sábado, abril 05, 2008

O mosquito oposicionista

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil
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O duplo tropicão do presidente Lula no desafio ao bom senso e à experiência dos veteranos de muitas eleições, no açodamento para lançar o plano de antecipação da campanha – o PAC 2 – deveria inspirar uma revisão que corrija os equívocos da arrogância e alivie o clima de tensão em que se misturam na mesma nervosa ansiedade, o Congresso, o Executivo e, em dose homeopática, o Judiciário.

Na auto-promoção de uma campanha insensata que provoca a oposição e repercute no Congresso em confrontos agressivos, só Lula parece ignorar as conseqüências de atirar mais lenha na fogueira. E ainda se permite a lançar carapuças ao léu, ao qualificar de chantagem política a cobrança a ministra-candidata Dilma Rousseff da quebra do sigilo dos gastos com os cartões corporativos no último ano do segundo mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Chantagem de quem, presidente?

Desde que exerço o ofício de repórter, em quase 60 anos de militância ininterrupta, sempre ouvi dos entendidos nas manhas da conquista do voto, a sentença de que ao governo interessa adiar ao máximo o início das campanhas para não perturbar a rotina da administração no período crítico para a conclusão das obras na fase final dos arremates.

A campanha encurrala o presidente, os governadores e prefeitos nas proibições da legislação eleitoral cada vez mais severa. E excita a população com as conversas que encrespam e acabam em brigas.

E, no natural desdobramento das cautelas, convém retardar o lançamento dos candidatos para evitar o risco do desgaste na longa exposição dos xaroposos programas eleitorais e comícios de escasso público.

Pois, num piparote no entulho da sabedoria dos veteranos, o presidente, de uma só tacada, atropelou as normas legais com truques que não enganam a ninguém, lançou-se à campanha da sua sucessão, com mais de seis anos de antecedência. E com a candidata da sua escolha ou imposição pessoal ao acoelhado PT e aliados do bloco que levou as fatias do bolo, distribuídas com a mais descuidada generosidade, a ministra Dilma Rousseff, mãe do Programa de Aceleração do Crescimento – o PAC de muitas serventias e inegável êxito publicitário.

O bate-boca contaminou a CPI do Cartão Corporativo, ornada pelos governistas catados entre os anônimos, devotos do conselho da sabedoria popular de que "em boa fechada não entra mosca". Livres dos insetos, barram todas as tentativas da oposição para convocar quem teria o que dizer, da blindada ministra-candidata à sua assessora, Erenice Guerra.

Com tais embaraços, a CPI saiu do sério e caiu na galhofa. Para enganar o tédio pode pesquisar nos dicionário a exata definição do que é dossiê e a diferença do seu apelido rococó, o banco de dados.

Daí não sairá mais nada. È mais instigante acompanhar os próximos passos do presidente e da sua candidata, depois do intervalo da próxima semana, dedicada a mais um giro pelo exterior para o brilho do ascendente novo líder internacional.

Tempo de sobra para as reflexões nas horas de repouso nas asas do Aerolula sobre as turbulências dos últimos dias. Do pito telefônico no presidente Bush, filho adotivo num exagero de intimidade à escalada de veemência, indignação e a gritaria da enxurrada amazônica de improvisos, recorde absoluto nos cinco anos e três meses dos dois mandatos.

Se continuar nesta toada para desviar críticas à falência do Sistema Único de Saúde (SUS) no combate à epidemia de dengue, que expõe doentes graves nas filas às portas de hospitais sem vagas e sem médicos, Lula ainda vai acusar o mosquito de estar a serviço da oposição.