quinta-feira, dezembro 30, 2010

O mito e o mistificador

Adelson Elias Vasconcellos

Neste apagar das luzes de 2010, bem que o senhor Luiz Inácio poderia ter nos poupado de constrangimentos e humilhações. Afinal, faltando poucas horas para deixar de ser “o” para se tornar “ex”, um pouco de senso do ridículo não lhe faria falta. Um pouco de menos ignorância e mau caratismo, também não.

O futuro “ex” parece não perceber que, na política, como em tudo na vida humana, ele é passageiro. A vida e a obra de cada um cabe aos “outros” o julgamento, não a si mesmo. Lula quer ele próprio escrever o libelo em que a História o avaliará. Claro que se trata de uma arrogância e uma estupidez. Mas que seria de Lula se tais “predicados” não fizessem parte de seu cardápio pessoal?

Para mim, a avaliação de seus oito anos de reinado, sequer passa perto dos seis volumes que registrou em cartório. Aquilo não é material para se levar a sério, deve ser classificado na faixa de obras de ficção. Nada além disto. Como, ainda, ponho de lado toda a bazófia e a verborragia fedorenta destilada em seus discursos, muitos apenas de ocasião. Lula sempre foi e jamais deixará de ser um político oportunista e demagogo, e, como governante, um irresponsável que unicamente pensa em seu proveito próprio mesmo que tal proveito prejudique o país que governe. Tal inconsequência foi uma constante em seu governo . Também não o julgo pelo tal “carisma” ou pela tal “popularidade” e “aprovação”. Tiririca, um simples e mero palhaço, foi eleito com festa e tem enorme prestígio nacional, mas como palhaço, não como político.

Julgo Lula por dois vetores: pelo país que poderia ter deixado, e por sua repetida, exaustiva e totalmente desnecessária – porque inútil e desagregadora – louvação à ignorância. O homem esqueceu que, apesar de ser ele o presidente, o seu governo não foi construído unicamente por seu trabalho. Esqueceu que um “governo”, não sendo ditatorial, é formado por uma equipe, muitas vezes pessoas de maior gabarito, formação e competência que o próprio governante. São elas que fazem acontecer, compete a elas gerir os recursos, tomar decisões, encontrar soluções e dar uma cara ao governo. Isto é elementar, não para Lula, claro, que se acha acima dos demais mortais. Sua arrogância não tem limites.

Quanto ao segundo fator, suas mesuras constantes à ignorância, bem, basta ver o baixo índice de moralidade que campeia na administração pública, em todos os seus níveis. Em seu favor, tal descalabro não teve começo agora, vem de décadas e mais décadas de abusos. Mas é em seu reinado que a moralidade mais encontrou favorecimento para se decompor. Será preciso uma depuração completa, uma total higienização do pensamento nacional, para nos livrarmos da cultura que Lula incrustou na vida política brasileira.

E, dado que termina seu governo com os tais índices de aprovação nas alturas – conforme os institutos de pesquisas “encomendados” – fica claro que poderia ter feito mais e melhor, e não mais e pior, como se constata neste final de 2010.

A partir daí o primeiro vetor assume sua real dimensão. Que país Lula poderia ter deixado, e não o fez. Em todos os campos é visível que Lula contribuiu muito mais para mostrar o que faltou fazer do que obras prontas e realizadas. Tire-se o discurso e a propaganda, e vocês se depararão com um país faminto pela presença competente e permanente do Estado. É impressionante as oportunidades que deixamos de aproveitar para alavancar o desenvolvimento do país. Confronte todos os indicadores de eficiência, em todos os setores, e logo perceberemos que Lula consagrou o Brasil como o menos eficiente dos governos que o país já teve. Nos rankings de avaliação, em que eficiência é o indicador principal,  não apenas perdemos terreno, como ainda ficamos estacionados naqueles em que nossa era um pouqinho melhor. Neste sentido, na educação e na qualidade de vida o país derrapou na curva, vergonhosamente. Podendo fazer a revolução em favor do país, Lula optou por não fazer. E, claro, como outros países estão fazendo seus deveres de casa, não apenas estacionamos, mas fomos ultrapassados e aumentamos ainda mais nosso atraso.

Festejam-se indicadores econômicos e sociais como conquistas? Ora, volte-se no tempo e se busque o verdadeiro semeador dos bons frutos que hoje colhemos. Não, nem isso coube a Lula fazer. Até pelo contrário. Quando da semeadura, tentou iterferir e impedir o plantio.

Como venho afirmando há muito tempo, Lula é obra da enorme massa ignorante que habita o Brasil. Não lhe nego o oportunismo político: poucos no país, ontem ou hoje, se equiparam a ele. Desta virtude, resultou um personagem mitificado e mistificador. E poucos conseguem visualizar esta realidade, dado que os fatos são presentes demais, será preciso espaço de tempo necessário para o país despertar desta letargia. Claro que sempre haverá quem sequer deseje sair da cegueira. Afinal, há ainda muitas viúvas de Getúlio entre nós...

Nenhum outro presidente, contudo, teve tamanho volume de condições favoráveis para construir uma grandiosa obra em favor do país como Lula. Mas nenhum outro insistiu tanto em desperdiçá-las. Ao insistir em ele próprio escolher sua sucessora, sequestrou de forma miserável a vontade popular apenas para consagrar seu nome, para esparramar de forma bestial seu mito, seu culto, seu personalismo. Deste modo, e como nenhum outro jamais ousou fazer, Lula tornou o povo brasileiro – ao menos sua grande maioria – apenas uma massa de manobra para sua personificação exclusiva.

Assim, Dilma terá que governar dois Brasis em um mesmo mandato: o mitológico, obra de Lula e sua corte, e o real, em que não faltam problemas e carências, todas deixadas de lado por Lula da mitologia e da mistificação. Resta saber para qual Brasil Dilma dará priroridade...

A vitória da aparência sobre a realidade

J.R.Guzzo, Revista Veja

O registro em cartório de cerca de 2.200 páginas contendo todas obras, realizações e triunfos atribuídos por Lula a si mesmo é uma inutilidade, mas fecha à perfeição um governo em que as versões valeram mais que os fatos.

Pouco antes de completar o último dia de mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou imprimir de uma só vez seis livros de formato extravagante, com cerca de 2.200 páginas no total, para deixar anotadas todas as obras, realizações e triunfos que, segundo ele próprio, seu governo deixará para oi Brasil. Mandou até registrar em cartório o que está escrito ali, fiel à antiga tradição dos políticos brasileiros de colar estampilha e reconhecer firma em declarações ou promessas que fazem, na esperança de que um carimbo no tabelionato de notas possa lhes dar uma cara mais verdadeira aos olhos do público em geral. É mais perda de tempo do que qualquer outra coisa. Quem é que vaia ter coragem de ler uma montoeira de papel desse tamanho? O próprio Lula, com certeza, não vai – algo que combina muito bem, aliás, com a despedida de um governo que representou com perfeição a vitória da aparência sobre a realidade. De nada serve, além disso, encarar esse tratado em seis volumes para ser informado, por exemplo, de que Lula fez o “trem-bala” e outras maravilhas; nem o trem-bala nem as maravilhas passam a existir só porque os livros dizem que existem. Mais que tudo, a obra é inútil porque não mostra o que houve de melhor, realmente, no governo que agora se encerra. E o melhor do governo Lula foi o que ele não fez. O lado positivo de seus oito anos na Presidência começa e termina aí – no mal que poderia ater feito e acabou não fazendo. Não é mais do que isso. Também não é menos.

Naturalmente, um governo como o de Lula, que acaba com mais 80% de aprovação popular segundo os institutos de pesquisa, leva um julgamento quase automático: só pode ter sido muito bom, com números desse porte. Como seria possível haver qualquer opinião diferente? De fato, 80% da população brasileira, ou até mais, é uma multidão. Ao mesmo tempo, é igualmente verdadeiro que não existe nada de bom, em si, numa multidão – o fato de juntar muitos, ou quase todos, não a torna mais virtuosa nem quer dizer que esteja certa. Maiorias servem para escolher quem vai governar; não é sua função definir o que é bom e o que é ruim, nem tornar obrigatório que se concorde com elas. A população brasileira, em massa, acha que Lula fez um grande governo? Tudo bem, e melhor para ele. Talvez seja essa mesmo, por sinal, a maneira mais prática ou eficaz de julgar um presidente e sua obra. Nada disso, porém, tem força de mudar os fatos. Os fatos são o que são, não aquilo que parecem ou aquilo que se acha deles; o que aconteceu é aquilo que foi possível observar, não aquilo que se conta ou se imagina. No caso de Lula, é um fato da vida real que seu governo não fez muitas coisas que poderia ter feito, ou se esperava que fizesse, ou foi pressionado a fazer. É nisso, ao final das contas, que está seu principal mérito.

Lula, para começar, não desmanchou a política econômica do seu antecessor – do combate à inflação aos aumentos reais do salário mínimo, da formação de superávit nas contas públicas à estratégia de juros, foi mais fiel ao roteiro que recebeu de Fernando Henrique do que seria, talvez, um sucessor vindo do mesmo part6ido do ex-presidente. Não demitiu o presidente que nomeou para o Banco Central, Henrique Meirelles, embora o PT e suas vizinhanças tivessem feito todo o tipo de pressão para conseguir isso, nem cedeu à tentação de fazer demagogia com a taxa de juro. Não fez o “programa econômico da esquerda”, como exigiam à sua volta. Não experimentou nenhum dos truques de circo que, até o Plano Real, marcaram a condução da economia brasileira durante anos a fio. Não fez a “reforma agrária”; fez exatamente o contrário, o que foi decisivo para o Brasil mais do que dobrar sua produtividade rural entre 1988 e 2008. Não estatizou nada do que fora privatizado nos governos anteriores, embora falasse o tempo todo contra as privatizações. Não sustentou para valer no Congresso nenhuma proposta para reduzir a liberdade de imprensa – embora, também aí, tenha passado quase todo o seu mandato dizendo que o Brasil precisava colocar os meios de comunicações “sob controle da sociedade” ou das “organizações sociais”.

Lula não tocou no direito de propriedade, na liberdade de iniciativa nem no respeito ao cumprimento de contratos, apesar de toda a sua discurseira contra “os ricos” e “as elites”. Não hostilizou o capital estrangeiro, que bateu recordes de investimento no Brasil durante seu governo, apesar de todas as pragas que rogou contra o “imperialismo” e as “grandes potências”. Não socializou nada; foi de esquerda no microfone e neoliberal com a caneta de presidente na mão, ou, como diria o – ministro Delfim Neto, deveria ser festejado como um dos heróis do capitalismo brasileiro. Não mexeu nas normas e nos programas montados no governo anterior para fortalecer o sistema bancário, o que muito ajudou o Brasil a superar as crises financeiras internacionais dos últimos anos. Não transformou o Brasil numa Cuba ou Venezuela, países que tanto diz admirar; talvez não conseguisse, mas o fato é que não tentou. Não levou adiante a aventura de tentar um terceiro , mandato, e vai sair do Palácio do Planalto no dia marcado. Não fez, em suma, o governo que o seu partido queria, ou dizia querer – a ponto de o grã-cacique José Dirceu afirmar que,. só agora, quando ele sair e Dilma entrar, o PT vai chegar de fato ao poder. É talvez o maior de todos os elogios que Lula poderia receber.

Isso é o que se vê de bom, e isso é o que se tem. No mais, os oito anos de governo Lula são quase sempre uma caminhada por um mundo escuro. Não há, no conhecimento público, um único ato de generosidade em sua conduta durante esse tempo todo. Comportou-se desde o começo, e cada vez mais, com uma combinação de soberba, arrogância e mania de grandeza que provavelmente não encontra paralelo em nenhum outro presidente brasileiro. Passou o governo inteiro dizendo que ninguém, em 500 anos, fez mais pelo Brasil do que ele. Atribui a si obras imaginárias, ou realizações que vêm sendo construídas há anos. Disse, mais de uma vez, que os outros países do mundo, sobretudo, os desenvolvidos, deveriam aprender com ele como se deve governar; em diversas oportunidades, comparou-se a Deus. Foi uma marca sombria de sua passagem pela Presidência, ao mesmo tempo, o rancor declarado aos adversários, gente que, em seu modo de ver a vida política, deveria ser “exterminada”, e em relação à qual queria “vingança”. Nunca deixou de mostrar um grau muito baixo de tolerância com qualquer opinião diferente das suas; num de seus momentos de maior excitação, acusou um repórter que lhe havia desagradado de “doente mental” e recomendou que ele se submetesse a “tratamento psiquiátrico”. A mensagem, aí, parece ser bem clara: “Quem discorda de mim só pode ser louco”.

Lula, pelo demonstrado me sua conduta, fez questão de aproveitar ao máximo as oportunidades que teve para utilizar mal a popularidade – serviu-se dela, dia após dia, como uma autorização para dizer e fazer qualquer coisa que lhe passasse pela cabeça, como na ocasião em que se colocou contra os presos políticos cubanos, que faziam greve de fome – e a favor de seus carcereiros – ou quando disse que era preciso respeitar a legislação do Irã, que condenou à morte por apedrejamento uma mulher acusada de adultério. Lula também promoveu, como ninguém fez antes dele no Brasil, um culto sistemático à ignorância. Podia, mas não quis, ter curado a sua, através do esforço para aprender; preferiu o caminho mais cômodo de transformar a ignorância em virtude e o conhecimento em defeito. Do primeiro ao último dia de seu governo, insistiu em dizer que não precisou mais que o 4º ano primário para chegar à Presidência da República, enquanto tanta gente que estudou não conseguiu nada. Mais: sempre deixou transparecer o seu desprezo por quem sabe mais do que ele, e a sua hostilidade a quem estudou; na sua opinião, é tudo gente suspeita de ser “antipovo”. Não parou de dizer que foi preciso “um operário”, ou “um menino sem estudo” do Nordeste, para fazer “a transposição das águas” do Rio São Francisco ou armar a maior “negociação de paz” jamais conseguida até agora no Oriente Médio, para encontrar petróleo no pré-sal ou construir ”mais universidades” que qualquer outro presidente brasileiro.

Um jogador que está com boas cartas na mão, dizia Oscar Wilde, deveria ter a obrigação de jogar limpo. Não foi o que Lula fez. Como presidente da República, recebeu uma maravilha de jogo – ajuda do congresso, apoio popular, situação favorável na economia mundial, uma oposição que nunca chegou a incomodar de verdade. Mas Lula não se contentou com os favores que recebeu da sorte. Desde o início, preferiu embaralhar os fatos para criar uma realidade da qual só tirou proveito. O problema é que a realidade criada por ele é uma falsificação maciça dos acontecimentos – e nada deixa isso mais claro do que a sua decisão de transformar o mensalão, um dos casos de corrupção mais comprovados e grosseiros da história política do Brasil, numa “tentativa de golpe” na qual se coloca, ao mesmo tempo, nos papéis de vítima e de herói – o campeão da causa popular que “eles” não conseguiram derrubar. Ao vencedor, as batatas, claro, e Lula recebeu um batatal inteiro. Mas nem ele nem seu governo podem dar existência ao que não existiu – nem podem levar, na hora da partida, mais crédito do que merecem.

Assim é um líder

Nelson Rodrigues

(Íntegra da crônica Assim é um líder, de Nelson Rodrigues, publicado no jornal O Globo em 9 de janeiro de 1968)


Nelson Rodrigues

O líder é um canalha. Dirá alguém que estou generalizando. Exato: estou generalizando. Vejam, por exemplo, Stalin. Ninguém mais líder. Lenin pode ser esquecido, Stalin, não. Um dia, os camponeses insinuaram uma resistência. Stalin não teve nem dúvida, nem pena. Matou, de forma punitiva, 12 milhões de camponeses. Nem mais, nem menos: – 12 milhões. Era uma maravilhoso canalha e, portanto, o líder opuro.

E não foi traído. Aí está o mistério que, realmente, não é mistério. É uma verdade historicamente demonstrada: – o canalha, quando investido de liderança, faz, inventa, aglutina e dinamiza as massas de canalhas. Façam a seguinte experiência: – ponham um santo na primeira esquina. Trepado num caixote, ele fala ao povo. Mas não convencerá ninguém, e repito: – ninguém o seguirá. Invertam a experiência e coloquem na mesma esquina, e em cima do mesmo caixote, um pulha indubitável. Instantaneamente, outros pulhas, legiões de pulhas, sairão atrás do chefe abjeto.

Mas, dizia eu que Stalin não foi traído, nem Hitler. O Führer, para morrer, teve de se matar. (Nem me falem do atentado dos generais grã-finos. Há uma só verdade: – nem o soldado alemão, nem o operário, nem o jovem, nem o velho, traíram Hitler.) E, quanto a Stalin, ninguém mais amado. Só Hitler foi tão amado. Aqui mesmo, no Brasil. Bem me lembro, durante a guerra, dos nossos stalinistas. Na queda de Paris, um deles veio-me dizer, de olho rútilo e lábio trêmulo: – “Hitler é muito mais revolucionário que a Inglaterra”.

Sim, o que se sentia, aqui, por Stalin, era uma dessas admirações hediondas. Eu via homens de voz grossa, barba cerrada, ênfase viril. Em cada um dos seus gestos, a masculinidade explodia. E, quando falavam de Stalin, eles se tornavam melífluos, como qualquer “travesti” do João Caetano ou do Teatro República. O que se sentia, por trás desse arrebatamento stalinista, era um amor quase físico, uma espécie de pederastia idealizada, utópica, sagrada. Com as mandíbulas trêmulas, uma salivação efervescente, os fanáticos chamavam o Guia de “o Velho”. E essa paixão era de um sublime ignóbil.

Já o Czar foi o antilíder. Há um quadro russo da matança da Família Imperial. (A pintura de lá, tanto a czarista, como a soviética, é puro Osvaldo Teixeira.) Eis o que nos mostra a tela: empilhados, numa bacanal de defuntos, o Czar, a Czarina, as princesinhas, etc., etc. Uns por cima dos outros, e cravejados de bala. Os soldados receberam a ordem e estouraram a cara dos velhos, das mocinhas, dos meninos. Mas não vamos assumir, aqui, nenhuma postura sentimental. Eis o que importa diser.

Na véspera de morrer, o nosso Nicolau entretinha-se na redação do seu diário. Fazia diário como qualquer heroína da Coleção das Moças. Reparem no antilíder, no anti-rei, no antitudo. No dia seguinte estariam à mostra os intestinos dele mesmo, as tripas da mulher, dos filhos, dos sobrinhos, dos netos. Mas ele não teve nenhum sentimento da morte. No jardim havia um “lago azul” como o da nossa canção naval. E, lá, dois ou três cisnes deslizavam mansamente. Um mundo já morria e outro ia nascer. E o Czar estava fascinado pelos cisnes, e a última página do diário era a eles dedicada. Um homem assim teria de ser exterminado a bala ou a pauladas, como uma ratazana.

Alguém lembrará a figura de Kennedy. Era um líder que preservava um mínimo de humanidade. Mas não era líder. Lembro-me da babá portuguesa da minha garotinha. Ao ver o retrato de Kennedy, gemeu com sotaque: – “Bonito como uma virgem”. Era um líder de luxo, isto é, um antilíder. Ao entrar na política, o pai, outro aristocrata, deu-lhe um cheque de um milhão de dólares. E mais: – Johnny casou-se com Jacqueline. E a mulher bonita é própria do falso líder. Nem Stalin, nem Hitler, fariam essa dupla concessão ao sentimento e ao sexo. Reexaminem toda a vida de Kennedy: – não foi, em momento nenhum de sua história e de sua lenda, um canalha. E não soube fazer pulhas para juntá-los em torno de sua liderança.

Pensem no pacto germano-soviético. Todos os que o aceitaram ou que ainda hoje o justificam eram e são perfeitos, irretocáveis canalhas. De um só lance, Stalin e Hitler degradaram toda uma época. Eis o que desejo ressaltar: – faltava a Kannedy essa capacidade de aviltar um povo. Ao passo que Stalin fez seu povo à imagem e semelhança da própria abjeção. Mas foi na morte que Kennedy demonstrou a ineficácia e falsidade de sua liderança.

O líder não morre antes, nem depois. O derrame escolheu a hora certa para matar Stalin. Hitler meteu uma bala na cabeça no momento justo em que precisava estourar os miolos. Waterloo aconteceu quando se esgotou a vitalidade histórica da era napoleônica. Se Lenin vivesse mais quinze dias, seria outro Trotski. E Kennedy caiu antes do tempo, morreu quando não tinha que morrer. Imaginem um cristo morto de coqueloche aos três anos. Não seria Cristo, não seria nada. Kennedy morreu ao lado da mulher bonita. E, de repente, veio a bala e arrancou-lhe o queixo, forte, crispado, vital. Restava tudo por fazer; o horizonte da reeleição abria-se diante dele. Esta morte antes do tempo mostrou que Kennedy não era Kennedy. O amor que lhe consagramos é um equívoco.

Falo, falo, e não sei bem por que estou dizendo tudo isso. Agora me lembro, Eu disse algo parecido ontem, num sarau de grã-finos. Não achem graça. Aprende-se muito no grã-finismo, e repito: certos grã-finos têm um sutil faro histórico, diria melhor, profético. Sentem, por vezes, antes dos outros, o que eu chamaria “odor da História”. E um desses estava-me dizendo, num canto, com uma convicção forte: – “Vai haver o diabo neste país”. Disse e fez um “suspense”. Instiguei-o: – “O diabo, como?” E ele, misterioso: – “Você não sente que vem por aí não sei o quê?” Esse “não sei o quê” era pouco para a minha fome. O grã-fino punha mais gelo no copo. Insinuou: – “”Há muita insatisfação”. Ainda era pouco. E eu queria saber, concretamente, o que vinha por aí. Perguntei: – “Sangue?” E o outro: cara a cara comigo e um ar de quem promete hemorragia nacional inédita: – “Sangue”.

Todavia, o “suspense” continuava. “Sangue”, dissera ele. Mas, quem ia derramar o sangue, e que sangue? Ainda olhei para os lados, como a procurar, entre os convidados, um possível Drácula. Quando, porém, o grã-fino falou em “esquerda”, a minha perplexidade não teve mais tamanho. Recuei dois passos avancei outros tantos e perguntei: – “Você acredita na nossa esquerda? Nessa que está aí?”

Ele acreditava. Então perdi a paciência e falei sem parar, Quem ia mudar qualquer coisa neste País? A esquerda tem um canalha para exercer uma liderança concreta e proveitosa? Senhoras entraram no debate. Fez-se, ali, uma alegre pesquisa de pulhas. Mas os canalhas lembrados eram, ao mesmo tempo, imbecis. E o que a história pedia era um crápula com seu toque de gênio. Em suma: não ocorria aos presentes um nome válido. A última palavra foi minha. Disse eu mais ou menos o seguinte: – enquanto a esquerda que aí está não for substituída até seu último idiota, não vai acontecer nada, rigorosamente nada.

Que País queremos?

Rubens Barbosa (*) - O Estado de São Paulo

Um novo governo estará dando seus primeiros passos a partir de 1.º de janeiro, com novos desafios e novas esperanças.

O Brasil transformou-se profundamente nos últimos 16 anos. Se pudéssemos sintetizar em poucas palavras o ocorrido, o País modernizou-se com FHC e foi iniciado o processo de redução das desigualdades regionais e individuais com Lula.

O mundo igualmente passa por grandes mudanças. A Ásia emerge como o centro dinâmico das atividades econômicas e comerciais. O Pacífico substitui o Atlântico como polo dinâmico de crescimento e os países emergentes, nos próximos cinco anos, serão responsáveis por mais de 50% do PIB global.

Dados os positivos indicadores econômicos, políticos e sociais, a presidente Dilma Rousseff assumirá o comando do País em situação relativamente confortável. Essa condição, contudo, esconde problemas sérios, que vão requerer ações rápidas e enérgicas para serem corrigidos. A maior presença do Estado, base da visão nacional-desenvolvimentista, poderá facilitar a mudança de atitude, o fortalecimento das empresas e a expansão do emprego.

Em recente estudo, o National Intelligence Council, vinculado ao governo dos EUA, coloca o Brasil como uma das superpotências econômicas globais em 2025. A percepção externa é de que nosso país reúne as condições básicas de território, população e produção interna agrícola, industrial e de serviços (PIB) para desempenhar papel de realce no concerto internacional. O Brasil, durante o próximo governo, deve ultrapassar Itália, Espanha, Franca e Inglaterra, para assumir a posição de quinta economia mundial.

Apesar das consequências desses grandes avanços internos, com as exceções de praxe, nem os líderes políticos de todos os partidos, nem a burocracia estatal, nem os sindicatos, nem mesmo o setor privado se dão conta de que será necessária uma urgente e drástica mudança de atitude para enfrentar os desafios criados por essas transformações internas e externas.

O processo decisório governamental não está levando em conta que a agenda dos anos 90, que tornou possível o País que temos hoje, está esgotada e devemos partir para responder aos desafios do futuro.

Qual é a nossa visão do futuro? Vamos continuar como estamos ou vamos querer transformar o País para alcançar o lugar de destaque que o mundo espera que o Brasil ocupe?

Para atingir esse estágio de desenvolvimento e influência mundial, além de contar com condições externas positivas, o Brasil terá de fazer seu dever de casa para manter a estabilidade econômica, tornar o governo mais eficiente e crescer de maneira sustentável a taxas significativamente mais elevadas.

Com esse pano de fundo, chegou a hora de os partidos políticos, os sindicatos e o setor empresarial, sob a liderança da presidente Dilma, somarem esforços, numa parceria real, para pensar mais no Brasil e menos nos interesses pessoais e partidários. Essa mudança de atitude passa pelo incentivo à inovação e pelo aumento da competitividade, a fim de gerar mais de 150 milhões de empregos em 2030.

Conhecimento, inovação, educação, ciência e tecnologia, competitividade, rumos da globalização e inserção externa deveriam ser discutidos em profundidade, da mesma forma que se dá destaque a assuntos como violência, crime, MST, juros, câmbio e dança de cadeiras para o Ministério. O Ministério do Desenvolvimento deveria ser tão importante quanto o da Fazenda nesse desenho de nosso futuro.

Devemos estar conscientes da necessidade de olhar para a frente e estar atentos às tendências para os próximos anos, sobretudo com o aparecimento da China e da Índia como potências globais econômicas, comerciais e políticas que vão competir com o Brasil.

A dura realidade é que as mudanças, sendo tão rápidas e constantes, fazem o mundo avançar célere e sem esperar que consigamos entender o que está acontecendo ou nos ajustemos aos novos tempos e às transformações em curso.

Sem ameaçar a estabilidade econômica e política, novas políticas terão de ser aprovadas, com o objetivo de criar incentivos para aumentar a poupança e o investimento, reverter a tendência das taxas de câmbio e de juros, promover a redução dos gastos públicos e reduzir a carga tributária. A geração de empregos dependerá do aumento da competitividade do setor produtivo, com medidas concretas para reduzir ou eliminar o custo Brasil, responsável por mais de 35% nos preços finais da produção nacional. O comércio exterior deveria ser colocado num nível decisório mais elevado para que seja tratado com a prioridade que merece, eis que é uma das variáveis mais importantes do crescimento econômico.

Estamos de acordo em transformar o Brasil num país exportador de matérias-primas e produtos agrícolas? Com a perda de espaço dos manufaturados, mais de 50% de nossas exportações são de produtos primários, situação que poderá agravar-se com a entrada, nos próximos anos, da produção dos campos de petróleo do pré-sal.

Vamos deixar o setor industrial desaparecer, a exemplo do que ocorreu na Argentina? A indústria, que já representou mais de 20% do PIB, viu sua participação reduzir-se a 15%. O consumo doméstico, que era atendido pela produção nacional, hoje depende em mais de20% das importações. As empresas brasileiras, sem capacidade de competir nem interna nem externamente, ou estão fechando suas portas, transformando-se em montadoras e importadoras, ou passaram a produzir no exterior. As importadoras representam o dobro das exportadoras. É isso que queremos?

Chegou a hora de focalizar os temas que possam colocar o Brasil em bases sólidas, e não ilusórias, entre os países de relevo na economia e na política mundiais.

(*) Presidente do Conselho de Comércio Exterior da FIESP

Um argumento estupidamente imoral

Adelson Elias Vasconcellos

A futura ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres, Iriny Lopes, saiu-se com esta afirmação que considero estúpida, publicada na Folha de São Paulo. O texto é de Johanna Nublat. Retorno para comentar:

Não dá para obrigar mulher a ter filho, diz nova ministra

Iriny Lopes afirma que, pessoalmente, defende respeitar a opção de cada mulher. Para a futura ministra de Políticas para as Mulheres, papel do governo federal na questão é cumprir a lei

"Não vejo como obrigar alguém a ter um filho que ela não se sente em condições de ter. Ninguém defende o aborto, é respeitar uma decisão que, individualmente, a mulher venha a tomar."

Essa é a posição pessoal declarada pela atual deputada federal pelo PT do Espírito Santo e futura ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Iriny Lopes, 54.

Iriny tem histórico de militante dos direitos humanos e sua declaração toca num dos pontos mais explorados durante a disputa eleitoral.

O tema consta em programa do PT do início do ano. A futura presidente Dilma Rousseff, porém, se disse contrária a mudanças na legislação -que prevê o aborto apenas em caso de estupro ou risco à saúde materna.

Em 2007, durante votação de uma resolução que incluía a descriminalização do aborto no 3º Congresso do PT, Iriny defendeu a proposta.

Indicada ministra, diz que a bola está com o Congresso e com a sociedade. "O governo precisa cumprir a legislação que está em vigor."

***** COMENTO:

Um dos grandes males do mundo moderno é a tentativa cada dia mais abusada e audaciosa de se jogar no lixo toda a organização social que fez com que a civilização humana emergisse das trevas para um presente com melhor qualidade de vida.

E, quando me refiro à organização social, nela incluo, por óbvio, princípios e valores morais. Tente contra-argumentar com qualquer pessoa de nível médio de formação, apresentando razões de natureza moral. Acredite, você será mal visto e taxado de ultrapassado, careta, e coisas do gênero. Porém, tente analisar o progresso humano fora da ótica da moral. Não teríamos chegado aqui da forma como chegamos, se eles não reduzissem a natureza animal do ser humano a seu mínimo racional. Você que reclama da violência urbana, pede o quê afinal, se não o cumprimento de um código mínimo de conduta de respeito ao próximo?

Não posso concordar com as teses que o feminismo tenta emplacar para a liberação do aborto. Ninguém tira o direito da mulher de fazer uso que melhor entender de seu próprio corpo. Porém, isto não lhe dá direito de, tendo engravidado, e a não ser nos casos que a lei já prevê, de expurgar de si a vida que está gerando. Se não quisesse engravidar, que tomasse as providências que existem às dezenas para evitá-lo. Em nome de sua sexualidade não se justifica nem seu descuido, tampouco sua intolerância para com o direito à vida.

No mundo de hoje, não se admitem mais “inocências”. Toda a mulher sabe bem as consequências para a prática de sexo, sem os os muito recomendados cuidados que deve ter. E não me refiro apenas à possibilidade de contrair doenças sexualmente transmissíveis. Assim, antes de negar o direito à vida, deve ter em mente que a gravidez é um risco que correrá se não tomar os cuidados e as precauções necessárias para evitá-la, caso não a deseje.

Veja-se abaixo o estudo publicado pela BBC Brasil. A abstinência sexual antes do casamento, ao contrário do que se imagina, melhora a vida sexual. Não se trata apenas de um apelo de natureza de moral religiosa. É preciso, antes, rever nossos conceitos e valores. Não é a falta de moral que nos torna pessoas mais felizes. Pelo contrário. O sexo não é uma prática inevitável como o ato de respirar. Ele pode e deve ser disciplinado. Não se justifica que se dê vazão aos instintos sem um mínimo de controle. Não nos tornamos seres melhores por conta disto, é justo o contrário.

Gostem ou não os que defendem a liberalização do aborto, a partir da concepção já existe vida. Interrompê-la é sim um assassinato. Ora, se querem entender que a mulher tem o direito de dispor de seu corpo a seu bel prazer, porque, então, os nascituros não tem assegurado o direito de viverem  a partir de sua concepção? Por que se lhes quer negar o direito mais sagrado que possuímos, que é o direito à vida?

Precisamos refletir melhor em tais questões. Não nos tornaremos melhores por afastar do meio social os códigos morais que regem nossa existência. Vamos é nos brutalizar, dando vazão a todo e qualquer instinto com a desculpa porca de que “temos direitos”. Não, todo o direito individual está limitado pelo espaço que ocupamos, ou seja, ele se estende até onde se principia o direito de outrem. Não há liberdades e direitos absolutos.

Mas ainda assim é estúpida a afirmação da senhora Iriny por ser uma bandeira defendida apenas por uma minoria. Sabe-se que mais de 60% da população brasileira é contrária à ideia do aborto. Esta defesa intransigente que se faz por sua prática indiscriminada, vem atender apenas uma pequena faixa de mulheres que se querem desvalorizar a si mesmas. Sexo não é artigo de primeira necessidade. Podemos conviver com seu uso disciplinado e regulado. São escolhas que, lamento informar, devem ser dirigidas por códigos de moral elevada. Sem tal limite, a mulher se torna apenas em mero objeto de prazer. Nada além disso. O resto é argumento tolo, egoísta e, desculpem-me os contrários, mas estupidamente imoral.

Abstinência antes do casamento melhora vida sexual, diz estudo

BBC Brasil

Casais que esperam para ter relações sexuais depois do casamento acabam tendo relacionamentos mais estáveis e felizes, além de uma vida sexual mais satisfatória, segundo um estudo publicado pela revista científica Journal of Family Psychology, da Associação Americana de Psicologia.

Pessoas que praticaram abstinência até a noite do casamento deram notas 22% mais altas para a estabilidade de seu relacionamento do que os demais.

As notas para a satisfação com o relacionamento também foram 20% mais altas entre os casais que esperaram, assim com as questões sobre qualidade da vida sexual (15% mais altas) e comunicação entre os cônjuges (12% maiores).

Para os casais que ficaram no meio do caminho - tiveram relações sexuais após mais tempo de relacionamento, mas antes do casamento - os benefícios foram cerca de metade daqueles observados nos casais que escolheram a castidade até a noite de núpcias.

Mais de duas mil pessoas participaram da pesquisa, preenchendo um questionário de avaliação de casamento online chamado RELATE, que incluía a pergunta "Quando você se tornou sexualmente ativo neste relacionamento?".

RELIGIOSIDADE
Apesar de o estudo ter sido feito pela Universidade Brigham Young, financiada pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, também conhecida como Igreja Mórmon, o pesquisador Dean Busby diz ter controlado a influência do envolvimento religioso na análise do material.

"Independentemente da religiosidade, esperar (para ter relações sexuais) ajuda na formação de melhores processos de comunicação e isso ajuda a melhorar a estabilidade e a satisfação no relacionamento no longo prazo", diz ele.

"Há muito mais num relacionamento que sexo, mas descobrimos que aqueles que esperaram mais são mais satisfeitos com o aspecto sexual de seu relacionamento."

O sociólogo Mark Regnerus, da Universidade do Texas, autor do livro Premarital Sex in America, acredita que sexo cedo demais pode realmente atrapalhar o relacionamento.

"Casais que chegam à lua de mel cedo demais - isso é, priorizam o sexo logo no início do relacionamento - frequentemente acabam em relacionamentos mal desenvolvidos em aspectos que tornam as relações estáveis e os cônjuges honestos e confiáveis."

Na despedida de Lula, lamento destoar do clima de louvação

Bolívar Lamounier, Exame.com

Na obrigação de escrever alguma coisa, tentarei dar uma arrumação nova a avaliações que vez por outra andei fazendo neste espaço.

Na área econômica, eu penso que Lula acertou em cheio ao jogar no lixo as idéias do PT e manter a política do governo anterior . De fato, ao assumir, em 2003, Lula não alterou o tripé de política econômica que encontrou : metas de inflação, câmbio flutuante e Banco Central livre de interferência política ; para presidir o BC, teve inclusive o cuidado de buscar um banqueiro acima de qualquer suspeita, com o que evitou prevenções nos mercados financeiros e conservou a estabilidade a duras penas alcançada no período anterior.

Por mais que falasse em “privataria” e em “auditoria”, Lula não moveu uma palha no sentido de reverter as privatizações efetuadas nos anos 90. Ao contrário, instruiu o PT a abortar no Congresso uma proposta do PSOL, que queria um plebiscito sobre a privatização (e eventual reestatização) da Vale. Nos últimos dois anos, já sob a influência de Dilma Rousseff e em conexão com o pré-sal, o espírito estatizante voltou forte; até onde irá, não sabemos.

Mas aí acabam os acertos, ou não-erros. Para começar, o legado de Lula para Dilma inclui índices de inflação já bastante incômodos e uma situação fiscal preocupante, necessitando de sério ajuste.

Na infra-estrutura – energia elétrica, rodovias, portos, aeroportos…-, a presidência Lula pode ser considerada desastrosa. Uma das causas do desastre foi a qualidade manifestamente deficitária da gestão, mas que dizer do financiamento?

Oito anos atrás, a inexistência de recursos públicos para os investimentos necessários era de conhecimento geral. Que foi feito das PPPs (Parcerias Público-Privadas), cuja lei foi aprovada no Congresso logo no inicio do primeiro mandato? No ambiente internacional favorável daquele período, por que não se tratou de atrair capital estrangeiro para essa área?

Estou falando do passado, mas o desastre ficará ainda maior se os trabalhos relacionados com a realização da Copa do Mundo e da Olimpíada se atrasarem – e por ora é difícil crer que isso não vá acontecer.

Chegando ao final de seus dois mandatos, Lula parece convencido – e isto é grave – de haver descoberto a pedra filosofal. Pensa que a economia brasileira cresceu vigorosamente nos últimos anos graças a méritos inexcedíveis de seu governo. Às vezes fala como se não se desse conta de que o motor do nosso crescimento é o progresso da Ásia, em especial o da China. Dir-se-á que o governo soube aproveitar tal oportunidade. Ora, espantoso seria se não tivesse sabido.Seria como não perceber um elefante entrando numa residência de dois cômodos.

Na área social, também, Lula acertou, e muito, ao manter e expandir programas iniciados pelo governo anterior. Foi rápido no gatilho quando se desfez do Fome Zero, que não iria a lugar nenhum, e adotou o Bolsa-Família. Não vem ao caso inquirir aqui por que Lula nunca deu o devido crédito ao governo Fernando Henrique – cálculo eleitoral, certa inclinação de personalidade, sabe-se lá.

Mas chega a ser desfrutável, convenhamos, a pretensão de elevar as políticas sociais do período Lula à condição de um “novo modelo de desenvolvimento”, como consta na tese de doutoramento em economia do senador petista Aloísio Mercadante, defendida dias atrás na Unicamp.

De corrupção, eu talvez nem precisasse falar, mas não posso passar batido sobre o que Lula disse anteontem numa entrevista. Segundo ele, pior que o mensalão teria sido o acidente com o avião da TAM em Congonhas. Eu não estou seguro de haver captado a mensagem que Lula pretendeu passar. Quereria ele talvez dizer que não houve corrupção em seu governo, ou que a corrupção, se aconteceu, foi desimportante, insuficiente para lhe causar algum abalo? Sem faltar ao respeito com S.Exa., atrevo-me a indagar se não haverá em sua fala um quê de autismo, considerando-se que a corrupção em seu governo começou com Valdomiro Diniz e culminou em Erenice : o mensalão foi o meio do caminho.

Na área propriamente política, as últimas declarações de Lula vêm sendo mais uma vez instrutivas. Um dia ele diz que não descarta voltar em 2014. No dia seguinte, diz que Dilma será sua candidata em 2014. A imprensa correrá atrás, tentando adivinhar quais são afinal as reais intenções de Luís Inácio.

Eu me limito a lembrar um ilustre comunicólogo de cujo nome não me lembro: “o meio é a mensagem”. Lula passará os próximos dois ou três anos propalando ambigüidades, disseminando contradições, afirmando uma coisa e seu contrário, com um único objetivo – manter sua imagem permanentemente associada a uma palavrinha de sete letras: eleição.

Para concluir, direi três ou quatro palavras sobre os desafios que Dilma irá enfrentar a partir de sábado. Inflação, ajuste fiscal, reformas, Congresso? Sim, isto é óbvio.

Mas o que me chamou a atenção esta semana foram dois números que apareceram na imprensa: no governo Lula, 83% dos cargos de livre nomeação foram preenchidos por petistas, e 49% por sindicalistas. São números eloqüentes. Eles mostram que Lula e o PT montaram no governo uma subestrutura – um aparelho – do qual Dilma dificilmente conseguirá se livrar. Quer queira mesmo voltar em 2014 ou não, o ponto de referência e principal interessado nessa subestrutura é evidentemente Lula.

Os fatos mencionados sugerem duas hipóteses. Primeiro, como é óbvio, a presidente Dilma Rousseff corre o risco de ter um poder paralelo permanentemente nos calcanhares. O bom relacionamento dela com Lula pode atenuar, mas não elimina por completo os problemas a que essa situação pode levar.

Segundo, por aí se pode apreciar o amplo panorama histórico da evolução do PT. A fase da pureza ética e do discurso proto-revolucionário (“contra tudo o que aí está”) acabou. Era uma “doença infantil”. Sobrevive apenas nas margens, como uma canção de ninar ainda útil para embalar o sono dos ingênuos.

Na fase atual, o que há é um projeto de poder, um guarda-chuva remunerativo sob o qual militantes, sindicalistas, ONGs e apparatchiks de vários tipos e origens se acomodam. Para maior glória do lulismo e sob os auspícios do contribuinte.

Não, obrigada

Miriam Leitão, O Globo

Não faz sentido agradecer a um governante pelo respeito às regras democráticas. É obrigação. Portanto, não estou entre os que exaltam o presidente Lula pelo fato de ele não ter tentado permanecer. Até ele vê assim. "Se você pede o terceiro mandato, quer o quarto, se pode pedir o quarto e por que não o quinto? Aí você está criando uma ditadurazinha", disse ontem Lula aos jornalistas.

Houve artigos nesses dias de balanço que ressaltaram, como um dos grandes méritos do presidente Lula, o de ter respeitado as regras democráticas e de não ter pleiteado um terceiro mandato. Como se tivesse dependido unicamente de sua vontade. Teria que ser feita uma emenda à constituição e isso, certamente, detonaria uma reação forte da sociedade.

O Brasil não é a Venezuela. Passamos por caminhos diferentes. Com todos os defeitos que tem o sistema político brasileiro, a democracia aqui foi uma dolorosa conquista. Minha convicção é que mesmo sendo um governante popular, ao fim do mandato, Lula poderia ter sido derrotado em sua tentativa de mais um mandato.

Uma reeleição é comum em inúmeras democracias, um terceiro mandato já é um continuísmo intolerável. O presidente Hugo Chávez manipulou as instituições e minou a democracia, por isso tem conseguido a reeleição perpétua, a "ditadurazinha".

Outro mérito de Lula teria sido o de ter mantido a política econômica do governo anterior. Foi de fato importante: para o país, para a estabilidade econômica, mas principalmente para ele mesmo. Dificilmente Lula teria conseguido mais um mandato em 2006 se a inflação tivesse voltado a subir. Se o escândalo do Mensalão tivesse encontrado o país com patamares altos de inflação, certamente a história teria sido outra.

As tentativas de confundir o que foi o caso de corrupção foram tantas, que é preciso lembrar. O Mensalão não foi o único escândalo no governo do partido que, durante 20 anos, se apresentou como sendo o guardião da ética na política, mas sem dúvida foi o pior. A corrupção foi confirmada na CPI, na investigação do Ministério Público, no voto do ministro Joaquim Barbosa e na aceitação do voto pelo plenário do Supremo Tribunal Federal.

Dinheiro sem origem comprovada era distribuído a deputados da base governamental, num esquema alimentado por um publicitário que prestava serviços ao governo, e o denunciante foi um deputado da base parlamentar. Até o publicitário da campanha de Lula em 2002, Duda Mendonça, admitiu no Congresso ter recebido em dinheiro vivo ou em contas no exterior. Lula se debate contra os fatos mudando as versões há cinco anos. Primeiro, disse que foi um fato banal. Depois, se disse traído. Distanciou-se do PT. Mais recentemente, alegou que foi uma tentativa de golpe da oposição, e depois, que foi um caso de erro da imprensa como o da Escola Base.

A verdade é que foi um caso espantosamente grave de corrupção. Se ele tivesse explodido no meio de uma economia desorganizada pela volta da inflação, certamente, Lula não teria tido condições políticas de conquistar mais um mandato.

Presidente não se importou em educar a população…

Alberto Carlos Almeida, Valor Econômico

Presidente não se importou em educar a população para a conexão entre impostos e bom uso do dinheiro público

No fim de semana, as diversas avaliações do governo Lula, em cadernos especiais publicados em jornais, chamaram a atenção para dois fatos: a melhora do padrão de vida da população (o lado positivo do governo) e a inexistência de legislação reformadora, o aspecto mais negativo da administração Lula.

Estou em busca aqui, como afirmei anteriormente, de uma avaliação não tradicional do governo. Assim, há duas semanas escrevi sobre o que julgo ser o lado positivo dos oito anos de governo Lula: o fato de o presidente ter assumido aquele que considero ser o mais importante papel do presidente, o de se comunicar com a sociedade. O presidente, eis uma lição importante que fica para Dilma, não deve se imiscuir nos detalhes diários da administração sob pena de induzir a sua equipe a não tomar decisões ou a tomar decisões erradas. O presidente é antes de mais nada e acima de tudo um comunicador. Essa foi a grande virtude de Lula como também foi de Ronald Reagan, Clinton, Bush filho e tem sido a de Obama.

O lado negativo do governo foi, sim, a inoperância legislativa, mas foi também a completa falta de empenho de Lula em associar os impostos ao bom uso do dinheiro público. Não cabe aqui questionar, a princípio, a predisposição de Lula em defender mais impostos. O presidente não para de lamentar aquela que foi, em sua avaliação, a grande derrota legislativa do governo: a abolição da CPMF. Como cidadão e pagador de impostos, afirmo que a principal derrota do governo Lula foi uma grande vitória da sociedade. Nós que pagamos impostos e vemos todos os dias o dinheiro público sendo desperdiçado achamos que a derrota do governo foi, não coincidentemente, a nossa vitória. Foi-se o tempo em que Lula defendia apenas os interesses dos movimentos sociais. Hoje ele é um homem de Estado e, portanto, defende os interesses do governo. O governo quer mais impostos, quer botar mais a mão dentro de nossos bolsos.

Não defender a redução de impostos e ficar feliz toda vez que eles aumentam faz parte da ideologia de Lula. Lula é um líder de esquerda, Lula é um social-democrata e toda pessoa de esquerda gosta de impostos. Gosta de mais e melhores impostos. É legítimo que Lula seja um entusiasta do aumento de impostos e que esa propensão se manifeste em sua indignação contra a rejeição da CPMF. Cabe aqui um parêntese irresistível: onde está a oposição em relação a esse tema? Fecha parêntese.

O que não é compreensível é que durante oito anos o grande líder social que se tornou presidente não tenha feito, em suas declarações públicas, a ligação entre pagar impostos e utilizar bem o dinheiro público. No livro de Marcelo Tas, “Nunca antes na História Deste País”, há o registro de uma declaração de Lula sobre os funcionários da Presidência da República: “Há centenas de empregados à minha volta que nem sei o que estão fazendo”. A frase foi dita em setembro de 2009. Ao falar isso, ele estava fazendo pouco-caso do nosso dinheiro, que é utilizado pelo governo para pagar esses empregados.

Neste mês, foi aprovado na Câmara dos Deputados um aumento salarial de 130% para o presidente e 149% para os ministros. De quebra, os próprios deputados se deram um aumento de quase 62%. Diante desse fato, Lula fez uma brincadeira: “E o Lulinha aqui ó …” Ele se referia jocosamente ao fato de o aumento ter sido aprovado quando ele está saindo do cargo de presidente. Que pena! Lula não foi beneficiado pela magnanimidade de nossos deputados com o uso do nosso dinheiro. Há estimativas de que esse reajuste, em razão do efeito que terá sobre o aumento de deputados estaduais e outros cargos públicos de grande relevância para o funcionamento do país, tenha um impacto de R$ 2 bilhões nos cofres públicos.

No dia 3, antes, portanto, do aumento desses salários, Lula afirmou que “a carga tributária no país é justa”. É surpreendente que essa afirmação tenha sido feita por alguém que é percebido como defensor dos pobres. Quem mais paga imposto no Brasil, como proporção dos rendimentos, são os mais pobres. Isso não é justo. A cesta básica no Brasil é tributada em torno de 21%. Isso não é justo. A nossa carga como proporção do PIB é da ordem de 35%, o que é maior do que em muitos países desenvolvidos que fornecem para sua população ótimos serviços públicos. Isso não é justo.

O dinheiro público no Brasil deveria ser gasto com frugalidade e nada melhor do que um presidente que veio da pobreza para dar esse exemplo. Lula não fez isso em nenhum momento de seus oito anos de presidente. Nesse período, a nossa carga tributária aumentou e aumentaram também os salários e regalias de nossos funcionários públicos eleitos e não eleitos. Não bastasse o Aerolula, o presidente defendeu recentemente a compra de um novo avião, maior, mais moderno e mais caro para a Presidência da República. Seria o Aerodilma. O presidente argumentou que é vergonhoso para o líder máximo de um país como o Brasil ter que fazer escala para abastecer em voos mais longos.

O primeiro-ministro da Suécia tem direito a morar em um apartamento de vergonhosos 300 m2. O salário dos deputados dos Estados Unidos e da Alemanha é vergonhosamente mais baixo do que o de nossos deputados. A lista é longa e não por isso em nenhum desses países a vergonha foi corrigida enviando-se para a população o valor da conta.

Afirma-se em determinados meios que Lula é demagogo e populista. Pode até ser verdade. Todavia, como Max Weber vaticinou há mais de cem anos, não é possível que exista democracia sem que haja demagogia. O problema da democracia não é que exista um demagogo, é que não existam pelos menos dois demagogos, ambos em luta um contra o outro. O que controla um demagogo é a existência do outro. O admirado Barack Obama acabou de propor o congelamento do salário dos servidores civis americanos. Em um comunicado oficial do governo foi dito: “Esse congelamento não é para castigar os trabalhadores estatais nem uma falta de respeito com o trabalho que fazem. É a primeira de muitas medidas que tomaremos relacionada ao próximo orçamento, para dar ao país uma base fiscal sólida, que vai exigir sacrifícios de todos nós”. Para muitos isso é demagogia.

Quem dera Lula tivesse sido demagogo para solicitar que nossos funcionários públicos (eleitos e não eleitos) fizessem o sacrifício de não ter aumento. Lula poderia afirmar que, se isso acontecesse, o povo pobre, que mais paga imposto, é quem sairia ganhando. Demagogia pura, mas muito educativa. Insisto que durante oito anos o presidente não se importou em educar a população para a conexão entre impostos e bom uso do dinheiro público. Ao menos Lula não fez isso intencionalmente.

A nossa elite política vem educando a população, de maneira completamente não intencional, para o mau uso de nosso dinheiro. Há uma crença muito disseminada na população brasileira de que mais ou menos imposto não significa nem melhora nem piora dos serviços públicos. A população pensa assim: a CPMF foi instituída e a saúde pública não melhorou, a CPMF caiu e a saúde pública não piorou, continuou ruim como sempre foi. Conclui-se, obviamente, que cobrar mais ou menos imposto não muda em nada os serviços públicos.

Lula poderia ter educado a nossa população nessa direção, poderia ter passado oito anos dizendo que o dinheiro público, que é dinheiro também do povo pobre do Brasil, deve ser utilizado de maneira eficiente. Lula não fez isso. Eis agora o Brasil assistindo ao espetáculo do aumento de salários de ministros, deputados, presidente e outros cargos públicos ao mesmo tempo em que não consegue diminuir a sua carga tributária.

Enganam-se os que acham que não há conexão entre aumento salarial de deputados e defesa da volta da CPMF. São duas faces da mesma moeda. Agradeço a Lula por ter mantido o Brasil na direção certa durante os últimos oito anos, mas agradeço, agora no fim do segundo mandato de Lula, a 35 deputados federais que (não importa se demagogicamente ou não) que votaram contra o aumento de salários para si próprios. Vocês deram um grande exemplo para o Brasil.

Em benefício do turismo, Congresso reduz verba para saneamento e educação básica

Amanda Costa, Do Contas Abertas


O Congresso Nacional cortou mais de meio bilhão de reais da verba inicialmente prevista na proposta encaminhada pelo Executivo para os programas de urbanização de favelas, saneamento, segurança do espaço aéreo, escolas e combate ao trabalho infantil. A diminuição dos recursos aconteceu porque, ao apresentar emendas para projetos de interesse próprio, os parlamentares tiveram que deduzir os valores correspondentes às novas propostas de outras áreas. Assim, os programas escolhidos para perderem verba, dando lugar as emendas, foram aqueles de interesse social.

Encabeça a lista dos programas que tiveram investimentos cortados “ciência, tecnologia e inovação para a política industrial, tecnológica e de comércio exterior, cujo objetivo é a ampliar a competitividade dos produtos e processos de empresas nacionais do ramo científico. A redução chega a R$ 419,3 milhões. O programa de “urbanização e regularização de assentamentos precários”, que se propõe a melhorar as condições de vida da população que mora em favelas, perdeu R$ 279,2 milhões. A proposta do governo federal previa um capital de R$ 2,4 bilhões, mas o relatório final do orçamento, alterado por deputados e senadores, autorizou apenas R$ 2,1 bilhões para projetos de saneamento e redução de riscos em comunidades.

No programa “serviços urbanos de água e esgoto”, cujas ações prevêem a ampliação e a melhoria do abastecimento de água e esgotamento sanitário nos municípios brasileiros, a ideia era investir R$ 2,4 bilhões. Mas, o Congresso aprovou R$ 2,3 bilhões, ou seja, R$ 126,4 milhões a menos.

Já o déficit no programa de “segurança de voo e controle do espaço aéreo brasileiro” foi de exatos R$ 100 milhões. O orçamento inicial para as ações de segurança e eficiência no tráfego aéreo, inclusive, para a prevenção de acidentes, era de R$ 1,1 bilhão. Após os cortes, foi a R$ 997,4 milhões.

As melhorias na educação básica, presumidas no programa “qualidade na escola”, também sofreram limitação na verba proposta pelo governo federal. O Congresso retirou R$ 107,9 milhões do orçamento inicial de R$ 3,5 bilhões.

Até as ações de enfrentamento à mão-de-obra infantil perderam recursos. O programa de “erradicação do trabalho infantil”, o Peti, concentrava verba de R$ 310,5 milhões. Contudo, sofreu um corte de R$ 27 milhões na ação de atendimento a crianças e adolescentes, no contraturno escolar, retiradas do trabalho precoce.

Nem o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci) escapou aos cortes. Inicialmente, a verba do programa de enfrentamento à criminalidade e à violência com bases sociais estava estimada em R$ 2,1 bilhões, mas passou por um decréscimo de R$ 35,4 milhões.

Também perderam recursos os programas de “qualidade dos serviços de transporte” (- R$ 27 milhões), “segurança pública nas rodovias federais” (- R$ 22,5 milhões), “Brasil quilombola” (- R$ 18,6 milhões), “controle interno, prevenção e combate à corrupção” (- R$ 13,9 milhões), e “proteção e promoção dos povos indígenas” (- R$ 6,2 milhões).

Pouca transparência
Não se sabe, no entanto, quais parlamentares foram responsáveis pela redução da verba nos programas, já que a orientação, desde 2006, é de que deputados e senadores não precisam especificar de que projetos estão retirando recursos para alocar nas ações de interesses próprios e de suas bases. Segundo a relatora geral do orçamento, Serys Slhessarenko (PT-MT), a resolução n° 1 do Congresso Nacional de 2006, prevê uma conta contábil única para a compensação de valores em virtude do montante acrescido à programação. A senadora informou ainda que, neste ano, as bancadas apenas apresentaram um mínimo de três emendas com indicação de remanejamentos. Sobre os cortes em setores importantes, Serys afirmou: “eu não cortei, tem que ver quem cortou, não fui eu”.

Assim, a transparência em relação às emendas apresentadas ao orçamento se torna limitada, uma vez que não se sabe o critério utilizado para o corte de recursos em programas governamentais.

Acréscimos
Os programas do setor esportivo e de turismo foram os que mais receberam emendas favoráveis a ampliação de verba. O programa “turismo social no Brasil: uma viagem de inclusão” foi o campeão de emendas que sugeriram um aumento de R$ 2,4 bilhões no orçamento inicial de apenas R$ 614 milhões. Após os créditos adicionais, sagrou-se com um orçamento de R$ 3,3 bilhões para o próximo ano, portanto, um crescimento de 445% perante a proposta original.

O programa “esporte e lazer na cidade” também foi contemplado com R$ 1,1 bilhão em créditos adicionais. O orçamento original previa uma verba de R$ 284,2 milhões que passou a R$ 1,4 bilhão, após alterações do Congresso Nacional. Conseguiram ainda ampliação da verba os programas de “assistência ambulatorial e hospitalar especializada” (R$ 2,4 bilhões) e “gestão da política de desenvolvimento urbano” (R$ 2,3 bilhões).

Ao todo, foram apresentadas emendas ao orçamento, individuais e coletivas, que totalizando R$ 72,1 bilhões. As emendas aprovadas chegaram a cifra de R$ 50,6 bilhões. Os números ainda não são definitivos porque precisam ser votados na Comissão Mista de Orçamento e no plenário do Congresso Nacional, o que deve ocorrer ainda hoje.

Lula e a política do óbvio

Rolf Kuntz - O Estado de São Paulo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anda repetindo uma nova frase de efeito, boa como propaganda e, como de costume, sem compromisso com os fatos. Ele se vangloria de ter feito somente o óbvio. Por isso, acrescenta, foi fácil governar e promover mudanças importantes. Se esse fosse o balanço de uma empresa aberta, a Comissão de Valores Mobiliários deveria impugná-lo. Os pontos verdadeiros são relevantes, mas escassos. Se fazer o óbvio é agir com bom senso, o presidente aderiu à obviedade ao manter o tripé da política macroeconômica - metas de inflação, câmbio flexível e superávit primário. Acertou também ao respeitar o acordo de autonomia do Banco Central, um dos poucos núcleos de competência da administração federal nos últimos oito anos.

Fez o óbvio, igualmente, ao ampliar os programas de transferência de renda, lançados com sucesso na administração anterior. Os demais acertos também foram construídos sobre alicerces amplamente renovados e reforçados na década anterior. E é sempre instrutivo repetir: o oposicionista Lula e seu partido combateram essas mudanças. Contestaram o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal, o câmbio flexível e o plano de recuperação bancária, alardeado por Lula, anos depois, como exemplo para o mundo rico.

Mas, se o óbvio é o sensato, Lula fez o oposto do óbvio em boa parte de sua gestão. Na educação, deu prioridade à multiplicação de faculdades e à ampliação de matrículas em cursos universitários. Fez muito barulho com esse tipo de ação, realizável sem esforço e muito rentável politicamente. Mas deixou em plano inferior questões muito mais urgentes. A educação fundamental continua muito ruim, a taxa de analfabetismo funcional pouco variou (cerca de um quinto dos brasileiros com 15 anos ou mais) e o acesso ao nível médio permanece afunilado. Tudo isso tem sido confirmado pelo IBGE e pelo fracasso dos estudantes brasileiros nos testes internacionais.

Lula também não fez o óbvio em relação ao sistema político. A liberdade de imprensa é obviamente essencial à democracia, mas o governo petista várias vezes tentou restringi-la. No primeiro mandato, o presidente mandou ao Congresso um projeto de censura (essa palavra resume bem o propósito). A tentativa foi repelida e ele negou sua responsabilidade. O Executivo, segundo ele, apenas enviou ao Legislativo um projeto concebido fora do governo. Não haveria uma desculpa menos grotesca?

O ataque foi retomado nos anos seguintes. O impropriamente chamado Decreto dos Direitos Humanos continha novas ameaças à liberdade de informação e de opinião e foi apoiado por defensores do "controle social" dos meios de comunicação. Esse controle foi incluído no programa do PT, registrado pela candidata Dilma Rousseff e em seguida por ela renegado.

Milícias e movimentos atrelados ao governo são uma óbvia ameaça à democracia. Mas o presidente aceitou conversar com arruaceiros, como os invasores do Ministério da Fazenda, e promoveu o peleguismo sindical e estudantil. Pela primeira vez na história um dirigente da UNE se declarou estudante profissional e afirmou ser obrigação do governo dar dinheiro a entidades estudantis.

Seria óbvio valorizar a profissionalização do setor público. O governo preferiu o aparelhamento e o loteamento. Outra obviedade seria limitar a carga tributária para tornar a economia mais competitiva, mas a tributação cresceu sem parar, para sustentar uma administração ineficiente e gastadora.

Na política externa, o óbvio seria dar prioridade aos interesses do País. Mas a diplomacia petista resolveu apoiar tiranos e tiranetes e desprezar os acordos comerciais mais promissores. A escolha dos parceiros "estratégicos" nunca envolveu reciprocidade e os interesses nacionais foram sacrificados até na América do Sul. Compradores de manufaturados brasileiros, como os Estados Unidos, foram negligenciados.

A ascensão da China à condição de mercado número um foi celebrada como façanha diplomática. Mas para a China, o Brasil é uma fonte de commodities. Teria pelo menos o mesmo papel com outra diplomacia. Os chineses precisam desses produtos e os brasileiros podem fornecê-los. Na relação com os emergentes, não se ganhou nada mais do que se ganharia sem o carnaval terceiromundista. O País fez papel de bobo em troca de apoios irrelevantes à pretensão de integrar o Conselho de Segurança. Na relação com os Estados Unidos, oportunidades foram perdidas para países com políticas mais adultas - como a China e emergentes até da América do Sul.

A UNE Pobre e Rica

Sebastião Nery

RIO - A União Nacional dos Estudantes era a grande Universidade livre da juventude brasileira. Nenhuma entidade no pais foi tão representativa. Era mais do que a ABI (Associação Brasileira de Imprensa), porque a ABI, em geral muito fechada, em determinados instantes cumpriu belo papel, mas em outros tornou-se velhota, corporativa.

Aberta, calorosa, briguenta, a UNE travava uma luta interna permanente, democrática,sempre à frente das grandes batalhas publicas do pais, mesmo quando sua diretoria se dobrava demais aos governos.

Nasceu na Casa do Estudante do Brasil, no Rio, no primeiro Conselho Nacional dos Estudantes, em 11 de agosto de 1937, na ditadura Vargas. A primeira diretoria oficial, saída do II congresso, foi a de 1938 a 39, presidida pelo gaucho Waldir Borges. O III congresso, de 1939, elegeu o paulista Trajano Pupo Neto. No IV congresso, de 1940, foi eleito o carioca Luis Pais Leme.

Direita
Era pleno começo da guerra, os estudantes nas ruas exigindo que o Brasil declarasse guerra ao nazi-fascismo. Sobretudo por isso a UNE nasceu na esquerda. Em 1942 o presidente era o carioca Helio de Almeida.

De 1947 a 50, as diretorias da UNE eram francamente socialistas, ligadas ao Partido Socialista, inclusive, no congresso da Bahia, em 49, quando venceu o socialista paulista Rogê Ferreira, que depois renunciou, substituído pelo também socialista carioca José Frejat.

Em 1950, veio afinal a dupla udenista, mineiro-paulista, Olavo Jardim-Paulo Egidio, que comandou a UNE até 54 , transformando-a em um departamento do ministério da Educação. Em 1954, conseguiu-se uma chapa de unidade, esquerda e governistas, com o Netinho de São Paulo.

Esquerda
A partir de 1956, acabou o reinado da “direita”, com a aliança JUC (Juventude Universitária Católica) e UJC (União da Juventude Comunista), apoiando João Batista de Oliveira Junior, o Batistinha de Juiz de Fora.

E veio outra histórica administração, a do baiano de Jaguaquara Raimundo Eirado em 1958-59, com o mineiro Sepúlveda Pertence na vice. Em 1961 e 1962, Aldo Arantes, de Goiás.

Nem o golpe militar de 1964 impediu que a UNE continuasse comandada pela aliança dos cristãos da AP (Ação Popular), criada pelo Betinho, com os comunistas da UJC. Em 1963, no ultimo congresso na legalidade, foram eleitos José Serra presidente e Marcelo Cerqueira vice.

Golpe de 64

Na madrugada de 1º de abril, o golpe de 1964 incendiou a sede da UNE, no Flamengo 132, fechou a entidade, depois matou um presidente da UNE, Honestino Guimarães e quase mata outros, como Luis Travassos e Vinicius Caldeira Brant. Em toda a ditadura a UNE resistiu na ilegalidade.

Depois da anistia de 1979, elege-se presidente em 80 o alagoano-paulista Aldo Rebelo, do PC do B, e, por ironia da historia, a reconstrução da UNE foi feita em nome de sua desconstrução. Deixou de ser a grande Universidade livre da juventude para tornar-se desossada, desconstituída, esquartejada, um medíocre e corrompido escritório eleitoral do PC do B.

Escola
Meu terceiro congresso da UNE, no fim de 1954, na Universidade Rural no Rio, foi um mestrado, aos 22 anos.Conheci grandes companheiros da direção nacional da UJC, que não participavam diretamente do congresso porque já haviam deixado a Universidade, mas davam “assistência”, de fora : Costa Neto, um quadro político excepcional, Helio Bloch, Paes Leme, Hadock Lobo, outros. E o Roberto Las Casas, de Minas.

De outros aliados, estavam lá o José Gregori de São Paulo, o José Batista de Oliveira Junior, o Batistinha de Juiz de Fora, que em 1956 seria presidente inaugurando uma nova era. A UJC (União da Juventude Comunista) chegou ao congresso com a tese da unidade. Lançamos um jornal com varias edições diárias, o “Jornada”, dirigido pelo Murilo Vaz.

Unidade
Eu virava dia e noite. Escrevia 15 horas por dia. Uma manhã, fui encontrado dormindo, com a cara enfiada na maquina de escrever, as letras agarradas no rosto. A tese da unidade foi lançada em um competente discurso do aliado José Gregori. Acabou eleito, numa chapa única, o Augusto Cunha Neto, Netinho, mineiro de Cataguazes, estudante de Direito em São Paulo, substituindo o João Pessoa de Albuquerque, candidato do eterno Olavo Jardim Campos, do Andradinha, da “direita”.

Não deu certo. Os governistas, numa diretoria meio a meio, não deixavam o Netinho fazer nada. Ele não agüentou, renunciou e preferiu ser, anos depois, vereador em Cataguazes, pelo MDB.

Criou-se uma Junta Governativa para concluir seu mandato, presidida pelo Pedro Simon, do Rio Grande do Sul, que acabava de perder para Flavio Tavares a presidência da União dos Estudantes Gaúchos.Simon recuperou o prestigio da UNE e em 56 a esquerda ganhou com o Batistinha

Lula
É uma bela historia.Não merecia a ironia,embora verdadeira,de Lula, no lançamento da pedra fundamental da nova sede, na mesma Praia do Flamengo, 132, com um belo projeto do gênio imortal de Oscar Niemeyer:

- “A UNE nunca foi tão rica”. (E tão insignificante).

Uma saudação politicamente incorreta

Carlos Brickmann, Observatório da Imprensa

Nunca chame um deputado ou senador de "meu caro parlamentar". Como dizem os antigos, a verdade dói. E, em certos casos, pode até ofender.

E também, por favor, não pergunte onde esteve a imprensa durante todo esse tempo, que não nos contou que a tendência dos nobres parlamentares (tendência suicida, em termos de normalidade democrática) era esbofetear seus eleitores, aproveitando que a eleição já passou e que o clima de festas de fim de ano é mais propício à lassidão, à contemporização, ao deixa estar para ver como é que fica.

Porque houve planejamento: a data foi escolhida a dedo, depois da eleição, já no fim do ano legislativo, mas não tão perto do fim que faltasse gente para votar, se fosse necessário. E se fez a votação simbólica, aquela votação covarde de que só participam os líderes e na qual os nobres parlamentares não precisam se expor.

A história de que Suas Excelências desejavam aumentar os próprios salários ao nível dos pagos aos ministros do Supremo Tribunal Federal circula faz tempo. Mas os meios de comunicação nunca a tomaram muito a sério: afinal de contas, os ministros do Supremo são onze, os nobres parlamentares são 594, e já recebiam, além de 15 salários por ano, mais uma imensa manada de vacas leiteiras onde buscar um capilezinho a mais - do auxílio-paletó, para que possam vestir-se condignamente, à altura da importância que se dão, até auxílio-moradia e passagens aéreas para suas bases eleitorais, mesmo que residam e sejam domiciliados desde criancinhas no Distrito Federal. O problema é que a imprensa esqueceu os antecedentes deste pessoal, que foi capaz de pegar passagens aéreas de serviço e utilizá-las em viagem de lazer, com namoradas, esposas e acompanhantes.

Faltou reportagem, enfim. Faltou vigilância da imprensa, ainda mais sabendo-se que se trata de gente que precisa ser vigiada.

Bastou que a imprensa se interessasse pelo caso que a volta dos bingos foi derrotada (embora vá voltar já no início do ano, assim que o Legislativo retomar os trabalhos). Repórter no Congresso, pois; mais repórteres, para que a imprensa não tome dribles humilhantes dos Garrinchas da auto-ajuda.

Notícias e análises
Quando este colunista começou a trabalhar em jornal, na época em que Esperidião Amin ostentava enorme cabeleira e usava barba de dar inveja em petista, informação era artigo caro e raro. As comunicações eram difíceis, precárias, brutalmente caras; os filmes para o melhor telejornal do país, o Repórter Esso, "o primeiro a dar as últimas", vinham do Exterior de avião, e na melhor das hipóteses a imagem de um dia era exibida no outro.

Hoje a informação é abundante e barata, as comunicações são boas, embora custem mais no Brasil do que seria aceitável. A Internet dá os informes em primeira mão, embora com checagem precária; rádio e TV já dão notícias bem elaboradas. E os jornais, que saem no dia seguinte, ou hierarquizam as informações, mostram os vínculos entre os fatos, analisam a realidade, aprofundam-se na busca dos bastidores, ou se tornam desnecessários.

Simplesmente noticiar que a campanha publicitária da despedida do presidente Lula custa R$ 20 milhões de dinheiro público é insuficiente. Serão as verbas publicitárias oficiais destinadas a promover o governante de plantão, mesmo que seja o governante que sai, e não apenas, exclusivamente, somente, informações de interesse público? Que informação referente ao interesse público há na propaganda dos feitos do presidente Lula durante seu nunca assaz louvado Governo?

Propaganda dos bons tempos que se vão? OK; mas que seja paga pelos partidos que apoiam o presidente, por empresários amigos, por doações populares.

Caberia aos meios de comunicação buscar, nas leis e na Constituição, aquilo que é permitido divulgar com dinheiro público. O artigo 37 da Constituição diz que a publicidade dos atos, programas, obras e serviços e campanha dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social (...)
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Aliás, considerando-se que a Constituição é federal e vale para todo o país, a propaganda aberta dos governos estaduais está também totalmente fora da lei. Na época eleitoral, foi pior: anúncios de empresas estatais que atuam apenas em São Paulo eram divulgados em rede nacional de TV - e, certamente por coincidência, o governador de São Paulo era candidato à Presidência da República. A imprensa, na época, limitou-se ao declaracionismo: os adeptos de uma candidatura condenavam a propaganda da outra, os adeptos da outra candidatura diziam que estava tudo dentro da lei, que os adversários é que abusavam, etc. E, em certos casos, não havia opinião a discutir: havia fatos, que caberia à imprensa noticiar e repercutir. Mas é difícil, claro, lutar contra a propaganda. Afinal de contas, os veículos de comunicação também têm contas a pagar, não é mesmo?

Nunca antes

Paulo Brossard –


Depois de escolher e eleger sua sucessora, depois de, nas barbas da Justiça e dos representantes das nações estrangeiras, assumir ostensivamente a direção da campanha de sua candidata, exercendo um poder que nem a Constituição nem as leis lhe outorgavam, de resto, inconciliável com o caráter nacional de sua investidura, depois de se autodenominar “o povo”, “a opinião pública”, o presidente da República, às escâncaras, fez as vezes do cel. Chávez. E, para não deixar dúvidas, se autoconcedeu o diploma de haver realizado o maior e melhor governo do Brasil em todos os tempos.

A verdade é que os governos acertam e erram e por muitas razões, a primeira das quais é que os governantes são homens, e estes, ainda que cheios de louváveis propósitos, não são imunes ao erro; ora, em relação ao que está vivendo seus últimos dias, pode-se dizer o mesmo. Entre acertos tanto mais dignos de nota quando seu chefe, a despeito de sua clara inteligência, não é e nunca foi um scholar e nem pretendeu sê-lo, também incorreu em falhas lamentáveis por ação e omissão. De resto, ele tinha que pagar tributo ao maldito sistema presidencial; tendo sido eleito pela maioria do eleitorado, seu partido não chegou a eleger cem deputados, quando são 513 os membros da Câmara, nem 20 senadores, quando 81 são os membros da Câmara Alta; como seu saber, da experiência feito, sua habilidade e prática sindical, não teve dificuldade em obter maioria parlamentar e crescer em poder e influência, a ponto de, como erva-de-passarinho, à custa da oposição, a ponto de desequilibrar a equação política nacional; o Executivo se agigantou e seu titular fez o que quis, interna e externamente.

Ligando-se ao Irã para mostrar seu distanciamento de Washington, foi de um primarismo a lembrar a criança que reage pondo a língua de fora, quando não faltavam maneiras adequadas para marcar as diferenças.

O do escândalo do Complexo do Alemão, um território soberano encravado no território nacional, durante oito anos não foi visto pelo governo do “nunca antes”, e só rompeu o pacto da convivência silenciosa quando o morro iniciou a guerra civil abertamente.

De janeiro a agosto do ano em curso, navios que fazem escala no Brasil, juntos, parados, tiveram de esperar 78.873 horas, ou 3.286 dias, para atracar em portos nacionais, notando-se que cada dia parado custa ao barco coisa de US$ 25 mil; esses números indicam que, comparados com os do ano anterior, o aumento foi de 16%; ainda mais, esse fenômeno levou as cinco maiores empresas de navegação a 741 cancelamentos de escala, 62% superiores aos de 2009, no mesmo período. Por sua vez, para o atraso no embarque e desembarque de mercadorias, não são isentas de responsabilidades a descoordenação entre Agência Reguladora, Polícia Federal, Receita Federal e não sei mais o quê. A título de ilustração, só no porto de Santos, 120 navios ficaram fundeados simultaneamente por falta de alguma providência de terra. São fatos de inconcussa gravidade que, direta e indiretamente, atingem magnos interesses do país e de milhares de pessoas.

Muito teria a dizer a respeito, mas me falta espaço para mostrar que a majestática declaração presidencial parece decorrer de uma explosão de megalomania festejada por uma publicidade “nunca antes vista neste país”.

A majestática declaração parece decorrer de uma explosão de megalomania.

O brasileiro apoia a democracia?

Joaquim Falcão – Blog do Noblat

Ou pelo menos ficou mais convencido dos benefícios da democracia nos últimos anos?

O senso comum diria que sim. Aparentemente somos um país democrático. Com muitos problemas é verdade. Tratamentos desiguais. Justiça lenta. Processo eleitoral a aperfeiçoar. Burocratismo. Direitos individuais a respeitar. Mas tivemos eleições livres, alternância nos governos municipais, estaduais e no federal.

Os três poderes se disputam, mas se respeitam. Temos liberdade de imprensa, de expressão, do direito de ir e vir, de religião. Respeitamos e valorizamos os imigrantes. Não estamos em guerra. E por aí vamos.

Mas, se levarmos em conta o Latino Barômetro, uma ong internacional, especializada em medir a democracia, (embora ela mesma alerte ser essa uma tarefa quase impossível), o apoio do brasileiro à democracia não é tão claro.

Estamos numa América Latina onde o apoio à democracia parece depender da educação e indiretamente da renda: os mais educados (73%) apoiam, contra apenas 56% dos com menos educação.

Quando os brasileiros são perguntados se a democracia é a melhor forma de governo, a concordância média da América Latina é de 61%, no Brasil é de apenas 54%. Do ano passado para cá, o apoio à democracia teria diminuído ou no máximo ficado estável.

A maioria acredita que pode haver democracia sem partidos políticos. E o pior. Só 44 % concordam com a afirmação de que não pode haver democracia sem Congresso Nacional. Pior ainda. Pelo índice de legitimidade, dos dezoitos países da América Latina só em dois a maioria da população se nega a conceder alta ou média legitimidade a suas democracias: Brasil e México.

O brasileiro se vê numa democracia de baixa legitimidade.

O que explicaria essa aparente contradição entre o senso comum, que acredita que estamos numa democracia e esses índices de instituição respeitada como o Latino barômetro?

A resposta é complexa, mas compreensível. Democracia, corrupção, liberdade não são conceitos pacíficos. Comece a discutir com seu vizinho e verá que cada um adota conceitos diferentes e até contraditórios.

Daí, quando uma instituição faz um ranking, índice, constrói indicador para medir conceitos fluídos como democracia, corrupção e liberdade, em geral, escolhe um conceito como parâmetro. Este parâmetro funciona como ponto de partida, óculos, microscópio, através do qual analisam e veem as realidades. Daí extremo cuidado com esses barômetros, índices, indicadores e ranking. Sobretudo quando comparam países, culturas, mesmo continentes desiguais.

É indispensável conhecer o modelo de partida pelo qual o índice foi construído. Sem conhecer a matriz dificilmente entenderemos as filiais. As instituições de credibilidade explicitam suas escolhas. Mas muito frequentemente essas escolhas são influenciadas por opções culturais etnocentricamente implícitas, quase imperceptíveis.

O Euro barômetro, inspirador do Latino Barômetro, por exemplo, não mede mais o apoio dos europeus às suas democracias. Como eles não têm a experiência recente de autoritarismo o apoio é entendido como pacífico. Como natural.

Grande erro. A democracia na Europa passa por momento extremamente delicado. Se fôssemos medir, poderíamos ter surpresas desagradáveis.

A democracia européia está gravemente ameaçada pelo racismo, intolerância religiosa e crescente ódio aos imigrantes, sub cidadãos. Não tardará que tal intolerância passe para as empresas e produtos estrangeiros. Não custa um pouco de história.

Os Estados Unidos se rebelaram contra a Inglaterra no século XVIII porque os ingleses queriam lhe cobrar impostos e eles não tinham partidos políticos, meios de se representar no Parlamento Inglês. Não votavam. Cunharam então a famosa expressão: Não há direito de impor impostos sem que os contribuintes possam se representar no Parlamento. “No taxation, without representation”. Rebelaram-se. Criaram sua exemplar democracia até hoje.

Existe, pois, questão maior para a democracia européia do que a dos direitos dos imigrantes? Cidadãos que trabalham, pagam impostos e nem são representados nos parlamentos.

Quem quer que vá a Europa, hoje, sente latente caldeirão de ódio. Inclusive contra estudantes brasileiros. Não raro ouvem: por que não volta e vai estudar em seu país?

A democracia é conceito fluído que se pretende universal. Esses rankings, indicadores, índices precisam de uma crítica também universal. Assim a própria democracia avança. Afinal, são índices e não dogmas.

Mas vale a pergunta: o brasileiro passou a apoiar mais democracia em 2010? E em 2011? Avançaremos?