Adelson Elias Vasconcellos
Creio que boa parte do país deve ter assistido, com imensa pesar, o noticiário sobre o novo desastre que chuvas torrenciais provocaram com duas centenas e meia de mortos e número ainda ignorado de desabrigados no Rio. Até anteontem, os governantes tucanos de São Paulo, Governador e Prefeito da Capital, eram demonizados por conta dos aguaceiros que vem desabando em São Paulo. Repetia-se o receituário de 2010. Por mais de quarenta dias, São Paulo nunca viu tanta água junta, para ser exato, coisa parecida somente há setenta anos atrás.
Semanas depois, assistimos estupefatos, as tragédias de Ilha Grande e Angra dos Reis. Cabral, o governador, foi dar as caras depois da tragédia já passada alguns dias. Não teve vergonha na cara de interromper suas férias para se solidarizar com o povo carioca que o escolhera para governador.
Enquanto isto, em são Paulo, Serra e Kassab foram a todos os lugares, ouviram as reclamações da população, o seu pedido de socorro, de providências, e a imprensa caiu de pau em cima deles. Era ano de eleição, Serra aparecia como candidato da oposição. A malhação correu solta sob suas costas.
Iniciado 2011, com Dilma em lugar de Lula, e Alckmin substituindo Serra, nos mesmos cenários, os desastres se repetiram e os atores de então cumpriram exatamente os mesmos papéis de um ano atrás. Aguaceiro sem parar em São Paulo, imprensa deitando falação contra os tucanos, esquecendo-se de atacar também as administrações petistas no entorno da Grande São Paulo, em que as prefeituras são petistas, mas que não faltou ilhados e desabrigados. A contagem do número de mortos parecia o relógio do impostômetro.
No meio disto tudo, no Rio, se inaugurava uma central eletrônica de prevenção de catástrofes. Foi cantada e glorificada nos telejornais como a invenção da roda capaz de evitar o pânico geral vivido em 2010, como contraponto às ruas e bairros alagados de São Paulo.
E eis que, desta vez, na região serrana fluminense, o céu despencou sobre centenas de famílias. E, tal qual o ano passado, a do Rio se converteu na tragédia que sem dúvida é, enquanto a de São Paulo ria-se desbragadamente de que as inundações eram culpa das chuvas. Vejam só!
Em 2011, os mortos no Rio praticamente dobraram em quantidade. As imagens exibidas dão conta de uma calamidade difícil de se ver, quase insuportável de se viver. E onde estava Cabral? No exterior, em viagem de férias. Vamos ver quantos dias demorará para aparecer agora.
Em nível federal, praticamente o script é o mesmo. Só se tomou a iniciativa de oferecer ajuda a partir da tragédia carioca. Enquanto estava circunscrita a São Paulo, nenhum pio, ruído só da imprensa - ou parte dela – genuflexa ontem, hoje e amanhã.
Bem lembrado por Reinaldo Azevedo em seu blog, durante a campanha do ano passado, quando Serra apresentou seu plano de governo, em que previa a criação de uma super estrutura em nível nacional para prevenir e atender desastres, foi ridicularizado pela própria então candidata Dilma Rousseff. Os pacs da vida, faziam a obra milagrosa de curar feridas e agir no varejo.
2010 e 2011: como afirmei há poucos dias, mudaram as moscas apenas. Mas o cheiro ruim da má política permanece inalterado. A diferença é que, por enquanto, estamos livres dos discursos hipócritas do pistoleiro do Planalto. Mas só por enquanto...
E antes que março feche as chuvas de verão, será que desta vez teremos aprendido as lições de décadas de omissões? Acho que a hora é de esquecer diferenças políticas e ideologias partidárias e partirmos decididos para um projeto grandioso que previna desastres desta magnitude. Não basta dizerem que tantas mil pessoas moram em áreas de risco. Tirá-las para alojá-las aonde? Jogá-las no meio do mato, longe de tudo e até da civilização? Nenhum plano de moradia popular pode ser empreendido sem considerar todas as condições de infraestrutura. Não é apenas água, luz, calçamento, saneamento. Ambulatórios, escolas, transporte coletivo e todos os demais serviços próximos de cada núcleo urbano são indispensáveis para a qualidade de vida, e como forma de se evitar que as pessoas se arrisquem, novamente, em moradias localizadas em terrenos precários, que podem desabar com qualquer temporal, unicamente por não outras opções.
Quando falo que no Brasil o que nos desgraça não é falta de recursos e sim de ações públicas, tem quem ache isto um exagero. Não é. Ação pública deve começar pela eleição de prioridades e se seguir com projetos e programas bem planejados com vistas aos resultados que visem o benefício da população.
O caso de Teresópolis e São Paulo é sintomático de um governo que ainda não soube definir prioridades. Sua preocupação tem sido distribuir seus recursos de acordo com as legendas que comandam prefeituras e governos estaduais. Enquanto a cidade serrana do Rio de Janeiro tem 150 mil habitantes e 770 km2 de área, a cidade de São Paulo, que também é afetada todos anos pelos aguaceiros de início de verão, tem 12 milhões de pessoas, em uma área de1.523 km2. Pois bem, no item prevenção de acidentes, enquanto a prefeitura petista de Teresópolis receberá R$ 120 milhões pelo PAC-2, para São Paulo serão destinados ridículos R$ 69,7 milhões, para aplicar em áreas de riscos e na prevenção de deslizamentos. Em 2009, a Bahia, do petista Jacques Wagner, recebeu, sozinha, mais de 50% dos recursos liberados pelo programa de prevenção.
Não, não é desta maneira que novas tragédias e calamidades serão evitadas. Bahia, Rio e São Paulo fazem parte de um mesmo país. O paulistano não é menos brasileiro do que o carioca e o baiano. Neste capítulo de prevenção, o que deve contar é o tamanho do risco que se pode evitar, e não o partido político do prefeito ou do governador ser o do governo federal, para ser melhor contemplado do que os demais.
É bom que Dilma se lembre do que disse no discurso de posse: que a partir daquele momento seria a presidente de TODOS os brasileiros, e não apenas para premiar a parte do país que se alinha com seu partido político. Afinal, no Tesouro Nacional, o dinheiro que entra ainda não é separado por contribuintes de uma ideologia e de outra. O bolo é um só, e com TODOS deve ser repartido.
O raio é que estas tormentas são previsíveis com a chegada da estação. Sabe-se perfeitamente bem quais áreas sofrem risco de soterrarem as pessoas e suas moradias. Então que nossas autoridades parem de buscar culpados no passado e se preparem para evitar que no futuro, outras autoridades os acusem pela mesma omissão com que hoje se esquivam de suas responsabilidades. Solução tem, resta saber quem está disposto a encarar o desafio de frente. Está mais do que na hora do país começar a se preocupar um pouco com a vida dos seres humanos, do que em protegerem uma família de sapinhos na lagoa.
E outra coisa: em reportagem da Veja online que reproduzimos bem no início desta edição, vimos que as tais “ajudas humanitárias” oferecidas pelo governo Lula, jamais levaram em conta necessidades sociais nem humanitárias. Tratou-se muito mais de financiar ditaduras e tiranias do que qualquer sentido social. O ponto determinante do viés dos auxílios foram sempre de natureza política, jamais humanitária. Internamente, está visto, a prioridade na liberação de recursos também seguiu o mesmo roteiro. Só que ao invés de tiranias, alimentaram parcerias políticas, e não necessidades prioritárias em benefício da população.
E por favor: vamos parar de fazer politicagem a partir das tragédias e calamidades que matam pessoas e desgraçam milhares de outras. Se Dilma sobrevoar o Rio, deve fazer o mesmo em São Paulo. Se oferecer ajuda para um, deve fazer o mesmo para os todos atingidos. E por favor, parem, também, com o discurso canalha de que, se não fosse o programa tal, a desgraça seria maior. Que desgraça pode ser maior do que aquela que mata mais de 250 pessoas em três dias, e desabriga e desgraça milhares todos os anos? A propósito: Santa Catarina já recebeu a ajuda federal prometida para socorrer as vítimas das calamidades de 2 e 3 anos atrás? Pois é...





