domingo, junho 02, 2013

Pouco tempo para salvar um governo

Rolf Kuntz 
O Estado de S.Paulo

A presidente Dilma Rousseff está arriscada a completar o seu mandato com um balanço sinistro, um crescimento econômico próximo de 2,4% ao ano, em média. Será esse o resultado se o produto interno bruto (PIB) avançar 2,5% em 2013, por enquanto uma projeção otimista, e 3,5% em 2014. Será um desempenho bem inferior à média mundial - 3,6%, segundo estimativa do Fundo Monetário Internacional (FMI) - e muito distante dos 5,6% esperados para os países emergentes e em desenvolvimento. Mas a estagnação poderá ser, e quase certamente será, apenas um dos componentes mais feios do quadro brasileiro se o rumo da política for mantido. As contas públicas estarão mais desajustadas, o balanço de pagamentos, mais esburacado, a inflação, distante da meta, e a imagem do País, prejudicada no mercado internacional.

Não só os brasileiros percebem a maquiagem fiscal: "medidas contábeis para atingir a meta de superávit primário reduziram a transparência", segundo relatório publicado na quarta-feira pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o clube dos países desenvolvidos e de alguns emergentes de boa reputação.

Boa imagem é essencial para um país com déficit em conta corrente já na casa de 3% do PIB e com perspectiva de aumento. Não se mede reputação só pela capacidade do Tesouro de captar dinheiro no exterior, principalmente quando paga juros muito mais altos que os do mercado internacional. Mede-se também pelo ingresso do investimento estrangeiro direto, insuficiente, a partir de março e abril, para cobrir o buraco nas transações correntes. Investimento direto tende a ser menos especulativo e mais seguro para as contas externas do que outras formas de financiamento. Além disso, representa, em geral, um compromisso de longo prazo com a economia do país receptor.

Em sua última projeção das contas externas, o Banco Central (BC) estimou para este ano um déficit em conta corrente de 2,78% do PIB e um saldo de investimento direto equivalente a 2,69%, pouco menor que o necessário. Mas o cálculo inclui um superávit comercial de US$ 15 bilhões, pouco provável, nesta altura. O saldo da conta corrente é a soma dos resultados da balança comercial (mercadorias), da balança de serviços (viagens, fretes, juros e lucros, entre outros itens) e das transferências unilaterais (remessas de trabalhadores, por exemplo).

O desequilíbrio entre importações e exportações de bens diminuiu nas últimas semanas, mas o déficit acumulado no ano até 26 de maio ainda ficou em US$ 4,6 bilhões. O número final do mês deve ser divulgado nos próximos dias. Se o buraco até o fim de maio mês tiver encolhido para US$ 4 bilhões, será necessário um superávit mensal de US$ 2,7 bilhões até dezembro para alcançar o saldo projetado pelo BC. Em estimativa divulgada na quarta-feira, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) reduziu de US$ 12 bilhões para US$ 7,7 bilhões o excedente comercial esperado para 2013.

É preciso algum otimismo, portanto, para prever, como o BC, um déficit de apenas US$ 67 bilhões na conta corrente. Não há risco iminente de uma crise cambial, mesmo com um rombo proporcionalmente maior no próximo ano. O País dispõe de reservas de moeda estrangeira superiores a US$ 370 bilhões (US$ 374,8 bilhões no dia 28). Isso oferece alguma segurança. Nenhum volume de ouro, dólares ou euros pode substituir, no entanto, uma política sensata e uma evolução saudável das contas externas. Reservas são finitas e os financiadores fogem tanto mais velozmente quanto mais o país precise de dinheiro de fora. Qualquer brasileiro familiarizado com a história das grandes crises nacionais deveria saber disso. Negligenciar o balanço de pagamentos tende a ser desastroso, exceto quanto o país tem o privilégio de imprimir dólares e sua economia é a maior e a mais forte do mundo. No caso do Brasil, o erro mais grave é descuidar do comércio de bens, porque o déficit da conta de serviços é normalmente muito amplo e assim será por muito tempo.

Entre janeiro e março a exportação de bens e serviços foi 6,4% menor que nos três meses finais de 2012. A importação, 6,3% maior. O resultado dessa conta foi um dos grandes componentes negativos do PIB do primeiro trimestre. Esse déficit é explicável em parte pelo câmbio valorizado, mas o governo deveria dar maior atenção a outros fatores, mais característicos do País e mais importantes a longo prazo.

Não é preciso repetir a lista dos mais graves problemas de competitividade (bastaria lembrar a tributação irracional, a escassez de mão de obra qualificada e a logística deficiente). Além disso, o desajuste cambial é explicável, em boa parte, por um erro inteiramente made in Brazil, a prolongada tolerância à inflação. Também isso afeta a relação entre o real e as principais moedas do comércio internacional. Mas raramente algum empresário cobra do governo maior esforço contra a alta de preços ou contra a gastança, um dos principais fatores inflacionários.

O Executivo federal apenas começou, muito lentamente, o combate aos desajustes internos. A nova Lei dos Portos é um raro exemplo de acerto. Em contrapartida, as desonerações, mal concebidas e amplamente improvisadas, são ainda os componentes principais do arsenal da política econômica, apesar de sua comprovada ineficiência. Além disso, o compromisso com a seriedade fiscal é cada vez mais frouxo. Não se discute mais, em Brasília, se o governo será capaz de alcançar a meta, mas se usará ou deixará de usar toda a lista, cada vez mais ampla, de redutores do superávit primário. Contra esse fundo, a decisão do BC de levar a sério a inflação e acrescentar meio ponto porcentual à taxa básica de juros tem um brilho especial. Obstáculos muito maiores que os juros entravam o crescimento. 

Os homens invisíveis

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O presidente do Senado, Renan Calheiros, tem toda a razão ao recusar-se a votar a Medida Provisória da Energia: onde já se viu dar aos senadores apenas um dia para ler, estudar, debater e votar uma resolução tão importante?

O presidente do Senado, Renan Calheiros, não tem razão nenhuma para não votar a MP da Energia. Um dia de prazo é a conta dele; na conta dos cidadãos, entre 28 de maio, quando a medida foi aprovada na Câmara, e 3 de junho, quando caduca, o prazo é de pelo menos cinco dias. Dava para ler, discutir e votar.

O problema é que, entre os interesses do cidadão e o feriado, Suas Excelências preferem o feriado. Aí vem a sexta, quando para eles o trabalho não é habitual. E há o fim de semana. Se um doente tiver problemas num feriado, seu médico irá atendê-lo. Se o eleitor precisa de algo num dia útil, mas que fique entre um feriado e o fim de semana, pode tirar o cavalinho da chuva. Trabalhar cansa. 

Na quarta, 29, bateram o ponto 57 nobres senadores. Mas no plenário havia quatro. Assim não dá para examinar medida provisória nenhuma, seja qual for o prazo disponível (na Câmara, a situação é parecida: 333 senhores deputados bateram o ponto e havia quatro no plenário). Estavam lá para bater ponto e ganhar o deles; mas cuidar dos interesses dos eleitores não rende nada. É outra coisa.

Em resumo, ninguém tem razão. O Governo articulou mal; a Câmara demorou para votar (enquanto cada deputado estudava o melhor voto, para ele); o Senado tinha tempo para decidir, mas preferiu descansar. 

Ninguém é de ferro.

Ganhando junto
O Tribunal de Contas da União apurou que 3.390 servidores federais ganham salários superiores ao teto do funcionalismo. Destes, 90% estão na Câmara e no Senado. O teto é de R$ 28 mil mensais, salário de ministro do Supremo. Total das despesas só com a parte que supera o teto: R$ 107 milhões por ano. E, como se vê na notícia anterior, o trabalho destes cavalheiros nem é tão cansativo assim.

Farra geral
No tumulto do Bolsa-Família, a Caixa descobriu que 692 mil famílias têm dois cadastros e recebem dois auxílios (talvez seja por isso que, como disseram à TV, haja quem compre jeans de R$ 300 para a filha e pingue mensalmente algum na poupança). 

Custo do pagamento ilegal? R$ 100 milhões por mês.

Eu, hem? 
A ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, responsável pelo Bolsa-Família, preferiu esquecer a confusão e manter suas férias na Disney. Bobagem: se é para conviver com ratos, João Bafodeonça, um Pateta e os Irmãos Metralha, e se divertir com nossa cara de patos, melhor seria ter ficado por aqui.

Vai e volta
A ministra Tereza Campello volta amanhã. É essencial que esteja no país para acompanhar o rigoroso inquérito sobre o que ocorreu no Bolsa-Família. 

A propósito, como já informou o ótimo escritor Luiz Fernando Veríssimo, rigoroso inquérito não é a mesma coisa que inquérito rigoroso: é exatamente o contrário.

É Brasil na cabeça! 
O caro leitor deve festejar: desde ontem, pode trabalhar para ganhar seu sustento e o de sua família. Os cinco meses por ano em que trabalha apenas para pagar impostos terminaram na sexta, 30. A conta, segundo cálculos do IBPT, Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, inclui impostos, taxas e contribuições cobrados por União, Estados e Municípios. O mundo, mais uma vez, se curva ante o Brasil: enquanto nós, brasileiros, trabalhamos 150 dias por ano para pagar impostos, os mexicanos trabalham 91; os americanos, 102 dias. Só perdemos para a Suécia, 185 dias. Em compensação, poucos ali precisam de escola particular (inclusive para línguas), e a saúde está incluída nos impostos.

Público e privado
Enquanto em São Paulo o prefeito petista Fernando Haddad autoriza a derrubada de mais de mil árvores, muitas delas remanescentes da Mata Atlântica, para facilitar a construção de um condomínio particular de alto luxo, em Porto Alegre o prefeito José Fortunati, do PDT, luta contra manifestantes de um movimento que tem parceria com o Ministério da Cultura para derrubar 115 árvores e concluir a duplicação da Avenida Beira-Rio. Pelo jeito, derrubar árvores só é bom quando beneficia os interesses privados, não os públicos. Em Porto Alegre, as 115 árvores serão compensadas por 400, mais duas mil na revitalização da orla do Rio Guaíba; a derrubada tem licença ambiental e decisão judicial. A obra ficou 43 dias parada, enquanto os manifestantes se recusavam a sair. 

Mas como lutar contra quem partidariza até mesmo árvores e arbustos?

Voa, dinheiro! 
De Aziz Ahmed, O Povo: "(...) Sander Douma, que projetou o velódromo do Rio, classificou deloucura querer substituir o velódromo construído para o Pan-2007, afirmando que ele poderia ser utilizado na Olimpíada-2016. (...) 

O ex-prefeito Cesar Maia alfineta: ‘Este custou R$ 14 milhões que, atualizados, seriam menos de R$ 20 milhões. O novo vai custar quase R$ 140 milhões".

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Dilma, calouros e veteranos

Vinicius Torres Freire 
Folha de São Paulo

O governo da economia brasileira não faz mais sentido algum neste terceiro ano de Dilma Rousseff. Não produziu nem ao menos os resultados desejados pela presidente, é incoerente e não prepara o país para dias melhores.

Isto posto, o que Dilma Rousseff pretende fazer? O problema começa aí: ao menos desde a segunda metade do seu ano de estreia, a presidente é uma mistura de Esfinge com Medusa. Não se sabe bem o que pensa nem para onde quer ir; paralisa todas as partes do governo para onde olha.

Se fosse apenas esse o problema, a confusão e o desnorteio de inícios de governo, Dilma estaria até em boa companhia.

Franklin Roosevelt, que virou a história americana de cabeça para baixo, tomou posse do governo dos Estados Unidos com um programa, começou a governar com outro e a seguir ainda mudou de ideia.

Quando assumiu, Abraham Lincoln não sabia nem onde ficava o cafezinho da Casa Branca, por assim dizer; era meio banana e considerado um jeca idiota por parlamentares e pelos seus secretários e generais mais importantes.

Pode-se dizer que os dois aprenderam uma ou outra coisa pelo caminho.

Mesmo Dilma se move, ainda que na undécima hora e em agonia ideológica teimosa. Quando viu que do mato do governo não sairia coelho ou investimento em infraestrutura, aceitou a contragosto privatizar estradas, aeroportos, portos. Mas, para não dar o braço a torcer, quis fazer uma privatização meio estatizada, com o que enrolou o meio de campo. Voltou atrás mais um bocado, e assim vamos, neste bolero capenga, dois para lá, um para cá.

Capenga mesmo é sua política macroeconômica, na verdade descoordenada de modo essencial: um pé vai adiante, outro recua. O Banco Central aumenta os juros a fim de, entre outras coisas, desestimular o consumo, pois a inflação é mesmo um problema. Mas o governo gasta mais, a fim de estimular a economia ou por negligência. Trocando em miúdos, o governo toma uma pílula para dormir bebendo um bule de café. Não vai prestar, claro.

Como tal política não faz sentido algum, a gente pode especular que a presidente talvez tenha mudado de ideia, enfim, e vai dar um jeito de evitar que as contas do governo mergulhem no vermelho onde já nadavam. O déficit público está na beira dos 2,5% do PIB em 2012 para bem mais de 3% do PIB neste ano.

Pode ser. Mas, ainda em março, a presidente dizia que não aceitava aumentos de juros ou baixas no crescimento a fim de controlar a inflação, como declarou desastradamente na África do Sul.

Espera-se que a presidente tenha atravessado outro período de agonia ideológica e esteja em paz com a ideia de que precisa dar um jeito ao menos no essencial de sua política econômica.

Além dos problemas que herdou, daqueles que não resolveu (alta de custos) e de outros que criou (desconfiança das empresas), há cascas de banana novas na calçada, o dólar subindo, o risco de mudança na política de juros nos EUA, a mudança de padrão no crescimento chinês, a desconexão brasileira das redes de comércio mundial etc. etc.

Está na hora de a presidente demonstrar que não é mais caloura, como tantos colegas ilustres o fizeram.

Alta de credibilidade

Editorial 
Folha de SPaulo

A decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) de aumentar a taxa básica de juros em meio ponto percentual, para 8% ao ano, mesmo com o decepcionante crescimento do PIB no primeiro trimestre, indica preocupação mais aguda com a inflação.

Após ter sua credibilidade erodida desde 2012 --pela incerteza quanto às intenções diante da piora do quadro inflacionário e pelas intromissões do Planalto--, o Copom busca enfim recompor suas credenciais de guardião da moeda.

A intenção de acelerar a alta dos juros havia sido sinalizada pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, ao longo das últimas semanas. Certamente decorreu do nível preocupante da inflação ao consumidor, a despeito de preços agrícolas estarem em queda no atacado.

Outro fator importante para a correção de rota foi o anúncio pelo governo federal de mais frouxidão no Orçamento. A meta de resultado primário (saldo de receitas e despesas antes dos gastos com juros) foi reduzida de 3,1% do PIB para 2,3%. E tudo indica que o resultado final ficará aquém disso.

A expansão dos gastos, avessa à necessidade do momento, realimenta a tendência inflacionária e deve ter preocupado o BC, que ainda mantinha em suas projeções a premissa otimista de um cumprimento da meta de superavit.

O lado positivo, para o governo, é que a decisão do BC pode prestar um grande favor à presidente. Em que pese a expectativa de redução da inflação no segundo semestre --é provável que o IPCA recue de 6,49% em abril (taxa acumulada em 12 meses) para menos de 6% no final do ano--, os riscos para 2014 são consideráveis.

A debilidade do PIB e a persistência da inflação constituem uma combinação esdrúxula, que pode piorar ainda mais caso o dólar continue a se valorizar, o que encarece importações e contribui para atiçar a inflação.

O pior cenário para Dilma Rousseff seria entrar em ano eleitoral com um estouro do teto (6,5%) da meta de inflação. Uma ação mais decidida para ancorar a inflação pode render-lhe bons dividendos.

A decisão do BC, apesar de amarga, vem em boa hora. Talvez consiga devolver alguma firmeza à gestão da economia, perdida em devaneios intervencionistas. Novamente, recai sobre a política monetária, sozinha, todo o ônus de evitar um cenário de descontrole macroeconômico.

O Brasil continua a impressionar o mundo, agora negativamente: é o único país de relevância cujos juros se encontram em ascensão.

Flutua, mas nem tanto

Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

Quem tomou ao pé da letra as últimas declarações do ministro da Fazenda e do presidente do Banco Central de que o câmbio voltou a ser flutuante deve estar decepcionado.

Ontem pela manhã, quando a cotação atingira R$ 2,147, o Banco Central interveio. Anunciou um leilão de venda no mercado futuro (swap cambial). E foi o que ainda limitou o fechamento à alta de apenas 1,75%. (Ao lado, os rastros das cotações do dólar no câmbio interno.)

Aí há dois pontos de análise: as causas da disparada e o resultado prático.

Tudo começou dia 22, quando Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) preparou os espíritos para uma virada de sua política monetária.

Hoje, o Fed despeja US$ 85 bilhões na compra de títulos no mercado financeiro. A operação conhecida como afrouxamento quantitativo (quantitative easing) objetiva criar condições para a retomada da atividade econômica dos Estados Unidos, prostrada pela crise. Desacelerar ou suspender (ainda não está claro) a operação implica emissão de menos dólares do que o esperado e, portanto, valorização em relação às outras moedas. Foi a principal razão pela qual o dólar ganhou força nos mercados e, com ele, reduziram-se as cotações das mercadorias negociadas na moeda, sobretudo commodities e ouro.

O movimento coincidiu com a percepção mais forte de deterioração da economia brasileira: mais inflação, crescimento decepcionante do PIB no primeiro trimestre e, fator relativamente novo, aumento do rombo das contas externas. Esse último está caracterizado pelo avanço do déficit em Conta Corrente, onde são contabilizadas entradas e saídas de moeda estrangeira no comércio de mercadorias e serviços e nas transferências ao/do exterior. É o melhor indicador para avaliar necessidades futuras de moeda estrangeira. Em quatro meses, o rombo saiu de 2,4% para 3,0% do PIB.

Isso não é tudo. A ênfase do ministro Guido Mantega e do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de que não interviriam mais no câmbio havia sido entendida como aviso de que o governo tem especial interesse na desvalorização do real, com o objetivo aparente de melhorar a competitividade do setor produtivo, principalmente da indústria.

A atitude de Mantega e de Tombini não foi dizer que "câmbio é assunto sobre o qual as autoridades não falam". Nem foi reafirmar que, no Brasil, continua em vigor o regime de "flutuação suja". Foi garantir que não haveria intervenção, a não ser para evitar excessiva volatilidade dos fluxos (entrada e saída de dólares), o que não aconteceu.

Independentemente do que dizem as autoridades, o leilão de ontem mostra que há limites para a desvalorização do real. Elas não olham só para a premência de garantir competitividade à indústria. Temem que uma disparada cambial turbine a inflação e ponha muito a perder.

Qual é o limite? Provavelmente, nem elas sabem. Mas já dá para avaliar que, se persistir, apenas a alta de maio pode ser suficiente par a puxar em 0,4 ponto porcentual a inflação dos próximos meses.

O governo parece desnorteado com a piora dos fundamentos da economia.

A conta sobrou para você

José Fucs, Isabel Clemente e Thais Lazzeri 
Com Marcos Coronato e Ana Luiza Cardoso
Revista ÉPOCA

Por que a velha classe média é quem mais sofre com a inflação – e paga o preço dos erros do governo

(Foto: Rafael Motta/NITRO/ÉPOCA)
NO SHOPPING
Alan Alencar com a mulher, Diane, e a filha, Laura. 
Em vez de restaurantes, fast-food. Em vez de cinema, TV pela internet

O mineiro Alan dos Santos Alencar, de 43 anos, responsável pela área de tecnologia de uma revenda da Volvo e professor universitário, teve de promover um ajuste dramático em suas contas para não ficar no vermelho. Depois de analisar em detalhes as despesas com sua mulher, Diane, de 42 anos, e a filha Laura, de 15 anos, ele se deu conta de que os gastos com restaurantes, cinemas e saídas à noite estavam pesados demais. Com uma renda familiar de R$ 8 mil, teve de adotar um remédio amargo, mas inevitável: cortar gastos. As idas semanais a restaurantes foram substituídas por refeições em praças de alimentação de shoppings. O cinema foi trocado por um serviço que oferece filmes e séries de TV pela internet. A viagem de férias da família ao exterior ficou para depois. Agora, Alencar diz que, antes de fazer qualquer compra expressiva, ele e Diane avaliam se o gasto é prioritário – e como impactará as contas e os projetos familiares no longo prazo. Sua filha passou a ter uma mesada de R$ 500 para cobrir suas despesas do dia a dia. “É uma maneira de ela aprender a administrar o próprio dinheiro – e de a gente controlar melhor os gastos”, afirma. “Descobri que ter uma adolescente em casa muda muito as contas de uma família.”

O caso de Alencar não é isolado. Hoje, no Brasil, milhões de famílias da classe média tradicional, que viviam com uma folga relativa até pouco tempo atrás, têm de fazer as contas e mudar os hábitos para manter o orçamento sob controle. Fazem parte desse contingente os assalariados e os empresários de pequeno e médio porte relativamente bem-sucedidos, com um patrimônio conquistado quase sempre com o próprio esforço, além dos profissionais em ascensão na carreira. Em sua maioria, eles têm diploma universitário, nível cultural elevado e estão acostumados a frequentar restaurantes, bares, cinemas e shows. Sempre que possível, viajam para fora do país com a família ou com os amigos. Segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV), a classe média tradicional, também chamada classe A/B, é uma massa formada por 21,5 milhões de pessoas, o equivalente a 11,2% da população brasileira. Embora sua importância econômica esteja diminuindo nos últimos anos, com a ascensão das faixas de menor renda, a classe média tradicional ainda representa cerca de um quarto do consumo nacional, de acordo com a Nielsen, uma empresa de pesquisa e análise de mercado – uma fatia estimada em cerca de R$ 800 bilhões por ano, equivalente a 35 vezes o custo do Bolsa Família para o governo em 2013. 

A classe A/B responde por 86% das matrículas em escolas particulares, 78% das viagens e 74% dos gastos com lazer e cultura do país. “O desenvolvimento nos últimos dez anos não contemplou a classe média tradicional”, diz o economista Waldir Quadros, professor da Universidade de Campinas (Unicamp). Estudioso da classe média brasileira, ele defendeu, no final dos anos 1970, sua tese de mestrado. “A classe média está espremida, nervosa.” 

Ao contrário do que ocorre com as faixas de renda mais baixa, o responsável pela alta no custo de vida dessa faixa da população não é a inflação do tomate ou de outros alimentos. A alta dos alimentos afeta todo mundo, mas pesa mais para os mais pobres. O que mexe com o bolso da classe A/B é um fenômeno chamado pelos economistas de “inflação de serviços”. Ela inclui itens como escolas, planos de saúde, empregadas domésticas, restaurantes e viagens, com maior peso no orçamento de quem ganha mais. Essa inflação dos serviços não se reflete plenamente nos principais indicadores de inflação do país. No IPCA, o índice oficial, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os serviços representam apenas 20% do total, embora alcancem 60% ou até 70% dos gastos familiares nas faixas de renda mais alta, segundo Renato Meirelles, diretor do Instituto Data Popular – voltado para o estudo do consumo dos emergentes e das faixas de menor poder de compra (classes C, D e E).

Cangaço no Leblon

João Ubaldo Ribeiro
 O Globo

‘Eu não aguento ouvir falar no Bolsa Família! Eu fico à beira de uma síncope! A legalização do jogo do bicho ia contribuir bastante para desbastar o Bolsa Família. Era só botar gente 

Começo de tarde ameno, atmosfera quase modorrenta no boteco. Até o pessoal que se posta nas mesas de fora, para melhormente apreciar a graça e o encanto da aplaudida e famosa mulher leblonina — a qual, no dizer inspirado de Dick Primavera, é o sorriso de Deus e o único consolo neste vale de lágrimas — está meio devagar. O desfile parece um pouco fraco, tudo indicando que as moças e senhoras, em vez de ir à praia, preferiram dormir até tarde, para consternação geral. E, no setor de debates sobre a complexa realidade nacional, o ambiente carecia da presença sempre estimulante do comandante Borges, que não apareceu no último domingo, reunido alhures com sua turma da velha guarda, para juntos rememorarem os tempos gloriosos em que desbravavam os ares daqui e d’além-mar, em aviões de todos os tipos e tamanhos. Recordar é viver, devia estar tirando o atrasado e ia faltar novamente.

Em razão dessa perspectiva, não foi sem algum alvoroço que o perceberam chegar, apear de sua admirada bicicleta elétrica de última geração e dirigir-se ao lugar de costume, sobraçando, com o semblante carrancudo, uma pasta cheia de papéis. Estabeleceu-se imediata curiosidade entre os presentes. O queixo empinado e o ar quase beligerante talvez significassem que aqueles papéis continham novos pormenores sobre o Plano Borges, que ele certamente ia expor e defender com o habitual vigor, como já fizera anteriormente. Mas não era nada disso, o que ele mesmo explicou, depois de notar que sua pasta havia chamado a atenção de todos.

— Isto aqui — disse ele — é a papelada que eu estou juntando para meu contrato com a empregada. Não vou deixar nenhuma brecha, comigo eles vão se dar mal, nenhum deles vai me tirar o couro.

— Eles quem, comandante?

— Eles! Todo mundo conhece a figura do advogado de porta de xadrez, não conhece? Esse é manjado, se bem que quem ganha dinheiro mesmo hoje em dia é advogado de porta de ministério, mas aí já é para o alto coturno. Pois muito bem, agora temos o advogado de porta de cozinha! Já deve haver umas quinze a vinte quadrilhas desses pilantras pelo Brasil afora, é um grande negócio, porque todo mundo sabe que a Justiça do Trabalho nunca dá ganho de causa ao empregador. Já deve existir uma quadrilha no Leblon, que dá uma gruja aos porteiros dos edifícios, para saber quem demitiu a empregada recentemente. Aí eles prometem muita grana à empregada que for na deles, desencavam tudo quanto é lei, regulamento e portaria e levam as calças do infeliz! Aqui pra eles! Comigo é tudo no papel e ainda vou montar uma central eletrônica para monitorar a empregada o dia todo! Eles não me pegam, chega de bandidagem! Voltem para a porta do xadrez, que lá não falta serviço, vão advogar para os traficantes, vão advogar para os bicheiros, a ilegalidade do bicho está ai mesmo, para todos se servirem.

— Não entendi bem.

— Deixe de ser burro, todo mundo ganha com o jogo do bicho na ilegalidade, aqui é assim. Tem jogatina patrocinada em tudo quanto é canto, só não pode o jogo do bicho. Está na cara por que não pode. Fica mais barato para o bicheiro, que não tem que pagar custos trabalhistas nem registrar ninguém e é uma boa fontezinha de renda para advogados, delegados, detetives, PMs e talvez mais outros. Todo mundo ganha, é por isso que o jogo do bicho é ilegal.

— Quer dizer que você é a favor da legalização.

— Eu sou. Mas não tanto para acabar essa mamata e, sim, para ajudar a amenizar outra mamata, o Bolsa Família. Eu não aguento ouvir falar no Bolsa Família! Eu fico à beira de uma síncope! A legalização do jogo do bicho ia contribuir bastante para desbastar o Bolsa Família. Era só botar gente atualmente viciada em Bolsa Família para trabalhar anotando bicho. Trabalho leve, na medida certa para o freguês do Bolsa Família, que não se dá bem pegando no pesado, que é que você me diz dessa ideia? Eu sei, você está discordando de mim. Falar em trabalho aqui no Brasil é uma falta grave! Vencer na vida é conseguir uma mamata! Emprego bom aqui é o de vigia, que recebe adicional de trabalho noturno e de periculosidade para dormir no emprego! Vida boa quem tem aqui é ladrão, bandido e cangaceiro!

— Ladrão e bandido, certo, mas cangaceiro não tem mais.

— Onde é que você mora? Eu sei, mora aqui mesmo no Rio. Mas não pense que, por morar no Rio, você está livre do cangaço, o cangaço agora é nacional, não é só no Nordeste, você vai ver. E já viu na Paraíba, faz uma semana. Os cangaceiros entraram numa cidade e tomaram conta de tudo, pior que no tempo de Lampião, com tiroteio, roubos de bancos, invasão de prédios públicos e tudo mais a que o cangaço tem direito. Cangaço moderno, com armas pesadas, carros poderosos, tudo coisa fina, ou melhor, coisa grossa. Daqui a pouco, entra definitivamente na moda, aqui essas coisas entram na moda. Nós somos muito adiantados e nossa legislação é ainda mais adiantada.

— Isso é pessimismo em demasia, não é, não?

— Pelo contrário, eu estou otimista! Eu acho que, quando o cangaço chegar aqui, não vai conseguir fechar o Leblon por mais que uns cinco dias, mesmo fazendo reféns. O Leblon, você sabe, é fácil de fechar, isto aqui é uma ilha. Eles fecham as saídas e…

— Comandante, isso é delírio, não pode acontecer.

— Claro que pode e só deixará de poder se chegar a guilhotina, que todo mundo sabe que é o melhor método porque não precisa de energia e os órgãos podem ser doados! Guilhotina! Robespierre! A cabeça deles!

Quando o tropeço é do PT, Dilma passa pomada

Josias de Souza


O brasileiro é um crédulo. Acredita em tudo o que o Planalto diz. Ele ficou feliz com a última nota da Presidência. Nela, leu que “são falsas as especulações de mudanças na direção da Caixa Econômica Federal.” Regozijou-se com o trecho que assegura que “a diretoria é formada por técnicos íntegros e comprometidos com as diretrizes da Caixa, com seus clientes e com seus beneficiários de programas tão importantes para o Brasil como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida.”

O brasileiro –que é crédulo, mas não é bobo— desconfiara da versão do presidente da Caixa para o rolo do Bolsa Família. Achou que falta nexo ao lero-lero do companheiro Jorge ‘Eu Não Sabia’ Hereda. A turma da informática da Caixa não seria maluca de antecipar, sem ordens superiores, os benefícios de mais de 13 milhões de brasileiros dependentes das arcas sociais.

O brasileiro não sabe se Hereda chegou à ideia de hospedar-se no mundo da fantasia usando seus próprios neurônios ou se foi empurrado para o descrédito por terceiros. Não sabe nem quer saber. Para o brasileiro, o que importa é perceber que a nota do Planalto desmente a veracidade da personagem em que Dilma  havia sido transformada pela mídia golpista. Nos fundões da alma da gerente fria e mal educada, implacável com subordinados incompetentes, mora uma doce companheira.

O brasileiro, cuja credulidade às vezes descamba para o otimismo, enxergou no episódio uma porta de saída para o Bolsa Família. Vai requisitar uma ficha de filiação ao PT. De preferência no mesmo diretório que guarda o registro partidário do doutor Hereda. Depois,  encaminhará o currículo ao Planalto. Quer trocar a mixaria do Bolsa Família por um contracheque de presidente da Caixa. O brasileiro sabe que sua formação é precária. Mas considera-se capaz de recitar a frase “eu não sabia’. Dispõe-se a caprichar na entonação.

História de um médico cubano

Sandro Vaia
Blog do Noblat

O Dr. Gilberto Velazco nasceu em 1980 em Havana e recebeu seu diploma de médico em 15 de julho de 2005.

No depoimento que me deu por e-mail e por telefone, disse que a sua graduação foi antecipada em um ano depois de uma “formação crítica e gravemente ruim”, excessivamente teórica, feita através de livros desatualizados, velhos, rasgados, faltando páginas, além de “uma forte doutrinação política”.

No hospital onde fez residência havia apenas dois aparelhos de raio X para atender todas as ocorrências noturnas de Havana e não dispunha sequer de reagentes para exames de glicemia.

Pouco adiantava prescrever remédios para os pacientes porque a maioria deles não estava disponível nas farmácias.

A situação médica no país é tão precária que Cuba está vivendo atualmente uma epidemia inédita de cólera e dengue.

Em 2 de fevereiro de 2006 foi enviado à Bolívia numa Brigada Médica de 140 integrantes -14 grupos de 10 médicos cada - que iria socorrer vítimas de inundações que nunca chegou a ver. 


No voo entre Cuba e a Bolívia conversou sobre assuntos médicos com o vizinho de poltrona e descobriu que ele não era médico, mas provavelmente oficial de inteligência cubana. Calcula que em cada 140 médicos 10 eram paramilitares.

Na Bolívia, onde lhe disseram que iria permanecer por 3 meses, ficou sabendo que deveria ficar no mínimo por 2 anos, recebendo 100 dólares de salário por mês e que a família receberia 50 dólares em Cuba - quantia que, segundo ele, nunca foi paga.

Viveu e trabalhou em Santa Cruz de la Sierra e em Porto Suarez, na fronteira com o Brasil.

Todos os componentes da Brigada recebiam um draconiano regulamento disciplinar de 12 páginas, dividido em 11 capítulos, que fixava desde horários e requisitos para permissões de saída até regras para relações amorosas com nativos e punia contatos com eventuais desertores.

Os médicos verdadeiros eram vigiados pelos falsos médicos que, segundo Gilberto, andavam com muito dinheiro e armas. Ainda assim, o Dr. Gilberto, em 29 de março de 2006, conseguiu pedir formalmente asilo político à Polícia Federal em Corumbá e foi enviado a São Paulo, onde ficou 11 meses.

Pediu à Polícia Federal a regularização de sua situação para poder fazer os Testes de Revalidação Médica exigidos pelo Conselho Federal de Medicina, mas o pedido de asilo foi negado.

Como o prazo de refúgio concedido pelo Conare - Comitê Nacional para os Refugiados - terminava em fevereiro de 2007, pediu asilo aos EUA no consulado de São Paulo, e em 2 de janeiro de 2007 viajou para Miami, Flórida, onde vive agora.

A família do Dr. Gilberto foi penalizada por sua deserção com 3 anos de proibição de viagem ao exterior, mas atualmente vive com ele na Flórida.

Ele trabalhou para uma empresa internacional de seguros de saúde, onde chegou a receber 50 mil dólares anuais, e atualmente está estudando para concluir os exames de revalidação de seu diploma médico nos EUA.

E se o impávido colosso acordar?

Maria Helena RR de Sousa
Brickmann & Associados Comunicação

Será que ela realmente acredita no que diz? Que fala com o coração, não duvido. É mãe, é avó, deve olhar os bacuris desnutridos que vê em suas viagens pelos grotões do Brasil quando vai lançar algum programa, ou palanquear, e com certeza fica com o coração apertado. 

As multidões que saíram às ruas de 12 estados do Brasil em busca de sua mesada, também chamada de Bolsa Família, impressionam e assustam. A rapidez com que a notícia se espalhou, num país do tamanho do nosso, e a determinação dos agraciados em defender o que é seu, dão muito que pensar.

Nem vou me deter no "melhor ensinar a pescar que dar o peixe" porque esse ensinamento já caiu no vazio. Pesquisando fotos desses dois dias de aflição, vi crianças, adolescentes e jovens com o cartão do benefício nas mãos. Alguns o empunham como um troféu, acenando com ele para o fotógrafo, como a desafiá-lo. Muito curioso.

Se o Governo Federal não se despir desse papel de Pai Natal e não acordar para a necessidade de organizar melhor o atendimento aos reais necessitados de ajuda - e os há, aos milhares - teremos em breve uma guerra civil neste Brasil que todos acham muito plácido.

Se há uma coisa que não falta no governo Dilma são auxiliares para a presidente. Ela tem 39 ministros e tudo que isso significa em matéria de assessores e auxiliares. Fora seu gabinete. Fora sua família e amigos pessoais. Será que não há ninguém que possa lhe dizer: 

Ou nós recadastramos e enxugamos muito a lista de beneficiários, agora, já, ou dentro de muito pouco tempo o que o boato espalhou pode vir a ser verdade, por falta de recursos. Até a Viúva pode ficar lisa como um quiabo. Não seria o primeiro país a quebrar! E aí, tudo pode acontecer.

Dona Dilma, em visita a Adis Abeba, Etiópia, depois de comentar a crueldade do boato, de dizer que o Governo Federal tudo fará para punir os responsáveis e de reconhecer que o programa Bolsa Família por ser gerido por humanos pode ter falhas, declarou o seguinte: 

— Eu acho que seria um simplismo total dizer que o Bolsa Família é pura e simplesmente uma distribuição de recursos, ou como alguns diziam no Brasil, um bolsa esmola. O Bolsa Família é uma sofisticada tecnologia pra garantir o aumento da igualdade no nosso país. (veja link de O Globo ao final)

Será que ela realmente acredita no que diz? Que fala com o coração, não duvido. É mãe, é avó, deve olhar os bacuris desnutridos que vê em suas viagens pelos grotões do Brasil quando vai lançar algum programa, ou palanquear, e com certeza fica com o coração apertado. Mas será que ela acredita que o Bolsa Família vai aumentar a igualdade em nosso país?

Reparem que ela nem diz diminuir a desigualdade. Diz logo aumentar a igualdade! Será que ela olhou, com muito cuidado e atenção, as fotos desses dois dias de medo? Será que reparou no número de pessoas jovens, fortes, em plena idade de produzir - e de procriar! - nas extensas filas que ocuparam ruas e agências da Caixa por longas horas? 

Dessa vez, o desmentido do boato veio ligeiro e o dano foi pequeno. Mas. no dia em que não houver desmentido que satisfaça a todos? 

Link para declaração em O Globo.



A fatura chegou

Izabelle Torres
Revista ISTOÉ

Dificuldade do governo em negociar com o Congresso fez Dilma Rousseff criar uma relação de dependência com um grupo seleto de políticos, que agora cobra a conta da vitória nas votações de interesse do Planalto

A presidenta Dilma Rousseff nunca teve talento e disposição para discutir pedidos e picuinhas dos políticos. Avessa à troca de favores e defensora do jogo bruto quando o assunto é chantagem parlamentar, Dilma tem se tornado vítima da falta de habilidade da própria articulação política. As negociações de última hora em torno de medidas provisórias prestes a perder a validade e a dificuldade em fazer o Congresso votar projetos relevantes apenas com base no mérito estão tornando a presidenta refém de um seleto grupo de aliados capazes de socorrer o governo e mudar o desfecho das votações. Como se viu na Medida Provisória dos Portos, essa ajuda de última hora pode funcionar. A questão é que aliados desse tipo têm um custo alto. Em troca do apoio, cobram cargos, distribuição de poder, liberação de emendas – que somam R$ 7,1 bilhões – e até interferências em decisões do Executivo que ainda estão sendo discutidas nos gabinetes ministeriais.


O presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), é um dos que apresentam a fatura. Além de ter sido um fiel escudeiro nas recentes votações, hoje ele tem nas mãos pedidos de abertura de 15 CPIs contra o governo e a missão de domar uma parcela do PMDB disposta a se bandear para a oposição. Em troca da manutenção da fidelidade quase canina ao governo, Henrique Alves quer que Dilma Rousseff não leve adiante o plano de desativar o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs), cabide de empregos para seus afilhados políticos. O deputado trabalha pela reestruturação do órgão e pelo aumento dos recursos destinados a ele e, claro, para manter–se à frente das indicações da diretoria. Alves também avisou ao vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB-SP), que quer ter a garantia de que, no Rio Grande do Norte, Dilma Rousseff subirá ao palanque onde ele estiver em 2014. 

A campanha do próximo ano também é uma das prioridades do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que busca apoio para disputar o governo de seu Estado natal. Durante a votação da MP dos Portos no Senado, ele driblou o regimento, fez acordos e garantiu a vitória para o governo. Mas avisou que havia chegado a seu limite e, na semana passada, mostrou que falava sério. Recusou-se a debater outra medida provisória estratégica, que reduz em 26% a conta de luz, com o argumento de que a proposta não chegou aos senadores com prazo de sete dias para ser lida. A decisão levou o Planalto a anunciar um decreto para garantir que o desconto não se encontre sob ameaça. 

Ciente do próprio poder, fruto de um pacto de dependência mútua entre o Planalto e o Congresso, Renan trabalha no presente para decidir o próprio futuro. Já de olho na realidade pós-eleitoral de Alagoas, empenhou-se numa causa que mistura o interesse geral e o particular. Tornou-se um dos líderes na luta pela correção do indexador das dívidas dos Estados brasileiros, em grande maioria asfixiados por regras financeiras que amarram investimentos e obras de infraestrutura. Renan batalha para trocar o IGP-DI pelo IPCA e fixar os juros em 4%, em vez de 8%, como acontece hoje, processo que fez a dívida de Alagoas crescer 120% em apenas dois anos.“É uma distorção que precisamos corrigir no diálogo com o governo”, diz ele. Caso venha a realizar a mudança, Alagoas passaria a ter uma folga de caixa estimada em R$ 300 milhões por ano. Se, por um motivo qualquer, Renan desistisse de concorrer ao governo do Estado, poderia colocar Renan Filho para encabeçar uma chapa – sempre com o crivo do Planalto. 

As trombadas e os conflitos do governo Dilma também abriram espaço para líderes governistas ocasionais, cuja atuação nas negociações foi tão bem-sucedida quanto deve ser dispendiosa em sua contrapartida. Embora tenha sido destituído, de forma humilhante, por Dilma Rousseff, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) arregaçou as mangas, levantou a cabeça e, na prática, exerce as funções de líder governista de fato no Senado – função que o líder formal, Eduardo Braga (PMDB-AM), não demonstra o menor apetite para exercer, tamanhas são as demonstrações de falta de autonomia e desprestígio no Planalto. Graças a Jucá, a presidenta desistiu da ideia de atropelar o Congresso e regulamentar por decreto a PEC das Domésticas.


Mas Jucá não quer apenas ter seu papel de legislador respeitado. Ele tem interesses bem mais ambiciosos. Sua filha é dona de empresa Boa Vista Mineração, que aguarda autorização do governo para explorar ouro em terras indígenas. Não por acaso, o senador tem pedido para participar diretamente das discussões sobre o marco regulatório da mineração, que será votado no próximo mês. 

O apoio e a dedicação do líder petebista Gim Argello (DF) nas votações de interesse do Planalto também terão seu custo. Depois de fazer corpo a corpo em busca de acordos para votar projetos e medidas provisórias, Gim já avisou que quer um ministério para chamar de seu. Logo depois da votação da MP dos Portos, ele conversou com a ministra Ideli Salvatti e disse que o PTB espera a indicação do senador João Vicente Claudino (PI) para o Ministério da Ciência e Tecnologia. Avisou que pretende dizer isso pessoalmente à presidenta Dilma. “O PTB é um fiel aliado e espera por espaço”, disse ele. 

A lista de parlamentares com poderes e cacife para apresentar demandas específicas é ainda mais extensa. Inclui políticos como o escanteado Danilo Forte (PMDB-CE), que vai relatar a Lei de Diretrizes Orçamentárias em plena discussão sobre orçamento impositivo, considerado uma ameaça ao governo. Forte quer retomar o poder de indicações na Funasa. As dificuldades de agradar e negociar com os próprios aliados vão aumentando a fatura que Dilma terá de pagar aos bombeiros das crises palacianas. Se continuar no descompasso atual, a conta ficará salgada demais.

Foto: CELSO JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO/AE

O PT em estado de rebelião

Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

O bate cabeça entre PT e PMDB vem de muito tempo, mas agora piorou. Entre os companheiros, a maioria sustenta que os aliados devem ser levados a definir-se de imediato: ou ficam e votam com o governo, no Congresso, ou saltam de banda, entregando seus ministérios. O que não dá é para o PMDB ficar exigindo o sacrifício de candidatos do PT aos governos estaduais sem a óbvia correspondência numa série de estados.

Os problemas da presidente Dilma não se limitam ao  mau relacionamento dos dois maiores partidos de sua base. Os reclamos contra o governo avolumam-se no próprio PT, com boa parte de seus parlamentares culpando ministros e a própria presidente pela falta de unidade de comando político. Sendo 2014 ano de eleições gerais, a previsão é de que a temperatura vai subir ainda mais. Os petistas estão percebendo a possibilidade de eleger menores bancadas que as atuais, caso não disponham de um entrosamento perfeito com o palácio do  Planalto.

Indaga-se da possibilidade de um refluxo da crise, duvidando-se de que  o ex-presidente Lula disponha de condições para dar ordem unida no seu partido. No caso, apenas a presidente Dilma seria capaz de restabelecer a paz, na hipótese de arregaçar as mangas e dedicar-se a aparar as arestas. Como?

Primeiro dispensando a ministra da Coordenação Política, Ideli Salvatti. Depois, limitando a chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, a tratar de assuntos administrativos, sem ingerência nos assuntos políticos. Em seguida, pedindo às suas bancadas  a indicação de um nome para exercer ao mesmo tempo o ministério da Coordenação Política e a liderança na Câmara, em  linha direta com a presidente.

A pergunta é se Dilma estaria  disposta a  dividir seu tempo entre a administração e a política. Parece que não. Nunca foi de seu estilo receber e dialogar com deputados e senadores, enfrentando pedidos e reivindicações de toda ordem. Por isso estimula  a intermediação das duas ministras.

CONTRA A LÓGICA 
Fica difícil entender porque o Congresso admitiu cercear o Ministério Público, atendendo a  pretensão dos delegados de polícia de excluir promotores e procuradores de investigações criminais. Deveria prevalecer a regra básica, de que quanto mais investigações de um crime, maiores condições existiriam para sua apuração e a punição dos criminosos. Numa época em que tanto se combate a tal reserva de mercado, deputados e senadores trafegam na contramão.  As prerrogativas dos delegados são irremovíveis.

PIOR SE DER CERTO
No final da guerra do Pacífico, com o Japão derrotado e as tropas americanas preparando o que seria a mais formidável invasão de um país, imaginando-se quantos  jovens americanos seriam mortos ou feridos, o recém-empossado presidente Harry Truman autorizou o uso da bomba atômica. Poupou a vida de centenas de milhares de soldados americanos, ainda que às custas do sacrifício de civis japoneses, em especial crianças, mulheres e velhos.

Perguntaram ao  general MacArthur, comandante em chefe que liderava os preparativos da invasão, o que aconteceria caso o lançamento da bomba não desse certo. Irritado, ele respondeu estar muito mais preocupado se a bomba desse certo…

É essa a expectativa que cerca a sucessão presidencial do ano que vem. E se a reeleição da presidente Dilma der certo?

SOBERBA, PRESUNÇÃO E IGNORÂNCIA
Faltando três dias para a inauguração oficial do estádio do Maracanã, completamente remodelado, um promotor público pede sua interdição e a suspensão da partida  anunciada entre as seleções do Brasil e da Inglaterra. Uma juíza concede a liminar, na tarde do feriado religioso de ontem, para valer no domingo. Convenhamos, se era para aparecer, melhor teriam feito a juíza e o promotor se pendurassem melancias no pescoço. Não se preocuparam com a repercussão  de suas iniciativas no universo do coletivo nacional. Certamente ignoraram os debates do processo do mensalão, onde prevaleceu a teoria do domínio do fato.  Claro que a CBF, como sempre, incorreu em monumentais irregularidades. O governo do Rio de Janeiro, também. Acrescente-se outras entidades. Mas imaginar-se acima dos valores da sociedade, dando de ombros para o risco de frustrar milhares de espectadores na antiga capital,   milhões de telespectadores no país inteiro, para não falar no planeta, foi demonstração de  soberba, arrogância e megalomania.  Dois cidadãos, por maior cultura jurídica de que disponham, não podem desafiar a alma nacional, da qual o futebol faz parte.  Seria o mesmo de que por conta do aumento de crimes durante o Carnaval, proibissem o desfile das Escolas de Samba,   através de uma liminar. Ou porque existem padres pedófilos, impedir as crianças de ir à missa.

O Ministério Público e o Judiciário teriam outras formas para punir a desídia das autoridades esportivas.  Preventivamente, estabelecendo multas e até prisão para os responsáveis pela entrega incompleta do estádio. Com muito mais veemência e inflexibilidade caso se verificassem, durante a partida,  confrontos causadores de acidentes maiores e menores.   Suspender o espetáculo, porém, cujos riscos se debitariam a seus organizadores, significou investir contra o sentimento popular.

Felizmente, liminares concedidas na primeira instância do judiciário costumam ser revistas e cassadas nos tribunais. Pode ser que hoje, sexta-feira, tudo não tenha passado de um pesadelo, e que a juíza e o promotor tenham retornado ao anonimato de onde jamais deveriam ter saído, por decisão de algum desembargador.   Claro que com a severa responsabilização das autoridades que deixaram de cumprir suas  obrigações. Até dos empreiteiros que não retiraram o entulho das obras conforme o contratado.

Nesse episódio de horror ainda inconcluso, a ironia ficou com a equipe inglesa, já desembarcada no Brasil: “Se não tiver estádio, jogaremos na praia de Copacabana”…

As forças retrógrado-petistas

Miguel Reale Júnior  
O Estado de S.Paulo

Em maio de 2011 foi apresentada no Congresso Nacional a Proposta de Emenda Constitucional n.º 33 (PEC 33), de iniciativa do deputado Nazareno Fonteles (PT-PI). Por essa emenda se impõe grave restrição ao poder jurisdicional do Supremo Tribunal Federal (STF) como forma de combater o "ativismo judicial". Na justificativa da emenda afirma-se que o STF, sem legitimidade eleitoral, passou a ser um legislador ativo, pois, indo além da solução do caso concreto, cria normas invadindo a atribuição reservada aos parlamentares, os únicos legisladores.

A PEC 33 ficou em "banho-maria" por mais de ano e meio, tendo sido apresentado na Comissão de Justiça parecer favorável à sua admissibilidade apenas em dezembro de 2012 e reconhecida sua constitucionalidade em abril do corrente ano, com publicação da decisão 15 dias atrás.

Dois fatores foram desencadeadores da agilização do procedimento para apreciação da PEC: o julgamento do mensalão e a sustação liminar da tramitação do projeto de lei, aprovado na Câmara dos Deputados, impondo limitação ao uso do Fundo Partidário e do tempo de televisão aos novos partidos a serem constituídos.

Merece ser ressaltado o conteúdo autoritário das duas propostas legislativas, que têm em comum pretender limitar o exercício da democracia, um submetendo o Judiciário ao Legislativo, o outro criando insegurança à ida de parlamentares para um novo partido, com efeito imediato durante a própria tramitação, uma forma insidiosa de estrangular o surgimento de agremiações, garantindo-se, de outro lado, maior tempo de televisão aos partidos da base governista, como forma de se tentar perpetuar no poder a coligação entre políticos retrógrados e petistas que domina o País.

Cabe, então, uma breve a análise do teor desses dois projetos. A Proposta de Emenda Constitucional n.º 33/11 constitui uma verdadeira aberração: primeiramente, pretende-se garantir a intocabilidade das leis consideradas inconstitucionais pela maioria dos ministros do STF, pois a Constituição passaria a exigir para decretação da inconstitucionalidade das leis que esse reconhecimento fosse feito por quatro quintos dos ministros do STF. Assim, apenas se 9 dos 11 ministros entenderem a lei inconstitucional será ela assim reconhecida. Se 8 ministros considerarem inconstitucional a norma, esta permanecerá eficaz, pois sua inconstitucionalidade foi reconhecida "apenas" por três quartos dos ministros. Dessa forma se pretende instalar a supremacia do Legislativo, cujas afrontas à Constituição devem ser perenizadas autorizando-se que lei, reconhecida inconstitucional pela maioria do STF, permaneça intangida.

Em outro artigo, a proposta de emenda generosamente permite ao STF criar súmula, também por quatro quintos dos seus membros, mas que somente terá força vinculante se tal efeito lhe for outorgado pelo Congresso Nacional. Recebida a comunicação de prolação da súmula pelo STF, o Congresso terá prazo de 90 dias para deliberar, em sessão conjunta, por maioria absoluta, sobre o seu efeito vinculante.

Assim, em matéria de cunho eminentemente jurisdicional como o relativo à interpretação de norma constitucional tributária, o entendimento, mesmo de quatro quintos do STF, apenas terá força vinculante para a administração pública se o Congresso entender de atribuir a tal enunciado esse efeito. A decisão técnico-jurídica do STF, fruto de decisão de quatro quintos de seus membros, ficará, então, sujeita ao crivo do Congresso Nacional, o único que, em sua suprema onisciência, poderá ou não dar força vinculante a uma súmula!

Em outro dispositivo se chega a mais um absurdo: se o STF reconhecer a inconstitucionalidade de uma emenda constitucional, como essa mesmo, por exemplo, tal decisão não terá efeitos imediatos, mas dependerá de apreciação do Congresso, que julga o julgamento do STF. Se o Congresso rejeitar a decisão do STF, a matéria será objeto de consulta popular, um plebiscito, para que o povo diretamente avalie se a emenda constitucional é constitucional ou inconstitucional, se deve ou não ter eficácia. Avilta-se o STF em favor de um populismo perigoso ao se submeter questão técnica de inconstitucionalidade à apreciação da população!

De outra parte, o Projeto n.º 4.470/2012, já aprovado na Câmara dos Deputados, torna impossível a transferência dos recursos do Fundo Partidário e do horário de propaganda eleitoral no rádio e na televisão proporcionalmente ao número de deputados que venham a integrar o novo partido, com isso desestimulando a migração de parlamentares para agremiações em formação.

Com toda a razão se argumenta que o projeto leva ao esvaziamento do direito fundamental à livre criação de partidos e do pluralismo político, em ofensa ao já decidido pelo STF em ação direta de inconstitucionalidade, a ADI 4.430.

Assim, diante do perigo iminente de dano à liberdade política, o ministro Gilmar Mendes deu liminar para sustar a tramitação do projeto, cujos efeitos nefastos já se faziam presentes. Foi o bastante para se espalhar a revolta dos parlamentares governistas em nome de um "espírito de corpo", para chamar às falas a "honra" do Congresso, pois o STF teria interferido na apreciação de projeto ainda em votação, intrometendo-se no curso do processo legislativo.

Cabe ver, contudo, que o efeito pretendido pela maioria governista de intimidar colegas a não se transferirem para novas agremiações já se estava consumando no decorrer do processo legislativo, garantindo-se, pela mera ameaça, o garroteamento de novos partidos e a satisfação da fome de poder das forças retrógrado-petistas.

Esse quadro autoritário, fruto da aliança dos chefetes desde ontem com a corporação petista instalada na burocracia, é próprio dos atuais donos do poder.

De onde não se espera

Míriam Leitão 
O Globo

Será um enredo bem inesperado se o senador Renan Calheiros se transformar no fiador da defesa institucional do Congresso.

Pelo inusitado da articulação política do governo, coube ao senador o improvável papel de grande defensor das instituições. Foi ele quem disse à ministra-chefe da Casa Civil que ela não estava entendendo a dimensão do Legislativo.

Renan saiu de mandatos opacos na política ao embarcar no expresso que partiu de Alagoas rumo ao Palácio do Planalto pilotado por Fernando Collor. Dele se afastou em tempo hábil para salvar-se, quando o então presidente afundava no impeachment.

No governo Fernando Henrique, chegou ao cargo de ministro da Justiça. Anos depois, envolveu-se numa rocambolesca história de contas íntimas pagas por empreiteira, mas também evadiu-se da presidência do Senado a tempo de evitar a Comissão de Ética. Renunciando ao posto, acabou absolvido por seus pares em uma votação secreta.

Quando iniciou sua caminhada de volta ao comando do Senado, a mídia social conseguiu, em poucos dias, coletar um milhão de assinaturas de protesto. Foram insuficientes para alterar a ordem antinatural das coisas, e ele voltou ao cargo.

Deste alto posto de comandante, ele conseguiu, na semana passada, ancorar o desgovernado navio da MP dos portos, com manobras regimentais de velocidade estonteante.

Fez sete dias em uma tarde e aprovou a MP. Alertou que seria a última vez, porque daqui para diante exigiria que fosse respeitado maior prazo para que uma MP chegasse da Câmara.

Foi quando apareceu por lá, já com os dias contados, a MP 605, que dá novo destino aos recursos da Conta de Desenvolvimento Energético, para que ela pague parte da redução do preço da energia.

Redução essa que ocorre quando o custo da energia para o sistema tem ficado mais caro. É mais uma MP na contramão dos fatos econômicos, mas ela morreu no Senado porque não respeitou a ordem dos dias.

Curioso, realmente, é tentar entender tanto atropelo. A presidente Dilma Rousseff tem uma vasta base parlamentar. Tão agigantada que precisou montar um governo-transatlântico, com 39 ministros.

“Algo não está muito bem”, constatou o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves. O deputado, que tem tido o sol do Rio Grande do Norte por testemunha da longevidade dos Alves na política do estado, avisou que não era o caso de tapar o sol com a peneira. “Não é possível, com 420 deputados da base não conseguir colocar 257 em uma sessão decisiva.” Como integrante desse grupo numeroso, ele deve dirigir essa dúvida, entre outros, a ele mesmo.

Na refrega que levou à derrota do governo na MP 605, deu-se então o esclarecedor diálogo narrado no GLOBO de ontem pelos repórteres Maria Lima, Paulo Celso Pereira e Júnia Gama. A ministra Gleisi Hoffmann teria dispensado as negociações do presidente do Senado para salvar a MP afirmando que já tinha acertado tudo com a Marta Lyra, que ocupa o cargo de assessora parlamentar do Ministério de Minas e Energia.

Ou seja, a ministra-chefe da Casa Civil estava dizendo ao presidente do Senado que dispensava sua atuação porque já havia acertado como aprovar a MP em conversa com uma assessora parlamentar.

Gleisi desembarcou na chefia da Casa Civil com a experiência de ter sido assessora parlamentar na Assembleia Legislativa do Paraná e de ter sido derrotada na campanha eleitoral para a prefeitura de Curitiba. Essa primeira derrota lhe rendeu um cargo precioso: o de diretora financeira de Itaipu.

De lá, preparou sua segunda campanha, que a levou ao Senado. Em pouco tempo de mandato, chegou à Casa Civil. Com tal experiência em queimar etapas, ela quis fazer o mesmo, acertando como o Senado deveria votar numa conversa com a assessora parlamentar do Ministério de Minas e Energia.

Foi quando, em surpreendente lance da novela, o senador Renan, ele mesmo, diz: “Como assim, acertou com Marta Lyra? A senhora enlouqueceu? Está confundindo as coisas, não está entendendo a dimensão do que é o Legislativo.”

Numa democracia, como aprendemos, o Congresso tem enorme dimensão. O atual Executivo e o próprio Legislativo têm feito esforços para apequená-lo. A ponto de o reforço para a defesa das suas prerrogativas institucionais vir agora até de onde menos se espera.

Duas semanas depois daquele sábado delirante, só se comprovou que o Brasil está sob o domínio de um bando de incapazes capazes de tudo

Augusto Nunes
Veja online

Incumbida de identificar os responsáveis pelo sábado espantoso, a Polícia Federal já desperdiçou duas semanas com investigações tão necessárias quanto o Ministério da Pesca. Alguns agentes gastaram tempo e dinheiro na perseguição a uma empresa de telemarketing que nunca existiu. Outros seguem interrogando beneficiários do Bolsa-Família: querem saber por que sacaram antes da hora, mais precisamente no dia 18, o dinheiro depositado pela Caixa antes da hora – e colocado à disposição da freguesia pelo menos desde o dia 17. É como perguntar a uma vítima da seca por que bebeu mais cedo a água do carro-pipa que chegou mais cedo.

Escalado para impedir o esclarecimento do episódio, José Eduardo Cardozo tem interpretado com muita aplicação o papel de Inspetor Clouseau que fala dilmês. “Não é um delito fácil de ser investigado por força da atuação difusa em todo o território nacional”, pontificou na primeira cena. Na segunda, ficou alguns segundos em silêncio de sábio chinês antes de deslumbrar os jornalistas com a mistura de concisão e sagacidade: “Nenhuma hipótese pode ser descartada”.

Na terceira cena, Cardozo esvaziou o estoque de advérbios para emitir um parecer de sherloque doidão: “Evidentemente houve uma ação de muita sintonia em vários pontos do território nacional, o que pode ensejar a avaliação de que alguém quis fazer isso deliberadamente, planejadamente, articuladamente”. Numa única frase, quatro palavras terminadas em “mente”. Quatro rimas pobres para gente que mente.

Se o governo efetivamente pretendesse desvendar a gestação da corrida aos guichês de pagamento da mesada, é na Caixa que a Polícia Federal estaria em ação. Se os homens da lei quiserem de fato enquadrar vilões, é lá que estão homiziados. A operação que terminou com um tiro no pé foi concebida e executada pelos diretores da instituição, todos nomeados ou mantidos no cargo por Dilma Rousseff.

Os companheiros da Caixa teriam evitado a onda de saques e sobressaltos se tivessem guardado uma gota no oceano de publicidade enganosa para comunicar aos interessados que a distribuição dos donativos fora antecipada. Por motivos ainda ignorados, optaram pelo depósito secreto. Na sexta-feira, alguns clientes do Bolsa-Família descobriram que o dinheiro chegara antes da data aprazada. Transmitiram a boa notícia a parentes, amigos e vizinhos, que passaram adiante a informação. A coisa ganhou volume e o estouro da boiada virou questão de tempo.

Como o governo lulopetista jamais perde uma chance de acrescentar outro capítulo ao espetáculo do cinismo encenado há mais de dez anos, o Brasil que pensa foi afrontado durante cinco dias pelo recomeço da Ópera dos Malandros. A procissão de mentiras foi aberta pelo presidente da Caixa, Jorge Hereda. Caprichando na pose de pronto-socorro dos aflitos, jurou que tivera de montar um esquema de emergência para distribuir pelos postos de pagamento, ainda no sábado, os R$ 2 bilhões de maio.

“É algo absurdamente desumano”, encolerizou-se a presidente. “O autor desse boato é criminoso”. Lula enxergou por trás de tudo a mão de “gente do mal”. O ex-jornalista Rui Falcão ficou à beira do chilique com o “terrorismo eleitoral”. A tuiteira Maria do Rosário acusou a “central de boatos da oposição” de espalhar rumores dando conta do fim iminente do maior programa oficial de compra de votos do mundo.

A verdade só escapou de mais assassinatos porque a Folha de S. Paulo provou que a liberação dos recursos do Bolsa-Família fora autorizada antes do sábado. Desmascarada a farsa, Jorge Hereda reduziu a delinquência a “erro” e transferiu a culpa para um subordinado que teria decidido mudar a data do pagamento sem consultar o chefe. Mesmo na mixórdia em que a Caixa se transformou depois de colocada a serviço de interesses político-partidários, ninguém ousaria montar uma operação bilionária sem o aval do presidente – que não se atreveria a endossá-la sem o amém da presidente.

Apesar disso, ou por isso mesmo, Dilma fez questão de comunicar à nação que nenhum dos envolvidos na história muito mal contada ficará desempregado. “A diretoria é formada por técnicos íntegros e comprometidos com as diretrizes da CEF, com seus clientes e com os beneficiários de programas tão importantes para o Brasil como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida”, constata a nota oficial divulgada pelo Planalto.

Baiano de Salvador, o arquiteto e urbanista Jorge Hereda tem tanta intimidade com assuntos bancários quanto Lula com o plural. Coerentemente, a equipe de “técnicos íntegros”que lidera produz proezas como a que inspirou a nota do jornalista Carlos Brickmann: 

No tumulto do Bolsa-Família, a Caixa descobriu que 692 mil famílias têm dois cadastros e recebem dois auxílios (talvez seja por isso que, como disseram à TV, haja quem compre jeans de R$ 300 para a filha e pingue mensalmente algum na poupança). Custo do pagamento ilegal? R$ 100 milhões por mês.

“Nos governos do PT há os incapazes e os capazes de tudo”, afirmou o deputado Duarte Nogueira, presidente do PSDB de São Paulo. “Maria do Rosário talvez seja os dois tipos: uma incapaz capaz de tudo”. O dirigente tucano teria formulado um diagnóstico irretocável se examinasse mais atentamente a fauna no poder. Alguma degeneração genética provocou a fusão das duas categorias. Hoje todos são ineptos sem pudores nem limites.

A Polícia Federal pode dispensar-se de continuar investigando o que houve no sábado delirante. Foi mais uma façanha dos incapazes capazes de tudo.

Vexame nacional

Marcos Cintra (*)
Brickmann & Associados Comunicação

...O Brasil precisa empreender uma faxina gigantesca em suas instituições. É necessário combater esse tumor maligno impregnado na vida pública que é a corrupção. 

Como sempre faz todos os anos, a entidade Transparência Internacional analisou 176 países para classificar onde a corrupção corre mais solta. Em países como a Dinamarca, Finlândia e Nova Zelândia, por exemplo, os índices são baixíssimos. Os mais corruptos são Afeganistão, Coréia do Norte e Somália.

O Brasil continua dando vexame ao ocupar a 69ª posição. A corrupção continua sendo uma endemia nacional. Uma vergonha! Países latino-americanos como o Chile e Uruguai são apontados como menos corruptos que o Brasil.

Conforme sempre aponta a entidade, a corrupção nos grandes projetos públicos é um dos maiores canais de desvio de dinheiro público e representa um enorme entrave para o desenvolvimento de um País. Os recursos roubados dos cofres públicos diminuem os investimentos em áreas vitais como saúde e educação e nas ações de combate à pobreza.

É triste, revoltante e preocupante o que acontece com o suado dinheiro do contribuinte brasileiro entregue ao poder público. A classe média não aguenta mais pagar tanto imposto e ver que boa parte vai pelo enorme ralo da corrupção. Para piorar, sofre os terríveis efeitos do aumento da miséria causada pela carência de investimentos sociais.

Em anos recentes, ações empreendidas pela Polícia Federal e Ministério Público desbarataram quadrilhas que atuavam em diferentes segmentos da vida pública. No entanto, parece que todo o impacto causado pela dimensão dos crimes apurados representa uma pequena fração das negociatas que ainda ocorrem no submundo da vida pública.

O Brasil precisa empreender uma faxina gigantesca em suas instituições. É necessário combater esse tumor maligno impregnado na vida pública que é a corrupção. Não é possível que o brasileiro tenha que trabalhar mais de quatro meses no ano para abastecer os cofres públicos e uma minoria se aproprie de parte desses recursos de maneira inescrupulosa e sorrateira.

O princípio da restrição orçamentária vale para qualquer agente econômico. Mais do que crescer, o País precisa resgatar uma enorme parcela marginalizada da população. Tudo isso demanda recursos que precisam ser aplicados de modo eficaz e eficiente. Com orçamentos públicos já insuficientes frente à grande demanda social, torna-se dramático investir com a corrupção comendo parte do dinheiro. 

Tanto a grande corrupção, que envolve somas vultosas como o superfaturamento de obras e as fraudes em licitações e concorrências, assim como a pequena corrupção, traduzida em valores relativamente baixos de subornos e propinas, condenam cada vez mais pessoas à miséria material, moral e intelectual.

Em algum momento o Brasil terá que passar por uma faxina. A degradação moral dos que deveriam zelar pela eficiência na gestão pública e pela qualidade de vida do cidadão está contribuindo para a proliferação da violência e da ignorância.

(*) Marcos Cintra - É doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.

Bolsa-Família e autobullying do governo

Murilo Rocha
Tribuna da Imprensa

À medida que avançam as investigações sobre o boato do fim do Bolsa Família, o governo federal vem sendo exposto, de forma constrangedora e involuntária, a uma espécie de “autobullying”. O Planalto está sendo obrigado a trazer à tona, na melhor das hipóteses, uma total falta de comunicação, de gerenciamento público. É inexplicável, por exemplo, o fato de o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Hereda, desconhecer a antecipação agendada do pagamento do mês de maio a todos os beneficiários do programa, no valor de R$ 2 bilhões.

Na semana passada, Hereda veio a público para afirmar que a Caixa só liberou o dinheiro porque houve um corre-corre às agências, nos dias 18 e 19 de maio, provocado pela divulgação de uma informação falsa sobre a extinção do repasse. Nesta semana, pressionado, Hereda mudou de ideia e de versão e pediu desculpas.

Na verdade, a Caixa – não se sabe ainda o motivo – decidiu pagar a todos os beneficiários no dia 17 de maio – geralmente, o dinheiro cai na conta das pessoas atendidas pelo programa no fim do mês. Portanto, a ordem é inversa: primeiro, a Caixa liberou o dinheiro, depois, iniciaram-se o telefone sem fio e os milhares de saques de beneficiários. E, apesar de ninguém do banco nem do governo admitir, essa antecipação inesperada teria sido a causa, ou pelo menos um forte difusor, do boato sobre o fim do Bolsa Família.

E como fica a presidente Dilma nessa história? E a ministra Maria do Rosário? A primeira chamou de “criminosa” a ação de espalhar informação sobre o fim do Bolsa Família enquanto a segunda não teve dúvida de culpar, em seu Twitter, a oposição por tamanha maldade. Se Dilma é tão apegada a dar esporros por falhas administrativas e intolerante com erros de gestão, com certeza alguém deverá pagar por ter imposto esse monstruoso mico ao Planalto.

A oposição cobra um pedido de desculpas, e a imprensa quer esclarecer pontos sombrios dessa ação desastrosa. Por que o pagamento foi antecipado? Quem decidiu e deliberou a medida? Por que o presidente da Caixa deu uma versão em uma semana e, depois, se desculpou pela informação errada? É possível alguém decidir mudar a data de pagamento do Bolsa Família sem o conhecimento do presidente da Caixa ou de membros do primeiro escalão do Planalto, incluindo aí a presidente Dilma?

CENSURA EM MINAS
A proposta com viés de censura do governo estadual, enviada à Assembleia, de impedir o acesso da imprensa a informações públicas de ações internas e processos investigados pela Polícia Civil de Minas Gerais causou reação em entidades representativas de jornalistas em todo o país. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) criticaram a medida, classificando-a como “autoritária” e contrária à “liberdade de informação”. Estranhamente, o Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais preferiu abster-se da discussão. (transcrito do O Tempo)

A derrapagem da Caixa

Izabelle Torres e Josie Jeronimo
Revista ISTOÉ

Banco se enrola em contradições sobre as falhas técnicas no programa Bolsa Família, enquanto o governo investiga o que provocou a corrida desenfreada para sacar o benefício

LAMBANÇA
Dilma admitiu a necessidade da revisão de processos e o
presidente da Caixa, Jorge Hereda, teve de pedir desculpas

Duas semanas depois que meio milhão de pessoas fizeram fila em terminais bancários para limpar as contas-benefício do Bolsa Família,  os dirigentes da Caixa Econômica Federal ainda não conseguiram oferecer explicações consistentes sobre o que aconteceu. No plano técnico, o banco foi capaz de apresentar três versões contraditórias em apenas 72 horas. No plano político, autoridades do governo também ajudaram a aumentar a confusão, denunciando – ainda sem comprovação – uma conspiração para desmoralizar o programa Bolsa Família.  A ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos, chegou a identificar uma ação da oposição.  

 A presidenta Dilma Rousseff reconheceu que houve falhas e se comprometeu a corrigi-las. Por envolver aspectos técnicos, que deveriam ser amplamente conhecidos por seus dirigentes,  as falhas de procedimento que envolveram os saques são particularmente constrangedoras.  Primeiro, a Caixa tentou negar que tivesse ocorrido qualquer anormalidade. Depois, disse que liberou dinheiro para evitar tumultos. Por fim, atribuiu à atualização de segurança no sistema a liberação de saques fora do prazo oficial. A contradição foi logo descoberta e o presidente da Caixa, Jorge Hereda, teve de pedir desculpas públicas em nome da instituição. O banco responde pelo mais ambicioso programa social brasileiro, assegurando um conforto mínimo a 13,4 milhões de  famílias que residem no mais baixo patamar da distribuição de renda. A direção da Caixa ainda deve respostas a duas perguntas elementares. Qual foi a falha técnica que liberou R$ 152 milhões em saques fora do calendário padrão? Houve influência política no episódio?

Entre as poucas certezas disponíveis, sabe-se que o banco estava empenhado em realizar uma varredura para detectar fraude de duplicidade de pagamento em 700 mil registros. O método de verificação pode ter deixado o sistema vulnerável. “Eu sou bancário, sei como funciona. Quando tem uma varredura geral é criada uma trava que pode afetar todo sistema. Mas acho que só boatos boca a boca não teriam chegado a essa dimensão”, afirma o senador Wellington Dias (PT-PI), funcionário de carreira da Caixa.



O mais curioso é que o episódio encerrou-se sem que nenhum beneficiário do programa Bolsa Família fosse financeiramente prejudicado. Nenhum cliente deixou de ser atendido e, cedo ou tarde, os cidadãos que, na confusão, receberam benefícios que não deveriam terão de ressarcir a instituição. Sem a mesma grandeza, episódios comparáveis já ocorreram no passado. Em 2010, o banco repassou indevidamente  nada menos do que R$ 153 milhões para a conta de 82.595 famílias beneficiárias do programa Bolsa Família. Todas foram localizadas e iniciaram um programa de reembolso, dividido em 27 parcelas que começaram a ser pagas a partir de março de 2011.

O principal prejuízo da operação mais recente envolve a credibilidade da instituição, que será afetada não só pelo episódio em si, mas pelo acúmulo de explicações sem cabimento. Semanas antes das cenas de batalha em suas agências, a cúpula da Caixa se reuniu para discutir planos de modernização do banco, com enxugamento de gastos com pessoal, política de agilidade no atendimento e mudanças nos postos de chefia intermediária e no primeiro escalão. Como sempre acontece nessas horas, o vazamento das novas medidas gerou insegurança entre funcionários, acompanhada de rumores a respeito de uma disputa de poder entre o vice presidente, José Urbano Duarte, responsável pelos principais programas da Caixa, o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida, e o presidente, Jorge Hereda.  Conforme Antônio Abdan Teixeira, funcionário da Caixa e dirigente do Sindicato dos Bancários, o episódio “mostrou no mínimo uma falta de sintonia.” 

A pergunta principal do episódio consiste em saber se houve manipulação de uma falha técnica – feita por quem e a serviço de quem. O governo está convencido de que é possível dividir o caso em duas partes: antes e depois das 13 horas do sábado 20 de maio. Na primeira metade, ocorreram saques de vulto, mas nem tão grandes assim. Chegaram a R$ 650 mil naquele dia, contra R$ 850 mil no mês anterior. Depois das 13 horas, teve início um salto vertiginoso nos saques, acima de qualquer movimentação razoável. Convencido de que apenas uma mobilização política pode explicar essa parte do problema, o governo determinou que a Polícia Federal fizesse uma apuração cuidadosa e profunda nos indícios e suspeitas que encontrou. Convencido de que é prudente evitar opiniões sem base e acusações sem prova, a Polícia foi avisada de que só será autorizada a falar quando todas as provas estiverem à mão. Até lá, a orientação é manter silêncio absoluto.  

Fotos: Ueslei Marcelino / Reuters e Givaldo Barbosa / Agência O Globo