domingo, dezembro 26, 2021

É impossível e até vergonhoso comparar a qualidade do ensino na Noruega e no Brasil

 José Renato Nalini, Estadão

Tribuna da Internet

 Charge do Genildo (Arquivo Google)


Nenhuma a possibilidade de comparação entre a educação da Noruega e a do Brasil. Sempre existe aquela explicação: país com população menor, outra cultura, outro clima, outra história, outro caráter etc. Todavia, seja permitido lembrar que a escola norueguesa deve servir de inspiração para aqueles que continuam inconformados com a insuficiência da educação pública tupiniquim.

É uma constante a constatação de que a Noruega está no topo do ranking de IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, resultante de análise de cento e oitenta e oito nações, quanto a parâmetros de expectativa de vida e educação.

DIREITOS IGUAIS – Ali, não apenas se prega, mas se concretiza a regra dos direitos iguais à educação para todos os membros da sociedade, independentemente de origens sociais, culturais ou lugar onde vivam.

Cabe à escola transmitir conhecimento/cultura e promover mobilidade social, base para a criação de riqueza e excelente convívio social para todos, sem exclusão.

Na Noruega, o ensino adapta-se às capacidades e aptidões de cada aluno, longe de adestrá-los como se fora uma única e homogênea massa de aprendizes. As crianças têm direito ao mínimo de dez anos de formação básica. Não há obrigatoriedade de Jardim da Infância, embora a regra seja o treino social a partir de um ano de idade. A escola oficial tem início aos seis anos e todos têm direito ao ensino secundário, enquanto escolas superiores e universidades são gratuitas e dispensam vestibular.

SEM REPROVAÇÃO – O ano letivo tem início em agosto e termina em junho. Todos os alunos passam automaticamente para a série seguinte, após as férias de verão. Não existe o instituto da repetição. Toda criança norueguesa tem cento e noventa dias letivos e educação obrigatória dos seis aos dezesseis anos.

Embora existam escolas particulares, apenas dois e meio por cento das crianças estão matriculadas nelas. O sistema escolar se divide em três partes: ensino fundamental, obrigatório dos seis aos treze anos; ensino secundário inferior, dos treze aos quinze anos e ensino secundário, dos dezesseis aos dezenove anos.

No ensino fundamental, a maior parte do tempo é dedicada a jogos educativos, com aprendizado focado em estruturas sociais, alfabeto, aritmética e habilidades básicas em inglês. Dos três aos oito anos, os educandos são apresentados à matemática, inglês, norueguês, ciência, religião – praticamente história das religiões, todas elas, sua origem e finalidade – estética e ginástica. O complemento é geografia, história e estudos sociais na quinta-série.

NÃO HÁ NOTAS  –  Não se usa o sistema de notas. Os testes aplicados recebem comentários e os alunos levam para casa, para mostrar aos pais. Existe a possibilidade de um teste introdutório, para que o professor avalie se o aluno está na média, acima dela ou necessita de algum auxílio para alcançar o restante da turma.

No ensino secundário inferior é que o aluno começa a receber notas por seu trabalho. A partir da oitava série, ele pode escolher uma disciplina eletiva, como alemão, francês e espanhol. No ensino secundário superior, comparável ao nosso Ensino Médio, os três anos de estudo opcional já treinam o estudante para o mercado de trabalho.

Esse projeto educacional data do medievo. A Noruega tornou-se arquidiocese no ano 1153 e as escolas catedrais foram construídas para educar sacerdotes em Trodheim, Oslo, Bergen e Hamar.

ESCOLA DO POVO – Após a Reforma Protestante em 1537, as escolas catedrais foram transformadas em escolas extensivas e obrigou-se a construção de escolas em todos os municípios. Em 1736, a formação em leitura se tornou obrigatória para todas as crianças e em 1827 adotou-se o modelo escola do povo, depois substituído pelo modelo Fundação Escola.

O Brasil deveria se aproximar da Noruega e estabelecer convênios para que estudantes brasileiros passassem uma temporada nas escolas norueguesas. Na década de sessenta, isso acontecia com os Estados Unidos.

O projeto AFS – American Field Service trazia jovens norte-americanos para um semestre no Brasil, hospedados em casas de família. O intercâmbio também levava jovens brasileiros para conhecer a realidade ianque, mediante permanência em casa de americanos.

LAÇOS DE AMIZADE – A experiência haurida nessas viagens era saudável. Nada como viver dentro de um lar, vivenciando a rotina familiar, impregnando-se da cultura local, dos costumes, do modo de vida, de uma rotina estrangeira. É uma fórmula fácil e pouco dispendiosa de se estabelecer relacionamento cordial e amistoso, estreitando os laços de amizade entre os países.

À falta de planos governamentais dessa ordem, nada impede que iniciativas individuais, ou de municipalidades, ou de organizações da sociedade civil se incumbam de estabelecer essa via diplomática informal.

A Noruega, assim como toda a Escandinávia, principalmente Dinamarca e Suécia, representam um ponto elevado na convivência e no nível civilizatório, tão diferente do nosso.