segunda-feira, maio 04, 2020

Brasil precisa conter o autoritarismo presidencial

Comentando a Notícia

Bolsonaro já não teria atravessado a linha da bola várias vezes, general?


Chega a ser surreal, mas o Brasil é o único país em que o coronavírus tem torcida a favor. Dá para acreditar nisso? Pois, os tais seguidores e simpatizantes do Bolsonaro, o Escroto, formam este imenso exército de apoiadores do vírus e incentivadores da doença e da morte.  Como afirmei em texto anterior, não basta ser irresponsável, precisa ser insano. E agora, precisa ser ignorante na máxima potência. 

Não é de hoje que Bolsonaro – O Escroto, e sua Falange de Malignos – Carlos, Eduardo e Flávio -, tentam de todas as formas criar atritos entre as instituições, muitas vezes para encobrir lambanças que eles próprios protagonizaram É a tal história do “fato novo”, mas sempre em todas as crises produzidas por esta quadrilha de milicianos políticos, o objetivo foi jogar a sociedade contra os poderes constituídos – Judiciário e Legislativo e de contrapeso a Imprensa – num desejo mórbido de justificarem um golpe de Estado através de uma intervenção militar. 

Teoria da conspiração? A conspiração é de Bolsonaro e sua Falange de Malignos contra o país e sua democracia. Basta ver estes manifestantes que saem às ruas apoiando qualquer ruptura institucional desde que, ao fim e ao cabo, o Brasil continue sob o comando de Bolsonaro – O Escroto.

A leitura é simples. As convocações para as manifestações é feita, sempre, através das redes sociais. E esta convocação é comandada pelo tal gabinete de ódio, instalado no Palácio do Planalto sob o comando do tal “Carluxo”, um dos malignos. Mas esta figura patética e estúpida não dispara apenas convocações para protestos de rua, também comanda uma imensa rede de detratores e perseguidores aos adversários do seu pai, ou a qualquer ser que ousar divergir das opiniões e ideias do pai escroto. 

Já adverti várias vezes para o fato do Ministério Público manter-se distante de uma obrigatória investigação com dura punição para os integrantes deste tal gabinete. Sabemos que todos os Malignos, com autorização do Pai Escroto, ditam as ações desta campanha odienta. De outra parte, a Polícia Federal já desembaraçou parte do esquema e sabe quem o comanda. E o Congresso manteve a prorrogação da CPI das fake News, o que deixou a Falange dos Malignos irritadíssima, E esta foi uma das razões do destempero do Bolsonaro, O Escroto, irritando-se a ponto de pedir a cabeça do superintendente da PF, forçando Moro a demitir-se. 

Claro que todas estas ações espúrias tanto do presidente quanto de seus rebentos, acabarão se tornando venenos contra eles próprios.  Nos tempos atuais, não se pode agir impunemente em favor de uma ruptura institucional patrocinadora de um golpe de Estado nos moldes como estamos assistindo. Apesar dos pesares, as instituições democráticas estão funcionando a pleno.

Parece que Bolsonaro quer repetir no Brasil as mesmas estratégias protagonizadas por Hugo  Chavez na Venezuela. Piada? Não, basta ler o passado de um e comparar com o presente de outro para rapidamente localizarmos as similaridades. Não faltam, como temos visto mais recentemente, fantoches teleguiados para agirem às cegas, partindo até para a violência, constituindo-se  nos milicianos estúpidos que tudo fazem em favor do “mito”.    

Nas patifarias de domingo, quando uma equipe de reportagem do “Estadão” foi covardemente agredida por fanáticos pervertidos, seguidores do Escroto, ao invés de se solidarizar com os agredidos, o Escroto preferiu desferir ameaças ao Estado de Direito colocando as Forças Armadas como escudo para a sua estultice.  Não é apenas a apresentação dos exames sobre o coronavírus que a Justiça deveria autuar  Bolsonaro, mas também exigir que ele seja submetido a exames psiquiátricos. 
Assim como o Ministério Público deve agir contra o tal Gabinete de Ódio, também as Forças Armadas devem uma nota oficial dura e incisiva em defesa do estado de direito democrático, as instituições e poderes constituídos e condenando, de forma firme, toda e qualquer tentativa de ruptura institucional ou aventura golpista. 

Bolsonaro, questionado sobre as agressões aos jornalistas, saiu-se com esta canalhice: “Não vi. Se houve foi coisa de infiltrados”. Infiltrados uma ova! Todos que ali estavam eram seguidores do escroto. E, como se nota, a turma do Bolsonaro copia a mesma violência que a turma do PT praticou durante anos. A diferença é só o lado. A ignorância e a estupidez são as mesmas 

Se alguma intervenção for necessária para colocar ordem no terreno, que seja a de invadir o Planalto, desalojar o Escroto amarrado em camisa de força e interna-lo em um manicômio para tratamento. Que assuma, em seu lugar o vice, general Mourão, a quem deixo uma pergunta final: Bolsonaro já não teria atravessado a linha da bola várias vezes, general?

Profissionais do Estadão são agredidos com chutes, murros e empurrões por apoiadores de Bolsonaro, que endossou.

Redação,
 O Estado de S.Paulo

Fotógrafo Dida Sampaio registrava imagens do presidente em frente à rampa do Palácio do Planalto quando foi atacado


BRASÍLIA - Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro agrediram com chutes, murros e empurrões a equipe de profissionais do Estadão que acompanha uma manifestação pró-governo realizada neste domingo, 3, em Brasília. O fotógrafo Dida Sampaio registrava imagens do presidente em frente a rampa do Palácio do Planalto, na Esplanada dos Ministérios, numa área restrita para a imprensa quando foi agredido. 

Sampaio usava uma pequena escada para fazer o registro das imagens quando foi empurrado duas vezes por manifestantes, que desferiram chutes e murros nele. O motorista do jornal, Marcos Pereira, que apoiava a equipe de reportagem também foi agredido fisicamente com uma rasteira. Os manifestantes gritavam palavra de ordem como “fora Estadão”. 

 Fotógrafo do Estadão Dida Sampaio é impedido de registrar imagens do presidente Jair Bolsonaro; manifestante de camisa azul agride verbalmente o fotógrafo,  o chamando repetidas vezes de ‘lixo’ por trabalhar no Estadão e incita demais apoiadores do presidente a não permitirem que o repórter faça seu trabalho, colocando as mãos na frente da câmera. A partir deste episódio, o fotógrafo sofreu agressões físicas Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Os dois profissionais precisaram deixar o local rapidamente para uma área segura e procuraram o apoio da polícia militar. Eles deixaram o local escoltados pela PM. Os profissionais passam bem. O repórter da Folha de S.Paulo Fabio Pupo também foi empurrado ao tentar defender o fotógrafo do Estado. Os repórteres do Estado Júlia Lindner e André Borges, que também acompanham a manifestação para o Estadão, foram insultados, mas sem agressões.  

Milhares de pessoas se reúnem na Esplanada dos Ministérios convocadas num ato estimulado pelo presidente. A ação ocorre após o ex-ministro Sérgio Moro prestar depoimento no inquérito aberto pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar denúncia feita por ele de que o presidente Bolsonaro utilizou o cargo para tentar ter acesso a investigações sigilosas da Polícia Federal.


Fotógrafo do Estadão Dida Sampaio é um empurrado por um dos manifestantes da escada que usava para registrar as imagens do presidente Jair Bolsonaro; fotógrafo relata que recebeu o empurrão na altura da cintura, do lado direito. Dida, que bateu a cabeça ao cair no chão, continuou sendo hostilizado pelos manifestantes, mas um grupo o ajudou a se levantar Foto: Ueslei Marcelino/Reuters
Bolsonaro desrespeitou todas as normas de saúde pública ao participar da manifestação. Sem máscara, desceu a rampa do Planalto e deu uma volta em todo alambrado. O desrespeito as medidas de segurança por causa do novo coronavírus é generalizado entre os apoiadores do presidente. Assim como o presidente, grande parte da população não usa máscara. 

Entre os gritos contra Maia e ministros do STF, os manifestantes também se posicionaram contra a imprensa. Em certo momento, parte deles começou a gritar "Globo Lixo" e partiu contra profissionais da imprensa. Neste momento, a alguns metros de distância, o presidente Jair Bolsonaro foi avisado por um auxiliar que os profissionais da TV Globo estavam sendo expulsos. Diante da informação, Bolsonaro não repreendeu a atitude e endossou críticas a emissora. "Pessoal da Globo, vem aqui para pegar um cara ou outro falar besteira. Essa TV realmente foi longe demais", comentou durante transmissão ao vivo nas redes sociais.

 Fotógrafo do Estadão Dida Sampaio pede aos manifestantes que o deixem trabalhar; neste momento, ele tem o braço segurado por um dos apoiadores do presidente; a imagem mostra um manifestante com punho cerrado Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Vencedor de dois prêmios Esso e três Vladimir Herzog, Dida Sampaio trabalha no Estadão desde 1994. Do exato ponto da Praça dos Três Poderes em frente ao Palácio do Planalto onde foi agredido por bolsonaristas, ele já congelou as tradicionais subidas pela rampa dos presidentes eleitos - Fernando Collor (1990), Fernando Henrique (1995 e 1999), Luiz Inácio Lula da Silva (2003 e 2007), Dilma Rousseff (2011 e 2015) e Jair Bolsonaro (2019) - e de visitantes internacionais, como Bill Clinton (1997), Nelson Mandela (1998),  papa João Paulo II (1991) e Barak Obama (2011).

 Fotógrafo do Estadão Dida Sampaio é agredido com chute e soco no estômago e deixa o local sob escolta da PM    Foto: Reprodução

O paradoxo de Bolsonaro

Demétrio Magnoli
O Globo

O cenário é sombrio para o presidente da ‘gripezinha’

Meio a meio, duas vezes. A pesquisa Datafolha realizada na esteira da demissão de Sergio Moro indicou 45% favoráveis à deflagração de processo de impeachment e 48% contrários. O instituto também registrou queda de apoio ao isolamento social, agora em 52%, contra 46% que querem a “volta ao trabalho”. Paradoxalmente, a mesma emergência sanitária que precipitou a crise do governo mantém Bolsonaro à tona — e não apenas porque impede manifestações públicas.

O cenário é sombrio para o presidente da “gripezinha”. O “estado de guerra”, como regra universal, dá coesão às sociedades em combate ao “inimigo comum”. Pelo mundo afora, os governos ganham popularidade na emergência do coronavírus. O Brasil, onde metade dos eleitores pede a adição de uma crise institucional à crise da pandemia, é a única saliente exceção.

Moro entrou em confrontação letal com Bolsonaro, cindindo a coalizão política e social de sustentação do governo. O ex-juiz, ex-ministro e sempre candidato leva ao campo de batalha o “Partido dos Procuradores”, duas legendas parlamentares (PSL e Podemos) e uma camada de eleitores incensados pela narrativa da luta contra a corrupção. Segundo o Datafolha, 52% avaliam que, no intercâmbio de acusações, a verdade está com Moro, contra escassos 20% de crentes na palavra presidencial.

Mas os números são caprichosos, solicitando leitura mais sofisticada. O governo mantém apoio de 33% dos eleitores, e o desempenho de Bolsonaro na crise sanitária tem o aplauso de 27% e uma resignada aceitação de outros 25%. Vitória na derrota: o presidente resiste, ainda sem ventilação mecânica. A solução do mistério encontra-se na dependência e nos sofrimentos impostos pela emergência sanitária, subestimados entre analistas que fazem quarentena com vista para o mar. 

Dezenas de milhões começam a receber os esquálidos, mas vitais, R$ 600, que levam a assinatura oculta do presidente. Cinco milhões de trabalhadores formais já perderam seu empregos ou experimentam cortes salariais. Multidões de comerciantes assistem, impotentes, à destruição de negócios que garantem a renda familiar. Cumpre não confundir essa vasta parcela da população com o núcleo militante bolsonarista, que reage a estímulos ideológicos extremistas.

O apelo da “volta ao trabalho” cala fundo no Brasil que não pratica o nobre esporte do home office. Uma sondagem conduzida pelo cientista político Carlos Pereira e publicada no “Estado de S. Paulo (20/4) mostra nítida correlação positiva entre apoio às ações de Bolsonaro na pandemia e a vivência de prejuízo econômico pessoal. O medo de um vírus de consequências incertas atenua-se diante da certeza da perda de meios dignos de subsistência.

A cláusula de exceção, detectada pela sondagem, é o conhecimento direto de pessoa que faleceu sob a Covid. Dois terços dos óbitos no Brasil concentram-se em cinco regiões metropolitanas. Num país de 217 milhões de habitantes, quase ninguém conhece algum dos mais de 7 mil mortos, especialmente em milhares de cidades do interior.

Bolsonaro não perde eleitores, mas os substitui. Saem os admiradores incondicionais do xerife da Lava-Jato. Entram os órfãos da quarentena, espalhados social e geograficamente. Qualificá-los como ignorantes ou incultos nada revela sobre eles. Diz muito, porém, sobre a bolha de classe que delimita o olhar dos analistas. 

“Não vão botar no meu colo uma conta que não é minha”, reclamou Bolsonaro, referindo-se à sinistra contabilidade das mortes. O presidente, que não se descolou de Trump tanto assim, cobra de outros a dívida do emprego mas recusa a fatura dos óbitos. Ele nem simula governar, operando como agitador de rua. De um lado, clama contra os governadores e provoca aglomerações. De outro, abstém-se de usar suas prerrogativas para reabrir escolas federais ou liberar acesso às praias e parques nacionais — e seu novo ministro da Saúde jura respeito às determinações estaduais de isolamento social.

A curva da Covid no Brasil tem a forma de um morro em meia-laranja. Já a curva de nossa epidemia política vai adquirindo as feições dramáticas de um Everest.

Carlos José Marques
Revista ISTOÉ

(Crédito: Divulgação)


E daí que o sujeito que eu queria na direção da Polícia Federal é amigo do meu filho? Posso interferir, sim, na PF. Quero interferir sim. Pedi, quase supliquei relatos diários da polícia e o Moro não deixou. Quero uma pessoa do meu contato pessoal, com a qual possa colher informações, relatórios de inteligência. A lei não deixa, e daí? Jair Bolsonaro, que sempre fez pouco caso da jurisprudência constitucional brasileira e que banaliza a prática de crimes de responsabilidade como quem vai até a esquina comprar pão, confunde gestão pública com negócio de família. Pensa que a polícia judiciária é uma espécie de guarda presidencial que lhe deve prestar vassalagem. Não apenas interferiu — e nem precisa buscar mais provas disso — como também se orgulha de dizer de própria voz que o fez. 

Em um pronunciamento estrábico, desconectado da lógica e da realidade, admitiu dias atrás não ver nada de errado em seus pedidos à PF. Usou efetivamente os serviços da corporação como uma espécie de milícia particular, mandando apurar assunto, sem a menor relevância, da família da namorada do filho 04 — aquele que saiu com meio condomínio. Não entende — ou nem quer saber — da autonomia legal da instituição. Vieram provas de que pediu a cabeça do titular do órgão porque ele estava na cola de deputados bolsonaristas — para o mandatário, uma petulância do profissional que deu assim mais um motivo para sair —, e ele recorreu de novo ao questionamento, como contraponto à insinuação de tentativa de meter a cunha indevidamente: é interferência política sim, e daí? 

Disse diretamente a Moro. Bolsonaro, que adora um confronto e exibições de valentia tresloucada, parece encantado com o vocábulo provocativo “e daí?”, e o repete a torto e à direita, como sacada para momentos distintos. Aqui no Brasil é o capitão caudilho no comando. Não gostou. E daí? Vai peitar? Cuidado. O bravateiro de um milhão de mentiras é capaz de tudo. Até de falsidade ideológica, como acabou praticando ao usar, calculadamente, e sem autorização, a assinatura eletrônica do ex-ministro Moro no comunicado do Diário Oficial que tratava do desligamento do subordinado da PF. Prática fraudulenta? E daí?

Confrontado com os números dramáticos de vítimas fatais da pandemia, que não param de subir, voltou a reagir da maneira mais bestial que um ser humano poderia em ocasiões como essas. No dia em que a taxa de mortalidade atingiu o estrondoso ritmo de quase 500 mortos em 24 horas — o equivalente a queda de dois boeings simultaneamente —, extrapolou no descaso. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagres”, disse entre risadas da claque dos cegos seguidores. As palavras foram essas mesmas, por mais abomináveis que elas possam parecer. 

Jair Messias Bolsonaro deu o tom das preocupações que reserva para com a população sob o seu comando. Você entregaria o destino de um único familiar seu nas mãos de um sujeito como esse? Reflita. Pense nos milhares de familiares que estão agora órfãos de seus entes queridos e imagine um País como o nosso dirigido pelas mãos desse inconsequente. Tempos atrás fez uma “live” onde garantia que as mortes totais por Covid-19 não passariam de 800 em todo ano. Em menos de dois dias a taxa foi rompida. Eis a habilidade de quem não sabe nem o que dizer. Bolsonaro é incapaz de governar e de oferecer alento e respostas efetivas de ajuda, anarquiza a cena política, deixa-se fotografar aos sorrisos praticando tiro ao alvo, enquanto brasileiros tombam nos hospitais às centenas e milhares. “E daí?”, é isso mesmo presidente?

 O chefe da Nação, que desde sempre fez pouco caso da pandemia, que a tratava como uma mera “gripezinha”; que desdenhou das vítimas, alegando “fazer parte”; que brincou de manifestações e incitou carreatas insanas pelas ruas do País enquanto encenava visitas públicas politiqueiras a padarias e farmácias, querendo estimular a quebra do isolamento, só sabe dizer “e daí? Fazer o que?”.
Não é mais mero caso de impeachment para uma figura desse calibre. O justo mesmo seria um julgamento como genocida no Tribunal Internacional Penal, em Haia, por crimes contra a humanidade, para ser trancafiado atrás das grades. A ONU acaba de fazer denúncias formais nesse sentido, acusando o governo do presidente de colocar em risco milhares de vida, por meio do que os seus relatores chamam de “políticas irresponsáveis”. E são mesmo. Um chefe de Estado que se propõe a minimizar o drama em torno da catástrofe, que não faz um único gesto de reação prática, ou mesmo de solidariedade; que estimula o contágio realizando movimentações públicas e discursos de incentivo ao rompimento da quarentena, deveria ser enquadrado na condição de criminoso sem direito à fiança. 

Surpresa alguma para quem teve o cuidado de acompanhar a trajetória e os devaneios de quase três décadas de política baixo clero do capitão. O homem que saúda a ditadura, classifica torturadores de heróis e prega a montagem de uma guerra civil para matar por aqui “uns 30 mil” pobres; que é, além de tudo, a favor de fuzilamentos e ameaça mulheres de estupro, não poderia reagir diferente. Bolsonaro encarna aquela figura para quem a lógica da máquina pública deve servir ao seu interesse e uso pessoal. Defende os privilégios de servidores, por ser um deles, com unhas e dentes, e, quando era parlamentar, embolsava o auxílio-moradia mesmo contando com apartamento próprio na Capital Federal. Dedica-se agora a acordos com o Centrão para angariar apoio a sua permanência no poder, enquanto entrega verbas e cargos comprando a base de sustentação. É abjeto nas escolhas.

Quer esvaziar inquéritos-bomba e as provas coletadas até aqui contra seus filhos, do laranjal no esquema de rachadinhas de Flávio ao da máquina de ódio, fabricante de fake news, de Carluxo,ao mesmo tempo em que vai destituindo, um a um, os valorosos quadros do seu gabinete. O ministro da Saúde, Luiz Mandetta, foi posto para fora porque não aceitava ir contra as orientações da Organização Mundial da Saúde na guerra à Covid-19. A equipe econômica do czar Paulo Guedes vai sendo desmoralizada com um plano biruta de gastos, batizado de Pró-Brasil, que empurra o “Posto Ipiranga” para o cadafalso. Teresa Cristina, titular da Agricultura, já entrou na frigideira porque criticou os ataques bolsonaristas à China, maior cliente do agro brasileiro, e o herói nacional Moro foi posto a correr da Justiça, chamado de desleal, mentiroso e oportunista. Logo ele! 

Restarão vivos e intocáveis os ministros ideológicos para quem o planeta está sob constante ameaça de fantasmas comunistas, seja lá o que isso quer dizer. No mundo das carochinhas talvez a lorota funcione. No mundo real, a liderança (que nunca existiu) de um certo capitão é sinônimo de ignorância, inabilidade e despreparo. Que o Supremo e o Congresso entendam o momento e busquem dar um fim nessa cruzada insana. Antes que não haja mais volta.

Pandemônio

Miguel Reale Júnior, 
O Estado de S.Paulo

Comportamentos de Bolsonaro indicam possível anormalidade de personalidade

Em entrevista ao programa Câmera Aberta, da Band, em 1999, Bolsonaro, indagado se, caso fosse presidente, fecharia o Congresso, respondeu: “Não há a menor dúvida. Daria golpe no mesmo dia”. Nessa entrevista defendeu a tortura e disse que o Brasil “só vai mudar, infelizmente, quando partirmos para uma guerra civil (...) matando uns 30 mil (...). Vão morrer alguns inocentes. Tudo bem. Em toda guerra morrem inocentes”.

Ao votar no impeachment, ele o fez em homenagem ao torturador coronel Brilhante Ustra, “o pavor de Dilma Rousseff”, disse.

Pela segunda vez, em plena pandemia, dia 19/4, Bolsonaro foi à manifestação dominical contra o Congresso Nacional e a favor da ditadura. Antes da fala de Bolsonaro, circunstantes gritavam “Fora Maia”, “AI-5”, “Fecha o Congresso”, “Fecha o STF” e carregavam faixas pedindo “intervenção militar já com Bolsonaro”, que em seu discurso falou: “Eu estou aqui porque acredito em vocês. Vocês estão aqui porque acreditam no Brasil” – adotando como seu, portanto, o teor do encontro.

A identificação com essa reunião se comprova ao pretender interferir a favor dos manifestantes, com a mudança do diretor da Polícia Federal: na mensagem enviada a Moro, ministro da Justiça, Bolsonaro reproduz nota do site O Antagonista segundo a qual a PF está “na cola” de 10 a 12 deputados bolsonaristas.

O presidente, então, escreveu: “Mais um motivo para a troca”. Patente, destarte, que buscava intervir no inquérito determinado pelo ministro Alexandre de Moraes instaurado para verificar “a existência de organizações e esquemas de financiamento de manifestações contra a democracia e a divulgação em massa de mensagens atentatórias ao regime republicano”. A nomeação de pessoa íntima para a diretoria da PF, cuja posse foi obstada pelo STF, é prova do interesse de demissão do então dirigente para se imiscuir nas investigações.

A atitude de Bolsonaro em face da pandemia, “uma gripezinha”, mostra indiferença pelo que poderia acontecer se desrespeitadas as normas de isolamento e quarentena determinadas pela OMS e pelo ex-ministro Mandetta.

Na última terça-feira, 28, indagado sobre o aumento do número de mortes, o presidente deu resposta agressiva: “E daí? Lamento. Eu sou Messias, mas não faço milagres”. A soberba, todavia, revela-se no uso das expressões “eu sou a Constituição”, “tenho a caneta”, “o presidente sou eu”, “quem manda sou eu”.

Tais comportamentos indicam possível anormalidade de personalidade, a merecer análise médica acurada.

Já opinei ser a interdição um caminho eventual para Bolsonaro. Não estava a fazer blague. As atitudes habituais permitem supor possível transtorno de personalidade, falha profundamente estudada por Odon Ramos Maranhão, titular de Medicina Legal (Psicologia do crime, 2.ª ed. Malheiros, 1995, cap. 7) e objeto de classificação pela CID-10, a Classificação Internacional de Doenças da OMS, em livro específico sobre doenças mentais (Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento, editor Artes Médicas, pág. 199).

Nessa classificação, o transtorno de personalidade antissocial tem por características a “indiferença insensível face aos sentimentos alheios; uma atitude flagrante e persistente de irresponsabilidade e desrespeito a regras; a baixa tolerância à frustração; a incapacidade para experimentar culpa e propensão a culpar os outros”. 

Poderia haver, eventualmente, transtorno de personalidade paranoide, cujos sintomas seriam, por exemplo, “combativo e obstinado senso de direitos pessoais; tendência a experimentar autovalorização excessiva e preocupação com explicações conspiratórias”. 

Outra publicação respeitada é o DSM-5, da Associação Psiquiátrica Americana, que em http://www.niip.com.br/wp-content/uploads/2018/06/Manual-Diagnosico-e-Estatistico-de-Transtornos-Mentais-DSM-5-1-pdf.pdf, nas páginas 645 e seguintes, estuda os tipos de transtornos da personalidade, cabendo destacar: “1- paranoide, caracterizado por desconfiança e suspeita tamanhas que as motivações dos outros são interpretadas como malévolas; 2- antissocial, cujo padrão é desrespeito e violação dos direitos dos outros; 3- narcisista, que apresenta sentimento de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia”.

Atentemos para o comportamento reiterado de Bolsonaro, ao longo do tempo, em favor de situações que geram dor, em apoio a manifestações pelo fechamento do Congresso e do STF, chegando a agir, como presidente, para não se apurar devidamente a organização do ato de domingo 19 de abril; em campanha contra o isolamento social, única medida possível para reduzir mortes; usando a trágica expressão, “e daí?” acerca do aumento do número de mortes; no gosto pelo aplauso popular, pois, no domingo 15 de março, ao ser ovacionado em frente ao Planalto falou: “Isso não tem preço”.

São esses os sinais indicativos de possível enquadramento nas categorias psiquiátricas acima lembradas, o que cumpre ser verificado por experts em medida adotada em defesa do País. 
No meio da pandemia, um pandemônio.

Advogado, Professor Titular Sênior da Faculdade de Direito da USP, Membro da Academia Paulista de Letras, foi Ministro Da Justiça

Bolsonaro pode levar o país à ingovernabilidade

Luiz Carlos Borges da Silveira
Gazeta do povo (Paraná)

 Foto: Alan Santos/PR
O presidente Jair Bolsonaro.| 

O governo Bolsonaro caminha para uma situação insustentável com risco de ingovernabilidade autopreparada pelo estilo descomedido do presidente, não raro coadjuvado pelos filhos. A mim a postura do presidente não surpreende. Conheci Jair Bolsonaro quando ele foi eleito pela primeira vez deputado federal em 1990 pelo PDC, partido do qual, na época, eu era o presidente nacional. Era pessoa de trato muito difícil. Sua passagem pela Câmara Federal foi marcada por uma personalidade controversa e atitudes claramente populistas, o que de certa forma o ajudaria na campanha presidencial.

Em 2018, quando ele foi candidato à Presidência da República, conseguiu representar o antilulismo e promoveu ampla mobilização da opinião pública, especialmente pelas redes sociais. Encarnou a figura do paladino contra os problemas daquele momento, entre os quais a corrupção e aquilo que chamava de “velha política”, o sistema de cooptação, o popular toma-lá-dá-cá. O candidato falava o que o povo queria ouvir. Inúmeras vezes eu alertei amigos e pessoas de grupos da minha convivência, como na Associação Comercial do Paraná e na maçonaria, que na sua maioria eram bolsonaristas. Ponderava que eu conhecia Bolsonaro e que ele não tinha nem capacidade nem postura para o cargo.

Foi eleito e iniciou o governo com alguns ministros competentes, preparados, adotando uma política de recuperação da economia. Encaminhou as reformas, começando pela trabalhista e pela previdenciária, que se tornaram processos difíceis por falta de permanente e eficiente articulação com o Congresso e setores envolvidos. Na sequência, devido a reiterados atritos com o Congresso e com a própria equipe, foi perdendo ministros e apoio parlamentar, sendo o fato mais recente a saída do ex-juiz federal Sergio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que, mais do que uma crise interna, provocou abalo no governo, sobretudo pelas revelações e troca de farpas nos dias que se seguiram ao episódio. Moro acabou saindo com ainda maior respeito e prestígio na opinião pública, o que o consolida como potencial candidato, caso decida seguir na política.

O governo Bolsonaro vem sendo pontuado por seguidas divergências internas e externas, a maioria desnecessárias e provocadas por atitudes imprudentes com o Legislativo e o Judiciário, colocando em risco a imperiosa harmonia entre os poderes, fundamental para a governabilidade e a estabilidade institucional e política do país.

É inegável que a convivência não é fácil, porém é necessária, é inerente ao exercício democrático e requer habilidade política, mesmo quando se trata, por exemplo, de um presidente da Câmara Federal com o estilo e o perfil do atual. Rodrigo Maia exerce forte liderança na Câmara, tem colaborado para aprovação de projetos do governo e de interesse nacional, mas também patrocina medidas que podem inviabilizar os próximos governos. Maia é declaradamente pré-candidato e trabalha nesse projeto com idêntica obsessão de João Doria, que revelou seu verdadeiro caráter político ao deixar o cargo de prefeito de São Paulo depois de 15 meses (mesmo tendo firmado compromisso público de cumprir o mandato até o fim) para concorrer ao governo do estado, traindo vergonhosamente seu padrinho político Geraldo Alckmin, que lhe havia bancado politicamente a candidatura à prefeitura. Na eleição presidencial, Doria não retribuiu o apoio ao então candidato Alckmin.

Para compensar a perda de aliados no parlamento e tentar neutralizar a estratégia de Rodrigo Maia, o governo tenta aproximação com o chamado Centrão, negociando com Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto, que representam o pior que pode existir na política, dados a todo tipo de negociações espúrias. Caso o apoio desses grupos políticos venha a se consolidar, o presidente Bolsonaro descumpre outra promessa de campanha e adere ao que ele mesmo rotulou de “velha política”, pois esse grupo de parlamentares condiciona o apoio à compensação por parte do governo através de ministérios, cargos no segundo escalão e outras vantagens. É o famigerado toma-lá-dá-cá. Outra derrota pessoal do presidente nos últimos dias foi a sucessiva e crescente perda de seguidores nas redes sociais, segundo revelaram empresas de consultoria que monitoram essas contas.

É visível que Jair Bolsonaro não tem demonstrado equilíbrio emocional nem habilidade política, requisitos essenciais para a condução do país. Talvez por exemplos como esses é que se comenta ser muito apropriada a necessidade de candidatos a cargos eletivos majoritários serem submetidos a testes de sanidade mental – pela responsabilidade que têm na gestão da coisa pública e, indiretamente, na vida das pessoas. Enfim, esse é o cenário.

Recentemente, o ex-presidente José Sarney disse que o Brasil está num labirinto sem saber para que lado sair. Concordo e acrescento: o labirinto está totalmente às escuras, principalmente pelo inevitável e difícil período de pós-pandemia, quando os governos terão a árdua tarefa de reorganizar, refazer, recuperar setores de vital importância, entre os quais a saúde pública e a economia. Isso vai exigir dos governantes muita firmeza, visão política, capacidade de agregação e, sobretudo, equilíbrio emocional.

O que gera apreensão é o fato de que no Brasil temos vivenciado governos do dia a dia, sem visão de futuro, nenhum planejamento estratégico nem projetos e programas de médio e longo prazo. A preocupação é com o cotidiano, provocar e contornar crises e movimentar peças do xadrez político-eleitoral. Isto nos leva a lembrar a frase que Tancredo Neves costumava repetir: “O estadista trabalha para as próximas gerações, o político para as próximas eleições”. No Brasil, infelizmente temos poucos políticos com o perfil de estadista.

Luiz Carlos Borges da Silveira, médico, empresário e professor, foi ministro da Saúde e deputado federal.

O déspota brasileiro

Marcos Strecker
Revista ISTOÉ

O presidente adota um modelo de governo que segue à risca a cartilha de caudilho levada a diante por Hugo Chávez na Venezuela e que resultou na destruição do país: ataque aos poderes constituídos, prerseguição aos opositores, asfixia à mídia e a alegação de que “o povo chegou ao poder”. Era a mesma frase usada pelo líder bolivariano


 Com a demissão forçada do ministro da Justiça, Sergio Moro, na última sexta-feira, 24, o presidente avançou várias casas em seu projeto de aparelhar os órgãos de controle e desvirtuar as instituições autônomas de Estado, tornando-as peças sob seu domínio. O interesse mais imediato é garantir que o inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o esquema de ataques à Corte, que entra em fase decisiva, não chegue a seu filho Carlos, o 02. Mas o objetivo é mais amplo.

A exoneração do ícone da luta anticorrupção no País soma-se ao aparelhamento da Polícia Federal, à cooptação do Exército, à militarização da política, ao estímulo de milícias digitais, à afronta contínua ao Congresso e ao Judiciário e ao desprezo pelos valores republicanos. Procura, passo a passo, enfraquecer a democracia, transformando-se em um caudilho tropical.


(Crédito:DIDA SAMPAIO)
ESCALADA Jair Bolsonaro no Palácio da Alvorada:
 inflexão no governo para afastar rivais que servem 
de obstáculo às suas pretensões autoritárias 

Na trilha do chavismo

O presidente não é original em suas investidas. Segue os passos do chavismo, ideologia que contaminou a América Latina nos anos 2000, irradiando destruição. O chavismo, como o bolsonarismo, foi gestado como uma aberração ideológica que se infiltra no Estado, recrutando militantes fanáticos. O falecido ditador Hugo Chávez deu uma lição de como enfraquecer a democracia, e agora é seguido por seu pupilo de extrema direita, que já o elogiou. “Chávez é uma esperança para a América Latina e gostaria muito que essa filosofia chegasse ao Brasil. Remete à figura do marechal Castelo Branco. Acho que vai fazer o que os militares fizeram no Brasil em 1964, com muito mais força”, disse o brasileiro em 1999, quando se movimentava no baixo clero da Câmara Federal e o venezuelano começava seu governo. Antes de chegar ao poder,

Chávez tentou um golpe de Estado em 1992 junto com outros oficiais. O golpe fracassou, e ele foi preso. Mas conseguiu os holofotes, tornando-se conhecido nacionalmente. Anistiado em 1994, procurou o caminho eleitoral. Eleito em 1998, tomou posse no ano seguinte. A transição rumo à ditadura não demorou. Conseguiu mudar a composição do Tribunal Supremo (a corte superior) para controlá-lo, mudou a estrutura do Exército para manietá-lo, reprimiu os opositores e interferiu na formação do Parlamento. Asfixiou e cerceou a imprensa. Depois de escapar de uma tentativa de golpe, radicalizou a “revolução bolivariana”, utilizando o know-how cubano de espionagem e repressão. Expropriou empresas privadas e extorquiu a estatal de petróleo. 

A ajuda assistencial aos mais pobres se deu sobre a ruína econômica e o descaso com o drama humanitário. Seu “socialismo do século XXI” incendiou a imaginação da esquerda, mas a ideologia é mambembe. Além do anacronismo de exaltar um regime enterrado junto com a União Soviética, apoiava-se no culto nacionalista de Simón Bolívar — que foi herói das guerras de independência latino-americanas no século XIX, mas defendia o liberalismo. “Nós somos o povo no poder”, disse seu sucessor e atual ditador, Nicolás Maduro.

(Crédito:Divulgação)
NO ALVO No dia em que indicou o substituto de Moro, assim como Alexandre Ramagem,
 amigo de Carluxo, para a chefia da PF, Bolsonaro divulgou uma foto comemorando sua pontaria 


Biografias similares

As biografias de Chávez e de Bolsonaro são semelhantes. “Agora é o povo no poder”, disse o brasileiro em 19 de abril. Assim como o venezuelano, o presidente cresceu desafiando a corporação. Ganhou fama com o discurso corporativo de recomposição salarial, nos anos 1980, pelo qual foi preso. Nessa época, tentou se aproximar do general Newton Cruz, que chicoteava automóveis nas carreatas que pediam a volta das eleições diretas e era uma das últimas vozes estridentes contra a redemocratização. Insubordinado, Bolsonaro foi processado e afastado da corporação por seu envolvimento no plano “Beco sem saída”, para explodir bombas em unidades militares, de forma a garantir os aumentos e a “assustar” o então ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves. A tentativa de sublevação ficou no papel, mas valeu a pena. Após escapar da condenação, a notoriedade garantiu um lugar no Congresso, onde defendeu em 1993 o retorno do regime de exceção e o fechamento do próprio Legislativo. Permaneceu 27 anos criando polêmicas e mostrando desempenho pífio — teve apenas dois projetos aprovados.



 Assim como Chávez, Bolsonaro chegou ao poder com um discurso antissistema e em meio ao desgaste de governos cercados de corrupção. Exatamente como ocorreu com o venezuelano, usa o ataque aos adversários como combustível para a militância. Seu antipetismo é de conveniência, já que pertenceu à base de sustentação de Lula e Dilma Rousseff. “Chávez não é anticomunista e eu também não sou. Na verdade, não tem nada mais próximo do comunismo do que o meio militar. Nem sei quem é comunista hoje em dia”, disse em 1999. Mais tarde, disse que havia “se enganado” na avaliação do venezuelano, mas a paixão por autocratas é legítima. Defendeu Alberto Fujimori (“um homem digno”), Augusto Pinochet (“matou baderneiros”) e Alfredo Stroessner (“homem de visão”). 

Já a cruzada neopopulista tem a ver com a tentativa de surfar na onda da direita alternativa americana, alimentada pelos supremacistas brancos, que garantiu a eleição de Donald Trump — de quem tenta se aproximar. Num sinal quase cômico de emulação, promove Olavo de Carvalho como uma versão abrasileirada de Steve Bannon, articulador da “alt right”. Em seu sonho de formar uma rede neoconservadora mundial, Bolsonaro também sonha imitar o húngaro Victor Orbán, que aproveitou a pandemia para impor medidas de exceção em seu país.


Escalada armamentista

Como o Brasil acompanha diariamente, a marcha da insensatez bolsonarista segue a trilha da ditadura bolivariana: militarização da política, politização do Exército, escalada armamentista e recrutamento de milícias — desarmadas, por enquanto. Uma das críticas que Bolsonaro fez ao demitir Sergio Moro foi exatamente de que o ex-juiz é “desarmamentista”. A simbologia do uso da força é vital para o clã Bolsonaro, assim como ocorre nas ditaduras. Os exemplos são diários. No 19 de abril, quando o presidente fez seu discurso em frente ao QG do Exército para manifestantes que pediam o fechamento do Congresso e do STF, o filho Carlos Bolsonaro exibiu em seu Twitter um vídeo de atiradores descarregando suas armas em um estande de tiros, enquanto exaltavam seu pai aos berros.
Carluxo é justamente o mentor dos milicianos virtuais que, desde as eleições em 2018, dedicam-se ao assassinato de reputações dos opositores do pai. 

A rede continua ativa, como investiga a PF e a CPMI das Fake News, no Congresso — também alvo dos Bolsonaros. E os perfis que seguem a orientação de Carluxo já apontaram a mira para Moro, depois que este acusou Bolsonaro de tentar interferir na Polícia Federal. O próprio Bolsonaro, na terça-feira, 28, quando indicou o substituto de Moro e o novo representante do clã na chefia da PF, divulgou uma foto em que aparece em um estande de tiro comemorando sua pontaria. “Dez tiros, o pior foi oito, tá bom, né?”, afirmou rindo. Tinha razões para estar satisfeito. Simbolicamente, abateu o símbolo da Lava Jato, depois de apropriar-se da sua bandeira anticorrupção.

Para Bolsonaro, tirar Moro do caminho também facilitou seu projeto de desmembrar o Ministério da Justiça, recriando o Ministério da Segurança Pública. Conta com isso para ampliar sua influência sobre as polícias militares estaduais. O avanço armamentista também fez Bolsonaro intervir no Exército. Exigiu que fossem revogadas portarias que definiam regras de rastreamento de armas, munições e explosivos. Como consequência, o general de Brigada Eugênio Pacelli Vieira Mota, responsável pelas portarias, deixou o cargo de diretor de fiscalização de Produtos Controlados pelo Exército (PCE). Para o País, é uma temeridade. Esse projeto de Bolsonaro aumenta a preocupação sobre o controle de grupos armados e facções criminosas. Ele avança exatamente quando o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro aponta indícios de que o senador Flávio Bolsonaro teria financiado construções de imóveis regulares em áreas controladas por milicianos. Essa ligação é antiga. O 01 já condecorou o ex-policial Adriano da Nóbrega, acusado de ser um dos chefes da milícia de Rio das Pedras e do Escritório do Crime, um grupo de matadores de aluguel. 



Eliminando rivais

Como no bonapartismo, o presidente sonha em receber o mandato do povo para governar de forma despótica sem precisar curvar-se a qualquer instituição ou pessoa. Quer eliminar rivais, como ocorreu no afastamento do gestor do combate à pandemia que lhe fazia sombra, o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, e também com Moro, que é mais popular e tem mais credibilidade do que ele. Segue o mesmo curso ao enfraquecer o superministro da Economia, Paulo Guedes, e também ao patrocinar ataques virtuais à sua secretária da Cultura, Regina Duarte, e a uma elogiada ministra técnica, Tereza Cristina, titular da Agricultura — ironicamente, à frente do único setor que deve registrar crescimento em 2020. Jair Bolsonaro encolhe o governo para que ele caiba em sua estatura.

(Crédito:Divulgação)
POPULISTAS Para Bolsonaro e Chávez, é possível governar de forma 
despótica sem precisar curvar-se a qualquer instituição ou pessoa: são “o povo no poder” 

Chávez e Bolsonaro são versões atuais do que o escritor Umberto Eco descreveu como o “Fascimo Primordial”, inspirado em suas memórias de infância na Itália da Segunda Guerra. A tese foi exposta em uma conferência na Universidade Columbia, em 1995, e publicada no Brasil como O Fascismo Eterno (ed. Record). Para o autor, Mussolini expressou um totalitarismo confuso, uma colagem de diferentes ideias filosóficas e políticas. Fraco ideologicamente, não tinha uma filosofia própria, mas apenas retórica. A base do nazismo, primo do fascismo, era constituída pela teoria racista da superioridade ariana. Enxergava a cultura como instrumento de propaganda e tinha horror à criatividade e à modernidade. O stalinismo, a vertente soviética, foi fundada no materialismo. As características desses movimentos estão presentes nas ideologias de Chávez e Bolsonaro: são militaristas, intolerantes à crítica, obcecados com teorias conspiratórias, machistas, homofóbicos e desconfiados do mundo intelectual e científico. Os dois líderes sul-americanos chegaram ao poder após eleições diretas, para em seguida aparelhar o Estado, minar a democracia, calar a imprensa e reprimir os adversários. São unidos pelo ideal autoritário. O bolsonarismo é igual ao chavismo, com o sinal trocado.

Divulgação

“Chávez é uma esperança para a América Latina e gostaria muito que essa filosofia chegasse ao Brasil. Remete à figura do marechal Castelo Branco. Acho que vai fazer o que os militares fizeram no Brasil em 1964, com muito mais força” Jair Bolsonaro, em 1999

Felizmente o presidente tem sido limitado pelo sistema democrático de freios e contrapesos em funcionamento desde a volta do poder aos civis. Agora, foi contido pelo STF na sua tentativa de indicar para a chefia da PF um amigo do filho que estava na mira da própria corte. Fez isso mesmo sabendo que havia o risco de ser impedido pelo Judiciário. Enquanto as instituições estiverem funcionando e puderem coibi-lo, a democracia estará preservada. Mas seu ímpeto autoritário não tem limites. Depois de Alexandre Ramagem, amigo de Carluxo, ter sido barrado, 

Bolsonaro disse que o País esteve à beira de “uma crise institucional”. Não vai desistir, deixou claro. “Eu quero o Ramagem lá. É uma ingerência, né?” Contrariando a decisão da Advocacia-Geral da União (AGU), órgão da própria Presidência que divulgou nota afirmando que não recorreria da decisão (de forma republicana), expôs como deseja liderar o País. “Quem manda sou eu”, disse. É uma daquelas frases que resume tudo, como “a Constituição sou eu”, dita há poucos dias. É necessário manter a vigilância. Interpretando os sinais do tempo, é possível dizer que o “ovo da serpente” ainda está sendo chocado — parafraseando o título do clássico filme de Ingmar Bergman sobre a lenta gênese nazista. Está sim, diante dos nossos olhos.

O bolsonarismo é igual ao chavismo, com sinal trocado. Os dois representam movimentos militaristas, intolerantes à crítica, obcecados com teorias conspiratórias e desconfiados do mundo intelectual e científico

Mais uma vez, Bolsonaro está mentindo para tentar ocultar seus gravíssimos erros

Carlos Newton
Tribuna da Internet




Nascido na Irlanda, em 1872, George Bernard Shaw foi um notável dramaturgo, escritor, ensaísta e jornalista, um dos fundadores da London School of Economics. Em 1925, foi o primeiro vencedor do Nobel de Literatura pelo conjunto da obra, antes de Bob Dylan, em 2016.

Defensor do socialismo, Bernard Shaw não aceitava a exploração dos trabalhadores, defendia direitos iguais para homens e mulheres e reforma agrária.


ENTREVISTA Á BBC – 

Quando se anunciou que as televisões começariam a usar o videotape, Shaw deu uma entrevista à TV BBC, filmada em 16 mm e som direto Nagra, como as tevês faziam à época.

A declaração do extraordinário pensador causou espanto, porque ele previu que o videotape poderia acabar com a mentira na política. Disse o grande filósofo que os políticos precisariam passar a ter muito cuidado, porque seriam desmentidos pelo videotape.

Jamais esqueci essa entrevista de Shaw e usei a filmagem da BBC em 1974, ao editar um programa na TVE sobre o presidente Richard Nixon, que fora apanhado mentindo sobre o caso Watergate e teve de renunciar.


A HISTÓRIA SE REPETE – 

Embora o filósofo alemão Karl Marx, que antecedeu Shaw, tenha afirmado que a História só se repete como farsa, tenho cá minhas dúvidas. E a gente vê a História de repetindo agora com Jair Bolsonaro.

Depois que o ministro Alexandre de Moraes mandou suspender a nomeação do delegado Alexandre Ramagem à Direção-Geral da Polícia Federal, o presidente Jair Bolsonaro passou a dar sucessivas declarações dizendo que iria recorrer da decisão do relator do Supremo.

Mas o novo advogado-geral da União, José Levi, responsável pela defesa de Bolsonaro, deu entrevista dizendo que não iria recorrer, porque o presidente já havia até revogado a nomeação e o delegado Ramagem continuaria na Abin.


BOLSONARO INSISTIU – 

Estranhamente, Bolsonaro insistiu em dizer que iria recorrer. Os repórteres voltaram a procurar Levi, que duvidou: “O presidente não disse isso”, garantiu.

Acontece que Bolsonaro realmente dissera e continua dizendo que irá recorrer. Questionado sobre o posicionamento do novo chefe da AGU, o presidente afirmou que recorrer é um “dever do órgão”. E completou: “Quem manda sou eu”.

Mas era e é mentira, porque o chefe do governo não vai apresentar recurso. Está apenas tirando uma onda de que é poderoso e pode fazer o Supremo se curvar. Tudo conversa fiada.


BÉJA JÁ EXPLICOU – 

Conforme o jurista Jorge Béja já explicou repetidas vezes aqui na Tribuna da Internet, Bolsonaro não recorreu nem vai recorrer. Suas palavras são tão vazias quanto a máquina de estocar vento imaginada por Dilma Rousseff.

O Chefe da AGU, José Levi, sabe que é tudo mentira, por isso  nem liga para a “ordem” de Bolsonaro. Se perguntarem novamente, dirá que não vai recorrer. Caso a AGU obedecesse ao presidente e apresentasse recurso, o  processo seria levado à análise dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal. E Bolsonaro receberia condenação por desvio de finalidade e crime contra administração da justiça. E a condenação seria enviada à Câmara, para abertura do processo de impeachment.


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P.S. – Ao revogar a nomeação de Ramagem, o presidente evitou a condenação neste processo, que será arquivado, conforme disse Jorge Béja. Mas acontece que há outra ação em andamento no Supremo, com relatoria de Celso de Mello, e o juiz Moro foi intimado e vai depor neste sábado.

P.S. 2 – Béja diz que não há necessidade de provas, porque Bolsonaro já admitiu, em pronunciamento à nação, seu interesse em receber relatórios da Polícia Federal. Mas o ex-ministro Moro diz que tem mais provas para apresentar.

P.S. 3 – E ainda há pessoas de bem que acreditam em Jair Bolsonaro. (C.N.)

Brasil tem 107,7 mil casos confirmados e 7.321 mortes por coronavírus e é o 6º país com mais mortes

Da redação
Exame.com

No último domingo, 3, o país passou a ser a 9ª nação a atingir a marca das 100 mil pessoas infectadas

(Bloomberg/Getty Images)
Covid-19: Brasil está entre os países com o maior número de mortes pela doença 

O Brasil registrou 107.780 casos confirmados do coronavírus nesta segunda-feira, 4, segundo dados do Ministério da Saúde. No balanço são registradas ainda 7.321 mortes, um acréscimo de 263 em 24 horas.

No último domingo, 3, o país passou a ser a 9ª nação a atingir a marca das 100 mil pessoas infectadas. A frente do Brasil estão Estados Unidos, Espanha, Itália, Reino Unido, França, Alemanha, Rússia e Turquia. Em relação a mortes, o país ocupa a 6ª posição.

São Paulo, epicentro da covid-19 no país, está com 32.187 casos confirmados da doença e 2.654 mortes.



Nesta segunda o governador João Doria (PSDB) anunciou que a partir da próxima quinta-feira, 7, será obrigatório o uso de máscaras para quem sair na rua em todos os 645 municípios do estado enquanto durar a pandemia.

Doria também voltou a dizer que pode adiar a flexibilização do isolamento, marcada para começar em 11 de maio, nas cidades que não estão atingindo índices satisfatórios de quarentena.

Entre os estados com o maior número de pessoas com a covid-19 estão o Rio de Janeiro, com 11.721, Pernambuco, com 8.863, Ceará, com 8.501, Amazonas, com 7.313, e Maranhão, com 4.227.

O Ministério da Saúde cancelou a coletiva de imprensa diária na qual o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira, apresentaria os números atualizados e esclareceria dúvidas.

“Por motivos de saúde, o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira, não conseguirá participar da coletiva técnica desta segunda-feira. Sendo assim, não haverá a coletiva técnica do Ministério da Saúde, às 17h, no Palácio do Planalto”, informou a pasta.




Profissionais da Saúde são agredidos por apoiadores de Bolsonaro : “Nós vamos varrer vocês dessa nação”

Tribuna da Internet
Julia Lindner, Estadão


O mundo todo aplaude os profissionais. No Brasil, eles apanham

O protesto de um grupo de enfermeiros por melhores condições de trabalho e pela manutenção do isolamento social durante a pandemia do novo coronavírus acabou em confusão após apoiadores do presidente Jair Bolsonaro tentarem interromper o ato e agredir os profissionais. A manifestação ocorreu na manhã desta sexta-feira, 1.º, em Brasília, na Praça dos Três Poderes.

Os enfermeiros fizeram um ato silencioso. Vestidos de jaleco e com máscaras de proteção, eles se posicionaram em fileiras, segurando cruzes e respeitado o distanciamento recomendado de pelo menos um metro entre cada um. Nos cartazes, frases como “enfermagem em luto pelos profissionais vítimas da covid-19. Fique em casa”.

AGRESSÕES – 

O grupo registrou o momento em que cerca de dez pessoas vestidas de verde e amarelo começam a filmar os profissionais e a agredi-los verbalmente. O grupo fazia parte de outro ato em apoio ao presidente Jair Bolsonaro. Os enfermeiros foram chamados por eles de “sem vergonha”, “covardes” e “analfabetos funcionais”.

“Vocês vão ser varridos, esquerdopatas. Vocês vão perder. Nós vamos varrer vocês dessa nação”, gritou um homem aos enfermeiros. Depois de alguns minutos, as imagens mostram que o mesmo homem se aproxima de uma enfermeira e se exalta supostamente por causa de um gesto, volta a gritar e a chama de medíocre.





ESCOLTA – 

Uma outra profissional se coloca entre os dois para proteger a colega. Na imagem, o homem chega a segurar uma das enfermeiras com força, assim como faz com outra pessoas que tentam contê-lo na sequência. Por fim, os enfermeiros tiveram que deixar o local acompanhado de policiais militares.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – 

Enquanto o mundo todo aplaude os profissionais da Saúde, no Brasil, parte de um rebanho desgovernado, os agride. Beira ao surrealismo tanta ignorância, tanta violência, tanta falta de afeto. Atacar profissionais que amanhã poderão ser os responsáveis por cuidar dos próprios agressores e de suas famílias é de uma estupidez injustificável. Enquanto o planeta tenta se unir e esquecer as diferenças por algum tempo, aqui elas se acirram e nos envergonham. Deplorável.(Marcelo Copelli)

Opinião pública está dividida sobre impeachment de Bolsonaro, diz Datafolha

Deutsche Welle 

Pesquisa revela que uma parcela maior da população passou a defender a renúncia do presidente. Avaliação de Bolsonaro se mantém estável, mas, após troca de acusações entre ele Moro, maioria diz acreditar no ex-ministro.
    

Parcela maior da população passou a apoiar
 a renúncia de Bolsonaro, afirma Datafolha

Pesquisa do Instituto Datafolha divulgada nesta segunda-feira (27/04) destaca uma divisão na opinião pública sobre um eventual processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro, mas também revela que uma parcela maior da população passou a apoiar a renúncia do presidente.

Segundo o levantamento, 45% dos entrevistados defendem a abertura de um processo de impeachment contra Bolsonaro na Câmara dos Deputados, enquanto 48% são contra e 6% não souberam opinar.

A renúncia de Bolsonaro – em meio ao impacto da saída do ex-juiz Sergio Moro do Ministério da Justiça e à atuação do presidente na crise gerada pela pandemia de covid-19 – é desejada por 46% dos entrevistados, enquanto 50% a rejeitam. No levantamento anterior, realizado no início de abril, 59% eram contrários à renúncia e 37% a defendiam.

A avaliação geral de Bolsonaro se manteve relativamente estável: 38% o consideram ruim ou péssimo; 33% como bom ou ótimo e 25% como regular. No último levantamento feito pelo Datafolha sobre esse tema, em dezembro, esses percentuais eram, respectivamente, 36%, 30% e 32%.

Após a troca de acusações entre Bolsonaro e Moro na ocasião da renúncia do então ministro da Justiça, na última sexta-feira, a maior parte dos entrevistados se manifestou favoravelmente ao ex-juiz da operação Lava Jato: 52% avaliam que quem falou a verdade foi Moro, contra 20% que dizem acreditar no presidente.

Outros 6% disseram não acreditar em nenhum dos dois, e 3% consideram que ambos estão corretos em suas afirmações. O Datafolha afirma que 89% dos entrevistados tinham conhecimento da saída de Moro do governo.

Ao deixar o cargo, Moro acusou Bolsonaro de tentar interferir politicamente na Polícia Federal (PF), o que teria culminado na exoneração do diretor-geral da corporação, Maurício Leite Valeixo, indicado ao cargo pelo ex-ministro.

Por sua vez, o presidente afirmou que Moro teria forçado uma negociação em torno de uma futura indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF) para que pudesse aceitar a demissão de Valeixo. Ambos negam as acusações. O procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu autorização ao STF para abrir um inquérito sobre as alegações feitas pelo ex-ministro.

Segundo a pesquisa, 56% dos entrevistados acreditam que Bolsonaro teria tentado interferir na PF, contra 28% que afirmam o contrário. Outros 4% não concordam com nenhuma das afirmações e 12% disseram não ter conhecimento.

O Datafolha entrevistou por telefone 1.503 pessoas em todos os estados brasileiros. A margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais.
RC/ots

Procuradoria acusa Onyx Lorenzoni de segurar dinheiro da segurança alimentar

Patrik Camporez/BRASÍLIA
O Estado de S. Paulo´

Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão diz que ministro da Cidadania não garantiu nem a metade dos recursos necessários para a segurança alimentar do País no período de pandemia

Foto: Dida Sampaio/Estadão 
Onyx Lorenzoni. 

BRASÍLIA – O Ministério Público Federal, por meio da  Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC/MPF), concluiu que o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, não garantiu nem a metade dos recursos necessários para a segurança alimentar do País no período de pandemia do coronavírus.

Um procedimento aberto no órgão, ao qual o Estado teve acesso, diz que os recursos disponibilizados pelo governo federal ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), no contexto da pandemia da covid-19, “são claramente insuficientes para enfrentar a crise no âmbito da segurança alimentar e nutricional.”

O alerta foi feito nesta quinta-feira (30), pela Procuradoria, em ofício encaminhado ao ministro Onyx Lorenzoni. O MPF aponta que seria necessário ao menos R$ 1 bilhão para o Programa de Aquisição de Alimentos, mas apenas metade do recurso foi disponibilizado.

No último dia 27, o governo federal editou a Medida Provisória nº 957/2020,disponibilizando R$ 500 milhões ao PAA como forma de enfrentar a vulnerabilidade alimentar e nutricional que atinge a população diante da crise do coronavírus.

No entanto, o Programa de Aquisição de Alimentos já vinha enfrentando insuficiência de recursos, segundo o MPF, no período de 2016 a 2019. Apenas para a continuidade na execução de iniciativas que seguem pendentes, desde o ano passado, seriam necessários R$ 436 milhões.

“Como a Lei Orçamentária Anual previu a destinação de R$ 124 milhões ao PAA, com o aporte dos recursos previstos na MP 957/2020, restariam apenas R$ 188 milhões para o enfrentamento da crise da Covid-19. Esse valor não seria capaz de superar alguns sérios riscos possíveis de serem antecipados, como o desabastecimento e a insegurança alimentar”, aponta a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão.

No ofício ao ministro Onyx, a PFDC ressaltou ainda que a pandemia também aponta para a urgência na adoção de medidas céleres em favor dos agricultores familiares e do atendimento a pessoas em situação de insegurança alimentar. Nesse sentido, elencou um conjunto de considerações acerca das modalidades de compra desses produtos.

A ideia é fortalecer associações ligadas à agricultura familiar, como forma de dar maior eficácia no combate à insegurança alimentar causada pela pandemia.

DESCASO: Governo gastou só 24% do previsto nas medidas econômicas contra a crise

Alessandra Kianek 
Veja online

Dos R$ 253 bi empenhados no combate ao coronavírus, apenas R$ 60 bi foram pagos; ampliação de parcelas para o auxílio emergencial não está certa

  Amanda Perobelli/Reuters

O secretário especial de Fazenda do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues,
 afirmou que "não está desenhado ainda se terá nova parcela" o auxílio emergencial de R$ 600  

O governo federal brasileiro gastou até agora apenas 24% do total previsto pelas medidas econômicas de combate à crise causada pela pandemia do novo coronavírus. Segundo o Ministério da Economia, dos 253 bilhões de reais previstos, 59,9 bilhões de reais foram pagos, ou seja, liberados pelo governo. A equipe econômica, entretanto, desconhece o valor que de fato chegou até a mão dos beneficiários, porque essas transferências, segundo o ministério, dependem da distribuição feita pelo sistema financeiro, como BNDES e Caixa Econômica Federal – mas informou, porém, que prepara uma forma de consolidar esses números para disponibilizar à população.

A maior parte dos gastos previstos é destinada ao auxílio emergencial, com 123,9 bilhões de reais, seguida pelo benefício emergencial de manutenção de emprego e da renda, com 51,6 bilhões de reais. Do total já pago, o auxílio de 600 reais à população vulnerável representa 59%. O balanço também apontou que nada foi repassado em relação à medida de manutenção do emprego. A evolução desses valores pode ser acompanhada diariamente em nova página do site do Tesouro Nacional, que irá monitorar os gastos da União no combate à Covid-19. O secretário especial de Fazenda do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues, afirmou que o objetivo é tornar os números transparentes. “Esse montante de recursos tem impacto direto sobre o contribuinte. É dinheiro dele que está sendo repassado. Portanto, é preciso haver esse zelo com a efetividade das ações”, afirmou, em uma conferência virtual com jornalistas, nesta sexta-feira, 1º.

O secretário usou a palavra “zelo” novamente ao falar sobre a possibilidade de elevar o número de parcelas do pagamento do auxílio emergencial de 600 reais pago aos informais. “Não está desenhado ainda se terá nova parcela. É o contribuinte quem arca com esse recurso, por isso estamos fazendo com muita cautela e zelo”, reafirmou Waldery. O programa, aprovado pelo Congresso, prevê o repasse de três parcelas de 600 reais à população vulnerável, e tem recebido pressão para que seja aumentado, devido ao agravamento da crise e da ampliação das medidas de isolamento social.

Além disso, o governo vem recebendo críticas também de que as medidas adotadas pelo Brasil no combate à crise causada pelo coronavírus são inferiores quando comparadas a de outros países. E, para tentar esfriar os ataques, o Ministério da Economia informou que as medidas fiscais, ou sejam, os gastos do país, representam 4,8% do PIB, número maior que o da média dos países avançados (4,3%) e maior que de emergentes como o Chile (4,7%). O Brasil perde, porém, de Japão (21,1%), França (5%), Alemanha (4,9%), entre outros. 

SACANAGEM COM O POVO: Em São Paulo, pessoas esperam na fila por toda a madrugada por R$ 600

Douglas Gavras, 
O Estado de S. Paulo

Para tentar receber o auxílio emergencial, pessoas esperam até 16h; cena da agência da Caixa na periferia paulistana se repete pelo País

  Foto: Felipe Rau/Estadão
Na agência da Caixa em Grajaú, zona sul de São Paulo, a fila para
 tentar  receber o auxílio emergencial chegava a 400 pessoas.

Na madrugada fria da periferia de São Paulo, um grupo de pessoas enfrenta pacientemente uma prova de resistência que, para alguns deles, vai durar até 16 horas. Em frente a uma agência da Caixa Econômica Federal, o sacrifício é pelo auxílio emergencial de R$ 600 a R$ 1.200, concedido a brasileiros de baixa renda que ficaram sem sustento após a crise desencadeada pelo novo coronavírus.
A dona de casa Alexandra da Rocha, de 43 anos, virou lenda ali. Ao tentar ser atendida pela Caixa no dia anterior e ouvir do funcionário que ela tinha chegado tarde demais, não pensou duas vezes: voltou às 18h, improvisou uma cama apoiada nas portas de vidro do prédio e decidiu que só sairia dali no dia seguinte com seu dinheiro.

“A gente evita se queixar, mas não dá para entender o tamanho dessa fila. Se eles têm os dados de todo mundo, se as pessoas já sabem o nosso CPF e a gente já foi aprovado para receber o auxílio, como é que eles não conseguem pagar? O que nós fizemos de errado?”

A fila da agência da Caixa no Grajaú, zona sul de São Paulo, se repetiu por todo o Brasil nos últimos dias. Com o início do pagamento do benefício, as portas das agências da Caixa viraram local de peregrinação de um exército de brasileiros que viu a pouca renda que tinha sumir com a pandemia.

O objetivo, em geral, é conseguir driblar as burocracias que foram impostas para receber o benefício. A noite de sono de muitos deles tem sido trocada pela ida à agência para conseguir, por exemplo, um código que serve para gerir a poupança virtual social aberta pela Caixa para o recebimento do benefício e, assim, poder sacar e movimentar os R$ 600.

“Isto aqui é uma humilhação. Até as pessoas que passam de ônibus aqui em frente, na avenida, se espantam ao ver tanta gente aglomerada, quando todo mundo diz que não é para ficar desse jeito. Elas não acreditam que a gente possa ter de passar a noite aqui, se expor a todo tipo de risco, para ganhar o mínimo para sobreviver”, se emociona o desempregado Lucimar Costa, de 51 anos.

  Foto: Felipe Rau/Estadão
Para Costa, parecem querer que a pessoa desista. 

Os dez primeiros da fila, todos com mais de 40 anos e paciência de sobra para virar a noite ali, de repente abandonam seus lugares e se juntam em um círculo, começam a comparar quantas vezes tentaram usar o aplicativo da Caixa. “Parece que fizeram de um jeito para irritar quem precisa do dinheiro, até a pessoa desistir. Você acha que alguém iria dormir nesta calçada fria, por R$ 600, caso não precisasse muito?”, questiona Costa.

Volte amanhã

Quando soube que a agência sempre distribui 200 senhas por dia para atendimento geral e 50 para preferencial, Luciana Dias, 19 anos, foi incumbida pela mãe de contar o número de pessoas que já estavam esperando na frente delas. “149, 150. Acho que vai dar. Parece pouco, mas para quem não está ganhando nada os R$ 600 significam tudo.”

Ao lado delas na fila, um grupo de jovens entregadores ouve funk para se distrair. As crianças, que foram para acompanhar as mães e que se conheceram ali, agora brincam como se fossem amigas de infância. “Quando a gente começou a brincar, a fila ainda estava pequena”, conta uma delas.

Vitalina Santos, de 62 anos, ri quando alguém pergunta se ela faz parte do grupo de risco da covid-19. “Faço parte de dois: o grupo dos idosos e o grupo dos que passam fome. Eu não tenho opção. Você acha que o governo se importa com as pessoas que estão dormindo nas filas? Eles nunca devem ter entrado numa fila.”

  Foto: Felipe Rau/Estadão
Vitalina ri quando perguntam se ela é do grupo de risco. 

Na terça-feira, o Brasil ultrapassou a China no número de mortes por causa do novo coronavírus. Ao ser instado a comentar o assunto por uma jornalista, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) respondeu: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”

“A gente quer é que eles deem um jeito de diminuir o sofrimento das pessoas. Ninguém quer se expor sem necessidade ao vírus, mas eles precisam fazer chegar o dinheiro nas nossas mãos”, conta a vendedora Milena dos Santos, que deixou a filha na casa de amigos, para buscar atendimento.

Quando já passa das 9h, faltando menos de uma hora para o início do atendimento, o fim da fila já se perde no horizonte, são pelo menos 400 pessoas. Ninguém se espanta mais com ela dobrando a esquina – já ocupa cinco quarteirões da ladeira ao lado e metade não deve ser atendida até o fim do dia. “Daqui a pouco, vai ficar mais barato vir morar de vez na frente da agência”, diz a primeira da fila. 

Caixa observa situação nas agências 

Questionada sobre o aumento no fluxo de pessoas, a Caixa respondeu que "está sensível e atenta à situação de filas e aglomerações nas agências". O banco também informou que para evitar maiores tumultos, está ampliando o atendimento de 902 agências neste sábado, 2, das 8h às 14h, aos beneficiários nascidos de janeiro a outubro que receberam o auxílio pela poupança social digital e optaram por realizar o saque em espécie. Já a data para os nascidos em novembro e dezembro continua mantida para a próxima terça-feira, 5.