sexta-feira, abril 24, 2020

A grandeza de Moro e a indignidade de Bolsonaro

Editorial
Gazeta do Povo

 Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Sergio Moro foi aplaudido após o pronunciamento
 em que explicou seu pedido de demissão.| 

Que país é este? Em um ato de envergadura ímpar, que terá consequências importantíssimas para o país, o agora ex-ministro Sergio Moro expôs, em pronunciamento na manhã desta sexta-feira, os embates finais com o presidente Jair Bolsonaro que levaram ao seu pedido de demissão do Ministério da Justiça e da Segurança Pública. Com a tranquilidade que sempre o caracterizou, mas sobretudo com a precisão, o equilíbrio, todo o respeito possível ao (até então) superior hierárquico e extrema coragem, próprios de um estadista e um homem de bem, Moro desnudou a pressão que Bolsonaro vinha exercendo sobre ele e sobre o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, para que este fosse exonerado.

Quando Moro aceitou o convite de Bolsonaro para ser ministro, assim o fez porque estava convicto de que poderia fazer pelo Brasil ainda mais do que já vinha fazendo na qualidade de juiz federal, especialmente à frente da Operação Lava Jato. No que esteve ao seu alcance, não tem do que se arrepender, e demonstrou isso ao anunciar sua demissão. A preocupação pelo bem do país sempre norteou suas atitudes. Quando vários episódios mostraram que a “carta branca” prometida publicamente por Bolsonaro a Moro quando de sua nomeação era mais uma peça de ficção que um compromisso real, o ministro jamais deu declarações públicas que enfraquecessem o presidente, pois sabia das consequências que isso teria; mesmo no pronunciamento de sexta-feira Moro se absteve de dar mais detalhes que os estritamente necessários para que o Brasil compreendesse sua decisão. O pedido de demissão certamente não foi uma decisão fácil, mas era inevitável à luz do que estava em jogo para o bem do Brasil.

Bolsonaro mostrou, mais uma vez, que tem a caneta. Mas, ao tratar Moro da maneira como tratou, demonstrou que não tem palavra e não está à altura do cargo

Por que Bolsonaro joga fora a lealdade, os resultados e a popularidade de Moro, ao insistir em receber a cabeça de Valeixo? E por que, ao não lhe ter sido entregue a cabeça, optou ele mesmo por ser o executor do ato, a ponto de publicar um decreto de exoneração na noite de quinta-feira, incluindo a assinatura de Moro sem o conhecimento do ministro (o que já é bastante grave)? Ao que tudo indica, Bolsonaro queria um diretor-geral dócil. Nas palavras de Moro, “uma pessoa do contato pessoal dele, para quem pudesse ligar, com quem pudesse colher informações, relatórios de inteligência”, acrescentando que “não é o papel da PF prestar esse tipo de informação”. Moro lembrou ainda que Valeixo até já havia manifestado um desejo de deixar o cargo, após meses de bombardeio, e que havia bons nomes para substituí-lo. Mas o então ministro fazia questão de que a escolha do novo diretor-geral ocorresse com lisura, sem interferências políticas nem margem para o uso político da PF. Não era essa, no entanto, a vontade de Bolsonaro, um presidente que não compreende a importância da independência dos órgãos de investigação e da necessidade de preservá-los de qualquer interferência em seu trabalho.

Durante seu pronunciamento, Moro acrescentou também que Bolsonaro “tinha preocupação com inquéritos em curso no STF”. É aqui que entramos em terreno ainda mais sombrio, pois há suspeitas de corrupção envolvendo um dos filhos do presidente, Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e seu ex-assessor Fabrício Queiroz; já outro filho, o vereador carioca Carlos Bolsonaro, é apontado como chefe do chamado “gabinete do ódio”, uma suposta milícia virtual que operaria de dentro do governo e que vem sendo investigada. Em outras palavras: na hipótese mais benigna, há um déficit agudo de compreensão da parte de Bolsonaro, que não sabe nada sobre a importância das instituições e da sua independência; na pior das hipóteses, ele está disposto a fazer o que for preciso para impedir que algo muito grave venha à tona.

Por tudo isso, a saída de Moro é um baque para muitíssimos brasileiros esperançosos por um país melhor e que viram, na escolha do até então juiz da Lava Jato, a esperança de que a nação deixasse definitivamente para trás anos de roubalheiras cometidas pelos governos antecedentes, em nome de um projeto de poder absolutamente nefasto. Nesta sexta-feira, festeja a bandidagem. Festejam as milícias reais e virtuais. Festejam os corruptos à esquerda (e aqueles que os chamam de “guerreiros do povo brasileiro”), à direita e ao centro. Festejam os que promoveram todo o circo midiático contra Moro e a Lava Jato. Já o Brasil e os bons brasileiros só têm a lamentar. Bolsonaro mostrou, mais uma vez, que tem a caneta, como bravateara semanas antes diante de apoiadores no Palácio da Alvorada. Mas, ao tratar Moro da maneira como tratou, demonstrou que não tem palavra e não está à altura do cargo que tantos brasileiros, de boa fé e crentes em seu discurso, lhe concederam nas urnas. O “mito” está nu como nunca antes havia estado. Sergio Moro, por outro lado, fez valer, mais uma vez, o lema que implantou no Ministério da Justiça: “faça a coisa certa, sempre”. Moro fez."

Fazendo água

Eliane Cantanhêde, 
O Estado de S.Paulo

Quanto mais popular, pior para o ministro. E troca da PF é para salvar amigos e perseguir inimigos? 

Uma sensação cresce a cada dia, a cada semana: o governo Jair Bolsonaro está fazendo água por todos os lados, depois que o presidente escancarou suas fragilidades, tomou atitudes despropositadas na pandemia, passou a prestigiar atos ostensivamente golpistas e, não satisfeito, partiu para o ataque contra as estrelas do próprio governo, uma por uma. Isso é hora de espicaçar o ministro Sérgio Moro?
Quanto mais popular, pior para o ministro. Luiz Henrique Mandetta caiu da Saúde, Moro cansou de ser desautorizado, Paulo Guedes está sendo atropelado depois que a pandemia trouxe para a arena a velha guerra entre “liberais” e “desenvolvimentistas”. Outra que começa a periclitar é Tereza Cristina, da Agricultura, que apanha de bolsonaristas na internet e está cansada dos desaforos de Ernesto Araújo, Abraham Weintraub e Eduardo Bolsonaro contra a China – fundamental para sua pasta e para o País.

Ernesto Araújo, Weintraub e Eduardo Bolsonaro são os ideológicos cheios de prestígio no Planalto. Moro, Guedes e Tereza Cristina, como Mandetta, estão em outra categoria: não assumiram cargos no governo para seguir Olavo de Carvalho e guerrear contra uma suposta escalada comunista interplanetária. Entraram para trabalhar por suas áreas, para pôr em prática o que sonham (certo ou errado) que é melhor para o País. Pois é. Não basta.

Nessa gangorra, caem Mandetta, Moro e Guedes, sobem Roberto Jefferson, Valdemar Costa Neto e Arthur Lira, líderes do Centrão que prometem qualquer coisa para ter seus carguinhos e favores, inclusive perseguir o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. As portas do Planalto se escancaram para eles e se fecham para a Lava Jato, abandonada sucessivamente desde a campanha de 2018.

Moro chegou ao governo como troféu, mas tem um problema de origem: a popularidade. Como ele tem a audácia de ser mais popular e querido do que o “mito”? E tome de engolir sapos! Ele passou a estabelecer limites quando apoiou Mandetta na defesa do isolamento social para conter o coronavírus, mas o principal foi se recusar, primeiro, a demitir o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, em 2019, e agora a aceitar o apadrinhado por Eduardo Bolsonaro para a PF.

No olho do furacão está o Rio de Janeiro, onde Jair Bolsonaro e a família fazem política. Não faltam operações e investigações da PF no Estado, inclusive nas bases eleitorais do clã presidencial. Daí eles não descansarem enquanto não puserem alguém “de confiança” na PF em Brasília e no Rio.

É estranho, inclusive, que o presidente tenha derrubado com uma canetada três portarias que atribuíam ao Exército o controle e o monitoramento de armas de civis. Ao estilo “quem manda sou eu”, o presidente alegou, pela internet, que elas eram contrárias a um decreto de sua lavra.

A surpresa com a decisão de Bolsonaro extrapolou as fronteiras do QG do Exército e chegou à PF, que também considerava as portarias importantes no combate a milícias e ao crime organizado. Aliás, o estoque de munição para civis passou de 50 para 200 por arma em janeiro e na quinta-feira, 23, em portaria da Defesa e da Justiça, pulou para 550 por mês. Quem tem arma vai ter muito, mas muito mais, munição. Inclusive milicianos.

Bolsonaro conseguiu escantear e mudar o nome do Coaf, mas no caminho entre ele, Moro e PF, persistem investigações que resvalam nos filhos do presidente: sobre Fabrício Queiroz, atos golpistas e fake news e podem chegar ao “gabinete do ódio”, que, do Planalto, tritura ou pinica reputações de adversários e críticos de Bolsonaro. Foi assim com Mandetta, é com Tereza Cristina e piora a cada dia contra João Doria, Wilson Witzel e, principalmente, Rodrigo Maia. Será que troca da PF é para isso, salvar amigos e perseguir inimigos?

******* COMENTANDO A NOTÍCIA:

Bolsonaro, por seu comportamento desequilibrado, errático e estúpido, acaba de inaugurar a campanha nacional do “FORA BOLSONARO””. E o pior é que trouxe à tona, o PT que vê a enorme oportunidade de ressuscitar e até sonhar com a volta ao poder. 

Ao se manifestar sobre a saída de Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o ex-presidente Fernando Henrique afirmou: “ Renuncie e poupe-nos de um impeachment”.  Colocação corretíssima, porque mantendo-se no poder, feito zumbi (que é o que vai acontecer doravante), Bolsonaro torna ainda mais amargo o cenário brasileiro e amplia a agonia de um país que mergulhará numa crise institucional sem precedentes. . 

Como afirmei antes, o governo Bolsonaro acabou. Desde a saída do ex-ministro Luiz Mandetta, seu governo e sua aprovação popular já vinham em queda livre. Com a demissão de Sérgio Moro estes índices de aprovação vão bater no fundo do poço. Sua única saída para tentar salvar o pescoço é afastar, em definitivo, seus rebentos de interferirem  na governabilidade, o que bem sabemos não vai acontecer. 

Portanto, e cada dia com mais insistência e maior número de adeptos, a campanha “FORA BOLSONARO” vai varrer o país de norte a sul.


Com saída de Sergio Moro, PF prevê demissões em cascata

Carla Aranha
Exame.com

Mudanças em diretorias de vários departamentos são esperadas nos próximos dias


Moro: (Adriano Machado/Reuters)

Segundo fontes próximas à cúpula da Polícia Federal, é aguardada uma saída em massa de diretores do órgão que eram considerados os principais auxiliares de Mauricio Valeixo, por sua vez um dos principais homem de confiança de Sergio Moro. A expectativa é que a troca de diretores, inclusive de departamentos essenciais como o de combate ao crime organizado, seja decidida nos próximos dias.

Com a saída de Sérgio Moro, a previsão é que as demissões aconteçam em cascata. Para interlocutores próximos ao ministro, a continuidade de Moro no cargo ficou insustentável com a indicação de um nome ligado a Jair Bolsonaro para o posto de diretor-geral da Polícia Federal. A indicação, segundo essas fontes, teria que partir do Ministro da Justiça, que comanda a pasta, e não do presidente.

Para piorar, os principais nomes aventados até o momento têm ligação com Bolsonaro, o que poderia configurar um conflito de interesse. Além disso, Moro correria o risco de se tornar um mero “cone” no Ministério da Justiça, com o diretor-geral da PF se reportando diretamente para o Palácio do Planalto.

Comenta-se nos bastidores que Anderson Gustavo Torres, atual secretário de segurança pública do Distrito Federal, até o momento o preferido de Bolsonaro para ser o novo diretor-geral da PF, é amigo do deputado Eduardo Bolsonaro (DEM-SP) e conta com a boa vontade do próprio presidente. Na PF, Torres é visto como um delegado de perfil político, e não técnico. Alexandre Ramagen, diretor-geral da Agência Nacional de Inteligência (Abin), também não conta com a aprovação geral da PF.

O único nome a contar com um pouco mais de aprovação dos integrantes do Ministério da Justiça é o de Fabio Bordignon, diretor-geral do Departamento Penitenciário Nacional (Depen). Agora, a sorte está lançada.

Ao perder o ministro Moro, o presidente Bolsonaro perde também a honra e a dignidade

Carlos Newton
Tribuna da Interenet


Moro não quis aceitar influências políticas na Polícia Federal

Foi um pronunciamento longo e ético, em que o ainda ministro Sérgio Moro entregou a pasta da Justiça e Segurança Público. Os motivo, todos já sabiam, e o ministro apenas confirmou que não poderia concordar com influências políticas sobre o trabalho específico da Polícia Federal.

Por diversas vezes, Sérgio Moro tocou no delicado assunto, reprisando que, como ministro da Justiça e Segurança Pública, jamais poderia concordar com esse envolvimento político das atribuições da Polícia Federal, chegando a frisar que isso nao aconteceu nos governos anteriores, de Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer, apesar de investigados pela Lava Jato.


BOLSONARO SINALIZOU –

Antes de mais essa crise, provocada pelo próprio presidente da República, já se sabia quais eram as influências políticas a que Sérgio Moro viria a se manifestar nessa manhã de sexta-feira.

Reportagens publicadas em diversos veículos, inclusive aqui na TI, registravam que Bolsonaro, em seus delírios de teorias conspiratórias, teria  “identificado” duas tramas em andamento contra seu governo — a CPI das Fake News, que acaba de ser prorrogada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e o inquérito aberto no Supremo pelo procurador-geral Augusto Aras sobre a manifestação golpista de domingo. As duas “conspirações”, segundo Bolsonaro, visam a destruir seus filhos e seu governo.


MORO MANTEM A DIGNIDADE – 

Com a decisão que tomou ontem à noite após longa conversa por telefone com um dos maiores juristas brasileiros, que mora em Brasília, o agora ex-ministro Sérgio mantém sua postura de sempre, mostrando que é um homem em quem se pode confiar.

Já o presidente Bolsonaro, ao perder o apoio de Moro, perde também o que ainda lhe restava em termos de dignidade e honradez. Torna-se um presidente Zumbi, que a partir de hoje não manda mais no governo, que está nas mãos do ministro Braga Netto, enquanto o impeachment não sai.

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P.S. O mais incrível é que ainda há quem defenda Bolsonaro e seus filhos, que estão criando um caos institucional. Certamente acham que Moro é mais um comunista enrustido. Parece Piada do Ano, mas é uma tragédia anunciada. (C.N.)

Moro tem provas contra Bolsonaro

Andreza Matais e Fausto Macedo
O Estado de S.Paulo

Interlocutores do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública relataram ao Estado que Moro e Bolsonaro tiveram inúmeras conversas, pessoais e de governo, especialmente pelo WhatsApp, canal usado pelo presidente para dar ordens aos subordinados

Foto: Gabriela Biló/Estadão
O ministro da Justiça Sérgio Moro durante o anúncio
 de sua saída no governo na manhã desta quinta, 24. 

As acusações de Sérgio Moro contra o presidente Jair Bolsonaro estão respaldadas em provas documentais. Interlocutores do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública relataram ao Estado que Moro e Bolsonaro tiveram inúmeras conversas, pessoais e de governo, especialmente pelo WhatsApp, canal usado pelo presidente para dar ordens aos subordinados.

Essas fontes observaram que Moro tem uma experiência de 22 anos na função de juiz criminal e sabe, como poucos, que não se acusa alguém sem provas concretas. Pelo menos sete crimes que Bolsonaro teria cometido foram apontados pelo ex-ministro no pronunciamento que fez nesta sexta-feira. Moro surpreendeu até sua equipe ao revelar com detalhes que o presidente manifestou interesse em interferir na autonomia da Polícia Federal. Ordens que ele nunca repassou. Bolsonaro nunca teve uma conversa a sós com o diretor-geral da PF, Maurício Valeixo.

Na avaliação de experientes investigadores que acompanham o ex-ministro, a acusação mais grave apontada por Moro foi o interesse de Bolsonaro em controlar a PF para ter acesso a investigações sigilosas – muitas das quais comandadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). “O presidente também me informou que tinha preocupação com inquéritos em curso no STF e que a troca também seria oportuna na Polícia Federal por esse motivo”, afirmou o ministro na entrevista.

É munição nova à disposição dos opositores do governo. O Palácio do Planalto já enfrenta inquérito no Supremo na área das fake news. Conforme o Estado revelou, as investigações conduzidas pela PF sobre o caso já chegaram a empresários que teriam financiado ataques nas redes sociais a opositores de Bolsonaro.

A mira dos investigadores é o grupo comandado pelo “gabinete do ódio”, liderado pelo vereador Carlos Bolsonaro (RJ), filho do presidente da República. O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), irmão de Carlos, foi ao Supremo para tentar impedir a continuidade da CPI das Fake News, que também mira os financiadores da rede que destrói reputações de qualquer um que critique o presidente. Os próprios ministros do Supremo costumam ser alvo.

A PF não investiga o caso envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (RJ), filho zero um do presidente, e o seu ex-assessor Fabrício Queiroz. O parlamentar é suspeito de desviar dinheiro da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Assessores de Flavio repassavam parte do salário para Queiroz. A primeira-dama Michele Bolsonaro chegou a receber valores de Queiroz. Esse caso é conduzido pelo Ministério Público Estadual.

No discurso de despedida, Moro revelou que não aceitou interferência política na PF. O delegado Maurício Valeixo foi exonerado do cargo nesta sexta-feira. A reportagem apurou que, ontem à noite, o delegado soube que o Diário Oficial da União traria sua exoneração. Ele pediu para deixar o cargo no início do ano, após pressões para troca do superintendente da PF no Rio de Janeiro, base eleitoral de Bolsonaro, mas foi surpreendido com a demissão agora, sem que a troca tivesse sido costurada com o ministro da Justiça.



Com troca no comando da PF, Bolsonaro tenta controlar investigações e blindar seus filhos

Tribuna da Internet
Deu na Folha


Saída de Valeixo seria a forma de Bolsonaro proteger os filhos

Membros da Polícia Federal e do Ministério da Justiça, ouvidos pela Folha na condição de anonimato, afirmam que o movimento de Jair Bolsonaro que resultou no pedido de demissão feito por Sergio Moro (Justiça) tem como o pano de fundo a tentativa de o presidente controlar as ações e as investigações da corporação no país.

Para pessoas próximas ao ministro, os alvos são variados, mas o foco está em apurações que podem resultar em problemas para a família presidencial e para sua rede de apoio. O presidente não tem acesso a informações do inquérito conduzido pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes e culpa por isso o diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, homem de confiança de Moro. 

BLINDAGEM –

 Moro fez um pronunciamento às 11h desta sexta-feira e anunciou a sua demissão. A iniciativa ocorreu após Bolsonaro ter exonerado Valeixo do cargo, em decisão publicada na madrugada no Diário Oficial da União. Nos bastidores da Polícia Federal, a saída de Valeixo é forma de proteger os filhos, principalmente o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ).

A CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) das Fake News identificou, com a ajuda de policial federal cedido ao Congresso, a participação de assessor do parlamentar na disseminação de ataques nas redes contra políticos e judiciário. Esta semana, o deputado pediu ao STF para que a CPMI não tenha seus trabalhos prorrogados.

DESVIOS –

 O presidente tem falado ainda a aliados que quer colocar a PF para apurar supostos desvios relacionados à pandemia do novo coronavírus nos estados. Bolsonaro quer investigar supostas irregularidades no Rio e em São Paulo, leia-se os governadores Wilson Witzel (PSC) e João Doria (PSDB).

Outra avaliação dentro do Ministério da Justiça é a de que o presidente tenta achar culpados para as crises que ele mesmo gera e tem transferido para Moro problemas relacionados a família e apoiadores. Além de ver no ministro um adversário político em potencial.O presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF), Marcos Camargo, afirmou que Bolsonaro tem que ter cautela ao se discutir uma troca de comando na pasta.

CARTA BRANCA – 

“Alertamos, como já fizemos em outras ocasiões, que a prerrogativa de mudar a chefia dos órgãos não dá ao Executivo carta branca para destituir, sem critérios claros, os ocupantes das funções. Isso abre perigoso precedente que passa a ameaçar, inclusive, futuros ocupantes dos cargos. Respeitar a PF como instituição é fundamental para assegurar a efetividade do combate ao crime, doa a quem doer.”

Entre os parlamentares, eclodiram ao menos três teses sobre a tensão envolvendo o ministro da Justiça e Bolsonaro. Alguns disseram suspeitar de que o afastamento de Valeixo e consequente enfraquecimento de Moro tenha entrado no acerto que o presidente tem costurado com partidos do centrão. Vários integrantes das siglas são alvos da operação Lava Jato, que teve em Moro seu principal personagem até o final de 2018.

PROMESSA – 

Eles avaliam que esses parlamentares respaldam a troca por se ressentirem com o comportamento da Polícia durante as investigações da operação. “O governo prometido por Bolsonaro acabou. O plano liberal de [Paulo] Guedes e o plano de combate à corrupção de Moro foram derrotados pela pandemia, rachadinhas e pelo casamento com o Centrão. Resta a ignorância boçal de Weintraub [Educação] e Ernesto [Relações exteriores]. E alguns generais tentando evitar o desastre”, escreveu o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), em uma rede social.

Outra hipótese que circulou é que a troca do diretor da PF tinha como foco o temor dos rumos da investigação não só das milícias digitais pró-Bolsonaro, mas do ato pró-golpe militar da qual Bolsonaro participou no domingo, dia 19. No Congresso, os que se manifestaram abertamente, criticaram a possibilidade de troca do comando da PF e a saída de Moro.

NOME DE PESO – 

Para o líder do Podemos na Câmara, deputado Léo Moraes (RO), com a saída do ex-juiz, o governo perde tecnicamente “um dos seus melhores e mais respeitados nomes”. A demissão também joga “desconfiança sobre o Palácio do Planalto quando diz ter como uma das prioridades o combate à corrupção”, complementa. “A demissão de Moro só será comemorada pelos corruptos”.

O deputado Marcelo Ramos (PL-AM) avalia que a saída de Moro aumenta “o momento de instabilidade política e institucional”. “É tudo que não precisamos nesses tempos.” Para o líder do PSD no Senado, Otto Alencar (BA), o ex-juiz não deveria ter esperado tanto tempo para sair do governo. “Ele (Moro) já deveria ter pedido para sair. Ele foi desautorizado várias vezes pelo presidente”, afirma.

Aras pede investigação ao STF após declarações de Moro

Rafael Moraes Moura e Amanda Pupo/BRASÍLIA
O Estado de S. Paulo

Integrantes do Ministério Público Federal (MPF) ouvidos pelo Estado apontam que, conforme os indícios apontados por Aras, tanto Bolsonaro quanto o próprio Moro serão alvos da investigação. 

Foto: Dida Sampaio / Estadão
O procurador-geral da República, Augusto Aras, durante cerimônia de posse em Brasília. 

O procurador-geral da República, Augusto Aras, decidiu nesta sexta-feira (24) pedir ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma investigação após as declarações do ex-ministro da Justiça Sergio Moro, que acusou o presidente Jair Bolsonaro de interferência política na Polícia Federal para obter acesso a informações sigilosas. O objetivo é apurar se foram cometidos os crimes de falsidade ideológica, coação no curso do processo, advocacia administrativa, prevaricação, obstrução de justiça, corrupção passiva privilegiada, denunciação caluniosa e crime contra a honra.

Documento

INQ 4829   PDF

Conforme os indícios apontados por Aras, tanto Bolsonaro quanto o próprio Moro serão alvos do inquérito. Se as investigações concluírem que o ex-ministro mentiu, por exemplo, Moro pode ser acusado de denunciação caluniosa e crime contra a honra. Um dos pedidos do procurador-geral da República é inclusive para que Moro preste depoimento para esclarecer os fatos.

“A dimensão dos episódios narrados revela a declaração de Ministro de Estado de atos que revelariam a prática de ilícitos, imputando a sua prática ao presidente da República, o que, de outra sorte, poderia caracterizar igualmente o crime de denunciação caluniosa”, escreveu o procurador-geral.

“Indica-se, como diligência inicial, a oitiva de Sergio Fernando Moro, a fim de que apresente manifestação detalhada sobre os termos do pronunciamento, com a exibição de documentação idônea que eventualmente possua acerca dos eventos em questão. Uma vez instaurado o inquérito, e na certeza da diligência policial para o não perecimento de elementos probatórios, o procurador-geral da República reserva-se para acompanhar o apuratório e, se for o caso, oferecer denúncia”, concluiu Augusto Aras.

Indicado ao cargo por Jair Bolsonaro, o procurador-geral da República tinha sido cobrado para agir e criticado pelos pares por, na visão deles, não agir para frear os excessos cometidos pelo Palácio do Planalto. Subprocuradores e procuradores ouvidos pela reportagem apontaram que, conforme as declarações de Moro, o presidente da República poderia ter cometido sete crimes.

Enquanto Moro anunciava a sua demissão do cargo, com uma série de acusações contra Bolsonaro, Aras cumpria agenda com o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas. Após se reunir com auxiliares na PGR, o procurador concluiu que o caso era grave o suficiente para acionar o STF.

O pedido do procurador-geral da República ainda vai ser sorteado entre 10 integrantes da Corte – o presidente do STF, ministro Dias Toffoli, fica de fora da distribuição por não receber esse tipo de processo enquanto comanda o tribunal.

Provas. Conforme informou o Estado, as acusações de Moro contra Bolsonaro estão respaldadas em provas documentais. Interlocutores do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública relataram ao Estado que Moro e Bolsonaro tiveram inúmeras conversas, pessoais e de governo, especialmente pelo WhatsApp, canal usado pelo presidente para dar ordens aos subordinados.

Ao anunciar a saída do cargo nesta sexta-feira, Moro acusou Bolsonaro de tentar interferir politicamente no comando da Polícia Federal para obter acesso a informações sigilosas e relatórios de inteligência. “O presidente me quer fora do cargo”, disse Moro, ao deixar claro que a saída foi motivada por decisão de Bolsonaro.

Moro falou com a imprensa após Bolsonaro formalizar o desligamento de Maurício Valeixo do cargo de diretor-geral da Polícia Federal – o ministro frisou que não assinou a exoneração do colega.  Segundo Moro, embora o documento de exoneração conste que Valeixo saiu do cargo “a pedido”, o diretor-geral não queria deixar o cargo. O próprio Moro, que aparece assinando a exoneração, afirmou que foi pego de surpresa pelo ato e negou que o tenha assinado.

“Fiquei sabendo pelo Diário Oficial, não assinei esse decreto”, disse o ministro, que considerou o ato “ofensivo”. Na visão dele, a demissão de Valeixo de forma “precipitada” foi uma sinalização de que Bolsonaro queria a sua saída do governo.

“O presidente me disse que queria ter uma pessoa do contato pessoal dele, que ele pudesse colher informações, relatórios de inteligência, seja diretor, superintendente, e realmente não é o papel da Polícia Federal prestar esse tipo de informação. As investigações têm de ser preservadas. Imagina se na Lava Jato, um ministro ou então a presidente Dilma ou o ex-presidente (Lula) ficassem ligando para o superintendente em Curitiba para colher informações”, disse Moro, ao comentar as pressões de Bolsonaro para a troca no comando da PF.


Moro abre espaço para o processo de impeachment de Bolsonaro

Eliane Cantanhêde, 
O Estado de S.Paulo

Interferir em investigações da Polícia Federal é muito mais grave do que pedalada fiscal

  Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino
Sérgio Moro entrega o cargo de ministro da Justiça. 

 “O problema não é quem entra, é por que alguém entra (na Polícia Federal).” Com essa frase forte, poderosa, o juiz Sérgio Moro encerrou sua participação no Ministério da Justiça deixando acusações de altíssima gravidade contra um presidente que lhe causou prejuízos, humilhações e derrotas, depois de encerrar prematuramente sua brilhante carreira na magistratura. Para um importante jurista, Moro não fez pronunciamento, fez delação premiada.

Traduzindo, a pergunta do ministro é a de milhões de brasileiros que querem entender “a causa” da troca do delegado Maurício Valeixo na direção geral da Polícia Federal. O próprio Moro respondeu: o objetivo de Jair Bolsonaro é interferir diretamente não apenas na PF, mas – e isso é o mais dramático – nas próprias investigações.

O ponto mais chocante foi quando Moro disse que Bolsonaro exige ter acesso direto ao diretor geral e aos superintendentes da PF e, inclusive, pasmem!, aos relatórios de inteligência e aos relatórios sigilosos sobre as investigações de corrupção e crime organizada.

Isso é gravíssimo. Caracteriza crime de responsabilidade e tem uma dimensão muito maior do que as próprias pedaladas fiscais que deram base jurídica ao impeachment da então presidente Dilma Rousseff. A sombra do impeachment está se avolumando sobre Bolsonaro.

O Planalto dirá que é a palavra de Bolsonaro contra a de Moro e que cabe ao acusador provar a acusação. Mas, do ponto de vista político e institucional, Moro já ganhou a batalha, pela forma firme, serena e digna com que anunciou a demissão e a ação do presidente para mergulhar de cabeça nas investigações da PF.

As circunstâncias sustentam a versão de Moro. É na PF que se desenrolam diferentes investigações contra os filhos do presidente ou se aproximam perigosamente deles: Fabrício Queiroz, fakenews, gabinete do ódio, agora a organização e o financiamento de atos golpistas de grande gravidade. Todas se embolam numa só.

No final, Moro deixou uma senha para sua entrada na política: “Sempre estarei à disposição do País. Respeitando o mandamento maior, o de fazer a coisa certa, sempre”. Não é o que Bolsonaro está fazendo e isso pode definir não apenas a distância entre ele e Moro, mas seu destino na Presidência, que pela primeira vez está concretamente sob risco.


Moro atira no coração de Bolsonaro

Fausto Macedo e Andreza Matais
O Estado de S. Paulo


FOTO: UESLEI MARCELINO/REUTERS
Moro e o presidente Jair Bolsonaro. 

O ministro demissionário da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro atingiu o coração de Bolsonaro. Nessa declaração pública de cerca de 40 minutos que fez a manhã desta sexta, 24, o ex-juiz da Lava Jato atribui tentativas de crimes ao presidente. Por baixo, obstrução de justiça, tráfico de influência e crime de responsabilidade.

Ter acesso a relatórios de inteligência, conhecimento e domínio de inquéritos é uma estratégia de Bolsonaro repudiada pela PF.

A lei 12.850/2013, que define Organização Criminosa, diz que incorre nela “quem impede ou, de qualquer forma, embaraça a investigação de infração penal que envolva organização criminosa.” A pena é de reclusão de três a oito anos, e multa, sem prejuízo das penas correspondentes às demais infrações penais praticadas.

Desprestigiado e desautorizado, com a demissão do diretor geral da PF Maurício Valeixo sem sua anuência, pior, sem seu conhecimento, Moro tenta evitar a completa desmoralização ao dar adeus ao ministério. Por isso apontou para o peito de Bolsonaro. E acusa o presidente de querer interferir na rotina de uma Polícia que age apartidariamente.

Carta branca que nada. Moro demorou, e resistiu muito, para perceber que esse compromisso público do presidente era apenas uma falácia.



Sérgio Moro pede demissão. Não aceitou jogar sua biografia no lixo

Comentando a Notícia



 O blog ainda retornará a este assunto. Mas o ministro da Justiça. Sérgio Moro, mantendo sua integridade, respeitando sua biografia, e mantendo-se firme em não aceitar interferências injustificáveis em seu trabalho, especificamente atuação da Polícia Federal, sai do governo de cabeça erguida. 

Em seu discurso, Moro demonstrou seu inconformismo com a interferência presidencial que rasgou o compromisso que havia entre os dois, além de esfregar na cara de todos a mentira contada pelo governo pela exoneração do diretor geral da PF.

A conclusão a que chegamos, depois da demissão de Luiz Mandeta, e agora com a saída de Sérgio Moro, é a de que este governo acabou. Vai respirar com a ajuda de aparelhos. Seu apoio no Congresso entrou chão adentro e a única base de sustentação será mantida com a escória, de quem Bolsonaro se aproximou nestes últimos dias. Dá para se dizer que Bolsonaro está praticando uma forma de estelionato eleitoral, ou tirando a máscara com a qual se mostrou ao país.

E é bom Bolsonaro tomar cuidado: a intromissão na PF para substituir o diretor geral só se justifica pela ação de abafa que o presidente vai promover para que as investigação em relação aos filhos seja suspensa.

Mas desconfio que o tiro sairá pela culatra. . Vamos aguardar os próximos capítulos que prometem ser emocionantes.





Desafio de dar auxílio rápido na crise revela: Brasil não conhece o Brasil

Clara Cerioni
Exame.com

Mobilização para identificar trabalhadores informais que não estão na base de dados do governo traz dados e lições valiosas para o futuro

(Rahel Patrasso/Reuters)
Rua vazia: além dessa operação ser complexa por natureza, 
o Brasil enfrenta um agravante: o caos em sua base de dados públicos 

Há pouco mais de dez dias, o Brasil leva a cabo uma verdadeira operação de guerra para fazer com que o auxílio emergencial de 600 reais chegue aos trabalhadores mais prejudicados pela pandemia do novo coronavírus.

São diários, no entanto, relatos de pessoas dormindo em filas para atualizar dados cadastrais ou de trabalhadores que passam horas na Receita Federal para regularizar o CPF.

De fato, não é simples colocar para funcionar um sistema de transferência de renda tão complexo, que custará aos cofres públicos 98 bilhões de reais em três meses. Ao redor do mundo, cerca de 80 países também têm desenhado políticas públicas de assistência social em meio à emergência de saúde pública, segundo informações do líder global de assistência social do Banco Mundial, Ugo Gentilini.

Mas, além dessa operação ser complexa por natureza, o Brasil enfrenta um agravante: o caos em sua base de dados públicos que registra a composição familiar nos lares brasileiros, informação essencial para que o governo avalie a necessidade de receber o auxílio emergencial.

“Nós temos muitos registros administrativos, como e-social, Dataprev e DataSUS, mas só dois pegam composição familiar, o Cadastro Único e a Receita Federal. Todo o resto é registro de pessoas, o que não serve muito para essa política de transferência de renda”, diz Luís Henrique Paiva, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

Atualmente, o CadÚnico contém cerca de 73 milhões de brasileiros, o equivalente a 27 milhões de famílias, que estão nas classes mais vulneráveis. Esse banco de dados é usado em mais de 30 políticas de assistência social, a principal delas o Bolsa Família. Já a Receita Federal compreende o topo da pirâmide econômica, mas os dados são protegidos por sigilo e inacessíveis.

Apesar de robustos, esses cadastros não compreendem a massa de brasileiros que não recebem nem assistência social, nem ganham o suficiente para declarar Imposto de Renda. De acordo com dados do Ministério da Cidadania, cerca de 25 milhões de brasileiros não têm registro em nenhuma base de dados do governo ou não tem formalização da atividade. “Como essas pessoas serão atingidas?”, questionou o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, no início do mês.

Em 7 de abril, a Caixa começou a pagar o benefício exatamente para os elegíveis pelo CadÚnico. Esses não precisaram nem se cadastrar no aplicativo disponibilizado pelo governo e o dinheiro tem sido depositado automaticamente. Segundo a Caixa, 21 milhões de famílias se encaixaram nos pré-requisitos do programa.

Já os que precisaram se cadastrar no aplicativo só começaram a receber neste último fim de semana. Informações do Dataprev, órgão que está processando os pedidos, mostram que 42,2 milhões de pessoas já se cadastram. Deste total, 24,2 milhões já receberam o dinheiro. 

Além da criação do aplicativo e do processamento dos dados, a Caixa também deve criar 30 milhões de poupanças sociais digitais para pagar o auxílio emergencial. Para muitos brasileiros, essa será a primeira vez na vida que terão conta em banco.


Atacando problemas para o futuro

Quando a pandemia da covid-19 passar, essa infinidade de dados que está sendo coletada por meio do aplicativo provavelmente terá que ser minuciosamente reavaliada para identificar possíveis falhas. Os registros, inclusive, podem ser transferidos para uma base de dados do governo de informais, que respeite as regras de privacidade.

Para o futuro, contudo, essa operação de guerra deixará lições importantes. “Estamos atacando três graves problemas do Brasil ao mesmo tempo: as falhas nas bases de dados, o problema de inclusão bancária e a falta de experiência para abrir rapidamente a rede de proteção social”, diz Marcelo Medeiros, um dos maiores especialistas do país em desigualdade, hoje professor convidado na Universidade de Princeton.

O especialista prevê que essa capacidade do Estado em ampliar a proteção social com rapidez vai ficar cada vez mais urgente. “Assim como essa pandemia, as crises de natureza climática que vão acontecer mais e mais vezes vão depender muito de ação coletiva e isso depende do auxílio do Estado aos mais vulneráveis”.

Ele sugere até a criação de um fundo para emergências para que nas próximas crises o governo não precise aumentar a dívida pública para bancar um programa emergencial.

Luís Henrique, do IPEA, também enxerga uma participação cada vez maior do estado na proteção social para momentos de crise, mas cita um empecilho significativo: a capacidade e o incentivo para a população atualizar os dados cadastrais de composição familiar com frequência. Para ele, isso só é possível quando está vinculado a uma política de transferência de renda permanente.

“Para cobrir esse meio, que não é do CadÚnico nem da Receita Federal, tem que ser um esquema muito simplificado de informações, mas tem que ter uma certa política por trás, que tenha um peso significativo no orçamento da União e as pessoas se esforcem para manter a informação atualizada”, diz.

Se o Brasil conseguir manter essas três bases de dados atualizadas e, ainda por cima, conseguir desenvolver uma identidade digital universal para agilizar processos de cadastramento, como tem a Índia, pode ser que a reação às emergências do futuro seja mais eficiente.

Recuperados da Covid-19 se aproximam de 23 mil no Brasil

Corrio do Povo (Porto Alegre)
Com informações Agência Brasil

Ministério da Saúde afirmou que a taxa de recuperação da doença está em 56,7%


Foto: Alina Souza
Ministério da Saúde afirmou que a taxa de recuperação da doença está em 56,7%

O Brasil registrou, até segunda-feira, 22.991 pessoas recuperadas da Covid-19, segundo dados do Ministério da Saúde. O número foi divulgado sem detalhamento por estado.

A taxa nacional de recuperação da doença encontra-se em 56,7%, uma pequena melhora em relação aos 55% registrados em 14 de abril, quando o ministério começou a divulgar o número de recuperados. O país tem 40.581 pacientes diagnosticados, segundo os dados divulgados nessa segunda-feira.

O ministério contabiliza como recuperado o paciente com confirmação do novo coronavírus que recebeu alta hospitalar após internação e também os confirmados sem internação, mas que deixaram de apresentar sintomas depois de ficar em casa.

Enquanto a taxa de recuperação se mantém acima da metade dos casos, o índice de letalidade encontra-se em 6,3% dos casos confirmados. No Brasil, foram registradas 2.575 mortes até ontem.

As hospitalizações por Covid-19 chegaram a 8.318. O total de pessoas internadas por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em investigação totalizaram 42.817. Outras 15.752 foram denominadas SRAG “não especificado”. 

Na segunda-feira, o ministro da Saúde, Nelson Teich, anunciou ter aumentado para 46 milhões o número de testes que a pasta pretende comprar para ampliar os diagnósticos. “Isso é importante para entender a doença, a evolução e fazer um planejamento para revisão do distanciamento social”, disse Teich, em vídeo divulgado pela assessoria do Ministério da Saúde. 

Taxa de recuperação da Covid-19 é maior no Brasil que Espanha, Itália e EUA

Gazeta do Povo (Paraná)


Foto: Jaelson Lucas/AEN
Testes de coronavírus no Paraná. 

Aproximadamente 23 mil brasileiros (22.991) que tiveram o novo coronavírus já conseguiram se recuperar da doença, segundo o Ministério da Saúde divulgou na segunda-feira (20). Não foi informado o número por estado. A taxa de recuperação da Covid-19 no Brasil, atualmente, é de 56,7%. Até segunda-feira, o país registrava 40.581 casos confirmados de coronavírus. Já o número de mortos por causa da doença chegava a 2.575, e a taxa de letalidade era de 6,3%.

Além disso, de acordo com dados publicados pela Veja, a taxa de pessoas recuperadas da Covid-19 no Brasil é similar à da Suíça (58,5%), e superior a de países como Espanha (39,8%), Itália (23%) e Estados Unidos (8,1%)."

Brasil é o segundo país com mais pacientes graves do novo coronavírus

Denyse Godoy
Exame.com

Dos 15.235 pacientes atualmente doentes no país, 8.318 estão em condição crítica, segundo o site de estatísticas Worldometer

(Pilar Olivares/Reuters)
Homem caminha de máscara na orla do Rio de Janeiro: distanciamento 
social é maneira mais eficiente de reduzir contágio do coronavírus 

O Brasil é o segundo país com mais pacientes da infecção respiratória covid-19 em estado grave, segundo o site Worldometer, que compila os dados referentes à pandemia do novo coronavírus. Dos 15.235 pacientes atualmente doentes, 8.318 estão em condição crítica. No mundo, somente os Estados Unidos têm mais pacientes em estado grave: 13.951.

Os números foram atualizado pela última vez na tarde de ontem, a partir de informações do Ministério da Saúde. No total, o Brasil já registrou 40.814 casos, com 22.991 pacientes recuperados e 2.588 mortos. A taxa de letalidade no país está em 7%. Os Estados Unidos contam um total de 802.159 casos da covid-19, com 43.495 mortes e 72.985 pacientes recuperados.

Os especialistas em saúde pública ponderam que as estatísticas no Brasil devem estar mostrando um quadro melhor do que a realidade, porque o país é um dos que menos testam a popualação para o novo coronavírus: 1.373 a cada 1 milhão de habitantes. Nos Estados Unidos, são 12.315 testes por 1 milhão de pessoas.

O novo ministro brasileiro da Saúde, Nelson Teich, prometeu aumentar a testagem, mas não informou ainda como. A ampla testagem está no topo da lista de recomendações da Organização Mundial da Saúde para que as nações consigam controlar a pandemia, diminuindo a velocidade de disseminação e evitando a superlotação da rede de hospitais. Enquanto a ferramenta não está disponível, a melhor maneira de desacelerar o contágio é o distanciamento social.

Mesmo antes de a ampla testagem ser colocada em prática, diversos estados brasileiros já discutem planos para reabrir os estabelecimentos comerciais e colocar a economia para funcionar novamente. O governador João Doria Junior, de São Paulo, planeja anunciar sua estratégia amanhã. No estado, há 2.600 amostras coletadas à espera do exame. Doria disse nesta terça-feira, 20, que a fila será zerada amanhã.

Ministério promete 46,2 milhões de testes, mas só entregou 2,5 milhões

Mateus Vargas, 
O Estado de S.Paulo

Maior parte do lote já enviado aos Estados é de testes rápidos, com 'limitações importantes' na eficácia; medida é um pilar do projeto para revisão do isolamento social

  Foto: Gabriela Biló/Estadão
Distrito Federal teve filas de carros para testes do novo coronavírus 

BRASÍLIA - Mesmo atrasado para entrega da primeira leva de testes para o novo coronavírus prometidos, de 23,9 milhões de unidades, o Ministério da Saúde quase dobrou a meta e quer distribuir 46,2 milhões de exames durante a crise. Até agora, no entanto, a pasta só enviou aos Estados 2 milhões de testes rápidos, recomendados para aplicação em profissionais de saúde, e 524,3 mil testes do tipo RT-PCR – mais caro, rápido e preciso. 

A ideia de dobrar a meta de testes foi anunciada na segunda-feira, 20, pelo novo ministro da Saúde, Nelson Teich. Ele afirmou que a medida é um pilar do projeto “que já está sendo feito” de revisão do distanciamento social. O fim das quarentenas é uma bandeira do presidente Jair Bolsonaro. Opor-se a ideia foi um dos motivos para a demissão do ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM). 
“Teste em massa não significa testar a população toda. A gente vai usar teste de forma que pessoas examinadas vão refletir a população brasileira”, disse Teich em vídeo enviado pela equipe de comunicação do ministério. O ministério também ampliou a capacidade de análise de testes. Em contrato com o Grupo Dasa, a pasta espera processar 30 mil exames por dia. A Coreia do Sul realiza de 10 a 15 mil testes diários. 

Técnicos da pasta dizem que mesmo com maior capacidade de processamento no Brasil, há dificuldade para encontrar exames confiáveis no mercado. Outro ponto que dificulta a entrega é o atraso da Fiocruz na produção. Em boletim epidemiológico divulgado no fim de semana, o ministério afirma que recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) para testagem em massa, sem alerta para os países se equiparem, fez sumir o produto do mercado.

Os testes rápidos já entregues pelo governo foram doados pela mineradora Vale. Já exames do tipo RT-PCR distribuídos são de compras feitas com a Fiocruz, o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP) e doação da Petrobrás.

O governo fechou recentemente também uma compra de 10 milhões de testes RT-PCR por meio de parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). A previsão é de que cerca de 500 mil testes comecem a chegar na próxima semana e, depois, cerca de 800 mil a cada semana.

Segundo integrantes do ministério, há forte pressão do Palácio do Planalto para ampliar o número de testes no País. A Saúde tem sinalizado que pretende ampliar o público-alvo para exames de diagnóstico rápido. 

Antes a pasta recomendava apenas a aplicação de testes rápidos para quem atua na “linha de frente” do combate à covid-19, como profissionais da saúde. Em boletim publicado no fim de semana, no entanto, o ministério afirma que deseja “progressivamente” incluir idosos, portadores de condições de risco para complicações da covid-19 e a população economicamente ativa na rotina de testagem. A ideia seria também aumentar a “carteira” de curados e imunes à doença que poderiam retornar ao trabalho, dizem integrantes do governo.

Os testes rápidos, porém, têm “limitações importantes”, reconhece o próprio ministério em nota. O produto doado pela Vale, por exemplo, pode errar 75% dos diagnósticos negativos, segundo análise do Grupo Dasa feita a pedido do governo federal. Como este exame detecta a presença de anticorpos, o ministério orienta aplicá-lo sete dias após o começo de sintomas da doença. 

Distrito Federal tem drive-thru de testes rápidos

O governo do Distrito Federal começou nesta terça-feira a realizar testes na população para covid-19 por meio de serviço de "drive-thru", aplicação no estacionamento. A ideia é chegar a 450 mil exames até maio, segundo o governador do Ibaneis Rocha (MDB).

A primeira fase dos testes, com 100 mil exames, está sendo feita no Plano Piloto e em Águas Claras, regiões com mais casos da doença. Houve filas de carros em pontos de coleta de amostras, como no Estádio Mané Garrincha e nos estacionamentos de cinco pontos em Águas Claras. 

Para decidir quem está apto ao exame, o Corpo de Bombeiros mede a temperatura dos passageiros com câmeras térmicas. Apenas quem apresentar febre é selecionado. O governo realizou testes rápidos, que apresentam resultados em até 30 minutos, mas têm menor grau de precisão, e do tipo RT-PCR. Neste último modelo, as amostras são enviadas para análise em laboratório e ficam prontas em até 48 horas.

Ibaneis Rocha tem dito que os dados de infectados no Distrito Federal servirão para auxiliar em decisões sobre flexibilizar a quarentena. O governador afirma que deseja reabrir o comércio até 3 de maio. A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) recomendou na terça-feira, 21, que os países-membros elevem a capacidade de testes para identificar os casos de coronavírus e tomem cuidado ao flexibilizar as restrições à circulação




Para alegria do Doutor Genocida, Brasil tem 407 mortos num dia, e ministro não sabe o que influenciou alta

Da redação,  Exame.com
Com  informações Estadão Conteúdo

Com país se aproximando dos 50 mil casos da covid-19, Nelson Teich diz que ainda não dá para saber se aumento é fruto de mais testes ou de mais infectados

(Ueslei Marcelino/Reuters)
Exames: a capacidade de testagem é um dos parâmetros definidos pelo 
governo de SP para iniciar reabertura da economia no dia 11 de maio. 

Os dados divulgados pelo Ministério da Saúde nesta quinta-feira, 23, mostram que o Brasil tem 3.313 mortes confirmadas por coronavírus (causador da covid-19). Em um dia, foram 407 novos óbitos, a maior alta desde o começo da pandemia. A taxa de letalidade é de 6,7%.

No total, o país registra 49.492 casos da virose. Em 24 horas o boletim confirmou mais 3.735 infecções, um aumento de 8,2%. O governo também divulgou que já são 26.573 pessoas que se recuperaram da doença.

O ministro da Saúde, Nelson Teich, diz que ainda não dá para saber se a maior alta já registrada desde o início da pandemia é por conta de um esforço dos estados para zerar a fila de exames pendentes ou de fato um aumento na propagação do vírus no país.

“Na prática, o que você tem que fazer é acompanhar o dia a dia. Se for uma linha de tendência de aumento, os números nos próximos dias vão aumentar cada vez mais. Daí saberemos que isso não é um esforço pontual [de zerar testes]”, afirmou nesta quinta, em entrevista coletiva.


Ele voltou a dizer que o isolamento social seja feito de acordo com critérios de cada localidade. Disse ainda que não necessariamente defende a quarentena.

“A gente defende o que é melhor para a sociedade. Se o melhor para sociedade for o isolamento e tiver que ser o isolamento, vai ser. Se eu puder flexibilizar, dando autonomia para as pessoas uma vida melhor e isso não influenciar na doença, é o que eu vou fazer”.

Estados com mais de mil casos

São Paulo concentra a maior parte de infectados, com 16.740 e 1.345 mortes. Outros 11 estados passaram da marca dos mil casos confirmados: Rio de Janeiro (6.172), Ceará (4.598), Pernambuco (3.519), Amazonas (2.888), Bahia (1.789), Maranhão (1.757), Espírito Santo (1.363), Minas Gerais (1.308), Pará (1.276), Santa Catarina (1.115) e Paraná (1.082).

CFM libera cloroquina

Nesta manhã, o Conselho Federal de Medicina (CFM) anunciou a permissão para uso da cloroquina a pacientes com casos leves. O presidente do CFM, Mauro Ribeiro, reuniu-se com Bolsonaro, entusiasta do tratamento contra a covid-19.

Apesar de reconhecer que não há ainda comprovação de segurança e eficácia do tratamento, a entidade afirma que a liberação ocorre devido à excepcionalidade da pandemia e ficará a cargo da prescrição do médico.

******** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Então o ministro não sabe a razão deste aumento recorde brutal em casos e mortes? Ora, Teich, não seja ingênuo e não tente nos fazer de tolos. Basta o afrouxamento do isolamento que a própria população vem fazendo incentivada pelo Doutor Genocida, além de que hoje 10 estados já estão promovendo alívio nas regras das medidas restritivas. E tudo está sendo feito antes, muito antes da pandemia atingir o seu pico em nosso país. O resultado mórbido é o que estamos assistindo. Simples assim. 

Continuem afrouxando as regras e deixando de alertar a população  sob o perigo a que está se expondo. Esteja certo, ministro, teremos pela frente muitos novos tristes recordes para lamentar.

Prefeitura de SP mostra caos no Equador para estimular quarentena; veja

Clara Cerioni
Exame.com

Campanha usa imagens fortes do colapso na cidade de Guayaquil para conscientizar população sobre os riscos de romper o isolamento

 (Prefeitura de SP/Reprodução)
Frame vídeo da campanha da prefeitura de São Paulo para incentivar quarentena

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), anunciou nesta quinta-feira, 23, uma nova (e forte) campanha publicitária para incentivar a adesão à quarentena na capital.

O vídeo, que será veiculado na televisão, internet e distribuído via WhatsApp, mostra o caos em Guayaquil, cidade portuária do Equador que virou símbolo do risco trazido pelo novo coronavírus.

A propaganda traz imagens da população doente, pessoas caídas nas ruas, colapso nos hospitais e caos funerário. “Sem quarentena, muita gente contraiu o vírus ao mesmo tempo e o sistema de saúde não tem como atender a todos”, diz o narrador. A mensagem final da campanha é que “a triste história de Guayaquil não pode se repetir”.

Antes de divulgar a campanha, Covas se solidarizou com a cidade equatoriana e afirmou que essa história “deve servir como exemplo para que a gente possa aprender com o risco que todos nós corremos”.

O prefeito, ainda, citou que São Paulo não pode cometer os mesmos erros de colapso no sistema de saúde e funerário que outras partes do mundo, como Nova York, registraram. “A questão dos enterros dos mortos vítimas dessa pandemia tem sido um desafio”.




Plano de contingência funerária

Covas anunciou, ainda, um plano de contingência funerária para a capital paulista. Já foram liberados 40 milhões de reais em créditos suplementares para as empresas, e a capacidade do atendimento do serviço funerário municipal foi ampliada de 240 para 400 corpos por dia.

“A prefeitura já contratou 220 coveiros para poder dar conta desta nova demanda e quase dobrou o número de carros trabalhando na frota do serviço”, explicou o prefeito.

Ele acrescentou que a prefeitura comprou 38 mil novas urnas e 15 mil sacos reforçados para garantir a segurança no deslocamento dos corpos e adquiriu 3 mil equipamentos de proteção individual (EPIs) para os funcionários dos cemitérios. A prefeitura também comprou 8 câmaras refrigeradas que podem guardar até mil corpos aguardando sepultamento.

Velórios para casos confirmados ou suspeitos da covid-19 foram suspensos. Para as demais mortes, as cerimônias serão de uma hora com a presença de no máximo dez pessoas. “Construímos, ainda, um centro de logística no cemitério da Vila Formosa”.

De acordo com dados mais recentes, o estado de São Paulo concentra os maiores índices da doença, com mais de 15 mil casos confirmados e 1,1 mil mortes. Apesar da ampliação de 2.000 novos leitos hospitalares, a capital paulista está hoje com 70% de sua capacidade ocupada.

(Com Gilson Garret Jr.)


SP abre 13 mil valas e contrata 220 coveiros para evitar colapso funerário

Exame.com
Com informações Agência  Reuters

O prefeito Bruno Covas afirmou, em coletiva, que "o pior ainda está por vir" ao se referir aos efeitos da pandemia do novo coronavírus

 (Amanda Perobelli/Reuters)
Cemitério: cidade aumenta capacidade para enterros 
por causa da pandemia do coronavírus

A prefeitura de São Paulo vai abrir 13 mil valas em cemitérios administrados pelo município e elevará em um terço a capacidade de realizar enterros em meio a pandemia de coronavírus, anunciou nesta quinta-feira o prefeito Bruno Covas (PSDB).

Ele disse que entre as ações, parte de um plano de contingência para o serviço funerário paulistano, também está a contratação de 8 câmaras refrigeradas para armazenar até mil cadáveres e o acréscimo de 36 novos carros funerários, mais que dobrando a frota atual de 32 veículos.

“O pior ainda está por vir”, disse Covas ao se referir à epidemia de Covid-19, doença respiratória provocada pelo novo coronavírus, em entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado de São Paulo, ao lado do governador João Doria (PSDB).

“A nossa preocupação é de estarmos preparados para organizar e minimizar a dor das famílias para que elas possam dar um sepultamento digno aos entes que vão ser perdidos. Por isso elaboramos um plano de contingência para que a gente possa ter um funcionamento adequado do serviço funerário aqui em São Paulo”, afirmou.

O prefeito disse que o município aumentará a capacidade de sepultamentos, atualmente em 240 enterros por dia, para 400, além de adquirir equipamentos de proteção individual para os agentes sepultadores da cidade e de flexibilizar o monopólio que a prefeitura detém sobre o serviço funerário.

“Estamos abrindo 13 mil novas valas, inclusive com apoio e utilização de quatro mini-retroescavadeiras, e se necessário vamos ter capacidade para poder trabalhar 24 horas por dia aqui na cidade de São Paulo”, disse.

“Amanhã publico um decreto flexibilizando o monopólio do serviço funerário na cidade de São Paulo para que todos os velórios e sepultamentos que acontecem nos cemitérios privados possam acontecer sem passar pelo serviço funerário da prefeitura”, acrescentou.

Covas também divulgou uma peça publicitária feita pela prefeitura que defende a necessidade da quarentena e do isolamento social para conter o avanço da doença, ao mostrar a situação a que chegou a cidade de Guayaquil, no Equador, onde o sistema funerário e de saúde entraram em colapso e cadáveres acabaram ficando pelas ruas.

Indagado se as medidas anunciadas nesta quinta apontam o número de mortos pelo Covid-19 que a prefeitura espera para a cidade de São Paulo, o prefeito respondeu: “A gente tem que estar preparado para os piores cenários.”


SITUAÇÃO DOLOROSA: Manaus começa a enterrar em valas coletivas; sepultamentos quadruplicam na capital do AM

Célio Andrade Silva, 
Especial para O Estado de S. Paulo

Ocupação de leitos de UTI é de quase 100% no Amazonas; prefeito da capital fala em colapso do atendimento em saúde

  Foto: Michael Dantas/AFP
Manaus começa a enterrar em valas coletivas 

MANAUS - A rotina de 30 enterros por dia passou para 120 em Manaus e já exige o uso de valas coletivas no Cemitério Parque Tarumã, na zona norte da capital do Amazonas. A prefeitura alega que a metodologia de “abertura de trincheira” é internacional. Diferentemente do que se convencionou chamar de vala comum, uma área de enterros sem identificações, essa medida “preserva a identidade dos corpos e os laços familiares, com o distanciamento entre caixões e identificação de sepultura”.

O Amazonas registrou mais 110 casos do novo coronavírus nesta terça-feira, totalizando 2.270 infectados. Também foram confirmados mais oito óbitos pela doença, elevando para 193 o total.

A Secretaria Municipal de Comunicação (Semcom), da prefeitura de Manaus, informou oficialmente que, “com o aumento na demanda do cemitério público, em consequência da covid-19, e devido aos consecutivos conflitos entre familiares e a imprensa”, o acesso ao local está restrito “às famílias que forem enterrar os seus entes queridos, na quantidade máxima de cinco pessoas”. “A medida visa a preservar a privacidade das famílias enlutadas e também considera o risco de propagação do novo coronavírus.”

“Hoje, dos 106 sepultamentos (no Estado), 36,5% das pessoas morreram em casa. Está se caracterizando certa falência, certo colapso das possibilidades de atender. Nosso Hospital de Campanha, e a prefeitura não tem obrigação de cuidar de hospitais, está trabalhando e bem. Hoje, se não me engano, foram quatro altas. Estamos acolhendo as pessoas com critério muito rígidos para termos certeza de dominância do quadro. O número de UTIs está crescendo e as UTIs estão totalmente lotadas. As quatro vagas abertas com certeza já foram ocupadas”, disse o prefeito Arthur Virgílio (PSDB) nas redes sociais.

A alta nos enterros coincide com o momento em que a ocupação dos leitos oscila entre 96% e 100%, segundo confirmou a secretária estadual de Saúde, Simone Papaiz, em boletim do governo. Faltam vagas em leitos clínicos e, principalmente, nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Entre casos suspeitos e confirmados de covid-19, 879 pessoas estão internadas, sendo 262 em UTI.

A diretora da Fundação de Vigilância Sanitária do Estado, Rosemary Pinto, atribui os números do Amazonas à falta de adesão ao isolamento, em Manaus. “A Polícia e a Vigilância passam nas áreas de comércios não essenciais e na hora eles fecham. Duas horas depois, nós voltamos e o comércio está todo aberto. A população não está aderindo ao ‘fique em casa’.”

No Serviço de Pronto Atendimento da Alvorada, zona oeste de Manaus, a chegada de pacientes é crescente e os relatos são de estrutura precária, com falta de respiradores e de técnicos para trocar o cilindro de oxigênio. E os profissionais de saúde também se somam à lista de doentes: em uma semana, 52 testaram positivo no Amazonas. São 376 afastados. Houve nove mortes — três médicos, quatro técnicos de enfermagem e um gestor e um profissional de outra categoria.

Governo sabota o trabalho do Ibama até no combate à pandemia

Míriam Leitão
O Globo

O governo demitiu o diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Olivaldi Azevedo, após uma operação do Ibama contra invasores em terras indígenas. A operação combatia o desmatamento, o garimpo e o risco de contaminação dos índios. A reação do governo foi demitir o responsável pela área. 

A pandemia não pode nos impedir de olhar para os problemas tradicionais. Os garimpeiros e os grileiros avançam. Os alertas de desmatamentos na Amazônia aumentaram 51,4% no primeiro trimestre, na comparação com 2019. 

O diretor do Imazon diz que a situação vai piorar nos próximos meses. Será o período seco na região, quando as queimadas ganham força e a madeira é escoada para ser vendida. Se cresceu até março, espera-se que a tendência continue nos meses seguintes.

Essa é a execução do plano da atual gestão do Ministério do Meio Ambiente. Ricardo Salles é o ministro antiambiental. O plano dele sempre foi deixar que o desmatamento avance. A visão dele é outra, é a que o presidente Jair Bolsonaro representa.

A demissão de Azevedo mostra isso. Ele é de São Paulo, foi policial. Não tinha a ver com os servidores do Ibama e assumiu uma área nevrálgica. Era uma espécie de interventor. Com o passar do tempo, os funcionários conseguiram fazer a operação de fiscalização. A atuação havia diminuído neste governo. Não há tantos recursos para as equipes viajarem nem máquinas para serem usadas nas operações. Dessa vez, conseguiram montar uma grande operação contra invasores em três terras indígenas no sul do Pará. Foram lá proteger os indígenas do contágio do cornavírus e mostraram que havia garimpo. O "Fantástico” veiculou o caso na reportagem de Marcelo Canellas.

Azevedo foi demitido não por acaso. Ele perdeu o cargo porque estava trabalhando e deixou os funcionários do Ibama exerceram sua função, pela qual são pagos com dinheiro público.

O governo Bolsonaro sempre foi a favor de garimpo em terra indígena. Nesse momento, além da invasão de terra pública e da contaminação dos rios por mercúrio, agora há o risco do vírus para a saúde dos índios. Eles são mais vulneráveis a vírus. Um jovem yanomami de 15 anos morreu infectado na semana passada.

O trabalho do Ibama hoje é duplamente importante. E Salles quer que o Ibama não trabalhe, deixe de fiscalizar e de proteger os indígenas. Não permite a queima de máquinas de invasores, demite o diretor que permitiu a operação de proteção aos índios. Quando há recursos e operações, os funcionários do Ibama são reprimidos ao cumprir o papel para o qual são pagos com dinheiro público.