sábado, fevereiro 26, 2022

Com grande risco para Rússia e Ucrânia, Putin dá sinais de um final sombrio

 Robyn Dixon e Paul Sonne,

 The Washington Post, 

O Estado de S.Paulo

Invasão da Rússia à Ucrânia põe em xeque a segurança estabelecida na Europa desde a Segunda Guerra. País corre o risco de uma tensão crescente com os Estados Unidos

 Foto: Alexey Nikolsky / SPUTNIK / AFP

O presidente russo, Vladimir Putin, lidera uma reunião de

 executivos de negócios do Kremlin em 24 de fevereiro 

Com a invasão à Ucrânia, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, aposta o legado do seu governo em um ataque que representa riscos significativos e uma das maiores ameaças à segurança da Europa desde a Segunda Guerra. A ofensiva pode isolar ainda mais a Rússia do Ocidente e levanta questões preocupantes sobre as ambições de Putin em tomar Kiev. 

O país corre o risco de uma tensão crescente com os Estados Unidos, caso as sanções impostas por nações ocidentais sejam respondidas à altura, e causa um desafio direto à ordem global estabelecida pós-Guerra Fria. A intenção de Putin envolve estabelecer um novo equilíbrio internacional, criando um cenário para nações de poderosas potências nucleares dominarem os países menores e criar esferas de poder pela força, se acharem necessário.

Na véspera do ataque à Ucrânia, Putin relembrou conflitos de séculos anteriores para retratar uma nação ucraniana refém dos Estados Unidos e de seus aliados europeus - e que, portanto, precisa de liberação - e argumentou que usar o poder militar para resolver conflitos era positivo. O principal argumento desta estratégia, afirmou, é ‘evitar fraqueza’. “Por que você acha que o bem deve ser sempre frágil e indefeso? Não acho que isso seja verdade”, afirmou numa entrevista coletiva na terça-feira, 22. "Ser bom significa ser capaz de se defender”.

O presidente russo pretende não apenas derrubar o presidente ucraniano Volodmir Zelensky, mas também garantir a anexação da Ucrânia para o país se tornar um tipo de nação semelhante às antigas nações subordinadas da União Soviética, como a vizinha Bielorrússia. Além disso, Putin continua determinado a reformular a segurança europeia aos moldes de Moscou e a colocar as forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em segundo plano.

O ataque militar de Putin comunica aos ucranianos que a escolha do país não é entre a Rússia e a Otan, mas entre a Rússia e a destruição. O recado do presidente russo é comunicar aos aliados dos Estados Unidos que a proteção dos norte-americanos contra ameaças à vida é limitada.

Segundo o cientista político norte-americano Samuel Charap, as análises anteriores em relação à tolerância russa ao risco de consequências geopolíticas precisam ser descartadas. Ele afirma que, com o ataque à Ucrânia, Putin assumiu “um nível de risco qualitativamente diferente”, que força as capitais do Ocidente a se reposicionarem.

As ações de Putin refletem um líder crente na geopolítica soviética e no tradicional conservadorismo russo, inflamado com uma visão quase espiritual de transformar a Rússia. Durante anos, ele notou certo declínio do poder americano e passou a acreditar em um vácuo de poder cada vez maior e que ele poderia preencher - no Oriente Médio, na África, no Ártico e nos países vizinhos à Rússia.

Dentro do país, isso se reflete com o aumento da repressão e com o ataque a inimigos e opositores, além de ações minam a Internet e a liberdade da imprensa com cada vez mais força, à medida em que seu governo envelhece.

Com o ataque, Putin pode estar apostando que as suas forças têm condições de assumir o controle da maior parte da Ucrânia sem combates contra civis. Os militares russos já atingiram dezenas de alvos militares ucranianos em todo o país e cruzaram a fronteira com relativa facilidade. 

Entretanto, segundo o presidente ucraniano, ao menos 137 cidadãos ucranianos morreram alvos de ataques até esta quinta-feira, 24. A Rússia não informou o número de mortos, mas, de acordo com o Reino Unido, houve “pesadas baixas” em ambos os lados. 

Além disso, segundo analistas, o estágio inicial de choque e pavor de um conflito militar costuma ser menos difícil para a nação que ataca do que o estágio seguinte - como os militares norte-americanos aprenderam durante as invasões ao Afeganistão e ao Iraque. Ao completar a ofensiva militar, Putin precisará cumprir o objetivo político de acabar com a influência do Ocidente na Ucrânia e devolver a ex-república soviética ao domínio russo.

 Foto: Aris Messinis/AFP

Uma mulher fica do lado de fora de um hospital após 

o bombardeio de Chuguiv, na Ucrânia, em 24 de fevereiro 

A aliança da Ucrânia com o Ocidente

O obstáculo para os planos de Putin, no entanto, é a existência de uma elite política na Ucrânia que se tornou pró-ocidente. A estratégia do presidente russo de substituí-los por um grupo aliado não está clara, mas ele sinalizou essa intenção no pronunciamento da quinta-feira ao prometer “desnazificar” a Ucrânia e responsabilizar os responsáveis pelos ‘crimes ucranianos’. 

Embora Putin tenha afirmado que a Rússia não pretende ocupar o território ucraniano, o objetivo sugerido por ele é dar o poder às autoridades aliadas a Moscou e possivelmente dividir o país, de modo semelhante ao que o governo russo fez com a Crimeia em 2014.

Até o momento, as forças russas estão concentradas no leste, no norte e no sul da Ucrânia, o que pode indicar uma intenção de isolar a parte ocidental do país - formada por uma região que não estava dentro das fronteiras ucranianas antes da Segunda Guerra. Essa parte do país - que inclui as cidades de Lviv, Uzhgorod e Ivano-Frankivsk - tem sido o epicentro ucraniano da política anti-russa. Sem ela, a Rússia pode considerar a Ucrânia como controlável por um governo aliado.

De acordo com a análise de Keith Darden, professor norte-americano que estuda a Ucrânia, essa mudança reordenaria a política da Ucrânia como um todo e de modo favorável a Moscou.

Entretanto, Putin pode ir mais longe. Na quarta-feira, a televisão estatal russa exibiu um mapa da Ucrânia com os ‘presentes’ territoriais dados à Ucrânia por czares, bolcheviques e soviéticos ao longo da história. A campanha militar russa pode envolver a anexação da costa da Ucrânia e das regiões industrializadas do leste, além do oeste, deixando apenas uma pequena nação inviável.

Ainda segundo Darden, Putin arrisca uma ruptura total com o Ocidente ao realizar o ataque à Ucrânia. Ele afirma que o país pode responder às sanções ocidentais com um ataque cibernético contra os Estados Unidos, o que forçaria o governo norte-americano a responder novamente, aumentando os riscos de um conflito direto com a Rússia.

“Não queremos ir à guerra pela Ucrânia, mas também não queremos que a guerra contra a Ucrânia fique impune”, afirmou Darden. “Essas duas coisas podem não ser compatíveis. É difícil conter uma escalada como esta.”

Contexto

Um dos pretextos para o ataque citados por Putin (da necessidade de ‘desnazificar’ a Ucrânia e salvar o povo dos governos ocidentais) horrorizou muitos dos liberais russos. Na quarta-feira, vários protestos contra a guerra eclodiram na Rússia, mas as forças de segurança detiveram os manifestantes em parte dos casos. Putin corre o risco de ser considerado um pária global isolado, exceto por parte dos governos autocratas cultivados por ele.

Se havia esperança de que alguém do círculo íntimo do presidente russo o desafiasse sobre a intenção de uma guerra com a Ucrânia, ela foi frustrada durante a reunião do Conselho de Segurança na terça-feira. Putin usou o episódio televisionado para cooptar todo o grupo de liderança política da Rússia em prol de uma guerra para a qual não havia base legal - já que sua justificativa foi o artigo 51 da ONU, que consagra o direito de uma nação à autodefesa se for atacada.

Durante os dois anos da pandemia de coronavírus, Putin mudou os planos de uma transição política em 2024 esperada pelos russos, quando poderia renunciar ou trazer um herdeiro para substituí-lo, e conseguiu uma votação que permite que ele fique no poder até 2036, quando terá 84 anos. Além disso, ele também aumentou o seu poder para dispersar a oposição local e também da Bielorússia.

No país vizinho, ele salvou o autocrata Alexander Lukashenko ao enfrentar protestos contra o governo. Com essa dívida política, Putin cooptou a Bielorrúsia como palco para sua operação militar contra a Ucrânia. Entretanto, o país ucraniano representa um desafio muito maior devido às rivalidades políticas e comerciais acirradas e muitas vezes caóticas, além da classe política pró-Ocidente.

Putin tentou várias abordagens para minar as credenciais ocidentais da Ucrânia nos últimos anos. Quando um falhou, ele avançou na sua política. Ele teve aliados políticos escondidos em Kiev por anos, mas os ucranianos se manifestaram em duas ocasiões - 2004 e 2013 - para derrubá-los e voltar a construir laços com o Ocidente. 

Após a Revolução Ucraniana de 2014, a Rússia anexou a Crimeia e fomentou uma rebelião separatista no leste da Ucrânia. Ele impôs um acordo de paz em 2015 a Kiev, forçando-a a dar autonomia às duas regiões, o que significa que elas poderiam vetar a mudança pró-ocidente da Ucrânia.

Entretanto, o acordo de paz nunca foi implementado na prática. A partir de 2019, a Rússia emitiu 800 mil passaportes russos para ucranianos nas regiões separatistas, formando um pretexto para uma ação militar para defendê-los. Na última ofensiva, Putin declarou que a Ucrânia estava cometendo genócidio contra os separatistas e chamou as regiões rebeldes de países independentes, lançando uma batalha para derrubar Zelensky.