quinta-feira, janeiro 13, 2011

As cenas de 2011 são as mesmas de 2010 e de 30 anos atrás.

Adelson Elias Vasconcellos


Creio que boa parte do país deve ter assistido, com imensa pesar, o noticiário sobre o novo desastre que chuvas torrenciais provocaram com duas centenas e meia de mortos e número ainda ignorado de desabrigados no Rio. Até anteontem, os governantes tucanos de São Paulo, Governador e Prefeito da Capital, eram demonizados por conta dos aguaceiros que vem desabando em São Paulo. Repetia-se o receituário de 2010. Por mais de quarenta dias, São Paulo nunca viu tanta água junta, para ser exato, coisa parecida somente há setenta anos atrás.

Semanas depois, assistimos estupefatos, as tragédias de Ilha Grande e Angra dos Reis. Cabral, o governador, foi dar as caras depois da tragédia já passada alguns dias. Não teve vergonha na cara de interromper suas férias para se solidarizar com o povo carioca que o escolhera para governador.

Enquanto isto, em são Paulo, Serra e Kassab foram a todos os lugares, ouviram as reclamações da população, o seu pedido de socorro, de providências, e a imprensa caiu de pau em cima deles. Era ano de eleição, Serra aparecia como candidato da oposição. A malhação correu solta sob suas costas.

Iniciado 2011, com Dilma em lugar de Lula, e Alckmin substituindo Serra, nos mesmos cenários, os desastres se repetiram e os atores de então cumpriram exatamente os mesmos papéis de um ano atrás. Aguaceiro sem parar em São Paulo, imprensa deitando falação contra os tucanos, esquecendo-se de atacar também as administrações petistas no entorno da Grande São Paulo, em que as prefeituras são petistas, mas que não faltou ilhados e desabrigados. A contagem do número de mortos parecia o relógio do impostômetro.

No meio disto tudo, no Rio, se inaugurava uma central eletrônica de prevenção de catástrofes. Foi cantada e glorificada nos telejornais como a invenção da roda capaz de evitar o pânico geral vivido em 2010, como contraponto às ruas e bairros alagados de São Paulo.

E eis que, desta vez, na região serrana fluminense, o céu despencou sobre centenas de famílias. E, tal qual o ano passado, a do Rio se converteu na tragédia que sem dúvida é, enquanto a de São Paulo ria-se desbragadamente de que as inundações eram culpa das chuvas. Vejam só!

Em 2011, os mortos no Rio praticamente dobraram em quantidade. As imagens exibidas dão conta de uma calamidade difícil de se ver, quase insuportável de se viver. E onde estava Cabral? No exterior, em viagem de férias. Vamos ver quantos dias demorará para aparecer agora.

Em nível federal, praticamente o script é o mesmo. Só se tomou a iniciativa de oferecer ajuda a partir da tragédia carioca. Enquanto estava circunscrita a São Paulo, nenhum pio, ruído só da imprensa - ou parte dela – genuflexa ontem, hoje e amanhã.

Bem lembrado por Reinaldo Azevedo em seu blog, durante a campanha do ano passado, quando Serra apresentou seu plano de governo, em que previa a criação de uma super estrutura em nível nacional para prevenir e atender desastres, foi ridicularizado pela própria então candidata Dilma Rousseff. Os pacs da vida, faziam a obra milagrosa de curar feridas e agir no varejo.

2010 e 2011: como afirmei há poucos dias, mudaram as moscas apenas. Mas o cheiro ruim da má política permanece inalterado. A diferença é que, por enquanto, estamos livres dos discursos hipócritas do pistoleiro do Planalto. Mas só por enquanto...

E antes que março feche as chuvas de verão, será que desta vez teremos aprendido as lições de décadas de omissões? Acho que a hora é de esquecer diferenças políticas e ideologias partidárias e partirmos decididos para um projeto grandioso que previna desastres desta magnitude. Não basta dizerem que tantas mil pessoas moram em áreas de risco. Tirá-las para alojá-las aonde? Jogá-las no meio do mato, longe de tudo e até da civilização? Nenhum plano de moradia popular pode ser empreendido sem considerar todas as condições de infraestrutura. Não é apenas água, luz, calçamento, saneamento. Ambulatórios, escolas, transporte coletivo e todos os demais serviços próximos de cada núcleo urbano são indispensáveis para a qualidade de vida, e como forma de se evitar que as pessoas se arrisquem, novamente,  em moradias localizadas em terrenos precários, que podem desabar com qualquer temporal, unicamente por não outras opções.

Quando falo que no Brasil o que nos desgraça não é falta de recursos e sim de ações públicas, tem quem ache isto um exagero. Não é. Ação pública deve começar pela eleição de prioridades e se seguir com projetos e programas bem planejados com vistas aos resultados que visem o benefício da população.

O caso de Teresópolis e São Paulo é sintomático de um governo que ainda não soube definir prioridades. Sua preocupação tem sido distribuir seus recursos de acordo com as legendas que comandam prefeituras e governos estaduais. Enquanto a cidade serrana do Rio de Janeiro tem 150 mil habitantes e 770 km2 de área, a cidade de São Paulo, que também é afetada todos anos pelos aguaceiros de início de verão, tem 12 milhões de pessoas, em uma área de1.523 km2. Pois bem, no item prevenção de acidentes, enquanto a prefeitura petista de Teresópolis receberá R$ 120 milhões pelo PAC-2, para São Paulo serão destinados ridículos R$ 69,7 milhões, para aplicar em áreas de riscos e na prevenção de deslizamentos. Em 2009, a Bahia, do petista Jacques Wagner, recebeu, sozinha, mais de 50% dos recursos liberados pelo programa de prevenção.

Não, não é desta maneira que novas tragédias e calamidades serão evitadas. Bahia, Rio e São Paulo fazem parte de um mesmo país. O paulistano não é menos brasileiro do que o carioca e o baiano. Neste capítulo de prevenção, o que deve contar é o tamanho do risco que se pode evitar, e não o partido político do prefeito ou do governador ser o do governo federal, para ser melhor contemplado do que os demais.

É bom que Dilma se lembre do que disse no discurso de posse: que a partir daquele momento seria a presidente de TODOS os brasileiros, e não apenas para premiar a parte do país que se alinha com seu partido político. Afinal, no Tesouro Nacional, o dinheiro que entra ainda não é separado por contribuintes de uma ideologia e de outra. O bolo é um só, e com TODOS deve ser repartido.

O raio é que estas tormentas são previsíveis com a chegada da estação. Sabe-se perfeitamente bem quais áreas sofrem risco de soterrarem as pessoas e suas moradias. Então que nossas autoridades parem de buscar culpados no passado e se preparem para evitar que no futuro, outras autoridades os acusem pela mesma omissão com que hoje se esquivam de suas responsabilidades. Solução tem, resta saber quem está disposto a encarar o desafio de frente. Está mais do que na hora do país começar a se preocupar um pouco com a vida dos seres humanos, do que em protegerem uma família de sapinhos na lagoa.

E outra coisa: em reportagem da Veja online que reproduzimos bem no início desta edição, vimos que as tais “ajudas humanitárias” oferecidas pelo governo Lula, jamais levaram em conta necessidades sociais nem humanitárias. Tratou-se muito mais de financiar ditaduras e tiranias do que qualquer sentido social. O ponto determinante do viés dos auxílios foram sempre de natureza política, jamais humanitária. Internamente, está visto, a prioridade na liberação de recursos também seguiu o mesmo roteiro. Só que ao invés de tiranias, alimentaram parcerias políticas, e não necessidades prioritárias em benefício da população.

E por favor: vamos parar de fazer politicagem a partir das tragédias e calamidades que matam pessoas e desgraçam milhares de outras. Se Dilma sobrevoar o Rio, deve fazer o mesmo em São Paulo. Se oferecer ajuda para um, deve fazer o mesmo para os todos atingidos. E por favor, parem, também, com o discurso canalha de que, se não fosse o programa tal, a desgraça seria maior. Que desgraça pode ser maior do que aquela que mata mais de 250 pessoas em três dias, e desabriga e desgraça milhares todos os anos? A propósito: Santa Catarina já recebeu a ajuda federal prometida para socorrer as vítimas das calamidades de 2 e 3 anos atrás? Pois é...

Campanha Nacional do “Devolva!”

Campanha que anda pelas ruas do país...


Lula, devolva o crucifixo...

Dilma, devolva a bíblia...

Marisa, devolva o secador de cabelos...

Lulinha, devolva o passaporte diplomático...

Mercadante, devolva o doutorado...

Chico Buarque, devolva o Jabuti...

Nelson Jobim, devolva o Forte dos Andradas...

STF, devolva o Cesare Battisti...

E a saúde pública ... mas, que saúde?

Adelson Elias Vasconcellos

O dia foi tão cheio de assuntos que acabei deixando de lado a reportagem editada e exibida pelo Jornal Nacional sobre a precariedade da saúde pública em Rondônia. Porém, se algum repórter dissesse que estava em Pernambuco, ou em Alagoas, ou até no Rio do Janeiro, pouca coisa das cenas deprimentes que assistimos seria diferente. Talvez mudassem apenas os personagens, sem alterar o vexame do quadro de falência múltipla que a saúde pública no Brasil está acometida de uns anos para cá.

Lula e sua corja não se cansam de acusar o fim da CPMF para o descalabro que se instalou na rede pública. Mas se esquecem de dizer que durante quatro anos, a CPMF alimentou os cofres do seu governo, e a situação em nada se alterou.

Veja-se o caso de Rondônia: o governo federal repassou entre 2009 e 2010, mais de 650 milhões de reais, o que não é pouco para um estado pequeno e com uma população diminuta quando comparada com os estados do sul e sudeste do país. E o que foi feito desta verba? Aí a gente gruda atenção na segunda reportagem e assiste um jogo de empurra do federal para o estadual, e deste para as prefeituras. Ninguém se entende, e prestação de contas que é bom, neca de pitibiribas. Não são recursos que faltam, é gestão e vergonha na cara mesmo.

Aí a gente olha o imponente prédio que o Judiciário está mandando construir há mais de quatro anos, mais de 300 milhões de puro desperdício, para abrigar meia dúzia de ministros da Justiça Eleitoral, num país com eleições a cada dois anos, e fica sem entender como é possível tanta suntuosidade para meia dúzia de magistrados marajás, e tanta miséria, abandono e descaso com uma população de milhares de pessoas que pagam os impostos que bancam aquela imponência toda!

Senhores, não pensem que este espaço é crítico do Estado brasileiro apenas por não compartilharmos da ideologia política de seus governantes. Somos críticos sim é da maneira como as prioridades são escolhidas neste país, somos críticos da miséria e do abandono com que milhões de brasileiros são tratados, ao passo que, o dinheiro que lhe arrancam do bolso de forma extorsiva, é aplicado para abrigar a luxúria de uns poucos privilegiados. Por isso também sou contra à forma como é conduzido o Bolsa Família, verdadeiro tapa boca da indignação à custa de meia dúzia de reais, enquanto baús e arcas com bilhões e mais bilhões são aplicados no enriquecimento de uma seleta casta de estúpidos.

Sou contra aos discursos mistificadores, porque vendem a falsa ideia de um paraíso existente apenas na imaginação, enquanto a realidade é de um povo largado à própria sorte. Não há um único serviço público que se possa eleger como minimamente decente. Todos são deprimentes, todos estão abaixo da crítica, e isto num país que, em 2010, arrecadou em impostos, taxas e contribuições, mais de R$ 1,2 trilhões, afora os empréstimos e as receitas indiretas. Não me falem em financiamento público de campanha política. É um acinte destinar-se ainda mais milhões de reais para esta classe de gigolôs e vampiros que em nada contribuem com seu trabalho em benefício da sociedade que os elegeu. Já gozam de muitas regalias e privilégios imorais, já torram bilhões de reais em subvenções e mordomias, afora os desvios e as taxas “de sucesso” que cobram para facilitações em nada republicanas.

Intolerável que ainda falem em deslocar mais dinheiro para seu usufruto, enquanto quadro como os dos hospitais de Rondônia, são corriqueiros em toda a rede pública do país. Há coisa de dois meses atrás, exibimos aqui alguns vídeos sobre a precariedade da rede pública em Brasília, bastante próxima do poder e que, nem por isso, mereceu melhor tratamento, cuidado e atenção. Quantas crianças morrem às dúzias em maternidades sem a menor condição de atendê-las, mortes provocadas não por doenças, mas por descaso.

Mais dinheiro prá esta gente, enquanto os trabalhadores são esmigalhados, diariamente, feitos gados para o abatedouro, em transportes coletivos caindo aos pedaços! De jeito nenhum, não merecem e não precisam.

Joguem no lixo aquela chamada triunfalista criada por Lula e seus marqueteiros, de Brasil, um pais de todos. Nunca. Somos, sim, um país de tolos, em que todos pagam mas muito poucos usufruem dos benefícios e dos privilégios que o dinheiro arrecado é capaz de bancar e sustentar.

Portanto, se o quadro pavoroso da saúde pública de Rondônia exibida pelo Jornal Nacional é capaz de constranger a qualquer um, a situação miserável em nível nacional é capaz de indignar e revoltar. É incrível que, em alguns hospitais públicos, os médicos precisem fazer um sorteio prévio para saberem quem será salvo, quem será deixado para morrer, por não terem condições de atender a todos. Deve ser uma política nova de cotas ...Indecente? Indigno? Deprimente? É, antes de tudo, desumano.

E os nossos governantes e representantes, diante desta miséria maldita deixada por Lula, o que fazem? No dizer de Marco Maia, presidente atual da Câmara de Deputados, candidato a permanecer, o “país tem coisa mais importante com que se preocupar”, como por exemplo, a repartição de cargos e altos salários da república velha de guerra, em que vão se aboletar nos próximos quatros anos. Enquanto isso, a saúde pública, os serviços públicos... ó!!!!

Abaixo, seguem os vídeos das reportagens da Globo, retratando de forma incontestável, mais uma das heranças malditas do reinado de Lula.

A situação critica dos hospitais de Rondônia



Técnicos do Governo Federal avaliam hospitais de Porto Velho

Dilma, para governar, terá de cortar o cordão umbilical.

Adelson Elias Vasconcellos



Tem ainda quem se surpreenda com algumas informações até aqui ocultadas da opinião pública, sobre o desempenho do governo Lula em seus oito anos de poder. Não para nós. Por pior que a informação possa ser, é apenas a ratificação de tudo quanto este blog vem informando desde sua criação.

Na edição de hoje, vejam lá, apesar de todo o discurso, apesar de todas as comemorações, apesar de toda a propaganda, a educação brasileira ainda capenga no essencial: a falta de vagas em alguns estágios da educação. E, como sempre se disse, não foi  falta de recursos que impediu o país praticar sua revolução neste prioritário campo da atividade pública. Foi falta de projeto específico, foi falta de se fixar metas e prioridades, tudo isso conjugado com o desejo cretino de se transformar a educação em “escola de ideologia política”.

Portanto, quando numa prova internacional em que se aferiu estudantes de 65 países, constatamos que o Brasil se situou dentre os últimos colocados, não é surpreendente. É apenas o resultado ruim de um trabalho ruim, feito pela área da Educação do governo federal.

Neste mesmo patamar de ruindade, podemos verificar outra triste constatação, a de que, apesar dos discursos inflamados da turma da Petrobrás, capitaneados por Lula da Silva, o ex, o país ainda não atingiu a tão propalada autossuficiência em derivados de petróleo. Nossa dependência em derivados levou o País a importar cerca de US$ 15 bilhões para atender a demanda interna. A balança comercial total do petróleo e derivados encerrou 2010 com déficit próximo a US$ 5,8 bilhões.

Projeta-se que a produção de derivados voltará a crescer apenas a partir de 2013, considerando-se as refinarias em construção. Isto, claro, se os cronogramas das obras forem cumpridos à risca, coisa que ninguém pode sustentar atualmente.

Agora, voltem à campanha eleitoral de 2010. Recuperem os discursos de Lula e Dilma e a tropa de capachos que os acompanhou na empreitada. Tomando-se por base o que se disse e se anunciou, nossa educação já estava prestes de atingir o grau atual de primeiro mundo. No petróleo, o Brasil era o novo membro da OPEP, rico e bilionário clube dos grandes exportadores. As riquezas advindas cobririam o país, de norte a sul, com um progresso jamais imaginado. Pura fantasia, puro engodo, deslavada e descarada mentira que acreditou quem quis. O pré-sal, nosso bilhete premiado, está muito longe de gerar as fortunas imaginadas pelo governo do nuncadantez. E no campo da educação, bem estamos mais próximos do quarto mundo, do que do seleto rol de nações desenvolvidas.

Em outra área, a da saúde pública, bem, é mais fácil quem dela depender morrer por falta de atendimento, do que pela própria doença de que for acometido. É vergonhosa a situação . Com honrosas exceções de uns poucos estados, a dengue tornou-se uma epidemia nacional. Anunciam-se gastos de 1 bilhão de reais para conter o surto. São dezesseis estados em estado de atenção, com a projeção de aproximadamente 1 milhão de brasileiros a serem atingidos. Em 2010, foram mais de 700 mil infectados, ou seja, se prevê um crescimento em torno de 30% de casos para este ano, o que demonstra que as ações até aqui empreendidas, se converteram em rotundo fracasso.

Nesta semana, o ministro da Saúde atual, resolveu visitar uma unidade hospitalar. Sabem o que aconteceu? A direção do hospital, durante a madrugada anterior a visita, fez obras de maquiagem e, no dia, tratou de esconder alguns doentes para mostrar que a situação não é tão crítica quanto a Imprensa conta.

Enquanto isso, o governo que era para ser de continuidade, já que conta no comando com a gerente principal do governo passado, e com cerca de 40% do mesmo ministério, ainda não achou seu caminho. Anunciam-se medidas aqui e ali, proclamam-se cortes de 40 bilhões do orçamento feito, aliás, pela mesma equipe, mas apresentação de programa que é bom, nada.

Fala-se muito, mas se faz quase nada, a não ser a eterna briga das “nomeações”, para atender à fome de poder de uma classe corrupta e irresponsável de políticos, totalmente alienada dos problemas que afligem o país. Dado que era para ser de continuidade, era para a dona Dilma já ter pronto algumas reformas como a tributária, por exemplo, ou a política. Não se justifica que se comecem os “estudos” do zero, já que a orientação política de governo não sofreu interrupção. Além disso, conforme já lembrei em outras vezes, uma reforma tributária pode começar sem que o governo remeta ao Congresso um projeto específico. Pode começar, por exemplo, com a dilatação dos prazos de recolhimento de tributos federais e com a redução de alíquotas, medidas que podem ser adotadas por decreto do Executivo. Nunca esquecendo que o Ministro da Fazenda é ainda o mesmo do governo anterior. Assim, esta falta de ação agora, em algumas áreas específicas, ao meu ver, não se justifica.

Enquanto isto, o salário mínimo permanece em discussão. Não sabemos se fica em 540 ou 560, ou 580, e não saem desta miséria. Os problemas que o câmbio vem gerando já há alguns anos, o senhor Mantega sequer tem noção do que fazer. De vez em quando, pinta com uma medida aqui outra ali, na base do "agora vai". Da última, nem se passaram sete dias, e faz dois que o dólar só cai. Enquanto isso, indústrias nacionais fecham as portas ou reduzem atividades, postos de trabalho vão sendo extintos, e a balança comercial se aproxima de entrar em déficit rapidamente, apesar do momento econômico internacional nos beneficiar.

Enquanto isso, dona Dilma se vê às turras com uma fatura de 137 bilhões de reais deixada pelo governo Lula. Não haverá recursos num primeiro momento para dar início à construção das maravilhas prometidas na campanha. A hora é de apertar o cinto. Para quem chegou embalada pelo país maravilha, cantado em prosa e verso, não há dúvidas de que o mar não está prá peixe. Sem projetos e sem prioridades, como fazer em um momento de economia internacional um tanto recessiva? Como manter aqueles apelos escandalosamente mentirosos do ex-patrão? Como convencer o país de que tudo não passou de pura demagogia e mistificação? E, diante das dificuldades que está enfrentando, qual culpado atingir se a herança recebida foi santificada como bendita? Vamos voltar a culpar o mundo lá fora, como antes se fazia, quando os problemas estavam aqui dentro e suas causas também? Como advertiu o Financial Times para o Mantega, o recado vale para o governo todo: caiam na real.

Infelizmente, o que estamos vendo é o seguinte: Lula fez festas, solenidades, o oba-oba. Caberá a Dilma pagar a conta. E isto não se faz apenas com discursos. Goste ela ou não, o fato é que terá que cortar, urgentemente, o cordão umbilical que a liga a Lula. E, olhando para a equipe com que se cercou para governar, o primeiro passo será refugar alguns nomes que precisou engolir, além de interromper o ritmo de festa herdado de seu tutor político que, de forma irresponsável, comprometeu a saúde financeira e o equilíbrio fiscal herdados em 2003. Além disto, faltou a Lula a grandeza de perceber que os ventos da economia mundial haviam mudado para pior. Entre 2003 a 2008, a maré nos ajudou e nos empurrou. Agora, chegou a hora de fazer a lição de casa. E isto, sem projetos de desenvolvimento específicos, contando apenas com intuição e demagogia, fica claro que o país não sairá do lugar. E, como alertei ontem, a presidente deverá dar especial atenção para o Congresso. Abrir áreas de atrito, derivadas da insatisfação de sua ampla base de apoio, que não se sente prestigiada nas nomeações, até porque o PT não abre mão de saciar sua insuportável sede de poder, até em favor da governabilidade, é um risco perigoso, cujo final conhecemos bem. E tudo o que não precisamos no momento é de uma crise institucional.

Querem outro triste exemplo do que realmente foi o governo do senhor Lula? A informação a seguir é uma nota publicada pelo Cláudio Humberto.

Museu dos Pracinhas fecha...
A Associação Nacional dos Veteranos da FEB fechou as portas do prédio no centro do Rio, com 1. 500 peças, entre fotos, armas, uniformes e documentos da Segunda Guerra ameaçados pelos cupins.

...sem 1% da verba da UNE
O governador Sérgio Cabral diz ter implorado R$ 300 mil a Lula (ou 1% dos R$ 36 milhões destinados à UNE) porque “o Brasil é um país que não sabe transformar seus mortos em heróis”. Finalmente, acertou.

Bem que dona Dilma poderia intervir e determinar a reabertura do Museu, liberando a verba necessária e que chega a ser irrisória quando comparada às doações para as milhares de ong’s picaretas que povoam o país, e com uma ação multi-ministerial, envolvendo os Ministérios de Educação, da Cultura e da Defesa, além do Instituto do Patrimônio Histórico. Para quem defende a tal Comissão da Verdade sobre o período da ditadura militar, as verdades da Segunda Guerra Mundial são bem mais antigas, não é mesmo?

Em tempo: Lula, você já devolveu a cruz do Gabinete Presidencial carregada na mudança para São Bernardo do Campo? Devolva o que não te pertence, rapaz! Pô, é chato um ex-presidente carregar a cruz do gabinete como souvenir...! Esta cruz é para o empossado, não o ex.

Dependência em derivados leva importação a US$ 15 bi

Cláudia Schüffner, Valor Econômico

A importação de combustíveis e outros derivados superou a aquisição de petróleo do exterior no ano passado. O Brasil importou US$ 15 bilhões em derivados e US$ 10 bilhões em óleo bruto, indicando uma nova dependência no suprimento do mercado doméstico.

O aumento da produção interna de petróleo permitiu ao país encerrar o ano com expressivo superávit na balança exclusiva de produto - US$ 6 bilhões, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Mas a necessidade de suprir a demanda interna por gasolina, nafta, diesel, GLP e outros derivados reduziu o impacto desse ganho e fez a balança comercial total do petróleo e derivados encerrar o ano com déficit próximo a US$ 5,8 bilhões. O país gastou US$ 25 bilhões em petróleo e derivados e conseguiu exportar, no mesmo grupo de bens, cerca de US$ 19,2 bilhões, de acordo com a Secex.

O aumento do déficit da balança brasileira de derivados é resultado de uma série de fatores, entre eles um aumento de 10,3% no consumo de óleo diesel, de 21,4% na gasolina A (antes da mistura com álcool) e de 2,2% na nafta até novembro, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) compilados pelo Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). Por causa do consumo, a ANP registrava, até novembro, aumento de 160% no volume de importações de óleo diesel. Fábio Silveira, sócio da RC Consultores, avalia que os dados indicam a necessidade de aumentar a capacidade de refino do país, pois "já temos um quadro de contas externas que é adverso".

Paulo Roberto Costa, diretor da área de Abastecimento da Petrobras, estranha o déficit registrado pela Secex e pela ANP. Segundo ele, em 2010 a Petrobras gastou US$ 8,9 bilhões com a importação de derivados e obteve US$ 5,6 bilhões com as exportações de óleo combustível, bunker (de navios) e gasolina, o que resulta em déficit de apenas US$ 3,3 bilhões. A conta não inclui as importações de gás da Bolívia, a cargo da diretoria de Gás e Energia.

Já no petróleo, a Petrobras contabiliza superávit de US$ 4,8 bilhões em 2010, resultado de importações de US$ 9,1 bilhões de óleo leve e exportações de US$ 13,9 bilhões de óleo pesado. Seu número também é diferente (17,8%) para o crescimento do mercado de gasolina. "Nossas vendas de gasolina aumentaram por causa do álcool. A safra foi menor por conta das chuvas e com o aumento dos preços o consumidor optou pela gasolina", diz o executivo. Os dados do Sindicato Nacional das Distribuidoras de Combustíveis (Sindicom) projetam consumo de 108 bilhões de litros de combustíveis em 2010 - 9,5% mais que no ano passado e maior que o crescimento do PIB, estimado em até 7,5%.

Produção interna de derivados só cresce no fim de 2013

Cláudia Schüffner e Chico Santos , Valor Econômico

Com mais carros nas ruas, consumo de combustíveis aumentou acima do PIB no ano passado

A nova dependência na balança comercial brasileira, decorrente do aumento no consumo de combustíveis e demais derivados de petróleo, ainda vai demorar para ser "consertada". Apenas em 2013 a oferta das refinarias em construção começa a chegar ao mercado nacional.

Enquanto a dependência cresce, as causas da explosão de consumo de gasolina no ano passado não são uma unanimidade. Paulo Roberto Costa, diretor da Petrobras, atribui o aumento à quebra da safra de cana, que reduziu a oferta de etanol no início do ano, enquanto Fábio Silveira, sócio da RC Consultores, afirma que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) elevou de tal forma o consumo de combustíveis no país que evidenciou a necessidade de mais investimentos em refino.

Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), acrescenta mais hipóteses. Para ele as causas são pontuais, reflexo da política anticrise adotada pelo presidente Lula em 2009 para reduzir os impactos na crise financeira internacional. "2010 foi um ano atípico. Em 2009 o governo brasileiro criou uma série de incentivos para aumentar o consumo e passamos a crise financeira vendendo carros, geladeiras e outros bens de consumo não duráveis. E quem comprou carro foi aos postos, achou o etanol caro e trocou pela gasolina, que acabou sendo insuficiente", diz Pires.


Silveira avalia que o país precisa urgentemente das novas refinarias da Petrobrasjá que a estratégia de importar derivados aumenta o risco das contas externas. Na opinião dele, o déficit na balança de petróleo e derivados aumenta a dependência do país por alguns "poucos setores cujas exportações estão predominantemente vinculadas a dinâmica de crescimento chinês" como a agricultura e siderurgia e continuar nesse ritmo de aumento das importações de derivados seria uma política suicida.

"O PIB cresceu 7,2% (segundo projeção da RC Consultores) e o que a gente percebe por esses números é que a oferta interna de derivados ficou aquém do necessário. A questão crucial é o abastecimento doméstico. E em um mundo que se torna cada vez mais protecionista, pensar apenas em importar derivados me parece uma estratégia de certo risco, até porque aumenta o risco das contas externas. E não dá para olhar a economia brasileira sem olhar a Petrobras", afirma Silveira.

Costa, diretor da área de Abastecimento e Refino da Petrobras, lembra que atualmente o mercado brasileiro já é maior que a capacidade instalada da Petrobras - que é capaz de refinar aproximadamente 2 milhões de barris de petróleo por dia. "O mercado está crescendo e ser não fizermos novas refinarias, a balança comercial vai para o espaço", diz.

O diretor ressalta que o mercado de derivados está crescendo a um ritmo de 10% para um PIB de 7,3% a 7,5% e mesmo com um PIB menor, entre 4% e 4,5%, lembra que a Petrobras já atingiu toda sua capacidade de produção de combustíveis. "Importamos derivados porque o consumidor quis gasolina. E importamos diesel porque não tenho refinarias para produzir mais do que o que entregamos no ano passado. É isso", afirma Costa.

A questão é relevante porque a construção de quatro refinarias quase simultâneas no país, está entre as maiores críticas do mercado financeiro à atual gestão da Petrobras. Mesmo utilizando o máximo de sua capacidade instalada de refino e com o consumo de derivados crescendo mais que o PIB, a Petrobras terá que esperar o fim de 2013, quando as primeiras das novas refinarias programadas estiverem operando, para reduzir substancialmente a importação de combustíveis e mesmo alcançar a autossuficiência.

Juntas, as quatro refinarias em fases distintas de construção ampliarão em 1,46 milhão de barris por dia, 76,8% da capacidade atual . Não computando possíveis ampliação das refinarias atuais, a capacidade de refino chegaria a 3,36 milhões de barris/dia por volta de 2018.

Atualmente, a Petrobras possui 12 refinarias, três delas, no Amazonas, Rio Grande do Norte e Ceará, de pequeno porte, processando no conjunto menos de 100 mil barris de óleo por dia. A maior de todas é a Replan, em Paulínia (SP), com capacidade para 390 mil barris por dia.

De acordo com a programação da estatal, no fim de 2013 entram em produção a refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, processando 230 mil barris por dia, e a primeira fase do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) que será uma refinaria para 165 mil barris de óleo por dia, totalizando 395 mil barris/dia de acréscimo, equivalentes a uma nova Replan.

As duas obras, marcadas por polêmicas entre a Petrobras e o Tribunal de Contas da União (TCU), estão em fases próximas de execução. A Abreu e Lima, que ainda aguarda uma participação societária de 40% da estatal venezuelana PDVSA, começa a receber e instalar os equipamentos, enquanto o Comperj concluiu a obra de terraplenagem e já contratou a maior parte dos equipamentos. O Comperj tem uma segunda unidade de refino, do mesmo porte, prevista para operar entre 2017 e 2018.

A maior de todas as quatro refinarias programadas pela Petrobras é a do Maranhão, com capacidade para processar 600 mil barris por dia. A primeira fase dessa planta está programada para entrar em operação (com 300 mil barris/dia) no fim de 2014 e a segunda fase está prevista para 2016.

A quarta refinaria, na área do porto de Pecém (Ceará) terá capacidade para 300 mil barris/dia, enfrenta problemas para a liberação do terreno que é reivindicado por uma etnia indígena. O terreno pertence ao governo do Estado que está negociando com os índios. Devido à demora na liberação, a Petrobras estima que a refinaria só entrará em produção em 2017.

Política de segurança antidroga, ou uma droga de política de segurança?

Comentando a Notícia


Lembram do cidadão da foto acima? Pois então, o nome do moço é Pedro Abramovay, que afirmou não aguentar mais fazer dossiês para Dilma Rousseff, ainda na Casa Civil, e para Gilberto de Carvalho, em gravações reveladas pela Revista Veja. Como o moço se comportou direitinho conforme o figurino do Planalto, isto é, apesar de gravado em bom som, negou que dissera o que disse, acabou ganhando um prêmio pelos “bons modos”. A coisa é mais ou menos assim: mesmo que apanhado em flagrante delito, a turma do partido nega de mãos e pés juntos que tenha cometido algum crime. Quando muito, um pequeno deslize, ou "mal feito" como Dilma apelidou os crimes da sua gente.

Pois bem, como cumpriu a risca os mandamentos dos criminosos no poder, foi promovido. Agora, o Pedro está atirando suas pedras na Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas.

Como este negócio de ser eficiente no combate ao crime dá trabalho, dor de cabeça, gasta muito tempo e dinheiro, ele resolveu adotar a postura mais comum dos governos petistas: libera logo o crime, que deixa de ser crime, e fim de papo. Aborto? Libera prá todo mundo. Dá trabalho fiscalizar clínicas picaretas, prender médicos charlatães, envolve muita gente e se perde o sossego do emprego sem finalidade. Drogas? Prá que gastar tempo e dinheiro correndo atrás de traficantes? Põem aí que pequeno tráfico não é crime. Além de libertar cerca de 40 mil que estão presos, a gente gera mais emprego, já que os grandes traficantes, vão se subdividir em pequenos antros, ou contratar mais pequenas mulas e pronto. E ninguém se preocupa mais, o problema deixou de existir pela simples razão de que o que era crime, não é mais.

Incrível, não é mesmo? Não ocorre a este cidadão que, se dos quarenta mil que estão presos, cada um traficar vamos dizer 25 pedras de crack/dia, atenderão a 1 milhão de compradores. Se cada um deles distribuir 10 gramas de cocaína, serão 400 quilos do pó vendidos a cada dia. Convenhamos que, no final, a quantidade vendida não é nada desprezível.

E para os viciados, qual providência? Nenhuma. Não falou em clínicas de reabilitação e tratamento ou qualquer coisa parecida. Para construir uma estrutura para atender cem viciados o governo investiria R$ 12 milhões, ou R$ 120 mil por vaga. Projetando este valor, seria necessário um investimento de R$ 4,8 bilhões para atender apenas aos 40.000 "pequenos" traficantes. Aliás, uma coisa que a lei não estabelece: a partir de quanto, a posse de drogas pode ser considerada pequena, média ou grande traficância? É preciso aperfeiçoar a lei a partir deste ponto? Então, que assim seja feito primeiro, antes de libertar gente que, com toda a certeza, retornará ao tráfico. E por que retornará? Pela simples e singela razão de que o país não dispõe de uma política de tratamento e recuperação destes “pequenos traficantes”. Pensar em “penas alternativas” na atual situação, é um despropósito. Como bem lembra o deputado Raul Jungmann, ao comentar a proposta do Pedro “Dossiês” Abramovay, “...Penas alternativas demandam juizados específicos, centrais de acompanhamento e, no caso das drogas, um sistema especializado de saúde e assistência social aos drogados, que estamos a léguas de dispor. Sobre isso, nem uma palavra. Idem, sobre a necessidade de reeducar e reformar as polícias para não criminalizar jovens usuários, e também impedir que estes sejam utilizados por sua banda podre. O que talvez, espera-se, venha a propor soluções mais adiante...”.

Ou seja, quando o País se mobiliza para combater o crack, uma droga devastadora que já escraviza cerca de dois milhões de brasileiros, segundo estimativas de especialistas, o novo secretário nacional Antidrogas, Pedro Abromovay, comporta-se como um “secretário nacional pró-drogas”, saindo em defesa - irresponsável - da descriminalização dos “pequenos traficantes” e também dos usuários. Ingênuo, apenas ignorante ou dotado da “má fé cínica”, o novo secretário acabou mostrando o caminho das pedras para a bandidagem: em vez de grandes quantidades, é só o traficante dividir a droga em pequenas porções. Desse modo, segundo a dica de Abramovay, os “aviões” ou “mulas” do tráfico ficariam livres de punição e os grandes traficantes teriam garantido o seu “produto”. Engenhoso, não?

Não sei porquê, mas acho que o senhor Pedro Abramovay provocaria menos prejuízo ao país voltando a fazer dossiês. Porque esta ideia rombuda de libertar traficantes de “pequeno porte”, é a legítima droga para uma política de segurança decente.

Se pudesse, Fernandinho Beira Mar contrataria o moço de imediato como assessor para assuntos estratégicos.

Exército detecta volta do tráfico no morro do Alemão

Josias de Souza, Folha.com


Joel Silva/Folha

Decorridos dois meses e meio da “ocupação” policial-miltar do Complexo do Alemão, no Rio, traficantes de drogas voltaram a operar na área.

É o que informam relatórios confidenciais redigidos pelo CIE (Centro de Inteligência do Exército).

Obtidos pelo repórter Pedro Dantas, os dados foram acomodados em noticia veiculada nesta terça (11).

Os documentos anotam a localização de novos pontos de venda de drogas. Mencionam também o refinamento dos métodos dos criminosos.

Por exemplo: num dos “bairros” do Alemão –a Favela da Galinha— a bandidagem opera uma boca de fumo itinerante.

Para contornar o risco de prisão, mobilizaram-se olheiros. Antes estáticos, agora vigiam a movimentação de militares e policiais sobre rodas, em mototaxis.

Além das drogas, começam a voltar também os atos de violência contra moradores.

A Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio investiga dois assassinatos ocorridos na Vila Cruzeiro, “ocupada” três dias antes do Alemão.

Suspeita-se que as vítimas tenham sido executados por traficantes. Uma foi passada nas armas. A outra feneceu a pauladas.

Com o auxílio da Marinha, que forneceu blindados sobre esteiras, a polícia carioca ganhou as ruas da Vila Cruzeiro em 25 de novembro do ano passado.

Três dias depois, com o reforço do Exército e da Aeronáutica, a PM fincou as bandeiras do Brasil e do Rio no ponto mais alto do Alemão.

Acompanhada ao vivo, a primeira operação produziu a fuga de cerca de 200 bandidos. Exibidos pela TV Globo, migraram da Vila Cruzeiro para a vizinha localidade da Grota, no Alemão.

Alardeada de véspera, a “invasão” do Alemão, em 28 de novembro, foi às manchetes como uma guerra sem tiros.

De novo, a grossa maioria dos marginais fugiu. Registraram-se as prisões de alguns poucos gatos pingados.

Desfeiteadas, as autoridades policiais prometeram uma caça aos bandidos. Desde então, as detenções só ganharam as manchetes de raro em raro.

A pedido do governador Sérgio Cabral (PMDB), Lula autorizou o ministro Nelson Jobim (Defesa) a prorrogar a presença do Exército no Alemão e na Vila Cruzeiro.

Hoje, uma atmosfera de precariedade ameaça o moral da tropa. Há soldados que se encontram na área há arrastados 40 dias.

Dispõem de instalações impróprias. O alojamento mais vistoso foi instalado numa sala da estação do teleférico do Morro do Adeus, pedaço do Alemão.

Ali, não há senão colchões espalhados pelo chão. As paredes estão forradas de fotos de traficantes procurados. Não há local adequado para as refeições.

Mantido esse cenário, o alegado triunfo de novembro não tardará a consolidar-se como uma vitória de Pirro.

O uso ilegal do Forte dos Andradas pela família real.

Comentando a Notícia

É ilegal, sim. E isto quem diz não é nenhum ministro de Defesa de araque, ou oficial “genérico” do Exército. É gente do ramo mesmo, que estudou e se formou como oficial e que conhece bem os regulamentos e as disciplinas do Exército Brasileiro.

Deste modo, é ilegal a hospedagem gratuita de Lula no hotel de trânsito do Exército no Forte dos Andradas, no Guarujá (SP). Oficiais que exerceram a “função S4”, fiscal administrativo no jargão militar, como o coronel reformado e professor Fernando Batalha, explicam que os hotéis de trânsito são destinados apenas a acolher temporariamente militares transferidos e ainda sem domicílio.

Nota do Cláudio Humberto informa que o gabinete do ministro Nelson Jobim (Defesa), responsável pelo convite a Lula, e pelo vexame, se recusou a comentar o assunto.

Está no regulamento. A utilização dos hotéis de trânsito militares é disciplinada pelas normas do “R3”, isto é, o Regulamento de Administração do Exército. E que se registre: o Forte dos Andradas não é nenhum “SPA”. Para o Exército trata-se de “hotel de trânsito”, não se destinando, portanto, a estação de veraneio de nenhuma família real, ainda mais sob as expensas do contribuinte.

O uso irregular do Forte dos Andradas pode provocar a rejeição das contas do seu comandante, no Tribunal de Contas da União.

O TCU pode obrigar o comandante do Forte a devolver o dinheiro gasto com a hospedagem de Lula, incluindo equipamentos de DVD, frigobar etc.

Toque de recolher

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

Nada de inusitado na proibição dos livros de Paulo Coelho no Irã. Gestos como esse são inerentes a ditaduras.

Diferente no episódio foi o Brasil cumprir sua obrigação de protestar e condenar a violência, considerada "abominável" pela ministra da Cultura, Ana de Holanda, que anunciou pedido de providências oficiais ao Itamaraty.

Diante de ataques aos direitos humanos e agressões à liberdade - morte de dissidentes em Cuba, fraude eleitoral no Oriente e matanças na África -, no governo Lula o Brasil não apenas calou como celebrou as ações dos regimes autoritários. Em pelo menos duas ocasiões, confraternizou publicamente com os ditadores e desdenhou da posição dos opositores.

Comparou os dissidentes cubanos a bandidos comuns e igualou os protestos da oposição iraniana contra a roubalheira eleitoral do regime ao choro de perdedores em partidas de futebol.

Manifestou-se a ministra, falta se posicionar a presidente Dilma Rousseff: pessoalmente seria o ideal, como fez no caso da condenação por apedrejamento da iraniana Sakineh Ashtiani, mas se o fizer por intermédio do Ministério das Relações Exteriores já terá dado um passo a mais para reposicionar o Brasil no cenário internacional como uma democracia guardiã de princípios universais.

Condição que o antecessor subtraiu ao País quando subordinou valores a interesses de maneira equivocada e, sobretudo, perversa, contando para isso com a colaboração de um chanceler obcecado pelo ofício da bajulação.

Diga-se em defesa de Celso Amorim que não foi o único. São inúmeros os exemplos de exorbitâncias decorrentes da subserviência de auxiliares do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, que, receosos de suas reações e curvados à sua popularidade, preferiam fazer suas vontades a cumprir a Constituição e preservar as respectivas biografias.

Amorim é apenas o caso mais patente. O fecho de sua gestão diz tudo: a concessão indevida de passaportes diplomáticos aos filhos maiores de idade e a um neto de 14 anos do então presidente, dois dias antes do encerramento do mandato, sob a justificativa de que atendia aos interesses do País.

Tanto não atendia que o Itamaraty calou a respeito. Sabe-se ali que o ato resultou do afã de cumprir ordens e agradar ao chefe que deixava o cargo consagrado, construindo um cenário de preservação de poder em perspectiva.

Quando a subserviência se sobrepõe a tudo o mais é que se deteriora a proposição fundamental do Estado de Direito: o respeito à legalidade, a observância a quesitos como probidade, impessoalidade e igualdade dos cidadãos perante as regras que regem a vida em sociedade.

No momento em que sai de cena o objeto do servilismo, se sobressai o burlesco da situação. Amorim foi para casa com esse troféu, outros a partir de agora provavelmente - vai depender de a presidente Dilma Rousseff conduzir-se por lógica diferente - dar-se-ão conta das oportunidades que deixaram passar de se dar ao respeito.

Para ficarmos nos episódios finais, temos o ministro da Defesa, Nelson Jobim, a classificar como "ridículas" as críticas à concessão de área militar para o ex-presidente tirar férias com a família.

Com perdão da deselegância do termo, ridículo é um ministro de Estado se prestar ao exercício da adulação com o dinheiro público para servir ao ex como se a prerrogativas presidenciais ainda tivesse direito.

Que o ar fica mais respirável, o ambiente mais ameno e saudável na ausência de Lula, não resta a menor dúvida.

Em boa medida pelo recolhimento (temporário?) dos bajuladores.

Corda.
Pode ser só impressão, mas parece que o PMDB pediu para participar do núcleo da coordenação política do governo porque sabia do veto.

Com o objetivo de colecionar contenciosos para o dia de amanhã.

A desejar.
O ministro das Relações Institucionais, deputado Luiz Sérgio, é em Brasília - como dizer de maneira educada? - praticamente uma unanimidade.

Caso Battisti: pela Carta de 88 decisão final é do Supremo

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa

O ministro Cezar Peluso, presidente do STF, negou pedido de libertação de Cesare Battisti, cuja extradição é reivindicada pelo governo da Itália, já que foi condenado à prisão perpétua nesse país. A melhor matéria publicada sexta-feira sobre o assunto foi de Felipe Seligman, Folha de São Paulo. O repórter enfocou um ponto essencial: em seu despacho, Peluso contraditou o argumento do ex-presidente Lula e afirmou diretamente que há absoluta ausência de risco de perseguição do ativista em seu retorno para a Itália.

Examinando-se bem o texto constitucional, o que atualmente poucos fazem, verifica-se claramente que a Corte Suprema errou ao submeter ao presidente da República a decisão final do caso. Não faz sentido, inclusive sob a ótica em que o STF se colocou na matéria. Agora inicia um processo voltado para consertar o equívoco.

O tema não proporciona nem dá margem a dúvidas. Basta ler os itens E e G do artigo 102 da Constituição. Compete ao STF: julgar litígio entre estado estrangeiro (Itália) e a União (Brasil). Isso na letra E. vejamos agora o que afirma a letra G: Compete ao Supremo julgar a extradição solicitada por Estado estrangeiro. Mais claro impossível. Onde, entre estas alíneas, entra caber a decisão ao presidente da República? Em lugar nenhum.

No item 52 do artigo 5º, está escrito que não será concedida a extradição de estrangeiro por crime político ou de opinião. Em seu despacho de quinta-feira (a FSP publicou na sexta), o presidente do Supremo contestou que o processo Battisti seja crime político ou de opinião. Pois se achasse, ao contrário do que considerou Lula, se concordasse com a tese, não haveria por que negar sua libertação no país. Logo discordou. Como a própria Corte Suprema discordou e, por 5 votos a 4, concedeu a extradição pedida pelo governo de Roma.

O erro, como acentuei há pouco, foi não ter tomado , como lhe competia, a decisão final. A vacilação em decidir é um problema brasileiro grave. Por essas e outras é que ações demoram vinte anos para transitar em julgado, depois de subidas e descidas pelos degraus das instâncias exageradas de recurso. Mas esta é outra questão.

O essencial, no caso em tela, é que não existe na Constituição do Brasil dispositivo algum que transfira a responsabilidade final de casos de extradição (de estrangeiros, pois de brasileiros é impossível) à caneta do presidente, agora da presidente da República. O artigo 102 é de transparência cristalina. Assim, se o plenário do STF decidir em fevereiro ou março extraditar Cesare Battisti este rumo será fixado pelo Supremo Tribunal Federal, não por Dilma Roussef.

Não estou querendo dizer que o STF deva ou vá extraditar o ativista. Estou apenas sustentando que a presidente da República não terá nada com isso. É só ler a Constituição. Agora, há uma diferença enorme entre crimes comuns e acusações de crimes políticos. O caso Olga Benário é típico.

Ela, Artur Evert e Elise Evert, todos três comunistas alemães, vieram com Prestes de Moscou, em 1935, para articular a derrubada do governo constitucional de Vargas. Getúlio implantou a ditadura em novembro de 37. Em 35, estava no primeiro ano do mandato que foi dado pela Constituinte de 34. A intentona, como é chamada, fracassou de forma total. Foram presos. Hitler pediu a extradição de Olga Benário, não de Artur Evert e Elise Evert. Por que? Porque Olga Benário era acusada pelo assassinato de dois guardas durante o julgamento em Berlim de seu marido, Oto Braun. Ela e seu grupo conseguiram libertar Braun, que escapou para Moscou. Artur e Elise

Evert eram acusados de crime político. A extradição poderia ser negada. Olga Benário, na Alemanha nazista, era acusada de crime comum. A diferença é essencial.

A mesma em que agora o ministro Cezar Peluzo se baseou para negar a libertação de Battisti.

O teste do salário mínimo e do MST

O Globo - Editorial

O disparo de Carlos Lupi contra a posição oficial, externada pelo ministro Guido Mantega, a favor de um salário mínimo não superior a R$ 540, é de quem não se sente parte de um governo. Lupi, ao dizer que o Executivo deve se curvar ao que decidir o Congresso, agiu como chefe de partido, o PDT, não como alguém do primeiro escalão governamental.

A posição assumida pelo ministro do Trabalho é típica de um governo que herda da gestão Lula a marca do fisiologismo na sua composição.

Lupi se encontra no ministério não para cumprir um programa do Planalto, mas para trabalhar por suas bases e, em troca, destinar os votos do partido no Congresso para aprovar projetos do Palácio. Mas desde que atendam à sua clientela.

Parece claro que Dilma Rousseff não governa do púlpito, como o antecessor, o qual, em oito anos, fez, em média, um pronunciamento por dia. Um exagero.

Mas, como a presidente tem um ministério montado a partir da mesma visão fisiológica do toma lá dá cá da gestão Lula, se Dilma não der um rumo em assuntos cruciais, como o do salário mínimo, o governo poderá ficar à deriva, ao sabor de lobbies, pressões e chantagens dos partidos da base.

Como na Era Lula, o governo Dilma parece uma colcha de retalhos, uma federação de capitanias hereditárias e respectivos donatários. Com a grande diferença de que não existe mais o líder carismático, o “Nosso Guia” no Planalto para orquestrar toda esta dissonância. Muito menos a conjuntura mundial favorável.

O anunciado teste que o MST fará de Dilma Rousseff com o “janeiro quente” — uma série de invasões de terras e de prédios públicos este mês — é mais um problema a ser equacionado.

A temperatura deve aumentar à medida que o governo vá em frente no projeto esboçado pelo novo ministro do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence, de eliminar ou reduzir o aparelhamento do Incra e do ministério, entregues no governo Lula ao MST. Conseguirá?

O “janeiro vermelho” funciona como uma cartão de visitas da organização política em que o movimento se converteu, hoje distante da questão da reforma agrária. Um líder do MST explica que eles não têm compromisso com qualquer governo. Nem com o estado de direito, deve-se acrescentar.

Na campanha, a candidata Dilma Rousseff criticou atos ilegais de ocupação de terras e repartições públicas. Para ser coerente, terá de repetir as críticas.

A presidente foi premonitória ao citar Guimarães Rosa no discurso de posse: “Viver é perigoso.” Sem dúvida, há enormes riscos em se presidir um país necessitado de correção de rumos no momento em que o governo se sustenta em partidos mal acostumados com barganhas por baixo da mesa.

Há, ainda, neste amplo arco de alianças, corporações sindicais — de que Carlos Lupi é um dos agentes no ministério — incapazes de enxergar a sociedade como um todo. A elas ainda se juntam organizações ditas sociais, interessadas em estar no poder e, como muitas outras, em ter acesso fácil ao Tesouro.

É impossível o Planalto atender todas as demandas desses aliados e ainda preservar a estabilidade econômica e o crescimento. O “não” terá de ser dito por alguém.

A largada “apoteótica” do governo

Guilherme Fiuza, Revista Época

O Brasil finge que está escandalizado com a guerra sangrenta entre PT e PMDB por cargos no novo (velho) governo. Na verdade, o país já está acostumado com o festival de fisiologismo – tanto que consagrou nas urnas esse projeto de parasitismo do Estado. O que deveria escandalizar é aquilo que ninguém comenta: Dilma, a caixinha de surpresas, parece estar vazia. Empossada na Presidência (será que já é para valer?), a criatura de Lula não soltou nem um balão de ensaio – nem um Fome Zero para distrair a imprensa, como fez o chefe. Em sua primeira semana de governo, Dilma lançou o Ideia Zero.

Em meio a toda a espuma de feminismo reciclado, mitologia do oprimido e esquerdismo nostálgico (ai, que saudade da ditadura…), emerge o grande debate do novo governo: o valor do salário mínimo.

Nunca antes na história deste país se viu tamanha sinceridade na estreia de um governante. É sintomático que a primeira semana da primeira presidente – ou presidenta, como pede o fetiche libertário – seja marcada pela discussão sobre R$ 20 a mais ou a menos para o salário mínimo. A mensagem é clara e franca: às favas com o eufemismo revolucionário, vamos tratar do varejo.

Do discurso de posse da presidenta aos seus primeiros atos de governo, tudo é um show de coerência. Não há nenhum vestígio de projeto nacional, diretriz administrativa ou plano de ação. Apenas um equilíbrio perfeito entre a mistificação (a lenda da ex-guerrilheira) e a volúpia (o banquete partidário). Se a paisagem começa a parecer muito desértica, surge uma ministra para anunciar o PAC da miséria, dando continuidade ao milagre da multiplicação de slogans. O nascimento do governo Dilma vem provar, ao Brasil e ao mundo, como a inoperância pode ser exuberante.

E emocionante. Em seu primeiro discurso depois de empossada, no plenário da Câmara dos Deputados, Dilma Rousseff chorou. Era a parte mais difícil do script, para alguém mais afeita à distribuição de caneladas. O trecho escolhido para o pranto foi perfeito: “Sou, neste momento, presidenta de todos os brasileiros”. Faltou completar: “Principalmente os do PT e do PMDB”. Mesmo assim foi bonito, imaginando-se que “todos os brasileiros” inclui, por exemplo, a ex-escudeira Erenice Guerra, hoje exilada em sua nova mansão no Lago Sul.

O abraço emocionado de Dilma e Erenice na posse é um belo símbolo desse novo Brasil de todos, que não discrimina nem os traficantes de influência.

Os brasileiros do PT e do PMDB corresponderam imediatamente ao ideal de generosidade da presidenta. Um expoente do PMDB, ao ouvir de um ministro do PT que não ficasse chateado porque suas boquinhas no ministério perdido seriam preservadas, respondeu: “Não quero nada. Fica com tudo”. Ou seja: o Estado é deles, mas nada de apego. É um Brasil magnânimo que está nascendo.

Nesse espírito despojado, o ministério da presidenta deu o tom do que será a administração pública no novo governo. Ao tomar posse, o ministro da Previdência, Garibaldi Alves, do PMDB do Rio Grande do Norte, explicou que não entende nada de sua nova pasta (“não tenho realmente o currículo desejado”). Mas ressalvou que não está só, lembrando que seu colega Edison Lobão, afilhado de Sarney, assumiu o Ministério de Minas e Energia sem entender nada do assunto também. Bem lembrado. O que não pode haver é desigualdade.

Já o novo ministro da Indústria e Comércio, Fernando Pimentel, militante do PT e amigo da presidenta, deu uma aula de política cambial. Explicou que os leigos pensam que câmbio flutuante é como um Titanic, mas na verdade “é uma porção de patinhos de borracha flutuando na mesma onda”. Pela intimidade com o tema, Pimentel acaba tomando o lugar da ministra da Pesca. Não há o que temer. Deus está vendo isso tudo. Lula também. Ou vice-versa.

Vou cantar-te nos meus versos

Carlos Brickmann


É hora da Copa e dos Jogos Olímpicos. Daqui em diante, é hora de ONGs que apoiam o esporte, tiram crianças das ruas, combatem drogas. Depois das festas, todas serão investigadas por desvio de dinheiro público. E sumirão do mapa.

Copa e Olimpíadas vão para a passarela. Gilberto Gil estará num carro alegórico, representando "o espírito olímpico visitando a Pátria do Esporte num dia de sol, ao raiar do fogo da vitória e homenageando o mamoeiro que dá limão".

O desenho dos mascotes vai misturar um índio, o sol, aliás parecidíssimo com uma bola Jabulani, o Carnaval, tudo criado por Hans Donner e Oscar Niemeyer. O mascote se chamará "Caíque Boleiro", ou "Maninho do Olimpo".

A tocha olímpica será roubada (seguindo o destino da Taça Jules Rimet). O carnavalesco da Beija-Flor, orientado por Joãozinho 30, fará uma réplica.

Cláudia Leitte e Ivete Sangalo cantarão o Hino da Copa e o das Olimpíadas, compostos por Latino. Em baixo do palco, centenas de pessoas exibirão cartazes de cartolina, com a inscrição "Galvão, filma nóis" e "100% Comunidade".

Vai faltar gás para a tocha olímpica. E aquele pedestal chiquérrimo para a bola da Copa não chega até a semifinal.

Um vira-lata simpaticíssimo vai furar a segurança e confraternizar com os atletas. Será batizado de Copinha e virará mascote, com direito a ficar no Maracanã. Será adotado por um ex-ministro, que dirá que cachorro também é gente.

Uma música de sucesso: "Segura na minha tocha que eu acendo a sua pira".

Precedência
O logotipo olímpico é genuinamente brasileiro, genuinamente criativo, genuinamente original. Quem o copiou foi o pintor Matisse, só que alguns anos antes.

Recordar é viver
Em seu primeiro mandato, o presidente Lula rejeitou a maior parte dos pedidos do PMDB por posições no Governo, chegando a desautorizar seu principal articulador político, o chefe da Casa Civil José Dirceu. Resultado: para conseguir apoio no Congresso, houve necessidade de outro tipo de compensação politica, o que acabou levando ao escândalo do Mensalão (que um dia, dizem, será julgado). E Severino Cavalcanti derrotou o candidato oficial à Presidência da Câmara.

Agora, o PMDB parece muito inquieto, julgando-se prejudicado na divisão dos cargos do Governo Dilma. E, por coincidência, surgem candidatos independentes à Presidência da Câmara, ameaçando a vitória do candidato oficial.

Acusados e acusadores
A denúncia de superfaturamento na merenda escolar de Pindamonhangaba, SP, que resvala na família do governador Geraldo Alckmin, é relatada no Tribunal de Contas do Estado pelo conselheiro Robson Marinho - ele também investigado, pelo Ministério Público, por acusação de participar do escândalo da Alstom. Conta bancária atribuída a ele está bloqueada na Suíça. A propósito, fala-se em "merenda escolar" e parece coisa pequena. Mas é coisa de R$ 7 milhões.

Bobo ele, não?
Ao deixar o cargo de presidente dos Estados Unidos, Harry S. Truman saiu da Casa Branca e o motorista da limusine presidencial lhe abriu a porta. Truman explicou-lhe que já não era presidente, e portanto não poderia usar o carro oficial. Mandou chamar um táxi.

Deve ser chatíssimo aguentar um babaca desses.

Os filhos de Papai Noel
Como diz a esplêndida canção de Assis Valente, "eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel". Não é bem assim; mas o final de 2010 e o início de 2011 mostraram que Papai Noel tem seus filhos preferenciais. O Sol nasceu para todos, mas numa praia particular do Guarujá, e de graça, só para os escolhidos.

Os bons companheiros
O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, tocou num ponto importantíssimo ao defender que políticos sejam proibidos de ter concessões de rádio e TV. Já são; tanto que o senador José Sarney, por exemplo, não tem concessão alguma - embora seu filho Fernando, que dirige o império econômico da família, as tenha em quantidade. É assim que se opera, e é esta brecha que é preciso tapar: os políticos são donos, mas oficialmente não são. As concessões vão para parentes e aliados. Agora, por exemplo, Rodrigo, filho do senador Romero Jucá (líder do Governo Fernando Henrique, líder do Governo Lula, líder do Governo que o convidar) acaba de conseguir cinco concessões de TV e uma de rádio. É desleal: como disputar eleições com um adversário que é dono da TV e das rádios?

Homem de paz
O empresário Clésio Andrade, do PR mineiro, que assume na vaga do falecido senador Eliseu Resende, garantiu seu apoio a Dilma: embora tenha sido vice do tucano Aécio Neves em seu primeiro mandato, embora seja suplente de um senador do DEM, diz que "não há hipótese" de ficar com Aécio contra Dilma.

Clésio Andrade diz a verdade: é um homem de princípios. Enquanto Dilma for o poder, e Aécio apenas uma perspectiva distante, fica com Dilma. Se Aécio crescer e tiver chances reais de vencer em 2014, aí Clésio se aproximará dele.

A obsessão nacional pelo curto prazo

Ricardo Gallupo, Brasil Econômico

É impressionante como muita gente no Brasil costuma tirar conclusões precipitadas a partir dos efeitos iniciais de medidas adotadas pelo governo. Poucos conseguem entender que, numa economia estável, os números não podem andar aos saltos. O bom é que eles andem lentamente, um passo depois do outro.

O melhor é que o cenário se altere aos poucos até o momento em que, ao parar para analisar o que está acontecendo, as pessoas percebem que estão diante de uma realidade distinta daquela que vigorava um ou dois meses antes.

Isso se aplica, por exemplo, à decisão do BC que, na semana passada, resolveu desestimular as apostas que parte do sistema financeiro vinha fazendo na valorização excessiva do real.

O impacto sobre a taxa de câmbio no primeiro dia do anúncio do depósito compulsório nada teve de espetaculoso. No segundo dia, houve até uma pequena queda do dólar. E assim deverá ser nos próximos dias.

O mercado acabará se adaptando à nova realidade sem que isso prejudique os importadores, os exportadores e todos os que, numa economia aberta, precisam olhar o mercado interno sem se descuidar do que se passa no mundo.

A medida do BC para intervir sobre o câmbio foi engenhosa e mostrará resultados com o tempo.

O dólar subirá gradativamente e chegará à casa de RS 1,80 – ou pouco acima disso – ali pelo meio do ano. E pode bater em R$ 1,90 daqui a 12 meses.

A vantagem da ferramenta utilizada é que, se a tendência se inverter e o real começar a se desvalorizar depressa demais (o que acabaria puxando a inflação para o alto), o governo pode reduzir ou até eliminar o compulsório sobre as moedas estrangeiras.

Nesse caso, o real voltaria a se valorizar. Para concluir, é preciso registrar que a política de flutuação livre que vigorou até a semana passada foi adotada pelo BC na presidência de Armínio Fraga Neto e se manteve inalterada por quase 12 anos. Agora, com a flutuação monitorada, o país entra num novo estágio, mais adequado ao ciclo de crescimento aguardado para os próximos anos.

O tempo perdeu as estribeiras

Ignácio de Loyola Brandão - O Estado de São Paulo

Durante dez anos, entre 1960 e 1970, morei na Praça Roosevelt, centrão de São Paulo. Cada vez que ia sair, ao chegar à portaria, o zelador, Jurandir, um velho do interior, vinha até a porta, olhava o céu e dizia: "Leve o guarda-chuva seu Ignácio." O céu estava limpo, o sol brilhava, nenhuma nuvem. "Está louco, seu Jurandir, olhe o céu!" Ele sorria, sacudia a cabeça. No final da tarde, a chuva me pegava, eu ficava molhado como um pinto. O centro, eu trabalhava no Anhangabaú, paralisava, ninguém se movia. O Tamanduateí inundava a Avenida do Estado, o Tietê erguia-se e ocupava as terras à sua volta, então sítios e chácaras. Isso mesmo, sítios e chácaras e campos de futebol de várzea. Vacas e cavalos não se incomodavam com a chuva. Uma vez, o buraco do Adhemar, aquela passagem sob a avenida São João, encheu d"água, foi um acontecimento. Mas nada do que se vê hoje.

Agora, o que se passa? Como nos comportamos? Mudamos tudo, adquirimos novos hábitos. Antes de sair vamos à janela e olhamos de que lado o pretume está. Antigamente, sabíamos de que lado as chuvas vinham, agora, vêm de todos os lados. Preteja na zona leste, chove. Preteja na zona sul, chove. Preteja na zona oeste, nordeste, noroeste, sudeste e a chuva vem. Não existe mais previsão do tempo. Pensar que ouvíamos o Narciso Vernizzi e ele não errava uma, podíamos nos orientar, regular a hora de saída. Essa previsão que serviu para a ascensão de lindas jovens na Globo, como Rosana Jatobá ou a Fabiana Scaranzi, está desmoralizada. O que diria hoje seu Jurandir?

Qual nosso primeiro gesto de manhã? Antes, era ler horóscopos, hoje é pegar o caderno regional do jornal e ver e meteorologia. Tenho um amigo que compra quatro jornais, quer sempre uma segunda opinião. No caso dele, uma terceira e quarta. Conheço outro que fica no controle da tevê e busca a previsão do tempo. Muda agendas, encontros, almoços. A chuva do final da tarde ficou famosa. Como se livrar dela? Tem gente negociando saídas mais cedo do trabalho, trocando pelas folgas do sábado ou por dias de férias. Conheço um que já deve duas quinzenas ao patrão. Nos bares, há um novo gênero para fanáticos de apostas. A que horas vai chover? Vai inundar ou não? A enchente vai ser brava? Quantos quilômetros de congestionamento? Quantas casas serão inundadas, quantas virão morro abaixo? Quantos carros vão boiar? Parece tétrico? É, mas quem joga, joga.

O que era insegurança virou medo, o que era medo virou pavor, o que era pavor virou pânico, o que é pânico está se tornando neurose, obsessão. Ela vai me pegar andando na rua e a enxurrada vai me levar? Meu carro boiará? Entrarei na minha garagem? Minha família será atingida? Os ventos quebrarão minhas janelas? Uma árvore cairá sobre meu carro? Não há lugares seguros. Um professor aqui vizinho vive uma fixação: e se eu virar um desabrigado?

Os antigos queimavam palmas bentas, acendiam velas para Santa Escolástica e confiavam. Tais práticas desapareceram, estamos sem amuletos sobrenaturais. O medo nos contamina. Dizem que os consultórios dos terapeutas estão com agendas esgotadas. Um valor mais alto se alevanta, o temor da tempestade.

Na noite de segunda-feira saí à noite depois da novela para buscar um remédio para minha filha. Impossível atravessar a Rebouças, a água movia-se furiosa. Nos pontos de ônibus pessoas molhadas até o último fio de cabelo precisavam se defender dos sacos de lixo que rolavam e se acumulavam e formavam barreiras e represavam a água, formando diques que se rompiam em cascatas. Pobres pedestres paulistanos, pobres transeuntes. Era quase meia-noite e os ônibus demoravam, os que tinham ido aos bairros não conseguiam voltar.

Levei meia hora para chegar à farmácia e estava ensopado, pés encharcados. Dentro da farmácia pisava na água, funcionários tinham tirado os remédios das prateleiras mais baixas. Na porta, gente parada, esperando. Esperando o quê? Ninguém sabia se o fim da chuva, se um táxi, se a possibilidade de um ônibus. Todos falando aos celulares, sossegando familiares e parentes, que a neura é geral. O farmacêutico tinha acabado de aviar quatro receitas de antidepressivos, três de calmantes, quem não tinha receita levava Maracujina mesmo para aliviar a tensão. "Nunca vendi tanto calmante", me disse ele. "E o senhor, o que deseja?" Olhei para ele, pedi a Novalgina de minha filha e indaguei: "Mesmo que eu queira o senhor não me vende um calmante faixa preta, vende?" Saí e fiquei pensando no seu Jurandir da Praça Roosevelt. Estaria louco ou diria: o tempo ficou louco de pedra, pirou, perdeu as estribeiras.

Falta de vagas na educação infantil ainda é problema em todo o país

Amanda Cieglinski, da Agência Brasil
Apesar de cerca de 80% dos brasileiros de 4 e 5 anos ainda já estarem na escola, ainda há uma demanda grande a ser atendida

Marcello Casal Jr./AGÊNCIA BRASIL
Crianças na sala de aula: governo precisa ampliar espaços

Brasília - Em todo início de ano letivo, mães de crianças até 5 anos de idade passam pela mesma dificuldade para conseguir vaga para seus filhos em escolas de educação infantil. O déficit no país ainda é grande: apenas 18,4% da população de 0 a 3 anos estão matriculados em creches, segundo dados de 2009. Na pré-escola, a situação é um pouco melhor: cerca de 80% dos brasileiros de 4 e 5 anos estão na escola, mas ainda há uma demanda grande a ser atendida.

Só em 2009 o Brasil incluiu a pré-escola entre as etapas obrigatórias da escolarização - até então apenas o ensino fundamental era compulsório. Como não havia a obrigação de receber todos os alunos, os municípios ainda não conseguem atender a demanda. A proposta de emenda à Constituição (PEC) que ampliou esse direito prevê que até 2016 todos as crianças de 4 e 5 anos deverão estar matriculadas.

“A tarefa dos municípios é gigantesca para universalizar a matrícula de 4 e 5 anos. Teremos que contratar mais professores, além de toda a estrutura física, equipamentos”, explica o presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Carlos Eduardo Sanches.

Para dar conta da universalização das matrículas da pré-escola até 2016, Sanches recomenda que os municípios se programem desde agora. “A PEC atinge a próxima gestão e não essa. Mas os atuais prefeitos precisam começar o planejamento da ampliação agora, fazer as contas para que possamos atingir a meta”, afirma. Na avaliação dele, essa tarefa só será possível com apoio da União e a entrada de “dinheiro novo”.

No caso da creche, o déficit é ainda maior. Ainda que muitas famílias prefiram manter a criança em casa até os 3 anos, a fila de espera nas secretarias municipais de Educação costuma ser longa. Em São Paulo (SP), por exemplo, 125 mil crianças esperam por uma vaga em creche e 42 mil na pré-escola. Não há um levantamento sobre a demanda real por vagas em creche, mas Sanches calcula que o caminho é grande.

“Não é fácil atender essa matrícula porque ela é a mais cara. Geralmente, o atendimento é em tempo integral e isso custa mais, quase o dobro do ensino fundamental”, explica o presidente da Undime. Entretanto, foi a creche a etapa que registrou maior crescimento no número de matrículas entre 2009 e 2010: 9%.

O Distrito Federal recebeu 22 mil pedidos de novas matrículas na educação infantil para 2010, mas o déficit ainda é de cerca de 2 mil vagas. Uma das crianças que não conseguiu a matrícula foi o neto de Maria Ivoneide Santos, de 32 anos, moradora de Santa Maria, cidade do Distrito Federal. Doméstica, ela teve que matriculá-lo numa creche particular, que consome R$ 250 do seu orçamento mensal.

“Desde que ele era bebê a gente tenta e não consegue. Como a gente trabalha, é difícil cuidar dele. Esse dinheiro faz muita diferença no fim do mês, ainda mais que eu moro de aluguel”, explica. A filha de Ivoneide engravidou aos 14 anos e ela teve que assinar um termo no conselho tutelar comprometendo-se que a filha voltaria para a escola.

“No começo não tinha vaga no período noturno e ela tinha que levar o bebê para a escola. Já pedimos ajuda ao conselho tutelar para conseguir essa vaga para ele na creche, mas ainda não deu certo”, lamenta.

Dez anos de atraso
O projeto de lei que vai criar o novo Plano Nacional de Educação (PNE), enviado pelo Ministério da Educação (MEC) ao Congresso Nacional, prevê que até 2020 o atendimento em creche seja ampliado para 50%. Atualmente, menos de 20% das crianças de 0 a 3 anos estão matriculadas nessa etapa educacional – incluindo instituições públicas e privadas. A oferta de creche, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), é de responsabilidade dos municípios.

Entre 1995 e 2009, o crescimento foi de 0,81 ponto percentual ao ano – era 7,6% e chegou a 18,4%. O PNE anterior, que vigorou entre 2001 e 2010, já previa que o país atendesse a 50% da população de 0 a 3 anos até 2011. “A meta já existia no outro plano, deveria ser cumprida até 2011 e agora passou para 2020. Ou seja, já estamos com dez anos de atraso”, compara o coordenador da Rede Nacional Primeira Infância, Vital Didonet.

O especialista aponta que o atendimento em creche é caro e por isso o aumento das vagas públicas é tão lento. Se o ritmo dos últimos anos for seguido (0,81 ponto percentual ao ano), a meta de 2020 não será cumprida. “A criança pequena precisa de um espaço grande, adequado, não é qualquer local que pode recebê-la, precisamos fugir dessa forma histórica do atendimento em creche. Ainda são necessários profissionais qualificados e materiais próprios para o desenvolvimento infantil”, acrescenta.

O MEC tem hoje dois programas que tentam reverter o cenário deficitário. O Programa Nacional de Reestruturação e Aparelhagem da Rede Escolar Pública de Educação Infantil (Proinfância), criado em 2007, estabelece convênios com os municípios para a construção de unidades de educação infantil. Em três anos, apenas 100 creches das cerca de 2 mil já conveniadas foram finalizadas – cerca de 5%.

A outra frente de ação foi a inclusão da construção de creches na segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2). A meta é construir 6 mil creches até 2014. Considerando que a atual população de 0 a 3 anos do país é de cerca de 10 milhões de crianças, para que se garanta a matrícula de 50% desse grupo será preciso chegar a 2020 com 5 milhões de matrículas – quase 3 milhões a mais do que o número atual.

De acordo com a coordenadora de Educação Infantil do MEC, Rita Coelho, os investimentos da União na área são inéditos, considerando o orçamento de anos anteriores. Ela acredita que o apoio do MEC é importante, mas não resolverá todo o problema.

“Não é suficiente porque o apoio da União é suplementar, uma atuação colaboradora. Mas os municípios também precisam ter suas propostas, colocar recursos próprios. Os investimentos precisam ser ampliados e não só na educação infantil”, ressalta. Ela acredita que hoje é “inquestionável” o comprometimento das prefeituras com a expansão dessa etapa educacional.

Além do desafio físico da rede, Rita acredita que outra dificuldade está na construção de uma proposta pedagógica para a educação infantil. “Temos que consolidar na sociedade a educação infantil como a primeira etapa da educação básica, mas também não é uma antecipação da escolaridade, nem assistência social”, diz.

O desejo de conhecer

Olavo de Carvalho, Mídia Sem Máscara


Precisei viajar um bocado pelo mundo para me dar conta de que Aristóteles se referia à natureza humana em geral e não à cabeça dos brasileiros.

É natural no ser humano o desejo de conhecer. Quando li pela primeira vez esta sentença inicial da Metafísica de Aristóteles, mais de quarenta anos atrás, ela me pareceu um grosso exagero. Afinal, por toda parte onde olhasse - na escola, em família, nas ruas, em clubes ou igrejas - eu me via cercado de pessoas que não queriam conhecer coisíssima nenhuma, que estavam perfeitamente satisfeitas com suas ideias toscas sobre todos os assuntos, e que julgavam mesmo um acinte a mera sugestão de que, se soubessem um pouco mais a respeito, suas opiniões seriam melhores.

Precisei viajar um bocado pelo mundo para me dar conta de que Aristóteles se referia à natureza humana em geral e não à cabeça dos brasileiros. De fato, o traço mais conspícuo da mente dos nossos compatriotas era o desprezo soberano pelo conhecimento, acompanhado de um neurótico temor reverencial aos seus símbolos exteriores: diplomas, cargos, espaço na mídia.

Observava-se essa característica em todas as classes sociais, e até mais pronunciada nas ricas e prósperas. Qualquer ignorante que houvesse recebido em herança do pai uma fábrica, uma empresa de mídia, um bloco de ações da Bolsa de Valores, julgava-se por isso um Albert Einstein misto de Moisés e Lao-Tsé, nascido pronto e habilitado instantaneamente a pontificar sobre todas as questões humanas e divinas sem a menor necessidade de estudo.

Se houvesse lido alguma coisa no último número da Time ou do Economist, então, ninguém segurava o bicho: suas certezas erguiam-se até às nuvens, imóveis e sólidas como estátuas de bronze - sempre acompanhadas, é claro, das advertências céticas de praxe quanto às certezas em geral, sem que a criatura notasse nisso a menor contradição. Caso faltassem os semanários estrangeiros, um editorial da Folha de S. Paulo já supria a lacuna, fundamentando verdades inabaláveis que somente um pedante viciado em estudos ousaria contestar.

Dessas mentes brilhantes aprendi lições inesquecíveis: o comunismo acabou, esquerda e direita não existem, Lula é um neoliberal, a Amazônia é o pulmão do mundo, o Brasil é um modelo de democracia, a Revolução Francesa instaurou o reino da liberdade, a Inquisição queimou cem milhões de hereges, as armas são a causa eficiente dos crimes, o aquecimento global é um fato indiscutível, os cigarros matam pessoas a distância, o narcotráfico é produzido pela falta de dinheiro, as baleias são hienas evoluídas e o Foro de São Paulo é um clube de velhinhos sem poder nenhum.

Se continuasse a dar-lhes ouvidos, hoje eu seria reitor da Escola Superior de Guerra ou talvez um senador da República.

Entretanto, longe do Brasil, encontrei enfermeirinhas, caixeiros de loja e operários da construção civil que, ao saber-me autor de livros de filosofia, arregalavam os dois olhos de curiosidade, me crivavam de perguntas e me ouviam com a atenção devota que se daria a um profeta vindo dos céus.

Por incrível que pareça, interesse e humildade similares observei entre potentados da indústria e das finanças, figurões da mídia e da política. Até mesmo professores universitários - uma raça que no Brasil é imune a tentações cognitivas - demonstravam querer aprender alguma coisa.

Aristóteles tinha razão: o desejo de conhecer é inato. O Brasil é que havia falhado em desenvolver nos seus filhos a consciência da natureza humana, preferindo substituí-la por um arremedo grotesco de sabedoria infusa.