sábado, fevereiro 26, 2022

Solidariedade com a Ucrânia se espalha pelo mundo

 Revista ISTOÉ

Com informações Agência AFP

 - AFP 

Mulher participa de manifestação pela paz

 na Ucrânia perto do Coliseu de Roma 

Com passeatas à luz de tochas, ou simples caminhadas nas ruas, as manifestações de solidariedade com a Ucrânia e contra a invasão russa se multiplicam em todo mundo, da Argentina à Geórgia, passando por Canadá e Itália.

Na sexta-feira à noite (25), quase 30.000 pessoas se reuniram na Geórgia, antigo país soviético. A guerra, que segundo Kiev já custou a vida de pelo menos 198 civis, provocou um sentimento de “déjà vu” na Geórgia, também vítima de uma devastadora invasão russa em 2008.

Os manifestantes marcharam pela principal rua da capital, Tbilisi, agitando bandeiras ucranianas e georgianas e cantando os hinos nacionais de ambos os países.

 “Temos compaixão pelos ucranianos, talvez mais do que outros países, porque conhecemos a agressão bárbara da Rússia no nosso solo”, disse à AFP Niko Tvauri, um motorista de táxi de 32 anos.

“Ucranianos, georgianos, o mundo inteiro deve resistir a Putin, que quer restaurar a União Soviética”, declarou Meri Tordia, professora de francês de 55 anos.

“A Ucrânia está sangrando, e o mundo está assistindo e falando sobre sanções que não conseguem parar Putin”, acrescentou ela, chorando.

Em Roma, uma marcha à luz de tochas com milhares de participantes desfilou na noite de ontem, até o Coliseu, com cartazes que diziam “Putin, assassino!”, “Sim à paz, não à guerra”, ou ainda “Banir a Rússia do Swift”.

Outros cartazes mostravam o presidente russo com a mão manchada de sangue sobre o rosto, ou comparavam-no a Hitler com a menção: “Você sabe reconhecer a história quando ela se repete?”.

“Sempre fomos próximos do povo ucraniano (…) Daqui, nosso sentimento de impotência é enorme. Não podemos fazer mais nada no momento”, disse à AFP Maria Sergi, de 40 anos, uma italiana nascida na Rússia.

Vladimir Putin “causou muitos danos, até mesmo ao seu próprio povo. Temos muitos amigos que sofreram muito por causa de sua política”, acrescentou.

Em Atenas, na noite de sexta-feira, em frente à embaixada russa, mais de 2.000 pessoas se reuniram a pedido do Partido Comunista e do partido de esquerda radical Syriza.

Tradicionalmente pró-russos, esses partidos denunciam a “invasão russa da Ucrânia” e uma “guerra imperialista contra um povo”.

– Manifestações de solidariedade fora da Europa – 

Tóquio, Taipei, Curitiba, Nova York e Washington também foram palco de manifestações.

Na Argentina, cerca de 2.000 pessoas, incluindo imigrantes ucranianos e argentinos de ascendência ucraniana, manifestaram-se em Buenos Aires, pedindo à embaixada russa “a retirada incondicional” das tropas “assassinas” de Putin.

Embrulhados na bandeira ucraniana, vestidos com trajes tradicionais, com faixas em espanhol, ucraniano, ou inglês, dizendo “Pare a guerra”, ou “Putin tire suas mãos da Ucrânia”, os manifestantes gritavam palavras de ordem em ucraniano, como “Glória à Ucrânia, Glória aos seus heróis” e cantavam os hinos ucraniano e argentino.

“Russos e ucranianos têm muito em comum. Então, meu principal sentimento é a raiva. A última coisa que imaginei era que os russos entrariam para matar meu povo”, disse à AFP Tetiana Abramchenko, de 40 anos, quase às lágrimas.

Ela chegou com a filha à Argentina em 2014, após a anexação russa da Crimeia.

Em Montreal, no Canadá, dezenas de pessoas não hesitaram na tarde de sexta-feira em enfrentar uma tempestade de neve para protestar sob as janelas do Consulado Geral russo.

“Putin, tire suas mãos da Ucrânia”, cantaram em coro.

“Sou contra esta guerra”, afirmou Elena Lelièvre, engenheira russa de 37 anos, em entrevista à AFP.

“Espero que este seja o começo do fim deste regime”, completou.

Com o cabelo escondido sob um gorro verde, Ivan Puhachov, estudante de ciência da computação da Universidade de Montreal, disse estar “aterrorizado” com a situação, pedindo que equipamentos militares adicionais sejam enviados para seu país, onde sua família mora.

Alguns manifestantes seguravam um retrato de Vladimir Putin coberto com uma mão ensanguentada, e outros carregavam bandeiras ucranianas ao vento.

Outras manifestações também foram organizadas em Halifax, Winnipeg, Vancouver e Toronto nos últimos dias.


Ataque russo contra Ucrânia deixa ordem mundial em ruínas

 Christoph Hasselbach

Deutsche Welle

Invasão ordenada por Vladimir Putin mudou os parâmetros da política global da noite para o dia. Políticos e especialistas se perguntam agora o que o Ocidente fez errado para permitir que a situação chegasse a tal ponto. 

"Uma violação flagrante do direito internacional", foi como o chanceler federal alemão, Olaf Scholz, classificou o ataque russo, acrescentando que Vladimir Putin "colocou em questão a ordem de paz do nosso continente".

"Hoje acordamos num mundo diferente", afirmou a ministra alemã do Exterior, Annalena Baerbock. E o chefe de política externa da União Europeia, Josep Borrell, fala da "hora mais negra para a Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial".

O tenente-general Alfons Mais, comandante da Bundeswehr, as Forças Armadas da Alemanha, escreveu na rede social Linkedin: "Em meu 41° ano de serviço em paz, não acreditava que ainda teria que vivenciar mais uma guerra. E a Bundeswehr, o Exército que tenho a honra de comandar, fica ali, mais ou menos se ação."


Esperanças destruídas de 1990

Não-violência, inviolabilidade das fronteiras, autodeterminação: esses foram os pilares da ordem do pós-guerra. É verdade que dois blocos opostos altamente armados alimentaram rivalidade durante a Guerra Fria, a Otan de um lado e o Pacto de Varsóvia, liderado pela União Soviética, do outro. Mas muitos esperavam que, com o fim do comunismo em 1989/90 e a dissolução da União Soviética, essa rivalidade fosse superada.

Mesmo depois disso, houve guerra na Europa, por exemplo, quando a Iugoslávia entrou em colapso na primeira metade da década de 1990. Mas a amplitude de uma ataque executado por uma grande potência supera qualquer coisa desde a Segunda Guerra Mundial.

O comandante Mais escreveu, chocado: "Todos nós vimos que isso ia acontecer e não fomos capazes de nos fazer entender com nossos argumentos, tirar as conclusões a partir da anexação da Crimeia e implementá-las". E ainda: "As opções que podemos oferecer ao meio político para apoio da aliança são extremamente limitadas".

 Foto: Olivier Matthys/AP/picture alliance

Stoltenberg garantiu aos membros do Leste que Otan

 fará tudo para proteger todos os aliados

Caixa de Pandora

Os Estados do leste da Otan e da UE, sobretudo as três repúblicas bálticas da Estônia, Letônia e Lituânia, agora se perguntam se também estão sob ameaça. Tendo pertencido à União Soviética., eles têm longas fronteiras com a Rússia e Belarus, que é um aliado de Moscou, e têm fortes minorias de língua russa.

A ex-presidente da Lituânia Dalia Grybauskaite afrimou no Twitter que "as sanções não impedirão o agressor", acrescentando que os "criminosos de guerra" só podem ser detidos "no campo de batalha". O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, garantiu aos países-membros do Leste que a aliança militar fará tudo o que puder para proteger todos os aliados.

No que diz respeito aos países bálticos, no entanto, já em 2016 especialistas militares ocidentais levantaram dúvidas sobre se a Otan poderia realmente defendê-los. Uma investigação do think tank americano Rand Corporation, com colaboração do ex-comandante da Otan Egon Ramms, aponta que a Rússia poderia facilmente isolar os três Estados e cortar os suprimentos da Otan ao norte.A infantaria da Otan, segundo o estudo, "sequer seria capaz de recuar" e "seria destruída no local". Restaria apenas tentar recapturar os Estados Bálticos. Mas isso terminaria "em desastre".

Se voltar a haver deslocamentos de fronteira violentos e, acima de tudo, se forem tolerados pela comunidade internacional, isso poderá abrir uma caixa de Pandora, consideradas as muitas reivindicações territoriais mantidas por países ao redor do mundo em relação a outros.

Por exemplo, a China reivindica a ilha de Taiwan. A Sérvia, que tem boas relações com a Rússia, poderia tentar expandir seu território para incluir a República de Srpska na Bósnia-Herzegovina, para citar apenas dois exemplos.

 Foto: Susanne Huebner/imago Images

"Agora é hora de a Alemanha acordar", adverte 

o embaixador ucraniano em Berlim, Andriy Melnyk

Ingênua Alemanha

Para a Alemanha em particular, a invasão põe pelo avesso tudo em que sua liderança política acredita há décadas. Por causa de sua própria história com o nazismo e por ter desencadeado a Segunda Guerra Mundial, o país tem estado particularmente comprometido com a política de distensão e compreensão.

"Agora é hora de a Alemanha acordar", adverte o embaixador ucraniano em Berlim, Andriy Melnyk. "Todos os avisos foram ignorados no Ocidente, inclusive pela Alemanha." Alguns políticos agora admitem isso. "Provavelmente nós todos na Alemanha fomos – e não estou me excluindo – um pouco ingênuos demais", admitiu o líder da conservadora União Democrata Cristã (CDU), Friedrich Merz, à emissora Welt.

A também democrata cristã ex-ministra da Defesa Annegret Kramp-Karrenbauer foi ainda mais incisiva: "Estou com muita raiva de nós porque falhamos historicamente", escreveu no Twitter. Mesmo após a anexação da Crimeia, segundo ela, nenhuma dissuasão real foi aplicada. Ex-chefes d governo como Helmut Schmidt e Helmut Kohl sabiam que "as negociações sempre têm prioridade, mas é preciso ser forte militarmente ao ponto de uma não negociação não ser uma opção para o lado oposto."

EUA ainda são garantia de segurança

A invasão também pode exigir que Washington mude de rumo. O presidente americano, Joe Biden, prometeu que os Estados Unidos e seus aliados agirão "unidos e de forma determinada". Essa unidade nem sempre foi uma coisa natural nos últimos anos, especialmente durante os anos de Donald Trump, que inicialmente questionou a própria Otan.

Mas mesmo antes de Trump, os Estados Unidos se afastaram da Europa e exigiram mais responsabilidade dos europeus, sobretudo do ponto de vista militar. Sob Biden, o tom tornou-se novamente mais conciliador, mas uma certa distância permaneceu.

"Os EUA são novamente – e, em princípio, contrariando seus planos e expectativas – a garantia da segurança europeia", diz Johannes Varwick, especialista em política externa da Universidade de Halle. "Agora temos que reativar o velho conceito de contenção contra a Rússia. Isso significa fortalecer o flanco leste da Otan e mostrar a Putin esse limite com dissuasão", escreveu à DW.

 Foto: Alex Brandon/AP Photo/picture alliance

Joe Biden prometeu que EUA e seus aliados 

agirão "unidos e de forma determinada".

"Passagem para uma guerra civil global"

Mas e os países da Europa Oriental, como a Ucrânia ou a Geórgia, que até agora tentaram em vão encontrar proteção sob a Otan? Para uma parte da Europa, "a ordem de 1990 está em ruínas", diz o especialista em segurança Rafael Loss, do Conselho Europeu de Relações Exteriores em entrevista à DW.

"Podemos nos encontrar numa situação em que o mais importante seja defender os países que já estão no clube do que tentar integrar os de fora." Loss acredita que, no futuro próximo, isso resultará numa "Europa muito fragmentada". Voltamos, segundo ele, a um estado em que os Estados da UE e da Otan "já não estão mais tão dispostos a atender esses países".

A presidente do Parlamento alemão, Bärbel Bas, escreveu a seu colega ucraniano Ruslan Stefantschuk: "O 24 de fevereiro de 2022 ficará na história da Europa e de todo o mundo civilizado como um dia sombrio."

Este 24 de fevereiro de 2022 mudou muita coisa, principalmente as ideias de como o mundo é ou como deveria ser. Ele destruiu ilusões, talvez mais na Alemanha do que em qualquer outro lugar.

O cientista político Johannes Varwick adverte: "Deve permanecer uma exceção que as fronteiras sejam movidas pela força militar. Caso contrário, acabaremos na cozinha do diabo na Europa e muito além, e isso seria uma passagem para uma guerra civil global."


The Economist: Onde Putin vai parar?

 The Economist, 

O Estado de S.Paulo

A História julgará com severidade o presidente russo, que lançou um ataque contra país vizinho

  Foto: Sputnik/Alexei Nikolskyi/Kremlin via REUTERS 

Ao agir, o presidente russo Vladimir Putin descartou o cálculo

 cotidiano de riscos e benefícios políticos, avalia The Economist. 

Ao momento em que começou, no início de uma lúgubre manhã cinzenta, ontem, o ataque contra a Ucrânia ordenado pelo presidente russo, Vladimir Putin, havia adquirido uma repugnante inevitabilidade. Ainda que nada sobre essa guerra fosse inevitável. Trata-se de um conflito completamente fabricado por ele. Nos combates e no sofrimento que estão por vir, muito sangue ucraniano e russo será derramado. Cada gota sujará as mãos de Putin.

Por meses, enquanto o presidente russo permanecia recluso, reunindo aproximadamente 190 mil soldados russos nas fronteiras da Ucrânia, uma dúvida pairou: o que este homem quer? Agora que está claro que ele almeja a guerra, a dúvida é: onde ele vai parar?

A julgar pelas palavras de Putin na véspera do ataque, sua intenção é que o mundo acredite que nada o impedirá. Em seu discurso de guerra, gravado no dia 21 e transmitido enquanto ele lançava as primeiras saraivadas de mísseis de cruzeiro contra seus companheiros eslavos, o presidente russo vociferou contra “o império de mentiras” que é o Ocidente. Gabando-se de seu arsenal nuclear, ele ameaçou diretamente “esmagar” qualquer país que tentar impedi-lo.

Relatos iniciais, alguns não confirmados, apenas sublinharam a escala de sua ambição. Especulou-se que o presidente russo poderia se satisfazer com o controle sobre Donetsk e Luhansk, regiões do leste da Ucrânia que contêm pequenos enclaves apoiados pela Rússia e foram objeto de diplomacia de último minuto. Mas tudo isso desmoronou em face ao vasto ataque.

Os relatos deram conta de que forças russas atravessaram as fronteiras da Ucrânia pelo leste, na direção de Carcóvia, a segunda maior cidade ucraniana; pelo sul, a partir da Crimeia, na direção de Kherson; e pelo norte, a partir de Belarus, a caminho de Kiev, a capital. Não ficou claro a que ritmo as forças russas estão se movendo. Mas Putin aparentemente cobiça toda a Ucrânia, conforme afirmam desde o início dados de inteligência dos americanos e dos britânicos. Ao agir, o presidente russo descartou o cálculo cotidiano de riscos e benefícios políticos. Em vez disso, está motivado pela perigosa e alucinada ideia de que tem um encontro marcado com a História.

É por este motivo que, se Putin conquistar uma grande fatia da Ucrânia, o ceifador de territórios, não parará em suas fronteiras para fazer paz. Ele poderá não invadir países da Otan que integraram o império soviético, pelo menos não num primeiro momento. Mas, insuflado pela vitória, ele os sujeitará a ciberataques e guerra de informação que beiram o limite do conflito.

Inimigo

Putin ameaçará a Otan dessa maneira porque veio a acreditar que a aliança ameaça a Rússia e seu povo. Discursando esta semana, ele se enfureceu com a expansão da Otan ao leste. Posteriormente, denunciou um “genocídio” fictício na Ucrânia, segundo ele financiado pelo Ocidente. Putin não pode dizer aos russos que seu Exército está lutando contra irmãos e irmãs ucranianos que conquistaram liberdade. Então, ele lhes diz que a Rússia está em guerra contra os Estados Unidos, a Otan e seus aliados.

A abominável verdade é que Putin lançou, sem provocação, um ataque contra um país vizinho soberano. Ele está obcecado com a aliança defensiva a oeste. E está atropelando os princípios que fundamentam a paz no século 21. É por isso que o mundo deve infligir um custo pesado sobre sua agressão.

Isso começa com amplas sanções punitivas contra o sistema financeiro da Rússia, suas indústrias de alta tecnologia e sua elite endinheirada. Pouco antes da invasão, quando a Rússia reconheceu as duas repúblicas, o Ocidente impôs apenas sanções modestas. Agora, não deve hesitar. Mesmo que a Rússia tenha estabelecido uma economia fortificada, ainda é conectada ao mundo e, conforme demonstra a queda inicial, de 45%, no mercado de ações russo, o país sofrerá.

É verdade que as sanções também prejudicarão o Ocidente. Os preços do petróleo ultrapassaram US$ 100 o barril com a invasão. A Rússia é o maior fornecedor de gás à Europa. Exporta minérios como níquel e paládio e, assim como a Ucrânia, exporta trigo. Tudo isso ocasionará problemas num momento em que a economia mundial luta contra inflação e perturbações em cadeias de fornecimento. E ainda assim, na mesma medida, o fato de os países ocidentais estarem preparados para sofrer com sanções manda a Putin a mensagem de que o Ocidente se preocupa com suas transgressões.

Otan

Uma segunda tarefa é reforçar o flanco oriental da Otan. Até agora, a aliança buscou agir dentro dos parâmetros do pacto que assinou com a Rússia em 1997, que limita operações da Otan no antigo bloco soviético. A Otan deve rasgá-lo e valer-se da liberdade que isso engendra para guarnecer o leste com tropas. Isso levará tempo. Enquanto isso, a Otan deve comprovar sua união e seu intento, enviando imediatamente sua força de reação rápida, de 40 mil soldados, para os países na linha de frente. Essas tropas adicionarão credibilidade à sua doutrina de que um ataque contra um membro é um ataque contra todos. E também sinalizarão para Putin que, quanto mais ele se aprofundar na Ucrânia, mais provável será que ele acabe fortalecendo a presença da Otan em suas fronteiras – exatamente o oposto do que ele pretende.

E o mundo deveria ajudar a Ucrânia a defender-se e ao seu povo, que arcará com o ônus do sofrimento. Poucas horas após o início da guerra vieram os primeiros relatos de mortes de militares e civis. Volodmir Zelenski, o presidente, conclamou seus compatriotas a resistir. Eles devem escolher como e onde repelir Putin, seu Exército e seus apoiadores caso o russo instaure um governo fantoche em Kiev. A Otan não está acionando tropas para a Ucrânia imediatamente – o que é correto, pelo temor de um confronto entre potências nucleares. Mas seus membros devem dar assistência à Ucrânia provendo armas, dinheiro, abrigo a refugiados e, caso necessário, um governo no exílio.

Riscos

Alguns dirão que é arriscado demais desafiar Putin nesses termos – porque ele perdeu contato com a realidade; ou porque ele escalará o conflito, errará cálculos ou abraçará a China. Isso, em si, seria um erro de cálculo. Depois de 22 anos no topo, até mesmo um ditador com um senso exagerado a respeito do próprio destino tem faro para sobreviver e lidar com as idas e vindas do poder. Muitos russos, confusos com a crise que apareceu do nada, podem não estar entusiasmados a respeito de travar uma guerra mortífera contra seus irmãos e irmãs na Ucrânia. Esse é um elemento que o Ocidente pode explorar.

Conciliar-se com Putin na esperança de que ele passará a se comportar gentilmente seria ainda mais perigoso. Até mesmo a China deveria perceber que um homem que avança violentamente através de fronteiras é uma ameaça à estabilidade que Pequim busca. Quanto mais livre Putin estiver para agir hoje, mais determinado estará para impor sua visão amanhã. E mais sangue será derramado para finalmente fazê-lo parar.

/TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

 


Com grande risco para Rússia e Ucrânia, Putin dá sinais de um final sombrio

 Robyn Dixon e Paul Sonne,

 The Washington Post, 

O Estado de S.Paulo

Invasão da Rússia à Ucrânia põe em xeque a segurança estabelecida na Europa desde a Segunda Guerra. País corre o risco de uma tensão crescente com os Estados Unidos

 Foto: Alexey Nikolsky / SPUTNIK / AFP

O presidente russo, Vladimir Putin, lidera uma reunião de

 executivos de negócios do Kremlin em 24 de fevereiro 

Com a invasão à Ucrânia, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, aposta o legado do seu governo em um ataque que representa riscos significativos e uma das maiores ameaças à segurança da Europa desde a Segunda Guerra. A ofensiva pode isolar ainda mais a Rússia do Ocidente e levanta questões preocupantes sobre as ambições de Putin em tomar Kiev. 

O país corre o risco de uma tensão crescente com os Estados Unidos, caso as sanções impostas por nações ocidentais sejam respondidas à altura, e causa um desafio direto à ordem global estabelecida pós-Guerra Fria. A intenção de Putin envolve estabelecer um novo equilíbrio internacional, criando um cenário para nações de poderosas potências nucleares dominarem os países menores e criar esferas de poder pela força, se acharem necessário.

Na véspera do ataque à Ucrânia, Putin relembrou conflitos de séculos anteriores para retratar uma nação ucraniana refém dos Estados Unidos e de seus aliados europeus - e que, portanto, precisa de liberação - e argumentou que usar o poder militar para resolver conflitos era positivo. O principal argumento desta estratégia, afirmou, é ‘evitar fraqueza’. “Por que você acha que o bem deve ser sempre frágil e indefeso? Não acho que isso seja verdade”, afirmou numa entrevista coletiva na terça-feira, 22. "Ser bom significa ser capaz de se defender”.

O presidente russo pretende não apenas derrubar o presidente ucraniano Volodmir Zelensky, mas também garantir a anexação da Ucrânia para o país se tornar um tipo de nação semelhante às antigas nações subordinadas da União Soviética, como a vizinha Bielorrússia. Além disso, Putin continua determinado a reformular a segurança europeia aos moldes de Moscou e a colocar as forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em segundo plano.

O ataque militar de Putin comunica aos ucranianos que a escolha do país não é entre a Rússia e a Otan, mas entre a Rússia e a destruição. O recado do presidente russo é comunicar aos aliados dos Estados Unidos que a proteção dos norte-americanos contra ameaças à vida é limitada.

Segundo o cientista político norte-americano Samuel Charap, as análises anteriores em relação à tolerância russa ao risco de consequências geopolíticas precisam ser descartadas. Ele afirma que, com o ataque à Ucrânia, Putin assumiu “um nível de risco qualitativamente diferente”, que força as capitais do Ocidente a se reposicionarem.

As ações de Putin refletem um líder crente na geopolítica soviética e no tradicional conservadorismo russo, inflamado com uma visão quase espiritual de transformar a Rússia. Durante anos, ele notou certo declínio do poder americano e passou a acreditar em um vácuo de poder cada vez maior e que ele poderia preencher - no Oriente Médio, na África, no Ártico e nos países vizinhos à Rússia.

Dentro do país, isso se reflete com o aumento da repressão e com o ataque a inimigos e opositores, além de ações minam a Internet e a liberdade da imprensa com cada vez mais força, à medida em que seu governo envelhece.

Com o ataque, Putin pode estar apostando que as suas forças têm condições de assumir o controle da maior parte da Ucrânia sem combates contra civis. Os militares russos já atingiram dezenas de alvos militares ucranianos em todo o país e cruzaram a fronteira com relativa facilidade. 

Entretanto, segundo o presidente ucraniano, ao menos 137 cidadãos ucranianos morreram alvos de ataques até esta quinta-feira, 24. A Rússia não informou o número de mortos, mas, de acordo com o Reino Unido, houve “pesadas baixas” em ambos os lados. 

Além disso, segundo analistas, o estágio inicial de choque e pavor de um conflito militar costuma ser menos difícil para a nação que ataca do que o estágio seguinte - como os militares norte-americanos aprenderam durante as invasões ao Afeganistão e ao Iraque. Ao completar a ofensiva militar, Putin precisará cumprir o objetivo político de acabar com a influência do Ocidente na Ucrânia e devolver a ex-república soviética ao domínio russo.

 Foto: Aris Messinis/AFP

Uma mulher fica do lado de fora de um hospital após 

o bombardeio de Chuguiv, na Ucrânia, em 24 de fevereiro 

A aliança da Ucrânia com o Ocidente

O obstáculo para os planos de Putin, no entanto, é a existência de uma elite política na Ucrânia que se tornou pró-ocidente. A estratégia do presidente russo de substituí-los por um grupo aliado não está clara, mas ele sinalizou essa intenção no pronunciamento da quinta-feira ao prometer “desnazificar” a Ucrânia e responsabilizar os responsáveis pelos ‘crimes ucranianos’. 

Embora Putin tenha afirmado que a Rússia não pretende ocupar o território ucraniano, o objetivo sugerido por ele é dar o poder às autoridades aliadas a Moscou e possivelmente dividir o país, de modo semelhante ao que o governo russo fez com a Crimeia em 2014.

Até o momento, as forças russas estão concentradas no leste, no norte e no sul da Ucrânia, o que pode indicar uma intenção de isolar a parte ocidental do país - formada por uma região que não estava dentro das fronteiras ucranianas antes da Segunda Guerra. Essa parte do país - que inclui as cidades de Lviv, Uzhgorod e Ivano-Frankivsk - tem sido o epicentro ucraniano da política anti-russa. Sem ela, a Rússia pode considerar a Ucrânia como controlável por um governo aliado.

De acordo com a análise de Keith Darden, professor norte-americano que estuda a Ucrânia, essa mudança reordenaria a política da Ucrânia como um todo e de modo favorável a Moscou.

Entretanto, Putin pode ir mais longe. Na quarta-feira, a televisão estatal russa exibiu um mapa da Ucrânia com os ‘presentes’ territoriais dados à Ucrânia por czares, bolcheviques e soviéticos ao longo da história. A campanha militar russa pode envolver a anexação da costa da Ucrânia e das regiões industrializadas do leste, além do oeste, deixando apenas uma pequena nação inviável.

Ainda segundo Darden, Putin arrisca uma ruptura total com o Ocidente ao realizar o ataque à Ucrânia. Ele afirma que o país pode responder às sanções ocidentais com um ataque cibernético contra os Estados Unidos, o que forçaria o governo norte-americano a responder novamente, aumentando os riscos de um conflito direto com a Rússia.

“Não queremos ir à guerra pela Ucrânia, mas também não queremos que a guerra contra a Ucrânia fique impune”, afirmou Darden. “Essas duas coisas podem não ser compatíveis. É difícil conter uma escalada como esta.”

Contexto

Um dos pretextos para o ataque citados por Putin (da necessidade de ‘desnazificar’ a Ucrânia e salvar o povo dos governos ocidentais) horrorizou muitos dos liberais russos. Na quarta-feira, vários protestos contra a guerra eclodiram na Rússia, mas as forças de segurança detiveram os manifestantes em parte dos casos. Putin corre o risco de ser considerado um pária global isolado, exceto por parte dos governos autocratas cultivados por ele.

Se havia esperança de que alguém do círculo íntimo do presidente russo o desafiasse sobre a intenção de uma guerra com a Ucrânia, ela foi frustrada durante a reunião do Conselho de Segurança na terça-feira. Putin usou o episódio televisionado para cooptar todo o grupo de liderança política da Rússia em prol de uma guerra para a qual não havia base legal - já que sua justificativa foi o artigo 51 da ONU, que consagra o direito de uma nação à autodefesa se for atacada.

Durante os dois anos da pandemia de coronavírus, Putin mudou os planos de uma transição política em 2024 esperada pelos russos, quando poderia renunciar ou trazer um herdeiro para substituí-lo, e conseguiu uma votação que permite que ele fique no poder até 2036, quando terá 84 anos. Além disso, ele também aumentou o seu poder para dispersar a oposição local e também da Bielorússia.

No país vizinho, ele salvou o autocrata Alexander Lukashenko ao enfrentar protestos contra o governo. Com essa dívida política, Putin cooptou a Bielorrúsia como palco para sua operação militar contra a Ucrânia. Entretanto, o país ucraniano representa um desafio muito maior devido às rivalidades políticas e comerciais acirradas e muitas vezes caóticas, além da classe política pró-Ocidente.

Putin tentou várias abordagens para minar as credenciais ocidentais da Ucrânia nos últimos anos. Quando um falhou, ele avançou na sua política. Ele teve aliados políticos escondidos em Kiev por anos, mas os ucranianos se manifestaram em duas ocasiões - 2004 e 2013 - para derrubá-los e voltar a construir laços com o Ocidente. 

Após a Revolução Ucraniana de 2014, a Rússia anexou a Crimeia e fomentou uma rebelião separatista no leste da Ucrânia. Ele impôs um acordo de paz em 2015 a Kiev, forçando-a a dar autonomia às duas regiões, o que significa que elas poderiam vetar a mudança pró-ocidente da Ucrânia.

Entretanto, o acordo de paz nunca foi implementado na prática. A partir de 2019, a Rússia emitiu 800 mil passaportes russos para ucranianos nas regiões separatistas, formando um pretexto para uma ação militar para defendê-los. Na última ofensiva, Putin declarou que a Ucrânia estava cometendo genócidio contra os separatistas e chamou as regiões rebeldes de países independentes, lançando uma batalha para derrubar Zelensky.


Delírio de grandeza: Putin quer ser o czar Pedro, o Grande e irá até o fim

 Vilma Gryzinski 

Veja online

No caminho sem volta, incluem-se a submissão das forças ucranianas, a instalação de um governo fantoche e e o uso do gás para chantagear Europa

 Todo-poderoso: Putin pauta seus planos por princípios

 históricos, mas a história pode ser traiçoeira 

Passar 22 anos no poder e não precisar se preocupar em como continuar nele certamente influenciaram o modo de agir de Vladimir Putin. Os efeitos de uma das drogas mais poderosas que existem estão sendo vistos por um mundo estarrecido diante da invasão de um país que não fez nada para receber a mais avassaladora das violências.

As próximas etapas da invasão são, infelizmente, quase obrigatórias. As forças russas não podem deixar a Ucrânia sem obter, em primeiro lugar, a vitória incontestável que a superioridade bélica garante.

Ele próprio disse isso ao anunciar a “operação militar especial”.

“A Rússia não pode se sentir segura, desenvolver-se e existir com uma ameaça constante emanando do território da Ucrânia moderna”, disse Putin, colocando o agredido como agressor e vice-versa, segundo a ótica invertida em que a verdade é mentira e a mentira é verdade.

Se a Rússia considera a Ucrânia tal como existe hoje uma ameaça existencial, só pode deixá-la depois da submissão total de qualquer forma de resistência. Ele até deu a dica de como seguir este roteiro ao se dirigir nos seguintes termos aos ucranianos mobilizados nas Forças Armadas:

“Estimados camaradas, seus pais, avós e bisavós não combateram os nazistas, defendendo nossa pátria comum, para que os neonazistas de hoje tomassem o poder na Ucrânia. Vocês prestaram juramento ao povo da Ucrânia, não à junta que saqueia a Ucrânia e zomba desse povo”.

“Não sigam suas ordens criminosas. Deponham armas imediatamente e voltem para casa. Todas as tropas do exército ucraniano que sigam esta instrução serão liberadas para deixar o campo de combate e retornar às suas famílias”.

Tradução: quem não seguir o comando, está perdido.

Além da vitória militar, preferencialmente rápida e avassaladora, Putin vai precisar de um governo fantoche para manter as aparências de legitimidade. Parece incrível, mas provavelmente não faltarão candidatos a fazer a encenação e não apenas entre ucranianos de etnia russa. O poder fala alto – e o dinheiro também.

O presidente Volodimir Zelenski sabe que é “o alvo número um”, como disse. As opções provavelmente são o exílio ou um lugar obscuro e fechado.

Também tem voz forte o maior instrumento comercial de chantagem à disposição de Putin, as reservas de gás que iluminam e aquecem a Europa, fornecendo 40% do abastecimento dessa matriz estratégica. A pertinente atitude do governo alemão ao interromper, a longo prazo, o gasoduto Nord Stream 2 é importante, mas não muda o quadro geral. O Nord Stream, que liga diretamente pelo mar Rússia e Alemanha, tinha a função primordial de evitar a Ucrânia, por onde passam os gasodutos em operação. Com a Ucrânia sob controle russo, deixou de ser tão importante.

“Políticos dos dois lados do Atlântico podem ser unânimes em manifestar indignação, mas não vai demorar para que sua unanimidade seja corroída pela realidade alterada e por seus interesses fundamentalmente divergentes. Os Estados Unidos não precisam do gás natural da Rússia. A Europa, pelo menos a curto prazo, precisa”, escreveu o historiador Niall Ferguson na Spectator.

Fergusson se inclui entre os analistas que veem em Putin o desejo de reconstruir não a União Soviética, mas o império czarista.

“Pedro, o Grande é o seu herói, muito mais do que Josef Stálin”, diz ele, lembrando que Putin tem em seu gabinete uma escultura do czar cujo reinado avançou até 1725, com um ímpeto modernizador que incluiu desde grandes reformas estruturais até detalhes como a proibição das barbas compridas historicamente associadas aos russos (com exceções para o clero ortodoxo e o campesinato, ainda submetido ao regime de servidão, só abolido em 1861).

“É Putin meramente um fantasista que se imagina como herdeiro de Pedro?”, pergunta Fergusson.

Por mais repúdio que a invasão da Ucrânia mereça, é fato que ele reconstruiu a Rússia depois da derrocada deixada pelos escombros do comunismo.

Agora, pela lei das consequências indesejadas, em vez da restauração da grandeza imperial, ele pode ter excluído a Rússia da comunidade das nações entre as quais Pedro, o Grande queria cavar um lugar de igual para igual para seus domínios.

Esta lei foi particularmente cruel com os Estados Unidos: George Bush filho invadiu o Iraque em 2003 para buscar armas químicas que não existiam, acreditando que uma onda democrática se propagaria a partir daí pelo Oriente Médio e assim amortizaria o fundamentalismo muçulmano. Acabou, indiretamente, reforçando os xiitas locais, e do regime iraniano, e os sunitas que deram origem ao Estado Islâmico, todos inimigos mortais dos americanos.

Supremamente poderoso, com dois terços de seu exército mobilizados para subjugar a Ucrânia, Putin parece invencível.

É nessa hora que os delírios atacam.


Ucrânia sobrevive, mas Ocidente deveria se envergonhar

 Roman Goncharenko

Opinião

Deutsche Welle

Catástrofe iniciada pela invasão russa poderia ter sido evitada se potências ocidentais não viessem fazendo vista grossa desde 2014, opina Roman Goncharenko.

 Foto: Aris Messinis/AFP/Getty Images

Coluna de fumaça em aeroporto militar ucraniano após bombardeio russo

Quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022 – nunca esqueceremos este dia. O dia em que uma insana liderança russa decidiu lançar uma grande guerra contra a Ucrânia. O dia para o qual os ucranianos e seus amigos ao redor do mundo há muito se preparavam, embora tendo a esperança de que ele nunca fosse chegar. O dia em que o Kremlin simplesmente começou uma guerra na Europa.

Muitos estão se perguntando: como isso pode ter acontecido? A resposta pode ser tirada de uma citação de Winston Churchill: "Entre a desonra e a guerra, eles escolheram a desonra, e terão a guerra". A extensão da invasão não deixa dúvidas: as tropas russas atacaram a Ucrânia, assim como fizeram cerca de 100 anos atrás, quando a Ucrânia declarou a independência pela primeira vez. As consequências desse passo monstruoso abalarão o mundo.

O erro fatal do Ocidente

O Ocidente tem uma parte considerável da responsabilidade por esta situação. Quando a Rússia atacou a Ucrânia e anexou a Crimeia em 2014, pela primeira vez desde sua declaração de independência em 1991, o Ocidente optou pela desonra de que falava Churchill.

Os líderes dos EUA, Alemanha e outros países ocidentais importantes seguraram o governo ucraniano com as duas mãos e imploraram que não resistisse. Sob nenhuma circunstância o presidente da Rússia, Vladimir Putin, deveria ser "provocado". O motivo: exatamente 100 anos após a Primeira Guerra, o Ocidente temia uma nova conflagração mundial. Embora compreensível, esse foi um erro fatal.

A Rússia, embriagada por seu sucesso na Crimeia, continuou com a guerra na região do Donbass, no leste da Ucrânia. O Ocidente, por outro lado, armava a Ucrânia de forma apenas relutante (a Alemanha se recusou inteiramente a dar esse passo) e evitou impor medidas duras de retaliação contra Moscou.

Somente após a derrubada do voo MH17 da Malaysia Airlines houve sanções isoladas contra a economia russa. Mas elas eram tão limitadas e fracas que Moscou concluiu que provavelmente poderia continuar sem oposição séria.

Hora de ajudar Kiev

A Ucrânia também subestimou o nível de loucura da liderança de Moscou e a atitude de grandes setores da população russa, que não percebem a Ucrânia como um Estado independente. E muitos ucranianos também se sentiam seguros: "Somos vizinhos, parentes – a Rússia não ousará iniciar uma guerra aberta".

Nem mesmo o governo de Kiev cortou relações diplomáticas com a Rússia na época, enviando, assim, um sinal equivocado também a seus aliados no Ocidente. Sempre no espírito de "a coisa não é assim tão grave".

E assim perdeu-se a chance de se evitar a guerra que acaba de começar. Os líderes ocidentais optaram por negociar com a Rússia, na esperança de aplacar o agressor. Sendo que essa abordagem nunca foi bem sucedida na história humana – e igualmente fracassou no caso da Ucrânia.

A Rússia usou as receitas de suas exportações de petróleo e gás para desenvolver novas armas e se preparar para uma guerra apocalíptica – não apenas contra a Ucrânia, mas contra o Ocidente como um todo. Houve muitos avisos, tudo aconteceu abertamente – o Kremlin e seus propagandistas nunca esconderam suas intenções. Mas o Ocidente optou por fechar os olhos. Na verdade, a cara dos políticos ocidentais deveria estar vermelha de vergonha.

Ucrânia não volta ao controle de Moscou

Agora é a hora de corrigir os erros e ajudar a Ucrânia da maneira que pudermos. Haverá luta, derramamento de sangue, talvez ocupação e uma longa guerra de guerrilha. A Ucrânia perderá muitos de seus melhores filhos e filhas.

Mas ela sobreviverá – não há dúvida sobre isso. Os ucranianos nunca se conformarão em ser colocados na coleira por Moscou. Esse tempo acabou e não vai voltar.

E a Rússia? A rota de agressão tomada por Moscou contra a Ucrânia e todo o mundo ocidental mais cedo ou mais tarde terminará em desastre. Depois disso, a Rússia pode ter a chance de começar de novo. Mas neste momento, cada um que ama a liberdade é um ucraniano.

--

Roman Goncharenko é jornalista da DW. O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente da DW.


Quais as 3 opções para o Ocidente depois da invasão na Ucrânia?

  Guga Chacra

O Globo

  | Daniel Leal / AFP 

Homem limpa escombros em um prédio residencial danificado

 no capital ucraniana Kiev, que foi supostamente atingido em um ataque militar

A Rússia invadiu a Ucrânia. Uma agressão. O governo ucraniano não atacou e tampouco ameaçou atacar o território russo. É vítima neste conflito. Vladimir Putin, o culpado. Se nos focarmos apenas nestes dois atores, fica simples dizer quem está certo e quem está errado. Mas e o Ocidente (EUA, União Europeia, Reino Unido e Canadá)? Como podemos classificar?

Podemos criticar o Ocidente por não ter feito o suficiente para evitar a agressão russa à Ucrânia. Putin se sentiu seguro o suficiente para invadir uma outra nação. As ações tomadas pelos EUA e seus aliados foram incapazes de dissuadir o líder russo de atacar a nação vizinha.

Com a invasão consolidada, restam as seguintes opções ao Ocidente:

1. Impor duríssimas sanções à Rússia e fortalecer a segurança dos países integrantes da Otan, especialmente a Polônia e as repúblicas bálticas. Esta é a opção adotada pelos EUA e seus aliados. Na prática, desiste de salvar Ucrânia. Este é o ponto que irrita, naturalmente, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky;

2. Fazer tudo o que está na primeira parte (sanções e fortalecimento da Otan) associada a apoio militar à Ucrânia. Alguns setores do Partido Republicano nos EUA defendem essa alternativa. Deixaria a Ucrânia menos isolada e aumentaria os custos para Putin. O problema é que poderia levar a uma Terceira Guerra Mundial. Putin tem milhares de ogivas nucleares. Seria extremamente perigosa esta escalada;

3. Tentar se focar na negociação de um cessar-fogo e, posteriormente, de um novo status quo. Aceitar a vitória russa e a inclusão da Ucrânia na esfera de influência de Moscou. Negociar com a Rússia uma nova arquitetura para a segurança europeia e deixar Putin menos isolado. Trump, quando estava no poder, seguia uma linha neste sentido. Era crítico da Otan e isolacionista, além de admirar Putin — chamou o líder russo de gênio nesta semana. O problema desta alternativa é que muitos países europeus na prática passariam para a esfera de influência de Putin, mesmo sem este ser o interesse deles.


Brasil não vai à guerra e não apoia sanções, mas tem de repudiar veementemente a guerra

  Eliane Cantânhede, 

O Estado de S.Paulo

Da viagem de Bolsonaro à Moscou, o que fica, agora e para a história, é o presidente do Brasil declarando 'solidariedade' à Rússia, enquanto Putin se engalfinhava com EUA, Europa, Japão, Austrália...

  Foto: EFE/EPA/STRINGER 

Guerra mata, destrói e tem de ser duramente condenada 

pela esquerda e pela direita num país historicamente pela paz. 

Ao invadir a Ucrânia por ar, terra e mar, Vladimir Putin chacoalha o mundo no fim da pandemia, ameaça a economia internacional, confronta a Europa, enfraquece Joe Biden e fortalece a volta de Donald Trump ao governo dos Estados Unidos, ainda a maior potência. Isso tem consequências no Brasil? Obviamente que sim.

Cuidado com o calibre dos ataques a Biden. Quanto mais a diplomacia, a academia e a mídia esculacham Biden, mais crescem as chances de um novo mandato para Trump, o que é conveniente para Putin, que interferiu a favor de Trump contra Hillary Clinton nas eleições americanas, e para o presidente Jair Bolsonaro, que disputa a reeleição e espaço na extrema direita internacional.

Por isso, a posição do Brasil na guerra evoluiu mal: a cúpula do governo avaliava que Putin ganhava muito com as ameaças de invadir a Ucrânia, mas não chegaria ao ponto de cumprir essas ameaças. Daí a decisão de manter a viagem de Bolsonaro à Rússia e de não orientar os brasileiros a deixarem a Ucrânia. Nem plano para tirá-los de lá havia.

Dessa viagem, o que fica, agora e para a história, é o presidente do Brasil declarando “solidariedade” à Rússia em Moscou, enquanto Putin se engalfinhava com EUA, Europa, Japão, Austrália... Os mesmos, aliás, que, após os primeiros ataques, também lideraram as sanções ao governo, empresas e autoridades russas.

O Brasil não apoia sanções, nem mesmo contra Cuba, no passado, e o Irã, depois. Além disso, decisões da Assembleia-Geral da ONU não têm efeito jurídico vinculante e o Brasil só endossaria sanções caso o Conselho de Segurança apoiasse. Impossível: a Rússia é um dos cinco membros efetivos e tem poder de veto.

Assim, o Brasil não vai à guerra e não vai aderir às sanções. Só pode condenar veementemente a invasão da Ucrânia, como americanos, europeus, diplomatas e políticos brasileiros, ou fazer notas pedindo “suspensão imediata das hostilidades”, como o Itamaraty fez ontem.

Com a guerra, dólar, euro e os preços do petróleo, do gás, do pãozinho e do macarrão tendem a disparar – Ucrânia e Rússia produzem 30% do trigo do mundo. O impacto é na inflação, nos juros e, como sempre, no crescimento do Brasil, já tão baixo e instável.

Alguém precisa dizer ao PT que Putin pode até ter razão ao temer a Ucrânia na Otan, mas ele não é amigo e invasão de países é violação do direito internacional. E também explicar a Bolsonaro que gasolina, dólar, pãozinho e macarrão caros e inflação alta não combinam com reeleição. Guerra mata, destrói e tem de ser duramente condenada pela esquerda e pela direita num país historicamente pela paz.

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA


Guerra na Ucrânia muda a sorte do Brasil na economia?

 Fábio Alves*

O Estado de São Paulo

Poderá a efetiva deflagração de uma investida militar da Rússia na Ucrânia mudar o rumo repentino do fluxo de dinheiro estrangeiro ao Brasil, como a de um cardume que, numa fração de segundos, muda de direção no mar?

Desde a intensificação da escalada na tensão entre a Rússia e os Estados Unidos, juntamente com seus aliados no Ocidente, o real brasileiro foi uma das moedas que mais se valorizaram contra o dólar.

Entre as várias justificativas dadas por analistas e "traders" no mercado estão a de que a taxa Selic mais elevada atraía o capital para as operações de "carry trade" e também a de que o Brasil estava se beneficiando de uma realocação dos investidores globais, fugindo da Rússia.

Afetado por esse contexto, o dólar chegou a cair abaixo dos R$ 5,00 na quarta-feira, 23, acumulando uma queda de 5,69% somente em fevereiro e de 10,25% em 2022.

Já o Ibovespa até cai, mas muito levemente, numa perda de 0,12% em fevereiro até ontem, mas nada se compara com o tombo das bolsas americanas, com o índice S&P 500 recuando 6,42% e o Nasdaq despencando 8,44% no período.

Acontece que, enquanto o conflito ainda está na esfera da diplomacia e de ameaças veladas ou explícitas, o impacto psicológico no mercado não inclui ainda a palavra "pânico".

Uma vez o conflito armado iniciado, quem sabe até quando durará?

O que acontecerá com o humor global se o presidente da Rússia, Vladimir Putin, ameaçar usar suas armas nucleares em algum momento do conflito?

Apesar da negativa até agora, dependendo do desenrolar da guerra na Ucrânia, a Otan - ou, especialmente, os EUA - poderá se envolver diretamente no conflito?

E até onde vão as sanções do Ocidente para punir a Rússia? Vão infligir dano real e profundo à economia russa, ao contrário da primeira rodada de medidas, as quais apenas atingiram o entorno mais próximo de Vladimir Putin, presidente russo?

Para a esfera de política monetária, também é possível que os investidores globais façam as seguintes indagações, migrando de volta ao refúgio do dólar e abandonando o real brasileiro:

A guerra na Ucrânia terá um efeito inflacionário maior, via disparada nos preços de commodities e de outros produtos, ou terá um impacto desinflacionário, via queda no crescimento da economia global?

Certamente, o tema da guerra na Ucrânia será abordado com prioridade nas reuniões de política monetária dos principais bancos centrais do mundo, como o Federal Reserve (Fed) e o BC brasileiro. Ambos, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, em inglês) do Fed e o Copom no Brasil, têm a próxima reunião marcada para os dias 15 e 16 de março.

Se o Fed decidir acelerar o ritmo de alta de juros, em razão de uma eventual conclusão sobre o impacto da guerra sobre a inflação americana, que já está em 7,5% nos últimos 12 meses, quase todos os BCs mundiais serão forçados a seguir essa postura mais dura na política monetária.

Mas, acima de tudo, a corrida global para o conforto do dólar poderá mudar a maré favorável que o real brasileiro vem surfando nas últimas semanas, uma vez que, em termos de fundamentos da economia e da política no Brasil, nada mudou para justificar o recente aumento do fluxo de capital externo.

* Jornalista do Broadcast


Por que a China não critica a Rússia

 Hans Spross

Deutsche Welle

Governo chinês se negou a qualificar as hostilidades de Moscou contra a Ucrânia como invasão. Rússia, sua parceira na reestruturação da ordem mundial, é importante demais para Pequim. 

A "regra fundamental" de respeito à soberania, independência e integridade territorial de todos os países também se aplica à Ucrânia, afirmou o ministro do Exterior da China, Wang Yi, na Conferência de Segurança de Munique, realizada de 18 a 20 de fevereiro. Agora que as previsões dos serviços secretos americanos sobre um ataque da Rússia à Ucrânia se tornaram realidade, a China teve que tomar novamente uma posição.

"Essa talvez seja a diferença entre a China e vocês ocidentais. Não vamos apressar uma conclusão", declarou na quinta-feira (24/02) a porta-voz do Ministério do Exterior chinês, Hua Chunying, respondendo a um jornalista que usou o termo "invasão" para se referir à movimentação russa na Ucrânia.

"Sobre a definição de invasão, acho que devemos voltar [à questão de] como enxergar a situação atual na Ucrânia. A questão ucraniana tem outros antecedentes históricos muito complicados que continuam até hoje. Pode não ser o que todos querem ver."

A representante do governo chinês pediu, porém, que "as partes diretamente envolvidas exerçam moderação e evitem que a situação saia do controle". No Twitter, Hua acrescentou que Pequim é a favor de os Estados "resolverem as suas diferenças internacionais de forma pacífica".

Também na China se sabe que a Carta da ONU proíbe o uso de força nas relações interestatais, exceto para autodefesa. Então deveria a declaração da porta-voz conter um aceno indireto a Moscou para suspender a invasão – mesmo que Pequim não queira chamá-la assim?

Pedido de paz de Pequim é credível?

Segundo a especialista em China Didi Kirsten Tatlow, do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP), é teoricamente possível que as declarações de Pequim sejam sinceras – porém é improvável.

Quatro pontos para entender a guerra na Ucrânia

Segundo ela, é mais plausível que a China esteja querendo convencer o mundo de seu amor pela paz – como na já mencionada declaração do ministro Wang Yi na Conferência de Munique. Ao mesmo tempo, apoia indiretamente as ações do presidente russo, Vladimir Putin, acusando os Estados Unidos de serem belicistas.

"Enquanto a China não tomar uma posição pública e concreta contra a agressão russa na Ucrânia, o mundo não deixará impressionar por seus pedidos de paz", disse Tatlow à DW.

Um primeiro teste do posicionamento chinês será a votação no Conselho de Segurança da ONU, prevista para esta sexta-feira, de um esboço de resolução condenando as hostilidades russas. Se a China se abstiver, como esperado, sua postura indireta de apoio a Moscou se tornará "ainda mais clara", afirma Tatlow.

Para a observadora de longa data da China, é evidente que o presidente chinês, Xi Jinping, não está disposto a unir forças com os americanos no conflito na Ucrânia, pois Xi e o Partido Comunista chinês "rejeitam publicamente a democracia".

"Não há nenhum motivo razoável para acreditar que Xi vá mudar fundamentalmente sua posição. Para ele, isso seria o mesmo que 'vender' a China. Se a crise da Ucrânia se revelar prejudicial demais para a China, talvez Xi possa adotar uma posição diferente, mas isso não está claro no momento", diz Tatlow.

O dilema chinês

A China vive de certa forma um dilema, analisa a especialista. Por um lado, quer mudar a atual ordem internacional junto com sua "amiga" Rússia, como vem proclamando há anos; por outro, se expõe a possíveis danos maciços a sua imagem se demonstrar solidariedade com um "Estado criminoso" que invade um país soberano.

"Os próximos dias e semanas provarão até que ponto Pequim conseguirá caminhar na corda bamba entre preservar a amizade com a Rússia e salvar sua imagem na crise da Ucrânia", diz Tatlow.

"A diplomacia chinesa parecia correr atrás dos acontecimentos de quinta-feira, inclusive no Conselho de Segurança da ONU", analisou o jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung. "Mesmo depois que as primeiras explosões foram relatadas em várias cidades ucranianas, o embaixador chinês na ONU, Zhang Jun, disse que 'a porta para uma solução pacífica não está completamente fechada'."

 Foto: ASSOCIATED PRESS/picture alliance

Embaixador chinês na ONU, Zhang Jun, durante

 reunião de emergência do Conselho de Segurança

Xi Jinping sabia?

O presidente chinês  ficou surpreso com a invasão da Rússia à Ucrânia? Questionada se Putin havia informado Xi Jinping sobre seu plano de atacar em breve o país vizinho, durante um encontro entre os dois chefes de Estado no início de fevereiro, a porta-voz Hua rebateu que a Rússia, como potência independente, não precisa pedir permissão à China.

E quando os chefes de Estado se reuniram, por ocasião da abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim, eles "naturalmente trocaram opiniões sobre questões de interesse comum, todas as vezes".

"Não sabemos quanto Xi sabia em 4 de fevereiro, quando ele e Putin emitiram uma declaração em Pequim falando do 'início de uma nova era' e de uma 'cooperação sem fronteiras'", observa Didi Tatlow. "É possível que ele tenha subestimado Putin. Mas é difícil imaginar que Pequim estivesse tão mal informado, ou pelo menos não tivesse considerado a possibilidade" de um ataque.

Wendy Sherman, secretária adjunta de Estado dos EUA, observara, no fim de janeiro, que uma invasão da Ucrânia antes do início dos Jogos de Inverno "provavelmente não seria vista com entusiasmo" por Xi Jinping. Uma consideração "que Putin pode levar em conta em seu cronograma de novas ações com a Ucrânia", comentou Sherman na ocasião. O presidente russo, pelo visto, considerou o alerta


Por que a Rússia não quer a expansão da Otan para o leste

 William Noah Glucroft

Deutsche Welle

Depois que seu inimigo soviético ruiu, a Otan continuou crescendo. Até hoje se debate se essa expansão ajudou a garantir a paz ou constitui uma ameaça. Certo é que tem papel central nos ataques russos contra a Ucrânia. 

A discussão sobre papel da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) – aliança militar transatlântica fundada em 1949 especificamente para combater o império soviético na Europa – tem evoluído desde a dissolução da União Soviética, em 1991.

Na época, muitos especialistas em política externa instaram os líderes ocidentais triunfantes para que estabelecessem uma nova estrutura de segurança a fim de redefinir as relações com a Rússia, que herdou as ruínas da União da Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

O Ocidente "tinha todas as cartas na mão em 1990-1991", diz Dan Plesch, professor de diplomacia da Faculdade de Estudos Orientais e Africanos (Soas) da Universidade de Londres, à DW. "A União Soviética conseguiu um fim [relativamente] pacífico do império, o que é quase sem precedentes e pelo qual não recebeu qualquer crédito."

O fim da União Soviética precipitou uma enxurrada de reuniões e negociações de alto nível entre autoridades americanas e soviéticas – mais tarde russas –, mas "nunca foi feito um esforço sério para integrar os russos", afirma Plesch.

Contra a expansão

Em meio à intensa instabilidade política e econômica na Rússia na década de 90, a oposição à aliança ocidental foi uma das poucas questões que uniram o espectro político fragmentado do país, de acordo com documentos tornados públicos, do Arquivo de Segurança Nacional na Universidade George Washington, nos Estados Unidos.

"Acreditamos que a expansão da Otan para o leste é um erro. e um erro sério", afirmou Boris Yeltsin, o primeiro presidente pós-soviético da Rússia, numa entrevista coletiva em 1997, ao lado do então presidente dos EUA, Bill Clinton, em Helsinque, onde os dois assinaram uma declaração sobre controle de armas.

De fato, os documentos mostram um padrão de promessas que os negociadores americanos fizeram aos seus homólogos russos, bem como discussões de política interna que se opõem à expansão da Otan para o Leste Europeu.

"No cenário atual, não é do interesse da Otan ou dos EUA que os Estados [do Leste Europeu] recebam a adesão plena à Otan e suas garantias de segurança", diz um memorando do Departamento de Estado americano em 1990, quando esses países ainda estavam emergindo do controle soviético, à medida que se desintegrava o Pacto de Varsóvia. "Não desejamos, de forma alguma, organizar uma coalizão antissoviética cuja fronteira seja a fronteira soviética. Tal coalizão seria percebida de forma muito negativa pelos soviéticos."

Política de segurança pós-URSS

Nenhuma dessas discussões se tornou política oficial, e nenhuma das supostas promessas originou um documento juridicamente vinculativo com a Rússia. Além disso, ocorreram num contexto histórico específico: o Muro de Berlim acabara de cair, em novembro de 1989.

Especialmente os países bálticos, Lituânia, Letônia e Estônia – que fizeram parte da União Soviética entre 1940 e 1991 –, viram um impulso crescente a favor da autodeterminação política e de uma reorientação da estrutura de segurança da região.

As três nações apontaram para a Declaração da ONU sobre a Inadmissibilidade de Intervenção e Interferência nos Assuntos Internos dos Estados, que se refere à "independência política interna e externamente".

Política de portas abertas da Otan com a Rússia

Após a dissolução da União Soviética, foi dissolvida em 1991 a aliança militar formada pelos países socialistas do Leste Europeu, o Pacto de Varsóvia. O presidente americano Bill Clinton perseguiu então a Parceria para a Paz, um programa da Otan ao qual a Rússia aderiu em 1994. Porém houve desacordo sobre se o programa era uma alternativa à adesão à Otan ou um caminho em direção a ela.

Em 1997, a aliança transatlântica e a Rússia assinaram o assim chamado "Ato Fundador" sobre relações mútuas, cooperação e segurança, e o Conselho Otan-Rússia foi fundado em 2002, ambos destinados a aumentar a colaboração entre as duas partes. Moscou recebeu acesso e presença permanente na sede da Otan, em Bruxelas. Contudo, essa troca foi em grande parte sustada desde o ataque da Rússia à Ucrânia em 2014.

Durante todo o tempo, a Otan manteve uma política de "portas abertas" para a adesão e defendeu o direito de todos os países de escolherem suas alianças. Do ponto de vista ocidental, manter a Otan em suas fronteiras da Guerra Fria só era válido enquanto as forças soviéticas permanecessem no Leste Europeu.

Nas negociações do Tratado Dois-Mais-Quatro, que selou a Reunificação da Alemanha em 1990, os dois Estados alemães e as quatro potências que ocuparam a Alemanha desde o fim da Segunda Guerra Mundial – Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética – acordaram que nenhuma tropa da Otan pode estar estacionada no território da antiga República Democrática Alemã (RDA), sob governo comunista. Até hoje, apenas as Forças Armadas alemãs (Bundeswehr) operam nesse local.

Os sentimentos da Rússia sobre a possível expansão da Otan para o leste eram bem conhecidos. "Não importa quão sutil seja, se a Otan adotar uma política que prevê a expansão para a Europa Central e o Leste Europeu sem manter as portas abertas para a Rússia, isso seria universalmente interpretado em Moscou como uma ação dirigida contra a Rússia", escreveu, em 1993, o diplomata americano James Collins, num telegrama do Departamento de Estado.

Contudo, desde 1990, a Otan já passou por cinco rodadas de ampliação para incluir antigos territórios da União Soviética e vários ex-Estados do Pacto de Varsóvia. 

Foto: Charles Dharapak/AP Photo/picture alliance

Em 2004, George W. Bush saudou sete novos países-membros da Otan

 no Leste Europeu: Letônia, Eslovênia, Lituânia, Eslováquia, Romênia, Bulgária e Estônia

A concepção estratégica da Otan, que rege a política da aliança, diz que a "Otan não representa uma ameaça à Rússia" e pede uma "parceria estratégica verdadeira" entre as duas partes. O documento de 2010 surgiu dois anos após a intervenção militar russa na Geórgia, mas antes do primeiro ataque de Moscou contra a Ucrânia. Baseia-se em muitos dos acordos pós-Guerra Fria que agora o presidente russo, Vladimir Putin, parece querer abandonar.

Em 2008, a Otan lançou a possibilidade de a Geórgia aderir à aliança. e em 2014 intensificou a cooperação com a Ucrânia. Ao mesmo tempo, muitos dos dispositivos de segurança da Guerra Fria – como verificação de controle de armas e linhas de comunicação – desapareceram.

Mau julgamento dos objetivos do Kremlin

Em 1999, a Otan executou uma campanha de bombardeio aéreo contra a Sérvia – aliada da Rússia –  durante a guerra do Kosovo. Putin foi eleito presidente pouco depois. Até hoje, e também no contexto da crise atual com a Ucrânia, ele menciona o bombardeio como prova da agressividade da Otan.

"Se a Ucrânia se filiar à Otan, isso serviria como uma ameaça direta à segurança da Rússia", afirmou Putin num discurso na segunda-feira, quando descreveu o país vizinho como um "trampolim" para um ataque da Otan contra a Rússia.

A Aliança Alântica rejeitou esse sentimento de cerco de Putin, citando o enorme território da Rússia que se estende até o Oceano Pacífico – embora a grande maioria da população russa viva no lado europeu do país, no oeste.

Para o diplomata James D. Bindenagel, ex-vice-embaixador dos Estados Unidos na Alemanha, o erro da Otan não foi tanto a ampliação em si, mas não levar a sério a visão russa de ter sofrido uma traição. "Nunca caímos nessa; pensávamos que era uma narrativa ridícula. Então dizíamos, 'não, não foi nada 


Diplomacia das trevas

  Vera Magalhães

O Globo

 | Divulgação 

Bolsonaro e Putin em declaração conjunta no Salão Catarina 

após reunião de três horas no Kremlin 

Jair Bolsonaro foi o último líder mundial a aparecer em fotos, com um sorriso orgulhoso nos lábios sempre abertos em demasia para ocasiões formais, ao lado de Vladimir Putin antes de o autocrata russo efetivar a invasão militar a um país soberano e iniciar uma guerra cuja extensão ainda está por ser determinada.

Não satisfeito em ir a Moscou em condições sabidamente adversas e delicadas e em se regozijar com o acesso e a proximidade concedidos a ele por Putin, expressou uma difusa “solidariedade” ao russo quando ele já se encaminhava para colocar em prática seus antigos e meticulosos planos de guerra.

Para coroar a trapalhada, a visita foi precedida e sucedida por um show de babação de ovo sobre Putin da parte do próprio presidente, de seus ministros, de parlamentares e de outros menos credenciados.

E agora? Agora, todos os “conselheiros” que levaram Bolsonaro a pagar essa sucessão de micos demonstram perplexidade com a escalada do conflito e não conseguem dar uma resposta rápida e inequívoca que tire o Brasil da insustentável posição de não condenar a invasão de um país a outra nação soberana, princípio básico e elementar que deveria nortear a diplomacia em uma democracia.

Essa situação não é vexatória apenas para Bolsonaro e seus ideólogos, entre os quais o ministro sanfoneiro Gilson Machado, mas para o Brasil.

Não precisava ser assim, tivesse o governo alguma racionalidade em temas sérios, ouvindo as burocracias credenciadas a tratar de assuntos complexos com a seriedade que eles requerem. O Itamaraty foi reduzido, primeiro sob Ernesto Araújo, e mesmo agora, com Carlos França, a um puxadinho do que elucubram Eduardo Bolsonaro, Filipe G. Martins, o finado Olavo de Carvalho e outras pessoas alheias às tradições diplomáticas do país e aos múltiplos aspectos que precisam ser levados em conta diante de uma situação com potencial de levar a um conflito de proporções globais.

Sem peso, emite notas tíbias que tratam como “hostilidade” o que foi uma agressão da Rússia à ordem mundial estabelecida no Pós-Guerra e a suas instituições de governança.

França virou um carregador de papéis de Bolsonaro na live em que o presidente apenas desautorizou o vice, Hamilton Mourão, e enrolou, enrolou e não disse nada a respeito. Um vexame em cima de outro.

O ex-embaixador do Brasil em Washington Sérgio Amaral, que presenciou in loco, na visita da intrépida trupe à Casa Branca, precedida de um convescote com Olavo e companhia, o início dessa esculhambação da política externa brasileira chamou o que viu e o que foi praticado ao longo dos últimos três anos de “diplomacia das trevas”.

É aquela praticada no Bolsoverso, esse universo paralelo de trevas sobre o qual escrevi por ocasião da visita a Moscou, em que conceitos como direita e esquerda, democracia e autoritarismo são fluidos e sujeitos a revisionismos, fatos históricos são atropelados, e os interesses comerciais e a tradição diplomática do Brasil são subvertidos na bacia das almas da ideologia de redes sociais.

Enquanto se está na seara dos memes, o prejuízo é só ao bom senso. Quando a guerra eclode, porém, resta muito evidente a falta que faz ao Brasil ter um estadista que leve as instituições de Estado a sério, se cerque de pessoas responsáveis, comedidas e dotadas de senso de dever e noção de risco de certas bravatas.

Em nenhuma hipótese o Brasil seria um protagonista num conflito cujas causas e motivações remontam às circunstâncias do fim do Império Soviético.

Que tenha se tornado aquele personagem secundário que causa um ruído apenas para quebrar a tensão do roteiro, e que passa a ser malvisto pelos titulares da ação pela inconveniência extrema, era algo que poderíamos passar sem, diante de tantos problemas que já enfrentamos.


Na guerra entre Rússia e Ucrânia, Bolsonaro deixou claro que lado escolheu

 Laura Karpuska*, 

O Estado de S.Paulo

O presidente brasileiro chamou Vladimir Putin de 'amigo' e disse ter 'valores comuns' com o líder russo durante a viagem feita neste momento inoportuno 

  Foto: Oficial Kremlin/PR - 16/2/2022

Bolsonaro posa ao lado do líder russo, Vladimir Putin; presidente

 brasileiro deixou claro, mais uma vez, que lado escolheu. 

Quando a pandemia começou, Bolsonaro e seus ministros subestimaram seu impacto na vida dos brasileiros. Temos hoje mais mortos e mais desempregados do que o esperado por membros do governo. Sucessivamente, incitaram aglomerações, recomendaram remédios comprovadamente ineficazes, tentaram boicotar a vacinação, fizeram pouco-caso dos brasileiros que sofriam com a covid-19 e de seus familiares e deixaram um vácuo em programas sociais que poderiam amortecer os impactos da crise econômica gerada pela pandemia.

É costume de Bolsonaro estar do lado errado da história. Em 1994, ele votou contra o Plano Real – um plano que salvou o País da inflação descontrolada. Em 1995 e 1996, ele também votou contra PECs importantes que acabavam com o monopólio estatal sobre o petróleo e telecomunicações.

Desta vez, não foi diferente. Bolsonaro visitou a Rússia enquanto Putin escalava seu discurso antiliberal. Ele disse que, “coincidência ou não”, as tropas russas haviam recuado depois de sua visita a Moscou. Ontem, o ministro do Turismo, Gilson Machado, afirmou que Bolsonaro levou uma mensagem de paz ao presidente russo, “mas depende do Putin se vai ouvir ou não”. Também ontem o presidente saiu em mais uma de suas motociatas. Episódios que são uma mistura de fake news, pós-verdades e realismo fantástico repulsivo. 

O Brasil recentemente recebeu fluxos estrangeiros. Parece ter havido a percepção de que o diferencial de juro tornou o País mais atraente. É difícil acreditar que esta quase animação possa ser sustentada em um ambiente de guerra na Europa. 

Guerras despertam o horror. Com a Ucrânia, não deve ser diferente. Sempre é possível racionalizar uma guerra de escolha apresentando-se motivos econômicos e políticos para seu acontecimento. No entanto, um conflito militar se materializa também por conta da personalidade do líder que a iniciou. 

O presidente russo, Vladimir Putin, revela em seus discursos uma mentalidade imperialista. Um corolário disto é o autoritarismo. Ele desrespeita Estados-Nação, normaliza anexações de territórios, atua contra direitos humanos e boicota ideais liberais. O presidente brasileiro deixou claro, mais uma vez, que lado escolheu. Chamou Putin de “amigo” e disse ter “valores comuns” com o líder russo durante a viagem feita neste momento inoportuno. O Brasil é um ativo de risco pela economia política e pela personalidade do seu líder. 

*PROFESSORA DO INSPER, PH.D. EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK EM STONY BROOK


Putin pode até perder ao fim, mas já venceu o Ocidente na guerra da Ucrânia

 Igor Gielow

Folha de S.Paulo

MOSCOU, RÚSSIA (FOLHAPRESS) - Independentemente do resultado final de sua audaciosa invasão da Ucrânia, Vladimir Putin já venceu o Ocidente nesta crise aguda, não vista em terras europeias desde que Adolf Hitler enviou suas últimas reservas atravessarem a floresta da Ardenas no inverno de 1944 para tentarem jogar os Aliados ao mar.

Diferentemente do ditador nazista, contudo, o presidente russo não parece estar na vazante terminal de seu poder, ainda que talvez não viva o zênite. Ao contrário, nesta prolongada contenda com o Ocidente, Estados Unidos à frente, deu as cartas desde o começo.

É uma história conhecida, que vai das humilhações sofridas pela Rússia na caótica década do pós-Guerra Fria às salvas de mísseis de cruzeiro da madrugada deste 24 de fevereiro. Putin emergiu como uma espécie de salvador da pátria e, para o russo comum até aqui, entregou um país melhor.

No caminho, contudo, ossificou o sistema político em torno de si. Em 2020, cedeu à tentação da perpetuação institucional, abrindo o caminho para ficar na cadeira até os 83 anos, em 2036. Agora, apresenta à Rússia a perspectiva de muitos anos de ostracismo político-econômico —se não coisa pior.

Os motivos de Putin são conhecidos e obedecem a uma lógica, que é retomar o controle político sobre a antiga periferia soviética para evitar a gula do Ocidente e suas estruturas associadas, a Otan e a União Europeia.

Ninguém pode dizer que o caminho era improvável: em 2008, ele atacou a Geórgia em uma mini-guerra que lembra mais a atual do que o conflito de 2014 na mesma Ucrânia, quando anexou a Crimeia de disparou a guerra civil que está no centro da crise atual.

Ainda assim, por todo seu histórico de jogador tático, limitado ao próximo movimento, em oposição a uma sofisticação estratégica de horizonte estendido, Putin surpreendeu a todos os observadores fora do círculo do alarmismo do complexo ocidental mídia-serviços de inteligência-governos.

Politicamente, Putin provou seu ponto de forma sombria. O mundo do pós-guerra, e aí falamos do conflito encerrado em 1945, está morto. Os espasmos da hegemonia americana do pós-Guerra Fria, que mantinham a estrutura anterior viva por aparelhos, já inexistem.

Não deixa de carregar simbolismo o fato de que a guerra começou enquanto senhores vetustos se digladiavam na mesma Organização das Nações Unidas que tanto Putin quanto o grande sujeito oculto da análise geopolítica do momento, Xi Jinping, defendem como grande palco de um multilateralismo necessário e respeitador das particularidades políticas de cada país.

Só que a Ucrânia, como o russo deixou claro de 2020 para cá, não entra na categoria de Estado. Na visão putinista de mundo, Kiev é um esbirro bolchevique do imperialismo russo, e deve retornar à categoria de "área histórica".

Assim, bombardeie-se, mesmo que isso pareça ilógico por alienar a população que deveria estar tentando conquistar. Mas o jogo de Putin é sobre a flacidez da musculatura do mundo liberal-democrático, e as implicações disso são assustadoras mesmo para brasileiros na periferia.

O presidente diz, com sua ação, que com força bruta pode impor sua vontade. Os adversários, afinal de contas, só conseguem prometer sanções cada vez mais incapacitantes —que até agora não mataram a economia russa e, dependendo da dose aplicada, podem vitimar também seus proponentes.

Se o mundo já era um lugar mais perigoso quando Putin impôs sua lógica à pequena Geórgia, hoje o "novo normal" anunciado pelo chefe da Otan tem a cara da guerra na Europa. Historicamente, regimes democráticos são mais adaptáveis e, por falhos, sujeitos a correções de rumo. Encarnavam aquilo que Churchill falava de a democracia ser a pior forma de governo, à exceção das outras.

Agora, assim como nos anos 1930, seu momento de crise é atacado com força por desafiantes iliberais. Há diferenças óbvias com aquela realidade, mas o cheiro de repetição é incômodo, e o cupim está na casa, como Donald Trump já provara.

Pior para o Ocidente que Joe Biden seja o homem do outro lado —ou Trump, para ficar no duopólio. Ambos não têm a energia para estabelecer um canal para lidar com esse novo normal, assim como Barack Obama errou ao permitir Putin ganhar musculatura ao salvar a ditadura síria na guerra civil.

Evidentemente, não se trata de sugerir que a Otan deva entrar na guerra, por riscos apocalípticos evidentes e o potencial apetite de Putin de também querer se provar crível nesse campo. A essa altura, melhor não duvidar, e esta é outra vitória dele.

Mas o caminho que misturou desprezo aos russos e falta de visão estratégica levou o Ocidente ao impasse atual, com suas instituições repetindo como autômatos os mesmos discursos. Falto diálogo de lado a lado, e aí o russo poderá sempre dizer que alerta sobre isso desde o famoso discurso de Munique em 2007.

É tarde. Putin pode fracassar militarmente, ver sua própria população se mobilizar contra si, acabar engasgado pelas sanções. Ou vencer e ainda achar uma linha de salvação na China.

Seja como for, o resultado está aí: uma demonstração de poderio militar, realpolitik dura e completo desassombro na hora de justificar motivações com mistificações e verdades na mesma medida. O lobo, após tanto ter seu nome gritado, mordeu.


A inacreditável agressão russa

 Editorial

O Estado de São Paulo

O inacreditável aconteceu. A invasão da Ucrânia pela Rússia, em escandalosa afronta ao direito internacional, abalou a ordem europeia pós-2.ª Guerra, está estremecendo a economia global, que mal se recuperou da pandemia de covid-19, e pôs a Europa à beira de uma conflagração de dimensões e consequências imprevisíveis. Se o mundo não deixar claro que tal comportamento é inaceitável, a soberania das nações deixará de ser um dos pilares da ordem internacional.

Vladimir Putin, o autocrata russo, alega legítima defesa ante a expansão da Otan e as hostilidades às comunidades russas na Ucrânia. Pode-se até debater a legitimidade dessas preocupações. Mas a desproporcionalidade do remédio é indisputável. O ataque em massa não foi provocado e viola qualquer padrão do direito internacional.

A desproporcionalidade escorre das próprias palavras de Putin. Em sua declaração de guerra, ele comparou a Otan à Alemanha nazista e disse que queria “desnazificar” a Ucrânia e impedir o “genocídio” dos russos. Um de seus generais disse que a fronteira com a Ucrânia é uma fronteira “americana”, e que o Ocidente estava “bombeando” a Ucrânia com armas e “arsenais nucleares”.

Mas não havia perspectiva de integração da Ucrânia na Otan – França e Alemanha, por exemplo, já haviam se posicionado abertamente contra –, muito menos de arsenais nucleares. Os direitos dos povos russos na Ucrânia poderiam ser protegidos com um retorno aos acordos de Minsk, de 2015, e a suposta ameaça à sua existência poderia ser neutralizada com forças de paz internacionais. Se os acordos de fato fossem implementados, as comunidades russas teriam inclusive condições para manter a neutralidade da Ucrânia, vetando alianças com a Otan ou a União Europeia. 

Em resumo, havia um arsenal diplomático a ser esgotado antes que se justificasse um só batalhão russo na fronteira com a Ucrânia. Mas Putin mandou esse arsenal pelos ares, rasgou os acordos e do dia para a noite sua “força pacificadora” se transformou em um assalto massivo ao território ucraniano. Já não há como disfarçar as ambições de um ditador possuído pelo delírio de que foi escolhido pelo destino para restaurar as glórias do império soviético.

A prioridade é evitar que esse delírio transforme um conflito local em regional e mesmo mundial. A Otan, com razão, descartou um envolvimento direto, que poderia desencadear a guerra entre potências nucleares. Mas já destacou tropas para países fronteiriços. Um grande risco são os ataques cibernéticos. O art. 5.º da Aliança, que prevê que um ataque a um membro é um ataque a todos, foi elaborado com vistas a uma agressão territorial. Mas como compreendê-lo à luz de ataques cibernéticos? Os aliados precisam se preparar para essa hipótese. Com Putin, nada está fora da mesa.

Quando a ordem global é ameaçada, o impacto sobre a economia global é inevitável. Todos estão pagando o preço, mas a comunidade internacional precisará de um concerto capaz de lançar o máximo peso desses custos sobre Putin – que, aparentemente, se fia em sua aliança com a China para sobreviver à esperada reação ocidental. 

Nesse contexto, o Brasil não pode se omitir. O Itamaraty soltou uma nota equilibrada, manifestando “grave preocupação”, mas não condenou explicitamente a invasão russa – afinal, há alguns dias, Jair Bolsonaro, que como presidente da República é quem determina a direção da política externa, irresponsavelmente manifestou “solidariedade” à Rússia, e ontem parecia ter optado por um inacreditável silêncio, enquanto grande parte dos líderes mundiais corria a declarar sua repulsa à agressão russa. 

O drama das últimas três décadas que conjurou nos horizontes do mundo pós-guerra fria a sombra de uma 3.ª guerra mundial tem muitos protagonistas, muitas cenas, muitos equívocos de parte a parte. Mas, no palco ucraniano de hoje, o sangue russo e ucraniano derramado está nas mãos de Putin. Como sentenciou o embaixador ucraniano no Conselho de Segurança da ONU: “Não há purgatório para criminosos de guerra. Eles vão direto para o inferno”. Enquanto Putin não acerta suas contas com Deus, o mundo deve se unir para que ele e seus próceres sofram as consequências de sua delinquência. O seu isolamento é o melhor caminho para a paz.