segunda-feira, março 28, 2011

Doações para vítimas da chuva mofam em galpões na Região Serrana

Ludmila Curi , O Globo

" Peguei o ginásio completamente molhado. Teve muito desperdício "

RIO - As doações de roupas chegaram em excesso - este é o diagnóstico das cidades serranas quase três meses após a tragédia que deixou mais de 900 mortos na região. Em Nova Friburgo, muitas peças literalmente mofaram nos galpões por problemas de armazenamento e falhas na logística de distribuição. No Ginásio municipal Alberto da Rosa Pinheiro, a montanha de roupas chegou a virar brincadeira. Uma corda foi feita com calças jeans e amarrada no alto da quadra, servindo de balanço para crianças. Segundo o administrador do espaço, Ademir Vieira, a confusão começou quando um grupo invadiu o local em busca de roupas.

- Veio tudo embalado, mas teve a invasão e arrebentaram os sacos - disse.

Goteiras em ginásio deixaram roupas mofadas
O fato aconteceu no inicio do mês, de acordo com o subsecretário de Assistência Social, Gilberto Paulo de Souza. Ele tentou explicar o que ocorreu:

- As pessoas pensam que vai acabar e querem pegar tudo num primeiro momento. Temos que relevar muita coisa porque ninguém esperava isso.

Neste semana, voluntárias que tentavam desocupar o espaço para o retorno das atividades esportivas ressaltaram a desorganização que tomou conta do ginásio. Elas afirmaram que animais e crianças urinaram sobre as roupas.

- Também tem muita roupa estragada por causa da chuva, que entra aqui pelas janelas - relatou a voluntária Núbia da Conceição.

Em outro ginásio, na localidade de Duas Pedras, goteiras também geraram mofo em roupas doadas. A voluntária que assumiu a organização do centro na última segunda-feira, Rosilene da Silva, disse que o local só será reaberto para doações na próxima semana, quando ela tiver separado as peças por gênero e retirado os donativos estragados e molhados.

- Peguei o ginásio completamente molhado. Teve muito desperdício - revelou.

Outras 25 voluntárias trabalham com ela no lugar, em troca de algumas roupas que podem pegar enquanto selecionam o material. Segundo a prefeitura, a redução na ajuda oferecida por empresários, motoqueiros e jipeiros contribuiu para a sobra de roupas.

- Esse pessoal foi embora e faz uma falta terrível, porque a boa vontade é que faz o serviço andar. Diante dessa tragédia, é obrigação do povo estar de mãos dadas com a gente - disse Gilberto Paulo de Souza.

Ainda de acordo com o subsecretário de Assistência Social, há peças que chegaram em péssimo estado, rasgadas e sujas, e outras que não servem à população, como um vestido de noiva encontrado num dos galpões. Ele comparou a tragédia na Serra com a do terremoto e da tsunami no Japão.

- Não está tudo pronto e nem vai ficar. A cidade não estava preparada. Gostaria que as pessoas não pensassem em dois meses, porque fomos destruídos em horas.

Em Teresópolis, três galpões também estão lotados de roupas. Os espaços foram cedidos por empresários ou alugados pela prefeitura, que contratou 170 pessoas para atuar na logística da distribuição, o que reduziu o desperdício. O excesso segue hoje para cidades que não sofreram com as chuvas.

- Estamos repassando roupas para igrejas católicas e evangélicas e para Caxias, Xerém, Magé e Guapimirim. Como está sobrando, a gente não pode deixar estragar - diz Silvana do Vale, organizadora da distribuição de roupas.

Desabrigados não teriam onde guardar as roupas
De acordo com ela, a sobra se explica porque o alto número de desabrigados não tem onde guardá-las. A ideia agora é montar kits para quando essas pessoas tiverem um endereço definitivo. Na próxima semana, segundo o secretário de Desenvolvimento Social de Teresópolis, Dione Manetti, a prefeitura vai encaminhar à Câmara de Vereadores um projeto de lei que propõe a criação do Banco de Alimentos e Doações. A iniciativa é uma parceria entre governo, empresários, igrejas e organizações comunitarias. O objetivo é centralizar o recebimento e organizar a distribuição de donativos com sistema eletrônico de cadastro a partir de pontos de apoio nos bairros.

A afirmação repetida em Teresópolis e Friburgo pelos administradores dos donativos espanta quem acompanhou o drama de milhares de famílias que perderam tudo. No entanto, a distribuição de alimentos e material de limpeza segue nas duas cidades, em grande volume. Itens como café, açúcar, óleo, massa de tomate e macarrão ainda fazem falta para compor as cestas básicas. Aparelhos de barbear, absorventes, fraldas, lençóis, cobertores e toalhas completam a lista de pedidos.