Adelson Elias Vasconcellos
Já há algum tempo a gente vem alertando para a ação indevida e desnecessária do governo federal na administração da Vale que, conforme noticiou o jornal O Globo na semana passada, acabou sendo confirmada pela reunião mantida, `as portas nem tão fechadas assim, entre o ministro Mantega e a direção do Bradesco.
Hoje, o mesmo jornal traz um texto informando que a “...principal preocupação é que os rumos da companhia sejam desviados por interesses políticos...”, segundo reportagem de Lucianne Carneiro.
Ora, a simples reunião em que Mantega, representando o governo Dilma, pediu a cabeça do atual presidente Roger Agnelli, já é desvio motivado por interesses políticos. Não será preciso fazer-se mais nada para que o fato esteja consumado.
Sendo a Vale uma empresa privada, com ações em Bolsa, isto já seria motivo o bastante para um total repúdio de acionistas, investidores e fornecedores além da própria Direção e Conselho de Administração contra a ação do governo Dilma. Até porque, considerando a excelente condução que vem sendo dada por Agnelli à frente da companhia, nada justifica esta intromissão imoral do Estado no seio administrativo da Vale.
Esta ingerência absurda, é bom frisar, começou com Lula quando criticou as medidas adotadas por Agnelli no auge da crise financeira mundial em 2009. Gostasse ou não, uma empresa privada não pode modelar suas ações tanto de administração interna quanto de política estratégica ao sabor dos interesses políticos do governo de plantão. Sequer deve prestar contas a este governo, dado que sua administração está livre da participação estatal.
O que me surpreende neste episódio é a pouca repercussão de um caso tão grave. Há, segundo fontes sérias, um movimento de repúdio por parte de alguns funcionários da própria Vale contra esta ação que classifico como cafajeste.
A gente sabe onde este movimento tem seu ponto de partida. São correntes petistas que não aceitam o sucesso dos processos de privatização conduzidos no governo FHC. Não porque entendem que a companhia não pudesse ser estatal. Queriam-na assim, para preservar as centenas de cargos inúteis, dos quais hoje poderiam regalar-se de forma inconsequente e desqualificada.
Sempre que um esquerdista estiver por detrás de qualquer movimento de estatização de empresas estatais ou até a ampliação das já existentes, não se deixem enganar: tal movimento não se dá pelo interesse do PAÍS, e sim pelo interesse moleque de se apropriarem de cargos e salários nos escalões diretivos das companhias em favor apenas de seu grupo político. É a privatização do Estado para privilégio de uns poucos, do mesmo modo como se tenta estatizar empresas privadas com o mesmo desonesto propósito.
O caso de troca no comando da Vale se choca violentamente contra qualquer argumento mais ou menos sério que o governo possa levantar. Trata-se de um brutal choque de interesses do qual o governo Dilma deveria se afastar de imediato, mantendo-se o mais distante possível.
Um governo, como bem sabemos, incompetente para gerir suas próprias funções na área de serviços públicos, vai fazer o que de diferente na administração de uma gigante como a Vale? Mudar seu planejamento estratégico e que a tornaram a maior exportadora do país?
Ora, é indiscutível os interesses escusos e imorais que se escondem nesta introimissão. O governo Dilma até pode negar, Lula, o ex, até pode negar, as correntes canalhas do petismo rombudo e fieis discípulos do atraso até podem negar. Mas é fato que esta gente toda defende é mais estado, tentam preservar para seu grupo de privilegiados, empregos de alta remuneração, total inutilidade e nenhuma função miserável em favor da companhia. Querem um capacho que lhes sirva em bandeja dourada os favores capazes de saciar seus apetites de pura rapinagem.
Num país em que os investimentos privados produtivos são raros e insuficientes para bancar o crescimento sustentável do país, tal medida vai na contramão da necessária segurança jurídica como forma de atração destes investimentos.
A relativa estabilidade vivida atualmente pelo país, é uma das raqras situações favoráveis no mundo para onde tais investimentos podem convergir. E, ao invés de abrir caminhos para que tais investimentos se sintam compelidos a ingressarem por aqui, dona Dilma vai na contramão com esta medida espúria de se intrometer onde não deve, ajudando a jogar fora oportunidades que talvez, em futuro próximo, não se repitam na quantidade e qualidade com que hoje nos são oferecidas. Aliás, disto já falamos aqui recentemente.
Assim, e apesar da imensa corrente de novos bajuladores que cercam a presidente Dilma, elogiando suas ações, palavras e até pensamentos, creio ser oportuno manter a reserva que ainda guardo em relação ao seu governo. Insisto na tese de que um governo vale pelos resultados que obtém, e não pelos discursos floridos de seus mandatários.
E, neste sentido, esta intromissão estatal no comando de uma empresa privada, ditando-lhe regras ou tentando impor-lhes interesses estranhos ao seu ideário, querendo obrigar-lhe administradores de favor e que se coadunam unicamente ao seu interesse político de ocasião, joga no lixo a visão de excelente governança que se tenta atribuir em um governo que, a rigor, sequer alçou voo e tampouco definiu sua rota.
Para encerrar, recomendo a leitura do excelente artigo Vale: l’Agnelli del Lupo, de Juarez Dietrich, publicado no site do Instituto Millenium e reproduzido abaixo, e que dá o tom que dona Dilma deveria considerar: ou faz valer a lei e a governança civilizada, ou dá o calote, o golpe privado.