Adelson Elias Vasconcellos
Tenho acompanhado com muito interesse e apreensão, mas sem surpresa, as questões trabalhistas que vem provocando incêndios e revoltas nos canteiros de algumas obras do PAC, como é o caso da Hidrelétrica de Jirau.
Na verdade o que tenho visto, ou melhor, constatado, é uma verdadeira renúncia do governo federal quanto à missão de fiscalizar as obras que são construídas com dinheiro público.
Dada a dimensão destas obras, e o açodamento do governo Lula em tocá-las a qualquer custo, o devido e indispensável planejamento das ações de constituição dos canteiros foram solenemente ignorados. O interesse eleitoreiro acabou falando mais alto do que a devida competência e probidade administrativa na condução destes projetos.
O que estamos assistindo é um verdadeiro descalabro. Durante a campanha passada, quando postei inúmeros artigos em favor do processo de privatização conduzido nos anos 90, uma das razões que apontei para a necessidade de que o processo se realizasse, foi justamente o fato de que o governo federal é o primeiro agente a descummprir as legislações ambiental e trabalhista tanto em suas obras, quanto em suas estatais. Infelizmente, nestes casos, é sempre a cretinice do interesse político que se sobressai, mandando às calendas as legislações vigentes, o interesse e o bem estar dos trabalhadores que são condenados a conviverem com toda a sorte de ilegalidades cometidas pelo próprio Estado, criador de regras para os outros, mas incompetente em fazê-las cumprir em seu próprio terreno e fiscalizar com correção para evitar sua transgressão.
Não me venham com a balela de que as empreiteiras são as únicas culpadas. De forma alguma esta doideira é admissível. Se se tratassem apenas de obras privadas, vá lá, competiria ao governo o papel de fiscalizador, para que direitos trabalhistas não fossem desrespeitados. Mas este não é o caso.
Vejam o que se dá no caso de Belo Monte. O próprio governo exigente de mil posturas e regras no campo do meio ambiente, transgride as regras, impõe “licenciamentos provisórios” de construção, o que é um verdadeiro absurdo, tudo na sanha louca de tocar as obras a qualquer preço. Sequer as restrições detectadas pelo TCU tem sido acatadas, unicamente para atender propósito eleitoreiros. Dane-se o país, dane-se as leis, dane-se os direitos dos trabalhadores.
Esfacela-se a legalidade para atender o apetite de um projeto criminoso de poder. Criminoso sim, porque atenta contra a legalidade, as instituições e a sociedade.
Fosse apenas um movimento de revolta e protesto localizado em uma única obra, ainda se poderia contemporizar, sem que isto diminuísse a culpa do governo pelo mau planejamento e falta de fiscalização. Porém, o que se vê é repetido em outras tantas obras, todas gigantes e com grande locação de mão de obra. São os casos de Suape, em Pernambuco, Pecem, no Ceará, e São Domingos, no Mato Grosso. Somam-se mais de 80 mil trabalhadores em ação de conflito e em movimento grevista.
O jornalista Carlos Tautz, cujo artigo reproduzimos nesta edição, fez um desenho bem apanhado do quadro desolador. Não é admissível que, em hipótese alguma, se tenha que requisitar a Força de Segurança Nacional para debelar ações de revolta, fruto da má gerência e total falta de planejamento.
É fácil, a exemplo do que fez Elio Gaspari em seu artigo dominical, se empurrar cem por cento da culpa para as empreiteiras. Mas quem afinal as contratou? Quem lhes delegou responsabilidade pela construção? É possível imaginar-se que o contratante sequer coloque contratualmente o atendimento às obrigações trabalhistas mínimas como condição indispensável para a liberação das verbas, quanto mais em se tratando do Estado, governado por um partido que se autodenomina de defensor dos trabalhadores?
Que as grandes empreiteiras tenha lá enorme parcela de responsabilidade sobre os conflitos e as condições inadequadas em que jogou milhares de trabalhadores, disto não se pode duvidar. Devem ser chamadas a atender as irregularidades que agora se tornam de conhecimento público. Mas vejam lá: 20 dias antes da baderna se instalar em Jirau, técnicos do BNDES estiveram no local e não conseguiram detectar nada de irregular. Como as irregularidades já existiam, e foram elas que motivaram a rebelião dos trabalhadores, é de se perguntar o que, afinal de contas, os técnicos BNDES foram fazer no canteiro de obras, passear? Fazer turismo na selva?
No caso de Jirau a coisa é mais séria e deve ser conhecido o principal irresponsável pelas cenas de violência que ora se constata: na época, o próprio IBAMA se negava em conceder as licenças dada a fragilidades dos estudos de impacto ambiental. O que fez o então presidente “operário”? Demitiu a turma do IBAMA e mandou expedir, na marra, a indispensável licença.
Além disto, é de se perguntar: quem era a gerente durona e competente, tocadora das obras do PAC? Pois bem, é a atual presidente, que se elegeu, diga-se de passagem, embalada pela decantada competência em se mostrar competente. Nem se precisou de cem dias de mandato para sabermos e conhecermos que tal competência não passou de puro marketing eleitoreiro, distante e muito aquém do verdadeiro perfil da então candidata.
O correto, nesta altura, seria suspenderem todas as grandes obras em curso, e se refazer todos os estudos, sejam eles econômicos e financeiros, e mesmo até os de impacto ambiental, se o desejo é ver tais obras serem erguidas sem sustos, nem sobressaltos. Do jeito como a situação hoje se apresenta, seria o mínimo para se preservar não apenas que o dinheiro público seja aplicado com correção, mas também preservar-se a legalidade destas realizações, sem ultrapassar e assaltar as garantias dos operários que lá se encontram.
Será que, em alguma coisa ao menos, dá para o governo petista, já entrando em seu nono ano de atuação, ser um pouco mais sério e responsável, e menos mentiroso?
Se Dilma pretende, ao término de seu mandato, ser alinhada dentre os governantes responsáveis pelas boas coisas que este país conquistou, mandará suspender as obras e refazer os estudos e planos de ação. Não pode é insistir no erro. Isto só colaboraria para o caos permanecer como está e até piorar.

