sábado, abril 05, 2008

Teoria conspiratória: a mais cretina das versões

Adelson Elias Vasconcellos

Na sua entrevista sobre o dossiê, na sexta-feira, dia em que a Folha de São Paulo desmascarou todas as versões até então produzidas por Dilma e seus pupilos, ela resolveu apelar para uma que sempre fez parte do cardápio dos políticos petistas quando pegos com a mão na massa, ou com a mão no cofre... alheio, aquele em que se guarda e se recolhe o dinheiro que vem fácil dos impostos que o Estado extorque dos cidadãos e empresas deste país.

Logo, os demais petistas, principalmente os que tem assento no Congresso Nacional, se agarraram à idéia de uma conspiração, vinda do lado tucano, para atacarem as oposições. Tal manobra, revela bem o desespero desta gente na tentativa maluca de encontrarem uma porta de saída para a lambança que eles próprios protagonizaram.

O desespero é de tal magnitude que eles sequer conseguem mais raciocinar. Inclusive, o “moderno consultor” de empresas privadas com “enormes” interesses nas benesses públicas, não teve fastio. Sapecou logo de seu repertório de maldades e, em seu blog, apegou-se a versão da teoria conspiratória nos seguintes termos: “(...)Já está claro que foram os tucanos que subtraíram as informações do "dossiê" ilegalmente dos documentos sigilosos da Casa Civil. Se fosse um petista a própria Folha já teria revelado quem é a fonte. Mais do que isso, teria feito com as piores acusações, mesmo sem provas (..)”.

Viram, para ex-deputado, ex-Chefe da Civil, ex-guerrilheiro treinado em Cuba, está tudo “claro”: foram os tucanos, e fim de papo. Tivesse no cérebro lugar para a seriedade, fosse este cidadão, "alguma coisa útil" de quem se pudesse tirar proveito no que diz, por certo, teria se dado conta de que não faz o menor sentido um tucano, invadir os computadores da Casa Civil, onde estão registrados os gastos sigilosos de FHC, D.Ruth e ex-ministros, juntamente com os de Lula, Família & Cia. Quadrilheira, para prejudicar Dilma e o governo Lula.

Ora, para que mesmo foi pedida e instalada a CPI, contra a vontade dos governistas e do próprio Lula? Não era justamente para investigar o excesso de gastos com os cartões de crédito corporativos, por parte da Presidência da República, e que Lua por decreto determinou sigilo ?Não era para apurar por que razão o volume de saques em dinheiro atingiram no ano passado, absurdos R$ 56 milhões ?

Sendo assim, por que razão um tucano com tamanha facilidade para acessar dados sigilosos, podendo relacionar os de Lula que, se diz, estão no mesmo banco de dados dos de FHC, iria dar prioridade para os do ex-presidente? Faz sentido? É óbvio que não. E mais: quantas pessoas tem acesso aos tais dados ? Segundo a própria Dilma informou seriam seis pessoas com senha autorizada que poderiam bisbilhotar o tal banco de dados. Com um bando assim reduzido, sendo a Dilma ferrenha petista, seria inimaginável ela manter algum tucano debaixo de suas asas, com tamanha liberdade de movimentos, ainda mais considerando o apetite issaciável de petistas e cutistas por boquinhas ricas nas tetas do governo.

Na mesma leviana e cretina afirmação de Dirceu, o crápula se deu ao trabalho de levantar “suspeitas” sobre a veracidade da reportagem que a Folha produziu, porém bastando uma simples leitura e reflexão da reporgem, para carimbá-la como verdadeira. Até porque, e Dirceu não pode dizer não conhecer o assunto, raramente, ainda mais em se tratando de assunto de tamanha repercussão, jornal algum revela sua fontes. A Folha fez seu trabalho jornalístico de forma límpida, mostrou que até ali, além das versões desencontradas, Dilma andou enrolando e mentindo.

O assunto é, verdadeiramente, uma bomba de vários megatons, porém, não se trata de nenhuma conspiração como os petistas, a exemplo de Dilma e Dirceu, nos querem fazer crer, tampouco de algum fogo amigo para atingir a Dilma na sua condição de candidata a candidata à sucessão de Lula. Tanto é assim, que se o tiroteio partisse governistas invejosos, ao invés de FHC e D.Ruth, teriam vazado alguma coisa, mesmo de pouca importância, sobre Lula e não do ex-presidente.

Pelo lado que se queira analisar, não existe a menor possibilidade de que tenha ocorrido conspiração nem da parte de tucanos, tampouco de governistas. O grande lance desta gente no fundo, é buscar rapidamente desfigurar o crime imenso para um menor. Ou, jogar nas costas da vítima a culpa do crime, enquanto os verdadeiros criminosos permanecerão ocultos, e em conseqüência, impunes.

Trata-se da tática canalha muito a gosto dos petistas. Fizeram assim com todos os dossiês que produziram, e não foram poucos. Compravam no balcão da vigarice explícita, toda e qualquer informação que pudesse ser empregada para destruir reputações, fossem elas inocentes ou não.

Dilma, do alto de sua arrogância, vai ao acúmulo de dizer que o vazamento é crime, o resto não. Tarso Genro, quando inquirido se colocaria a Polícia Federal para investigar, saiu-se com a lorota de que “dossiê” é conceito, não é crime. Quanto a Lula, o melhor é ignora-lo, pois dali só sai porcaria, mentira e enrolação. E cá prá nós, o dossiê só poderia ser produzido com sua expressa autorização. Uma, porque seria o único beneficiado se a lambança tivesse resultado em êxito. E outra, porque mexeria com assuntos de Estado, envolvendo ex-presidente e também os misteriosos “gastos sigilosos” que ele quer esconder. E, ponham bom senso, caso a revista VEJA não tivesse tido acesso ao dossiê e, por conseguinte, não se tivesse aquela sua reportagem, o que os petistas fariam com as cópias do dossiê que tinha em seu poder? Por quê e pra quê um tucano entregaria cópias justamente para os adversários?

Graças a Deus leio que muita gente que, de uma forma ou de outra, até defendeu Lula no episódio do Mensalão, não conseguiram engolir nenhuma das versões que o Planalto tentou emplacar, muito embora, um e outro afirmarem não acreditar que Lula fosse responsável pelo dossiê.

Ocorre que, exatamente por levar-se em conta seu passado, inclusive quando em 2006 montaram o dossiê anti-serra, considerando que, invariavelmente, o único beneficiado pelas trapaças tem sido apenas ele, levando-se em consideração o seu desejo de sufocar as oposições já nas próximas eleições municipais, plataforma indispensável para a realização de desejos em 2010, e o comportamento virulento da base governista na CPI para impedir qualquer investigação que possa afeta-lo de algum modo, é impossível se imaginar que a Operação Dossiê FHC – O Retorno, possa ter sido tramada sem seu conhecimento, e o que importa mais, sem seu consentimento. Se fosse ao contrário, seria impossível Dilma permanecer ao seu lado, comandado a Casa Civil um dia a mais sequer.

Portanto, se alguma conspiração houve, esta foi a de se querer intimidar com uma chantagem barata, ordinária e sórdida as oposições. O desejo, isto sim está claro, era a qualquer custo impedir que tucanos e democratas metessem o nariz nos tais gastos sigilosos de Lula e seu bando. É lá que está o “outro’” crime desta história toda. O resto é Lula, Dirceu e Dilma, ou seja, o bando podre da esquerda pegos na mentira explícita para esconder suas digitais no crime.

Uma bomba-relógio prestes a explodir nas mãos dos prefeitos

Adelson Elias Vasconcellos

Uma reportagem no Jornal do Brasil, e sobre a qual falaremos no próximo post, dá conta de que, diariamente, são 290 mil pessoas dirigindo embriagadas pelas estradas e ruas do país. Em parte, isto explica porque o trânsito no Brasil mata mais, por ano, do que todas as guerras somadas juntas. Além do problema social e humano que a perda destas vidas acaba acarretando, o prejuízo que causa é imenso. E disto já se falou muito, mas, na prática, pouco ou nenhum progresso se obteve.

Só que isto acaba sendo um tormento conseqüente que aflige o povo brasileiro em razão de que, na totalidade de nossos municípios, e são mais de 5.000, poucos, raríssimos são os que contam com um plano viário decente e voltado para o futuro. O normal é a ação das prefeituras no sentido de empurrarem os problemas com a barriga, entregando a solução nas mãos dos futuros prefeitos que os sucederão.

Em plano federal, não é diferente, basta ver o abandono em que se encontram nossas principais rodovias, principalmente a de tráfego intenso de cargas, transportando riqueza dentro do território nacional, ou transportando a produção agropecuária de seus pontos de origem até o destino, sejam as fábricas, sejam os portos.

Se o diagnóstico do presente já é horroroso, imagine-se dentro dos próximos 5 anos. Há uma bomba relógio prestes a explodir, e ela será detonada justo neste espaço de tempo. Pode até acontecer antes, como é o caso de São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, em destaque, mas também poder-se-ia incluir neste rol todas as capitais e cidades de porte médio.

O estopim desta bomba-relógio é a facilidade de crédito para a compra de automóveis. Estão vendendo como nunca, e o ingresso desta frota nova todos os anos nos trânsitos já problemáticos dos grandes e médios centros urbanos, nos levará fatalmente ao caos.

Analise-se São Paulo, por exemplo. Diariamente, os quilométricos engarrafamentos além dos transtornos que trazem quanto a compromissos que se deixa de atender, dos negócios que são adiados, além de contribuirem ainda para aumentar as poluições sonora e ambiental já em níveis quase insuportáveis, além de elevar os níveis de estresses das pessoas.

Os investimentos são escassos e, se atentar para o capítulo dos transportes de massas, a coisa chega a beirar a calamidade pública.

Não se está aqui preconizando que o governo restrinja a venda de veículos. A comercialização em níveis atuais é que está causando dores de cabeça diante da falta de planejamento viário e rodoviário.

Há uma urgente necessidade das nossas autoridades passarem a dar prioridade em grau de urgência, antes que seja de emergência, para o re-planejamento urbano das grandes cidades que não suportarão sem traumas e doses cavalares de problemas, o volume de novos carros que nelas ingressam anualmente.

Da mesma forma, é mínima a preocupação em dotar o transporte de massas de maior capacidade e conforto para atender uma demanda cada mais crescente. Fosse o nosso transporte coletivo bem estruturado e voltado à atender seus usuários com um mínimo de respeito, e por certo muitos até poderiam prescindir de seus carros em seus deslocamentos para o trabalho por exemplo, o que contribuiria para desafogar os engarrafados trânsitos nas horas de maior pique.

Para isso, poderia, por exemplo, o tal Ministério das Cidades, que até agora não disse a que veio, provocar discussões sobre o tema e, de forma coletiva, encontrar soluções de curto, médio e longo prazos.

Poderiam, também, nossas autoridades tornarem-se um pouco mais responsáveis na fiscalização destes trânsitos conturbados, agindo com rigor e sem concessões para motoristas alcoolizados, na concessão com maior critério para novas habilitações (o que não faltam são motoristas que sequer conseguem dirigir carrinho de pipoca, quanto mais um veículo como o automóvel), bem como em licenças de trafegabilidade para veículos caindo aos pedaços e com péssima manutenção.

A punição ao mau motorista não é apenas a aplicação de um simples castigo para aumentar a arrecadação dos cofres dos municípios, (como muito cretino alega para evitar a aplicação da lei em benefício de todos) mas, sim, para reduzir drasticamente o excessivo número de acidentes e mortes. Quem não tem competência para estar à frente de um volante, que use outro meio de transporte para se deslocar. Inadmissível é a eterna omissão dos órgãos e pessoas responsáveis, dando licença para matar para pessoas muitas vezesa reincidentes no cometimento de acidentes provocados por sua imperícia ou na simples desobediência às leis vigentes.

Não há, nesta questão, meio termo. Para que a comercialização de veículos novos no país continue no ritmo de crescimento atual, é urgente que as autoridades, em todos os níveis, prefeituras e governos estaduais e federal, se unam para que tais facilidades não acabem transformando-se em um terrível pesadelo. Porque é certo que, a se manter a falta de ações e de planejamento que presentemente se vê, o rigor no cumprimento da legislação de trânsito que permite que qualquer um faça qualquer coisa à frente de um volante, na verdade, não se estará dando um “conforto” do mundo moderno para o bem das pessoas. Estaremos lhe entregando uma arma que pode ser acionada contra muitos, sendo alguns até inocentes, bem como por conta do próprio motorista imprevidente que, apesar de sua inabilidade para dirigir e da seqüência de infrações impunes frutos de uma fiscalização ineficiente e omissa, poderá ser usada contra si mesmo.

Para o tanto que se vende atualmente, as ações para melhoria do tráfego já deveriam estar em plena execução e conclusão. De alguma forma, e algum prejuízo, haveremos de ter e sofrer nos próximos anos. Isto é absolutamente certo. Contudo, não se pode esperar que o caos se instale de vez para agir. A função dos agentes públicos não é administração de crises, e sim, sobretudo, de planejamento, de antecipação a problemas que visivelmente estão se criando. O quadro que estamos vendo em São Paulo hoje, poderá se repetir em cidades como Rio de Janeiro, Brasília e outras nos próximos anos. E o custo, neste momento, poderá ser muito maior do que se iniciar o trabalho agora. Sem contar, e o prejuízo seria irreversível, nas milhares de vidas que se perderá por conta da incapacidade e imprevidência das autoridades. Depois de a bomba explodir, de nada vale o choro, restará apenas contar e enterrar os cadáveres. Acho que este país já perdeu vidas em demasia por conta dos apagões ocasionados pelo poder público. E já está da hora para agirem.

Meta cambial, idéia perigosa

Estadão

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou a intenção de propor ao presidente da República a adoção de um regime de meta cambial para conter a valorização do real. Seria precipitado, no entanto, dar o assunto por encerrado a partir desse pronunciamento. O governo às vezes muda de idéia. Isso ocorreu, por exemplo, quando o Executivo lançou um pacote de impostos no começo deste ano, para compensar o fim da CPMF, embora o presidente houvesse prometido não fazê-lo. A promessa, disse na ocasião o ministro Mantega, valia apenas para 2007. Assim sendo, é conveniente continuar debatendo a idéia de uma reforma do câmbio.

A idéia de alteração do regime cambial circulou recentemente na área econômica do governo. A discussão ganhou importância com a rápida mudança das contas externas. Depois de acumular superávits durante vários anos, a conta corrente do balanço de pagamentos voltou ao vermelho, com um déficit de US$ 6,3 bilhões no primeiro bimestre e de US$ 4,9 bilhões nos 12 meses terminados em fevereiro. Para 2008, o Banco Central projeta um rombo de US$ 12 bilhões.

A causa principal da mudança é a acelerada redução do superávit no comércio de bens, em grande parte explicável pela valorização do real. Com o dólar cada vez mais barato, as importações ficam mais acessíveis e as exportações, mais caras. A solução, segundo alguns economistas, seria trocar o regime de câmbio flutuante por um sistema controlado. O governo determinaria um valor desejável para o real, em relação às principais moedas, e agiria para manter o câmbio nesse nível ou dentro de uma faixa considerada razoável. Nessa quinta-feira, pouco antes do desmentido de Mantega, o professor Antônio Correa de Lacerda, membro do Conselho Superior de Economia da Fiesp, defendeu a adoção de um sistema de bandas, apontando as políticas de alguns países da Ásia, incluída a China, como exemplos de sucesso.

Um sistema desse tipo, no entanto, seria incompatível com o regime de meta de inflação, disse o ministro da Fazenda ao explicar por que a mudança não seria aceita. A política antiinflacionária tem dado certo e seria imprudente abandoná-la. A avaliação do ministro está correta. Mas nem sempre as idéias sensatas têm prevalecido na definição de políticas deste governo.

A intervenção sistemática no câmbio tem tido algum sucesso em países com situação fiscal sólida e inflação baixa. A condição das contas públicas, nesses países, facilita o controle da inflação mesmo com juros baixos. Na China, as pressões inflacionárias têm forçado as autoridades a mudar gradualmente a política macroeconômica. Desde o ano passado, o banco central decretou 12 aumentos do recolhimento compulsório dos bancos, para não mexer nos juros. A moeda valorizou-se um pouco e as mudanças pouco efeito produziram, até agora, no ritmo do aumento de preços. Na Argentina, as autoridades têm combinado o controle cambial com uma política fiscal temerária, muito dependente de impostos sobre as exportações. A inflação medida por institutos independentes anda na altura de 20% ao ano, mais que o dobro da taxa divulgada pelo governo.

Seria temerário, como indicam os casos conhecidos, adotar um regime de meta ou de banca cambial sem bases fiscais muito sólidas para compensar os efeitos inflacionários do câmbio. Sem isso, a vantagem cambial obtida com a depreciação seria logo erodida pelo aumento dos preços internos e novas intervenções seriam necessárias. O quadro fiscal brasileiro continua longe desse padrão. O déficit nominal das contas públicas permanece na altura de 2% do PIB e os gastos de governo continuam crescendo sem efetivo controle. As pressões inflacionárias só têm sido contidas pelos juros e pelas importações.
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Mas, se as contas públicas forem administradas com severidade, para que mudar o regime cambial? Com as contas em ordem, o País poderia ter juros muito mais baixos e parte do estímulo ao ingresso de dólares seria eliminado. O câmbio poderia equilibrar-se em nível mais favorável à produção nacional. O debate sobre a mudança cambial só se mantém porque o governo recusa - e neste ano de eleições com maior vigor - uma política fiscal mais séria e mais compatível com impostos menores.

Sindicalismo estatal

Editorial da Folha

Presidente Lula ignora o que pregava como líder sindical, pereniza imposto dos pelegos e atrela centrais ao Estado.
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Um torneiro mecânico na Presidência pode iludir alguns com a impressão de que a classe operária chegou ao paraíso, mas foi só o estamento sindical que nele se locupletou. O paraíso, no Brasil, se chama Estado.
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A burocracia das entidades de classe empalmou o Executivo e foi direto à boca do caixa. O auge desse concubinato foi alcançado com o veto de Lula à fiscalização, pelo TCU, de recursos provenientes da contribuição negocial, o novo nome para o velho imposto sindical.
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Não contente em frustrar o controle sobre recursos públicos, o presidente organizou convescote no Palácio do Planalto para comemorar com meia centena de camaradas a conquista do dinheiro fácil. A festa teve início a portas fechadas, segundo noticiou o jornal "O Globo". A alegação era de que se tratava de evento privado, embora patrocinado com recursos dos contribuintes.
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"Incomoda a um segmento da sociedade, a uma elite que não se conforma com o nosso sucesso", esbravejou o ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT). "Mas vão ter que nos aturar durante muito tempo", desafiou, escancarando intenções que se projetam muito além dos dois anos e nove meses que restam a Lula. Referia-se, obviamente, à bem-sucedida instalação de uma cabeça-de-ponte sindical no coração do erário.
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Lula tentou justificar o veto com o argumento de que a obrigação de prestar contas ao TCU implicaria dano à autonomia sindical. Soa cômico falar em independência quando a lei em questão promove o reconhecimento estatal de centrais, criadas de modo autônomo anos atrás. Estão agora domesticadas, em troca de participação na bolada anual de mais de R$ 1 bilhão, sacada dos trabalhadores.
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O presidente e seus companheiros podem acreditar que a mudança de nome de imposto para contribuição transforma recursos públicos, recolhidos de modo compulsório pelo Estado, em privados. Enfrentarão dificuldade, porém, para convencer disso os 86% de trabalhadores brasileiros que optaram por não se sindicalizar, mas mesmo assim terão de pagar o tributo para sustentar sindicatos e centrais.
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Houve um tempo em que Lula e correligionários do PT e da CUT defendiam a autonomia sindical de maneira conseqüente, propondo a extinção do imposto sindical. Num governo em que 45% dos altos cargos ficam nas mãos de filiados a sindicatos e ao partido do presidente, viraram todos a casaca.
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A aceitação da tutela do Estado em troca de receita garantida merece ser chamada de peleguismo de resultados. Ou de sindicalismo estatal. Independência é que não é.

O mosquito oposicionista

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil
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O duplo tropicão do presidente Lula no desafio ao bom senso e à experiência dos veteranos de muitas eleições, no açodamento para lançar o plano de antecipação da campanha – o PAC 2 – deveria inspirar uma revisão que corrija os equívocos da arrogância e alivie o clima de tensão em que se misturam na mesma nervosa ansiedade, o Congresso, o Executivo e, em dose homeopática, o Judiciário.

Na auto-promoção de uma campanha insensata que provoca a oposição e repercute no Congresso em confrontos agressivos, só Lula parece ignorar as conseqüências de atirar mais lenha na fogueira. E ainda se permite a lançar carapuças ao léu, ao qualificar de chantagem política a cobrança a ministra-candidata Dilma Rousseff da quebra do sigilo dos gastos com os cartões corporativos no último ano do segundo mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Chantagem de quem, presidente?

Desde que exerço o ofício de repórter, em quase 60 anos de militância ininterrupta, sempre ouvi dos entendidos nas manhas da conquista do voto, a sentença de que ao governo interessa adiar ao máximo o início das campanhas para não perturbar a rotina da administração no período crítico para a conclusão das obras na fase final dos arremates.

A campanha encurrala o presidente, os governadores e prefeitos nas proibições da legislação eleitoral cada vez mais severa. E excita a população com as conversas que encrespam e acabam em brigas.

E, no natural desdobramento das cautelas, convém retardar o lançamento dos candidatos para evitar o risco do desgaste na longa exposição dos xaroposos programas eleitorais e comícios de escasso público.

Pois, num piparote no entulho da sabedoria dos veteranos, o presidente, de uma só tacada, atropelou as normas legais com truques que não enganam a ninguém, lançou-se à campanha da sua sucessão, com mais de seis anos de antecedência. E com a candidata da sua escolha ou imposição pessoal ao acoelhado PT e aliados do bloco que levou as fatias do bolo, distribuídas com a mais descuidada generosidade, a ministra Dilma Rousseff, mãe do Programa de Aceleração do Crescimento – o PAC de muitas serventias e inegável êxito publicitário.

O bate-boca contaminou a CPI do Cartão Corporativo, ornada pelos governistas catados entre os anônimos, devotos do conselho da sabedoria popular de que "em boa fechada não entra mosca". Livres dos insetos, barram todas as tentativas da oposição para convocar quem teria o que dizer, da blindada ministra-candidata à sua assessora, Erenice Guerra.

Com tais embaraços, a CPI saiu do sério e caiu na galhofa. Para enganar o tédio pode pesquisar nos dicionário a exata definição do que é dossiê e a diferença do seu apelido rococó, o banco de dados.

Daí não sairá mais nada. È mais instigante acompanhar os próximos passos do presidente e da sua candidata, depois do intervalo da próxima semana, dedicada a mais um giro pelo exterior para o brilho do ascendente novo líder internacional.

Tempo de sobra para as reflexões nas horas de repouso nas asas do Aerolula sobre as turbulências dos últimos dias. Do pito telefônico no presidente Bush, filho adotivo num exagero de intimidade à escalada de veemência, indignação e a gritaria da enxurrada amazônica de improvisos, recorde absoluto nos cinco anos e três meses dos dois mandatos.

Se continuar nesta toada para desviar críticas à falência do Sistema Único de Saúde (SUS) no combate à epidemia de dengue, que expõe doentes graves nas filas às portas de hospitais sem vagas e sem médicos, Lula ainda vai acusar o mosquito de estar a serviço da oposição.

A revolução interrompida

Demétrio Magnoli, Estadão

''Como todo mundo, eu gostaria de viver uma longa vida. A longevidade tem sua importância. Mas não estou preocupado com isso agora. Só quero cumprir a vontade de Deus. E Ele me permitiu subir a montanha. E eu vi lá de cima. E enxerguei a terra prometida. Posso não chegar lá com vocês. Mas quero que saibam que nós, como um povo, chegaremos à terra prometida.'' Martin Luther King pronunciou essas palavras há exatos 40 anos, naquele que foi seu último discurso. Menos de 24 horas depois, o homem que tinha um sonho tombava morto, alvejado a tiros na sacada de um hotel modesto de Memphis, no Tennessee. Duas semanas atrás, outro discurso, sobre o mesmo tema, pronunciado por Barack Obama, evidenciou a distância que ainda separa a nação americana da ''terra prometida''.
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Obama homenageou King, mas o discurso mais importante de sua campanha presidencial, talvez de sua vida, nasceu de uma imposição, não de uma opção. Dias antes, o pastor negro de sua igreja, que foi seu confessor, oficiou seu casamento e batizou seus filhos, amaldiçoara os Estados Unidos como uma ''nação racista''. O candidato precisava reagir a um escândalo - e escolheu o caminho mais digno. No lugar de apenas se dissociar de uma maldição revestida de amargura e rancor, ofereceu um balanço do ''impasse racial no qual estamos presos há muitos anos''. A peça, elegante e pungente, é uma crítica devastadora às políticas de raça.
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O ''povo'' de King não eram os negros, ou ''afro-americanos'', na linguagem do culturalismo essencialista, mas a nação americana inteira. O seu sonho, ''profundamente enraizado no sonho americano'', era uma visão pós-racial, expressa na esperança de que ''meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação na qual não serão julgados pela cor da sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter''. A revolução que ele personificou foi interrompida pelos arautos do multiculturalismo, que rodearam a crença nas raças com as paliçadas defensivas das políticas de preferências raciais. A inversão do sinal sustentou a velha equação que faz cada um ser julgado pela cor da sua pele.
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Gueto, mais que a segregação urbana dos ''diferentes'', é o círculo de giz pelo qual se delimitam linguagens, culturas, políticas. O racismo americano produziu um país pontilhado de guetos. Após a morte de King, a reação multiculturalista triunfante coloriu os muros dos guetos, consagrou a separação como um ideal e carimbou os negros com o rótulo de ''afro-americanos'', que quase significa ''estrangeiros''. Nas universidades, junto com as cotas raciais, formaram-se guetos intelectuais devotados à celebração de supostas diferenças culturais essenciais. No interior do Partido Democrata, cristalizou-se um gueto político organizado sobre a plataforma das preferências de raça que almeja converter os negros em vasta clientela eleitoral. Os racialistas brasileiros adaptam como podem os dogmas formulados nesses dois guetos.
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No seu discurso mais célebre, de 28 de agosto de 1963, King invocou a promessa de igualdade da Declaração de Independência. A mesma invocação inicia e conclui o discurso recente de Obama, cuja candidatura nasceu como negação da negação multiculturalista e como retomada do fio partido há 40 anos. O tear do qual emana esse fio é a Revolução Americana, que ainda não cumpriu integralmente sua promessa fundadora.
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A identidade dos Estados Unidos construiu-se sobre uma tensão de fundo entre aquela promessa e a concepção multiculturalista do melting pot, que é o caldo constitutivo da nação. No melting pot, os componentes do povo vivem juntos, no mesmo território e sob o mesmo governo, sem jamais se misturarem efetivamente. A noção de mestiçagem, como intercâmbio biológico e cultural criador, não tem lugar nesse conceito que celebra os muros e abomina as pontes. A novidade de Obama está na descoberta da mestiçagem como antídoto contra o multiculturalismo.
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Há fissuras reais no mundo dos estamentos ''raciais'' americanos. O censo dos Estados Unidos, ao contrário do brasileiro, não inclui nenhuma categoria destinada a abrigar mestiços. Mas os imigrantes latinos têm dificuldades em se descrever segundo categorias raciais rígidas e nos censos de 1990 e 2000 mais de 40% deles escolheram a opção ''alguma outra raça'', prevista apenas para acomodar insignificâncias estatísticas. Esse ato de subversão da lógica censitária, que ameaça implodir a consistência das séries históricas, representa a introdução de um imaginário de mestiçagem na caixa de vidro das raças.
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A caixa de vidro experimenta outras marteladas. Há um ano, a Suprema Corte declarou inconstitucionais as políticas educacionais baseadas em cotas raciais e o juiz Anthony Kennedy associou uma indagação incomum a um protesto inesperado: ''Quem exatamente é branco e quem é não-branco? Ser forçado a viver sob um rótulo racial oficial é inconsistente com a dignidade dos indivíduos na nossa sociedade.'' Nos últimos meses, centenas de milhares de jovens, negros e brancos, revelaram-se fartos das políticas de raça ao acorrerem em massa aos comícios gigantescos de Obama.
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''Sou o filho de um homem negro do Quênia e de uma mulher branca de Kansas. (...) Sou casado com uma americana negra que carrega dentro dela o sangue de escravos e proprietários de escravos - uma herança que transmitimos a nossas duas preciosas filhas. (...) É uma história que marcou a minha personalidade genética com a idéia de que essa nação é mais que a soma de suas partes - que, a partir de tantos, somos verdadeiramente um.'' Obama é um mestiço, palavra que não encontra correspondência rigorosa na língua inglesa. A sua ancestralidade genética não é tão incomum entre os americanos e, em si mesma, carece de significado político. A singularidade relevante encontra-se na sua visão da mestiçagem como ponte entre King e a Declaração de Independência e como inspiração para a reinvenção da identidade americana.

Planilhas com despesas de ex-ministros têm até referência a tapioca da "era tucana"

Leonardo Souza e Marta Salomon, Folha de São Paulo

As novas planilhas do dossiê sobre gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, às quais a Folha teve acesso, possuem subpastas específicas para ex-ministros e fazem referência à tapioca comprada na gestão tucana.

A tapioca está no centro simbólico do escândalo dos gastos dos ministros do governo Lula com cartões corporativos. Na Casa Civil, foi encontrado caso semelhante. Assim como o ministro Orlando Silva (Esporte) gastou R$ 8,30 no cartão numa tapiocaria de Brasília, há no dossiê lançamento de R$ 16, em 9 de maio de 2000, referente à aquisição de pacote de tapioca pelo ecônomo José Ivo de Souza Barbosa.

Há também planilhas individuais para a ex-primeira-dama, identificada só como Ruth, para três ministros do governo passado -Clóvis Carvalho (Casa Civil e Desenvolvimento), Eduardo Jorge (Secretaria Geral) e Arthur Virgílio (Secretaria Geral)- e uma última para a ex-chef do Palácio da Alvorada Roberta Sudbrack.

Do total de 532 lançamentos de despesas, há 230 só com alimentação, a grande maioria de produtos finos, como azeites, café e outros artigos importados. Há 68 lançamentos para bebidas, muitos dos quais vinhos também importados.

Há registros como 24 garrafas de vinho importado comprado na Maison du Vin por R$ 2.144. Numa outra compra de vinho foram gastos R$ 4.825. Há também 1,6 quilo de patê de foie gras importado da França (R$ 185,60), dez charutos, um cortador de charutos e uma caixa de fósforos (R$ 168,90), R$ 1.321 com frutos do mar, além de bacalhau (R$ 505,79) e compras no mercado La Palma, um dos mais caros de Brasília.

Numa coluna de observações há registros como "carnes finas", "champanhe", "vinho do Porto", o que indica que as notas referentes às compras também foram consultadas. Ou seja, preocupação maior do que simplesmente informar as despesas de forma burocrática.

Há também muitos gastos com locação de veículos, roupas e acessórios de vestuário e despesas pouco usuais, como artigos natalinos (uma de R$ 1.008 e outra de R$ 83) "para ser usada no local onde se hospedou o sr. presidente no RJ".

Há também compra de objetos como toucas de banho, óculos de natação e muitos artigos de higiene pessoal, como xampu, sabonetes e barbeadores.A ex-ministra Matilde Ribeiro (Igualdade Racial) foi convidada a pedir demissão após ter vindo a público uma série gastos feitos por ela no cartão corporativo da Presidência que foram considerados irregulares, como uma compra no free shop no valor de R$ 461,16. Ela também não justificou gastos de R$ 22,4 mil, segundo conclusão de uma auditoria da CGU (Controladoria Geral da União).A maior parte dos gastos de Matilde, assim como os referentes à ex-primeira-dama Ruth Cardoso, foram com locação de veículos. Orlando Silva não chegou a deixar o cargo, mas devolveu por sua própria conta R$ 30 mil até que seus gastos sejam auditados.

No primeiro trimestre deste ano, foram noticiados pela imprensa vários gastos da Presidência com carnes nobres, vinhos e outras bebidas num padrão semelhante aos dados do dossiê referente ao período FHC. Assim como no relatório de 13 páginas revelado anteriormente, as demais planilhas do dossiê não têm uma seqüência de datas ou de padrão.

Casa Civil se nega a comentar planilhas que integram dossiê

Folha de SãoPaulo

Em nota de anteontem, assessoria de Dilma sugeriu possibilidade de manipulação dos dados originais

A Casa Civil se recusou a comentar a existência de um arquivo de seu sistema de computadores contendo planilhas do dossiê com os gastos da família FHC e de tucanos.

Os documentos publicados na edição de hoje da Folha com detalhes do dossiê foram apresentados ontem à tarde à assessoria da Casa Civil. Depois de uma reunião realizada sem a presença da ministra Dilma Rousseff, o ministério informou, no início da noite, que só se manifestaria hoje.

As novas informações seriam enviadas à comissão de sindicância instalada na semana passada para investigar o caso, com prazo até o final de abril para apresentar as conclusões.

Sobre o conteúdo dos documentos, a resposta foi lacônica. A Casa Civil segue negando a existência de um dossiê e reconhece as planilhas como "fragmentos" de uma base de dados do Palácio do Planalto.

Desde o início da semana, a Casa Civil vem se recusando a responder perguntas encaminhadas pela Folha.

Por meio de nota encaminhada na noite de anteontem, a assessoria de Dilma nega a existência de um dossiê e apresenta uma nova versão para as planilhas que circularam no Congresso, sugerindo a possibilidade de manipulação dos dados originais da base de dados do Planalto. Essa versão conflita com os documentos extraídos diretamente dos computadores da Presidência, a que a Folha teve acesso.

Logo no primeiro item, a nota da Casa Civil diz que o que o governo chama de banco de dados não é o mesmo que a Folha chama de dossiê. A planilha destas 13 páginas reconhecida pela Casa Civil como parte do banco de dados do Planalto, de acordo com a nova versão, "não confere com as nossas, nem na seqüência nem na forma de organização das informações".

A nota segue: "Tal fato sugere a possibilidade de ter sido montada com fragmentos da base de dados organizada para alimentar o Suprim, com as informações contidas nos processos de prestação de contas dos suprimentos de fundos das contas tipo B".

Confrontada com a versão computadorizada dos arquivos, com os registros de datas e horários, a Casa Civil manteve a versão da véspera.

"Se alguém produziu um dossiê a partir dessas informações, não foi por ordem ou solicitação do corpo dirigente da Casa Civil, que só tomou conhecimento de tal documento por intermédio da própria Folha", diz a Casa Civil na nota.

A Casa Civil não reconhece viés político na elaboração das planilhas. Mas, pela primeira vez, recua num dos principais motivos apresentados para justificar o trabalho do banco de dados. "Nunca foi dito que o sistema foi criado por recomendação explícita do TCU". Segundo a nota, "o viés político quem deu foi uma parte da imprensa ao acolher a versão de que o material foi produzido para promover chantagem, desprezando outras hipóteses para investigação".

Desde a terça, a Folha afirma que o tribunal jamais pedira ou recomendara a organização das prestações de contas de gastos de suprimento de fundos do governo FHC. Em auditorias sobre os gastos do governo Lula com cartões corporativos, o TCU constatou a falta de controle das despesas, entre outras irregularidades, como a existência de notas fiscais irregulares em 35% dos comprovantes de despesa analisados.

A nota da Casa Civil também reproduz trechos de comentários do ombudsman da Folha, Mário Magalhães, sobre a cobertura do caso e diz: "Em relação ao vazamento de dados, a Folha sabe mais do que a Casa Civil, neste momento. Poderia facilitar o trabalho de investigação se ao menos desse aos seus leitores uma indicação de onde obteve o documento".

Na abertura da nota, a assessoria da ministra Dilma afirma que as perguntas encaminhadas pelo jornal foram consideradas "prejudicadas". "O questionário enviado pela Folha parte do princípio de que a Casa Civil montou um dossiê ou um arquivo paralelo com gastos supostamente comprometedores do governo anterior. Tal premissa é falsa".

Arquivo detalha dossiê da Casa Civil contra FHC

Leonardo Souza, Marta Salomon, Folha de São Paulo

Conjunto de planilhas, com 27 páginas, saiu Pronto Do Planalto

Organização dos dados sobre gastos da Presidência começou em 11 de fevereiro e seguiu diretriz política, e não lógica administrativa

Cópia de arquivo extraído diretamente da rede de computadores da Casa Civil mostra que o dossiê com gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, da sua mulher, Ruth, de ministros tucanos e até da chef de cozinha de FHC saiu pronto do Palácio do Planalto.

O documento, a que a Folha teve acesso, afasta a possibilidade de que tenha havido adulteração nos dados arquivados pela Casa Civil que o governo chama de base de dados, feito de forma paralela ao sistema de controle de gastos de suprimento de fundos, o Suprim.

O conjunto das planilhas, com 27 páginas e 532 lançamentos de despesas ao todo, revela que às 15h28 do dia 11 de fevereiro, a Casa Civil começou a lançar nas planilhas dados colhidos de processos de prestações de contas dos gastos de suprimentos de fundos da Presidência entre 1998 e 2002. Os processos foram retirados do arquivo morto, guardado num prédio anexo do Planalto.

O documento digital revela que, no período de uma semana, foram criadas pastas diferentes para 1998, ano em que FHC foi reeleito, e os quatro anos do segundo mandato.

Foram agrupadas separadamente, também, as despesas de Ruth Cardoso, da chef de cozinha Roberta Sudbrack e de dois dos ministros mais poderosos do Planalto na época, Eduardo Jorge (Secretaria Geral da Presidência) e Clóvis Carvalho (Casa Civil e Desenvolvimento), além de Arthur Virgílio, senador tucano que exerceu o cargo de secretário-geral da Presidência.

O documento mostra como estava essa base de dados da Casa Civil até 18 de fevereiro, mais de um mês antes de a revista "Veja" noticiar a existência de um dossiê destinado supostamente a constranger a oposição a Lula no Congresso.

Na data da criação do arquivo ainda não havia sido instalada a CPI dos Cartões, mas a investigação no Congresso de despesas do governo Lula com cartões corporativos tornara-se inevitável. Aliados governistas conseguiriam depois estender as investigações a 1998 e ao segundo mandato de FHC.

A organização dos dados seguiu uma lógica política, e não administrativa. As planilhas, fartas em registros de compras de bebidas alcoólicas, trazem anotações que poderiam orientar os aliados governistas nos trabalhos da CPI.É identificada também a sigla PR (Presidência da República) na planilha Excel como a empresa onde foi gerado o arquivo. Conforme a Folha revelou na sexta-feira passada, a ordem para a confecção do dossiê foi dada por Erenice Guerra, a número dois da ministra Dilma Rousseff na Casa Civil.Detalhes do arquivo afastam a possibilidade de montagem a partir de "fragmentos" da base de dados do Planalto.

Anteontem à noite, por meio de nota de sua assessoria, a Casa Civil levantou essa possibilidade como uma nova versão para o caso do dossiê."A planilha de 13 páginas, mencionada pelo jornal em suas reportagens, contém informações que constam no banco de dados, como reconhecemos desde o início. No entanto, ela não confere com as nossas nem na seqüência nem na forma de organização das informações. Tal fato sugere a possibilidade de ter sido montada com fragmentos da base de dados", diz a nota.

As pastas do arquivo mostram que não foi mudada nem sequer uma vírgula no relatório de 13 páginas que circulou no Congresso -nem na ordem dos dados nem na organização das informações, com viés claramente político.Ou seja, o dossiê que chegou às mãos de parlamentares saiu como estava arquivado nos computadores da Casa Civil.

O arquivo registra, nas propriedades do programa Excel, datas e horários de acesso à base de dados do Planalto. Essas informações poderiam ser verificadas por meio de perícia, mas a Casa Civil não admite essa possibilidade.

Desde o início da crise do dossiê, 13 dias atrás, a equipe da ministra Dilma, assim como o ministro da Justiça, Tarso Genro, descartam a possibilidade de a Polícia Federal participar das investigações.

Por ora, elas estão restritas a uma comissão de sindicância composta por três funcionários públicos e que se reporta à Casa Civil, de onde partiu a ordem para montar o banco de dados.

A Casa Civil reconheceu que mandou fazer o banco de dados visando eventuais requerimentos da CPI -que nem estava instalada. Em 20 de fevereiro, dois dias depois da abertura do arquivo do dossiê na Casa Civil, Dilma diria a empresários em um jantar que estava levantando gastos tucanos e que o governo não iria apanhar quieto.

Na versão da Casa Civil, os dados seriam transferidos para o sistema oficial de controle de despesas de suprimento de fundos da Presidência da República, o Suprim.

O governo alegou problemas de ordem tecnológica e a desorganização dos processos de prestação de contas de FHC para justificar a montagem de uma base de dados paralela ao Suprim.

Governo diz que vazamento é grave, mas descarta inquérito da PF
Apesar de classificar o vazamento de informações da Casa Civil de "extremamente grave" e de atitude "maldosa", o governo tem se recusado a solicitar abertura de inquérito à Polícia Federal para investigar o caso. Os peritos do INC (Instituto Nacional de Criminalística) da PF têm condições técnicas para rastrear os acessos feitos nos computadores e determinar os autores. A Casa Civil abriu uma sindicância para investigar o vazamento de informações, mas rejeita a idéia de a PF fazer um rastreamento nos computadores.