domingo, dezembro 26, 2021

Três anos de destruição: Bolsonaro acha pouco e quer mais

  Bernardo Mello Franco

O Globo

  REUTERS/Ueslei Marcelino

O presidente Jair Bolsonaro, durante cerimônia no Ministério da Justiça | 

O governo Bolsonaro vai fazer três anos. O capitão acha pouco e quer mais. Na semana que passou, ele recebeu um presente do Congresso. A pretexto de combater a pobreza, ganhou mais R$ 65 bilhões para gastar até a eleição de 2022.

Todo projeto autocrático depende de um segundo mandato para se consolidar. É o que lembra o filósofo Marcos Nobre, professor da Unicamp e presidente do Cebrap. Em seminário na sexta-feira, ele citou os exemplos de Hungria, Polônia e Turquia, governados por líderes de ultradireita que ascenderam pelo voto.

“Os populistas autoritários destroem a democracia por etapas”, disse Nobre. “O primeiro mandato é dedicado a minar as instituições. Vão aparelhando progressivamente para que no segundo mandato consigam fechar o regime”, alertou.

Bolsonaro tem seguido a cartilha. Estimulou movimentos golpistas, asfixiou os órgãos de controle, tentou emparedar o Judiciário. Para minar a confiança na democracia, liderou uma campanha de desinformação contra as urnas eletrônicas.

O capitão ensaiou uma trégua após o 7 de Setembro, mas voltará a radicalizar para manter sua tropa mobilizada, previu o professor. “Bolsonaro não tem nenhuma pretensão de governar para a maioria. Pelo contrário: a ideia é governar para uma minoria”, explicou.

Nos últimos dias, o presidente deu razão ao filósofo. Atacou o passaporte da vacina e exaltou o deputado extremista Daniel Silveira, preso após ameaçar ministros do Supremo.

Para a cientista política Daniela Campello, da FGV, Bolsonaro se tornou a “ilustração perfeita” do populista de direita. O único elemento que destoava do figurino era a defesa da austeridade econômica, que tinha o ministro Paulo Guedes como fiador. Agora o discurso foi abandonado em nome da reeleição.

“Ainda me impressiono com quem acreditou que Bolsonaro e sua turma teriam se convertido ao neoliberalismo”, disse a professora. Ela lembrou que a gastança eleitoral deve obrigar o próximo governo a assumir o país num cenário de crise fiscal aguda.

Ainda que seja derrotado nas urnas, o presidente deixará um legado de destruição institucional, afirmou Campello. “Hoje o Ibama hoje não defende o meio ambiente, a Funai não defende os indígenas”, apontou. “Bolsonaro conseguiu normalizar o anormal, e isso já foi uma imensa vitória”, concluiu.

O cientista político Matthew Taylor, da American University, ressaltou que o retrocesso poderia ser ainda maior. Ele disse que a desorganização do governo atrapalhou parte da agenda autoritária. “Falo com certo alívio. Temos que agradecer a incompetência do Bolsonaro”, ironizou.

Os participantes do seminário do Cebrap divergiram sobre os prognósticos para 2022. Para Daniela Campello, a inflação e o desemprego tornaram “muito pequenas” as chances de reeleição. “Meu temor não é o Bolsonaro ganhar por vias democráticas. É o que ele vai aprontar para desqualificar as eleições”, disse.

Para Marcos Nobre, a oposição não deveria repetir o erro de subestimar o capitão. “O projeto é chegar ao segundo turno e demonizar o adversário, o que ele sabe fazer bem”, alertou.


PF descobre o que todos já sabem

 Editorial

O Estado de São Paulo

O presidente Jair Bolsonaro teve “atuação direta e relevante” na divulgação de desinformação sobre a segurança do sistema eleitoral, razão pela qual deve ser investigado e, eventualmente, processado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Essa é a dura conclusão do inquérito aberto pela Polícia Federal (PF) a fim de investigar o grau de responsabilidade de Bolsonaro na difusão da ideia de que as urnas eletrônicas são suscetíveis a fraudes. O relatório final da PF foi encaminhado ao STF no dia 16 passado pela delegada Denisse Dias Rocha. A autoridade policial sugeriu que Bolsonaro seja investigado no âmbito do Inquérito 4.874, conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes, que apura a ação das chamadas milícias digitais.

No dia 29 de julho, Bolsonaro transmitiu uma live pelas redes sociais e pela TV Brasil – uma imoralidade por si só – a pretexto de “apresentar provas de fraudes” havidas em eleições passadas, em especial na eleição presidencial de 2014, vencida por Dilma Rousseff. Evidentemente, o presidente não apresentou prova alguma, até por impossibilidade fática. Auditorias realizadas pela própria PF, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e pelos partidos políticos jamais conseguiram demonstrar uma falha de segurança relevante nas urnas eletrônicas a ponto de pôr em dúvida a credibilidade de um sistema que há 25 anos traduz fidedignamente a soberana vontade dos eleitores.

A rigor, portanto, nem sequer havia o que a PF investigar ao longo desses cinco meses desde a vergonhosa live. O Brasil inteiro assistiu àquele espetáculo de imposturas e desinformação, o ápice da cruzada de Bolsonaro contra o mesmo sistema eleitoral por meio do qual construiu sua longa e improdutiva carreira no Poder Legislativo antes de chegar à Presidência da República, além de transformar sua prole em holding política.

O trabalho que teve a delegada Denisse Rocha, sem desmerecê-lo, naturalmente, foi ver e rever a transmissão em que Bolsonaro disse o que disse em alto e bom som, além de ouvir os envolvidos na sua organização, entre os quais o ministro da Justiça e da Segurança Pública, Anderson Torres; o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Luiz Eduardo Ramos; e o diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem. Todos, concluiu o relatório da PF, agiram “de maneira enviesada para promover uma teoria conspiratória”.

A conclusão do inquérito da PF é de estarrecer todo e qualquer cidadão que nutre apreço pela ideia de República neste país. Ninguém menos que o presidente, dois ministros de Estado e o chefe da Abin agiram “por vontade livre e consciente de promover, apoiar ou subsidiar o processo de construção de narrativas sabidamente não verídicas, baseadas em premissas falsas ou em dados descontextualizados”, apontou o relatório da PF. Ao fim da investigação, a autoridade policial concluiu que “restou caracterizado pelas narrativas das pessoas envolvidas que a chamada ‘live presidencial’ foi um evento previamente estruturado com o escopo de defender uma teoria conspiratória que os participantes já sabiam inconsistente”.

Este seria um relatório devastador para a moral de um presidente da República minimamente digno do cargo. Para Bolsonaro, ele mesmo uma fraude como chefe do Poder Executivo, o documento nada deve dizer. O presidente já atingiu o objetivo de suscitar dúvidas sobre as urnas eletrônicas na cabeça de muitos eleitores. É com base nessa nuvem de suspeição que ele pretende sustentar a ideia de que foi vítima de “fraude” caso não seja reeleito em 2022, como indicam todas as pesquisas de intenção de voto no momento.

A PF fez seu trabalho e concluiu um inquérito que, a despeito da facilidade para apuração de provas, está bem abastecido de elementos que, em tese, podem levar à condenação do presidente pelas mentiras que disse à Nação sobre a segurança do sistema eleitoral. Cabe agora ao Ministério Público Federal também fazer o seu trabalho e defender, como determina a Constituição, a ordem jurídica, o regime democrático e os interesses sociais e individuais indisponíveis.


O teatro de Bolsonaro contra o STF

  Ricardo Chapola

Revista ISTOÉ

O governo Bolsonaro nunca deixou de atacar outros Poderes. Se não publicamente, continuou fazendo isso de maneira sistemática no subterrâneo da política, ambiente onde o capitão e seus principais aliados aprenderam a operar.

 © AFP/Arquivos

O presidente Jair Bolsonaro 

A tal trégua que o Planalto sinalizou fazer ao Supremo depois das ameaças à democracia feitas no Sete de Setembro não passa de um mero teatro. Nesta semana, o vazamento de um áudio de dentro da Esplanada dos Ministérios comprovou a teoria de que esse tipo de conduta talvez nunca tenha deixado de fazer parte da rotina do séquito de Bolsonaro.

Em um evento fechado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) nesta semana, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, um dos principais conselheiro do capitão, voltou a golpear o Judiciário. Disse, dentre outras asneiras, que precisa tomar remédios psiquiátricos “na veia” diariamente para não levar o mandatário a tomar medidas mais “drásticas” contra a Corte.

Acostumados a trabalhar nas sombras, bolsonaristas sugerem que nunca deixaram de lado o plano de fragilizar o STF. Mesmo porque se trata de uma verdadeira constante do Planalto: metralhar tudo aquilo o que está fora do seu raio de poder. O que não significa que o capitão não tenha esse interesse, haja vista o seu esforço hercúleo de emplacar no Supremo o nome “terrivelmente evangélico” que tanto prometeu.

Enquanto não tiver as rédeas do Judiciário – e isso ele jamais terá, devido à higidez da maioria de seus integrantes -, o que restará ao presidente será o mais do mesmo: atacar os ministros do STF para inflamar a pequena fatia de eleitorado que ainda lhe dá sustentação. De qualquer forma, cabe aos órgãos de controle não fazerem ouvidos moucos para cumprir o que a Constituição determina.


Velho Bolsonaro volta depois das sete ondinhas

  Vera Magalhães

O Globo 

Tão logo os brasileiros pulem as sete ondinhas e façam seus desejos para um 2022 que promete ser ainda mais duro que o último biênio, Jair Bolsonaro já terá rasgado a fantasia de moderado que Michel Temer lhe vestiu e estará de volta à velha forma conspiracionista, atirando contra tudo e todos. Desta vez com o cartão de crédito dos gastos populistas e eleitoreiros na mão e com limite alto.

Aos poucos, o presidente já vai se despindo do figurino que lhe causa desconforto, o que respeita as instituições e o contraditório.

Faz isso ao mesmo tempo que cerca sua base mais ideologizada à custa de bravatas e de promessas de benefícios financeiros ou empresariais.

A nova investida se dá junto aos policiais federais, num momento em que há muitas imbricações de interesses da sua família e dos seus sob responsabilidade da PF.

O prometido reajuste geral a servidores no ano eleitoral começou justamente pelos policiais. Veio na forma que também já se tornou usual no método bolsonarista: apenas avisando a Paulo Guedes que ele se vire para arrumar o dinheiro.

Na esteira da PF virão os demais funcionários públicos, num movimento que, além de pressionar o já fictício Orçamento da União, também gerará um efeito de pressão em cascata sobre estados e municípios. Afinal, há governadores que são candidatos e estão igualmente ávidos por um populismo que os faça decolar nas pesquisas.

Eis a fórmula que o presidente usará para tentar se reeleger. Se em 2018 contou apenas com o lavajatismo e o antipetismo para alimentar uma estrutura que vinha montando desde anos antes, cevando uma direita radicalizada diante da qual até então a política, a imprensa e a academia estavam distraídas, agora o presidente precisa de mais. E tem: a estrutura de Estado, o dinheiro conseguido à custa de calote, pedaladas e o apoio de um Centrão cooptado pelo orçamento secreto.

Essa grana ilimitada será usada para tentar compensar a perda de uma parcela do eleitorado que era formada justamente pelos insatisfeitos com a política como um todo ou com o PT, em particular, que já fugiram do barco diante da conduta criminosa do governo na pandemia, das investidas contra a democracia, do desmonte das políticas públicas em todas as áreas e todo o resto do legado destrutivo de Bolsonaro.

Quem é o eleitor-alvo da fase de populismo fiscal que já começou? Os beneficiários de programas sociais, os servidores agora adulados e quem mais puder ser atingido pelas políticas federais voltadas a desmontar estruturas de contenção a determinadas atividades — garimpeiros, madeireiros, caçadores e atiradores, o grupo é grande.

Para atrair esses nichos e manter o núcleo duro da extrema direita ainda fiel é que o Bolsonaro que bate, deixa bater, divulga fake news, demoniza o Supremo e conspira contra o voto eletrônico e a vacina precisa voltar em todo o seu esplendor.

Alguns últimos atos deste 2021 têm de acontecer antes que ele saia do casulo: a posse do amigão André Mendonça no STF nesta semana, a votação do Orçamento, a conclusão da PEC dos Precatórios, o abafa das investigações contra o filho Flávio.

Bolsonaro está riscando essas datas no calendário como presos fazem marcas na parede à espera da soltura.

Tão logo ele colha o fruto de todas essas colheres de chá que lhe foram sendo dadas pelos próprios ministros dos tribunais superiores, por deputados e senadores da oposição, pelo TCU e por uma sociedade que parece disposta a esquecer em breve até os 616 mil mortos da pandemia, aí é melhor apertar o cinto. Cenas como as covardes agressões a jornalistas sob olhar aprovatório do presidente serão constantes e incentivadas. Com dinheiro ilimitado, tende a ser ainda mais fácil.


Esperar autocrítica de Guedes é acreditar em Papai Noel

 Bernardo Mello Franco

O Globo

 | Cristiano Mariz

O ministro Paulo Guedes em entrevista sobre o balanço de 2021 

Quando menos se espera, chega o Natal. E com ele, os inevitáveis balanços de fim de ano. Na sexta-feira, Paulo Guedes apresentou o seu. Vendeu um país imaginário, onde a economia decola e a democracia vive um momento de esplendor. “Se eu tivesse que fazer uma síntese de 2021, eu diria que o Brasil se reergueu”, proclamou o ministro. Era só o começo de uma sessão de duas horas e meia de autoelogios.

Com a economia em recessão técnica, Guedes fez mais um discurso triunfalista. “As previsões de que o Brasil ia dar errado falharam. O país está de pé”, disse. Ele insistiu na tese da retomada em V, que nunca se confirmou nos números oficiais. “A economia voltou em V. Não era um V de virtual”, garantiu. Na véspera da entrevista, o Banco Central reduziu para 1% a previsão de crescimento em 2022.

Apesar da carta branca para conduzir a economia, Guedes tentou terceirizar a culpa pela alta da inflação, pelo derretimento do real e pela volta da fome. Ele atribuiu a desvalorização da moeda à “politização” do debate econômico. “O dólar vê essa confusão toda, escuta esse barulho todo e fica nervoso”, teorizou.

Ao mencionar a fome, o ministro reclamou da imprensa. “A mídia tá dizendo: ‘Paulo Guedes empobreceu as pessoas, botou as pessoas para comer osso’. Pô, você contribuir para um país com pessoas que falsificam a realidade e te criminalizam... não é bom”, queixou-se.

Ele também criticou a pressão para descongelar os salários de servidores. Ao ser lembrado de que acabou de dar aval a um aumento para policiais, voltou a atacar o noticiário. Disse que só repassou um “pedido político” do presidente Jair Bolsonaro. “Aí a mídia diz que o Guedes está pedindo aumento. Estou fazendo um discurso público contra reajustes, não pedi isso”, alegou, falando de si na terceira pessoa.

Esperar autocrítica de Guedes é como acreditar em Papai Noel. Ainda assim, o ministro poderia ter mais respeito pela inteligência alheia. Em 2021, Bolsonaro ameaçou o Supremo, atacou o sistema eleitoral e ensaiou um golpe à luz do dia. No balanço do ano, o ministro disse que a preocupação com a escalada autoritária é coisa de quem vê “fantasmas”. “Surpreendemos o mundo com o funcionamento da nossa democracia”, discursou.

Questionado sobre a pandemia, Guedes disse confiar no ministro Marcelo Queiroga, porta-voz do negacionismo do chefe, e acusou a oposição de “usar cadáveres para fazer política”. Apesar das lamúrias, ele encerrou a entrevista sem ofender os funcionários públicos, a primeira-dama da França, as domésticas que deixaram de ir à Disney ou o filho do porteiro que sonhava com a universidade. Deve ter sido o espírito natalino.

O lobby do General Lexotan

Ameaçar a democracia e escancarar a Amazônia para o garimpo não são os únicos passatempos de Augusto Heleno, o General Lexotan. Nas horas vagas, ele também atua como pistolão em favor de amigos e assessores.

O ministro agora quer promover a embaixador um diplomata lotado em seu gabinete no Planalto. O lobby já foi registrado no protocolo do Itamaraty.

Em ofício timbrado, o general Carlos Penteado, secretário-executivo do GSI, disse que Alsina Junior é “amplamente conhecido e admirado pelas Forças Armadas”. E informou que Heleno vai procurar o chanceler Carlos França para reiterar o pedido pessoalmente.

A próxima rodada de promoção de diplomatas está marcada para janeiro.


2 em cada 3 dizem que Bolsonaro cuida mal do país; cresce temor com a fome

 Fábio Zanini

Folha de São Paulo

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

O presidente Jair Bolsonaro (PL) no Palácio do Planalto. 

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Dois terços dos brasileiros avaliam que o presidente Jair Bolsonaro (PL) cuida mal do país, segundo aponta pesquisa do instituto Datafolha.

Essa é a opinião de 65% dos entrevistados, contra 30% que acham que Bolsonaro cuida bem do Brasil. Não souberam responder 5% dos pesquisados.

A pesquisa foi realizada de 13 e 16 de dezembro com 3.666 pessoas, em 191 cidades. A margem de erro é de dois pontos para mais ou menos.

A opinião dos brasileiros sobre este tema espelha a avaliação geral que têm com relação ao desempenho de Bolsonaro, com grupos de maior renda e escolaridade fazendo um juízo mais positivo do presidente e o oposto ocorrendo entre os mais pobres e com menor grau de instrução.

No segmento mais pobre, dos que têm renda mensal de até dois salários mínimos, o percentual do que dizem que Bolsonaro cuida mal do Brasil vai a 70%.

No outro extremo, o grupo dos que têm renda mensal maior do que dez salários mínimos, 43% acham que o presidente cuida bem do país.

A pesquisa também confirma que um dos segmentos em que Bolsonaro desperta maior simpatia é o dos empresários, o único em que mais pessoas avaliam que ele cuida bem do país do que o inverso.

A avaliação positiva neste quesito é feita por 54% dos empresários entrevistados, contra 44% dos que acham que Bolsonaro não trata bem do Brasil.

Já para os desempregados que procuram emprego a opinião é radicalmente diferente, com 71% dizendo que Bolsonaro cuida mal do país e 27% avaliando que faz isso bem.

O Datafolha também perguntou na pesquisa qual a avaliação dos brasileiros sobre o principal problema hoje no país.

Assim como em levantamentos anteriores, a saúde foi apontada como a maior preocupação, para 24% dos entrevistados.

É uma situação de estabilidade dentro da margem de erro na comparação com a última pesquisa, de setembro, quando esse número era de 22%.

Historicamente, este é o tema que mais desperta ansiedade nos brasileiros, mesmo antes da pandemia. Em dezembro de 2019, pouco antes de a crise sanitária começar, a saúde já era apontada como o problema mais grave, para 19%.

Em seguida, o desemprego e a economia ficaram empatados em segundo lugar como a maior preocupação no país, com 14% e 12% respectivamente.

Uma das mudanças mais expressivas no rol de temores dos brasileiros ocorreu em relação à fome, considerado o maior problema para 8% dos entrevistados, número que vem crescendo, na esteira do aumento da inflação e do desemprego.

Há um ano, eram apenas 2% os que colocavam esse ponto como o de maior inquietude.

A fome aflige especialmente os mais velhos, vista como a principal preocupação por 12% dos que estão na faixa etária com mais de 60 anos de idade. Entre os aposentados, chega a 13%.

Em seguida no ranking das maiores preocupações registradas pelo Datafolha aparecem inflação e educação, ambas com 7%, corrupção (4%) e segurança (3%).

No caso da inflação, que se mantém no patamar anual de dois dígitos e não dá sinais de arrefecimento, é a maior causa de aflição para 11% dos que estão no grupo de menor instrução, aqueles que completaram apenas o ensino fundamental.

Isso provavelmente é reflexo do fato de que um dos principais componentes da alta de preços está no setor alimentar, o que atinge desproporcionalmente os de menor poder aquisitivo.


Inventar a própria roda

 Merval Pereira

O Globo

A falta de opções na disputa presidencial pode ser definida pela atual situação refletida nas pesquisas de opinião, especialmente as das empresas mais bem equipadas, IPEC ( ex-Ibope), e Datafolha. O brasileiro votou em Bolsonaro para tirar o PT, e está votando no ex-presidente Lula para para tirar Bolsonaro do governo. Não apareceu alternativa, a famosa terceira via, que permita acabar com esse jogo de empurra de um lado para outro, que acaba dando errado.

Sempre estamos escolhendo o “menos ruim”, que se revela posteriormente inevitavelmente ruim. Desde a redemocratização, só elegemos candidatos populistas, como Collor, Lula, Dilma, Bolsonaro. Com exceção do Plano Real que elegeu Fernando Henrique Cardoso, que não foi feito para ser populista, mas atingiu o bolso dos cidadãos ao conter a hiperinflação. Já havíamos tido uma experiência anterior com o Plano Cruzado, que, ao derrubar a inflação temporariamente, deu a vitória ao MDB de Sarney em todo o país.  

O diretor do DataFolha, Mauro Paulino, diz que o eleitor vota pragmaticamente, naquele que vai ajudá-lo no sofrido dia a dia. A prioridade do brasileiro médio é o bolso e a sobrevivência, e essa situação hoje está muito agravada. Cerca de 15 milhões de brasileiros estão desempregados, a inflação dos mais pobres já ultrapassa os 10% da inflação oficial, 27 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha de pobreza, cerca de 50 milhões são tecnicamente pobres, a fome nos dá diariamente exemplos terríveis de gente disputando ossos com resto de carne e famílias inteiras morando nas ruas das grandes cidades.

Num ambiente desses, mesmo que houvesse um grande político à disposição da terceira via, não há espaço para grandes discussões. A questão vira, para a maioria dos eleitores, “quem vai me ajudar", “quem pode me ajudar”, ou quem convence mais pessoas que é a solução milagrosa para resolver os problemas. Na campanha, existe um milagre prometido, hoje é o que leva Lula a poder vencer no primeiro turno: promessa de picanha e cerveja para todo mundo, a volta a um tempo que nunca houve.

Quando começa o governo, a realidade se impõe a essas promessas vãs, a esses sonhos de que uma pessoa só resolverá o problema do Brasil. Estamos numa situação muito complicada. Você elege qualquer um que venda ilusões, que consiga passar para a população uma expectativa de melhoria. Foi assim em 2018 com Bolsonaro, e está sendo assim em 2022 com Lula, que aparece como o grande salvador da Pátria. Não é à toa que o ex-juiz Sérgio Moro já está dando uma guinada em sua proposta de governo, pondo mais ênfase na criação de um projeto nacional contra a pobreza, deixando o combate à corrupção como necessário, mas não suficiente para governar o país de hoje, pois a emergência é outra.

Se o governo Bolsonaro seguisse os rumos que prometia, de apoio a políticas anti corrupção, não haveria clima no país para a reviravolta jurídica que beneficiou o ex-presidente Lula e todos os condenados pela Operação Lava Jato. Também não é por acaso que Lula busca o ex-tucano Geraldo Alckmim para vice, é um aceno para o eleitor de centro. Difícil vai ser Alckmim encontrar uma justificativa para passar por cima de seus discursos inflamados contra Lula e os corruptos do PT na campanha de 2016.

O Lula do primeiro governo, que levou tucanos para postos chaves como o Banco Central e outros do ministério da Fazenda, não é o verdadeiro Lula. O PT foi muito intolerante com todos os tucanos que estavam no governo Lula. Se Antonio Palocci não fosse tão forte politicamente na ocasião, tinham saído todos os tucanos que estavam lá ajudando a fazer um governo equilibrado financeiramente, que deu chance, num momento econômico bom do mundo, de Lula avançar nos programas sociais.

Quem será o petista que assegurará a Geraldo Alckmim um papel não decorativo num eventual governo Lula? Ele terá mandato, estará protegido, mas não será ouvido nem cheirado se a ala radical do petismo dominar o governo. Quando o PT resolveu fazer a sua política econômica, começou a derrocada que deu na tragédia do governo Dilma. O problema é que nunca há governos seguidos com uma política de estado. Cada um quer inventar sua própria roda.


Longa travessia

 Dorrit Harazim

O Globo

É raro um discurso de paraninfo entrar para a História. O de Joseph Brodsky, pronunciado num 18 de dezembro de 33 anos atrás para formandos da Universidade de Michigan, é uma dessas raridades. Fugindo do convencional roteiro de colorir o futuro que aguarda os jovens, o laureado poeta e ensaísta descreveu em tons pouco faiscantes o mundo adulto à espera dos alunos. Brodsky conhecia a vida: nascera na antiga União Soviética, fora condenado a trabalhos forçados com banimento de sua literatura, acusado de parasita social e posteriormente expulso do país. Num de seus ensaios mais pungentes (“A part of speech”, de 1977) descreveu como, gradualmente, perdeu cabelos, dentes, consoantes e verbos. Exilado nos Estados Unidos, teve de aprender a escrever e a ser em outra língua. Fez da dura travessia uma continuidade existencial. Mas conseguiu, a ponto de receber o Nobel de Literatura em 1987.

Naquele dezembro de 1988, falou sobre tempo e vida aos formandos de Ann Arbor. Em tradução livre, o parágrafo abaixo dá o tom do que Brodsky se preocupou em dizer:

— O mundo que vocês haverão de adentrar, e em que passarão a existir, não tem boa reputação. Seu desempenho geográfico tem sido melhor que o histórico; ele continua a ser muito mais atraente visualmente que do ponto de vista social. Vocês haverão de descobrir que tampouco o mundo é um lugar propriamente acolhedor; e tenho dúvidas de que será muito melhor quando vocês o deixarem. Ainda assim, é o único disponível, não existe alternativa... Lá fora é uma selva, também um deserto, um precipício escorregadio e um atoleiro — tanto no sentido literal quanto metafórico...

Brodsky recorre a outro poeta, Robert Frost, para indicar o caminho: “The only way out, always, is through” (a única saída, sempre, é através).

É o que se está fazendo no Brasil com assombroso estoicismo desde 2019, para conseguir atravessar o atoleiro bolsonarista. Tudo em nome de uma transição razoavelmente democrática e irrefutável com o resultado das urnas em 2022. Cada nova pesquisa de opinião aponta para uma clara repulsa nacional ao estilo selvagem, destrutivo, do presidente. A saída do atoleiro, contudo, está distante. Nos dez meses que faltam até o pleito, o amontoado de energúmenos que compõem o governo Bolsonaro ainda é capaz de gerar estragos múltiplos em série. Como se vê cotidianamente no assalto ao meio ambiente ou na mineração ilegal, no combate à vacina e ao bom senso da Anvisa, ou nos ataques à cultura e à imprensa, as porteiras continuam escancaradas. A questão é saber o que restará de pé até voltarmos a ser uma sociedade com algum prumo. Convém não esperar por soluções rápidas — em matéria de “mito”, o empulhador atual superou de longe outro inquilino do Alvorada, Fernando Collor de Mello, o “caçador de marajás” dos anos 90.

Diante do bolsonarismo sem freios, semana sim outra também, o país se acostumou a viver numa corda bamba entre o cinismo e a resignação. Assim como a esperança sem pensar crítico é mera ingenuidade, o pensar crítico sem esperança acaba desembocando em cinismo — e cinismo é do que o Brasil menos precisa, pois ele leva a um dar de ombros cúmplice àquilo que se está pretensamente condenando.

Tome-se como exemplo a cena dos funcionários e executivos da Caixa Econômica Federal fazendo flexões de braço sob comando do presidente da instituição, o bolsonarista voraz Pedro Duarte Guimarães. Microfone em mãos, de pé, o chefão fez contagem regressiva até dez enquanto seus subordinados arfavam no palco, e a plateia parecia achar graça. Era uma comemoração de fim de ano, e Guimarães complementou sua porção MC pedindo aos selecionados que também tentassem fazer “estrelinha”. Houve quem tentasse. Houve quem se esborrachasse. Qual a graça? Para o presidente da Caixa, agradar ao capitão Jair Bolsonaro, que adora testar virilidades em sessões de flexões.

De resto, a cena filmada pareceu não agradar a ninguém. Ainda assim, pelo que se viu, nenhum dos protagonistas involuntários refutou a ordem — é a resignação de quem não vê saída ou teme a companhia do desemprego. Segundo reportagem de Geralda Doca e Marcello Corrêa, Pedro Guimarães é conhecido por ter afastado uma batelada inteira de funcionários que ocupavam cargos em governos anteriores.

Para empreender a tenaz travessia recomendada por Brodsky, sem cinismo, cada um precisa escolher se quer desarrumar o mundo tal qual ele está ou se prefere fingir que dele não faz parte. Já ficou claro demais que o presidente se alimenta de crises fabricadas em busca de escape das crises reais. Ao contrário do ex-secretário de Estado Henry Kissinger, a quem é atribuído o bordão “Fica proibido novo abismo — minha agenda já está lotada”, Jair Bolsonaro pretende se reeleger em meio ao pântano que criou. A ver. Como exercício futurista, vale a pena acompanhar o resultado das eleições chilenas deste domingo.


Os piores anos das nossas vidas

 Marco Antonio Villa

Revista ISTOÉ

O pesadelo que estamos vivendo é produto da nossa história política. Bolsonaro não é um acidente, um acaso ou um fenômeno da natureza

É difícil supor que alguém tenha previsto, em 1º de janeiro de 2019, que teríamos três anos terríveis, os piores da história republicana. Imaginava-se que o Bolsonaro faria um governo ruim. Afinal, seria um milagre se aquele deputado do baixo clero, que, em momento algum (e foram 28 anos!), tinha se destacado pelo entendimento das complexas questões de Estado tivesse subitamente se convertido em um bom governante. Mas o pesadelo que estamos vivendo, com acontecimentos diários que nos envergonham no concerto das nações, ah, com a mais absoluta certeza nem o mais pessimista dos analistas poderia supor.

Os anos da presidência Bolsonaro serão eternamente lembrados como o ponto mais baixo, mais vil, da nossa história. Porque além do presidente da República ter desempenhado o papel de inimigo da Constituição e dos valores humanistas da nossa civilização, teve a companhia de milhares de brasileiros que o apoiaram na faina que espalhou a barbárie por todo o território nacional. E, vale destacar, não somente aqueles com precária formação escolar ou oportunistas políticos. Não! Teve a companhia de brasileiros com educação universitária que tiveram a possibilidade de externar seu ódio de classe, seu desprezo pelo povo brasileiro, pela nossa formação histórica. O que estava engasgado durante décadas foi expelido com satisfação, como um momento de gozo, uma espécie de libertação dos valores civilizatórios. Ao assumir a barbárie como visão de mundo, os bolsonaristas se reencontraram com os valores mais reacionários da história do Brasil.

O pesadelo que estamos vivendo é produto da nossa história política. Não é um acidente, um acaso ou uma manifestação de algum fenômeno da natureza como uma erupção vulcânica ou um tsunami. Teremos de fazer uma autocrítica do processo de redemocratização e, especialmente, dos 21 anos do condomínio PSDB-PT. Algo de errado — de muito errado — aconteceu.

A opção pela conciliação com o velho regime, concedendo aos egressos do passado antidemocrático posições de força no aparelho de Estado, acabou petrificando o processo de transição para a democracia. O novo foi impedido de nascer pelo velho, mais uma vez os fatores de conservação se sobrepujaram frente aos fatores de transformação.

A tarefa democrática e civilizatória para 2022 é de varrer o reacionarismo bolsonarista. A derrota dos extremistas nazifascistas é condição sine qua non para a preservação da democracia e dos valões consubstanciados na Constituição.


Lições de um profissional.

  Carlos Brickmann


Bolsonaro e Moro fazem o mesmo tipo de campanha: ambos falam para seus eleitores cativos. Os discursos de Bolsonaro são perfeitos para agradar os bolsomínions: ele continua combatendo vacinas e o uso de máscaras, e defendendo as cloroquinas da vida. Os de Moro são ótimos para os lavajatistas convencidos de que ele extirpará o maior problema do Brasil, a corrupção. Como explicar que entrou num Governo preocupado apenas em salvar a família do chefe? Nenhum dos dois fala em fome, salário e emprego.

Enquanto isso, Lula vai conquistando espaços. Vai para o Exterior e é bem recebido, enquanto Bolsonaro enfrenta resistências; diz-se de esquerda, sabendo que boa parte dos dirigentes da União Europeia se filia a partidos esquerdistas, e sem se dar ao trabalho de explicar que a esquerda em nosso continente nada tem a ver com socialistas, trabalhistas e social-democratas da Europa, mas está bem mais próxima de organizações criminosas como a Máfia e a N’Drangheta. Também não perde tempo falando mal da aparência das esposas dos dirigentes europeus. Apresenta-se como o reformista que vai lutar contra a fome. Amazônia? Isso é problema para Bolsonaro explicar.

E, no Brasil, sabendo que a esquerda é monopólio seu, convida Alckmin para vice. Se aceita ou não, tudo bem: ele tentou. E avança numa região que seria de Moro, a de centro-direita. Este colunista nunca votou nem votará em Lula. Mas é um prazer assistir à atuação de um profissional entre amadores.

O desempenho

Lula se dá ao luxo de defender a censura à imprensa (com o codinome de “controle social da mídia”, mas não ataca diretamente nenhum empresário do setor. Controlar, sim. Destruir, não. Não há ameaças de fechar a Globo, ou bobagens desse tipo. Como Bolsonaro, Lula mente: diz que sofreu com processos injustos mas foi inocentado. Não foi: livrou-se das acusações por questões processuais, mas as acusações existem. Só que, com a demora da Justiça, dificilmente haverá tempo para que seja condenado de novo. Parte significativa da população está convencida de que ele se livrou por ser mesmo inocente. Já Bolsonaro periodicamente inventa coisas sobre covid, ou diz coisas que serão desmentidas em seguida sobre a Amazônia. E Lula, veja, não se move para conquistar o Centrão. Ele sabe que isso não lhe daria votos. E, ganhando a eleição, o Centrão cairá no seu colo, pronto para votar com o Governo, cheio de amor. Carinho para dar e vender.

Fazendo inimigos

Bolsonaro detesta a Globo e já anunciou que vai endurecer na hora de renovar as concessões. Não consta que tenha o mesmo ódio pelo SBT. Mas, no último fim de semana, seus seguranças e bolsomínions agrediram não só repórteres da Globo, mas também do SBT – e seu homem de comunicações, Fábio Faria, é casado com uma das filhas de Sílvio Santos. Foi na sua frente, mas Bolsonaro, impassível, assistiu às agressões. O espancamento não poupou as mulheres – como já tinha ocorrido em 31 de outubro, quando a repórter Ana Estela de Souza Pinto, da Folha de S.Paulo, foi agredida em Roma por alguns dos jagunços que acompanhavam o presidente. Em termos pessoais, talvez o presidente até goste desse tipo de cena, vingança contra os jornalistas que não seguem seu catecismo. Mas em campanha? Bolsonaristas que sejam, quantas pessoas ficam felizes ao ver que homens pesadamente armados, adestrados em artes marciais, não hesitam em agredir mulheres?

Um manda, outros obedecem

O ministro da Infraestrutura de Bolsonaro, Tarcísio Gomes de Freitas, deve se candidatar ao Governo de São Paulo. Sua explicação – ele não é de São Paulo, não morou em São Paulo, não conhece São Paulo – lembra a do ministro da Saúde, general Pazuello, que Bolsonaro chama de “nosso gordinho”: “O presidente quer, então serei candidato ao Governo paulista”.

Tarcísio confirmou sua candidatura na festança de fim de ano oferecida pela ministra Flávia Arruda, e foi incentivado pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que garantiu que acredita no seu sucesso.

Divertindo-se

Campos Neto deve ter herdado do avô, que foi ministro do Planejamento, a capacidade de manter a aparência séria enquanto dá risadas por dentro.

Estudos paulistas

Tarcísio Gomes de Freitas é carioca, fez carreira militar na Marinha e se reformou como capitão. Daí em diante, fez a vida em Brasília: antes de ser o fiel bolsonarista que é hoje, foi chefe do DNIT, Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, nomeado pelo Governo Dilma. Já disseram a Bolsonaro que Tarcísio, profundo desconhecedor de São Paulo, será esmagado nos debates. Mas o ministro é estudioso: dentro de pouco tempo saberá ao menos qual é a capital do Estado que pretende governar, descobrirá que o Aeroporto de Viracopos não foi batizado em homenagem ao adversário e terá decorado direitinho o nome do Aeroporto das Cegonhas.

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A nova encrenca de Bolsonaro na disputa pela reeleição

 José Casado 

Veja online

Na tentativa de premiar eleitores militares e policiais federais, provocou a insatisfação dos demais servidores que também querem aumento de salários

 Jair Bolsonaro — Evaristo Sa/AFP

Jair Bolsonaro arrumou uma nova encrenca na disputa pela reeleição. E é das boas.

Vai enfrentar a insatisfação do milhão de servidores federais, já em mobilização sindical , que se consideram sob discriminação salarial do governo, em comparação a militares e policiais federais.

O serviço público, de maneira geral, ficou em posição privilegiada em relação ao setor privado, onde a pandemia e o processo recessivo deixaram mais precárias as condições contratuais, o desemprego aumentou e os salários entraram em queda livre.

Mesmo assim, Bolsonaro achou boa ideia aumentar salários de um segmento do aparato de segurança pública, o de policiais federais e agentes do Departamento Penitenciário Nacional.

Havia estabelecido um precedente, em 2019, ao dar reajuste às Forças Armadas, em parcelas que se estendem até o primeiro semestre de 2023. Na sequência, em 2020, obteve do Congresso aumento para os policiais civis, militares e bombeiros do Distrito Federal, que são pagos pela União.

São grupos profissionais onde fez campanha durante três décadas como deputado federal e que, em 2018, teve peso específico na sua eleição.

O balão do reajuste dos agentes federais foi inflado por Anderson Torres, ministro da Justiça, um delegado da Polícia Federal que  tem frequentado listas de candidatos bolsonaristas a uma cadeira de deputado pelo DF.

Precisavam arranjar R$ 2,9 bilhões dentro do Orçamento de 2022. Não havia dinheiro disponível. Bolsonaro mandou o Ministério da Economia se virar.

Na semana passada, Paulo Guedes fez um apelo, por escrito, à Comissão Mista de Orçamento. Foi a contragosto, registrou em público, mais tarde. Em seguida, Bolsonaro telefonou para alguns parlamentares.

A comissão do Congresso autorizou R$ 1,7 bilhão — ou seja, deu 41% a menos do que o governo havia pedido. Foi além: mandou a Economia arranjar esse dinheiro dentro do próprio orçamento.

Bolsonaro e Torres podem não ter ficado felizes, mas conseguiram parte do que desejavam. Têm chance de obter R$ 1,2 bilhão que faltam com cortes adicionais em  outros ministérios, ou por aumento de arrecadação.

Em contrapartida, incendiaram as demais áreas do funcionalismo, sem salários reajustados desde 2019. Podem continuar assim até 2023 por causa dos limites constitucionais para gastos com pessoal.

Indícios de rebeldia já são evidentes em segmentos mais organizados do serviço público, como a Receita Federal e o Banco Central, que abrigam fatias da elite dos servidores federais.

O candidato Bolsonaro se meteu numa enrascada que o presidente não pode resolver.

No limite, se houver reação dos servidores, o governo imagina recorrer aos líderes do Centrão para “construir uma saída constitucional” que permita a expansão dos gastos com pessoal. Só aconteceria na reabertura do Congresso, em fevereiro. Nesse cenário, tentaria uma reprise da tática do “jeitinho” aplicada no calote nas dívidas judiciais (precatórios).

É operação política difícil, mas o que menos preocupa Bolsonaro na luta pelo poder, hoje, é o tamanho da conta a ser paga pela sociedade no próximo governo, qualquer que seja o eleito.


O conto das privatizações

 Editorial

 O Estado de São Paulo

Em mais um sinal do fracasso e do improviso do governo, o presidente Jair Bolsonaro editou decreto para formalizar a retirada da Casa da Moeda do Programa Nacional de Desestatização (PND). A condução do processo relacionado à empresa é exemplar sobre como proceder para não privatizar uma estatal. A Casa da Moeda foi incluída no PND em uma decisão atabalhoada anunciada em agosto de 2019. De maneira simbólica, 17 companhias – número do antigo partido de Bolsonaro – foram escolhidas para serem vendidas ou extintas de uma só vez.

Oficialmente criada em 1973, embora sua história remonte aos tempos do Império, a Casa da Moeda é a única empresa autorizada a fabricar papel-moeda e passaportes no País. Para que fosse privatizada, portanto, seria necessário, primeiro, estudar de que forma esses itens continuariam a ser impressos por outras gráficas no futuro – o que não foi feito, mas não impediu seu ingresso no programa. A medida provisória que retirava esse caráter de exclusividade foi editada em novembro de 2019 e, diante da resistência dos parlamentares ao assunto, perdeu validade em 15 de abril do ano passado.

Este jornal defende a privatização de estatais e sempre cobrou do Estado que priorize suas verbas e atuação em áreas como saúde, segurança, educação e políticas sociais. Para que os processos sejam bem-sucedidos, no entanto, é preciso mais do que palavras e intenções. 

Ainda na campanha presidencial, o então futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, prometia vender ativos da União estimados em R$ 1 trilhão para reduzir a dívida – agora, o objetivo é arrecadar recursos para combater a miséria. Seria bom apresentar resultados antes de renovar a aposta, uma vez que o saldo de privatizações de estatais federais sob controle da União, até agora, é negativo: duas novas foram criadas e nenhuma foi vendida.

Em seus discursos, Guedes costuma se eximir da responsabilidade por não ter conseguido avançar com sua agenda no Congresso. Diz que quem comanda o ritmo das reformas é a política, como se não fosse do governo a tarefa de formar maioria e fazer a articulação.

Somente a privatização da Eletrobras foi aprovada, a um custo da ordem de R$ 84 bilhões para todos os consumidores em razão dos inúmeros jabutis que integraram a proposta. Tivesse o governo se concentrado nessa empresa desde o início, talvez o balanço final fosse outro, digno de elogio.

Fica como lição para o próximo governo: privatização é um processo que leva tempo e precisa de foco. Incluir tantas estatais de uma só vez no programa somente serviu para reunir resistências, inclusive dentro dos próprios ministérios.

No caso da Casa da Moeda, basicamente uma gráfica federal cuja venda estava longe de ser prioritária, havia temor, por parte do Ministério da Justiça, de aumento da falsificação dos passaportes. A Receita Federal também tinha suas reservas em razão dos selos fiscais emitidos para produtos como cigarros e bebidas, também alvo de fraudes. Alguém acha que valeu a pena comprar essa briga? 


“O atraso rondou nossas vidas ameaçadoramente”, diz Barroso. (E ainda continua rondando).

 Paulo Roberto Netto

Poder 360 

 

O presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministro Roberto Barroso

O presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministro Roberto Barroso, afirmou nesta 6ª feira (17.dez.2021) que a democracia brasileira “viveu momentos graves” em 2021. Sem citar o presidente Jair Bolsonaro (PL), Barroso afirmou que o Judiciário enfrentou ameaças de fechamento, de descumprimento de decisões e desfile de tanques na Praça dos 3 Poderes.

“O atraso rondou nossas vidas ameaçadoramente”, disse Barroso, ao encerrar os trabalhos da Corte Eleitoral. “Nesse ambiente, o debate publico foi dominado muitas vezes pela mentira, pela desinformação e pelo ódio. Um triste discurso divisivo de nós contra eles em lugar do patriotismo inclusivo”.

Barroso afirmou que a Justiça Eleitoral sofreu com ataques e acusações falsas de fraudes nas eleições, o que classificou como “esforço para trazer descrédito para a democracia”. Segundo o presidente do TSE, houve uma “absurda campanha” que defendeu a retomada do voto impresso.

“De novo, uma aposta no atraso. Uma volta ao tempo de fraudes em que urnas desapareciam e outras apareciam com mais votos do que eleitores e mapas eram manipulados em favor de gente desonesta”, disse o ministro.

A proposta do voto impresso foi uma das principais bandeiras de Bolsonaro para as eleições de 2022 e ponto de atrito entre o presidente e Barroso ao longo do ano. Em agosto, a Câmara dos Deputados rejeitou a mudança.

Segundo Barroso, apesar de a proposta ter sido arquivada, o TSE dispensou “imensa energia debatendo as questões erradas”, quando deveria se debruçar sobre temas como democratização dos partidos, maior participação feminina nas legendas e novos critérios de fiscalização do Fundo Eleitoral.

“E no entanto, tivemos que discutir se devíamos retroceder do digital ao analógico, do computador para a caneta. Eu espero que essa seja uma página virada na história eleitoral brasileira e que não haja novos esforços para descredibilizar o sistema que tem assegurado a integridade da democracia brasileira desde 1996″, disse Barroso.

O presidente do TSE entra oficialmente em suas últimas semanas à frente da Corte Eleitoral. Nesta 6ª feira (17.dez), o plenário elegeu Edson Fachin para suceder Barroso na presidência do tribunal. O vice-presidente será Alexandre de Moraes. A posse de Fachin está prevista para 22 de fevereiro de 2022 e o seu mandato irá até agosto do mesmo ano.


Bolsonaro diz que foi ‘azar’ ter chegado ao Planalto (azar do Brasil, né Bolsonaro?

 Robson Bonin 

Veja online

Ele se filiou ao PL de Valdemar Costa Neto para continuar tendo má sorte em 2022 -- Moro, Doria e outros nomes da terceira via vão tentar aliviá-lo

  Dieter Gross/iShoot/Futura Press 

Presidente reclamou que trabalha demais no cargo 

Jair Bolsonaro discursou na cerimônia do Planalto em que o governo lançou o programa para reduzir violência nas estradas. O presidente, que declarou guerra aos radares de velocidade — um elemento que combate justamente as mortes e acidentes –, disse que foi “azar” ter sido eleito presidente da República.

Ele se filiou ao PL de Valdemar Costa Neto para continuar tendo má sorte em 2022. Muitos nomes da terceira via vão tentar aliviar o capitã nas urnas e mandá-lo para casa no próximo ano.

“Vou ter dois períodos de folga nesse ano. Cinco dias no Natal e cinco dias depois. A missão eu fui atrás dela porque quis. Fui candidato porque quis. Dei azar e ganhei”, disse o presidente apagando de 2021 todos os inúmeros passeios, festas e churrascos de sua agenda recreativa no Planalto.

Muitos bolsonaristas arrependidos, que estão migrando para Sergio Moro, João Doria e outros nomes de centro concordam o “azar” de 2018. Cartas para a redação.


"É preciso derrubar o muro que impede acesso à universidade"

Vinícius De Andrade, ColunaVozes da Educação

Deutsche Welle

Muitos jovens da periferia têm interesse em fazer faculdade, mas não fazem ideia de como ingressar na universidade. Fundador conta como uma iniciativa voluntária começou a mudar essa realidade.

 Foto: Divulgação/Salvaguarda

O que motivou uma pessoa como eu, morador do bairro com mais favelas da minha cidade, a ingressar no curso de Economia de uma das universidades mais elitistas do país? Bom, certamente não foi a proximidade que tive, ao longo de minha vida, do ensino superior, pois, na verdade, não tive proximidade alguma. Pensando agora, o incentivo inicial não foi ingressar em uma universidade, mas tentar um caminho diferente de todos ao meu redor, na esperança de resultados diferentes e uma vida de mais possibilidades.

Terminei o ensino médio em 2012 e durante os dois anos seguintes estudei para vestibulares. Nesse tempo, tive o privilégio de ter acesso a informações que, infelizmente, minhas irmãs, pais e vizinhos não tiveram. Por outro lado, também sofri por trilhar um caminho desconhecido por todos ao meu redor. Lembro-me de inúmeras vezes em que fui chamado de vagabundo e questionado sobre a razão de não estar trabalhando, apenas estudando. Lembro-me também de outras vezes que ouvi que a universidade era apenas para ricos e eu era arrogante e metido apenas por estar tentando entrar em uma. Hoje, entendo que as pessoas que me diziam aquilo, em algum nível, diziam por medo. Medo de um caminho que nunca tiveram a oportunidade de começar. Medo do desconhecido, pois, para elas, a representação da segurança era o holerite no final do mês, garantindo que teriam comida na mesa. E isso eu não tinha.

Ingressei na USP, campus de Ribeirão Preto, em 2015 e fiquei impressionado com a incrível estrutura e com a clara diferença financeira entre mim e a grande maioria dos meus colegas de turma. Muitos já haviam conhecido outros países, enquanto eu, só para ir ao cinema e comer um lanche, precisava me planejar, e muito. Quando estava no meu bairro, via pobreza e desigualdade. Chegava à universidade e parecia uma cidade dentro da minha cidade. O choque entre esses dois mundos me incomodou muito: estava em um ambiente de estrutura incrível e não era necessário pagar mensalidade para estudar lá. Assim, eu me questionava: por que minhas irmãs e vizinhos não estão aqui também?

Uma pesquisa para abrir os olhos

Para responder a essa pergunta eu fiz duas pesquisas com alunos do último ano do ensino médio da rede pública: uma regional, em 2016, e outra nacional, em 2017. Os dados me mostraram que há, sim, interesse em estudar em uma universidade, mas as pessoas não fazem ideia de como ingressar. A informação tornou-se um privilégio, e a falta dela constrói o muro que afasta os alunos da rede pública de universidades públicas.

Na tentativa de desconstruir esse muro com informação, nasceu em 2017 o Salvaguarda, um programa social sem vínculo governamental e constituído inteiramente por trabalho voluntário. Desde então, trabalho todos os dias e vivo uma incrível e desafiadora jornada de construir e manter uma grande e articulada organização social e voluntária dentro de uma sociedade capitalista.

Para isso, tenho e tive o apoio de pessoas incríveis, especialmente a Hariff, que conheci um dia por acaso na universidade, antes mesmo do Salvaguarda existir, e tive uma grande intuição de que ela era incrível. Convidei-a para a primeira visita em uma escola e fiquei impressionado com sua habilidade de fazer experiências pessoais virarem discurso. Os alunos a amaram, pois se identificaram com ela. Era de outro bairro periférico da cidade e fazia psicologia na USP. Assim, nascia uma incrível relação entre nós, que se mantém até hoje, e ela continua sendo uma agente importante na construção do Salvaguarda.

Auxílio a 25 mil jovens em todo o país

Os voluntários do programa, assim como eu, acreditam que seja possível mudar o país através da educação. Graças a eles, hoje, aquela iniciativa que começou auxiliando 1.375 alunos da região e tinha uma rede de cerca de 100 voluntários se tornou nacional e o maior programa de auxílio para alunos da rede pública no país. Neste ano, temos voluntários em todas as universidades públicas do país e capacidade para auxiliar mais de 25 mil estudantes de todas as regiões.

Na coluna Vozes da Educação vamos contar como construímos o nosso sonho, que é alcançar todos os alunos da rede pública do país. Este é o texto de estreia da coluna quinzenal. Ela intercalará textos meus e de estudantes do ensino médio, um de cada estado. Eles têm muito o que dizer, e este espaço é uma oportunidade de ampliar suas vozes e aproximar os leitores da realidade desses jovens. Afinal, quem melhor para falar sobre eles do que os próprios?

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Vozes da Educação é uma coluna quinzenal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius de Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do Salvaguarda no Instagram em @salvaguarda1

Vinícius De Andrade 

Fundador do programa Salvaguarda



Muito além das aulas de reforço

 Angela Dannemann

O Estado de São Paulo

Com o retorno obrigatório das aulas presenciais na maioria das redes de ensino do Brasil, garantir aprendizagem adequada para todos os estudantes, depois de quase dois anos de escolas fechadas, é urgente. O cenário imposto pela pandemia aprofundou ainda mais as desigualdades, mesmo quando houve ensino remoto adequado. Porém, não podemos subestimar a complexidade da tarefa. O reforço escolar é a estratégia mais falada do momento, mas não é a única. Para impedir o crescimento deste abismo, precisamos de um olhar sistêmico para o problema – chega de balas de prata na educação.

Estamos falando de uma exclusão escolar estimada em 5 milhões de crianças, conforme levantamento do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em parceria com o Cenpec Educação. As meninas foram as mais prejudicadas com o fechamento das escolas. Estudo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) aponta que elas foram mais afetadas pela exclusão digital e pelas demandas domésticas, além de relatarem mais estresse, ansiedade e depressão do que os meninos. Temos de lembrar, também, o grave momento de insegurança alimentar ao qual muitas famílias ainda estão submetidas, além das muitas crianças que perderam os pais e ficaram órfãs durante a pandemia.

O primeiro passo para o enfrentamento desta exclusão é a busca ativa escolar, uma estratégia que identifica estudantes em risco de abandono ou que estão fora da escola para reinseri-los no cenário escolar. Em Paulista, cidade localizada na região metropolitana do Recife, a implementação da busca ativa contou com o envolvimento de outras secretarias do município, entre elas a de Saúde. Mais de 600 agentes comunitários ajudaram a identificar os estudantes em risco de abandono ou evasão escolar. Assim como este município pernambucano, 60% das redes municipais de todo o País já estão priorizando a busca ativa, segundo a mais recente pesquisa da União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime).

Trazer os estudantes de volta para a escola é tão importante quanto mantê-los nela. Sabemos que, em 2020, 75% dos estudantes estavam tristes, ansiosos ou irritados (Pesquisa Itaú Social, Fundação Lemann e Imaginable Futures). Por isso, precisamos considerar o acolhimento socioemocional deles, assim como de professores e demais profissionais da escola.

Na sequência, outro passo extremamente importante é a avaliação. O Brasil todo se prepara para o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), aplicado num momento de extrema relevância, para termos um retrato do desempenho e dos resultados da educação durante a pandemia. Esta edição irá gerar muita aprendizagem e subsídios para futuras estratégias das redes com foco no desempenho.

Independentemente do Saeb, as redes precisam implementar avaliações diagnósticas para identificar lacunas de aprendizagem dos estudantes no retorno e, a partir delas, elaborar seu planejamento pedagógico. Ferramentas como os Mapas de Foco da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) apoiam a necessária flexibilização curricular, chave para encararmos um ano letivo desafiador, que precisa seguir e também suprir as lacunas de aprendizagem decorrentes do período em que as escolas estavam fechadas.

No entanto, é impossível compensar toda a perda com a carga horária de antes da pandemia. Além dos esforços de ampliação de jornada nas escolas, o ensino híbrido é um caminho possível, desde que todos os estudantes tenham infraestrutura e equipamentos adequados de conectividade e aprendizagem.

Uma escola com estrutura adequada precisa ter computadores e conexão com velocidade acima de 20 Mbps (velocidade razoável para aprendizagem) para receber crianças e adolescentes no contraturno escolar, visando a recompor as aprendizagens perdidas. Professores tutores também são fundamentais para orientar essas turmas em todas as etapas da escola, especialmente no Fundamental II.

A realidade brasileira nos mostra que poucas escolas têm essas condições de espaço físico e infraestrutura, tampouco colaboradores suficientes para essa tarefa – o modelo escolar brasileiro funciona em dois ou mais turnos, ao contrário dos demais países do mundo. Parcerias com organizações sociais e outros espaços públicos no território devem ser articuladas com o apoio de mediadores\/educadores dessas instituições, como ocorre em países como a Alemanha e a Colômbia, em localidades onde a comunidade precisa atuar na melhoria da aprendizagem de suas crianças.

O acompanhamento pedagógico para garantir a aprendizagem dos estudantes deve ser adotado como política nas redes de ensino brasileiras, de forma a mitigar o grande número de estudantes que não aprenderam o esperado para sua idade, desafio que antecede a pandemia. Todas essas ações devem estar afinadas num só propósito: promover a equidade na educação. Não há qualidade em uma rede, em uma escola, sem equidade.

*É SUPERINTENDENTE DO ITAÚ SOCIAL


O Fies saqueou a bolsa da Viúva

 Elio Gaspari

O Globo

Lula e Bolsonaro sinalizam um mau debate

 

O professor Mário Henrique Simonsen ensinava: se for bem enunciado, o problema mais difícil do mundo um dia será resolvido. Mal enunciado, o problema mais fácil do mundo jamais será resolvido.

Lula e Bolsonaro meteram-se na discussão do calote do Fundo de Financiamento Estudantil, o Fies. Na teoria, ele custearia as anuidades de jovens universitários que cursavam a rede privada de ensino. Na prática, desde 2011 virou um mecanismo que permitiu a transferência do risco da inadimplência para a conta da Viúva. Atendeu 3,4 milhões de jovens e tem a receber R$ 123 bilhões, ervanário superior ao déficit da União neste ano. Desse valor, R$ 27,9 bilhões foram contabilizados como ajustes para perdas.

Lula promete anistiar os devedores. Bolsonaro rebate: “Por que não fez lá atrás, pô? Está aí de sacanagem”. Noves fora a linguagem, quem abriu a porteira não foi Lula, mas Dilma Rousseff. O capitão correu atrás e agora oferece uma renegociação dessas dívidas. Está no seu terceiro ano de governo e ainda não apresentou um programa que faça sentido. Há pouco, mimou as universidades privadas, aninhando-as no ProUni.

O Fies foi um jabuti financeiro disfarçado de girafa social. Só enganou quem jamais havia visto qualquer dos dois bichos. Enunciava mal o problema do jovem que entra para uma faculdade e não tem recursos para pagar as anuidades, resolvendo de maneira ampla, geral e irrestrita a questão do faturamento das faculdades privadas. Era um empréstimo que desprezava a figura do fiador. Pior, dava bolsas até mesmo a estudantes que haviam tirado zero em provas do Enem. Durante sua breve passagem pelo Ministério da Educação, Cid Gomes quis pôr ordem nessa bagunça, e o presidente da guilda das escolas privadas atacou-o: “O governo fez uma cagada. (...) O ministro não é do ramo”.

Bem enunciado, o problema do financiamento dos estudantes é administrado a duras penas nos Estados Unidos. Lá, o jovem Barack Obama só quitou sua conta com Harvard muitos anos depois, quando era senador. Do jeito que vão as coisas em Pindorama, o problema continuará aí. Lula justifica a anistia argumentando que há empresários caloteiros. Bolsonaro condena sua proposta falando numa renegociação que não começou. É bom lembrar que os donos de faculdades já receberam o seu, e não há como pegar de volta a anuidade de um aluno que tirou zero na prova de redação e nunca pensou em pagar o que devia. No auge da festa, as faculdades estimulavam a migração dos alunos para a bolsa da Viúva. 

Lula e Bolsonaro não se mostraram dispostos a expor o essencial: a privatização do dinheiro público num programa condenado ao calote e ao enriquecimento de empresários espertos. O capitão baixou o nível de uma discussão mal posta e insultou o adversário. Esse é seu estilo, e vai piorar.

O economista Paulo Guedes sabia do que falava quando denunciava as “criaturas do pântano político, piratas privados e burocratas corruptos, associados na pilhagem do Estado”. Há quatro meses ele estuda uma anistia parcial, associada à renegociação. Falta mostrar quem foram os piratas privados, que se associaram a burocratas enganadores usando o nome da garotada para pilhar a Viúva.

O caso do Fies é uma batalha perdida. Visitá-lo serve para apontar o mau caminho que começa a tomar o debate da sucessão presidencial.


É impossível e até vergonhoso comparar a qualidade do ensino na Noruega e no Brasil

 José Renato Nalini, Estadão

Tribuna da Internet

 Charge do Genildo (Arquivo Google)


Nenhuma a possibilidade de comparação entre a educação da Noruega e a do Brasil. Sempre existe aquela explicação: país com população menor, outra cultura, outro clima, outra história, outro caráter etc. Todavia, seja permitido lembrar que a escola norueguesa deve servir de inspiração para aqueles que continuam inconformados com a insuficiência da educação pública tupiniquim.

É uma constante a constatação de que a Noruega está no topo do ranking de IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, resultante de análise de cento e oitenta e oito nações, quanto a parâmetros de expectativa de vida e educação.

DIREITOS IGUAIS – Ali, não apenas se prega, mas se concretiza a regra dos direitos iguais à educação para todos os membros da sociedade, independentemente de origens sociais, culturais ou lugar onde vivam.

Cabe à escola transmitir conhecimento/cultura e promover mobilidade social, base para a criação de riqueza e excelente convívio social para todos, sem exclusão.

Na Noruega, o ensino adapta-se às capacidades e aptidões de cada aluno, longe de adestrá-los como se fora uma única e homogênea massa de aprendizes. As crianças têm direito ao mínimo de dez anos de formação básica. Não há obrigatoriedade de Jardim da Infância, embora a regra seja o treino social a partir de um ano de idade. A escola oficial tem início aos seis anos e todos têm direito ao ensino secundário, enquanto escolas superiores e universidades são gratuitas e dispensam vestibular.

SEM REPROVAÇÃO – O ano letivo tem início em agosto e termina em junho. Todos os alunos passam automaticamente para a série seguinte, após as férias de verão. Não existe o instituto da repetição. Toda criança norueguesa tem cento e noventa dias letivos e educação obrigatória dos seis aos dezesseis anos.

Embora existam escolas particulares, apenas dois e meio por cento das crianças estão matriculadas nelas. O sistema escolar se divide em três partes: ensino fundamental, obrigatório dos seis aos treze anos; ensino secundário inferior, dos treze aos quinze anos e ensino secundário, dos dezesseis aos dezenove anos.

No ensino fundamental, a maior parte do tempo é dedicada a jogos educativos, com aprendizado focado em estruturas sociais, alfabeto, aritmética e habilidades básicas em inglês. Dos três aos oito anos, os educandos são apresentados à matemática, inglês, norueguês, ciência, religião – praticamente história das religiões, todas elas, sua origem e finalidade – estética e ginástica. O complemento é geografia, história e estudos sociais na quinta-série.

NÃO HÁ NOTAS  –  Não se usa o sistema de notas. Os testes aplicados recebem comentários e os alunos levam para casa, para mostrar aos pais. Existe a possibilidade de um teste introdutório, para que o professor avalie se o aluno está na média, acima dela ou necessita de algum auxílio para alcançar o restante da turma.

No ensino secundário inferior é que o aluno começa a receber notas por seu trabalho. A partir da oitava série, ele pode escolher uma disciplina eletiva, como alemão, francês e espanhol. No ensino secundário superior, comparável ao nosso Ensino Médio, os três anos de estudo opcional já treinam o estudante para o mercado de trabalho.

Esse projeto educacional data do medievo. A Noruega tornou-se arquidiocese no ano 1153 e as escolas catedrais foram construídas para educar sacerdotes em Trodheim, Oslo, Bergen e Hamar.

ESCOLA DO POVO – Após a Reforma Protestante em 1537, as escolas catedrais foram transformadas em escolas extensivas e obrigou-se a construção de escolas em todos os municípios. Em 1736, a formação em leitura se tornou obrigatória para todas as crianças e em 1827 adotou-se o modelo escola do povo, depois substituído pelo modelo Fundação Escola.

O Brasil deveria se aproximar da Noruega e estabelecer convênios para que estudantes brasileiros passassem uma temporada nas escolas norueguesas. Na década de sessenta, isso acontecia com os Estados Unidos.

O projeto AFS – American Field Service trazia jovens norte-americanos para um semestre no Brasil, hospedados em casas de família. O intercâmbio também levava jovens brasileiros para conhecer a realidade ianque, mediante permanência em casa de americanos.

LAÇOS DE AMIZADE – A experiência haurida nessas viagens era saudável. Nada como viver dentro de um lar, vivenciando a rotina familiar, impregnando-se da cultura local, dos costumes, do modo de vida, de uma rotina estrangeira. É uma fórmula fácil e pouco dispendiosa de se estabelecer relacionamento cordial e amistoso, estreitando os laços de amizade entre os países.

À falta de planos governamentais dessa ordem, nada impede que iniciativas individuais, ou de municipalidades, ou de organizações da sociedade civil se incumbam de estabelecer essa via diplomática informal.

A Noruega, assim como toda a Escandinávia, principalmente Dinamarca e Suécia, representam um ponto elevado na convivência e no nível civilizatório, tão diferente do nosso.


Perto de entrar em vigor, novo ensino médio esbarra em falta de estrutura

 Gabriel de Arruda Castro, 

Especial para a Gazeta do Povo

 Foto: Luis Fortes/MEC

Ministro da Educação, Milton Ribeiro, durante anúncio

 do cronograma do novo ensino médio.| 

Aprovado por lei em 2017, o novo ensino médio finalmente começará a ser implementado em todo o país no ano que vem. Pelo menos é o que assegura o Ministério da Educação (MEC). Há duas semanas, o órgão divulgou uma portaria estabelecendo o cronograma para a adoção do novo sistema, que aumenta a quantidade de aulas e introduz mais flexibilidade no currículo escolar.

De lá para cá, um pequeno número de escolas em todas as regiões do país recebeu projetos-piloto, como um teste para o novo modelo. Além disso, parte das escolas particulares aderiu às novas regras antes que elas fossem obrigatórias. Mas é só a partir do ano que vem que o novo ensino médio vai ser a regra –  ainda que apenas para os alunos do primeiro ano, já que a implementação do modelo será gradual. Em 2023, o segundo ano será incluído; em 2024, o terceiro.

A principal mudança do novo ensino médio é a flexibilidade curricular. No novo sistema, apenas 60% das aulas serão de disciplinas obrigatórias, comuns a todos os alunos. Os outros 40% serão preenchidos pelo chamado “itinerário formativo”. Isto significa que o estudante poderá escolher se aprofundar em um dos cinco campos listados pelo projeto: linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e, por fim, formação técnica e profissional.

As mudanças também incluem um aumento na carga horária: em vez de sete, os estudantes terão oito horas-aula por dia. O número de horas-aula anuais passará de 800 para 1.000.

A adoção do novo sistema exige o treinamento e contratação de professores – o que tem um custo financeiro significativo. Apenas no estado de São Paulo, será necessária a contratação de 10 mil professores, com um custo adicional de R$ 303 milhões no primeiro ano. O governo paulista estima que o aumento na folha de pagamento (incluindo o adicional pela quantidade maior de horas trabalhadas pelos professores que já estão na rede de ensino) será de R$ 250 milhões anuais.

Até agora, MEC aplicou cerca de R$ 70 milhões aos estados, como apoio ao processo de formação e treinamento dos docentes. Ainda segundo a pasta, quando levado em conta o projeto-piloto do novo modelo, já adotado em 4 mil escolas, o valor aplicado pelo governo federal na implantação do novo ensino médio sobe para R$ 360 milhões.

Durante o evento de anúncio do cronograma, o secretário de Educação Básica do Ministério da Educação, Mauro Rabelo, assegurou que a “mudança de chave” no ensino médio será benéfica para os alunos. "O novo ensino médio promoverá uma educação de qualidade, garantindo acesso e permanência na escola, ampliando as possibilidades de escolha dos jovens por meio da oferta de diferentes cursos formativos, incluindo a escolha por uma formação técnica e profissional”, resumiu.

CNE recomenda fusão de anos letivos de 2021 e 2022

Além de prestar apoio financeiro e pedagógico às secretarias de Educação, o Ministério da Educação lançou recentemente uma campanha publicitária para informar a população sobre as mudanças.

Estados se preparam

Como as novas regras foram aprovadas há quatro anos, boa parte das unidades da federação afirmam estar se preparando adequadamente para a adoção do novo currículo – mesmo antes da portaria do Ministério da Educação que detalhou o cronograma.

O governo de Minas Gerais informou à Gazeta do Povo que uma das etapas para a implementação do novo modelo, a homologação do Currículo de Referência pelos órgãos estaduais, ocorreu em abril deste ano. A Secretaria de Educação diz ainda que os professores estão passando por um processo de formação coordenado pela Escola de Formação e Desenvolvimento Profissional de Educadores de Minas Gerais. No Estado, 13 escolas participam de um projeto piloto já neste ano. Em Minas, o Conselho Estadual de Educação e a Secretaria de Educação ainda precisam estabelecer a chamada "normativa-mãe", que detalha as regras para a implementação do currículo no estado.

A Secretaria de Educação do Ceará também informou que “está em processo de elaboração do documento curricular relativo ao Novo Ensino Médio”. Lá, o governo também tem atuado para ampliar a oferta do ensino em tempo integral. Hoje, são 324 com jornada ampliada – incluindo 123 escolas de educação profissional. “A secretaria já vem proporcionando diversas oportunidades de aprendizagem, nas áreas do conhecimento e na formação profissional, com ampliação de carga horária e preparação dos jovens para o mundo do trabalho e para a construção de um projeto de vida, que convergem com as orientações do novo ensino médio”, afirma secretária executiva do Ensino Médio e Profissional, Jucineide Fernandes.

Mas o Estado mais avançado na implementação do novo ensino médio é São Paulo. Em 2021, os alunos do primeiro ano já ingressaram em uma rotina escolar semelhante à do novo modelo. Em 2022, os estudantes do segundo ano também passarão a integrar o sistema com aulas ampliadas e flexibilidade no currículo. Em breve, os alunos do primeiro ano vão ter de decidir suas opções para os itinerários formativos – que, no novo ensino médio, ganham mais peso a partir do segundo ano.

De acordo com Gustavo Mendonça, coordenador do novo ensino médio da Secretaria de Educação de São Paulo, o novo modelo trará benefícios aos alunos e tende a reduzir a evasão: "A principal vantagem é o aluno estar estudando mais tempo aquilo de que ele gosta mais. A gente espera que o novo ensino médio nos ajude a ter melhores índices de aprendizagem e uma redução na evasão. Se o aluno pode dedicar mais tempo para o que ele de fato gosta, ele vai ter menos aptidão para evadir antes", afirma.

Entretanto, mesmo com uma estrutura melhor do que a dos demais unidades da federação, o governo de São Paulo sabe que os cinco itinerários não estarão disponíveis em todas as escolas. Boa parte das unidades não têm condições de oferecer um curso técnico-profissionalizante – porque não têm estrutura física para tal, ou porque se localizam em cidades ou regiões com baixa demanda e número insuficiente de professores.

Hoje, 450 escolas de ensino médio paulistas já oferecem cursos técnicos e profissionalizantes em nove especialidades diferentes. Elas contemplam 12% dos alunos de ensino médio paulistas. A meta é chegar a 30% até 2023 e depois continuar expandindo até que a demanda seja devidamente atendida. “Nas pesquisas que a gente faz, perto de 50% dos alunos dizem que gostariam de cursar algo voltado para o mercado de trabalho”, explica Mendonça. Até lá, entretanto, há um longo caminho a percorrer. " A gente tem uma limitação de capacidade de ofertar em todas as escolas a formação técnica", reconhece o coordenador.

O estado do Paraná também busca forma de lidar com o problema da falta de infraestrutura e de material humano. Ao todo, 146 municípios do estado têm apenas uma turma de ensino médio, o que torna impraticável a criação de cursos profissionalizantes. E mesmo os demais itinerários ficariam prejudicados.

"A parte de infraestrutura é, de fato, o que mais pesa. O ensino médio implica uma possibilidade de escolha do estudante. Nós temos alguns gargalos, que são municípios que só têm uma escola, e a escola só tem uma turma. O desafio é esse: como dar a opção do estudante fazer sua escolha neste cenário", afirma Anderfabio dos Santos, chefe do Departamento de Desenvolvimento Curricular da Secretaria de Educação do Paraná. Uma das alternativas em análise é a junção de itinerários. As linguagens seriam ensinadas junto com as ciências humanas, e a matemática se juntaria às ciências da natureza. Nestes casos, a formação técnica e profissional provavelmente não seria oferecida.


A educação básica nos rincões do Sul do Brasil

 Mariely Da Silva Lima, ColunaVozes da Educação

Deutsche Welle

Diziam-me que segurar um lápis era mais fácil que segurar uma enxada. Mas como eu passaria? Não sabia inglês, não tinha dinheiro para cursinhos, e meu conhecimento de mundo era limitado a 32 hectares que nem eram nossos.

 Foto: Privat

Mariely, que passou parte da infância numa área rural, 

sonha em estudar Direito numa universidade federal do RS

Quando se pensa na região Sul do país, imagina-se um paraíso na terra, um lugar em que todos têm acesso a educação de qualidade. Mas existe uma realidade oculta para muitos, realidade essa que vivi na pele.

Aos dois anos de idade meus pais fizeram parte do Movimento sem Terra. Fomos alocados em uma área rural distante de tudo e todos. Iniciei a escola aos seis anos, e para chegar até ela éramos transportados em ônibus sucateados, com uma viagem estimada em duas horas de ida e duas horas de volta. Às vezes, o ônibus estragava no meio do caminho, e ficávamos horas esperando alguém nos socorrer. Já cheguei em casa perto do anoitecer e vi motoristas atravessando pontes alagadas sem conseguir enxergar direito. Mas não tinha o que fazer, esse era o único caminho para casa.

Na área rural, a vida é mais complicada em todos os aspectos. Minha escola era de turno integral e, por não ter salas suficientes para todos os alunos, a instituição precisava fazer um rodízio das classes. Alguns dias eram destinados ao fundamental 1 e outros, ao 2. Quando eu ficava em casa, precisava ajudar minha família em todas as atividades, como tirar leite, alimentar os animais, etc.

Escola rural versus urbana

Fui morar em Bento Gonçalves aos 11 anos, fascinada pela ideia do que era uma cidade. Entretanto, tivemos muitos problemas na adaptação. A escola me desmoronou. Logo que entrei, percebi que eles tinham inglês desde o primeiro ano, enquanto eu nunca tinha tido contato com a língua, e usavam uniformes caros. Me senti completamente deslocada. Falavam muito sobre "estudar, pois segurar um lápis era mais fácil que segurar uma enxada", mas segurar uma enxada nunca tinha sido problema para mim.

Desde muito nova, queria ser advogada, porque sempre acreditei que esses profissionais poderiam fazer diferença no mundo, só que era apenas um sonho infantil sem muito fundamento. Motivada pelas ilegalidades e golpes dentro do Movimento Sem Terra e com um grande anseio por mudança, me apaixonei pelo Direito. Meu único exemplo de vida e uma grande inspiração foi meu irmão mais velho, a primeira pessoa do meu meio a ingressar na faculdade pelo Prouni. Quando foi aprovado, eu senti que mesmo pessoas como nós (ignorantes, aos olhos de muitos) são capazes de alcançar um lugar dominado pela elite.

No entanto, muitas coisas não estavam ao meu alcance. Como eu passaria? Não sabia inglês básico, não tinha dinheiro para cursinhos, e meu conhecimento de mundo era limitado a 32 hectares que sequer eram nossos. Desanimei, não sabia como competir com todos ao meu redor.

Apoio da família para estudar

Aos 15 anos comecei a trabalhar como menor aprendiz e, com o dinheiro que recebia, paguei alguns cursinhos profissionalizantes. Aos 17, quando meu contrato acabou, tive uma conversa com o meu pai que fez com que eu decidisse me dedicar intensivamente a estudar durante meu último ano inteiro. Minha família me apoiou intensamente nesse processo, me deu suporte para ficar em casa apenas estudando. Mesmo não podendo me ajudar financeiramente, meus familiares me apoiaram emocionalmente e fizeram todo o esforço possível para que eu não trabalhasse, então me dediquei integralmente aos estudos. Nesse momento, o projeto Salvaguarda apareceu para mim, me deu absolutamente toda a assistência de que eu precisava.

Mas, então, veio a pandemia. Se já era difícil com a escola, imagine sem. Precisei me dividir entre fazer inúmeras tarefas escolares e estudar à tarde para o Enem. Durante o processo, tive muitas crises de ansiedade e pensei em desistir. Mas, apesar das dificuldades, sei que meu propósito é superior a todos os medos e angústias, então estudei arduamente durante todo 2020. Independentemente da nota, tenho muito orgulho da minha trajetória.

Definitivamente não é fácil viver à margem da sociedade. Não é legal receber a informação depois de todos, isso se tiver a sorte de realmente receber. Porém, eu tenho certeza de que propósitos movem o mundo e garanto que nunca desistirei de lutar pelo meu sonho.

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Vozes da Educação é uma coluna quinzenal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius de Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do Salvaguarda no Instagram em @salvaguarda1