Carlos Brickmann, Observatório da Imprensa
Nunca chame um deputado ou senador de "meu caro parlamentar". Como dizem os antigos, a verdade dói. E, em certos casos, pode até ofender.
E também, por favor, não pergunte onde esteve a imprensa durante todo esse tempo, que não nos contou que a tendência dos nobres parlamentares (tendência suicida, em termos de normalidade democrática) era esbofetear seus eleitores, aproveitando que a eleição já passou e que o clima de festas de fim de ano é mais propício à lassidão, à contemporização, ao deixa estar para ver como é que fica.
Porque houve planejamento: a data foi escolhida a dedo, depois da eleição, já no fim do ano legislativo, mas não tão perto do fim que faltasse gente para votar, se fosse necessário. E se fez a votação simbólica, aquela votação covarde de que só participam os líderes e na qual os nobres parlamentares não precisam se expor.
A história de que Suas Excelências desejavam aumentar os próprios salários ao nível dos pagos aos ministros do Supremo Tribunal Federal circula faz tempo. Mas os meios de comunicação nunca a tomaram muito a sério: afinal de contas, os ministros do Supremo são onze, os nobres parlamentares são 594, e já recebiam, além de 15 salários por ano, mais uma imensa manada de vacas leiteiras onde buscar um capilezinho a mais - do auxílio-paletó, para que possam vestir-se condignamente, à altura da importância que se dão, até auxílio-moradia e passagens aéreas para suas bases eleitorais, mesmo que residam e sejam domiciliados desde criancinhas no Distrito Federal. O problema é que a imprensa esqueceu os antecedentes deste pessoal, que foi capaz de pegar passagens aéreas de serviço e utilizá-las em viagem de lazer, com namoradas, esposas e acompanhantes.
Faltou reportagem, enfim. Faltou vigilância da imprensa, ainda mais sabendo-se que se trata de gente que precisa ser vigiada.
Bastou que a imprensa se interessasse pelo caso que a volta dos bingos foi derrotada (embora vá voltar já no início do ano, assim que o Legislativo retomar os trabalhos). Repórter no Congresso, pois; mais repórteres, para que a imprensa não tome dribles humilhantes dos Garrinchas da auto-ajuda.
Notícias e análises
Quando este colunista começou a trabalhar em jornal, na época em que Esperidião Amin ostentava enorme cabeleira e usava barba de dar inveja em petista, informação era artigo caro e raro. As comunicações eram difíceis, precárias, brutalmente caras; os filmes para o melhor telejornal do país, o Repórter Esso, "o primeiro a dar as últimas", vinham do Exterior de avião, e na melhor das hipóteses a imagem de um dia era exibida no outro.
Hoje a informação é abundante e barata, as comunicações são boas, embora custem mais no Brasil do que seria aceitável. A Internet dá os informes em primeira mão, embora com checagem precária; rádio e TV já dão notícias bem elaboradas. E os jornais, que saem no dia seguinte, ou hierarquizam as informações, mostram os vínculos entre os fatos, analisam a realidade, aprofundam-se na busca dos bastidores, ou se tornam desnecessários.
Simplesmente noticiar que a campanha publicitária da despedida do presidente Lula custa R$ 20 milhões de dinheiro público é insuficiente. Serão as verbas publicitárias oficiais destinadas a promover o governante de plantão, mesmo que seja o governante que sai, e não apenas, exclusivamente, somente, informações de interesse público? Que informação referente ao interesse público há na propaganda dos feitos do presidente Lula durante seu nunca assaz louvado Governo?
Propaganda dos bons tempos que se vão? OK; mas que seja paga pelos partidos que apoiam o presidente, por empresários amigos, por doações populares.
Caberia aos meios de comunicação buscar, nas leis e na Constituição, aquilo que é permitido divulgar com dinheiro público. O artigo 37 da Constituição diz que a publicidade dos atos, programas, obras e serviços e campanha dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social (...)
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Aliás, considerando-se que a Constituição é federal e vale para todo o país, a propaganda aberta dos governos estaduais está também totalmente fora da lei. Na época eleitoral, foi pior: anúncios de empresas estatais que atuam apenas em São Paulo eram divulgados em rede nacional de TV - e, certamente por coincidência, o governador de São Paulo era candidato à Presidência da República. A imprensa, na época, limitou-se ao declaracionismo: os adeptos de uma candidatura condenavam a propaganda da outra, os adeptos da outra candidatura diziam que estava tudo dentro da lei, que os adversários é que abusavam, etc. E, em certos casos, não havia opinião a discutir: havia fatos, que caberia à imprensa noticiar e repercutir. Mas é difícil, claro, lutar contra a propaganda. Afinal de contas, os veículos de comunicação também têm contas a pagar, não é mesmo?