas leis à consulta popular, tal com aconteceu no referendo das armas.

Vamos adiante. Existem dezenas de sistemas eleitorais nas diferentes democracias contemporâneas. Nenhum deles é perfeito e isento de problemas sobre a forma como se processam as escolhas dos representantes. Todos apresentam vantagens e desvantagens. Apesar das variações e especificidades que marcam cada um deles, há uma clivagem central que diferencia os sistemas de tipo consensual dos sistemas de tipo majoritário. Pouparei o leitor dos detalhes para privilegiar a análise daquilo que é essencial ao debate presente.

O sistema majoritário (Inglaterra, por exemplo) baseia-se no predomínio da maioria sobre a minoria e minimiza a busca da maioria qualificada. Nesse sistema quem ganha leva tudo e o poder das minorias fica limitado à tentativa de veto às decisões da maioria.

No sistema consensual (Brasil, por exemplo) ocorre o contrário. Isto é, as regras obedecem à lógica da busca do consenso envolvendo uma complexa engenharia de construção de maiorias. A lógica pressupõe ampla participação das forças políticas na coalizão de governo para construção do mínimo denominador comum possível em torno dos objetivos que devem ser perseguidos pelo Executivo.

A literatura sobre o tema sugere que o sistema majoritário adapta-se mais a nações com menor clivagem social, isto é, baixa diversidade e baixo nível de conflitos regionais, culturais, religiosos, étnicos ou de outra natureza. Isso porque a lógica da imposição da maioria pela minoria em sociedades com alta diversidade tenderia a acirrar conflitos e desestabilizar a Democracia.

Convém observar que boa parte dos países que adotam o sistema majoritário é parlamentarista. Nesses regimes a escolha do gabinete de governo cabe ao partido que elegeu a maioria. O povo vota nos parlamentares e os partidos “escolhem” o gabinete e o primeiro ministro, de forma indireta, portanto. Outro aspecto importante a considerar é que a lógica do sistema majoritário tende a prejudicar os pequenos partidos e a organizar a disputa pelo governo em torno de duas ou três grandes legendas que conseguem montar estruturas nacionais com presença em todos os distritos eleitorais.

Já o sistema consensual adapta-se a nações com maior diversidade e clivagens sociais e culturais. A necessidade de compor maioria exerce uma coerção interessante sobre a lógica do sistema. Isto é, para compor maioria eleitoral ou coalizões de governo os partidos são forçados a abandonar projetos radicais e a flexibilizar suas propostas para construir consensos possíveis. O mérito desse sistema, portanto, consiste na contenção dos extremos.

Tomemos como exemplo a situação hipotética de um país que experimentasse manifestações de massas com alto teor de insatisfação com o governo. Imaginemos que esse governo resolvesse convocar uma Constituinte e um plebiscito para aprovar às pressas novas regras eleitorais que favorecessem seu partido e sua perpetuação no poder. Num sistema de tipo majoritário esse governante teria maioria parlamentar automática, podendo atropelar seus adversários e aprovar as leis que bem entendesse, sem negociar e sem consultar a população.

Num sistema consensual, ainda que eivado de fisiologismo e corrupção, esse hipotético governante somente alcançaria sucesso se convencesse seus “aliados” que suas propostas são boas para a Democracia e para todos os atores políticos e não apenas um artifício oportunista para privilegiar seu partido na próxima eleição, num pleito no qual sua derrota apresenta-se como bastante provável.

Raciocinando em tese, declaro-me simpático ao regime parlamentarista com voto distrital puro. No entanto, observe caro leitor, como é complexa a situação de um analista que se debruça sobre temática tão complexa. Julgo que, para o regime majoritário funcionar no Brasil, teríamos que substituir o povo brasileiro pelo povo inglês e os partidos e políticos brasileiros pelos partidos e políticos ingleses.

Hipótese descartada; julgo que se puséssemos os mensaleiros na cadeia punindo o uso do caixa dois nas campanhas, e se aprovássemos apenas a cláusula de desempenho e o fim das coligações proporcionais, reduzindo o número de partidos a não mais que sete ou oito já estaríamos dando grandes passos para constranger a fisiologia e a corrupção que alimentam nosso sistema político.

Por uma nova política

Gaudencio Torquato
O Estado de SPaulo

Cada coisa no seu devido lugar. É bem razoável a hipótese defendida pelo analista político Luiz Inácio Lula da Silva, em artigo publicado pelo “New York Time”s, de que os protestos que ecoam em todos os espaços do território não sejam uma “rejeição da política”, para acrescentar que “sem partidos políticos não pode haver nenhuma democracia verdadeira”. Tem razão. Afinal, os atos que chegaram a colocar nas ruas cerca de 1 milhão de pessoas impregnam-se dos valores essenciais da política – a defesa da polis, o bem estar da coletividade – e constituem prova inequívoca da vitalidade do nosso sistema democrático. Daí a fechar com a ideia de que a onda de manifestações decorre, em grande parte, dos sucessos sociais, econômicos e políticos, alcançados na última década, ou seja, pelo PT, configura-se um rematado exagero. Como já foi exaustivamente demonstrado – até por farta cobertura de imagens de passeatas – não foram universitários, vindos de famílias pobres, os que, primeiro, acenderam as faíscas da fogueira social, mas grupamentos jovens de classe média tradicional, ao entorno de um Movimento por redução de tarifas de ônibus. Pode-se, até, dizer que as marolas formadas pela pedra jogada no meio da lagoa, ao chegarem às margens, atraíram os segmentos jovens da base da pirâmide.

A tese contrária à abordagem do ex-presidente se ampara no argumento de que os ganhos obtidos pelos contingentes periféricos – a partir dos 30 milhões de brasileiros que ingressaram na classe C – não tiveram contrapartida junto a núcleos da classe média tradicional, que viram expandidas as demandas nas estruturas de serviços públicos, sob a malha deteriorada dos sistemas urbanos, principalmente nas metrópoles. Se os milhares de jovens da classe média emergente passaram a ter carro e a viajar de avião e, consequentemente, a exigir mais, como lembra Lula, outros milhares da classe média tradicional “chutaram o pau da barraca” que acumulava suas demandas reprimidas. Vale lembrar que o poder de irradiação de ideias obedece a um movimento centrífugo, que costuma sair do meio para as margens. Também nascem no meio da pirâmide as locuções mais ácidas sobre deficiências nas áreas dos serviços públicos, o desprezo sobre os políticos e sua falta de compromissos, a par de uma cognição mais aguda sobre a corrupção generalizada. Donde se aduz que a abrangente movimentação social que se espraia pelo país foi aberta no centro da sociedade, não nas laterais como quer fazer parecer o maior líder do PT.

O ensaio de democracia direta, que temos assistido, não é, portanto, uma invenção da década petista, mas o desdobramento natural de uma crise que se arrasta, há décadas, e que tem como epicentro as fendas sociais abertas pela democracia representativa. Nesse ponto, é oportuno retomar os significados múltiplos dos protestos. Se não há uma rejeição à política, entendendo-se que, sem ela, fenecem os sistemas democráticos, carregam eles monumental repúdio à classe política. É inegável que, no pano de fundo das mobilizações de massa, lê-se um discurso contra formas obsoletas de se operar a política, compromissos não realizados, metas inalcançadas, educação defasada, violência desmesurada, equipamentos sucateados nos estabelecimentos hospitalares, ao lado de carimbos com os conceitos que mancham a fisionomia da representação: nepotismo, personalismo, caciquismo, fisiologismo. Eis o pântano de mazelas que os partidos costumam semear. Lula diz que o PT precisa aprofundar a renovação e “recuperar suas ligações diárias com os movimentos sociais e oferecer novas soluções para os novos problemas”. Tem razão. Reconhece que o partido se embalou na névoa moral que suja a imagem dos partidos, principalmente os grandes e médios. Ademais, o descalabro da esfera política ganhou, na era petista, forte impulso com a entronização do mensalão no altar parlamentar. No acervo de feitos (e desfeitos) do PT, não há como apagar aquela mancha, que, aliás, poderá respingar noutros entes, como o PSDB mineiro.

Líderes e partidos procurarão internalizar as lições que as ruas oferecem? Ou imaginam que, daqui a pouco, passado o calor das primeiras horas, as ondas que correm pelas avenidas de grandes e médias cidades tenderão a refluir? Se assim pensam, cometerão um erro comum ao agente político: achar que as coisas entrarão no baú do esquecimento. Esquecem que o copo transbordou. Atingimos o “ponto de quebra”. O país começou a fazer uma caminhada sem retorno. O povo quer dar um basta à empulhação. Ontem, era um povo descrente como um rio seco, um povo sem esperança como uma árvore desfolhada, sem viço e com a cor das coisas mortas. Hoje, são grupos que se mostram ativos, vivos, navegando nas águas caudalosas das mobilizações. Exibem vivacidade, dinamismo, determinação. Percebem que podem mudar o rumo das cidades e de suas próprias vidas. É a vibrante ascensão do que o sociólogo francês, Robert Lattes, chama de “autogestão técnica”. Significa que as pessoas sabem o que desejam, o ponto de chegada e os meios necessários para alcançá-lo. A expressão ganha força: o povo é dono de seu nariz. No contraponto, a imagem também popular é a de que o tempo do “Maria vai com as outras” dá adeus, fechando o ciclo da política de oportunistas.

São esses alguns sinais que haverão de contribuir para a formação de um perfil político mais atinente ao espírito do tempo, ou seja, capaz de capaz de atrelar a locomotiva da ética aos carros do trem da política. A chama ética poderá se transformar na chama a iluminar as reformas fundamentais que a sociedade clama, a partir da reforma política. O Brasil clama por partidos e agentes que desfraldem a bandeira de uma sociedade mais convivial. Sob o lema de um Estado muito perto da Nação.

Cármen Lúcia e o ‘clamor das ruas’

Elio Gaspari
O Globo

Na noite de quarta-feira, o consórcio de empresas que cuida da manutenção e do funcionamento das 500 mil urnas eletrônicas do país entrou com um pedido de prorrogação do seu contrato, vencido na véspera. Entre os muitos argumentos apresentados, mencionou “a voz do povo que clama por mudanças”.

Coisa interessante, o povo “clama por mudanças”, e os empresários do consórcio querem prorrogação por cinco anos, de um contrato de um ano que caducou. Coisa de R$ 120 milhões, o maior na área do Tribunal Superior Eleitoral.

Um dia antes do vencimento do contrato, a ministra Cármen Lúcia, presidente do TSE, recebeu o grupo de empresários e seu advogado. Mostrou-lhes um gravador e informou que a audiência seria formalmente gravada.

O consórcio, liderado pela empresa Engetec, sucedeu a outra, que faliu. Ele prestou à Justiça Eleitoral dois serviços. Um, regular, de manutenção das urnas, pelo qual seus técnicos verificavam as baterias e o funcionamento elementar dos equipamentos. Essa parte valia R$ 5 milhões. Na outra, de R$ 115 milhões — às vésperas das eleições — suas equipes conectavam as urnas, testavam o sistema e suas transmissões.

O advogado das empresas, Toshio Mukay, fez uma exposição demonstrando que, pela lei, um contrato que pode ser prorrogado, prorrogado deve ser. Valeu-se de 22 citações de 16 autores, inclusive ele próprio.

O consórcio não quer que o Tribunal abra uma nova concorrência. Ia muito bem a conversa, sobretudo porque pretendia-se prorrogar um serviço de manutenção das urnas que parecia contínuo. Cármen Lúcia ouviu a exposição, elogiou os autores citados e bateu de frente: “A Constituição manda licitar. (...) O próprio consórcio pode ganhar outra licitação. (...) A administração não quer e nem deixa de querer. (...) “[Ela] tem dever jurídico. Neste caso um dever constitucional de licitar. (...) Quando tem um contrato por prazo determinado, assim que acabar o contrato, tenho que fazer licitação.”

Mais: o contrato está sob investigação do Ministério Público.

O empresário Helon Machado, da Engetec, informou: “Renovar o contrato para nós hoje, pensando pelo lado do consórcio, não é... para nós o contrato é o de 2014, que nós vamos brigar, que é mais uma eleição.”

No decorrer da conversa ficou demonstrado pela ministra que havia dois serviços e que, a prevalecer o argumento (com o qual ela não concorda) segundo o qual deveria ser prorrogado o mais barato, o outro, com o filé, era episódico. Lá pelo terço final da audiência, veio a surpresa, trazida pelo advogado Mukay: “O outro não é contínuo? Então, não prorrogaríamos o não contínuo e prorrogaríamos o contínuo. Porque, se é contínuo, está dentro do que eu falei aqui; agora, se uma parte não é contínuo, e isso foi contestado pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Contas da União, então não pode conter no aditivo, retira essa parte, essa parte não prorroga, prorroga a outra parte. (...) Na verdade, estou voltando atrás no meu pensamento.”

Largar o filé e ficar com o osso? Passaram mais uns minutos e Machado disse ao advogado: “Eu posso até te explicar isso depois.”

E assim terminou a audiência. Se Cármen Lúcia não tivesse gravado o encontro ele poderia ter perdido sua natureza coloquial, e o povo que clama nas ruas por mudanças, talvez tivesse dificuldade para entender o “juridiquês” de uma versão formal. Com a gravação, só não entende quem não quer.

A base de Alcântara voltou para a agenda
Está na agenda de negociações da doutora Dilma com o companheiro Obama o tema da participação americana na base de lançamento de foguetes de Alcântara. Até 2000, os Estados Unidos mostraram interesse em operar na privilegiada localização da base, pela sua proximidade da linha do Equador. A FAB não gostava da ideia de criação de áreas restritas em seu território. À época, o PT foi um feroz adversário da iniciativa. Eleito, Lula matou a conversa.

O projeto de Alcântara é de 1983, já consumiu R$ 400 milhões, matou 21 cientistas e não serviu para lançamento relevante. Atualmente, patina numa parceria com a Ucrânia. (O programa espacial americano foi à Lua e a Marte, mas só matou 24 pessoas e um macaco.)

Pode ser boa ideia, mas vale lembrar que nos anos 50, quando JK permitiu que os Estados Unidos montassem uma base de rastreamento de mísseis em Fernando de Noronha, a charanga nacionalista assegurava que a operação resguardaria a soberania nacional na ilha.

Por baixo do pano, aceitaram um documento americano pelo qual alguns equipamentos ficariam fora da área de acesso dos brasileiros.

Com isso, um oficial brasileiro foi barrado ao tentar entrar numa sala. Quando o ministro da Guerra, Henrique Lott, quis empunhar uma causa nacionalista em torno da proibição, o caso foi ao Estado Maior do Exército, e o coronel encarregado do assunto respondeu:

“Tais restrições foram aceitas por Vossa Excelência”.

Ele se chamava Ernesto Geisel.~

O óbvio
Na discussão em torno da eventual candidatura de Lula à Presidência há dois fatos óbvios:

1) Ele ficará no banco, vendo o seu time seguir para o cadafalso?

2) Se ele resolver entrar em campo, quantos minutos Dilma Rousseff demorará para ir ao vestiário? Cinco? Dez?

No imaginário petista está a final do Brasil x Rússia de vôlei masculino da Olimpíada de Londres. No fim do terceiro set o técnico russo botou Dmitriy Muserskiy na quadra. Perdera dois sets, e o Brasil precisava de um só ponto para liquidar a fatura. Nada feito.

Haddad e a Viúva
O prefeito Fernando Haddad esclarece que o dinheiro da reforma do autódromo de Interlagos virá do PAC Turismo, “vale dizer, recursos federais”. (A obra sairá por R$ 161 milhões à Viúva. O custo anual da redução da tarifa de transportes públicos, contra a qual Haddad lutou como um gladiador vândalo, será de R$ 175 milhões.)

O comissário deve achar que os “recursos federais” do PAC Turismo saem da bolsa de Farah Diba, viúva do Xá do Irã.

Pista limpa
A sucessão do Rio de Janeiro pode embaralhar de vez. O grande eleitor Sérgio Cabral voava com a imponência do Zeppelin Hindenburg chegando a Nova York em 1937. (Carbonizou-se ao pousar.) Candidato oficial, o vice-governador Pezão não consegue decolar.

Já o petista Lindbergh Farias será submetido a uma barragem de denúncias relacionadas à sua administração na prefeitura de Nova Iguaçu. Arrisca ficar preso na malha da Lei da Ficha Limpa.

Luminares e gênios sem a menor chance

Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

O número de ministérios nada tem a ver com a qualidade dos ministros. Fossem 39 gênios, luminares e cidadãos  dotados de saber e experiência excepcionais e certamente o governo iria bem melhor do que anda. O problema que leva tanta gente a pedir a redução dos ministérios tem muito mais a ver com a qualidade dos titulares. Não é por serem tantos que se prega a sua redução,mas, com todo o respeito, por não serem as pessoas certas nos lugares certos. Entregar ministérios aos partidos da base parlamentar oficial, com as exceções de sempre, pode ser próprio do sistema parlamentarista, onde o governo é uma extensão  do Congresso. No presidencialismo, apesar de harmônicos, mas nem sempre, os  poderes são independentes. Ou deveriam ser.

Vai um desafio ao leitor, não apenas o cidadão comum, mas a quantos por dever de profissão deveriam conhecer o ministério: quem será capaz de escrever, sem colar, o nome dos 39 ministros e suas respectivas pastas?   Nem eles, talvez nem a presidente Dilma, se for indagada de surpresa.

Importa evitar o constrangimento de citações nominais para os desconhecidos,  valendo a ressalva de que alguns ministros, por sua capacidade ou por estarem constantemente no noticiário, são conhecidos de todos. Guido  Mantega, da Fazenda, por exemplo. Aluizio Mercadante, por haver-se tornado  uma espécie de coringa do palácio do Planalto.  Mais uns poucos. A maioria cai na vala comum do esquecimento. Alguns, até, só conheceram o gabinete presidencial no dia de sua nomeação, logo depois condenados ao ostracismo administrativo.

Dias atrás a presidente Dilma quis uma radiografia de sua equipe. Através de determinados critérios, fez com que cada ministério fosse classificado em termos de eficiência,  com notas de 1 a 7. Aliás, escala meio estranha, que só ela saberá definir, porque faz séculos que as notas são dadas de 1 a 10. Freud explicaria, mas o importante a ressaltar da tomada de posições feita por restrito grupo de seus auxiliares, mais as respostas enviadas por seus ministros, apenas um ministério alcançou a nota 7.  No caso, foi o  das Minas e Energia, ocupado pelo senador Edison Lobão, que não faz muito tempo viu-se cobrado pela eclosão de alguns apagões, mas recuperou-se.

Não faz sentido a “recomendação” do presidente da Câmara, pela redução de 39  para 25 o  número de ministérios.  O Congresso pouco tem a ver com isso e Henrique Eduardo Alves faria cara feia se a presidente da República criticasse a existência de tantas comissões técnicas preenchidas por deputados. Vale a ressalva inicial: se fossem 39 competentes ministros, cada um apresentando grandes realizações e conquistando a admiração nacional, nem por um minuto se estaria falando da redução. É o conjunto de nulidades que desperta as propostas de diminuição do número.

Choca a opinião consciente do país a prática de que determinado partido, em troca de seu apoio parlamentar, nem sempre cumprido à risca,  tem direito a um ministério. Qual não importa, será aquele que estiver mais à mão ou com seu titular menos cotado, depois de muita inoperância. Troca-se, porém, o seis pelo meia-duzia, não sendo oportuno, também, dar exemplos fulanizados.

Em suma,  não será agora que a presidente Dilma  promoverá uma reforma ministerial. Só quando os ministros candidatos às eleições de 2014 começarem a desincompatibilizar-se para dedicação exclusiva às suas campanhas para governador, deputado ou senador. Seria então a oportunidade de Dilma chegar à ante-sala do segundo mandato, se  vier a recuperar sua popularidade, compondo um ministério de verdade, formado pelos melhores em cada setor de atuação, sem considerações partidárias ou sucedâneos.

Ficará, no entanto, a contradição: quantos votos no Congresso terão esses luminares e gênios?   Pode ser que  nenhum, fator a indicar o mesmo nó em que se meteu o governo do PT, de novo com a ressalva de que a má previsão só se verificará no caso da reeleição. Mas não seria diferente na hipótese da vitória de algum candidato da oposição, também necessitado  de fazer maioria no Congresso. Até se o indicado vier a ser o ex-presidente Lula, não muda nada. Foi ele que inaugurou a moda de trocar ministérios pelo apoio de partidos…

Pra que discutir com Madame

Kátia Abreu
Folha de São Paulo

É urgente decifrar o enigma do semiárido brasileiro, área coberta pela caatinga, que só existe no país

O refrão do samba de Haroldo Barbosa e Janet Almeida - especialmente se cantado por João Gilberto, para mim, extraordinário - resume a premissa essencial das medidas econômicas baixadas para enfrentar a seca calamitosa que, nos últimos dois anos, castigou a agricultura do semiárido nordestino: "Pra que discutir com Madame?".

No nosso caso, indagaria "pra que discutir com a Natureza?", senhora muito caprichosa e que deve ser seduzida com imaginação e precisão. Jamais com improvisação ou prepotência.

Esse raciocínio não representa conformismo. Pelo contrário. É urgente decifrarmos o enigma do semiárido brasileiro, área coberta pela caatinga, bioma que só existe no Brasil.

Diferentemente de outras regiões semelhantes mundo afora, aqui a seca nem sempre é sucedida pela normalidade de uma estação generosa. É isso que nos condena à frustração de safras perdidas e à desorganização econômica e social de milhões de brasileiros.

Diante da inclemência da seca, pouco se divulga que o semiárido brasileiro é a região que registra o maior volume de chuva se comparada a outras áreas semelhantes do planeta, que enfrentam as estiagens sem trauma e produzindo de forma mais regular.

Pela lógica dos contrastes, que tanto excita a curiosidade humana, se em regiões similares outros povos encontraram formas de conviver com a sazonalidade meteorológica que nos aflige, por que estamos condenados ao vexame de secas sucedidas por graves crises no nosso Nordeste?

A resposta, certamente, virá de uma conjunção multidisciplinar. Temos agrônomos, economistas, meteorologistas, geógrafos e tantas mais categorias de especialistas, todas capazes de intervir na realidade.

E temos a Embrapa Semiárido, com certeza capaz de liderar esse time e indicar formas eficazes de retirarmos, definitivamente, o semiárido brasileiro do índex das regiões mais indecifráveis do mundo.

Com o novo PAP (Plano Agrícola e Pecuário) do Semiárido, este governo avançou no rumo de outros países que venceram desafios climáticos semelhantes.

Já era hora de ir além dos lamentos em razão dos períodos de estiagem que fragilizam 22,5 milhões de nordestinos, distribuídos em área equivalente a 10% do território nacional, que abrange 1.135 municípios dos nove Estados da região.

Ainda assim, não há como não acudir o sertanejo judiado pela estiagem com medidas de emergência. Por isso, nada mais justo do que a suspensão da execução de dívidas e a fixação de novos prazos para o pagamento de compromissos assumidos e não cumpri- dos, em razão da inclemência da natureza.

Dessa forma, a MP 610, aprovada anteontem pelo Senado, complementa o PAP do Semiárido e nos renova as esperanças.

A MP acudiu mais de 500 mil famílias de agricultores atingidos pela seca, possibilitando a liquidação ou a renegociação de suas dívidas.

Mais do que o necessário alívio financeiro, o que agora anima o produtor nordestino é essa inédita orquestração de setores governamentais na busca de uma política integrada para o semiárido.

Nessa orquestração, está presente a preocupação com o acesso às tecnologias disponíveis e com a capacitação dos agricultores e pecuaristas.

Para viabilizar o acesso às tecnologias, a presença efetiva do governo se faz fundamental. Afinal, são necessários investimentos mais altos do que o valor da terra.

E, para bem compreender a relevância do aporte tecnológico ao sistema produtivo, dele tirando o melhor proveito, é necessário que se tenha a capacitação adequada.

A contribuição da CNA para esse novo olhar dirigido ao produtor nordestino é o programa Sertão Empreendedor, formulado em parceria do Senar com o Sebrae.

Esse programa estimula o planejamento, uma nova forma de gestão e a adoção de tecnologias voltadas ao semiárido.

O projeto-piloto está sendo desenvolvido em seis cidades da Paraíba e será estendido aos nove Estados da região.

Há caminhos para produzir e viver bem no nosso Nordeste, ora seco e inóspito, ora verde e abençoado.

Agenda positiva de Renan: incertezas e trabalho pela metade

Marcela Mattos
Veja online

Ao decretar o recesso parlamentar, presidente do Senado deixou pendente uma série de propostas que correm o risco de serem vetadas pela presidente

(Lia de Paula/Agência Senado) 
Calheiros prometeu votar matérias antes do recesso parlamentar 

“Todos os projetos a que me referi anteriormente serão votados nos próximos dez ou quinze dias e não haverá recesso até que esgotemos totalmente essa agenda que é urgente para o Brasil e, portanto, prioritária para o Congresso Nacional.” – Renan Calheiros, em 25 de junho

No último dia 25, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), subiu à tribuna para fazer um de seus principais pronunciamentos desde que assumiu o comando da Casa: anunciou uma lista de promessas a serem votadas antes do recesso de julho, sob a ameaça de os parlamentares perderem o descanso caso o prazo não fosse cumprido. Os congressistas entraram de férias nesta semana, mas a “agenda positiva” criada em resposta ao clamor das ruas não decolou: algumas propostas correm o risco de serem vetadas pela presidente Dilma Rousseff, e outras ainda aguardam consenso entre os parlamentares.

Além disso, a imagem do Legislativo também foi chamuscada com a revelação de que Renan e o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), usaram aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) para compromissos particulares. Na Câmara, Alves ainda gastou quase 30 000 reais dos cofres públicos para bancar um jantar de confraternização do PMDB.

Após a série de protestos por todo o país, o Senado se apressou para fugir da mira dos manifestantes: prometeu, entre as principais propostas, transparência na atuação dos senadores, maior punição a crimes de corrupção, gratuidade do transporte público para estudantes e mais recursos para a saúde e a educação. 

Em menos de um mês, o plenário da Casa trabalhou em ritmo acelerado para apreciar as promessas de Renan, com direito a sessões de segundas e sextas-feiras, dias em que os parlamentares costumam estar fora de Brasília. Como resultado, foram aprovadas em plenário oito propostas que atendem às reivindicações das ruas, como a exigência de ficha limpa para servidores públicos.

Apesar do alarde com os avanços nas últimas semanas, nenhuma das mudanças está em vigor. Dependem, ainda, de aval da Câmara dos Deputados ou de sanção da presidente.  

Trabalho incompleto – 
A promessa de Renan ficou pela metade. Muitos projetos esbarraram no curto prazo para votação diante da pretensiosa e extensa lista do presidente do Senado e no fato de que algumas propostas, apesar de alardeadas, ainda estarem em desenvolvimento.

Principal medida anunciada pelo senador alagoano, o projeto do transporte público gratuito para estudantes sequer existia quando foi anunciado em plenário – e ainda depende de outra votação para ser concluído. Falta a aprovação da nova lei de distribuição dos royalties do petróleo – tema que promete mais uma batalha na Câmara dos Deputados –, já que a ideia de Renan é que os recursos do passe livre sejam garantidos por meio dos royalties da educação. Ou seja: ninguém ainda sabe quanto o pré-sal vai render para a educação e tampouco qual o impacto financeiro da proposta.

Para camuflar a impossibilidade de avanço do passe livre neste momento, o plenário se adiantou e aprovou a urgência do projeto – uma forma apenas de acelerar a tramitação, ao ser excluída a necessidade de análise dentro das comissões. 

“Eu daria nota dez para a alegoria, com duas semanas de trabalho direto, mas nota quatro para o enredo. Faltou um pouco mais”, afirmou o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP). Ele citou a conclusão do projeto do fim do voto secreto e a cassação imediata do mandato de parlamentares condenados como exemplos de projetos de “temas candentes” que não obtiveram avanço na Casa. “Eu espero que essas matérias não sejam novamente engavetadas”, completou. 

Maquiagem – 
Com o objetivo de maquiar a quantidade de pendências da pauta positiva, foram adicionados ao cardápio de projetos apreciados pelo Senado temas que já estavam programados para serem votados, como o repasse do Fundo de Participação dos Estados (FPE), ou que não estavam na pauta prioritária das manifestações, como a criação do Sistema Nacional de Combate à Tortura.  

“É falsa a expressão de que o Senado Federal cumpriu o dever de casa votando matérias de interesse nacional. É falsa, igualmente, a sensação de dever cumprido”, avaliou o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) durante discurso na tribuna, após Renan não ter cumprido a pauta que apresentou. “É mentira dizer que as coisas estão sendo feitas de maneira correta, com espírito público. É pura lorota”, continuou. Ele criticou o fato de a sua Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre a perda imediata do mandato dos parlamentares condenados não ter entrado em votação no plenário e afirmou que o Senado estava “sentando” sobre uma proposta moralizadora. 

Além de os principais pontos terem ficado apenas na promessa, outros foram apresentados sem qualquer consulta ao Palácio do Planalto – mais uma evidência de que faltou planejamento no trabalho do Senado.

A presidente Dilma Rousseff já sinalizou que vetará parte dos projetos, como o passe livre para estudantes e o fim da multa de 10% sobre o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) – que já foi aprovado na Câmara e ainda aguarda votação dos senadores –, pelo impacto nos cofres públicos. 

O que ficou pendente:


1. • Plano Nacional de Educação, que destina 10% do PIB para o setor
2. • Carreira de estado para médicos, para atuarem exclusivamente no Sistema Único de Saúde
3. • Passe livre estudantil, que prevê a gratuidade do transporte público para estudantes
4. • Fim do voto secreto em votações
5. • Fim do foro privilegiado para parlamentares
6. • Fim do auxílio-reclusão para detentos
7. • Destinação de 10% da receita bruta da União para a saúde
8. • Redução a zero das alíquotas do Pasep para estados e municípios
9. • Instituição do Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas, que aumenta a pena de traficantes
10. • Endurecimento dos crimes de homicídio, não permitindo que os criminosos possam responder em liberdade
11. • Destinação de 10% da receita bruta da União para a saúde
12. • Mudança do indexador das dívidas estaduais
13. • Rediscussão do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços
14. • Vinculação de receitas líquidas da União, estados e municípios para a segurança pública, por um período de cinco anos