terça-feira, janeiro 11, 2022

O Brasil vai enfrentar um ano conturbado, mas decisivo para superar o radicalismo

 Marcos Strecker e Ricardo Chapola

Revista ISTOÉ

As eleições presidenciais de 2022 representam uma oportunidade para o País superar o populismo que colocou a economia em uma encruzilhada. Mas o centro ainda precisa se unir e acertar sua estratégia contra a polarização. Apesar de a Justiça estar mais preparada para combater as milícias digitais, o pleito ainda será marcado por tensão

 (Crédito: Andressa Anholet)

PULSO DAS RUAS - Manifestantes em Brasília, em 2019:

 pleito deste ano ainda será marcado pelo radicalismo 


Perspectiva 2022/ Brasil

Depois de anos de polarização política, que explodiu com o colapso dos 13 anos de governo petista, e de uma crise econômica que jogou o País na maior recessão da história (ainda não plenamente superada), o País vai às urnas este ano com a possibilidade de superar o radicalismo. Ao contrário de 2018, o eleitor agora estará mais atento à experiência dos candidatos. Haverá mais espaço para a política tradicional e menos chances para outsiders. O desenho da disputa marcada para 2 de outubro já está praticamente definido. Bolsonaro concorrerá pela direita, orientado pelo mesmo discurso extremista que o elegeu e diante do desafio de contornar o desgaste que sua própria imagem vem sofrendo, fruto de um mandato irresponsável e repleto de erros do começo ao fim. Ameaçado, o mandatário pode se tornar o primeiro candidato à reeleição a perder a cadeira. E, para que isso não ocorra, está disposto a fazer o que for preciso. Vai acelerar o uso da máquina pública para irrigar os cofres de aliados, principalmente por meio do orçamento secreto, e distribuirá benefícios eleitoreiros.

A esquerda, por outro lado, conta novamente com Lula para retomar o poder. Após ser preso por corrupção, o petista volta à cena política tendo pela frente dois adversários antigos: Moro, responsável pela sua prisão, além, é claro, do próprio capitão. Fora isso, precisará contornar o antipetismo que se agravou no País após o escândalo do Petrolão e que atingiu em cheio não só o ex-presidente, como também seu partido. No campo esquerdista, Lula só conta com a sombra de seu ex-ministro Ciro Gomes, que disputará pela quarta vez e até agora mantém sua pré-candidatura pelo PDT, mesmo sem empolgar nas pesquisas.

 (Crédito:Governo de SP)

VITRINE - João Doria usará suas realizações, como o metrô, como credencial 

Por enquanto, as pesquisas ainda dão ampla vantagem para Lula, seguido de Bolsonaro, mas o cenário deve evoluir. O petista ainda não sofre a crítica dos adversários e surfa na anulação dos seus processos, que tenta ostentar como uma absolvição. Quando a disputa esquentar, a partir de abril, as campanhas vão explorar o antibolsonarismo e o antipetismo, e isso pode abrir espaço para o centro. “Vai ser uma eleição bastante acirrada, principalmente pensando que vai ser aquela em que o presidente em exercício é o que tem menos chance de se reeleger entre todas as disputas até aqui”, avalia Glauco Peres, professor de Ciência Política da USP. “Isso acontece porque não há dois candidatos óbvios favoritos para o segundo turno. Das eleições recentes, essa é aquela em que o terceiro candidato tem mais chance de ir para um segundo turno do que em todas as anteriores.”

 (Crédito:Alan Santos/PR)

POPULISMO - O presidente Jair Bolsonaro posa com populares em Esteio (RS) 

Peres considera que o fortalecimento do nome da terceira via depende também do fracasso dos programas que Bolsonaro lançar nesse período, enquanto estiver em campanha. A principal aposta do chefe do Executivo é o Auxílio Brasil. Além disso, investe em empréstimos massivos com dinheiro da CEF e terá um cronograma recheado de inaugurações pelo País. “Tirar Bolsonaro do segundo turno demanda tirar a capacidade do governo de fazer votos”, diz Peres. Assim como também pesará a péssima situação econômica do País, com alta da inflação, aumento do desemprego e perspectiva de recessão. “A economia vai mal. O governo vai ser penalizado por isso. Bolsonaro vai perder apoio, e uma terceira via teria como avançar em cima desse eleitorado. Mas só se usar a estratégia correta na campanha”, pontua Fernando Guarnieri, professor de Ciência Política da UERJ. Também pesa contra o presidente sua atuação temerária na pandemia, quando utilizou a estrutura de Estado para difundir mentiras.

Hoje, Moro leva vantagem sobre os outros pré-candidatos do centro. O ex-juiz abriu frentes de diálogo na tentativa de convencer os demais partidos de que a sua candidatura é a que mais tem chances de derrotar Lula e Bolsonaro. Já se reuniu algumas vezes com Doria, num movimento visto em Brasília como um sinal de que ambos caminharão juntos em algum momento. “Como Moro deu a largada ao se filiar ao Podemos e anunciar sua candidatura, ele acabou ocupando o espaço da terceira via. Mas, pelo que ouvi, Doria e Moro vão se juntar”, confidenciou um influente dirigente partidário. Há dúvidas se o ex-ministro da Justiça se manterá na atual posição. Para sua campanha ganhar capilaridade e ter um naco considerável do Fundo Eleitoral, Moro já tenta se unir ao União Brasil — legenda que surgiu da fusão entre DEM e o PSL. Com a junção das duas siglas, o União Brasil passou a comandar a maior fatia desse fundo. Queria ter um candidato próprio nas eleições, como o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, mas caminha para apoiar Moro, possivelmente indicando Luciano Bivar (presidente da legenda) para vice.

O governador de São Paulo, João Doria, deixou para esse início de ano suas primeiras viagens como candidato do PSDB. Aposta que a partir daí conseguirá maior visibilidade nacional, exibindo as realizações em São Paulo, que teve um crescimento maior do que o País na pandemia. Também conta com avanços importantes para o País, como a viabilização da vacinação nacional há um ano, o que forçou Bolsonaro a acelerar a compra de imunizantes. Por ocupar a posição de maior antagonista do presidente nos últimos anos, e ser um adversário histórico de Lula, Doria avalia que conseguirá atrair os eleitores insatisfeitos com os dois polos.

Correm por fora outros três pré-candidatos: Rodrigo Pacheco (PSD), Simone Tebet (MDB) e o senador Alessandro Vieira (Cidadania), todos com pouca força nas pesquisas de intenção de voto divulgadas até aqui. Dificilmente conseguirão entrar no primeiro pelotão, apesar da torcida nos seus partidos. “Espero que a eleição não seja maniqueísta. Nomes como Simone e Rodrigo, novidades em meio a outros já consolidados, ajudam a arejar um pouco o ambiente e dão mais condição para o eleitor observar melhor as coisas na hora de votar”, diz o vice-presidente do Senado, Veneziano Vital do Rêgo (MDB). Mas o caminho não será fácil. Seu partido lançou a pré-candidatura de Tebet a despeito de muitos caciques terem ficado contrariados.

 (Crédito:Divulgação)

CASAMENTO - Lula abraça seu possível vice, o ex-tucano Geraldo Alckmin 

Até agora, ninguém do campo de centro sinalizou que estaria disposto a abrir mão da própria candidatura em nome de um projeto maior. Apenas o senador Alessandro Vieira admitiu, em entrevista recente, que pode desistir. “É de se imaginar que várias candidaturas murchem à medida que um nome comece a mostrar que tem mais chance para vencer Bolsonaro ou Lula no segundo turno”, afirma Peres. Para ele, Moro e Doria figuram como favoritos a capitanear a terceira via. Ele prevê que, em algum momento, ambos formarão uma aliança para fortalecer o projeto e aumentar as chances de segundo turno. “A terceira via, na prática, passa por problemas semelhantes aos da esquerda. Também precisa montar a sua própria frente ampla”, afirmou um emedebista.

No campo esquerdista, desde que Lula vislumbrou a possibilidade de se candidatar, muitos parlamentares passaram a defender a ideia da formação de uma frente ampla, sob o argumento de romper a bolha da esquerda e atrair votos que pudessem ser direcionados a um representante de centro. É essa estratégia que levou o PT à aproximação com Geraldo Alckmin, que deixou o PSDB e abraçou essa proposta. Por enquanto, ela só serviu para fragilizar os tucanos e fortalecer Lula. A esquerda aplaudiu a manobra. “Estou nisso desde o início. Concordo muito com essa aliança, representa um maior diálogo com o centro”, afirmou o deputado Marcelo Freixo (PSB-RJ).

O pleito será uma oportunidade importante para fortalecer o debate de propostas, deixando em segundo plano a as pautas ideológicas e de costumes. Mas espera-se que ocorra novamente o jogo sujo que marcou a última corrida presidencial. Passados quatro anos, os quase 150 milhões de eleitores deverão reviver parcialmente um ambiente ainda contaminado pela difusão de mentiras. “Serão as mais sujas e sórdidas campanhas eleitorais da história do País”, prevê Doria. “Extremistas gostam disso: de intimidar, de emparedar, mentir, construir narrativas falsas.” Foi graças a essa prática que Bolsonaro conseguiu triunfar em 2018. Por isso, o presidente ainda é investigado no Supremo no inquérito das fake news, sob suspeita de participar de um esquema de financiamento de robôs para divulgação de notícias falsas durante a última eleição.

 (Crédito:Mateus Bonomi )

EMBATE - Ciro Gomes em 2018: este ano ele fará sua quarta campanha 

Com o objetivo de evitar que isso se repita, o ministro do STF Alexandre de Moraes, responsável por vários processos contra Bolsonaro na Corte, já fez uma advertência. O próximo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) disse que vai punir severamente políticos que dispararem fake news. “Essas milícias digitais continuam se preparando para disseminar ódio, conspiração, medo, para influenciar eleições e destruir a democracia”, afirmou Moraes, que assume o comando do TSE em setembro. “Se houver repetição do que foi feito em 2018, o registro será cassado. E as pessoas que assim fizerem irão para a cadeia por atentar contra as eleições e a democracia.”

O TSE tem tomado medidas a fim de endurecer as punições. Em dezembro, o tribunal aprovou uma resolução que vai penalizar quem espalhar mentiras contra candidatos com ordens de prisão. As penas podem chegar até a quatros anos de detenção. “Já sabemos como são os mecanismos, quais são as provas que devem ser obtidas e como. E não vamos admitir que essas milícias digitais tentem novamente desestabilizar o pleito a partir de financiamentos espúrios não declarados”, asseverou o futuro presidente do TSE.

Segundo alguns especialistas ouvidos pela ISTOÉ, o endurecimento das regras pela Justiça Eleitoral vai nivelar as candidaturas e impedir que Bolsonaro tire proveito dos robôs que o ajudaram em 2018. “O sucesso de Bolsonaro nas últimas eleições ocorreu porque ele usou uma estratégia que ninguém tinha visto. Todo mundo tomou bola nas costas, o presidente usou brilhantemente aquele meio que não recebia atenção de ninguém. No ano que vem, esse elemento surpresa não vai existir mais para ninguém”, avalia Guarnieri.

Já para outros analistas, as medidas anunciadas pelo TSE não serão suficientes para impedir a repetição do fenômeno da desinformação. “As eleições serão tensas e ainda trarão, provavelmente de forma mais intensificada, muito do último pleito: discurso de ódio, disparo em massa e fake news, que são contrários à base democrática que deve encampar qualquer processo eleitoral”, pontua Juliana Freitas, professora de Direito Eleitoral do Centro Universitário do Pará (Cesupa). “Este ano vai ser selvageria. É impossível controlar esse tipo de coisa. No fim das contas, todo mundo vai continuar tendo WhatsApp. Sem falar que fake news é um conceito muito aberto. Para alguns, pode ser mentira, enquanto para outros, não”, avalia um advogado que pediu anonimato pois vai atuar na campanha de um dos candidatos.

 (Crédito:Adriano Machado)

CANDIDATO - O ex-juiz Sergio Moro em visita ao Congresso, em 2019 

Algumas novidades podem ajudar a melhorar a qualidade do novo Congresso. A introdução das federações partidárias exige coerência programática e une os partidos por quatro anos em todos os estados, diminuindo os acordos espúrios, apesar de reeditar na prática as velhas coligações. Haverá mais diversidade no Congresso, já que negros e mulheres terão maior representação no cálculo do coeficiente eleitoral e receberão mais verbas. Essas mudanças são bem-vindas. Mas certamente não serão suficientes. Com o fundão eleitoral de R$ 4,9 bilhões, os partidos terão recursos públicos abundantes, em escala inédita. Espera-se que o próximo pleito volte a ser o da política habitual, mas que não seja também o da velha política.


Ano novo, vida nova?

 Joel Rennó

O Estado de São Paulo 

© Fornecido por Estadão

A questão temporal, embora se constitua basicamente por um novo calendário e cronograma, acaba sendo um fator psicológico positivo nas vidas de muitas pessoas.

Muitos se sentem motivados pelo início de um "novo ciclo" e prometem a si mesmo uma nova mudança de atitude e postura, buscando um projeto de vida que pode levar a transformações. Procuram focar no presente e no futuro esquecendo mágoas ou dores do passado.

Mas o que efetivamente nos leva a mudanças reais e não a novos ciclos com velhos hábitos e tristezas?

São questões que envolvem tanto aspectos psicológicos individuais e de personalidade, quanto também coletivos e relacionados à educação, valores sociais e culturais. A magnetização e escravização por um movimento de manada da sociedade ditador de regras e costumes pode gerar também decepções.

As pessoas muitas vezes não legitimam seus erros o que não gera um aprendizado. Precisamos ter o bom senso, a flexibilidade mental e a humildade para um reconhecimento de atitudes procrastinadoras ou de fuga que nos impedem da adoção de medidas saudáveis e equilibradas em nossas vidas.

O comportamento social também é importante. Pessoas altruístas, empáticas e generosas tendem a ser mais felizes e completas. E isso se reflete em suas vidas com mudanças construtivas e que transformam seus objetivos puramente materiais em algo com dimensão e completude bem mais abrangentes. Precisamos dar um significado real e permanente ao nosso efêmero ciclo vital.

É fundamental ter um propósito de vida que tenha um significado amplo de existência e que possa deixar um legado positivo, seja modesto ou grandioso, nas vidas das pessoas. Fazer a diferença nas vidas dos outros, inclusive em nossas profissões, nos torna mais felizes e completos.

Quando traçamos determinadas metas, precisamos começar pelas mais simples e exequíveis. Não adianta começar com muita "sede ao pote" e não concretizar nada. A confiança pode vir de forma gradual e de acordo com as nossas pequenas conquistas e dentro do nosso referencial.

Pessoas maduras e que se conhecem bem não miram ou invejam as conquistas dos outros. Ser livre e autossuficiente requer discernimento para que não caiamos em um ciclo neurótico de competição que dissipa as boas energias e nos deixa exaustos. Alguns se comparam tanto com os demais que acabam cometendo o sacrilégico de própria negligência pessoal.

Portanto, meus queridos leitores, espero que em 2022 possamos, em primeiro lugar, buscar as transformações internas tão necessárias para daí sim conseguirmos atingir todas as outras metas materiais e muito mais acessíveis.


Tempestade na economia

 Paula Cristina

ISTOÉ Dinheiro

  Petesphotography

 Tempestade na economia 

Tempestades dificultam a vida. Impedem a visão, reduzem a segurança e tendem a provocar e a amplificar desastres. Esse é um bom paralelo com o que esperar para a economia brasileira neste ano. O cenário será complicado, com eleição, Congresso amarrado, desemprego, inflação, dólar e juros altos. Ao que tudo indica, 2022 vai exigir resiliência. E cabe ao governo elaborar medidas paliativas para destravar a economia. Para os empresários, a recomendação é cautela e planejamento para atravessar a jornada turbulenta que se avizinha. A narrativa do crescimento em V, prometido pelo ministro da Economia Paulo Guedes, ficou para trás em 2021 e o discurso oficial foi retificado: agora, vale a versão de que a equipe econômica nunca fez essa promessa. Mesmo assim, a piora evidente do ambiente econômico e as incertezas fiscais trazidas pelo furo no teto de gastos têm deixado reticentes até os mais otimistas com a economia.

A edição mais recente do Relatório Focus, pesquisa junto aos economistas do sistema financeiro que é divulgada semanalmente pelo Banco Central (BC), estima um crescimento de 0,36% para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro neste ano. É um valor baixo para sustentar uma retomada do motor econômico. Na indústria, o temor dos empresários é com a falta de insumos e com o preço do dólar, que pode afetar diretamente a produção. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), se a reposição de insumos for normalizada, o setor conseguirá crescer 0,5%. Porém, no caso da continuidade dos problemas, o tombo pode bater 2,5%.

No comércio, o encarecimento do crédito e a inflação que vem corroendo a renda do brasileiro estão no topo das preocupações. Segundo a economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Izis Ferreira, a queda de 0,1% no varejo em outubro de 2021 e de 1,2% nos serviços indicam o que esperar para 2022. “Esses são indícios de crescimento menor”.

O agronegócio segue como exceção. Com a continuidade do real depreciado frente ao dólar, a única ameaça ao setor é o encarecimento dos custos de produção, em especial os da energia e dos fertilizantes para os produtores que não exportam. Mesmo assim Renato Conchon, o coordenador do Núcleo Econômico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), estima alta de 2,4% do PIB do setor.

Se os empresários se mostram inseguros, o governo precisa tratar de trazer uma sensação de normalidade para este ano. E essa solução vem de dentro da sala de Guedes. Desde dezembro, a equipe econômica vem montando uma lista para apresentar ao presidente Bolsonaro. Ao todo são dez medidas cuja aprovação é considerada “fácil” pela equipe econômica. Elas serão usadas para mudar, nas palavras de um assessor de Guedes, “o fôlego para o empresariado em 2022”. A ideia do governo é que, juntas, as ações tenham potencial de reduzir em R$ 124 bilhões o custo Brasil.

INFRAESTRUTURA

 Entre as mais esperadas pelo mercado estão os marcos do setor elétrico (Projeto de Lei 414/2021) e do Reemprendedorismo (PLP 33/20), além das medidas que afetam os setores de infraestrutura, como Projeto das Debêntures de Infraestrutura (PL 2646/20) e o marco legal das PPPs (PL 7063/17). Na avaliação do advogado especializado na área de infraestrutura e sócio do escritório Donelli e Abreu Sodré Advogados (DSA), Luis Fernando Zenid, as medidas que envolvam regulação e melhoria da infraestrutura são as mais esperadas. “A começar pelo setor portuário”, disse. Nesse segmento, o governo pretende levar ao menos quatro terminais para a iniciativa privada, com a primeira concessão já em fevereiro. “Mesmo em se tratando de ano de eleições, espera-se grandes avanços para economia dentro do setor de infraestrutura”, afirmou.

 © Fornecido por IstoÉ Dinheiro


Essa é a aposta de Bolsonaro. Se a economia reagir, ele se mune de argumentos para enfrentar o período eleitoral. E para atender também a fatia do eleitorado mais radical, em especial com questões ambientais, o ministro Paulo Guedes espera aprovar uma nova lei de licenciamento ambiental (PL 3729/04), a Lei de Mineração em terras indígenas (PL 191/20) e a reforma da lei de concessões florestais (PL 5518/20).

 © Fornecido por IstoÉ Dinheiro 

POUCA EXPECTATIVA O ministro Paulo Guedes e sua equipe vêm trabalhando em medidas para destravar a economia. Caberá a Bolsonaro — e ao Congresso — aprová-las

Para o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, esses projetos estão ligados à estratégia de reeleição e podem ser nocivos para a economia. “Guedes assumiu uma agenda política. Se afastou da agenda de reformas estruturantes”, disse. Professora da Universidade de Brasília (UNB) e uma das convidadas por Michel Temer em 2016 para desenhar o projeto do teto de gastos, a economista Carolina Santana critica as medidas mais populistas, em especial as que envolvem o Auxílio Brasil. “A mudança de nome do programa, a ampliação no número de beneficiários, tudo isso têm caráter eleitoreiro e complica as contas públicas por não ter fonte definida de financiamento”, disse.

Sem dar detalhes do que fazer para resolver este problema, o Ministério da Economia informa que a questão fiscal nunca ficou descoberta e segue como prioridade. Com um piloto sem rota e o combustível acabando, a viagem de 2022 não será fácil. Para o investidor, é preciso redobrar as precauções.

 © Fornecido por IstoÉ Dinheiro




O que é mais grave e realmente perigoso: ser tarado por vacina ou tarado contra vacina?

  Eliane Cantanhêde, 

O Estado de S.Paulo

É gravíssimo, além de indigno, Bolsonaro acusar a Anvisa de ter 'interesses por trás' ao tomar decisões em prol do Brasil, das crianças, das vacinas, do Butantã e da Fiocruz

Pense rápido: o que é pior, ser “tarado por vacina” ou tarado contra vacina? O presidente da República, Jair Bolsonaro, tenta insistentemente dividir o País entre os dois grupos, mas não dá certo, porque ele fala, fala, fala contra a imunização de adultos e agora de crianças, mas ninguém lhe dá ouvidos. Os brasileiros sabem que a questão não é ideológica, mas de vida ou morte.

“Ninguém” talvez seja exagero, porque há tarados que dão de ombros para a ciência e seguem tudo o que seu mestre, ou seu mito, mandar. É triste, talvez doentio. Bolsonaro já proibiu a compra da Coronavac, a “vachina do Doria”, e disse que quem se vacina vira jacaré, as duas doses causam aids na Inglaterra e que tão poucas crianças morrem de covid... Pra que vacinar?

Perguntem aos pais, mães, avós, tios, irmãos, primos, amigos e médicos dos 308 mortos pela doença entre 5 e 11 anos e dos 2.500 abaixo dos 19 anos, que teriam sido salvos com vacinas. E dá um arrepio pensar em quantos ainda podem ser contaminados, internados e... até as doses chegarem.

Ao tentar dividir a população entre tarados pró e contra vacina, Bolsonaro também racha seu governo e sua base aliada. Enquanto ele ataca as vacinas, a nova propaganda oficial badala o índice de imunizados no Brasil e o Exército reforça suas diretrizes pró vacina e contra fake news na pandemia. Vale para o comandante em chefe?

Médicos criticam o estúpido negacionismo do presidente e pediram investigação do ministro Marcelo Queiroga no Conselho Federal de Medicina por desvios ético-profissionais, a Sociedade de Imunização também se rebela e a Sociedade de Pediatria diz em nota que desestimular os pais a imunizarem seus filhos é “lamentável e irresponsável e pode custar vidas”.

O que dizer da deputada Bia Kicis, que jogou no WhatsApp e dali para as matilhas bolsonaristas da internet dados pessoais e profissionais de três médicos que defenderam vacinas para crianças na tal audiência pública? Replicou Bolsonaro, que queria a lista dos técnicos da Anvisa que autorizaram a vacinação infantil. Certamente, para “ripar” a reputação deles, já que não pode demiti-los, como no Iphan, Inep, Inmetro, PF...

E é gravíssimo, além de indigno, o presidente acusar a Anvisa de ter “interesses por trás” ao tomar decisões em prol do Brasil, das crianças, das vacinas, do Butantã e da Fiocruz, que produz uma vacina 100% nacional. Ele não entende nada, nem a tara por vacinas que salvam de poliomielite, sarampo, tétano, coqueluche... e covid-19. Parabéns, Fiocruz! Solidariedade, Anvisa e doutores tarados pela vida! 

COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA


Nós e a brisa

 Dora Kramer 

Veja online

Vaticínios sobre a inviabilidade da chamada terceira via são feitos sem que se dê a esse caminho ao menos o benefício da dúvida

/ Orlando Brito/.

Manifestante anti-Bolsonaro exibe cartaz pela terceira via 

Três ideias rondam o ambiente político neste início do ano eleitoral de 2022: Luiz Inácio da Silva voltará à Presidência, Jair Bolsonaro lançará mão de ilegalidades para resistir à derrota e nenhuma alternativa a tal cenário é possível. Fala-se disso como se o inesperado não pudesse nos fazer uma surpresa, conforme descrito por Johnny Alf em Eu e a Brisa, nos idos de 1967.

Pois no imprevisível junto às artes do acidental é que residem a graça e a essência de uma eleição sob as regras da democracia, onde o que vale é a vontade de milhões de pessoas envolvidas num processo que só acaba quando termina.

Portanto, aos arautos das convicções inamovíveis conviria flexibilizar as respectivas mentes de modo a não se tornarem reféns de profecias que se autorrealizam.

De algum modo já vivemos isso desde quando forças políticas começaram a se mobilizar em torno de outra hipótese que não a repetição de velhos erros. De de lá para cá, o que se vê são vaticínios sobre a inviabilidade da chamada terceira via.

Isso sem que se dê a esse caminho ao menos o benefício da dúvida. Uma chance real, não meramente retórica, expressa em frases do tipo “…caso subam nas pesquisas” acompanhadas de toda sorte de desqualificações porque ninguém ainda foi capaz de ameaçar a dianteira de Lula e Bolsonaro. A oito meses da eleição.

A essa altura, Fernando Henrique hesitava em deixar o Ministério da Fazenda, Fernando Collor era nanico nas pesquisas e Jair Bolsonaro, tratado como cavalo paraguaio atolado em chuva de verão. Lula esteve no pódio três vezes antes de sagrar-se campeão, a reeleição de Dilma Rousseff foi dada como perdida, Marina Silva vista como a grande possibilidade da estação, e por aí vão os exemplos sem nos esquecermos de uma arrancada de Ciro Gomes e da repentina derrocada de Roseana Sarney. Tudo isso a meses de cada uma daquelas eleições.

Cabe lançar dúvida também sobre o forrobodó institucional que Bolsonaro estaria preparando para evitar deixar o Palácio do Planalto. Primeiro, porque não está fora de questão uma desistência. Do Palácio, não do Planalto, candidatando-se a outro cargo a fim de não perder o foro privilegiado. Para isso, contudo, precisaria se desincompatibilizar da Presidência até abril, deixando Hamilton Mourão por seis meses no cargo. Impossível não é, mas improvável.

“Fala-se de certezas eleitorais como se o inesperado não pudesse nos fazer uma surpresa”

Em segundo lugar, o fracasso das investidas antidemocráticas torna lícito duvidar do êxito de ações ao modo de Donald Trump no fatídico janeiro de 2021. Se Bolsonaro precisou acomodar sua viola na sacola da moderação pós-7 de setembro, quando ainda dispunha de um ano de mandato pela frente, não será derrotado que terá apoio para tentar melar o resultado.

Por último, vamos ao primeiro: Lula. O ex-presidente em sua espetacular marca de campeão absoluto nas pesquisas tornou-se estuário não apenas dos votos de seus admiradores, mas de toda sorte de expectativas embaladas no critério único de que vale qualquer coisa para impedir a reeleição do atual presidente.

Até mesmo deixar de lado a busca de uma melhor solução para optar pela parte do problema. Ou Jair Bolsonaro não é fruto dos desmandos do PT? Ou não foi eleito na batida da tecla da escolha do “menos pior”, que, na visão de um grande contingente de eleitores, seria a volta dos salvados dos funis do mensalão, do petrolão, do populismo na economia e da vocação para açambarcar o poder de modo hegemônico?

Não parece racional o país eleger Lula para fugir de Bolsonaro, que foi eleito para evitar o PT. Volta-se ao ponto inicial e não se avança no jogo. É preciso alguma clareza. A respeito do fato de Lula e companhia não acharem que fizeram nada de errado.

As pessoas lembram dos feitos, relevam os malfeitos e não se perguntam, por exemplo, como o Lula de novo presidente conduziria suas relações com o Congresso. Comprando outra vez na base da mesada? Os contratos com fornecedores e prestadores de serviço seguiriam na mesma linha, dado que na concepção do PT os escândalos foram fruto de ficção persecutória e, portanto, a tendência é a repetição.

Concorrer na seara de Lula e Bolsonaro é tarefa difícil. Mas não impossível se houver boa vontade para aceitar que uma pessoa normal no Planalto já é bem melhor que locatários do Palácio adeptos da teatralidade, da flexibilidade moral, da intimidade com a mentira, do sectarismo intenso e da aversão ao contraditório. Para dizer o mínimo.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 12 de janeiro de 2022, edição nº 2771


Olhe para cima

 Alice Ferraz

O Estado de São Paulo

Malas prontas e uma desconhecida ansiedade faziam ela se sentir como se estivesse prestes a embarcar para suas primeiras férias. Os dois últimos anos tinham se misturado, condensado suas memórias, resumindo meses, abreviando lembranças de vivências que agora pareciam se sobrepor. “Mas isso foi ano passado ou no outro?”, perguntava-se com frequência.

O medo escondido na ansiedade parecia natural, afinal tinha experimentado, como o mundo todo, a sensação de completa falta de controle, sentimento escancarado por uma pandemia que ia e vinha. Um mundo “seguro” já não existiria mais, e essa nova sensação de ansiedade evidenciava efeitos colaterais do novo aprendizado. Um mundo em constante transformação era a realidade.

O dia anterior à viagem amanheceu com o céu mais escuro do que o previsto e enquanto finalizava as malas, assistia junto com o marido um novo lançamento no streaming e acompanhava as notícias pelo mundo. O filme avançava em uma narrativa angustiante onde dois cientistas descobrem que em seis meses o planeta Terra seria destruído, impactado por um asteroide.

A trama evoluía na TV enquanto as notícias de que chuvas torrenciais caíam sobre a Bahia apareciam em sua segunda tela. Enquanto no filme os cientistas não eram ouvidos e governo e população não se mobilizavam para evitar a catástrofe, sua mente inquieta fazia paralelos sobre a razão que a faria embarcar para um destino que se transformava de notícia em notícia em um lugar que precisava de ajuda e não de uma turista inconsciente querendo aproveitar o ‘dolce far niente’, a doçura e leveza de não fazer nada.

O filme acaba, a Terra é atingida pelo asteroide identificado, mas não encarado de frente para que pudesse ser destruído. No mundo “real”, ela esperava para tomar uma decisão, quem sabe receberia o telefonema de um cientista? Concluiu, em uma ligação para o gerente do pretenso paraíso, que não chegaria de carro, nem de barco.

Pelo volume de água das chuvas, estradas não levariam turistas e certamente nem remédios e alimentos necessários depois da trágica noite de inundações. Ouviu a sugestão ainda de ir pelo ar – “a chuva não atrapalha, voamos baixinho”, disseram entusiastas, em uma tentativa de convencê-la. Mulher e marido se entreolharam, desfizeram as malas e combinaram um jantar no centro de São Paulo.


Ômicron, Delta, influenza, ‘flurona’, enchentes, rebelião do funcionalismo. E daí?, dirá Bolsonaro

  Eliane Cantanhêde,

O Estado de S.Paulo

E o ministro da Saúde? Levou três semanas para se manifestar sobre a autorização da Anvisa para vacinar crianças de 5 a 11 anos

  Foto: Marcelo Chello/AP - 05/01/2022

Que tal mandar interromper as férias do seu médico no Caribe para em seguida cair num jogo de futebol enquanto inundações e enchentes se estendem pelo País, ameaçando a vida, as casas e os bens de milhares de brasileiros? 

É uma provocação barata e desnecessária do presidente Jair Bolsonaro sair de um hospital de São Paulo e no mesmo dia pegar outro voo para ir a um jogo de futebol de cantores sertanejos em Goiás. Dos jet skis, das férias do Natal, das férias do ano-novo e da nova obstrução direto para a campanha eleitoral. Governar, que é bom, necas.

E que tal mandar interromper as férias do seu médico no Caribe para em seguida cair num jogo de futebol, enquanto inundações e enchentes da Bahia se estendem por Maranhão, Tocantins, Paraná, Minas e a própria Santa Catarina das férias presidenciais, ameaçando a vida, as casas e os bens de milhares de brasileiros?

Enquanto isso, também, a Ômicron já matou o primeiro brasileiro, em Goiás, e a covid corre solta mundo afora e acende o sinal vermelho no Rio, São Paulo, Minas, Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul, além do DF, onde o número de casos deu um salto de 900% do Natal aos primeiros dias de 2022.

Como os brasileiros não deram ouvidos a Bolsonaro e se vacinaram, a contaminação é alta e o índice de mortes, baixo. Tudo isso, porém, está embolado com gripe comum, dengue, até a “flurona”, contaminação por covid e influenza, que confunde a população, atordoa os médicos, pressiona o sistema de saúde.

E o ministro da Saúde? Levou três semanas para se manifestar sobre a autorização da Anvisa para vacinar crianças de 5 a 11 anos. E que manifestação! No conteúdo: menos de 4 milhões de doses para 20 milhões de crianças em janeiro, e as aulas começam em fevereiro. Antes de encomendar as doses, é preciso apurar a “demanda”, ou o quanto os pais querem vacinar seus filhos.

Na forma: em vez de conclamar a população para vacinar as crianças e liderar a campanha pró-vacina, segura e necessária para as crianças e para estancar a pandemia, Marcelo Queiroga e seus assessores demonstraram desconforto e resignação diante do inevitável e da pressão da opinião pública.

E, enquanto Bolsonaro volta das férias e do hospital para a campanha, o funcionalismo se rebela contra o aumento só de policiais, ameaçando paralisação nacional dia 18. E o efeito já começou, com dois navios com capacidade de 17,5 mil toneladas de trigo cada no Porto de Santos e 800 caminhões em Roraima. O estopim foi a Receita, mas se espalha pelas demais carreiras de Estado, finanças, segurança, diplomacia e MP...

Assim, 2022 começa com Delta, Ômicron, crianças sem vacina, influenza, flurona, inundações, rebelião de funcionários e crescimento zero, inflação, juros altos, desemprego e fome. E o presidente? Ah! Viajando em jet ski, carro do Beto Carrero... e na maionese. “E daí?”, dirá Jair Bolsonaro. 


Como Bolsonaro aprimora a arte de destruir a economia, a renda e o emprego

 Hugo Cilo

ISTOÉ Dinheiro

 Wilson Dias/Agência Brasil


Os governos petistas, principalmente os mandatos da ex-presidente Dilma Rousseff, foram responsabilizados pela destruição da economia brasileira a partir de 2015. E tiveram culpa. A corrupção nas estatais, a promiscuidade na relação do governo com grandes empresas, a intervenção excessiva na economia e a inabilidade em manter em pé os pilares macroeconômicos empurram o País para o centro de uma espiral de problemas. A roubalheira generalizada fez surgir a Lava Jato. A Lava Jato derrubou as empresas. A crise alimentou o impeachment de Dilma. O impeachment e o antipetismo criaram o ambiente perfeito para o agravamento do radicalismo. O radicalismo levou à presidência o que hoje está aí. Sem que a maioria percebesse, a economia foi, pouco a pouco, corroída.

O presidente Jair Bolsonaro e o secretário especial de desburocratização, Paulo Uebel. Até agora, o governo agravou ainda mais os problemas que já existiam e criou novos. Do que eles estariam rindo? 

Os equívocos de Lula e Dilma, inegáveis para quem analisa sem paixão, têm sido aprimorados com excelência por Jair Bolsonaro. A cada nova declaração, a cada nova live nas redes sociais, a cada piada irônica para os fãs no cercadinho do Palácio do Planalto, o presidente mostra que tem o dom de piorar o que já está ruim. O PIB está parado. A inflação, fora de controle. O desemprego estagnado em patamares elevados. Os juros em trajetória de alta traçam um cenário de mais dificuldade nos próximos meses. Ainda assim, o Messias segue firme em sua destruição.

Na sexta-feira (7), Bolsonaro deu mais uma canetada errada. Ele vetou integralmente o projeto que previa a criação de um programa especial de parcelamento para as empresas do Simples Nacional. O projeto criava o Programa de Reescalonamento do Pagamento de Débitos (Relp), que permitia o parcelamento dos débitos tributários das empresas do Simples em até 180 meses.

A iniciativa era vista por vários setores da economia, como o de bares e restaurantes e outros prejudicados pelas restrições impostas pela pandemia, como um meio de manter os negócios em funcionamento em meio à crise. A estimativa é que o programa de parcelamento tinha potencial para renegociar R$ 50 bilhões em dívidas acumuladas por 16 milhões de micro e pequenas empresas.

A decisão é trágica para a economia, para as empresas, para o ambiente de negócios. O fechamento de micro e pequenas empresas representa mais desemprego e o adiamento da recuperação. O veto traz ainda mais incertezas para 2022, ano em que a corrida eleitoral vai contaminar, em alguma medida, a performance econômica. Sob Bolsonaro, a arte de destruir a economia ganha novos significados.


Desalento entre os mais jovens

 Editorial

O Estado de São Paulo

Se há um grupo que traduz a falta de qualquer perspectiva e de confiança no futuro do País é o dos “nem-nem”. Entre brasileiros de até 29 anos, 12,3 milhões não trabalhavam nem estudavam no segundo trimestre de 2021, ou 30,5% da faixa etária, segundo estudo da consultoria IDados com base na Pnad Contínua do IBGE. No primeiro semestre de 2019, eles eram 27,9% do total. O surgimento da pandemia do novo coronavírus agravou a situação dos mais jovens, mas antes mesmo da emergência da covid-19 o porcentual dos “nem-nem” já era expressivo. Em 2012, eles eram 10,6 milhões, ou 25,8% do total. É um contingente que vem aumentando de forma consistente nos últimos anos e que demonstra apatia no momento mais dinâmico e produtivo de suas vidas.

A vulnerabilidade desse grupo se explica por diversas razões, entre elas a baixa escolaridade. Sem emprego nem renda, muitos param de estudar no meio do caminho. “Isso representa uma ineficiência enorme para o Estado, já que muitas dessas pessoas tiveram um investimento público por trás”, disse ao Estadão a pesquisadora Ana Tereza Pires, responsável pelo levantamento. De acordo com o presidente da Trevisan Escola de Negócios, Vandyck Silveira, o problema não é a falta de recursos na Educação, mas a má alocação dessas verbas. O pífio crescimento da economia brasileira também explica esse fenômeno. Para empregar todos os jovens que entram no mercado de trabalho, segundo Silveira, o País teria de crescer ao menos 3% ao ano – muito mais que a média anual de 1,4% registrada entre 2017 e 2019, seguida por uma queda de 3,9% em 2020. 

Uma análise realizada pela Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia de meados de 2021 tampouco trouxe esperança. Ela mostra que jovens com até 29 anos têm menor probabilidade de conseguir emprego com carteira assinada. A falta de experiência, que faz com que sejam preteridos nas seleções, se torna um obstáculo ainda maior em momentos de crise, quando precisam disputar vagas com profissionais qualificados também desempregados. Ainda segundo a SPE, entre os que procuram trabalho há mais de dois anos, metade tem entre 17 e 29 anos, e dois em cada três são mulheres com pouca escolaridade, a quem resta recorrer à informalidade ou permanecer no desalento.

Para o País, esse cenário se reflete em perda de produtividade e de capital humano e diminuiu as já remotas chances de alcançar o nível de desenvolvimento das nações mais desenvolvidas. O porcentual de jovens “nem-nem” deve cair no futuro, não pela melhoria das condições socioeconômicas, mas porque o Brasil deve perder o bônus demográfico – ou seja, haverá mais dependentes, entre idosos e crianças, do que habitantes em idade de trabalho, entre 15 e 64 anos. “Logo, o futuro do País está comprometido pela falta de quantidade e pelo tratamento de baixa qualidade dado à juventude”, afirmou o diretor do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV Social), Marcelo Neri.

Mesmo os mais qualificados encontram dificuldades para se colocar no mercado de trabalho, destacou Ana Tereza Pires. Quem termina a faculdade durante uma fase de recessão pode ter reflexos por toda a vida profissional, pois tende a encontrar empregos com salários mais achatados. Não é por acaso que 47% dos jovens de 15 a 29 anos desejam sair do País se tiverem oportunidade, segundo o estudo Atlas das Juventudes, coordenado pela FGV Social. Isso diz muito sobre o presente e o futuro do País.

O impacto da crise sanitária na economia puniu os mais jovens, já que as empresas preferiram manter profissionais especializados. O País precisa adotar políticas públicas adequadas para esse grupo, e não basta reduzir o custo de contratação para tentar amenizar o quadro – uma alternativa que já foi proposta pelo governo e rejeitada pelo Congresso duas vezes nos últimos anos. A retomada do crescimento econômico é essencial para a criação de postos de trabalho, condição fundamental para que qualquer programa dessa natureza tenha resultados efetivos e duradouros.


Por uma eleição com ideias

 Marco Antonio Villa

Revista ISTOÉ

Como será 2022? Teremos o processo eleitoral mais violento desde 1989. Isso é mais que uma previsão, é uma certeza. O cenário dos três anos de governo Bolsonaro aponta para uma eleição marcada não pela disputa de ideias, mas pela brutalidade, pela selvageria, pela bestialidade. Por um lado, porque Bolsonaro fomentou o ataque sistemático às instituições, aos valores consagrados na Constituição de 1988. Foram meses e meses de ameaças ao Estado democrático de Direito, culminando no trágico 7 de setembro de 2021. Por outro, porque o governo não tem nada a mostrar, nada realizou, não tem o que se chama popularmente de “vitrine”. Desta forma, só pode apostar na violência, na desqualificação pelo ódio dos adversários. Teremos, certamente, confrontos de rua, que vão servir, para o extremismo bolsonarista, como instrumentos de mobilização de suas bases e para justificar o discurso de hostilidade à democracia.

As bandeiras políticas de Bolsonaro são frágeis. Não tem consistência. Servem apenas para mobilizar sua militância e, especialmente, os robôs nas redes sociais, que espalham fake news como se fossem propostas de governo. A tendência é que como sinal de desespero frente ao derretimento eleitoral da sua candidatura, ele retome o ataque às urnas eletrônicas e aponte uma suposta fraude no sistema de apuração dos votos. Será um artifício para desviar a atenção do essencial: ele não vai chegar ao segundo turno pois será humilhado à 2 de outubro, quando da primeira consulta aos eleitores.

As bandeiras políticas de Bolsonaro são frágeis. Servem apenas para mobilizar 

sua militância e, especialmente, os robôs nas redes sociais

A tarefa de todos os democratas, independentemente dos matizes político-ideológicos, é de transformar o processo eleitoral em um palco de discussão dos grandes problemas nacionais. O Brasil não pode perder esta oportunidade histórica. Será o momento da apresentação de propostas para que o eleitorado livremente possa escolher um caminho. E para isso é necessário ampla discussão de ideias e não se perder em questões menores ou, muito menos, cair em provocação de extremistas que priorizaram temas absolutamente secundários e carregados de reacionarismo, como, por exemplo, ser ou não favorável a “banheiro trans.”

A segunda década desde século foi marcada por anos de recessão econômica. E, socialmente, o país deu um grande salto para trás. Hoje, mais da metade da população vive em insegurança alimentar, isto só para apresentar um dado. É tarefa urgente, urgentíssima, apontar soluções para que o Brasil volte a crescer e possa retomar – e vencer – os grandes problemas nacionais.



O incendiário do Palácio do Planalto

 Editorial

O Estado de São Paulo 

O presidente Jair Bolsonaro armou mais uma crise para seu próprio governo ao prometer reajustes salariais às carreiras policiais ligadas ao Ministério da Justiça, deflagrando uma reação em todas as demais categorias de servidores públicos. Em um país que já sofre com inflação alta, juros em ascensão e desemprego elevado em meio ao recrudescimento de casos de covid-19 e, agora, também de influenza, tudo que a sociedade não precisava era de uma ameaça de greve. A entrega de cargos de chefia por funcionários da Receita Federal, Banco Central e auditores fiscais do Trabalho é mais um elemento de instabilidade para a economia, cujas projeções de crescimento foram reduzidas a 0,36% para este ano, conforme o mais recente boletim Focus.

A resposta da elite do funcionalismo cresce a cada dia, e nem poderia se esperar algo diferente. De acordo com o Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil (Sindifisco), cerca de mil servidores já abriram mão de funções comissionadas e, segundo o Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal), quase metade dos 3,5 mil em cargos de confiança teria se comprometido a fazer o mesmo. O Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado (Fonacate), associação formada por mais de 30 entidades que representam 200 mil pessoas, marcou uma paralisação para 18 de janeiro e não descarta uma greve geral em fevereiro.

A maioria do funcionalismo público não recebe aumento desde 2017 e acumula perdas salariais de 27,2%. Não é privilégio deles. No setor privado, os trabalhadores com carteira assinada obtiveram reajuste de 6,5% entre janeiro e novembro, segundo o Salariômetro da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), também inferior à inflação. O coordenador do levantamento, Hélio Zylberstjan, explicou ao Estado que isso é resultado de uma combinação perversa entre inflação e recessão, que reduz o poder de barganha dos sindicatos. A exceção à regra são justamente os funcionários públicos, cuja estabilidade assegura que protestos não terminem em demissão.

Não se trata de demonizar o instituto da estabilidade, que garantiu o mínimo de independência e autonomia aos servidores em um governo comandado por alguém que submete instituições de Estado a seus propósitos particulares. A questão é que essas categorias vivem uma realidade mais confortável que a dos trabalhadores de forma geral. No topo da carreira, parte do funcionalismo público pode ganhar até R$ 31 mil. Já a renda média dos ocupados formais e informais atingiu o piso de R$ 2.449 no trimestre encerrado em outubro, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, o pior de toda a série histórica, que teve início em 2012.

A desfaçatez de Bolsonaro é tamanha que tenta revestir um agrado à sua base eleitoral de “reestruturação”, algo que só viria por meio de uma ampla reforma administrativa. Ao elevar os rendimentos da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Departamento Penitenciário Nacional em plena recessão, ele indiretamente incentivou o restante de seus apoiadores a cobrar a mesma benesse. O País não deve se surpreender quando policiais civis e militares começarem a pressionar os governadores por aumento em seus rendimentos – quem não se lembra das crises de segurança pública no Espírito Santo e no Ceará? De sua parte, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que outras duas categorias até agora não reveladas podem ser contempladas por reajustes, o que é quase um estímulo para os servidores federais mostrarem sua força com filas de caminhões em portos e fronteiras.

Para completar, o governo dá mais uma prova de ser incapaz de elaborar um Orçamento que cumpra as exigências legais. Como mostrou o Estado, a verba reservada é suficiente para uma parte de 2022, mas não contempla o necessário para todos os meses de 2023, o que resultará em um aumento menor ou no envio de mais um projeto de lei ao Congresso para ampliar os recursos. Nunca se viu tamanho amadorismo no setor público.


Presidente da Anvisa rebate Bolsonaro e exige retratação

 Da Redação 

Veja online

Antonio Barra Torres reagiu às declarações do presidente sobre suposto interesse da agência na aprovação da imunização infantil contra Covid-19

  Pedro Ladeira/.

Bolsonaro e Torres: clima tenso pela condução da resposta à pandemia 

O diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, rebateu neste sábado, 8, os ataques de Jair Bolsonaro e exigiu uma retratação por parte do presidente. Há dois dias, Bolsonaro questionou quais seriam os “interesses” da Anvisa em aprovar a vacinação de crianças contra a Covid-19.

Em nota emitida por seu gabinete, Barra Torres desafiou Bolsonaro a detalhar suas suspeitas. “Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, Senhor Presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa aliás, sobre qualquer um que trabalhe hoje na Anvisa, que com orgulho eu tenho o privilégio de integrar.”

Na última quinta-feira, 6, Bolsonaro manteve tom crítico à aprovação da vacinação de crianças. “O que que está por trás disso? Qual o interesse da Anvisa por trás disso aí? Qual o interesse das pessoas taradas por vacina?”, declarou em entrevista à TV Nova Nordeste.

Citando a religiosidade pregada por Bolsonaro, Barra Torres, que é médico e contra-almirante da reserva, e portanto, membro do alto escalão das Forças Armadas, exigiu uma retratação do presidente.

 “Agora, se o Senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate. Estamos combatendo o mesmo inimigo e ainda há muita guerra pela frente”, disse Barra Torres.

Por fim, Barra Torres disse estar “combatendo o mesmo inimigo” que Bolsonaro e ressaltou que “Rever uma fala ou um ato errado não diminuirá o senhor em nada. Muito pelo contrário.”

Confira, abaixo, a nota de Barra Torres:

Nota – Gabinete do Diretor Presidente da Anvisa, Sr. Antonio Barra Torres

Em relação ao recente questionamento do Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, quanto à vacinação de crianças de 05 a 11 anos, no qual pergunta “Qual o interesse da Anvisa por trás disso aí?”, o Diretor Presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, responde:

Senhor Presidente, como Oficial General da Marinha do Brasil, servi ao meu país por 32 anos. Pautei minha vida pessoal em austeridade e honra. Honra à minha família que, com dificuldades de todo o tipo, permitiram que eu tivesse acesso à melhor educação possível, para o único filho de uma auxiliar de enfermagem e um ferroviário.

Como médico, Senhor Presidente, procurei manter a razão à frente do sentimento. Mas sofri a cada perda, lamentei cada fracasso, e fiz questão de ser eu mesmo, o portador das piores notícias, quando a morte tomou de mim um paciente.

Como cristão, Senhor Presidente, busquei cumprir os mandamentos, mesmo tendo eu abraçado a carreira das armas. Nunca levantei falso testemunho.

Vou morrer sem conhecer riqueza Senhor Presidente. Mas vou morrer digno. Nunca me apropriei do que não fosse meu e nem pretendo fazer isso, à frente da Anvisa. Prezo muito os valores morais que meus pais praticaram e que pelo exemplo deles eu pude somar ao meu caráter.

Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, Senhor Presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa aliás, sobre qualquer um que trabalhe hoje na Anvisa, que com orgulho eu tenho o privilégio de integrar.

Agora, se o Senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate.

Estamos combatendo o mesmo inimigo e ainda há muita guerra pela frente.

Rever uma fala ou um ato errado não diminuirá o senhor em nada. Muito pelo contrário.

 Antonio Barra Torres

Diretor Presidente – Anvisa

Contra-Almirante RM1 Médico

Marinha do Brasil


Por que o editorial do Jornal Nacional contra Bolsonaro é histórico

 Matheus Leitão 

Veja online

William Bonner e Renata Vasconcellos fizeram declarações corajosas e necessárias contra o presidente

  Divulgação/TV Globo

William Bonner e Renata Vasconcellos no novo estúdio do 'Jornal Nacional

A noite desta quinta-feira, 6, foi histórica para o jornalismo brasileiro. Num ato de coragem e de luta em favor da vida, o Jornal Nacional divulgou um editorial criticando as atitudes irresponsáveis do presidente Jair Bolsonaro nos últimos dias em relação à vacinação das crianças contra a Covid. Editoriais no JN são raros, mas eles o fazem nos momentos mais graves do país.

William Bonner começou dizendo que “as declarações do presidente Jair Bolsonaro sobre as mortes de crianças por Covid afrontam a verdade e desrespeitam o luto de milhares de brasileiros”.

A afirmação não poderia ser mais verdadeira. Como a coluna mostrou nesta quarta-feira, 6, Bolsonaro é incansável na luta contra a saúde e continua espalhando mentiras sobre os casos de Covid em crianças com idade entre 5 e 11 anos.

Para piorar, o presidente ameaça a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e insinua que há interesses por trás do esforço pela imunização das crianças. Há, sim, o interesse de salvar vidas. Apenas isso. Bonner foi à lei que criou a Anvisa para explicar esse “interesse” que pode estar por trás. 

“O interesse da Anvisa está expresso na lei que a criou. Coordenar o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária em defesa da saúde da população”. Lembrou que a lei estabelece que a agência é independente, e que o governo precisa garantir essa prerrogativa. “Não é isso que o presidente tem feito ao ameaçar divulgar os nomes dos integrantes da Anvisa que aprovaram a vacinação infantil”.

O editorial do Jornal Nacional é um grito. Um grito de quem não aguenta mais ouvir calado os absurdos ditos pelo presidente do país. Um grito de um jornalismo que tenta mostrar ao Brasil que as Fake News não vão superar os fatos. William Bonner e Renata Vasconcellos fizeram o que muitos gostariam de fazer: deixaram claro que Bolsonaro precisa ser responsabilizado.

“O presidente Jair Bolsonaro é responsável pelo que diz, pelo que faz… espera-se que venha também a ser responsável por todas as consequências daquilo que faz e diz”, concluiu Bonner.

A frase é uma convocação ao Ministério Público para agir. Enquanto o Procurador-Geral da República, Augusto Aras, finge em não ver os crimes que estão sendo cometidos pelo presidente, parte da população clama por responsabilização.

Bolsonaro já cometeu diversos crimes desde que assumiu o poder, mas atingiu o ápice ironizando o sofrimento das famílias que perderam suas crianças para a Covid.

Esse crime, assim como tantos outros, vai ficar para a história e o Jornal Nacional poderá dizer que fez a sua parte na resistência do país para tentar parar o presidente.


Em editorial, Jornal Nacional diz que Bolsonaro afronta a verdade e desrespeita técnicos da Anvisa e o luto de milhares de brasileiros

Portal G1

 O editorial foi lido pelos âncoras do Jornal Nacional, William Bonner e Renata Vasconcelos

 FOTO: REPRODUCAO/TVGLOBO 

Editorial do JN criticou o presidente Jair Bolsonaro - 

Em editorial exibido nesta quinta-feira (6), o Jornal Nacional criticou o presidente Jair Bolsonaro (PL). Lido pelos âncoras do jornal, William Bonner e Renata Vasconcelos, o texto questionou a demora em autorizar a vacinação contra covid-19 em crianças e pediu que o presidente fosse responsabilizado pelos seus atos e falas.

O editorial foi lido após a exibição de uma reportagem que falava sobre a eficácia e segurança da vacina em crianças. Após isso, foi informado pelos apresentadores que o Palácio do Planalto não quis responder aos questionamentos do JN.

."As declarações do presidente Jair Bolsonaro sobre as mortes de crianças por Covid afrontam a verdade e desrespeitam o luto de milhares de brasileiros, parentes e amigos das mais de 300 vítimas de cinco a 11 anos.", iniciou Willian Bonner. Que continuou: "O presidente também desrespeita todos os técnicos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária ao questionar qual seria o interesse da Anvisa com a autorização da vacinação de crianças. O interesse da Anvisa está expresso na lei qual criou: coordenar o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária em defesa da saúde da população".

"O quarto artigo da lei determina que a Agência atue como uma entidade administrativa independente, e que as prerrogativas necessárias ao exercício adequado de suas atribuições sejam asseguradas. Não é isso que o presidente tem feito ao ameaçar divulgar nomes de integrantes da Anvisa que aprovaram a vacinação infantil e, agora, ao questionar a lisura do órgão", concluiu o âncora.

.Então, Renata prosseguiu: "Por fim, as declarações do presidente Jair Bolsonaro contrastam com aquilo que prevê o artigo 196 da Constituição que ele jurou respeitar. A saúde é direito de todos os cidadãos e dever do Estado. O governo Bolsonaro retardou a decisão sobre as vacinas para crianças desde o dia 16 de dezembro até ontem, data limite imposta pelo Supremo Tribunal Federal. Convocou uma consulta pública estapafúrdia, porque remédios não podem ser aprovados pelo público leigo, mas por cientistas".

"E, em razão dessa demora, as famílias brasileiras têm ainda que aguardar ao menos mais sete dias até a chegada das primeiras doses pediátricas. E como se não bastasse, hoje ele insistiu em atacar as vacinas", encerrou Renata.

O texto termina com Bonner pedindo que o presidente seja responsabilizado: O presidente Jair Bolsonaro é responsável pelo que diz, pelo que faz. Espera-se que venha também a ser responsável por todas as consequências daquilo que faz e diz". 


Bolsonaro ultrapassa todos os limites e já não merece qualquer tipo de perdão

 Ricardo Kertzman

Revista ISTOÉ 

(Crédito: José Dias/PR)

Acabei de assistir ao JN dessa noite (quinta-feira, 6 de janeiro) e sinceramente estou sem palavras para descrever o que estou sentindo.

Você pode detestar a Globo e o William Bonner ou a Renata Vasconcellos, mas você jamais pode afirmar que o JN mente ou divulga notícias falsas, ainda que edição, tom de voz e etc, deem margem à manipulação.

O fato é: Jair Bolsonaro, Bia Kicis e toda essa gente imunda que orbita esse desgoverno tirânico precisam ser impedidos e punidos imediatamente.

Dias atrás, uma deputada bolsonarista inescrupulosa – Carla Zambelli – associou o desmaio de um apresentador do SBT (ao vivo) à vacinação contra a Covid, sem que exista qualquer evidência, minimamente próxima disso.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, uma espécie de Queiroz do presidente no ministério, se é que me entendem, vem repetindo as barbaridades ditas por Bolsonaro em relação à vacinação infantil e mortes de crianças. São falas e atitudes imorais e criminosas.

Bia Kicis, outra bate-pau do bolsonarismo rasteiro, de forma abjeta e 100% fascistóide, divulgou propositalmente os dados de três médicos que se manifestaram a favor das vacinas para crianças de cinco a onze anos.

(Detalhe: eu já tive meus dados divulgados por um bolsonarista imundo, e sei do que são capazes os lunáticos covardes que apoiam, com unhas e dentes, esse cretino que ocupa o Planalto).

O que Jair Bolsonaro disse a respeito da Anvisa e seus técnicos – servidores de carreira respeitados e apolíticos em suas decisões – é muito mais do que inaceitável. É simplesmente imoral e, outra vez, criminoso. Aliás, se isso não configura crime de responsabilidade, punível com o impeachment, eu não sei mais o que poderia configurar.

Para piorar, o mitômano homicida duvidou que existam mortes de crianças, tal como cansou de fazer a respeito das mortes por Covid de adultos e idosos. Inclusive, não custa lembrar, estimulou invasões a hospitais, no começo da pandemia, com a desculpa de que não haveria doentes internados em certas unidades de saúde.

Já são quase 2 mil pais e mães desesperados pela morte de filhos menores de idade. São cerca de 300 mortes apenas em crianças de cinco a onze anos. Mas Bolsonaro, de forma deplorável, cafajeste, repugnante, coloca em dúvida a veracidade do luto de um pai, de uma mãe, de irmãos e avós. É asqueroso além do suportável.

Estados Unidos e parte da Europa já aplicaram mais de 10 milhões de doses de vacinas contra a covid em crianças e nenhum efeito adverso grave foi relatado. A Sociedade Brasileira de Pediatria (pediatras, meu Deus!!) recomendou a vacinação dos pequeninos. Mas Bolsonaro, o sábio mito, os chama de “tarados da vacina”.

Até hoje eu respeitava, civilizada e democraticamente, a opinião de quem apoia esse monstro. Ou melhor, essa monstruosidade. Eu respeitava o direito não só de opinião, mas de ideologia e posição política de quem é bolsonarista.

Porém, a partir do que assisti há pouco, confesso que não terei mais qualquer apreço ou mera condição de me relacionar, mesmo que esporádica e/ou socialmente, com quem ainda tenha a coragem de defender Jair Bolsonaro.

Aliás, vou além: se você é daqueles que dizem que irão votar neste traste porque “contra o PT voto até no capeta” (erro que grosseiramente cometi em 2018, e que me penitencio todos os dias) saiba que, para mim, tanto quanto quem diz que votará no “mito” por gosto, você é um(a) desqualificado(a) e não me merece qualquer sentimento senão repúdio e desprezo.

Quem apoia assassinos não é melhor do que… assassinos! Quem apoia Bolsonaro, que fique claro, não é melhor do que o próprio. Sim, eu sei que, infelizmente, o que digo talvez me faça perder amigos antigos e queridos. Mas prefiro isso ao silêncio diante do que acabei de ver.

Há outros candidatos que não o meliante de São Bernardo – outro ser asqueroso, diga-se de passagem. E há o voto em branco. Portanto, se você votar neste pedaço de fezes ambulante, assuma que o faz, porque não é nada melhor do que ele.

Não seja covarde e coloque a culpa no PT. Ao contrário de 2018, hoje você sabe quem é Jair Bolsonaro; quem são seus filhos; quem são Queiroz, Bia Kicis, Carla Zambelli e outros da espécie. Você sabe o que querem, como agem e do que são capazes. Ou seja, não há absolutamente nada pior do que essa gente. Não há nada que justifique você estar ao lado disso.

Há uma máxima que diz: “ou você está comigo ou está contra mim”. Pois bem. Tomo-a emprestada e digo: se você está com Bolsonaro, está contra mim. Seja feliz com suas escolhas e as consequências. De preferência, bem longe desse cara aqui.


Corno, veado ou ladrão.

 Carlos Brickmann

 


No tempo em que duas das palavras deste título jamais seriam publicadas num jornal, o grande jornalista Ricardo Sérgio Mendes me apresentou à mais poderosa deputada que passou pela Assembleia paulista, Conceição da Costa Neves. “Este é o Carlinhos, do Jornal da Tarde. É ladrão, certo?” Eu fiquei paralisado, Conceição riu muito e explicou: “Dizem que para mim todo homem é corno, veado ou ladrão. Ele escolheu a palavra mais suave”.

De lá para cá a guerra fria acabou, outra guerra fria começou, a Internet apareceu, telefone fixo que era caríssimo ficou até barato e ninguém mais o quer, e a política não evoluiu nada. Lula pergunta em público cadê as mulheres de grelo duro, Bolsonaro fica mudo se não puder falar palavrões onde quer que seja, de passeata a reunião ministerial. Houve algum tempo de civilidade, interrompido vez por outra quando perguntavam por que um candidato não era casado, mas o eleitor rejeitava esse tipo de abuso. Em debate, um deputado mandou o outro calar a boca: “você é veado!” O oponente manteve a calma: “E daí? Seu filho também é”. Tréplica: “Meu filho não é veado. É gilete”.

Agora, por uma bobagem qualquer, o filho 02 de Bolsonaro afirmou que um aliado era corno. O aliado estranhou o tom de crítica: devolveu o adjetivo, deu o nome de quem, garante, tinha posto chifres no agora oponente, citou o pai do novo desafeto como portador de frondosas galhadas. E o país? O país que se afogue enquanto os chifres se chocam.

Patropi

Em outubro próximo estaremos elegendo o presidente da República. E a campanha está seguindo o ritmo dos insultos, não de caminhos. Terceira via? Quais as ideias dos candidatos que pretendem barrar o caminho de Lula e de Bolsonaro? A propósito, quais as propostas de Lula que não se refiram aos cumpanhêro Maduro, Ortega ou ao poste da família Castro? Bolsonaro, além de brigar com China, EUA, vizinhos latino-americanos e União Europeia, tem algo a propor em vez da volta do carvão mineral como fonte de energia?

Desse jeito, vamos saber quais candidatos se enquadram nas categorias de corno, veado, ladrão ou traíra, mas jamais saberemos o que é que pensam.

Maria Moita

 Lembra-se da esplêndida Maria Moita, de Carlos Lyra e Vinícius? “(...) vou pedir a meu babalorixá/pra fazer uma oração pra Xangô/e por pra trabalhar gente que nunca trabalhou (...)” Não tem semelhança com alguém que passa todos os feriados na praia, de jet ski, andando de moto, rodeado de serviçais e puxa-sacos, ignorando as tempestades que ilharam boa parte do Nordeste e chamando de maldoso quem diz que ele estava de férias?

Outras palavras

 “Fizemos coisas fantásticas ao longo desses dias que dificilmente outro governo estaria fazendo. O presidente não tem férias. É maldoso quem fala que estou de férias. Eu dou minhas fugidas de jet ski. Dou lá uns cavalos de pau no Beto Carreiro”. Entre aspas, foi o que Bolsonaro disse. Mas, cá entre nós, se dançar funk no iate de amigo rico, passear de jet-ski, ir ao parque de diversões, pilotar moto e viajar em avião oficial para ver artistas sertanejos jogar futebol com o filho 02 não é estar de férias, qual o nome desse período?

Fatia no bolo

 Mais um expoente do Centrão, com selo de qualidade (o chefe até já está presa) fechando com a candidatura de Bolsonaro à reeleição: o PTB, de Roberto Jefferson, se oferece até para alojar parlamentares malvistos na sua atual legenda, como Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli e Guiga Peixoto, todos do PSL paulista. Há uns dois meses, Jefferson acusou Bolsonaro e seu filho 01, o senador Flávio, de terem se viciado em dinheiro público.

Não faz mal: os governantes sabem o tipo de argumentos que convencem o Centrão da ala mais religiosa (adeptos da Oração de São Francisco de Assis, “é dando que se recebe”, e que jamais negociam política sem ter um terço no bolso). Bolsonaro não é exceção. O chefe de outro grande partido do Centrão, Ciro Nogueira, do PP, não faz muito tempo acusava Bolsonaro de ser fascista e hoje não só o apoia como é ministro em seu Governo. E, sejamos justos, não é pela perspectiva de vitória eleitoral que estão com Bolsonaro. Ganhar não é importante para um político do grupo. Às vezes é melhor apoiar o perdedor.

A vida real

 Às vezes, o vencedor fica muito seguro de si. Que o digam os generais descartados pelo Governo Bolsonaro. Ou Bebbiano. Ou Magno Malta. Ou Moro, ou Mandetta, ou Guedes, que ditava a política econômica e hoje só pode dizer “Sim, Excelência”, e “Sim, meu Senhor”. Já quem tem menos chances oferece condições mais substanciosas a quem puder ajudá-lo. Após receber as prendas, qualquer coisa assim, não se importam em tornar-se páginas viradas. Pagas as promessas, podem virar oposição ou voltar à situação, sem problemas.

Voltando ao título desta coluna, lavou, enxugou, está novo.


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Sem teatro, o FBI já pegou 700

 Elio Gaspari

O Globo

A Polícia Federal americana pescou os lambaris, falta o peixe gordo

Amanhã completa-se um ano da insurreição trumpista que pretendia melar o resultado da eleição de Joe Biden. Cinco dias depois da invasão do Capitólio, Steven M. D’Antuono, chefe do escritório de Washington do Federal Bureau of Investigation (FBI), avisou: “Nossos agentes vão bater na tua porta”. Até agora, bateram numas mil portas e prenderam ou indiciaram 724 pessoas de 45 estados americanos. Abriram 170 investigações e partiram da análise de 100 mil peças de comunicação digital. Sem lavajatismo, quase todo dia havia alguém sendo interrogado. O sujeito dizia que esteve no Capitólio por dez minutos, e o FBI mostrava, com vídeos, que ele esteve lá das 14h45 até por volta das 15h05, com um amigo que agarrou um policial e empurrou uma porta. Outro achou que passara despercebido, e o FBI bateu à sua porta em outubro, mostrando-lhe que esteve no Capitólio por pelo menos 17 minutos. Outros, que posaram ao lado de estátuas ou quadros, foram logo achados. Um discreto desordeiro que passou despercebido articulou um ataque a uma prisão. Seu cúmplice era um agente disfarçado.

Os agentes procuraram agulhas no palheiro, mas nunca dispuseram de tantos meios para achá-las. Exibicionistas incriminaram-se nas redes sociais. Além disso, o FBI rastreou os celulares que estavam ligados no Capitólio e na vizinhança durante as horas dos distúrbios. A isso somaram-se as câmeras dos policiais e pistas oferecidas por centenas de pessoas.

Sempre sem lavajatismo, em junho os condenados eram cem. Alguns tomaram penas leves, com liberdade condicional; outros, que vandalizaram o prédio ou agrediram policiais, tomaram até cinco anos de cadeia. Boa parte da turma que arrombou janelas foi alcançada. Um deles, apanhado em julho, estava com a mulher e dois filhos. Entre os atletas que escalaram as paredes do prédio havia um fuzileiro naval da reserva. Também havia sido fuzileiro o primeiro a entrar à força na Rotunda do Capitólio, às 14h25. O rapaz de 19 anos que se filmou botando os pés sobre a mesa da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, foi alcançado em abril. O palhaço que circulou com roupa de bicho e chifres na cabeça foi alcançado três dias depois e tomou até 41 meses de prisão. Queria notoriedade, tornou-se exemplo.

Havia de tudo naquela multidão: jovens, velhos, famílias, veteranos, pastores, policiais (alguns pastores policiais), professores e malucos fantasiados, todos movidos pela realidade paralela instigada pelo presidente Donald Trump. 

Eram todos lambaris e, no primeiro aniversário da insurreição, peixe gordo se protege, tentando blindar a documentação da Casa Branca relacionada com o episódio. Sabe-se que o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani foi um dos instigadores, muitas vezes tendo tomado algumas a mais. Sabe-se também que Ivanka, filha de Trump, tentou chamá-lo à razão, mas ele passou horas diante dos aparelhos de televisão. Seus advogados pediram à Suprema Corte que preservasse o sigilo das movimentações na Presidência.

Deve-se esperar que a Corte se pronuncie, pois o caso é constitucionalmente intrigante. O ex-presidente quer manter o sigilo que Joe Biden, seu rival na campanha, dispensou. O FBI brilhou, mas, nos limites de sua investigação, só pegou lambaris.


A sensatez do general que Bolsonaro pode ver como ato de rebeldia

  Míriam Leitão

O Globo

 | Cristiano Mariz

Jair Bolsonaro e o general Paulo Sérgio Nogueira no Dia do Soldado 

A nova orientação do comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira, de Oliveira, aos comandados é basicamente uma proposta de bom senso e de respeito ao que dizem as autoridades sanitárias, mas diante dos absurdos que temos vivido com o governo Bolsonaro virou notícia. Parece ser revolucionário e um ato de rebeldia. Mas é, como qualquer pessoa pode conferir lendo as oito páginas da orientação do general, apenas bom senso.Os dois pontos que mais chamaram a atenção foram os itens: 22 e 48.

O 48 estabelece que os integrantes do Exército devem evitar difundir informação nas redes sociais sem confirmação de fonte e veracidade da informação. E pede que eles expliquem esse mesmo comportamento aos seus familiares. E a 22 estabelece: “avaliar o retorno às atividades presenciais dos militares e dos servidores, desde que respeitado o período de 15 dias após a imunização ( uma ou duas doses dependendo do imunizante adotado). Os casos omissos sobre cobertura vacinal deverão ser submetidos à apreciação do DGP ( Departamento Geral de Pessoal) para adoção de procedimentos específicos”.

O que é isso? Sensatez. Exatamente o que foi suprimido do governo em qualquer decisão que é tomada diretamente pelo presidente Jair Bolsonaro.

Recentemente o site "Metrópoles" publicou que a cobertura vacinal nas Forças Armadas é menor que no Brasil. No país como um todo chega a 75%. No Exército é 56,3% e na Aeronáutica é 54,9%. Ao todo, 36 mil militares das duas armas se recusam a serem vacinados. Chega a 15% do efetivo Exército. Isso é muito preocupante por várias razões.

O documento tem oito páginas. Estabelece também que quem estiver em viagem ao exterior tem que fazer teste PCR antes de embarcar e ao desembarcar no Brasil. Diz que as medidas protetivas ( uso de máscara, distanciamento e higiene das mãos devem ser observada).

No caso das mentiras que circulam nas redes, o texto diz expressamente: “Não deverá haver difusão de mensagens em redes sociais sem confirmação de fonte e da veracidade da informação. Além disso os militares deverão orientar seus familiares e outras pessoas que compartilham do seu convivio para que tenham a mesma conduta”.

Isso faz um combate à difusão de fake news, mentiras, desinformação por parte dos militares, mas além disso os transforma em núcleo de difusão das boas práticas. Isso é mais importante ainda nesse ano eleitoral e em que o mundo vive ainda uma pandemia.


O general e o capitão, Damares e o camarão

 Antonio Carlos Prado

Revista ISTOÉ 

Imagem divulgada no perfil oficial do Twitter de Jair Bolsonaro (@jairbolsonaro), 

mostra o presidente posando para foto após ser internado em um hospital 

em São Paulo, em 3 de janeiro de 2021 - 

Você, com certeza, já escutou a seguinte expressão de alguém que passou o dia fritando na areia: “fiquei vermelho feito um camarão”.

Afirmo porque eu, que detesto praias e posso até morrer de inchaço da glote se comer o crustáceo, já escutei a frase, e bem mais de uma vez: “fiquei vermelho feito um camarão”; “fulana está vermelha como camarão”; “gente, ele parece um camarão!”.

O meu gosto ou desgosto por sol e areia ou a minha alérgica glote, no entanto, não vêm ao caso — o que interessa é a frase “fiquei vermelho feito um camarão”.

Camarão… vermelho; vermelho!… camarão! O general Heleno, rápido feito raia no raciocínio, adivinhou:

— Comunista!

O capitão Bolsonaro, também veloz nas conclusões, berrou:

— Co-mu-nis-ta, talquei!? Chama o Brilhante Ustra! Ele já morreu? O Ustra morreu? Chama outro torturador! Pendura o camarão como isca de anzol que ele fala! Chega de mi-mi-mi!

Todo ser vivo quer seguir vivendo, tem gente que não entende isso, acha que “todo mundo tem mesmo de morrer um dia”. Gente que é genocida do mar. Não percebe que camarão não gosta de ser pescado, não gosta de ser fritado, não gosta de ser mastigado e muito menos de ser engolido inteiro. Aí se vinga, empaca, fica lá paradão, nem para frente nem para trás, decreta greve geral.

O jeito é hospital, sondas nasogástricas, tratar de tirar o bicho, mas a ministra Damares protestou:

— Isso é aborto, vai ver está vivo, é melhor gestar e dar à luz.

Prevaleceu a vontade do general e do capitão. E dizem que no mar tudo que é lula está comemorando a revolução.